O filósofo francês Michel de Montaigne (1533-92) é geralmente evocado
por todos aqueles que escrevem ou que elegem a escrita como forma de entender o
mundo e as pessoas. Foi ele quem, em seu “Ensaios” inaugurou uma certa
informalidade na escolha dos temas a serem tratados, dedicando-se a analisar o
cotidiano das pessoas e incluindo-se ao descrever suas experiências e
referir-se às próprias dúvidas, prazeres e inquietações. Manteve-se como uma
referencia também por seu estilo charmoso, elegante, inteligente e bem
humorado, além de ter caracterizado sua análise por uma postura tolerante em relação às ações
e sentimentos humanos comezinhos. Um verdadeiro precursor dos blogueiros do
século XXI já que, ao contrário da época em que viveu, hoje ninguém se
surpreende com relatos feitos na primeira pessoa em que se acentuam as cores do
íntimo e do psicológico. Nestes 500 séculos que nos separam desta época, o
lugar do privado e do publico sofreu transformações interessantes. No auge da
consolidação da era moderna, em pleno século XVIII a divisão nítida entre estes
dois espaços era condição sine qua non. Na esfera pública, os indivíduos eram
cidadãos, submetidos a leis e normas impostas pelo Estado, enquanto na esfera
privada eram pessoas prontas a defender seus interesses individuais. A família,
o trabalho e os negócios eram espaços privados, e a política e o Estado,
públicos. A tensão permanente entre o público e o privado foi se intensificando
à medida que as sociedades se tornaram mais complexas. Dentre as múltiplas
variáveis, certamente a mídia e a literatura contribuíram para que o espaço
privado ampliasse seus tentáculos e invadisse o publico. Hoje quase todos os
que escrevem o fazem traduzindo a realidade segundo seus pontos de vista, mesmo
quando pretendem uma compilação de fatos passados, já que as narrativas
de muitos historiadores levam seus leitores ao seu “imaginado” passado. Também
nos parece natural ler um texto em que seu autor é um tradutor de si mesmo,
capaz de transformar seu universo intimo e subjetivo em um mundo que faça
sentido e gere interesse aos seus leitores. Um colunista, que como eu, tem como
tarefa, a cada semana, escolher – entre as inúmeras opções que nossa vida
contemporânea oferece- um tema que possa ser minimamente interessante, poderia
se sentir “esgotado”, enfastiado, perdido e outros tantos adjetivos aflitivos. Mas
se ele se mantém escrevendo ao longo dos anos, é provável que o exercício da
escrita lhe seja não só prazeroso, mas importante. Em geral, aqueles que
escrevem por prazer, são os que estão sempre conferindo/perscrutando a vida, o
mundo, as pessoas, os lugares, as tramas, os desassossegos, as alegrias, em um
interminável questionamento das razões de se viver. E é quase certo que os
temas elegidos lhe sejam caros, o que faz com que o texto adquira um tônus
vital e encarnado, que contenha algumas respostas para as suas infinitas
perguntas.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Sem-noção
Adjetivo praticamente instituído nos tempos de hoje,
o “sem-noção” ganhou um lugar comum nas conversas cotidianas quando queremos
nos referir a alguém que adota comportamentos, vestimentas, diálogos ou modos
de vida que causem muito estranhamento por nos parecer excessivo, descabido ou
desrespeitoso. Isso pode se aplicar a questões morais, mas também ao
exibicionismo ou a certa intransigência, autoritarismo e/ou violência nas
relações pessoais. É assim que no convívio, estas pessoas ganham uma identidade,
são sem- noção, e passam a ser consenso entre os que o conhecem a tal ponto que
basta utilizar tal adjetivo para que o diálogo sobre o fulano passe a ganhar um
novo entendimento. É como se todos que participassem daquela conversa- em que o
sem-noção não está presente – soubessem que ele tem limitações importantes e definitivas
sempre que está em jogo o convívio, as trocas, os salamaleques, as delicadezas,
etc. A classificação acalma e apazigua as inflamações e indignações sobre ele.
Mas porque este tipo parece proliferar? Quem é o “sem noção”? Um disfuncional? Arrogante?
Maldoso? Autoritário? Foi a partir de um questionamento feito por alguns amigos
próximos quanto à maior incidência de “sem-noções” que o tema ganhou discussão acalorada
em uma roda de conversas. Foram lembrados alguns personagens que ao
conquistarem uma posição social mais alta, passam a acumular objetos que lhe
emprestam visibilidade e prestigio, e a praticar nos espaços públicos, ou um exibicionismo
ruidoso com publicações em redes sociais de fotos que comprovem sua vida de
celebridade ou certo autoritarismo, exibindo sem qualquer constrangimento uma
discriminação em relação aos comuns. Seu carro pode parar em locais não
permitidos, por exemplo, em fila dupla ou com o pisca ligado enfrente a bancos,
escolas, farmácias, etc., como se concedessem a si próprios privilégios vetados
aos outros mortais. Mas também foi destacada certa falta geral de etiquetas e
limites fundamentais para espaços compartilhados. A impaciência que muitas
vezes desemboca em comportamentos ou falas violentas e que vem sendo cada vez
mais comuns no trânsito chega a assustar. São buzinas e gritarias para qualquer
cidadão que estiver obstruindo o caminho. E assim, outras situações foram
elencadas, desde atender o celular em qualquer lugar ou hora e falar por tempo
indeterminado sem diminuir o tom de voz até sentir-se à vontade para tecer
comentários sobre qualquer assunto, com pessoas que não são íntimas, sem que
estas tivessem feito algum convite. Ao final, permanece a impressão de que
estamos diante de pessoas que não construíram internamente uma percepção de si
e dos outros que lhes possibilitasse gestar
sua convivência pública. Alguns argumentos se impuseram. O “sem-noção” seria um
personagem tupiniquim? Ele incide mais em certos países em desenvolvimento tal
como o nosso, que não têm um histórico civilizatório importante? Diante da
demanda do mundo contemporâneo para que cada um gerencie sua própria vida, quem
se ocupa de oferecer subsídios para que sejam preservadas algumas regras
mínimas de convivência desde que a família de origem perdeu seu espaço antes
único de doador destas referências? Sabemos que na atualidade, ao ser convidado
a se tornar visível para confirmar sua existência no mundo, cada individuo faz
uma leitura pessoal deste percurso, segundo seus critérios ou possibilidades.
Ainda que a maior parte da população mundial nunca tenha desfrutado de tamanha
liberdade de escolha para suas vidas, o que parece se impor ao convívio humano
é que deve caber a cada um o trabalho psíquico de construção de um lugar de “
ser gente”. De fato, em pequenas ou grandes proporções todos podemos ser “sem-noção”.
Tornar-se alguém benquisto, amável e educado exige uma métrica de autocrítica
que não faz parte da genética de ninguém, ao contrário, precisa ser exaustiva e
ativamente construída ao longo da vida, o que transforma tal lugar em um posto
a ser conquistado, que tem seus custos sempre atualizados.
Concessões
Por ocasião do cinquentenário do assassinato de John
Kennedy inúmeros textos foram produzidos, cada um contendo análises próprias, fossem
sobre sua vida, amores, ideias, sonhos, fracassos ou sobre o conturbado período
em que governou o país que no último século manteve uma soberania econômica,
tecnológica e militar sobre os demais. Canais de TV também exibiram reportagens
e documentários com destaques ao casal Jackie e John e repetiram à exaustão a
cena dramática do assassinato em Dallas no fatídico 22 de novembro de 1963. Não
pude deixar de me lembrar desta data, de nossa TV (ainda em branco e preto)
ligada e de meus pais consternados com a notícia. Era uma sexta-feira, um dia
de semana comum de trabalho e escola, mas na pacata cidade interiorana em que
eu vivia era visível o impacto que a notícia causava aos adultos que eu
conhecia. Naquele dia, a televisão da maioria das casas ficou ligada o dia
todo, a espera de novas notícias que pudessem contribuir com explicações sobre aquele
episodio inesperado. De todo o modo, graças àquela morte e às imagens que se
seguiram mostrando o belo casal, minhas lembranças adquiriram tonalidades
românticas. Jackie Kennedy, até então desconhecida, passou a ser íntima. Suas
aparições em fotos de revistas ou cenas na TV despertavam o interesse de todas
as mulheres, prontas a conferir sua elegância e seu visual impecável, porta-voz
que era dos estilistas mais badalados da época. As imagens de John divulgadas
pela mídia privilegiavam seu convívio familiar ou seus discursos, sempre
acompanhados de muito público. Sua morte ajudava a perpetuar um imaginário
sentimental ao qual muitos desejavam preservar, principalmente os americanos,
que se orgulhavam das cenas de sua “realeza”. Passados cinquenta anos, no
entanto, a aura romântica que tanto protegeu o casal Kennedy alterou-se tal e
qual as antigas fotos que perdem sua nitidez com o tempo. As gerações atuais,
sem muitos compromissos com as nostálgicas lembranças deste reinado, não poupam
JFK de seu lado B. Jornalistas e cientistas políticos analisam criticamente a
era Kennedy separando o joio do trigo em uma demonstração cabal de que o texto
de uma vida admite múltiplas versões. Ficamos sabendo que a conquista de seu
cargo de presidente, por exemplo, acontece graças à morte de seu irmão mais
velho (e mais inteligente) durante a segunda guerra mundial, aquele que o pai
havia designado desde sempre para tal posto. Ao contrário de Joe Jr., John
teria tido uma vida acadêmica medíocre o que refletia no seu despreparo para
com a complexa gestão do poder e da política do USA, apesar de seu carisma.
