Gabrielle, 12 anos, já tinha perdido sua mãe quando seu pai deixou-a aos cuidados de um orfanato em uma pequena cidade da França, junto com Adrienne, sua irmã mais velha. Na próxima cena é domingo, e Gabrielle já está vestida a espera do horário em que algumas crianças serão visitadas por seus parentes. Ao contrário da irmã que parece já estar conformada, Gabrielle se postará em vão todos os domingos, à espera de uma visita do pai. Estas são as primeiras cenas do filme que entrou em cartaz recentemente para contar a história da estilista Coco Chanel, nascida no início do século passado e reverenciada por ter mudado os rumos da moda, em uma época em que somente aos homens cabia ditar as regras e as direções das coisas. Foi assim que os espartilhos, os brilhos, plumas, peles e chapéus enormes, frutos de um conceito que privilegiava a ostentação e não o conforto, foram dando lugar a um estilo “clean” , em que o jérsei de malha, os tecidos xadrez, o preto e o branco básicos, inauguravam uma nova estética, mais condizente com o século em que as mulheres iriam construir seu lugar no mundo. Enfim uma mulher que saberia o que as outras adorariam vestir! Esta também é a história da menina pobre e órfã, que graças ao seu talento e criatividade, uma boa pitada de esperteza e muito empenho, se transforma na cultuada Mademoiselle Chanel, em um mundo cujas portas até então só estavam abertas para os nascidos ricos. Alguns historiadores dizem que o século XX foi pequeno para conter todos os acontecimentos e mudanças que nele ocorreram. Das guerras à conquista de liberdades jamais imaginadas, é difícil pensar que em pouco mais de cem anos, o Ocidente se transformou em um palco pós - moderno, que exige de todos os que nele vivem uma abertura para o novo e o incerto. Mas como acontece em tentativas de documentar a vida de algumas personalidades conhecidas por todos, alguns jornais e revistas reclamaram o fato do filme não abordar o que consideram uma falta grave de nossa personagem famosa. Ela teria sido amante de um espião nazista, que morava no mesmo hotel da estilista, o famoso Ritz de Paris, e quiçá incitada a ser colaboradora em alguma negociação. A França, talvez por sua tradição social humanista, berço da revolução que consolidava os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, radiografou o colaboracionismo da maioria dos franceses na época em que houve a ocupação nazista. As mulheres que dormiram com alemães tiveram seus cabelos raspados no final da guerra, e foram obrigadas a desfilar ao som da multidão que as condenava. Mas em tempos de censura, perseguição e principalmente de falta de dinheiro, alimentos e trabalho, as razões para a colaboração são inúmeras e dentre estas, uma grande parte para tirar proveito da situação de exceção. Que estas informações sobre Coco Chanel possam mostrar sua falta de engajamento ideológico com o significado daquela guerra insana, também nos faz pensar na maneira obstinada com que ela tentou sobreviver, utilizando-se sempre de todos os recursos à sua mão, inclusive das influências de muitos de seus amantes. Há poucos meses o filme sobre a vida de Simonal, trouxe à tona este questionamento. Resgatando sua ascensão surpreendente, seu charme e gingado irresistível, o documentário faz reviver uma época em que as rádios e TV tocavam seus hits que levavam multidões a dançar e cantar. Também ele havia feito o percurso do negro pobre e favelado que conquista o sucesso que lhe concede o direito de namorar loiras e passear de carrões no Leblon. Mas sem nenhum senso político, vê sua vida artística desmoronar ao não se importar em compartilhar da lógica truculenta que fazia parte dos porões da ditadura militar. Quem sabe, como a menina Gabrielle, ele lutava com unhas e dentes para se manter naquele patamar que por sua infância pobre jamais sonhara.
