sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Elas podem vir a saber o que querem
Está causando “tititi” a estréia marcada para o próximo 11 de novembro da nova série em seis capítulos da rede Globo. Inspirada na célebre frase proferida por Freud em uma carta escrita à amiga e princesa Marie Bonaparte, a trama de “Afinal, o que Querem as Mulheres?” é baseada nas inquietações e questionamentos do estudante de Psicologia André Newman (Michel Melamed), cujo mestrado é dedicado a esclarecer tal premissa. O que não deixa de ser surpreendente, no entanto, é que tendo atravessado quase um século de existência, a famosa frase continue a provocar debates, fomentar textos, ou simplesmente a servir de mote para uma historia contemporânea. De certa maneira ela tanto intriga aos homens para quem (ao menos alguns) as mulheres seriam um eterno enigma, quanto às próprias mulheres que muitas vezes acatam esta imagem de seres sem definição. É bom que lembremos que a frase foi originalmente dirigida a uma mulher e tendo partido de Freud, um pesquisador incansável da alma humana, pretendia não só apontar a complexidade das possíveis respostas, como compartilhar ou dar ouvido às suas falas. Se há um consenso quanto a historia recente das mulheres (ocidentais) este diz respeito às conquistas sociopolíticas que garantiram a todas o direito de serem donas de suas próprias vidas. Mas há também um fato importante que às vezes passa despercebido e que de certa forma mudou o panorama geral das atuais e das próximas gerações de mulheres. Estamos falando de todas aquelas que nas últimas décadas vem contribuindo com a construção de um acervo de depoimentos, reflexões, livros, músicas, projetos sociais, programas de TV, blogs, oferecendo assim um repertorio de ações, pensamentos e sentimentos próprios da “espécie” feminina. Algo com o qual se pode contar quando aquela sensação de vazio ou desamparo, de ódio e cólera, de desespero e angústia invade e já não se sabe o que se passa e porquê. Nestas horas é bom poder imaginar que alguma mulher em algum lugar já pensou ou já sentiu algo semelhante. Que elas existem, tem questões próprias e buscam respostas para si. Segundo o diretor Luiz Fernando Carvalho (o mesmo de “os Maias” e “Capitu”) o seriado não pretende responder a questão freudiana e sim contar a travessia aflita e angustiada de um homem obcecado e fascinado pelos meandros da mente feminina. E ainda que o diretor confesse achar ridícula a tragédia deste personagem, não por acaso o tema do seriado gira em torno desta busca. Afinal o que insiste através dos tempos - mesmo com a consolidada igualdade de direitos entre os sexos- parece ser o “real” de sua diferença, quem sabe a primeira experiência de confronto com um “outro diferente de mim” que toda a criança enfrenta em sua vida social. E foi este talvez o mais perspicaz ponto da pesquisa freudiana, ao dar importância às “teorias” que as crianças constroem para dar conta de tal diferença ou ainda das fantasias criadas para aceitar/ reconhecer a existência de uma outra lógica sexual, atribuída ao sexo oposto, mas que pode muito bem habitar o interior de todas as identidades. Sabemos que a melhor maneira de sustentarmos nossas crenças é nunca confrontá-las. Mas as narrativas atuais têm preferido abrir o debate de certas premissas sobre as quais construímos nossas identidades, questionando ( ainda bem!) as relações humanas, os medos, desejos e anseios de todos nós. Talvez por isso, o diretor se diz animado em apostar em uma nova forma de fazer dramaturgia, uma prosa contemporânea, mais coloquial, que una o romântico ao patético, a tragédia à comédia. Vamos conferir.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Mr. Freud