Além disso, reportagens, depoimentos e livros mapearam a impressionante coleção
de namoradas e amantes do presidente, que em tempos de mídia instantânea e redes sociais
não teria sobrevivido politicamente aos escândalos. E se a historia de sua vida
admite reinterpretações, sua morte o imortalizou em diferentes papéis, desde o conquistador
e presidente jovial, até o herói americano e símbolo de uma época. Mesmo a
porcentagem de americanos ultraconservadores - aos quais muitos atribuem sua
morte - que o viam como um político non grato, democrata, católico, socialista
e antiamericano, fizeram as pazes com seu passado de ódio após o impacto de seu
assassinato, contribuindo para a manutenção das muitas teorias conspiratórias envolvendo
a máfia, a CIA, os cubanos, etc. E ainda que hoje seja possível analisar o
abuso de poder e de privilégios que Kennedy exibia sem constrangimentos, ele
foi responsável por medidas importantes como o Ato dos Direitos Civis, que
acabaria com todas as formas de segregação racial ainda existentes no país. De
toda a forma, John F. Kennedy, democrata e primeiro presidente católico em um
país majoritariamente protestante desfrutou, enquanto viveu e depois que morreu,
destas concessões que fazemos a alguns, quando os elegemos portadores de partes
ideais de nós mesmos. Especiais.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Duas vezes mãe
Poucos anos atrás uma amiga querida telefonou-me
para contar emocionada que sua filha mais velha estava grávida. Uma mistura de
sentimentos a invadia e ela ansiava por uma conversa longa na expectativa de
que alguma organização deste tumulto pudesse acalma-la. Aceitei prontamente o
desafio, antecipando certo prazer nesta troca que, a meu ver, poderia se tornar
fecunda para ambas. Estava longe de imaginar como a gestação de sua condição de
avó seria construída passo por passo com idas e vindas em um misto de aflição e
prazer, mas principalmente em um reviver nada tranquilo de sua própria
gravidez. Muitas estórias depois, começou a despontar o espaço novo em que a
futura neta iria habitar. Que avó ela queria ser para aquela menininha? Que
valores ou afetos ela haveria de privilegiar na tarefa de transmissão a que ela
estava se propondo? Mais uma rodada de lembranças foi acionada na tentativa de
situar sua mãe, falecida já há algum tempo, naquela condição de avó. Alguém que
felizmente havia estado muito presente e teria contribuído bastante para que os
primeiros cuidados com sua bebê - que agora gestava sua netinha - pudessem
parecer-lhe menos assustadores. Foram nove meses intensos em que pude
compartilhar com minha amiga uma mudança de peso na sua vida, primeiro na
interior, e depois na cuidadosa disposição do tempo para os afazeres de sua
rotina, abrindo espaços que seriam preenchidos por seu convívio com Alice, a
netinha. O zelo e a responsabilidade com que ela tratara seu novo status me tocaram.
Sem nunca se questionar, ela havia “trabalhado” de forma incansável, tentando
não se esquecer de nenhuma letra do alfabeto. Tanto empenho me levava a
refletir sobre as características de “tonar-se avó” e como esta função estaria
diferente nos tempos de hoje. Não é difícil detectar um lugar comum que habita
o imaginário de ser avó e classifica esta condição como algo “finalmente”
prazeroso, já que ao contrário da maternidade com suas responsabilidades
extremas, as avós podem deitar e rolar com seus netinhos sem se preocupar com
as obrigações educacionais e seus limites, em geral cansativos por demandarem
exaustivas intervenções. É possível que a figura da avó complacente das
famílias de gerações mais antigas cumprisse mais este papel de assegurar um
pouquinho de liberdade ilimitada- aqui
você é rei/ rainha- para fazer um contraponto diante das inúmeras obrigações
que os pais precisavam impor aos pimpolhos. Por outro lado o “tornar-se mãe ou
pai” atualmente está longe daqueles tempos em que tal função era praticamente
naturalizada, ou seja, de pai para filho, de mãe para filha e assim
sucessivamente. Muitas e novas variáveis passaram a contar, desde as mudanças
nos papéis da mulher, que pode fazer inúmeras opções em sua vida, inclusive a
de não se casar ou ter filhos, até na configuração das novas famílias, que em
muitos casos agregam filhos, pais e avós de outros relacionamentos. No caso das
avós, uma grande parte trabalha, tem vidas com agendas cheias e nem sempre
estão dispostas, como minha amiga, a abrirem uma picada nova na paisagem
construída durante anos. Mas é verdade que a relação entre os avós e seus netos
pode ser muito prazerosa. Sem muitos modelos prévios, no entanto, parece que
cada um pode construir sua condição de avô ou avó, incrementando-os com seus
desejos. A amiga citada acima planejou com cuidado sua nova função, tomando-a
como uma passagem a qual ela deveria e queria se preparar. Outra, cujo humor
fino a caracteriza, avó de três netos, em resposta a minha pergunta sobre como
tinha sido para ela “tornar-se avó” respondeu prontamente: há um antes e um
depois. Em seu rosto nenhum sinal de que a frase pudesse habitar somente um dos
lados entre o prazer e o fardo.
Liberdade, igualdade, fraternidade?
Há pouco mais de 200 anos, a França era palco de uma
das revoluções mais importantes, marco da era moderna. Ali, o povo se rebelava
contra a tradição e a hierarquia de monarcas e aristocratas, além da então
corrupta e poderosa Igreja Católica. Claro que a realeza, tomada de susto, se
organizou e durante algumas décadas lutou para restaurar a monarquia, o que
veio a acontecer com a era Bonaparte, mas estava cravado na história do
ocidente e no coração das pessoas, a esperança de um mundo em que fosse
possível a soberania do povo, o exercício da autoridade regido por leis
promulgadas por assembleias eleitas, a supressão de privilégios antes
instituídos, etc. As grandes guerras mundiais justificavam-se pela busca deste
mundo mais justo. No ultimo século, as ideias em torno desta “esperança”
movimentaram-se bastante. Se conquistamos direitos antes inimagináveis, graças
a todos os que militaram incansavelmente por isso, se elegemos a democracia
como um modo de convivência que mais se aproximava de um quantum igualitário de
liberdade, aquela “esperança” parece que foi aos poucos se deslocando. Ao invés
dela, hoje se busca mais a confiança. A maioria dos países que em tempos
passados viveram sob a égide de algum regime totalitário tenta encontrar um
eixo democrático e sustentar os direitos de seus cidadãos. O Brasil é um deles.
No entanto, o que se percebe, é que na época atual a cultura de cada país, ou
seja, como a rede de relações se estabelece se rompe ou se articula entre as
várias camadas sociais e políticas assume um lugar de muita importância na
estética democrática. Nossa famosa cordialidade, por exemplo, esconde uma rede
de relações privadas que comanda a cena pública do país e reivindica eternamente
ou um amparo ou uma brecha da lei para manter seus privilégios. Como nunca
tivemos um Estado que bancasse o desmame, à medida que se amplia o acesso de
classes menos favorecidas para repartir o bolo, aumenta-se o número de pessoas
que perseguem um lugar especial, ao sol, conquistado graças aos conchavos
decididos às escuras ou nos cochichos. Ao que parece este cenário de bastidores
se mantém a revelia dos partidos a esquerda ou a direita que assumem o comando
da proa. Assim, os “direitos” se tornam privados e cada um reivindica à sua
maneira, seus interesses particulares. Se o mundo se divide entre malandros e
otários, ninguém quer ser o segundo. Não temos uma bagagem de compartilhamento
do que é público e, portanto do que pertence a todos da mesma maneira. Ao invés
disso, reclamamos de tudo e todos sempre, vítimas que seríamos deste Estado
injusto, que não responde à altura da fome de cada um. Nas
últimas semanas, canais de televisões mexicanas veicularam um comercial que “bombou”
nas redes e gerou polêmica. Com atores infantis vestidos de adultos e vivendo o
cotidiano destes adultos, um estranhamento vai tomando conta de quem assiste,
como se, a despeito de todas as reverencias que se faz à infância e ao seu
lugar de privilegio na confecção do futuro do mundo, quando nos tornamos
adultos, entramos na roda viva que circula em torno dos interesses mais básicos
e primitivos: muito dinheiro, sombra ou sol (a depender do gosto) e agua
fresca. A noção do que é político, que é o dever de cada um em gestar qualquer
dimensão do que pertence a todos por igual, fica nos livros deixados nas
gavetas ou nos ideais esquecidos da juventude. O vídeo termina com uma criança
repetindo que se este é o futuro que a espera, não, não, ela não o quer. Como
se antes mesmo de se tornar um jovem capaz de sonhar e apostar em algum mundo
melhor, um trabalho de cada geração, estas crianças estivessem alertando-nos
para que não descuidemos do cimento de qualquer porvir: a confiança.