coluna do dia 11 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
domingo, 8 de novembro de 2009
Fama e platéia
Foi em larga escala internáutica, mas principalmente pelo boca a boca que uma grande parte da pessoas se inteirou de um fato bizarro ocorrido na última quinta-feira, dia 22 de outubro, na Universidade Bandeirante de São Paulo (Uniban), da unidade de São Bernardo do Campo.Uma de suas alunas, conhecida por “Loirão” teria ido à aula com um mini vestido rosa choque considerado abusivo e inadequado para o local, o que gerou inesperadamente uma revolta em massa dos alunos presentes ( homens e mulheres), que passaram a segui-la em conjunto,agredindo-a com palavras e em alguns momentos ameaçando-a fisicamente. Em um lance rápido a turba de inconformados aumentou e saiu clamando de forma hostil por sua condenação, a ponto de ser necessária a intervenção de policiais (chamados a comparecer à escola por alguns colegas aflitos da vítima) para escoltá-la até a saída da escola. Como costuma acontecer na web,alguns minutos depois já circulavam vídeos e uma avalanche de análises que tentavam ora entender a reação violenta, ora expor uma posição contra ou a favor da moça. Nestes textinhos era possível “ouvir” o espanto dos inconformados, para quem o ato transgressor não corresponderia em hipótese alguma à ira e ao ódio da multidão. Outros preferiram crucificar nossa jovem por sua ousadia ao exibir sua sensualidade e seu corpo com a nítida intenção de chamar a atenção sobre si. Em entrevista feita para um site, a aluna em questão mostrou-se assustada e surpresa com o ocorrido, principalmente porque seu vestido fazia parte do seu estilo de vestir, ao qual a maioria já deveria ter se acostumado. Ao final, tem-se a impressão que sua fama de “gostosa” entre os colegas, alimentava sua auto-imagem, o que produzia um bem estar consigo própria. A fama é facilmente pareada com o sentir-se amada. Enfim podemos fazer uma série de comentários a respeito deste singular episódio, todos na tentativa de entender suas motivações, mas que certamente não esgotam sua complexidade. Sabemos não ser tão incomum este tipo de ocorrência em que um grupo age de forma selvagem, liderado por uma ou outra pessoa disposta a incitar e inflamar os que estão ao seu redor. A adesão imediata e quase cega da maioria dá a impressão de que cada um abdica da capacidade de pensar por si próprio e deixa-se conduzir como parte de um rebanho e ao sentirem-se de certa forma solidários, incentivam-se e protegem-se mutuamente. Assim irmanados, facilmente se transformam em instrumentos de uma voz de comando que os arrasta a atos violentos que talvez jamais tivessem coragem de praticar. Em geral esta voz parece garantir que o mundo se divide em bons (nós) e pecadores ( a moça), o que faz com que o preconceito e o ódio se espalhem rapidamente. Como explicar este estranhamento repentino entre colegas de faculdade? Talvez este seja um momento em que cada um tenta se livrar daquilo que no íntimo desejasse fazer ou se deixar atrair. Com isso o ato “condenável” da colega pode ser super dimensionado, e é possível dedicar toda ira a ela, deixando claro que jamais se realizaria o mesmo. Por seu lado, a jovem, assim como todos, tenta buscar uma afirmação, algo que a “diferencie” de todos e a coloque em um lugar especial. Ao conquistar este espaço via exibição de um corpo bem feito, passa a habitar um lugar disputado, mas caminha o tempo todo na corda bamba, precisando inventar -se continuamente para manter a fama e a promessa. Sabemos bem que não existe fama sem platéia!
coluna do dia 4 de novembro de 2009
coluna do dia 4 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Onde mora a amizade?