“Durante a vigília, vejo um tigre e tenho medo; no sonho, tenho medo e vejo um tigre”
Jorge Luis Borges
Pensadores importantes de áreas diversas e épocas diferentes já habitaram as bancas de jornal em coleções que pretendiam ampliar a divulgação (fato que acho louvável) de seus feitos. Recentemente a mídia vem anunciando uma nova coleção de livros sobre alguns que mudaram o mundo, ocasião em que será ressuscitado Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Darwin, Marx, entre outros nomes que contribuíram com suas idéias em áreas como a filosofia, a política, a economia, a religião, e fizeram diferença na maneira como pensamos o mundo e a nós mesmos. A surpresa fica por conta de que um destes livros será dedicado a Freud o que o eleva ao patamar dos personagens importantes da história da humanidade. No senso comum, Freud é lembrado sempre que achamos que ele “explicaria” certos atos ou pensamentos humanos que fogem ao padrão considerado corriqueiro. Quem nunca ouviu a célebre frase “Freud explica”? De certa forma este jargão popular não deixa de apontar para o sentido do “novo campo de saber” inaugurado por Freud, batizado de psicanálise, um ramo da psicologia que se situa entre a filosofia e a medicina e que busca explicar os conteúdos de nossa vida psíquica que ficam fora de nossa consciência. Nossos sonhos seriam o paradigma deste funcionamento psíquico “inconsciente” ou virtual já que insistem em nos causar um estranhamento ao deixar emergir, sempre disfarçados, certos conteúdos soterrados em algum lugar de nossa memória afetiva. Os lapsos, as piadas e finalmente nossos sintomas psíquicos seriam outras das produções deste lugar ao mesmo tempo longínquo e familiar. Por isso nossa história oficial, aquela com a qual nos apresentamos, tem sempre uma versão própria que precisa incluir nossas crenças e fantasias e até sofrer ratificações a fim de escamotear seu conteúdo reprimido. Mas ainda que a cultura atual já tenha absorvido muitas das contribuições da psicanálise tais como a importância atribuída às experiências infantis e aos pais enquanto influência fundamental e determinante para o futuro de cada um de nós, há sempre resistências tanto no nível individual quanto no coletivo, na admissão de uma vida psíquica complexa cujas dimensões possam co-existir sem o nosso conhecimento absoluto. O próprio Freud já teria antecipado tais resistências ao comparar sua psicanálise ao inevitável caos e desordem da chagada da “peste” nos séculos anteriores. No bojo desta inquietação estaria o fato dela não endeusar a consciência e repetir indefinidamente o quanto somos movidos a paixões, o quanto nosso eu não é senhor em sua própria casa e o quanto muito do que somos nos escapa. Não custa lembrar que a experiência psicanalítica, por meio de um dispositivo simples– falar sobre nós mesmos a uma outra pessoa – convida-nos a um mergulho aos meandros de nossa alma, a fim de que possamos tentar conhecer algo daquilo que nos determina à nossa revelia e que nos leva, na maior parte de nossas vidas, a atribuir a outros (pais, parceiros amorosos,chefes, corpo) as nossas infelicidades. E é justamente por não excluir, ao contrário, incluir estes fatores que não estão disponíveis, que ela continua sendo uma experiência que pode levar a uma profunda transformação de nós mesmos: ao permitir que descubramos mais de nós ao nos ouvir falar, que possamos quiçá encontrar e elaborar nossa historia e nossa vida dando-lhe um sentido que não seja demasiado custoso, que nos ajude a encarar a brutalidade do mundo sem a necessidade de interpretá-la como se fosse um complô ou uma penitência merecida por ousarmos criar novos rumos para nossas vidas.
