Alguns filmes de ficções sobre o futuro da humanidade costumam mostrar um mundo “noir”, em um cenário em geral pós-moderno misturado a uma degradação ambiental (e pessoal) tudo permeado por uma alta tecnologia. No mundo do trabalho ou se está em uma espécie de imenso bazar de serviços prestados por uma população de excluídos ou em mega-empresas que funcionam de forma automatizada em imensos, silenciosos e ultramodernos prédios, com portas monitoradas. Se por um lado anuncia-se um mundo que caminhou na direção da realização de muitos dos desejos mais humanos, são postos em evidencia os custos e os restos e ressaltadas as perdas de possibilidades de trocas e encontros entre cada um. Na animação francesa de 2006 intitulada Renaissance a história se passa na Paris de 2054, uma cidade onde todos os movimentos são monitorados e gravados e os arranha-céus se impõem sobre as obras de arte da arquitetura dos séculos passados. Ali uma empresa de cosméticos (Avalon) domina toda a cidade com seus outdoors eletrônicos e banners holográficos prometendo beleza e juventude eternos e influenciando todos os aspectos da vida de seus moradores. A esta dupla será acrescentada a imortalidade, responsável pelas disputas, mortes e desaparecimentos em torno da aquisição de suas pesquisas. Já Blade Runner, de Ridley Scott (1986), um dos filmes cult da década de 1980, se passa na Los Angeles de 2019. Na trama a Tyrel Corporation que criou robôs (replicantes) virtualmente idênticos aos seres humanos (inteligentes, mais ágeis e fortes) para serem usados fora da Terra em tarefas perigosas da colonização planetária, decide contratar caçadores de andróides para “removê-los” devido a uma rebelião de alguns que reivindicam um tempo maior de vida. Nesta caçada, muitas questões sobre a existência humana são colocadas. Em ambos os filmes, o cenário é opressivo, a noite e a chuva se impõe indicando que a idéia de uma ciência que não aceita mistérios, que não respeita a fronteira entre a vida “natural” humana e a artificial seria danosa para a humanidade, por transgredir um legado cultural de sentidos para nós. É curioso como em 2011, já não estranhamos mais que nossos corpos precisem se adequar aos novos tempos e para isso sejam convocados a ficarem mais compatíveis com uma imagem em que não apareçam seus sinais de excessos, de faltas, de envelhecimento. São poucos os que se recusam a se submeter a programas intensos de qualidade de vida, de bem estar ou de estetização ou contestam o fato de que a tecnologia possa aprimorar e reformar a espécie humana. A reportagem de capa da Revista Veja do dia 15 de junho último anunciava pelas vozes do inglês Aubrey de Grey e dos americanos Raymond Kurz weil e Timothy Ferriss que o homem que viverá 1000 anos já havia nascido. A verdade é que na linha do rápido desenvolvimento das tecnociencias das últimas décadas, o controle do envelhecimento e as várias intervenções direcionadas ao rejuvenescimento levam a crer que um dos desejos mais antigos da humanidade, a imortalidade, pode enfim aparecer como luz no final do túnel. Não mais pela promessa de um paraíso pós-morte, de um Olimpo habitado por alguns deuses ou de mitos antigos sobre ilhas de fantasias onde todos seriam imortais. Segundo suas previsões, dentro de uma década, a cada ano vivido será acrescentado um ano na expectativa de vida das pessoas: esta é a sedutora promessa de um upgrade biológico humano. Na concepção da ciência, somos como máquinas, portanto, potencialmente consertáveis, e mesmo que nosso corpo biológico padeça, poderemos manter suas informações em uma espécie de memória artificial. É pouco? Há dois anos, Kurzweil fundou no coração do Vale do Silício, Califórnia, a Universidade da Singularidade destinada a preparar a humanidade para a aceleração das mudanças tecnológicas, uma verdadeira tropa de elite apta a lidar com o impacto dessa transformação. Já em 2045, em decorrência da velocidade dos saltos da computação e das tecnologias associadas a ela, será impossível distinguir as máquinas mais avançadas dos seres humanos. A inteligência artificial chegará ao patamar dos homens e transcenderemos nossas limitações biológicas. Morrer será difícil, ainda que inexorável. Os cegos voltarão a enxergar por meio de olhos biônicos,os amputados terão pernas artificiais que reagirão ao comando direto do cérebro, os genes que não nos interessam, como os que levam à obesidade ou a doenças degenerativas, serão silenciados, enquanto outros serão reprogramados e ativados. Nanorrobôs viajarão por nosso organismo, combatendo enfermidades e fazendo microcirurgias internas. Ou seja, no futuro singular dos humanos, as velhas certezas, como a morte, passam a ser relativas. As ficções que chamamos de “científicas” e que em geral prevêem um futuro de “tecnologias” avançadas na eterna busca de um controle cada vez mais absoluto sobre o imponderável da “natureza” são em sua maioria apocalípticas. Talvez porque elas sejam produto de questões que não conseguimos responder sobre os nossos próprios limites ou nossos temores pelos nossos mais recônditos desejos de imortalidade. Quem viver poderá responder?
sábado, 2 de julho de 2011
Quem viver verá?