É comum ouvirmos discursos sobre o destino nefasto das relações entre as pessoas no mundo de hoje. No entanto, parece ser um anseio de todos, serem amados e reconhecidos. Na verdade o amor e a amizade são temas caros, daqueles que guardamos em lugares especiais, quase sagrados, geralmente acompanhados de alguns pedaços de poesias, trechos de livros, frases feitas ou escritas que possam lembrar ou reforçar nossos ideais, como gostaríamos de ser ou ter sido para aqueles que valorizamos, ou como queríamos ser importantes para eles. Esta introdução foi inspirada por minha surpresa, ao tomar conhecimento da inauguração da exposição "O Pequeno Príncipe na Oca", como parte das comemorações do Ano da França no Brasil. Para os que não conhecem, a Oca é um dos espaços criados por Niemayer para o Parque Ibirapuera de São Paulo, e deste, cerca de dez mil metros quadrados serão habitados por este principezinho que encanta crianças e adultos há 66 anos e por seu criador, o aventureiro aviador Antoine de Saint-Exupéry, até o dia 22 de dezembro deste ano. Se a surpresa pode e deve ser um pretexto para refletirmos, é fato que a estória do Pequeno Príncipe goza de certa unanimidade quanto ao seu valor. Uma obra simples, com desenhos feitos pelo próprio autor, que consegue criar personagens ao mesmo tempo comuns, mas que guardam um sentido simbólico (um príncipe, um homem solitário, uma raposa, uma rosa, uma serpente, entre outros) em busca de um significado para as condutas humanas, valorizando a amizade. No entanto, qualquer que seja a tentativa de dignificar o valor da amizade nos faz deparar com as inúmeras dificuldades de sua manutenção. Um bem precioso, sem dúvida, mas sabemos o seu custo e os equívocos possíveis. Quantas vezes assistimos, desolados, as “leis” valerem somente para os “amigos”? Quantas vezes nos decepcionamos ao perceber nosso “valor utilitário” nas amizades? Ou quantas vezes apostamos que os amigos seriam sempre fiéis e confiáveis? Ou sinceros? Mas para aqueles que desconfiam definitivamente da amizade, e pregam sua impossibilidade em um mundo que preza a competição e a busca frenética de um lugar ao sol, a verdade é que a amizade ainda sustenta um lugar precioso nos dias de hoje. Pensemos no incrível avanço que a comunicação obteve pelo desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, criando novíssimas oportunidades de nos conectarmos o tempo todo com um número inimaginável de pessoas. Com certeza um desejo nosso, de nos sentirmos ligados, de podermos contar a qualquer hora, minutos, segundos, com alguém do outro lado dos celulares ou da internet. Talvez por vivermos em um mundo sem garantias, cheio de imprevistos, que nos exige criatividade e jogo de cintura, a amizade venha ganhando este espaço de valor. Mas ainda assim, estamos no plano do que deveria ser. Do que gostaríamos que fosse. No plano do ideal, espaço mais comumente habitado pelo amor e pela amizade. Isto porque tanto um quanto outro pedem um reconhecimento da diferença do outro, uma valorização do espírito comunitário e principalmente uma boa administração da complexidade e da tensão envolvidas nas relações entre as pessoas. Sabemos como é possível a existência de vidas marcadas pela insensibilidade e pela falta de possibilidades criativas, outras que se pautam pelo tormento, pela dor, vidas que apenas sobrevivem. Como saber então o que significa uma verdadeira amizade? Uma possível resposta seria a de que uma certa forma de se praticar amizade inclui a convivência com a tensão e o conflito como forças transformadoras, que podem ajudar a gerar movimentos na vida de um e outro. Isto implica em se destituir de uma antiga posição infantil de dominação/ subjugação, e se colocar como alguém que também é insuficiente, e também precisa de um bom amigo, um “igual”. É assim que a amizade pode nos exigir a convivência com as diferenças, o cultivo do que temos de especial, incentivando-nos a nos comportarmos de forma inusitada, instigando-nos a nos inventar, a ser mais, quiçá melhores.