domingo, 13 de outubro de 2013
Governantes e governados
Na Ilustríssima de 4 de agosto de 2013 é possível ler
a resenha de um livro escrito pelo jornalista Mark Leibovich
- correspondente
da revista semanal do "New York Times"- lançado no
USA para “causar”, principalmente entre aqueles (incluídos aí seus próprios
colegas de profissão) que gravitam na “corte” (Washington D.C.), independente
de quem habite a Casa Branca. Com o sugestivo título “Esta cidade – duas festas
e um funeral” o livro é uma radiografia dos bastidores das relações promíscuas
entre políticos, lobistas e jornalistas, sem deixar de mencionar a passagem de alguns
de uma para outra destas funções, assim que se veem mordidos pela possibilidade
de “venderem” informações ou representar anseios de grandes corporações que
possam gerar investimentos, ganhos extras e/ou privilégios. Ficamos sabendo
p.e., que atualmente 50% dos
ex-senadores e 42% dos ex-deputados americanos tornam-se lobistas. O
lobby, como se sabe, tem sido uma prática comum em alguns estados democráticos de
buscar acesso aos políticos para que estes saibam das demandas de determinados
segmentos da sociedade, usando pessoas (lobistas) e seus canais de contato
junto aos órgãos de governo. Mas de uma participação que poderia ser saudável no
processo de negociação política transformou-se em uma extrapolação da persuasão,
sempre em favor de interesses particulares. Da “influencia” para o assédio
ostensivo e à corrupção, um pulo. Mas para além destas distorções que também para
nós brasileiros não se constituem novidades, o livro escancara um mundo à
parte, em que a Lei pode e deve ser esquecida e todos são convidados a se
despirem de seus idealismos, crenças e valores éticos para desfrutar sem culpa
de um mundo de privilégios. Cria-se assim uma espécie de Olimpo em que todos se
corrompem sem constrangimentos, ao priorizar apenas seus interesses de poder,
prestígio e dinheiro. No final da resenha seu autor descreve uma situação imaginária
em que o jornalista/escritor levaria uma surra de algum de seus mencionados, por
ousar “trair” este mundinho à parte, cujas festas e jantares ele mesmo teria
participado. Duas imagens me vieram à mente. Na leva de textos escritos
pós-passeatas de junho, em algum deles o eterno PMDB foi descrito com este tipo
de funcionamento à parte. Dirigido por um grupo oligárquico de indivíduos que
se consideram donos e permanecem na liderança por décadas, eles não só
controlam as finanças, as alianças e os candidatos, como se colocam estrategicamente
alinhados ao governo, seja este de que partido for, mantendo assim uma espécie
de blindagem que lhes permite barganhar desde cargos privilegiados até votações
importantes. Sem programas, tudo gira em torno dos interesses de seus
dirigentes. Sem um comprometimento ético, favorecem a legislação em causa
própria. Tal como uma “corte” o partido mantém seus “aristocratas” insaciáveis
por honrarias e benefícios que se regozijam em perpetuar a separação entre os
que têm poder e os comuns. É nesta lógica, ou melhor, nesta rede deturpada que
se produz uma cena intrigante. Uma notícia recente na mídia divulgava que a
Rússia finalmente teria concedido um asilo temporário ao técnico de informática
Edward Snowden - responsável por revelar o esquema de espionagem de telefones e
internet feita pelos Estados Unidos- após este ter permanecido mais de um mês
no aeroporto de Sheremetyevo em Moscou. O fato dos Estados Unidos ter pedido sua
extradição por roubo de dados sigilosos e espionagem bastou para que nenhum
país se dispusesse a acolhê-lo. Semanas atrás ele teria feito a seguinte
declaração à imprensa internacional: “Há um mês, eu tinha uma família, uma casa
no paraíso. Também tinha a capacidade de, sem nenhuma permissão, vasculhar, ler
e apreender suas comunicações. A comunicação de qualquer um, a qualquer hora.
Esse é o poder de mudar o destino das pessoas”. Na era do máximo de liberdade,
é bom que se lembre.
O tempo de Alice
Mais rápido, mais rápido, mais rápido – o título de
uma reportagem do dia 23 de agosto de 2013 no Valor Econômico,
trouxe-me à lembrança o Sr. Coelho, famoso personagem do livro “Alice no
país das maravilhas”, que aparece exibindo seu relógio e dizendo “Estou
atrasado, estou atrasado, estou atrasado”. É ele que passa apressado e atrasado,
instigando Alice a segui-lo, o que faz com que ela inicie a jornada que a
levará a um outro tempo. Mas que tempo? No texto do Valor Econômico , o
sociólogo alemão Hartmut Rosa afirma que vivemos na atualidade uma doença do tempo em que paradoxalmente o
excesso de atividades anulou os ganhos que a tecnologia traria ao tempo de cada
um, o que estaria produzindo estresse, ansiedade e insônia. Ficamos sabendo que
por milênios, as civilizações não se importavam em medir o tempo o tempo todo,
mas entre os séculos XVIII e XIX, as máquinas e fábricas, os trens e cabos telegráficos
lançaram um ritmo de vida com relógios, horários e pressa. Ainda que na época
tais mudanças embutissem a promessa de uma era de razão em que a felicidade, a
prosperidade e a liberdade deveriam ser para todos, quanto mais a tecnologia
economizava tempo, mais ocupados fomos ficando. Claro que a partir dos anos 70 a
revolução dos computadores elevou isso a uma potencia máxima, afetando nossa
percepção do tempo. Um estudo aponta que hoje, para um jovem de 22 anos, a
percepção do tempo é 8% mais rápida do que para alguém da mesma idade um século
atrás. A
Alice de Lewis Carroll despertou ao longo de sua existência várias reflexões em
que diferentes dimensões do tempo poderiam ser ressaltadas. Por exemplo, à
época em que foi escrita, no final do século XVIII, quando os livros infantis pretendiam
moralizar as vidas dos pequenos, Carroll ousou ridicularizar tais bons
comportamentos ao descrever um imaginário infantil que construía “teorias
próprias” para entender as esquisitices do pensamento e do comportamento dos
adultos. Se naquele contexto a historia funcionava como uma crítica ao seu
tempo (época) é verdade que a obra transcendeu o autor, permanecendo atual ao
possibilitar outras leituras. Em 2010, por exemplo, foi a vez de o
personalíssimo diretor Tim Burton lançar sua versão de Alice. O filme começa
com a jovem no casamento de sua irmã, às voltas com o seu mal estar diante do que
havia sonhado para si e o que era acenado como o futuro esperado (e cometido)
pelos adultos que a rodeavam. Suas irmãs gêmeas nadavam escondidas da mãe no
lago, aquela que se casava não lhe escondia sua vida sexual secreta, a tia
solteira tinha certeza que a qualquer momento e lugar encontraria seu príncipe
e para sua mãe não havia chances de Alice recusar ali o pedido de casamento feito
por um eterno admirador, que ela não admirava nenhum pouco. Socorro! Ela
precisava de um “tempo”. Assim se inicia a historia da busca de Alice –
atrasada, apressada- para encontrar (entender quem é, o que quer, como quer,
etc) um sentido para sua vida. Um outro tempo, subjetivo, em que ela deverá
mergulhar em sua historia para resgatar ou construir seu desejo e seus ideais, encontrar
alguma coragem para explicar suas escolhas e enfrentar o ônus desta
responsabilidade. Um tempo para a realidade interna que pode vir a modificar a
percepção do tempo da realidade externa.
A humanidade do mal
No dia 04 de julho de 2013 o programa Milênio do
canal Globo News exibiu uma entrevista com o autor do livro “O Leitor” - o
jurista e escritor Bernhard Schlink - em
que este declarava que ser alemão tinha um peso à parte, referindo-se ao fato
de seu país ter que conviver com um dos maiores crimes cometidos contra a
humanidade durante a segunda guerra mundial. Uma carga especial, uma culpa
específica, da qual ninguém poderia escapar. Mas também revelava que, embora as
novas gerações soubessem dessa dívida, o que era muito bom, a sensação de culpa
tendia a diminuir, mas a responsabilidade não poderia jamais. O livro foi
escrito nos anos 90 sobre os anos 50, 60 quando na Alemanha ainda aconteciam
julgamentos de alemães que haviam servido o regime nazista. Em 2008 o livro
ganhou versão para o cinema, com direito ao Oscar de melhor atriz para Kate
Winslet. Muito bonito, o filme conta a história de Michael Berg, um garoto de
15 anos que conhece casualmente Hanna Schmitz, uns 20 anos mais velha, por quem
se apaixona e com quem vive intensamente suas primeiras experiências sexuais.
Sem revelar muito sobre si, Hanna, que não sabe ler e sente muita vergonha disso,
vive momentos de felicidade com o ritual das leituras dos clássicos de
literatura que o rapaz faz em seus encontros eróticos. Mas de forma misteriosa
desaparece sem deixar vestígios. Anos mais tarde, já como estudante de direito,
ao comparecer com seu professor e colegas para assistir a um julgamento de
criminosos do regime nazista, Michael reconhece Hanna no banco dos réus. Para
uma Alemanha pós-guerra, está ali contemplado muitos dos conflitos vividos pelas
gerações mais novas que questionavam incessantemente os pais/familiares pela
colaboração ou omissão diante das atrocidades cometidas pelo Terceiro Reich.
Lembrei-me desta Hanna ao assistir recentemente o filme sobre outra, a filósofa
judia "Hannah Arendt", em que se relata sua decisão de presenciar o
julgamento de Adolf Eichmann em Israel, em1960 (um dos últimos líderes nazistas
vivos então), com o compromisso de escrever cinco artigos para a revista New
Yorker, que viriam a dar origem ao livro "Eichmann em Jerusalém – um
relato sobre a banalidade do mal". Aproveitando algumas imagens reais
deste julgamento o filme privilegia as expressões /reflexões da surpresa de
Hannah diante de um Eichman que para ela teria praticado uma "normalidade
burocrática", por ser incapaz de pensar/avaliar o mal de suas ações. São
estes os sentimentos - ambivalentes, duros, difíceis- que o estudante de
direito Michael vive no julgamento de “sua” Hanna. Imaginando poder ganhar mais
como funcionária nazista, ela teria aceitado a troca oferecida para sair da
Siemens, onde trabalhava. Seu sonho? Aprender a ler e a escrever. Ao ser
questionada pelo júri sobre seus atos durante este período, demonstra não
perceber a implicação das ordens a que se submetera como guarda de prisioneiros
judeus, todos mortos. Seu pecado? Escolhia algumas mulheres que pudessem ler
livros para ela. Suas colegas, todas rés e sob as mesmas acusações se
aproveitam de seu alheamento, deixando para ela o fardo da culpa de todas. Uma
cumpridora de regras, diria Hannah Arendt. Perplexo e paralisado, Michael
assiste ao julgamento em meio às lembranças de “daquela” Hanna, a sua. Tenso, não
pode revelar este passado singelo e “vergonhoso” aos pares, mas “sabe” que
precisa abater da culpa de Hanna, sua alienação. A banalidade do mal seria essa “desistência”
ou impossibilidade de pensar sobre o que se é e, portanto preferir ou deixar-se
colonizar pelo desejo de um outro. Esta seria a matriz do alheamento em relação
a si e paradoxalmente da crueldade para com o próximo. Para muitos, uma forma
de se proteger do “inferno”, ou melhor, dos custos de se viver.