Jorge Luis Borges
Pensadores importantes de áreas diversas e épocas diferentes já habitaram as bancas de jornal em coleções que pretendiam ampliar a divulgação (fato que acho louvável) de seus feitos. Recentemente a mídia vem anunciando uma nova coleção de livros sobre alguns que mudaram o mundo, ocasião em que será ressuscitado Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Darwin, Marx, entre outros nomes que contribuíram com suas idéias em áreas como a filosofia, a política, a economia, a religião, e fizeram diferença na maneira como pensamos o mundo e a nós mesmos. A surpresa fica por conta de que um destes livros será dedicado a Freud o que o eleva ao patamar dos personagens importantes da história da humanidade. No senso comum, Freud é lembrado sempre que achamos que ele “explicaria” certos atos ou pensamentos humanos que fogem ao padrão considerado corriqueiro. Quem nunca ouviu a célebre frase “Freud explica”? De certa forma este jargão popular não deixa de apontar para o sentido do “novo campo de saber” inaugurado por Freud, batizado de psicanálise, um ramo da psicologia que se situa entre a filosofia e a medicina e que busca explicar os conteúdos de nossa vida psíquica que ficam fora de nossa consciência. Nossos sonhos seriam o paradigma deste funcionamento psíquico “inconsciente” ou virtual já que insistem em nos causar um estranhamento ao deixar emergir, sempre disfarçados, certos conteúdos soterrados em algum lugar de nossa memória afetiva. Os lapsos, as piadas e finalmente nossos sintomas psíquicos seriam outras das produções deste lugar ao mesmo tempo longínquo e familiar. Por isso nossa história oficial, aquela com a qual nos apresentamos, tem sempre uma versão própria que precisa incluir nossas crenças e fantasias e até sofrer ratificações a fim de escamotear seu conteúdo reprimido. Mas ainda que a cultura atual já tenha absorvido muitas das contribuições da psicanálise tais como a importância atribuída às experiências infantis e aos pais enquanto influência fundamental e determinante para o futuro de cada um de nós, há sempre resistências tanto no nível individual quanto no coletivo, na admissão de uma vida psíquica complexa cujas dimensões possam co-existir sem o nosso conhecimento absoluto. O próprio Freud já teria antecipado tais resistências ao comparar sua psicanálise ao inevitável caos e desordem da chagada da “peste” nos séculos anteriores. No bojo desta inquietação estaria o fato dela não endeusar a consciência e repetir indefinidamente o quanto somos movidos a paixões, o quanto nosso eu não é senhor em sua própria casa e o quanto muito do que somos nos escapa. Não custa lembrar que a experiência psicanalítica, por meio de um dispositivo simples– falar sobre nós mesmos a uma outra pessoa – convida-nos a um mergulho aos meandros de nossa alma, a fim de que possamos tentar conhecer algo daquilo que nos determina à nossa revelia e que nos leva, na maior parte de nossas vidas, a atribuir a outros (pais, parceiros amorosos,chefes, corpo) as nossas infelicidades. E é justamente por não excluir, ao contrário, incluir estes fatores que não estão disponíveis, que ela continua sendo uma experiência que pode levar a uma profunda transformação de nós mesmos: ao permitir que descubramos mais de nós ao nos ouvir falar, que possamos quiçá encontrar e elaborar nossa historia e nossa vida dando-lhe um sentido que não seja demasiado custoso, que nos ajude a encarar a brutalidade do mundo sem a necessidade de interpretá-la como se fosse um complô ou uma penitência merecida por ousarmos criar novos rumos para nossas vidas.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Gula humana