coluna do dia 28 de outubro de 2009
coluna do dia 28 de outubro de 2009
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Madame Psicanálise
Alguns leitores me perguntam por que sendo eu uma psicóloga, assino minha coluna como psicanalista? Por uma questão de identidade, eu diria. Mas o que é esta tal psicanálise, que às vezes parece tão sofisticada e longe do acesso dos simples mortais e em outras, tão deslocada do resto das disciplinas que se ocupam em entender, interpretar ou criar ferramentas de cuidados para o ser humano? A verdade é que não é muito fácil delimitarmos o campo de estudos sobre a psique humana. Desde a antiguidade, a filosofia tentou resolver os enigmas da relação entre a mente e o corpo, o espírito e a carne. Nossa longeva tradição católica nos informou sobre as tentações de nossa carne e os dilemas de nossa alma, sempre em busca de uma verdade que permitisse o convívio entre estes dois mundos conflitantes e muitas vezes apresentados como separados. Mas desde os tempos de Descartes, o conhecimento exige método, além de coerência suficiente para que possa ser partilhado entre todos. Podemos dizer que a clínica médica inaugurou um saber e uma prática que focalizava a experiência de sofrimento de cada pessoa em particular, o que fez com que o foco deixasse de ser a doença e passasse a ser o doente. A psiquiatria nasceu da necessidade que a ciência impunha para o entendimento da loucura, das patologias da mente, ou melhor dizendo, dos sofrimentos psíquicos e foi graças a todos os que se debruçaram sobre as tentativas de formular sentido ao que parecia sem sentido, que aos poucos se pode compor um acervo de conhecimentos sobre um suposto funcionamento de nossa psique. Freud já era um neurologista quando se interessou em descobrir porque a histeria era considerada uma doença sem causas físicas “reais”, mas afetava a vida e o corpo de um número importante de mulheres de sua época. Suas teorias psicológicas nascem a partir do momento em que decide “escutar” estas histéricas, tentando entender as razões de sua dor psíquica e os caminhos que as levavam a criar sintomas físicos sem correspondência alguma com os diagnósticos da ciências médicas. Cientista rigoroso, partilhava do espírito iluminista dos séculos modernos e apostava na razão, mas descobriu que sua proposta em mergulhar nas misteriosas entranhas da alma humana o levava à existência de uma segunda consciência, ou melhor de um inconsciente. Percebeu que muitas vezes não conseguíamos “ver” ou criávamos estratégias para fechar nossos olhos, construindo sintomas que tinham a intenção de nos cegar para nossos conflitos, e que funcionavam como proteção para os excessos que nossa psique não poderia suportar. Ao não “poder” saber sobre as razões de nosso sofrimento, nossos sintomas continham um significado importante: mantinham este desconhecimento para nossa sobrevivência psíquica. Sua teoria e método pretendiam tornar esta “escuta diferenciada de nosso inconsciente” uma ferramenta que pudesse finalmente fazer certas ligações e substituir os sintomas por novas possibilidades de soluções, mais comprometidas com a verdade de nossos desejos, já que mais longe de nossas angústias e inibições. Claro que as subjetividades são modos de estar no mundo e mudam ao sabor da história e das diversas tradições culturais, assim como o mal estar que produz nossos sintomas. Se a época de Freud produzia mulheres histéricas com seus sofrimentos, estes sintomas eram parte do caldo da cultura burguesa que ainda não oferecia um lugar de verdade às mulheres. Quem iria negar que hoje as depressões, bulimias e pânicos expressam melhor o sintoma social contemporâneo? Na atualidade os saberes ganharam um volume inimaginável e resta-nos torcer para que se amplie o tímido movimento de busca de uma maior colaboração entre áreas antes opostas. Quem sabe a psiquiatria biológica que entende os transtornos mentais como passíveis de serem solucionados via psicofármacos, as neurociências que se esmeram nas pesquisas sobre o funcionamento do cérebro humano trazendo sempre novos dados, as terapias cognitivistas que buscam mudanças de comportamentos via consciência, e a psicanálise com seu acervo clínico e teórico sobre o funcionamento psíquico possam contribuir para uma rede geral do cuidar humano?