O lugar do amor
Aqui, ali, em todos os lugares
Uma amiga que há muitas décadas se ocupa em despertar os jovens para a importância de seu papel na escolha da profissão de educadores, constatava desanimada o aumento na porcentagem de evangélicos entre seus alunos, o que, segundo sua percepção, muitas vezes os impedia de se engajar em questões cruciais para o seu desenvolvimento pessoal e por decorrência, profissional. Perguntava-se por que, em um mundo tão mais livre, tão mais aberto ao debate e às inúmeras opções de escolhas para se viver, estes jovens universitários pareciam se “proteger” - atrás de crenças e práticas “sagradas” - de seus sentimentos morais, evitando todo e qualquer questionamento sobre si mesmo. Nesta semana em uma reportagem intitulada “a preguiça como profissão”, a Folha On line trazia depoimentos de jovens já formados, com domínio de uma ou mais línguas, com um currículo de viagens pelo mundo, mas que escolhiam ficar algum tempo sem trabalhar, à deriva pela internet com os amigos ou com os videogames, muitos com a anuência de seus pais. A frustração de minha amiga tinha um sentido especial para ela que viveu e lutou em sua juventude, contra uma civilização que impunha, entre outras coisas, limitações à exploração do corpo, do prazer, da criatividade. Da sua história pessoal ela guarda com orgulho um movimento de ruptura, um deslocamento de suas heranças familiares em direção ao futuro, oferecendo-se como elemento catalisador das novas tendências de sua época: mudar a si mesmo e ao mundo com seu desejo na carona da utopia de reinvenção da ordem social. Pensemos em como os jovens, hoje em dia, podem e devem escolher o que quiserem,seja em termos profissionais, amorosos ou em relação aos valores pessoais, assim como suas famílias são incitadas a deixá-los livres, não impondo sua própria referência. Há uma expectativa geral para que sejam felizes, bonitos, corpos perfeitos e saudáveis prontos a consumir os inúmeros e diversificados objetos oferecidos pelo mercado. Aqui e ali sabemos que alguns pais lamentam a falta de ideologias no mundo atual que tenham o mesmo apelo à participação no espaço político como em décadas anteriores. Mas a possibilidade dos jovens se “engajarem” no mundo em que vivem e inventarem seu futuro não está atrelada somente ao momento cultural. Em qualquer época, eles podem ser promessas de realização dos sonhos das gerações anteriores, rebeldes sem causa, alienados, podem causar medo ou incomodar ou ainda podem se assustar com o mundo que lhes espera. Em geral eles são tanto objetos de inveja quanto de temor, mas uma boa porcentagem fica capturada nos sonhos e desejos de felicidade absoluta de seus pais ou em seus pesadelos e desordem. Alguns privilegiados conseguem localizar onde está o impossível, o que está interditado e o que se faz impotente na cultura,e de alguma forma agem no sentido de provocar mudanças, mas todos, de uma maneira ou de outra, pedem que os escutemos, que possamos perceber seu vaivém entre a angústia e a depressão ou em suas tentativas de se defender de uma com a outra. A passagem para o mundo adulto com suas limitações sociais quase nunca é feita sem luta, sem transgressões. Por seu lado a multiplicidade de ilusões imaginárias que a cultura oferece vem colada a um excesso de exigências, mesmo que sob a forma de promessas de prazer e realização. Por isso é possível que muitos pais tendam a facilitar ao máximo a vida de seus filhos, e resistam a lhes impor restrições ou a discutir valores. Por outro lado, muitas religiões acenam com a possibilidade de regulamentação da vida através de sua fixidez de regras, o que alivia o desamparo - às vezes insuportável - de muitos jovens ( e de seus pais). Cada qual com seu preço.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Nossas histórias
O professor e crítico literário americano Harold Bloom que se dedica há algumas décadas ao estudo de Shakespeare costuma dizer que o dramaturgo inglês inventou o humano. Assim como outros, ele tenta entender o fascínio de todos sobre a obra de Shakespeare - cujas peças não cessam de ser revisitadas, atuadas e lembradas - atribuindo-o à sua capacidade inquietante de atravessar os obscuros labirintos da mente humana, desnudando paixões, iluminando desejos ou apontando os grandes fantasmas que perseguem a alma humana. De certa forma o filme “Shakespeare apaixonado” de 1998 é um produto desta duradoura paixão e mostra um diretor que faz uso de um material histórico de maneira livre e inventiva ao transpor o enredo de Romeu e Julieta para a vida de seu autor. No filme o teatro e a Inglaterra de Shakespeare são reconstruídos e mostram como em sua época, suas peças se adaptavam ao gosto do público (e às capacidades da trupe), talvez porque houvesse ali um poeta ousado e antenado tanto com este público como com o mundo ao seu redor. Os estudiosos da obra shakespeariana marcam sua passagem, a partir de Hamlet, para uma nova forma de