Para conferir:
Somos tão jovens
Dias atrás, uma notícia na mídia que divulgava a
nova orientação para psicólogos americanos sobre a extensão da adolescência até
os 25 anos, ao invés dos 18 anos, abria um debate sobre a infantilização dos
jovens, levando em conta especialmente o alongamento do período de sua
permanência na casa dos pais. Não é dificil confirmar estes dados
estatisticamente e é provavel que a tal mudança de diretriz estivesse
« atualizando », ou melhor, ajustando as políticas públicas para
garantir por um período maior uma assistencia diferenciada aos jovens no campo
educacional, social, médico e jurídico. Como sempre acontece, as leis precisam
contemplar as mudanças da cultura, que nas últimas décadas alteraram e muito o
vetor de nossas crenças e parâmetros. Mas imaginar que os jovens já não aspirem
mais tornar-se independentes pode ser uma ideia reducionista quando analisamos
quão « jovem » é a estética do mundo contemporâneo. Se os oráculos de
Delfos significavam para os gregos antigos um recurso (sagrado) para a obtenção
de respostas sobre problemas cotidianos, questões de guerra, vida sentimental,
previsões de tempo, etc, hoje para decifrar o futuro a mídia fareja as novidades
sem fim que surgem do mundo jovem. A máxima de que o que importa para os jovens
é o presente estendeu-se para todos. O mundo atual nos convida a viver o mais que
pudermos, a desfrutar de tudo o que conseguirmos, a buscar prazer no que fazemos, a sermos feliz, etc. Seguindo
esta lógica, desde o instante em que nascem desejamos que nossos filhos sejam
lindos, inteligentes, carismáticos, felizes, competentes, amados, magros. E o
que querem os jovens hoje? Entre outras coisas buscam aflitos uma maneira de
cumprir tantos ideais. Se as gerações anteriores precisavam ralar para se
safarem dos valores preestabelecidos e cultuados pelos pais e sociedade,
rasgando os protocolos e rompendo com os constrangimentos sociais, a geração de
jovens hoje precisa encarar o fato de que o futuro está em aberto e tudo pode
ser possível. Paradoxalmente isso tem sido motivo de muito desamparo e aflição
(pânicos, depressões, drogas), já que para se tornar “gente” é preciso
construir um “eu” que dê conta do recado, ou melhor, dos inúmeros recados: seja
do mundo interno, sempre tumultuado com suas paixões, dores, medos e
desencantos, um mundo que jamais é silencioso ou isento e quando isso acontece
convém desconfiar ser uma tentativa (muitas vezes sintomática) de controlar e/ou
se proteger do tumulto ; seja do mundo sociocultural com suas inúmeras
demandas de competencia, que exige ainda um saber se colocar diante dos outros
e a construção de um lugar para si que possa ser reconhecido tanto no plano
profissional quanto no amoroso. Difícil encarar a vida sem se anestesiar ou
enlouquecer. Se admitirmos que a família já não tem o mesmo peso na definição
dos destinos (o plural é importante ) dos jovens, ao mesmo tempo em que isso
pode abrir portas inusitadas e importantes, também pode paralisar e engessar.
Muitos jovens se sentem insuficientemente preparados para um futuro que depende
tanto deles para ser construído. Se tal afirmação pode explicar em parte o
aumento desta “gestação” do jovem antes de se “jogar” no mundo em busca de um
futuro, é verdade que nós, pais, também vivemos nossas incertezas e ficamos muitas
vezes entre a constatação (e a frustração) de que nossos pimpolhos não estão preparados e
a agonia diante do que fazer para ajuda-los/incentiva-los a decolar. A boa
notícia é que a grande maioria dos jovens faz uso de uma nova prerrogativa ao
construir redes de amizades que podem funcionar como suplência interessante
para o debate de suas questões
As teclas pretas das teclas brancas
Em minha família,
pianos abertos, prontos para serem tocados por quem quisesse era (e ainda é)
uma cena comum. Tínhamos um em nossa casa, em cada uma das casas de nossos avós
e de muitas de nossas tias. Quando éramos pequenos, minha mãe, que havia se
formado no Conservatório Dramático e Musical de Araraquara, costumava tocar as
músicas de um maravilhoso álbum de Chopin lançado por ocasião do filme sobre
sua vida - À noite sonhamos (1945)- com a seleção da trilha sonora. Por conter
muitas fotos de cenas do filme, adorávamos folheá-lo, e embora tivéssemos
nossas preferencias – Noturno n 2, o Estudo Revolucionário ou o Estudo das
teclas pretas, por exemplo - era impossível decifrar aquelas bolinhas pretas,
cheias, vazias, com hastes, junto com muitas ou separadas que seguiam por
espaços de linhas pelo álbum todo. Não me lembro de quem me ensinou a tocar o
“bife”, uma espécie de introdução ao teclado de um piano, mas lembro-me bem de
meu orgulho quando me punha a toca-lo sempre que tivesse alguma plateia.
Sentia-me muito sabida por poder arrancar um som agradável e conhecido daquelas
teclas brancas, mas principalmente das pretas. Parecia natural, portanto que
aos cinco anos eu começasse a ter aulas de piano com Dona Eda, uma jovem mulher
muito alta, que morava com sua irmã e sua mãe bem enfrente ao comércio de meu
pai. Não conheci nenhuma professora tão doce e tão preparada para ensinar
crianças pequenas a ler aqueles hieróglifos musicais e sei hoje que devo à sua
imensa paciência o fato de eu ter me formado em piano. Como naquela época eram
necessários 9 anos de estudos para se obter o diploma, depois de alguns anos
tive que me despedir de minhas aulas particulares com Dona Eda para ingressar
no Conservatório Musical da cidade. Um marco que sublinhava minha passagem à
pré-adolescência com novos e mais difíceis destinos. Deixava para trás com
muita dor na alma, não apenas minha querida professora, mas alguém especial,
que sabia exercer com maestria a difícil tarefa/arte de ensinar, em uma
combinação de delicadeza, reconhecimento pontual de minhas aquisições e muito
jogo de cintura para com a pesada disciplina exigida para este aprendizado. Uma
de suas estratégias era colocar balas deliciosas encima das mãos enquanto eu
tocava e se eu conseguisse não derruba-las poderia levar para casa em dobro. Nem
tudo eram flores. Muitas vezes “emburrei” nos degraus da varanda exigindo que
ela, no devido tempo, fosse me convencer a voltar e tentar novamente. Assim
como a máxima que diz que governo bom é governo invisível,
que não nos impõe sua presença, Dona Eda trabalhava nos bastidores. Tudo o que
me lembro dela passa por este canal amoroso de sua aptidão para transmitir seu
conhecimento sem fazer alarde. Uma das questões que mais se debate nos dias de
hoje é como e quais valores deveriam ser transmitidos de geração a geração, que
possam servir de ferramentas para uma vida “bem vivida”, um convívio entre
pessoas minimamente respeitoso. É
natural que muitos se lembrem de como a educação tradicional privilegiava a
transmissão de comportamentos virtuosos geralmente baseados em alguns ideais já
estabelecidos e coletivamente cultuados. Mas as rupturas com estes ideais foram
de tal ordem que temos dificuldades para dimensionar a nova realidade que nos
circunda e entender seus múltiplos aspectos. Desconfiamos que ficou muito mais
complexa a tarefa da transmissão entre gerações e que não será o contato com os
objetos ou ferramentas que farão crianças melhores, mais inteligentes ou
felizes, mas como estes objetos/ferramentas serão mediados por adultos capazes de fornecer
significados e ajustes importantes ao que ainda não sabem. Em qualquer piano
aberto pode-se dedilhar o bife. Alguns sabem toca-lo, ou a temas musicais de
seu gosto. Muitos não se atrevem. Outros tantos sabem TUDO de música e podem
tocar não só piano como qualquer instrumento. No inicio do aprendizado utilizamos
muito mais as teclas brancas e à medida que a harmonia aumenta em complexidade
é que as pretas passam a ser utilizadas. As teclas pretas são os meios tons
entre uma tecla branca e outra, ou seja, podemos inclui-las para aumentar as
opções de modulações do som ou tocar apenas as notas básicas que todos
conhecem. Não sei se eu teria continuado a estudar piano se não tivesse tido
meu pré-primário com Dona Eda. Foi ela quem me “revelou” não a música, mas a
beleza da música e me transformou em alguém apaixonada por ritmos, sons
especiais, inaugurando um espaço novo e importante no meu conjunto. Talvez a
tarefa desafiadora de qualquer adulto contemporâneo seja a de se preparar para ser
este decifrador para os pequenos, mas sabendo que é preciso começar pelas
teclas brancas para quem sabe chegar às pretas.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Em busca das origens
Por uma feliz coincidência, em visita ao Rio de
Janeiro no mês passado pude ver no Jardim Botânico a exposição Gênesis, com as majestosas
fotos do fotógrafo Sebastião Salgado, que agora aportam na cidade de São Paulo.
Nas palavras de Jô Soares que o recebeu em um programa todo dedicado a ele,
Salgado é um patrimônio cultural brasileiro, um fotógrafo mundialmente
conhecido e várias vezes premiado por seu trabalho sempre implicado com a
condição humana global. Mas quando explica este último trabalho – Gênesis - Salgado
lembra que apesar do nome remeter às origens, o projeto que durou 12 anos (quatro
de planejamento e oito fotografando em diversos países), fecha um ciclo e só
poderia ter acontecido após todos os anteriores, das guerras na
África, aos refugiados e ao seu trabalho intitulado Êxodos . Como alguém que
foi afetado, ele adverte ainda assombrado, quão importante seria cada um de
nós, habitantes deste planeta, cumprirmos com a nossa quota de cuidados para a
sua preservação. É interessante que ele faça uso de sua imagem para falar sobre
este tema tão debatido, mas ainda tão reservado aos militantes ecologicamente corretos,
chamando a atenção sobre o lugar de “natureza” que ocupamos no universo. Aos 69
anos, Salgado se proclama um privilegiado por ter podido visitar nestes últimos
anos lugares remotos do globo, muitos deles ainda desabitados ou de difícil
acesso e parece desejar tocar os espectadores ao revelar as maravilhas que
permanecem imunes à aceleração da vida moderna. Nas conversas com amigos que
também viram as fotos, alguns lembraram que Salgado havia passado por momentos
difíceis após seu trabalho de 2000, Êxodos, confrontado que foi com pilhas
imensas de pessoas mortas que o fizeram “morrer” em vida. Tal e qual os que
sobreviveram ao holocausto na segunda guerra mundial, mas ao custo de
“morrer" em vida, Salgado conta que não podia mais se imaginar investindo
em algum novo projeto fotográfico. Quando se vive a violência entre humanos representada
na sua mais pura brutalidade, fora de qualquer consideração ética, desaparece
de nosso horizonte a ideia de que somos especiais, diferentes, superiores. Talvez
por isso ele se refira ao novo projeto como aquele em que buscou fotografar
“outros animais” e outra natureza, ainda
não tocada pelos humanos, e só agora, depois desta jornada em que foi
apresentado a esta parte desconhecida do planeta, pode falar sobre ele. Se é
verdade que como animais “humanos”, estamos em permanente interrogação na busca
de algumas certezas que ora nos parecem tão próximas e óbvias, ora desaparecem
e transformam-se em novas perguntas, ficamos com a impressão de que Sebastião
Salgado reencontra um sentido para sua
vida.