coluna do dia 21 de outubro de 2009
coluna do dia 21 de outubro de 2009
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Mondo Cane
Um crítico de cinema questionava esta semana se o diretor Quentin Tarantino não teria se tornado um cineasta graças ao seu passado adolescente de balconista de vídeo-locadora, local em que (diz a lenda) teria assistido a todos os filmes que ali existiam. Certamente este fato deve ter funcionado como um elemento facilitador, ao introduzi-lo à linguagem especial do mundo cinematográfico em seus diversos estilos e criações. Mas prefiro imaginar que a escolha deste trabalho já continha sua paixão e o acesso gratuito a tantos filmes só lhe acrescentou respostas sobre muitas de suas interrogações, além de facilitar-lhe encontrar palavras ou cenas que podiam descrever sentimentos estranhos ou disfarçados, empolgantes ou perturbadores. Sabemos o quanto um filme, seja ele sobre histórias de amores, de perdas ou de violências, de ficção, de heróis ou anti-heróis, pode nos carregar a lugares ou sentimentos inesperados e tocantes. Provavelmente este acervo ajudou e muito este americano a construir seu ideal de cinema, embora sua fama de diretor ousado e muitas vezes excêntrico precise ser debitada a uma somatória de fatores. Tarantino, nascido nos anos sessenta, é filho de pai descendente de italianos e de mãe meio irlandesa, meio cherokee, mas também é filho de uma geração de tecno-crianças, que cresceu jogando vídeo games e transita de maneira confortável pela estética pop em todas as suas versões. Quem já assistiu a seus filmes sabe que eles privilegiam a ação ao invés dos diálogos e não se esquivam de cenas em que a violência é mostrada com requintes de crueldade, ou seja, com os excessos que normalmente seriam poupados por outros diretores. A razão de seu sucesso, portanto, não é tão simples. Seu esperado Bastardos Inglórios que estreou neste final de semana em circuito nacional depois de balançar Cannes, o coloca entre os mais criativos diretores de cinema da atualidade, mas também entre os mais apaixonados por este gênero. A surpresa fica por conta de ser tanto um filme de época, mais um dentre os muitos que empreendem uma leitura sobre a segunda guerra mundial, o nazismo e a perseguição aos judeus, quanto um filme que desconstrói a história, ao conduzir a trama a um desfecho alternativo ao que conhecemos. Ao mesmo tempo em que reproduz cenários e personagens importantes do período da ocupação nazista na França, que juntou os algozes (alemães da Gestapo), as vítimas (os judeus), os reféns (franceses) e os mocinhos (americanos), o diretor carrega na composição de cada um destes grupos como se ao apresentar a caricatura ao invés do rigor da história, pudesse mostrá-los mais hilários e próximos da humanidade a que todos pertencem. O roteiro segue a estética dos jogos de vídeo games de seus filmes anteriores, em que os atos cruéis e violentos de uns sobre os outros são apresentados sem grandes dilemas morais, como se o que valesse fosse apenas o querer ou o não querer matar. Mas dentro desta lógica utilitária, há uma nova modalidade de jogo, um jogo de poder e de persuasão, de estratégias sádicas e sutis de torturas empregadas pelo farejador e caçador de judeus, talvez o personagem que carregue a alma do filme. Ele é o coronel nazista Hanz Landa, que desfila seu alemão, inglês, francês e italiano com perfeição e delicadeza, comparece desde as primeiras até as últimas cenas do filme sempre com um semblante amigável e se ufana por conseguir perscrutar as almas de seus perseguidos e perseguidores a seu favor. Uma crueldade silenciosa, rasteira, das mais danosas, ao não deixar dúvidas ao seu interlocutor nem sobre a impotência deste, nem sobre o seu total poder. Muitos fatos de nosso mundinho tem nos mostrado os desastres que podemos cometer quando perdemos a fé no valor dos homens e de suas leis. Começa a valer a banalidade do mal.