Quando o filme Wall Street: poder e cobiça chegou aos cinemas, em 1987, as bolsas de valores tinham sofrido um crash de grandes proporções, e os americanos estavam em choque. O filme expunha as entranhas do mercado financeiro e o mundo ilegal de suas negociações ao mostrar como banqueiros compravam empresas, destituíam-nas de seus ativos e destruíam-nas deixando trabalhadores desempregados. Era a década em que bancos e fundos de investimentos lucravam de forma inimaginável na base do capital especulativo e Gordon Gekko (Michael Douglas), paradigma destes excessos financeiros, encarnava um dos melhores e mais ricos especuladores do mercado, um tipo agressivo que sabia como e onde conseguir informações que lhe permitiam manter o jogo “poder e cobiça”. O nome Gekko não foi pensado por acaso. Deriva-se de Gekkonidae - animal da família de répteis- silencioso, observador e sorrateiro. Na esteira da grande crise financeira de 2008 que abalou o globo, atraiu a ira universal de políticos e expôs uma sucessão de escândalos na área das finanças, estreou há algumas semanas Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme. O mesmo Gordon Gekko (ainda Michael Douglas) após oito anos preso por fraudes financeiras, lança seu livro “A ganância é boa?” e passa a fazer palestras em universidades questionando o "risco moral", a tal pirâmide financeira que todos compactuam ao hipotecar seus imóveis. Gekko, tal e qual um guru às avessas, começa a ganhar pontos junto a nova geração de aspirantes a investidores e milionários de Wall Street, que inclui os muitos estudantes de MBAs que já comandam companhias de investimentos. Um destes é justamente Jacob Moore ou Jake, o jovem idealista que trabalha nesta área em um banco e sonha em abrir caminhos em Wall Street para investimentos na chamada “energia verde”. Namorado de Winnie Gekko, filha de Gordon Gekko, Jake não tem como dividir com a amada seu fascínio pelo sogro. Desde a morte do irmão por overdose no período em que o pai estava preso, ela se afastara decepcionada e magoada, mantendo-se resistente a uma reaproximação. Winnie também não esconde o desprezo que sente pelo mundinho que fascina Jake e, ao contrário dele,comanda um blog jornalístico "sem fins lucrativos" em que são constantes as denúncias sobre o mundo corporativo. É bom lembrar que “Wall Street” era apenas uma rua da baixa Manhatan em Nova York que nas ultimas décadas foi se tornando o centro do mundo financeiro global graças ao fato de abrigar a mais famosa Bolsa de Valores. Tanto o primeiro quanto o segundo filme do diretor Oliver Stone pretendem apresentar um pouco deste mundo formado basicamente por homens poderosos ou desejosos deste poder, fascinados pelo jogo de astúcia que envolve o “ganhar sempre mais”. Um jogo cujas regras incluem farejar frestas “legais” do mercado financeiro que podem gerar lucros rápidos, mudando-se apenas os alvos e as pessoas. Mas se este jogo pode se manter dentro das leis ou de suas falhas, ele aponta para o “risco moral” como irá pregar o Gekko pós- cadeia, tentando “vender” sua experiência anterior acrescida dos riscos que ela pode conter. Existe limite para a ganância humana? Ela pode ser “boa”? Na verdade a ganância habita a seara do “gozo” humano e fascina a todos- os que imaginam que a tem e os que se sentem excluídos- e o perigo começa quando ela é de certa forma “legalizada”. Aí é como se não pudesse haver mais limites para a acumulação de capital e menos ainda para seus desastrosos efeitos à “boa e justa” convivência humana. Não importa se a busca de lucros é trágica para alguns ou se transforma em farsa para outros: permanece a cumplicidade dos interessados em manter certa imunidade e proteção mútua, até que algum furo no sistema detone alguma nova “crise”. No entanto o jogo continua e as pessoas que se beneficiam ou são prejudicadas são apenas parte deste jogo; suas chances dependem dos interesses dos que comandam as peças naquele momento. Por ser um jogo que subverte as leis e as normas para benefícios de poucos, cria-se a ilusão de um “limbo” que passa a ser objeto de desejo de todos. É assim que trocando pessoas, crises e bolhas econômicas, a roda do jogo não pára e nem cessa a reverencia aos jogadores. Mas talvez a magia do mercado financeiro esteja não na proeza dos magos que a executam, já que de tempos em tempos transforma-se em truques baratos, mas na necessidade humana de crer, de se iludir. Espaço das paixões?