expressão, em que os personagens passam a indagar sobre si e seus dilemas. É o texto poético, a arte, antecipando as mudanças do mundo e narrando a vida. Em uma época de grande padronização, em que as tradições se impunham e as hierarquias precisavam ser respeitadas, os poetas eram reconhecidos e legitimados por oferecerem um sentido às questões humanas. Passado alguns séculos, com todas as mudanças que assistimos, a literatura e o cinema continuam a oferecer este espaço de reflexão sobre nós mesmos. Parece que estamos condenados a narrar nossas historias para responder sobre nossas vidas. E hoje, com as redes sociais, cada um de nós pode “inventar” historias sobre si e compartilhá-las com a imensa camada virtual que nos acompanha. Pode? Nem todos. A rede social é um enigma sem fim para muitos ou algo em que não se pode confiar, configurando-se em um grande dilema para muitos pais. De certa forma, ao nascermos herdamos um mundo que nos antecede e que nos é apresentado por aqueles que nos cuidam. Precisamos ser sintonizados na cultura para “existirmos” e na nossa infância é importante que acreditemos em um mundo mais ou menos estático em seu jeito de funcionar. Já a adolescência precisa ser turbulenta, revolucionária, seja para as grandes rupturas ou para as novas e pequenas invenções. Diferente da antecipação dos poetas, mas na mesma linhagem dos que escrevem o futuro, os adolescentes captam os desejos irrealizados que pairam na cultura e colocam-lhe vozes. Quando avançamos na idade, a proximidade com a finitude nos devolve um lugar mais acovardado, mais disciplinado e voltamos a desejar que nada vá contra a “ordem natural” das coisas. Mas se não sabemos como o mundo em que vivemos está funcionando não podemos ser “transmissores” de regras e limites para nossos “babies”. É a historia nos convocando.
O mundo, as pessoas e as “gafes”
Colunas e reportagens deram destaque nestas ultimas duas semanas a uma série de “gafes” – comportamentos/ frases/piadas - cometidas por figuras públicas em geral, que teriam exposto por vezes o lado cruel e racista, por outras o preconceito, a intolerância, o desprezo ou o abuso que podem permear as relações humanas. O ex-ministro Delfim Neto teria dito ao comentar nossa data da abolição da escravatura que nos dias de hoje já não se podia contar com este “animal’ em casa referindo-se as empregadas domésticas. Uma moradora de Higienópolis teria confessado temer que o bairro passasse a receber uma população “diferenciada” com a construção de estações de metrô – mendigos, vendedores-ambulantes, etc. Ed Motta postou comentários elogiosos sobre o povo de Curitiba e do Sul em geral, em sua opinião, muito mais bonito que as pessoas do Norte e Nordeste, bem mais feiosos. Rafinha Bastos também postou uma frase infeliz sobre o dia das mães, ao marcá-lo como triste para os órfãos, usando um tom de deboche, enquanto o repórter do CQC Danilo Gentili faria uma brincadeira de “mau gosto” com os judeus mais velhos do bairro de Higienópolis, lembrando-lhes o medo que os vagões do metrô os levassem a Auschwitz. O agora ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) Dominique Strauss-Kahn foi preso em meados deste mês em Nova York por tentativa de estupro contra uma camareira do hotel em que se encontrava hospedado. O cineasta dinamarquês Lars Von Trier em uma entrevista coletiva dada em Cannes, logo após a exibição do seu filme “Melancolia”, mesmo sendo de origem judaica, disse que compreendia Hitler e diante de algumas provocações acabou afirmando que sim era um nazista. Já o ministro Palocci manteve o silencio diante da ruidosa denúncia de seu enriquecimento ilícito no governo anterior. A internet trouxe esta incrível rapidez na troca de informações, assim como um amplo e inédito espaço para exposição de idéias que, como vimos, pode servir para alguns empunharem seus revolveres e afiarem suas críticas ou revelarem seu descaso com certos cuidados e delicadezas necessárias para o convívio e o respeito entre as pessoas. Nas “gafes” relacionadas acima temos desde o gozo pelo exercício do poder, da arrogância, até o desrespeito pelos deslizes, pelas palavras mal colocadas, pela pena ou vergonha vivida. Ou seja, nosso mundo atual está representado aqui tanto em seu discurso triunfalista de sermos os representantes do melhor dos mundos - internet, transparência das ações/ falas/ ausências - como no seu contrário, ao expor o pior de nossa condição humana, nossos porões, responsáveis por afiar nossos preconceitos quando atribuímos ao outro características ou discursos nossos e de nossa historia que preferimos ignorar ou apontamos as falhas sem incluir nelas os fatores humanos, sem reconhecer sua complexidade. Quem sabe esta “divisão” seja a expressão de nosso conflito entre o que desejamos e o que nos permitimos desejar, divisão necessária para que a convivência social que já nos parece tão complicada, possa aqui e ali tentar achar um certo equilíbrio.