Para conferir: Gênesis - Sebastião Salgado (Curadoria: Lélia Wanick Salgado)
Onde: Sesc Belenzinho São Paulo, até 1 de dezembro de 2013.
Quanto: Entrada franca
Um pouco do que somos no que seremos
Para conferir: Jobs ( USA 2013)
Elenco: Ashton Kutcher, Josh Gad, Annika Bertea
Direção: Joshua Michael Stern
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Mães, filhos e aflições
Uma jovem mãe contava a outras jovens mães sobre sua
agonia desde que havia se dado conta que suas duas filhas, com diferença de
apenas um ano, haviam entrado na pré-adolescência. Sem parâmetros, sentindo-se
perdida na difícil tarefa de discriminar o que consentir e o que proibir, o que
não dar importância e o que se preocupar, ela teria encontrado certo alento na
interlocução via Facebook com outros pais/mães de adolescentes. Havia
descoberto a página do Facebook intitulada “Mães e pais de adolescentes” destinada
a incentivar a troca de ideias e dicas sobre os filhos. Fui conferir. Simpática,
a tal página anuncia quem é o seu público e convida os pais/mães a conversarem
ali. Também descreve esta atordoante faixa etária ponderando sobre seu fascínio
num mundo em que crianças e adolescentes usam teclas e botões “como se
fossem extensões de seus dedos, falam a
mesma língua dos softwares e aprendem rápida e facilmente tudo o que lhes
desperta o interesse.” Mas pondera que esta facilidade de tudo saber
confunde-se as vezes com o tudo querer, o que tornaria difícil para os
adultos/pais manterem seu foco na árdua tarefa de educa-los. Democrática e
aberta, incentiva a todos a dar voz às suas aflições e/ou aos seus conselhos. A
jovem mãe que está contando às suas interlocutoras sua descoberta, no entanto,
não parece satisfeita. Há muitas perguntas sem respostas e ela continua aflita,
sentindo-se incompetente e perdida. Em sua coluna na Folha de SP do dia 20 de
agosto de 2013, sob o título “Depressão e autenticidade” Vladimir Safatle ,
baseado em uma recente pesquisa que diz que em cada cinco mulheres, uma passará
por depressão ao tornar-se mãe, convida a todos a refletir sobre o ônus que a experiência social de ser mãe
carrega na atualidade. Referindo-se ao fato de que hoje as mulheres já não têm
modelos únicos ou formais do “tornar-se mãe” como acontecia até algumas décadas
atrás, ele aborda o despreparo de todas diante do inevitável confronto com
bebês (filhos) que despertam sentimentos ambíguos e contraditórios. Longe de
fazer a apologia da tradição “de mãe para filha” em que os mitos e os rituais não
eram questionados e valiam para todos indiscriminadamente, e diante do atual arsenal
de especialistas que prescrevem caminhos a seguir, ele questiona o lugar dos
afetos que tendem a ser silenciados por todos – pais, parentes, especialistas.
Lembrei-me da história contada por minha faxineira sobre uma conhecida sua,
mocinha de 23 anos, que se casou com um rapaz um pouco mais velho, 33 anos,
descasado, que já tinha um filho de seu primeiro casamento. Apaixonada, sonhava
em ter um filho com ele como a consolidar a relação. Grávida de 8 meses viaja
para o Nordeste a fim de visitar seus familiares. Na volta, em visita a uma
cidade vizinha, o bebê rompe a bolsa e “decide” nascer. Sem conhecer ninguém
ela passa horas à espera de um atendimento no hospital. Como seu nenê não
acompanha o desenvolvimento esperado começa a leva-lo a médicos que indicam a
ressonância magnética para um diagnóstico mais apurado. Nas datas marcadas para
o exame, sem explicações plausíveis, falta sistematicamente. Morre de medo de
saber que não tinha conseguido gerar um filho perfeito. Paralisada e envergonhada,
não consegue ser a mãe que tinha imaginado, o que faz com que seu filho também
não possa “existir”. Quando finalmente comprova ser ele “normal”, pode enfim
olha-lo com amor e exibi-lo orgulhosa. É provável que a mãe das
pré-adolescentes sinta-se inundada/assaltada por seus fantasmas adolescentes,
incapaz de responder a si mesma sobre suas questões ainda tão confusas. Também
ela tenta silenciar seus ruídos e os que são provocados pelo confronto com esta
passagem das filhas.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
post scriptum
Uma
notícia curiosa veiculada na mídia digital anunciava um novo programa de
entrevistas – Retrovisor - comandado pelo jornalista Paulo Markun. Detalhe, os
entrevistados seriam personagens históricos brasileiros já mortos e por isso,
representados por atores. Gravados na Biblioteca Municipal Mario de Andrade de
São Paulo a plateia estaria convidada a participar das perguntas. Uma ideia
bastante original que de certa maneira realiza um sonho humano nada raro de
voltar ao passado e confrontar ideias, crenças e atos de pessoas que marcaram a
historia. A notícia me remeteu a uma recente entrevista concedida ao programa matinal
de Alexandre Machado na Radio Cultura FM, pelo autor da biografia de Getúlio
Vargas, o jornalista e escritor Lira Neto que há poucos dias lançou o segundo
volume de sua trilogia sobre este importante e polemico personagem brasileiro.
Na entrevista, ao ser questionado sobre o período em que Getúlio teria se
tornado um ditador, o biógrafo ressaltava o fato de que não há História sem
contexto, e sua fala não escondia sua admiração pela inteligência e sagacidade
do homem e do político cuja vida
pesquisa/vasculha há três anos. Outro jornalista, o espanhol Juan Arias,
que viveu grande parte de sua vida na Itália como correspondente do El Pais,
por ocasião da vinda do papa Francisco ao Brasil, teria concedido algumas
entrevistas sobre o longo período em que esteve respirando o clima do Vaticano,
particularmente nos papados de Paulo VI e de João Paulo II. Emocionado, lembrou
certas particularidades de um e outro, seus estilos, seu pensamento.
Considerado um estudioso de religião por ter frequentado cursos na Universidade
de Teologia e no Instituto Bíblico de Roma, defende a ala progressista da
igreja católica, mas avalia com otimismo a escolha do novo papa. Convidado a
fazer uma distinção entre informação, análise e opinião, Arias confessou ser esta
uma questão complicada. Para ele, um mesmo fato, uma mesma notícia ou uma
entrevista com algum personagem importante é perpassada pela ótica –e pela
sensibilidade - de quem realiza. É bom lembrar que estamos falando aqui de uma
mídia formal, de jornalistas de carreiras que se dedicaram a entender o mundo
que os cercava e não se furtaram a opinar sobre isso. A recente exposição do
coletivo Mídia Ninja, cujos representantes foram sabatinados no programa Roda
Viva da TV Cultura no dia 6 de agosto último, lançou um debate sobre o futuro
do jornalismo (e jornalistas) das grandes imprensas, ameaçados pela difusão de
uma nova maneira de se publicar noticias, aberta a todos, nas redes sociais. No
mesmo dia 6 de agosto uma notícia fazia tremer a capital federal americana ao
dar como certa a compra do tradicional jornal Washington Post pela Amazon.
Entre textos ácidos, nostálgicos e ponderados, todos tentavam espreitar o
porvir, o futuro pós-revolução digital. Do coletivo de jornalistas que se propõe
como alternativa ao "mainstream", um dos entrevistados e co-fundador da
Mídia Ninja, Bruno Torturra, lembrou que a opinião pública divulgada via rede,
tem narrativas múltiplas e é em geral uma salada ideológica. Mas chamou a
atenção para o que se assistiu durante
as manifestações de junho, em que a opinião publicada, que tem o monopólio
sobre o que é a opinião pública, sofreu o constrangimento de não divulgar o que
acontecia e teve que correr atrás para acompanhar as notícias/fotos/vídeos que
jorravam nas redes. A verdade é que isso que chamamos Informação quando
remetida aos fatos importantes já ocorridos ou às histórias que valem a pena serem
revistas sobre personagens já falecidos, nunca mais será a mesma, já que será
revisitada e seu contexto será analisado de acordo com as referencias do
momento atual. O mesmo vale para as informações /opiniões a respeito de novos e
inusitados acontecimentos e o que se delineia é que o mundo digital apenas
amplia as opções e com isso possibilita aos que querem saber, um leque mais
diversificado de opiniões. No mínimo um ponto a mais em direção à
idealizada/paparicada/ falada democracia Por outro lado, não há como negar que
novas cores se delineiam no céu das mídias. Resta saber quais serão.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Quem quer ser evangélico?