Para conferir: Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme
titulo original: (Wall Street - Money Never Sleeps) 2010 (EUA)
direção: Oliver Stone
atores: Shia LaBeouf , Carey Mulligan , Charlie Sheen , Michael Douglas, Susan Sarandon
Para conferir: Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme
titulo original: (Wall Street - Money Never Sleeps) 2010 (EUA)
direção: Oliver Stone
atores: Shia LaBeouf , Carey Mulligan , Charlie Sheen , Michael Douglas, Susan Sarandon
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Simples reciclagens
Garrido arqueou as sobrancelhas para expressar sua conclusão: se o Brasil era campeão em reciclagem de latinhas de cervejas, que tal reciclar pessoas? Um negro de cinqüenta e poucos anos, olhar penetrante, coração aberto, Garrido falava para uma pequena platéia composta de profissionais da área psi, sobre seu projeto de recuperação e “reciclagem” de pessoas. Sendo ex-boxeador, há alguns anos atrás, abril de 2004, parecia que seu sonho se realizaria. Depois de anos treinando o filho Fabio batendo em geladeiras, pneus e surdinas de caminhão pendurados na academia da família - Vila Ré, Zona Leste da cidade de São Paulo- este iria enfrentar o então campeão em uma luta que valia o título brasileiro dos meio-pesados pela Confederação Brasileira de Boxe. Mas foi duramente nocauteado, e além de ficar entre a vida e a morte, sua carreira (e com isso o sonho de um lugar especial) ficara abortada pela contusão cerebral que sofrera. Tempos depois, trabalhando como segurança no centro de São Paulo, ao ver crianças cheirando cola e fumando crack, Garrido resolveu trazer a idéia da geladeira velha, os restos de carros/ pneus usados e algumas pedras para improvisar uma academia de boxe e oferecer a quem quisesse, um espaço para treinar. Logo a idéia cresceu e o antigo espaço sob o Viaduto do Café, local de tráfico de drogas e de desabrigados tornou-se referencia no bairro do Bexiga, atraindo moradores e até empresários que se sensibilizaram com a “paixão” com que Garrido se dedicava ao resgate de qualquer pessoa em vulnerabilidade social, desde crianças de rua, ex-detentos, meninos recém-saídos da Febem, catadores de lixos, moradores de rua,etc. Em meio ao pensamento contemporâneo marcado pelo ceticismo e pelo individualismo, ouvir alguém falar de forma ao mesmo tempo despretensiosa e apaixonada sobre as possibilidades de se abrir ao outro, mesmo em face às mais pungentes adversidades é no mínimo alentador. A maioria dos que o assistiam se surpreendia pela forma simples com que ele afirmava o resgate de pessoas totalmente excluídas da rede social.Parecia mal se dar conta da potencia de seus projetos pessoais e da aposta sensível na resposta positiva de seus investimentos no outro, mesmo com todas as evidencias de falência. Paradoxalmente o boxe acenava com um destino para a violência, uma violência submetida às regras, à disciplina e, portanto capaz de gerar vida e ajudar na criação da realidade compartilhada. Já se vão seis anos e Garrido continua com sua “garra”. Seu projeto cresceu, ganhou a parceria da amiga Cora Batista que há anos trabalhava com assistência social às mulheres e chega à terceira ponte (no bairro de São Miguel Paulista) transformada em espaço aos moradores pobres locais ou a quem se interessar por “novas oportunidades, disciplina, e autoestima” segundo suas palavras. O Cora Garrido Boxe ou o Projeto Viver continua transformando alguns que vivem assujeitados pelo medo,pela violência,pela falta de oportunidades ao oferecer uma brecha de acesso à vida, uma “reciclagem” do desejo que permite a construção de um sentido, em um clima de trocas e solidariedade.Garrido leva a mesma“palavra” aos seus pupilos, incitando-os a manterem seus espíritos abertos à multidão dos excluídos, marginalizados, pobres em geral.Algo como a construção da tal responsabilidade social. Sua frase preferida é a que reafirma sua aposta: transformar “pessoas em seres humanos”, “reciclá-las”. Mas a que mais toca é a que diz que isto é simples, muito simples, basta querer fazer.