coluna do dia 14 de outubro de 2009
coluna do dia 14 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Enem e outras histórias sobre exames
Já se vão mais de 30 anos ( e é bom que não me lembre dos números exatos) que deixei Ribeirão Preto com meu diploma de psicóloga em uma das mãos e nada na outra. Havia naquela época um certo pioneirismo dos formandos psicólogos, uma profissão recém reconhecida no Brasil, cujo mercado estava por ser aberto. Olhando com mais cuidado para o passado tenho a impressão de ter feito parte de uma geração sanduiche. Não cheguei a cursar o preparatório para a admissão ao ginásio, que justamente na minha vez, tornou-se obsoleto. Já na quinta série sonhava em escolher o Clássico para o secundário (as outras opções eram o Científico e o Normal), mas assisti, ainda na oitava série, a mudança para um colegial integrado: todos deveriam cursar um básico e somente no terceiro ano seria possível fazer escolhas de matérias optativas. Avessa às matemáticas e outras disciplinas que exigiam um raciocínio mais objetivo, tive que adiar meu projeto de dedicação exclusiva às humanidades e assistir o fim de estudos mais aprofundados nas áreas da filosofia, literatura e sociologia no ensino secundário. Química, física, biologia, matemática eram as vedetes da vez, acompanhando o boom das ciências. Muitos de meus interlocutores do antigo Clássico, eleitos meus modelos de identificação, com quem eu costumava trocar dicas de leituras de livros e de cultura em geral, chegaram a ingressar nas Ciências Sociais, cujo destino eu acalentava. Mas ainda cursando meu colegial, eis que surgem novos e estranhos “lugares” com nomes como Cecem, Cecea e Mapofei, exames vestibulares diferenciados para os que elegessem a área biológica, de humanas ou de exatas, respectivamente. Tudo tinha que ser revisto, à luz das novas opções. Começam a pipocar aqui e ali os cursos de preparação para o vestibular, em que alunos geralmente “nerds” de faculdades diversas, tornam-se professores e passam a preparar “aulas- shows” visando a despertar o interesse pela ingestão rápida e eficiente dos mais diversos conhecimentos exigidos para cada uma destas grandes áreas. Mantendo minha opção pelas humanidades passei a me preparar para fazer o vestibular do Cecea. Na inscrição, era possível eleger um primeiro e um segundo curso e, dependendo de meu desempenho na prova, ou seja, do número de pontos que eu conseguisse fazer e da minha classificação diante dos pontos conquistados pelos outros concorrentes, meu nome poderia constar na lista dos aprovados. Interiorana, este esquema acenava com uma abertura inesperada de novas opções para o meu antigo futuro nas Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara. Por que não escolher Psicologia, logo ali em Ribeirão Preto? Mais pomposo e muito mais atrativo, o estudo da psique humana me parecia um desafio que valia o deslocamento e o preço das mudanças que me esperavam. Este acesso mais fácil aos cursos das faculdades públicas estaduais era inédito, mas inaugurava um longo período em que o Vestibular tomaria um vulto assombroso, nos dois sentidos da palavra. Tanto na sua importância para os destinos profissionais dos jovens, que precisavam encarar um ano de muitos sacrifícios para driblar a concorrência, quanto na política das escolas particulares, que passaram (em sua maioria) a dirigir os conhecimentos oferecidos aos alunos, visando conquistar um lugar de respeito pelo número de aprovados nas faculdades mais disputadas. Embora polêmica e com certeza ainda engatinhando, a proposta de se utilizar os pontos obtidos na prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) que avalia o desempenho dos alunos durante o curso médio, como pontos decisivos para seu ingresso nas universidades, parece acenar com uma tentativa de chacoalhar a estrutura arcaica desta verdadeira indústria do vestibular. No mínimo, há um desvio para as melhorias do ensino que as escolas, tanto públicas quanto particulares, desejarão oferecer aos seus alunos, em uma era em que o conhecimento exige um entendimento que extrapola em muito as antigas fórmulas do decoreba. Talvez este desvio possa ampliar o debate, em geral parcimonioso, sobre a cada vez mais complexa rede de profissões que o nosso mundo global oferece.