Nada mais “in” do que analisar a crescente
visibilidade e porcentagem de evangélicos no Brasil à luz da mobilização de
católicos em torno da visita do Papa Francisco I ao Rio de Janeiro. Foi mais ou
menos este o teor do texto publicado na Ilustríssima do dia 21 de julho de 2013 em que o
sociólogo da USP Reginaldo Prandi acompanha o deslocamento de uma população
antes majoritariamente católica para o que ele chama de pentecostalismo. Longe
de ser uma tarefa fácil já que são muitas as variáveis, algumas bastante
complexas! Dentre os temas, a constatação de que assim como a religião católica
empreendeu modificações em seus rituais muitas décadas passadas, a fim de se
adequar aos tempos modernos, as religiões evangélicas teriam feito uma
recauchutagem bem mais radical nas últimas duas décadas. De uma tônica que
preconizava a vida austera e simples, adotou-se a teologia da prosperidade, bem
ao gosto do mercado de consumo, deixando o “recato” para os temas sobre
sexualidade. Ao acenar com a possibilidade de realização de qualquer sonho de
consumo, este novo Deus incentiva uma população mais carente – e mais reticente
com o avanço
dos costumes e direitos - a confiar em um futuro promissor,
cheio de “objetos de desejo”. Mais que isso, abriga a todos que se sentem
excluídos/desamparados por razões morais, ao emprestar normas e restrições
claras às suas condutas para a vida sexual e amorosa. Por bairros e cidades
multiplicaram-se grandes salões em que pastores, seguindo um modelo carismático
(à Silvio Santos) de pregação, aumentam seus rebanhos espalhando tais
promessas. Do púlpito das igrejas ao dos congressos, apenas um passo. Foi assim
que assistimos perplexos, um pastor/deputado assumir a presidência de uma comissão
de Direitos Humanos da Câmera e sem qualquer constrangimento, tentar leiloar os
direitos recém-adquiridos de homossexuais ou impor uma legislação que os
“curasse” de seus desvios. Já da esperada, rápida e pontual
estadia do Papa em terras cariocas ecoaram textos e reportagens sobre as
mudanças que este novo papado pode produzir na Igreja Católica, sobre o “mundo
católico” e sua geografia, sobre os custos desta vinda para a cidade do Rio (que
chegou até a decretar dois dias de feriado), e sobre os jovens “religiosos”
brasileiros. A partir de uma pesquisa realizada em maio pela Data Popular em 100
cidades do país, ficamos sabendo, por exemplo, que 44,2% dos jovens entre 16 e
24 anos são católicos, 37,6% são protestantes/evangélicos, 6,7% são seguidores de
outras religiões e 11,5% não são religiosos.
Um dos desafios da vinda do Papa para a Jornada Mundial da Juventude seria a
conquista de uma fatia dos católicos afastados através de um upgrade em seu
modelo de evangelização. A pesquisa ainda problematiza o papel da religião para
os jovens, assim como sua opinião sobre temas controversos como o aborto, a
pena de morte e a legalização da maconha, talvez no intuito de “medir” o
comprometimento de cada um com sua fé, ou ainda a fé com os códigos que cada
religião preconiza. Quem sabe uma tentativa de mapear o complexo lugar que as
religiões ocupam na vida das pessoas na atualidade, bem longe daquele em que
ela encarnava o Poder. O mais provável é que as religiões acenem com a
possibilidade de regulamentação das vidas através de regras fixas e claras, o
que alivia o desamparo - às vezes insuportável - de muitos jovens (e de seus
pais), uma forma de “proteção” para os sentimentos morais.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Que lugar para o amor
Nos versos de sua música “Futuros Amantes”, Chico
Buarque canta um futuro em que “sábios em vão tentarão decifrar o eco de
antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios de
estranha civilização”, como se previsse um tempo em que a linguagem do amor
romântico, tão assimilada em nossa cultura, pudesse não só cair no esquecimento,
mas produzir estranhamento. Foi essa curiosidade quanto ao futuro de uma
“ordem” já tão naturalizada entre nós e que norteia a vida de quase todos, que guiou
os caminhos de minha tese de mestrado, cuja dissertação defendi em 2006.
Basicamente a tese buscava entender (pesquisar) as razões do alto valor do amor
romântico como ideal de vida para quase todos, levando em conta que o imenso
arcabouço estruturado ao seu redor, não dava mais sinais de poder se sustentar
da mesma maneira. Mudavam os casamentos, choviam separações e muitas conquistas
advindas da liberdade dos indivíduos questionavam o que havia de velho e mofado
neste modelo. Em meio a estas pesquisas e muitas leituras, um filme muito
peculiar era lançado em 2004 que de certa forma instigava um debate importante
para este tema. “Antes do por do sol” não era apenas a continuação de uma
historia de amor contada no filme anterior (“Antes do amanhecer”), feito pelo
mesmo diretor. Era um projeto inovador, uma boa ideia de Richard Linklater que
havia convidado um par de jovens atores em 1995, ele (Ethan Hawke) um americano
e ela (Julie Delpy) uma francesa para serem coautores de uma saga romântica que
pretendia ser filmada em três etapas. Quando lançado em 2004, nove anos depois
do primeiro, o fato pouco usual de serem dois filmes feitos com os mesmos
atores encarnando os mesmos personagens em diferentes tempos de suas vidas,
sendo eles co-roteiristas, dava um toque de veracidade que capturava o público.
No primeiro filme, dois jovens universitários em viagem de férias, um americano
(Jesse) e uma francesa (Celine) se conhecem num trem que corta a Europa e
decidem passar uma noite juntos em Viena, local onde seus destinos se
separariam. “Antes do amanhecer” eles voltam à estação de trem onde ela deverá
seguir viagem à Paris e, sem trocar telefones, endereços ou sobrenomes, fazem
uma promessa “apaixonada” de se reencontrarem na mesma estação depois de seis
meses. Nove anos mais tarde (2004), Jesse escreveu um romance em que narra com
detalhes sua história com Celine, e está em Paris para lança-lo na charmosa
livraria Shakespeare and Company, quando a vê entrar. No filme de 1995, ainda
adolescentes, eles contam um para o outro, detalhes de suas vidas e de seus
projetos. A paixão é inocente, insegura, desprevenida, e a aposta em um novo
encontro às escuras, é próprio dos sonhos onipotentes dos jovens. Em 2004 eles
estão mais velhos, seus rostos mostram as marcas dos anos e seus diálogos incorporam
as responsabilidades do mundo adulto. É com sutileza, respeito e cuidado que
vão contando um ao outro (tendo as ruas de Paris como cenário) seus sucessos e
fracassos, os ajustes que tiveram que fazer em seus ideais de juventude, e
finalmente a importância daquele encontro passado, em suas vidas. Esteticamente
belo, a câmera filma a pouca distancia para captar os olhares, gestos e
expressões, o que convoca o público a testemunhar o envolvimento de ambos e de como
relatam o impacto do encontro vivido no filme anterior em suas vidas. Eis que em
2013, o diretor cumpre sua promessa ao lançar a terceira etapa desta aventura,
“Antes da meia noite”. Casados, pais de gêmeas, Jesse se separara de sua
primeira mulher (com quem teve um filho) nos USA e vive (agora como escritor
renomado) em Paris com Celine. De férias, eles vão à Grécia de carro em casa de
amigos. Com diálogos mais tensos, os anos vividos juntos demandam um jogo de
cintura de ambos para driblar as diferenças, negociar as expectativas, curar as
frustrações. Culpado por não conviver com o filho pré-adolescente que acaba de
deixar no aeroporto, Jesse sonha em morar nos USA para aplacar seu mal estar. Saber
disso exaspera Celine que discorda dele quanto ao efeito “idealizado” dessa
proximidade física. Uma mudança para lá desorganizaria a vida atual deles. Custos
de uma relação prolongada que, além disso, precisa contabilizar as obrigações
de pais? Com questões próprias das gerações de adultos nascidos nos anos 70,
80, os três filmes cumprem seu papel ao colocar os ideais amorosos a uma
distancia possível, o que funciona como um alento aos jovens adultos da
atualidade que se sentem capazes de poder viver/sentir o mesmo. Super
recomendado.
Para conferir: Antes do amanhecer (1995) Antes do por
do sol (2004) Antes da meia noite (2013)
Diretor:
Richard Linklater Atores: Ethan Hawke e Julie Delpy
Depois da festa
Não foi só aquela parcela da população que teme a
tudo e a todos sempre que algo parece sair do conforto do “mesmo”, que se
inquietou com a disparada das multidões que a cada dia marcava um local e um
tema para protestar. Todos se perguntaram, ao menos uma vez, se este movimento
tão inesperado da população haveria de ter um final e qual seria. Mas o mais
interessante foi perceber que os próprios jovens, não só os que idealizaram seu
começo, todos que se sentiram mobilizados pela possibilidade de realizarem
algum futuro, semearem alguma mudança, visualizarem um mundo mais parecido com
o que sonhavam, passaram a buscar avidamente textos em blogs, jornais, redes
sociais que pudessem ajudá-los a refletir sobre o que estava acontecendo e o
que ainda podia acontecer. Afinal muitas das manifestações ganharam um público surpreendente,
fosse pelas idades, pelas classes sociais, mas principalmente pelas diferenças
de reivindicações. Nas redes sociais era possível acompanhar as placas escritas
de ultima hora e à mão, às vezes irônicas, mas muitas portando algum pedido
legítimo, ainda que inesperado. E agora José? O que vem depois? Muitas coisas
vieram. Veio a truculência da polícia, recebendo e obedecendo “ordens” para
conter a “massa” de qualquer maneira. Veio a surpresa de todos diante de tanta
violência. (Porque mesmo tamanha violência?) A velocidade com que as notícias
puderam ser disponibilizadas nas redes, sem nenhuma censura prévia, despertava
a todos de seu longo sono de cidadão. Multiplicaram-se as cidades e as pessoas.