Para conferir:
Cora Garrido Boxe (Projeto Viver)
Email: coragarrido@gmail.com
Para conferir:
Cora Garrido Boxe (Projeto Viver)
Email: coragarrido@gmail.com
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Confiar desconfiando
A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos divulgou recentemente uma propaganda que parece ter a intenção de afirmar e resgatar algo precioso para seu funcionamento: a confiança. Não há como negar uma certa tradição desta instituição que, mesmo em meio as várias tempestades político-sociais do país, consegue manter sua credibilidade. Não titubeamos em mandar não só cartas, mas itens diversos para todo e qualquer lugar deste Brasil e do mundo. No fundo apostamos que irá chegar. Em geral chega. A propaganda que está sendo veiculada também nos cinemas, conta a história de um menino extremamente desconfiado. Nas cenas que se sucedem, ele tanto desconfia que seus pais não sejam verdadeiros como fica estudando minuciosamente um cachorro quente sem coragem de comê-lo. Já mais adolescente ele chega ao correio e pergunta à atendente se seu Sedex chegaria para a fulana que mora na cidade X. Sorridente, ela recebe prontamente o pacote e lhe devolve um “sim” cheio de certeza. Ele acredita. Está curado. Na simplória maneira de retratar o percurso da desconfiança até a aquisição da confiança a propaganda também aponta a importância desta última para o bem viver. Não por acaso. O mundo contemporâneo com seus riscos e sua permanente busca de segurança exige que cada um de nós possa contar com uma confiança básica, quer dizer, uma capacidade para confiar que inclua a desconfiança. Na difícil tarefa de aprendermos a lidar com os sentimentos (nossos e dos outros) é importantíssimo que a desconfiança que surge diante das separações e frustrações inevitáveis possa ser articulada a uma confiança nas pessoas e no meio em que vivemos. É comum que algumas propagandas que visem despertar a nossa “confiança” para determinados serviços ou produtos exibam cenas em que bebês- cuja fragilidade é sempre notória - são arremessados ao ar por seus pais: em foco a expressão de medo, tensão e excitação até o retorno ao abraço vigoroso e protetor que os recebe. Uma cena paradigmática do exercício da “boa” confiança pois implica que se possa admitir o medo diante da percepção de um perigo externo real sem que este impeça a exposição voluntária ou intencional ao perigo e ao medo justamente por se apostar tanto no fim do perigo quanto no fato de que o medo será tolerado e dominado. Confia-se (a revelia das ambivalências e tensões) que se sairá ileso e seguro desta experiência. Claro que estamos falando de uma confiança ideal, já que no duro e intranqüilo percurso de nos tornarmos adultos, nossa confiança faz embates sem fim à desconfiança e muitas vezes não podemos ou não conseguimos sair dos extremos em que ficamos retidos ou em uma confiança idealizada e indiscriminada em que acreditamos ingenuamente para em seguida desconfiar, descartando os sinais de perigo ou a sensação de medo, ou na desconfiança de tudo e todos que nos impele a manter distancia e controle, “confiando” demasiadamente em ferramentas nossas ou externas contra todos os perigos. Na verdade a propaganda dos Correios, ao exibir o sorriso acolhedor da atendente e o pronto levantar de seus braços em direção ao pacote do adolescente, deixa no ar a grande dica: a construção de nossa confiança precisa ser um projeto que implique a presença de um outro confiável, que suporte nossas ambivalências, medos, ódios, amor, etc.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
O Lula é pop
Nas últimas edições de grandes jornais e revistas brasileiras é possível encontrarmos textos de alguns pensadores que tentam analisar a força de Lula e sua inabalável liderança política. Afinal como explicar que em um país nada pequeno e nenhum pouco homogêneo como o Brasil, uma candidata praticamente desconhecida, sem um currículo político relevante para a lembrança dos cidadãos, passasse em tão pouco tempo de campanha, a liderar de forma tão exuberante as pesquisas eleitorais? Há os que comparam Lula a Getulio Vargas, um líder que, em seu tempo, soube compor a figura de pai e protetor das classes menos favorecidas ao organizar o caótico panorama das leis trabalhistas e sociais do país, garantindo um patamar mínimo de direitos aos trabalhadores e deveres aos empresários. Mas se Getulio também governou como um pastor ciente de seu lugar de líder, alimentado por suas ovelhas satisfeitas, não conseguiu evitar o crescimento de uma oposição importante, responsável por sua queda. O fenômeno Lula chama a atenção de gregos e troianos justamente porque mesmo após a sua reeleição (em bases democráticas) e as muitas denúncias