coluna do dia 7 de outubro de 2009
coluna do dia 7 de outubro de 2009
domingo, 4 de outubro de 2009
As razões humanas
Dizem que os romances costumam preencher os espaços desérticos ou conflituosos de nossa vida cotidiana e por isso continuariam a angariar um grande número de leitores (ou espectadores) espalhados por este mundo afora. Alguns porque oferecem histórias que se encaixam aos anseios e dores que vivemos naquele momento, outros porque promovem um sentimento de esperança ou de aventura ao colorir a vida e renovar as apostas que fazemos em nós mesmos ou no mundo. Quem sabe este adjetivo que tanto prezamos, o romântico, seja na verdade uma invenção humana que guardaria um lugar para nossa imaginação, para as fantasias e desejos que podem nos transportar a mundos e vidas fictícias, sem que nos fosse necessário buscar grandes razões para isso. Algo que cobriria as verdades nuas e cruas ou a realidade áspera de nossas vidas e de nossas infinitas responsabilidades. Pelo romance, podemos viver amores, grandes paixões em que somos finalmente pessoas especiais e reverenciadas, mas também imaginar nossa força destrutiva, vingando-nos dos que nos desprezam, nos molestam ou nos excluem. Na verdade, esta dimensão romântica de nossa humanidade insiste, também porque vivemos a era da razão, em que somos chamados a responder permanentemente à nossa capacidade de discernir nossas boas e más condutas, escolhas ou idéias. Mas desde que o mundo passou a ser uma vitrine em que todos os seus habitantes assistem os acontecimentos em tempo e imagem real, aconteceu o inevitável: não podemos mais acreditar que somos ou já fomos razoáveis e coerentes “naturalmente”. O bom uso da razão depende de um processo longo e de um complexo funcionamento de nossa psique, que precisa crer no valor desta razão, ou seja, aceitar o preço das renúncias e dos sacrifícios que ela nos impõe e o difícil empenho em viver com as diferenças e com as injustiças sem desistir de encontrar um destino possível e aceitável para tais conflitos. O recente bafafá em torno da censura de nossa imprensa imposta por certas estratégias políticas é um exemplo interessante e denunciador não só do panorama sócio-político em que vivemos mas dos comportamentos nada “razoáveis” dos políticos que nos representam, que sem se sentirem constrangidos e em plena era da livre informação, tentam impedir que as notícias sobre as suas falcatruas e militâncias em causa própria, cheguem a público. Já o presidente da Venezuela, que desde que surgiu na cena política anunciou seu desejo de ser imortalizado como Fidel II, concedeu a si próprio o direito de não ser razoável em suas medidas de imposição de silêncio à imprensa nacional e à liberdade de expressão de seu povo. Na Argentina, seu jornal de maior circulação foi invadido por “tropas” de fiscais do governo,em uma clara intenção de constranger a publicação das não tão boas notícias sobre o casal presidente. Se a razão impõe a todos um saber sobre o certo e o errado através dos valores que são compartilhados pela comunidade, ser razoável depende de um esforço e um investimento permanente na atribuição de valor ao nosso semelhante, seja ele quem for. As decisões e ações destes políticos contrariam o razoável e contribuem para mostrar que aqueles que elegemos para nos representar em nossos interesses (assim como nós) não estão imunes aos anseios humanos de poder ou aos de se evitar os tributos morais e a submissão às leis e aos códigos que deveriam regular, ainda que razoavelmente, nossas vidas em comum. Quem sabe fazem parte das “razões” que nossa própria razão desconhece.
coluna do dia 30 de setembro de 2009
coluna do dia 30 de setembro de 2009
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