Homens e bichos papões
sábado, 14 de maio de 2011
A des-naturalização da vida humana
A recente aprovação pelo Supremo Tribunal Federal do direito a união civil homoafetiva abre uma discussão (sempre polêmica) sobre certas verdades compartilhadas culturalmente que dizem respeito a nossa espécie humana. Isto porque admitir que pessoas do mesmo sexo queiram se casar, ter filhos e usufruírem das mesmas leis que asseguram as uniões entre casais heterossexuais, coloca em cheque algumas crenças difíceis de serem questionadas. No inicio deste ano, por exemplo, a mídia anunciou que um grupo de cientistas japoneses seriam os primeiros a cultivar espermatozóides de um mamífero em laboratório desde os estágios iniciais. Na seqüência a idéia seria aumentar as contribuições para o tratamento de seres humanos inférteis. Assim como admitir que dois humanos nascidos biologicamente homens (ou mulheres) queiram se juntar e quiçá constituírem uma nova família, as técnicas cada vez mais avançadas de reprodução humana também alteram as tradicionais noções de maternidade, de paternidade e de família. Assistimos a tecnologia tomar o lugar do ato sexual - antes o elo entre as gerações- na preservação de nossa espécie. As questões ligadas à filiação tornam-se complexas: uma criança pode ser gerada a partir da doação de esperma e/ou dos óvulos; pode ter herança genética de várias pessoas; pode ser gerada por um parente próximo ou por um desconhecido; pode ser filha de uma mãe solteira ou de um casal homossexual. Ao mesmo tempo, no imaginário cultural, o modelo de referência de procriação continua sendo a relação sexual entre um homem e uma mulher, de preferência dentro da "família nuclear heteronormativa" (pai, mãe e filhos), remetendo ao que parece ser a ordem “natural” das coisas. E mais, acreditamos que este modelo “natural” seja também o da família ideal e feliz das cenas de publicidade, que deve manter a noção de família tradicional, com filhos legítimos e em que o amor entre todos os membros se estabeleça instantânea e genuinamente. Este apego aos valores ditos “naturais”, no entanto, esconde um paradoxo que permeia as mudanças (que não foram poucas) na maneira como hoje vivemos nossas relações. A passagem do casamento arranjado ao casamento por amor admite uma revolução: a de que hoje são nossos sentimentos que estão acima da autoridade e das tradições familiares. Ao nos casarmos e descasarmos por amor inventamos famílias que não são mais biológicas, nem óbvias, o que faz com que seus participantes tenham que encontrar e construir novos lugares, criarem sua própria experiência. São arranjos que não possuem manuais ou referencias. Como a família (seja qual for seu formato) continua a ser o núcleo básico da sociedade, o espaço por excelência da transmissão de valores de uma geração para outra, mantém-se como a mais "natural" das instituições e o núcleo organizador a partir do qual irão estruturar-se e serão transmitidos os valores mais importantes da nossa cultura. Parece que a "naturalidade" que acaba levando à idéia de ser a família o único lugar legítimo da sexualidade e da procriação é tributária da nostalgia que nos faz apontar incessantemente o que nos parece fora da norma. Mas nossos sonhos nos fazem construir ( também de forma permanente) novas maneiras de se viver e entender a vida humana, talvez mais honestas, mais justas.