quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Benvindos

O Brasil poderia ser comparado a um jovem e inquieto adulto que, na falta de boas referências que pudessem dar-lhe um contorno mais definido de sua identidade, estaria sempre em busca de confirmação sobre seus talentos e falhas, suas possibilidades e misérias. Quase todas as celebridades estrangeiras que aqui aportam são assediadas pela mídia para deixarem suas impressões, seja sobre as características mais marcantes de nosso povo e suas proezas, pelos contrastes sociais fartamente exibidos pelas nossas cidades, pelo funcionamento “caseiro” de nossa politica ou pela grandeza de nossos recursos naturais. No cômputo geral conseguimos impactar a maioria dos que nos visitam e não é raro ouvirmos alguns elogios a alguns destes itens. Claro que não podemos deixar de registrar as regras de boas maneiras exigidas para todo visitante. Que não se atrevam a melindrar seus anfitriões apontando-lhe falhas às vezes escancaradas. É de bom tom evitar constrangimentos e enaltecer nossas qualidades ou agradecer nossas gentilezas. Por isso chamou a atenção os comentários feitos por Alain de Botton em sua recente visita ao Brasil. Suíço de nascimento, mas na Inglaterra desde os 12 anos, ele é um dos filósofos mais pops da atualidade. Simpático, não se esquiva de quaisquer questionamentos que lhe sejam dirigidos ou que lhe imponham algum tipo de crítica ou avaliação. Convicto de que os saberes das humanidades precisam se aproximar da vida cotidiana de todos, versa com segurança sobre temas como o amor, a religião, o trabalho, a educação, a literatura, a arquitetura, a vida em sociedade e o significado da existência humana. Com respostas sempre à ponta da língua, rebate as críticas feitas ao estilo “autoajuda” de seus livros, lembrando que tal estilo de literatura sempre fez sucesso em tempos mais remotos, quando filósofos e pensadores em geral escreviam verdadeiros tratados para ajudar os indivíduos a se situarem melhor em suas vidas. Levando sua convicção às ultimas consequências em 2009 fundou em Londres a “The School of Life”, uma universidade voltada a todos os que desejam estudar “como viver” e que oferece possibilidade de se discutir temas como morte, casamento, escolha de profissão, ambição, criação de filhos. Temas que estariam hoje relegados a alguns gurus (segundo ele), mas que precisariam ser considerados com rigor e seriedade por sua importância na vida de todos. Por isso em sua escola é possível se inscrever em cursos como política, trabalho, família, amor, além de conversar com um terapeuta, aprender a fazer jardinagem, etc. Um claro desafio à educação vigente que estaria longe de valorizar as respostas para os grandes dilemas da vida. Durante o curto período em que aqui esteve - uma semana – com a finalidade de participar de conferências e lançamento de seu último livro, a cada cidade que visitava (São Paulo,  Porto Alegre e  Rio de Janeiro) o filósofo tuitava comentários (nem sempre lisonjeiros) de forma espontânea. Em uma de suas últimas entrevistas confessou estar com a impressão de que estava aqui há séculos, tamanho era o país e sua diversidade. A Inglaterra lhe parecia não só pequena como pacata. Sensível, detectou as diferenças entre as culturas de cada uma das cidades visitadas, e embora tivesse comparado Porto Alegre ao Texas, São Paulo a Nova York e o Rio de Janeiro a Los Angeles, não deixou de sublinhar as diferenças entre Brasil e EUA, principalmente na maneira como a religião aqui funcionaria de forma mais acolhedora e menos fundamentalista. Deixando-se afetar sem pré-conceitos, Alain de Botton pareceu aglutinar a inquietude de sua geração (tem 42 anos), mas mais que isso, despiu-se de qualquer arrogância intelectual sem cair na banalidade e sem perder o interesse e a curiosidade pelas vidas humanas em geral. De forma generosa, emprestou sua vitalidade e conhecimento em todas as pontuações que nos fez. Só nos resta dar-lhe as boas vindas!