Todos tinham algo para falar. E falaram. E se fizeram ouvir. E que não viessem
se aproveitar do burburinho para “plantar” seres “estranhos” ao sentimento
cívico que perpassava aos que se dispuseram a sair pelas ruas, muitos destes fotografados
e identificados. Hello! Vocês que aí estão o que vão fazer? E saíram fazendo: a
polícia tinha que “policiar” e não “atacar”; os políticos tinham que votar o
que precisava ser votado, sem que fosse necessário “negociar” tais votos. Os
governantes se reunir para entender o clamor da voz do povo. Mas o que vem
depois da “festa”? Como pensar sobre o destino do país ou ainda sobre alguma
mudança efetiva no panorama político? Talvez nunca tivéssemos podido vivenciar
tamanha manifestação democrática em nosso país. Que se acrescente uma dose de
impacto porque também não tínhamos uma tradição de nos organizarmos para
formalizar nossas reivindicações em passeatas de ruas, ao contrário, por
exemplo, de nosso país vizinho, a Argentina. Pensadores de todas as áreas de
conhecimento, a maioria brasileiros- mas alguns estrangeiros- escreveram sobre
este acontecimento e tentaram entende-lo, destrincha-lo. Alguns temerosos,
outros descrentes, mas a grande maioria, empolgados com a “novidade”, como a
confirmar um período de latência e marasmo generalizado. Perguntei aos que
participaram em algum momento destas passeatas o que sentiram. A maioria havia
se encantado e se orgulhado com a possibilidade de exercer o que parecia ser
este “novo” papel de cidadão brasileiro. Mas quase todos relataram ter sentido
medo, ter vivido momentos de tensão. No entanto, o “tenso” que se viveu talvez
fosse imprescindível, e isso se deve ao fato de que este movimento não foi um
movimento de “massa” em torno de uma liderança ou de um único objetivo. Foi de
multidões, ou seja, cada um com sua individualidade, seu parecer, sua placa,
seu desejo, que por isso mesmo não se diluía e sim impunha uma convivência
“tensa”. Ainda que ali pudesse existir um espaço de trocas
horizontais de experiências, de ideias, de propostas que pretendiam construir
alguma coisa nova e transformadora, a “tensão” permanecia, um indício de que
neste mundo contemporâneo, cabe a todos nós (e a cada um) “suportar” as
diferenças das individualidades sob pena de descambar para a violência. Uma
fronteira tênue, por isso tensa, para o bem e para o mal. Um grande desafio, já
que o respeito ao outro e o processo democrático demandam negociações sem fim
que passam necessariamente pelo reconhecimento da singularidade de cada um e de
suas diferenças. Negociações estas que precisam ser explicitadas por cada
reivindicante e confrontadas com as de seus vizinhos para que se possa enfim definir
princípios, diretrizes e políticas. E
que não nos esqueçamos de que as mudanças ameaçam a continuidade e provocam
resistências (às vezes mascaradas), que podem levar muitos a sabotar o novo. Resistências
que podem ser tentativas de luta pela sobrevivência diante da incerteza do
desconhecido, e por isso detecta-las e elucida-las seria da hora!
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Quem viu o futuro?
A menos de uma semana, o artista chinês Ai Weiwei, famoso
por seu trabalho permanentemente provocativo, denunciador e político, que já lhe valeu uma detenção de
quase três meses pelo governo de seu país, escreveu um texto indignado para o jornal britânico The Guardian (traduzido
aqui pela Folha de SP). Mais que indignação, havia um tom de decepção diante da
informação sobre a operação americana de monitoramento dos serviços de
inteligência dos Estados Unidos denunciado pelo técnico em informática Edward
Snowden, que trabalhava há 4 anos na NSA (Agência Nacional de
Segurança) e tinha acesso a dados privados de usuários de internet e telefonia.
Tendo vivido 12 anos nos Estados Unidos, Weiwei exaltara a grande tradição de
individualismo e privacidade deste país que sempre se contrapôs ao desnudamento
sistemático dos cidadãos chineses, acostumados com o abuso do poder de Estado.
Ao ler seu texto me lembrei de um filme de Spielberg (2002), Minority Report (relatório
da minoria) – A nova lei, uma ficção sobre o funcionamento da sociedade americana
no ano de 2054, em que a despeito do avanço ininterrupto da tecnociência , o mundo
havia se tornado um lugar inseguro e violento. Em 2048 o índice de homicídios teria
alcançado proporções alarmantes, o que contribuíra para que a cidade de
Washington experimentasse um projeto piloto - o Programa Pré-Crime - que em
seis anos havia conseguido banir os crimes utilizando-se de uma tecnologia
biovirtual onde três “precogs” (pessoas altamente sensitivas) projetavam
imagens de suas previsões de assassinatos com o dia e a hora dos crimes. Graças
mais uma vez à tecnologia, fornecidos o nome da vítima e do assassino, uma
elite de agentes policiais prendia o criminoso antes mesmo que o delito acontecesse.
Dilema moral: se alguém é preso antes de cometer o crime, como pode esta pessoa
ser acusada de assassinato? Seria lícito incriminar alguém apenas pela sua
intenção? Apesar deste paradoxo um forte lobby pressionava a população a
aceitar o programa e assim estende-lo por todo o país, já que eliminava os
assassinatos nos Estados Unidos. Estaria assim consolidado um mundo futuro, em
que haveria um sistema criado para coibir a violência e proteger os indivíduos
deles mesmos, ou melhor, de seu mal. Mas curiosamente este futuro não seria uma
possibilidade, uma escolha em aberto para os indivíduos, já que a “pre-visão”
seria considerada como algo que realmente aconteceu. Quando John Anderton (Tom
Cruise), o policial mais competente da equipe, vê através dos precogs, que
matará um desconhecido em menos de trinta e seis horas, inicia por conta
própria uma investigação cheia de ação que culminará no desmantelamento do
sistema antes “perfeito”. Ai Weiwei denunciava esta contradição em seu texto,
ao apontar que graças às suas capacidades técnicas, os Estados poderiam
facilmente conseguir dados sobre seus cidadãos visando controlá-los, interferindo
de forma abusiva em seus direitos individuais. Em audiência no senado americano,
o diretor da ASN general Keith Alexander disse que a vigilância é necessária
tanto para "defender a democracia e as liberdades civis dos
americanos" quanto para manter o país em "segurança". Mas Weiwei
insiste no fato de que instaurada uma outra dimensão de medo e insegurança – seja
pela possibilidade de não haver mais liberdade ou pela abolição da confiança
dos cidadãos para com seus governos, perde-se o equilíbrio que mantém a
“civilização” e que está na base de uma democracia. Não passaram despercebido
nem aos brasileiros nem ao mundo, as surpreendentes manifestações de protestos
dos jovens iniciadas em São Paulo, que acabaram por replicar em várias capitais
do Brasil (e outros países em um apoio solidário emocionante). Por trás dos
singelos 0,20 centavos reivindicados, os gritos clamavam por um cuidado e
respeito dos governantes e políticos para com sua população, para com suas
cidades, seu país. Que acordassem para a necessidade de reconstruir um espaço
político com instituições que não estivessem falidas ou sucateadas por um
modelo de interesses de poder e grana. Que devolvessem as ruas, as cidades, os
espaços públicos aos jovens, para que eles pudessem continuar acreditando em um
futuro. Uma revolta contra o descaso. Uma reivindicação de Jovens, que em
diferentes épocas históricas buscam ativamente uma versão de seu tempo para
afirmar seus sonhos e ideais, e lembram a todos os mais velhos, que são eles
que abrem caminhos para novas verdades, novos movimentos transformadores de
nossa existência. Mais, que não há convivência possível sem um bocado de
dignidade.
terça-feira, 18 de junho de 2013
O cão nosso de cada dia
Formávamos um quarteto de amigas à espera de um
garçom que nos atendesse. Enquanto isso, a única avó da mesa saca seu celular e
passa a desfilar as fotos de seus três netinhos. Todas olham embevecidas as
caras, bocas e poses de cada um. Faz-se um ohhhhh geral. Sem conseguir evitar,
outra amiga tira seu celular da bolsa e mostra a foto de seus dois amores
estampada na capa. Que lindos, exclamamos duas de nós. Que pelos
maravilhosos!!! Eles parecem estar sorrindo! Indignada, a outra balança a
cabeça sem poder entender o entusiasmo. A dona dos cachorros sorri e comenta em
tom baixinho: “ela nunca teve cachorros, não sabe o que é isso”. O “isso” era
sem dúvida o sentimento comum que havia tomado conta de nós três que, ao
contrário, tínhamos muitas estórias para contar sobre nossos cães em nossas
vidas. O estranhamento desta amiga para quem os cães eram apenas animais como
outros quaisquer, no entanto despertou-nos a ânsia de explicar o que (para ela)
era inexplicável: como nossas vidas tinham sido afetadas por estas criaturas.
Passamos assim a contar estórias emocionadas, como se estivéssemos falando de
nossos próprios filhos. A dona da foto do celular que morava em uma casa em
Belo Horizonte descreveu seu dia a dia com aqueles que eram, por enquanto, seus
“netos” de 10 e 8 anos. Os filhos já haviam se mudado para compor novas
famílias, mas ainda não eram pais e os dois cães ocupavam o lugar das crianças
da família, o que os tornava assunto de interesse de todos. Pelo menos uma vez
ao dia seus filhos ligavam para saber notícias das “crianças”, fato que a
deixava muito empolgada, pronta para descrever entusiasmada as últimas peripécias
da dupla. Ouvindo-a narrar sua estória pensei (com meus botões) como a
experiência de ter esses “bichinhos” morando em apartamentos acrescentava
variáveis inimagináveis ao convívio entre os “donos” e seus cães. As lembranças
de Bob ainda estavam misturadas ao luto pela sua morte acontecida há dois
meses, depois de 18 anos de convivência diária e intensa. Bob era um Fox Paulistinha
(o amor pela raça herdamos de nossa querida amiga ribeirão-pretana Márcia),
conhecido por sua inteligência, que passou a dividir espaços conosco quando
meus filhos ainda estavam na pré-adolescência (8 e 12 anos) e rapidamente fez
de nossa casa sua casa. Tinha seus lugares, alimentos, objetos, odores e sons
preferidos assim como sabia comunicar aqueles que não faziam seu gosto. Ao
longo de nossa vida “familiar” desenvolveu comportamentos diferenciados que agradava
a cada um em particular. Sua vitalidade era invejável: ao som do interfone
corria à porta a espera da “visita” até que esta tocasse a campainha. Se se
anunciasse a possibilidade de algum passeio não descansava enquanto o fato não
se consumasse, ou seja, ia do local em que estava sua coleira até a porta,
voltava-se para o “anunciante” e repetia este percurso à exaustão (de todos). Quando
finalmente “vestia” a coleira, saía pelo corredor até o elevador saltitante e
satisfeito. Se faltasse água ou ração sabia bater com insistência nos
respectivos pratos para pedi-los. Morreu de velhice como quem não queria ir-se.
