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domingo, 4 de janeiro de 2015

Tons musicais

Não havia me dado conta da superposição de datas das mortes de Tom Jobim e John Lennon. Embora a morte de John acontecida há trinta e quatro anos, talvez nunca possa deixar de ser lamentada pela forma trágica e cruel com que um menino esquisito decidiu que ele deveria morrer, ambos Tom e John, são exemplos humanos de patrimônios artísticos. E isso quer dizer que em seus aniversários de morte, sempre se pode rememorar um pouco de suas obras não só através de documentários ou textos escritos por aqueles que têm algo a contar ou recordar, mas (principalmente) pela fartura com que a mídia projeta imagens de seus melhores momentos, o que permite a muitos de nós revivermos o inesquecível. Fui fã incondicional de ambos, por motivos diversos. John Lennon era o rapaz irrequieto e ousado daquela banda que descobri aos quatorze anos, quando comprei meu primeiro LP dos Beatles e nunca mais pude parar de acompanhar o percurso daquela dupla de meninos geniais que compunham músicas e letras que tanto sentido fazia para os jovens com os quais eu convivia. O ponto alto desta época foi a formação de uma banda cover dos Beatles com garotos de nossa turma de Araraquara, cujas apresentações eram imperdíveis e ocasião para que  dançássemos e cantássemos juntos, os hits. Cada lançamento de um novo álbum dos Beatles era aguardado com muita ansiedade e o disco cumpria o ritual de rodar seguidamente por muitas semanas até que pudéssemos eleger cada um, suas preferencias. Em novembro último, a convite de uma amiga, fui assistir em São Paulo ao show de Paul McCartney, sem sequer imaginar o impacto que aquelas “velhas” músicas tocadas ao vivo por um dos ícones dos Beatles iriam me causar. Fui tomada pela emoção, vi-me adentrando ao túnel do tempo e pude resgatar a importância de ter vivido tão intensa e apaixonadamente minha beatlemania. Naquela época, junto com eles, todos nós estávamos crescendo e gostávamos de pensar nas mudanças que aquelas músicas promoviam. O mundo parecia muito pequeno e ao mesmo tempo anunciava e oferecia infinitas formas de se viver. Tom Jobim veio (para mim) depois, passados os anos da adolescência, na calmaria. Brasileiro até no nome, me ensinou a amar a música brasileira, e me encantou com os acordes melódicos que compunham o cancioneiro da bossa nova. Sua música pode ser ouvida em qualquer ocasião, em qualquer lugar talvez porque contenha aqueles acordes ao mesmo tempo destoantes e harmônicos que enchem a alma de alegria. Primeiro foi sua parceria com Vinícius de Moraes que renderam os maiores standards (tão cariocas) da bossa nova. Depois as lindas canções compostas junto com Chico Buarque, com letras mais densas, mais mundanas. Nosso grande maestro, nosso gênio. Em 2001, sete anos após a morte de Tom, fui agraciada pela sorte  ao assistir ao compositor japonês Ryuichi Sakamoto, responsável por uma das trilhas musicais mais lindas do cinema (Furyo- Em nome da honra) e apaixonado pela música de Tom Jobim desde seus 14 anos, tocar em São Paulo junto ao Quarteto Jobim-Morelembau, formação que acompanhava Tom em seus últimos shows. Por estas e outras não posso deixar de concordar com o filósofo inglês Alain de Bouton, que diz que obras de arte podem nos ajudar a lembrar do que importa,  podem nos fornecer esperança, expandir nossos horizontes e até ajudar a nos entender melhor. Quando podemos fazer uma retrospectiva (re)significando nossa percepção destas vivências, melhor.


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Com-paixão


Confesso não saber muito sobre Lady Gaga, além do fato de sua persistência (e perspicácia) em manter os espaços midiáticos atentos as suas (em geral bizarras) surpresas. Mas, ainda sob o impacto da morte da cantora londrina Amy Winehouse no ano passado - com quem era frequentemente comparada – a nova-iorquina Lady Gaga fez um pedido comovente ao público e aos fãs para que cuidassem de suas pop (e super) stars, lembrando que Amy tinha aberto as portas para garotas como ela, que não se encaixavam no mundo pop tradicional, ajudando-a, por exemplo, a se aceitar como diferente e especial. Achei simpática e sensível sua chamada. Recentemente uma outra reportagem incluía a cantora, que em resposta às maldosas críticas de que estaria engordando teria lançado a campanha "Body Revolution 2013" (Revolução do Corpo) ao mesmo tempo em que fazia uma revelação bombástica, a de que desde os seus 15 anos, teria sofrido de transtornos alimentares como anorexia e bulimia. Muito a vontade em seus apelos midiáticos, postou uma foto sua de biquíni, olhos fechados, sem nenhuma outra “montagem” na imagem, como a incentivar seus fãs a enviarem suas fotos naturais, principalmente àqueles que estivessem passando por situações similares ou que já tivessem superado traumas e dificuldades. A ordem seria aceitar seus corpos do jeito que fossem: magros ou gordos. A Folha de São Paulo há poucas semanas, mostrava como sua campanha teria repercutido de forma favorável em alguns setores médicos, ao revelar que o psiquiatra Takí Cordás – responsável pelo Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de SP- teria louvado sua iniciativa admitindo que ela pudesse ajudar os 4% da população mundial de adolescentes que seriam vítimas destes transtornos, incitando-os a buscarem ajuda especializada. Com sua primeira vinda ao Brasil marcada para o dia 9 de novembro no Rio de Janeiro e em São Paulo no dia 11, em um flash mob, muitos de seus fãs brasileiros compareceram à Avenida Paulista na tarde deste ultimo sábado levantando as principais bandeiras políticas da estrela. Questionados, a maioria se dizia feliz por saber que apesar de se reunirem tendo em comum um sentimento de exclusão, desfrutavam do fato de possuir não uma madrinha qualquer, mas uma pop star do quilate de Lady Gaga, cotada entre as mulheres mais poderosas da atualidade, e que ainda assim, encabeça esta causa e convida a todos a celebrar as diferenças, que segundo ela seriam importantes na conquista da liberdade, da criatividade e da felicidade. Lady Gaga não passa desapercebida e isso parece ser o lema de sua vida artística, que caminha lado a lado com jogadas midiáticas, fruto de um marketing permanente e atento. Mas não há dúvidas de que suas escolhas agradam uma grande parte dos jovens (muitos fãs devotos), que se sentem acolhidos e amparados por um discurso que lhes faz sentido. Afinal a adolescência costuma mesmo ser uma época de nossas vidas em que nos sentimos extremamente vulneráveis, em que nossa imagem corporal é totalmente refém de nossa  incipiente ou inexistente autoestima, em que quase nunca conseguimos falar em nome de nosso “euzinho”, sempre a se sentir inadequado, fora dos padrões que imaginamos existir para outros adolescentes. As distorções da imagem corporal, comuns nos casos de anorexia e bulimia, ajudam a revelar a complexidade deste período em que temos que transpor as fronteiras entre nossa dependência e autonomia e encontrar nossos próprios ideais, ainda tão colados ao que nossos pais esperam de nós. Segundo palavras de uma fã, Joanne Angeline Germanotta ou Lady Gaga, apesar de não ser uma unanimidade no mundo musical, e alimentar continuamente os paparazzi que ficam a espera dos próximos capítulos de sua vida, tem optado de forma corajosa por agregar valor social em sua carreira, acendendo as tochas para que jovens do mundo todo apostem em seu amor próprio. Porque discordar de madame?