de uma certa degradação moral e irrestrita da vida política do país,parece não haver uma oposição que lhe faça sombras. Há sim uma gritaria sem fim (vide os zilhões de e-mails que circulam na web) de uma faixa que percebe Lula como o protótipo do “sem lugar” que se apossou indevidamente de “um lugar” que lhe confere mais poderes e benesses do que mereceria. Mas estas vozes estão mais do lado dos guardiões de uma suposta e idealizada estabilidade confortável e longe de se constituir em uma crítica construtiva para a política do país. E, ao que parece, tanto a “direita” quanto a “esquerda” encontram-se desorientadas diante da força do lulismo, o que fica particularmente claro nas minguadas e irrelevantes propostas que seus candidatos alardeiam. É neste vácuo que vemos surgir candidaturas - caso de Tiririca e outros – que seriam impensáveis em países que atribuem uma seriedade maior ao papel de sua dimensão política. Como bem lembraram alguns, ainda que importantes figuras do PT pudessem ter mantido nestes oito anos um trabalho permanente de consolidação de suas bases políticas, é a figura de Lula e seu indiscutível carisma que continua “causando”. Pode-se facilmente discordar de seus méritos, mas a verdade é que Lula é hoje uma espécie de mito no cenário político global e sua popularidade lembra a de alguns grandes líderes de nossa era moderna, capaz de mobilizar uma importante massa de pessoas. E a história nos conta que tais líderes nascem quando sabem ocupar com maestria este lugar idealizado de um pai ao mesmo tempo forte, amoroso e protetor, cujas palavras conseguem “garantir” aos seus diferentes filhos, a boa condução do futuro de cada um. Não por acaso seus discursos parecem proferidos por um profeta, com toda a carga de onipotência que caracteriza os que se imaginam estar em um lugar especial, quase divino. Resta a nós pensarmos cá com nossos botões porque, ao longo da historia humana e da tarefa de nos constituirmos como sujeitos adultos, cônscios de nosso papel social, moral e político, cedemos tão facilmente às promessas de um pai, passamos-lhe o bastão desta tarefa e outorgamos-lhes direitos que muitas vezes comprometem nossas conquistas em direção a uma vida compartilhada , mais justa e produtora de novas versões.
Eternos românticos
O filósofo e economista americano Francis Fukuyama ficou famoso ao inventar uma versão moderna do fim da história. Cético, ele previu o futuro sem voltas de um mundo sob a tutela do mercado, um jogo infinito em que qualquer acordo (nacional ou internacional) ficaria atado à provável ou improvável “reação do mercado”. Um pouco mais além estariam os que apostam que nossa civilização possa ser mortal e tal como qualquer ser vivo, venha a desaparecer com seus procedimentos, suas obras de arte, sua filosofia, seus monumentos. Quem sabe as previsões para os rumos de nossa civilização nunca cessem de percorrer este fio entre a aspiração de que possamos calculá-los em números exatos, sob uma lógica objetiva e a eterna aptidão humana para preencher os espaços vazios com sua dimensão romântica, que rompe com este pensamento. A cada momento da história, uma fatia da humanidade se ocupa destes espaços, encarna uma espécie de Dom Quixote e inventa sonhos e quimeras - de certa forma necessários -para que seja possível continuarmos a crer em nós mesmos ou em algo além de nós. Nas décadas de 50 e 60, o mundo assistiu o surgimento de um esquerdismo romântico, das revoluções aos protestos de jovens que buscavam novos mestres e novas metas. A relação atual do homem tecno com a natureza, por exemplo, produziu o movimento “verde” pró preservação e proteção do meio ambiente e de quebra um apelo ao convívio mais íntimo com o natural. A medicina homeopática continua a roubar uma porcentagem de consumidores de medicina tradicional ao oferecer um tratamento individualizado, que privilegia a relação de cada um com seus sintomas. Parece ser na busca interminável de sentido para nossas vidas que inventamos o “romântico”. É necessário transformar a crueza de nosso funcionamento biológico em fonte de emoções e sentimentos que inspirem nossas produções artísticas, sejam músicas, ilustrações ou narrativas (literatura/cinema). E que não esqueçamos nem o humor, esta via que nos lembra o lado cômico de nossas pretensões, nem a tragédia, pronta a tocar o mais fundo de nossas almas, submetidos que estamos ao duro convívio com nossos pares, conosco mesmos e com nossa finitude. Personagem privilegiado destas paragens românticas, o Amor se mantém nas paradas de sucesso.Tal e qual uma roupa quentinha e aconchegante que nos conforta em dias gélidos, “conhecê-lo” continua sendo um alento dos mais ansiados.
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