Em seu ultimo ano de vida, mesmo tendo perdido a visão e a audição, ainda
distinguia as pessoas e os locais pelo faro. Tinha se tornado membro “efetivo”
da família e era raro não ser tema de conversas animadas ao redor de mesas de
almoço ou jantar em que se discorria sobre suas surpreendentes estórias. Nossa
amiga desconhecia este mundo “novo” em que cães comportam-se de forma ajustada
a casa, à rotina e à convivência com seus “familiares”, se “humanizam” e entendem vários códigos de nossa linguagem. Cães
que adoecem e se alegram com seus donos, podem se deprimir ou serem “ansiosos”.
Cães que vivem como gente.
Nós na foto
Dia desses uma amiga, após ser convocada por si
mesma a passar uma informação que evitaria uma surpresa desagradável a uma
colega, comentou ironicamente que sua atitude tinha como objetivo maior
contribuir com a garantia de seu passe para o “paraíso”. Assim, em pequenas
“prestações”, ela apostava na conquista de certo sossego enquanto vivesse, já
que poderia contar com o conforto de acreditar que “Alguém” estaria pontuando
seu bom comportamento. Corta. Um conhecido que participou recentemente de uma
reunião em seu condomínio ficou espantado
quando num certo momento, em um efeito dominó, alguns moradores passaram a se
alterar e ficar mais violentos ao reclamarem seus direitos ou queixarem-se dos
incômodos do convívio coletivo. Suspirou aliviado, a seguir, diante da
intervenção sensível do síndico que, ao perceber que tais moradores precisavam
de uma atenção especial, soube se colocar como mediador dos conflitos,
oferecendo-se para ajudar a resolver algumas pendengas, sem se esquecer de
evocar aos reclamantes a parte que lhes cabia na política (sempre difícil, sem
dúvida) da boa vizinhança. Quem sabe algo que tenha faltado na história trágica
divulgada dias atrás, em que sem conseguirem resolver as crescentes desavenças
que só aumentavam o ódio de parte a parte, um empresário de 62 anos de posse de
seu 38, invadiu enlouquecido o apartamento de cima e matou a queima roupa o
casal de moradores, poupando de sua ira apenas o filho de um ano e meio.
Provavelmente sem poder suportar o que imaginava serem as consequências de seu
ato, apontou a seguir o revolver para si e pôs, assim, um “fim” a todas as
perturbações. Como sempre acontece em fatos tão inimagináveis à maioria -
justamente pela maneira obscena e banal com que a vida humana é tratada – espalham-se
indignações, mas principalmente medos e inseguranças já que qualquer um, de
qualquer lugar, pode ser portador de um excesso incompreensível de violência e
ódio. Mas quem sabe o “matador” não estivesse em seu estado normal, quem sabe
ele estivesse passando por problemas graves, ou portador de algum transtorno
psíquico? Não é o que revela sua esposa (e amigos) que atribui seu ato a um
“surto de loucura” circunscrito àquela situação. Claro que não podemos afirmar
muito sobre suas razões e/ou desrazões. Podemos somente reafirmar que faz parte
de nossos arquivos históricos, as inúmeras formas (a depender de épocas
históricas) de se fazer mal ao outro, de se deixar fazer mal e até de se fazer
mal a si próprio. Não há convívio sem conflitos e para vivermos todos precisamos
de um jeito ou de outro, negociar com nossa economia destrutiva tanto quando
ela se dirige a nós mesmos quanto aos outros. Mas assim como o que muda na
história são as formas do “mal”, para cada um de nós estas negociações ficam
atadas ao complexo processo de nos tornarmos gente. Na reunião de condomínio
citada acima, o síndico emprestou suas palavras para dar um sentido aos
distúrbios entre os moradores, delimitando ao mesmo tempo as responsabilidades
que cabia a cada parte, inclusive ao condomínio enquanto regulador desta
convivência. Também minha amiga negociava consigo mesma os “custos” de sua
solidariedade para com a colega. São estratégias de reconhecimento que, se por
um lado podem funcionar como moduladores da violência, estão cada vez mais
sujeitas à possibilidade ou não de existir um “outro”, um terceiro, capaz de
ajudar a constituir (no plano psíquico) ou fazer as vezes do espaço ético
necessário à convivência humana (no plano social). Nem a bondade nem a maldade
habitam lugares predeterminados em nossos cérebros. Elas são construções
categoria 3D Não nascemos bons ou maus. Comecemos,
pois pela admissão de que todos podem “cometer” o mal.
Curtir, compartilhar, excluir.
Dos filmes indicados ao Oscar 2013, apenas “Os
Miseráveis” estava na prateleira aguardando certa reticencia minha a encarar
esta versão musicada da obra de Victor Hugo. Talvez porque tendo assistido a
versão anterior estrelada em 2000 nos cinemas com Gérard
Depardieu encarnando Jean Valjean e John Malkovich o de seu algoz Javert, minha
curiosidade se restringisse ao esmero desta nova produção e ao recorte dado aos
cinco volumes da saga publicada pelo autor em 1862. Finda a sessão, no entanto,
percebi que minha resistência também passeava pela aridez deste período da
historia, por sua miséria real, social e moral. Sem recursos financeiros de
qualquer ordem, sem opções de trabalho, sem direitos, restava “aos miseráveis” franceses
acreditarem serem visíveis para um Deus solidário e benevolente. Se Deus se
importasse, não só valeria a pena viver, mas desejar ser um ser humano, e quiçá
melhor. A biografia de Victor Hugo impressiona não só pela sua extensa e
diversificada produção literária, ativa até o final de sua vida, (é dele p.e. “O
Corcunda de Notre Dame”), mas por seu ininterrupto engajamento nas lutas
políticas e ideológicas do século XIX, arauto declarado da democracia liberal e
humanitária. Exilou-se nas ilhas de Jersey e Guernesey durante todo o segundo
Império de Napoleão III (quase vinte anos), retornando somente após a sua
queda, muito aclamado pelo povo francês. Revisto assim, desde o século XXI,
Victor Hugo foi um destes homens de espírito livre em um tempo sombrio, que
ousou defender suas ideias, escreveu como e quanto quis e viveu apaixonado pela
vida, apostando em dias melhores. No entanto, assistir ao seu épico “Les
Miserables”, se pode produzir um grande desconforto pela dramaticidade pungente
daquelas vidas com destinos tão estreitos, também causa um grande alívio,
quando medimos quão distantes estamos deste mundo sem leis, sem liberdade, sem
oportunidades e porque não, sem conforto. De lá para cá, neste mesmo mundo,
promovemos grandes transformações físicas e sociais que nos permitiram
aumentar e muito nosso tempo para cuidar
e saber mais sobre nós mesmos. O próprio verbo “consumir” só tem sentido quando
pensamos que hoje, ao nascer uma criança, é muito provável que ela já venha
acompanhada de desejos de adultos que a anteciparam e sonharam para ela uma
vida cheia de bons momentos e muito sucesso. Seja lá o que isso possa significar
para cada adulto que investe sua criança com seus sonhos. A capa da revista americana
Times de 9 de maio de 2013 chamava a atenção para a Geração “Me Me Me” ou Millennials,
ou seja, aquele 1/3 da população mundial que nasceu entre 1980 e 2000 e que
possuem características próprias por seu uso da tecnologia e pela maneira com
que se relacionam com a felicidade. Esta geração que estaria desconstruindo de
forma radical antigas maneiras de viver mereceu uma extensa matéria que cruzava
resultados de diversas pesquisas e batizava-os de narcisistas (ou
autocentrados) e preguiçosos e, embora menos preconceituosos por conviverem com
uma diversidade maior de pessoas, mais alienados politicamente e com suas vidas
definitivamente atadas ao modo “rede” de funcionamento. Auto fotografar-se,
postar informações sobre onde se encontram, com quem, o que estão fazendo, o
que estão vestindo, comendo, pensando ou sentindo através de seus smartphones,
os define. Com um tom cético, a matéria não parecia vislumbrar um mundo melhor
“dirigido” por esta geração. A jovem americana Zara Kessler, de 22 anos,
editora de opinião da rede “Bloomberg” saiu em defesa de sua geração, marcando
as diferenças de épocas e lembrando que todas as gerações de jovens podem ser
analisadas sob o estranhamento dos adultos que foram jovens em tempos
anteriores. Mais que isso, ela pontuou algumas dessas diferenças, a começar
pelo plano dos ideais vigentes nas sociedades atuais, que estariam vetados à
sua geração como certas profissões antes celebrizadas, salários altos,
aquisição de casa própria e bens materiais, etc. Não haveria no horizonte do
mundo futuro, esta mesma aposta que já foi de gerações anteriores. Podemos
acrescentar aos itens citados o fato de que a tão badalada “autoestima” ,
caçada por sua geração como se fosse condição de sobrevivência, é antes de mais
nada um produto dos desejos dos pais. A felicidade que todos sonhamos para
nossos filhos os faz presa desta busca, o que na maioria das vezes não
corresponde ao que realmente sentem ou pensam de si. Ao contrário, é com muito
“suor” que os jovens desta geração buscam
reconhecer seus recursos, talentos e falhas para poderem, enfim,
vislumbrar alternativas possíveis de vida, de amores, de trabalho. No mundo de
Victor Hugo, muita coisa ainda precisava acontecer, mas a grande maioria hoje delas
nos parece óbvias. Zara Kessler, com seus 22 anos, não sabe ainda como vai ser
o mundo futuro. Nós também não. Mas vai ser muito diferente deste.
Assinar:
Comentários (Atom)