 

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Deleites musicais

Manhãs de domingos ensolarados em São Paulo são quase sinônimos de um passeio até o Parque Ibirapuera, que para quem não conhece, representa não só um pequeno-grande pulmão verde nesta mega-cidade, como cumpre um papel importante de cartão postal cultural. Isto porque além de abrigar alguns dos melhores museus como o MAM , o MAC e o Museu Afro-Brasil, o parque foi totalmente projetado pelo nosso grande e genial Niemeyer, cujas obras conseguem ser elas mesmas eternas e encantadas obras de arte. No último dia 17 além do sol e do céu azul sem nuvens, a OSESP ( Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) oferecia um concerto gratuito para quem se dispusesse ir ao parque às dez da manhã, sentar-se na grama enfrente ao palco aberto do Auditório. E tal como o valor da cereja que tanto completa esteticamente, quanto desperta a gula, o programa era Carmina Burana do compositor alemão Carl Orff. Por ser uma obra cantada em coral e baseada em poemas profanos medievais que exaltam o amor, o jogo e o vinho, ouvi-la é sempre uma experiência marcante. Mas ouvi-la acomodada em um chão gramado, sob o sol de inverno e o céu silenciosamente azul, cercada por uma atmosfera de contágio absoluto é, sem dúvida, uma experiência rara de êxtase. Experimentar o máximo prazer possível, entretanto, nem sempre foi uma opção ao acesso dos indivíduos, mesmo que se dispusessem a manter o bom senso e o respeito aos códigos de convivência de sua cultura. Ainda hoje, é visto tanto como uma conquista como algo indevido. Na história da humanidade, o “excesso” de prazer, a entrega ao deleite e ao gozo, sempre esteve na mira e no controle das culturas, sob diferentes formas de restrições. O som de Carmina Burana acrescido de todas as circunstancias desta manhã especial, convidava ao exame destas restrições porque seus poemas e canções medievais e profanos, encontrados no início do século XIX em uma abadia na Bavária, tinham permanecido escondidos durante vários séculos. Foi graças a sua publicação em 1847, que Carl Orff , encantado com seu conteúdo original, decidiu compor esta obra impactante, uma das mais tocadas no século XX. Os pergaminhos, na verdade, foram escritos entre os séculos XII e XIII por cultos e eruditos goliardos, monges expulsos ou desertores da Igreja que faziam críticas mordazes às autoridades eclesiásticas, à hipocrisia e ao poder econômico da época. Ao se desligarem das normas restritivas e da dura vida monástica, eles se transformavam em livres peregrinos e por um bom copo de vinho, um colo ou uma cama, compunham versos e canções populares que falavam sobre a vida, a morte,a sorte, o azar, a fortuna, o amor ou as desventuras. Por sua alegria, irreverência e principalmente pelos conhecimentos sobre arte, música e literatura eram respeitados, mas por romperem com as regras rígidas dos conventos, dirigir-lhes zombarias ou revelar seus descompassos eram considerados anárquicos e revolucionários. A Igreja não só os perseguiu como fez desaparecer seus poemas, o que tornou a descoberta destes, uma maneira de revelar algo sobre os modos de existência da época. Sem referencias sobre “o prazer possível”, o comportamento ousado e criativo dos goliardos acabava por causar uma simpatia desconfortável ao povo que os recebia, apreciava e respeitava seus conhecimentos e sua arte. Fica fácil entender porque chamamos de “Luzes” os últimos séculos da Idade Média, ocasião em que se tornou um objetivo perseguido por grande parte da humanidade, a busca e a troca de conhecimentos que pudessem se contrapor à ignorância e ao obscurantismo, dois dos muitos fatores que podem promover o submetimento de um povo a qualquer espécie de poder que prometa ideologias prêt-à-porter. De quebra, ouçam Carmina Burana !

Coluna do dia 26 de agosto de 2008