sábado, 26 de novembro de 2011

A invenção da vida

Betina ouviu as batidas na porta de seu quarto e suspirou contrariada. Tentou responder “não” à sua mãe de forma o mais gentil possível. Na verdade não desejava sair de sua cama. Queria ficar ali, deitada, pensando, rodando o filme de sua vida sem que seu corpo se mexesse. Era uma técnica que ela havia desenvolvido e que lhe dava uma extrema sensação de conforto. Gostava de se imaginar  em uma viagem como se fosse apenas um ponto, sem matéria, ao mesmo tempo em que era tudo: as ideias ficavam claras, os sentimentos eram aparados e o peso das dúvidas e do medo afastava-se. Mas agora teria que “retornar”, abrir a porta e enfrentar sua mãe. Ela não deixava barato. Já havia sentido muita raiva por ela ser tão “presente”, por ficar tão atenta. Depois de tantas vezes em que as mães foram tema de discussões entre as amigas, foi situando a sua de forma diferente. No fundo era bom que ela se importasse. A mãe de Aninha, por exemplo, nunca telefonava para saber seu paradeiro, e isso já tinha sido motivo de inveja de muitas. Mas não mais dela. Até o fato de serem apenas as duas, ela e a mãe, já estava mais acomodado em sua bagagem de vida. Sua inquietação do momento era o fato de seu aniversário de 18 anos estar próximo, já na semana seguinte. Sentia necessidade de pensar sobre esta passagem, ajustar melhor seus planos.  Estava no final do primeiro ano da faculdade e empolgada com o curso que havia escolhido - à revelia de seu pai que apostara em uma carreira mais “consistente”. Quase prestara Arquitetura só para deixa-lo mais contente. No fundo sentia uma pontinha de orgulho por não ter desistido de ser uma designer gráfica. O desenho sempre tivera um significado importante em sua vida e desde os oito anos, acostumara a retratar situações familiares e de seu cotidiano em pequenas folhas brancas. Em geral os adultos ficavam muito entusiasmados com sua capacidade de apreender certas nuances das pessoas e das situações naquelas “mal traçadas linhas”. Não tinha sido nada fácil convencer os pais a dar-lhe esta chance, e na época isso tinha sido muito sofrido. É difícil e injusto o confronto entre o que os filhos querem para si e o que os pais querem que eles sejam e para ela em especial havia sido tumultuado escolher algo que desagradava aos dois. Rolou muita conversa, muita saliva e tentativas de persuasão de um lado e de outro. Filha única de pais separados, exigentes, intelectualizados, que colocavam nela um caminhão de expectativas. Ufa! Carga pesada para uma adolescente que sonhara desde sempre em ser artista, esta palavra tão solta, sem grandes definições prévias, sem vínculo empregatício, sem lugar de destaque no mercado das profissões promissoras. Começara o ano letivo com ganas de absorver ao máximo as técnicas e ferramentas oferecidas para aprimorar seu talento. Queria (precisava) descobrir algum nicho diferenciado e era preciso convencer seus pais sobre a importância de adquirir programas digitais de ultima geração. Suas ideias fervilhavam e era deste tempo mágico que as batidas da porta do quarto destoavam. Uma coisa era imaginar sua nova empresa de produtos descartáveis com designs criativos dirigidos às grandes redes de hotéis e restaurantes. A outra, bem diferente, era começar a falar disso com sua mãe (ou pior, com seu pai). Da fantasia à realidade havia uma distancia desanimadora. Abriu a porta.


sábado, 19 de novembro de 2011

Eu como você

Em geral os filmes de Almodóvar dispensam apresentações. São filmes que trazem a marca e o estilo de seu “autor”, este espanhol que conseguiu abordar a temática da sexualidade latina (e humana, claro) escancarando o preconceito, mas principalmente o que fica escondido nas bordas, na periferia ou no avançado das noites, quando a grande maioria já dorme em suas camas e casas protegidos. Sua arte não cabe nos bons nem nos maus valores: causa espanto, ambiguidade e surpreende por tocar-nos seja pela com-paixão ou pela perturbação (caso de seu ultimo filme “A pele que habito”). Sem o colorido e o excesso que marcam seus filmes anteriores, neste, Almodóvar parece querer “esterilizar” e até banalizar os impactos da sexualidade ao trazer ao grande público um tema perseguido desde sempre pela humanidade, o controle da vida e da morte ou, se quisermos, o controle (silencio) das dores do viver. Tal como um Dr. Frankenstein pós-moderno, Antonio Banderas interpreta o cirurgião plástico Ledgard, que utiliza como cobaia (de forma inescrupulosa), uma mulher que mantém cativa em sua mansão/ clinica, e na qual irá implantar  um novo tipo de pele transgênica (feita com DNA suíno) que, embora mantenha a sensibilidade ao toque, deixa-a resistente ao fogo, a picadas de inseto e ,é claro, a dor. A frieza/indiferença deste cientista ousado esconde, no entanto, não só sua busca obsessiva pela esposa perdida (e reconstruída nesta mulher-objeto), como sua vingança pela morte da filha, pela qual tentará fazer “justiça” com suas próprias “mãos”. Na medida em que o filme avança e regressa no tempo para situar o espectador, a trama se abre aos personagens almodovarianos, agora sim se apresentando com suas historias dramáticas, seus segredos, infortúnios, perdas, enfim, tudo o que pode tentar justificar o uso e o abuso de uns contra os outros. Há com certeza uma espécie de crítica aos avanços inimagináveis da ciência, mas há mais que isso. Como toda  arte  que exerce seu papel de apontar para valores futuros, transgredindo os vigentes, Almodóvar escancara o homem por trás da ciência  e seu anseio em se apossar do próprio corpo através do  controle de seus excessos, suas vontades, seus prazeres e  dores, em especial, as dores psíquicas. Corpos que se transformam em meros objetos, que podem adquirir novas formas e sexo ou descartar o que não serve. O perturbador da trama é o que ela revela sobre os avessos e sombras do espírito humano - a violência do desprezo, do constrangimento e da humilhação própria das relações de domínio e submetimento. É a constatação de que estamos sujeitos a construir, ainda que de forma defensiva, um eu todo poderoso e onipotente, que facilmente nos conduz ao abuso de poder, ao canibalismo utilitário e instrumental, subvertendo o que temos de mais caro em nossa escalada humana - a possibilidade de dimensionar o valor do outro/ próximo como um parceiro em nossa empreitada do viver. Se é pelas parcerias que podemos enfrentar o medo e os percalços de nosso encontro com a sexualidade e a morte, tal percepção não está dada e nem sempre é possível; precisa ser buscada, desejada, fazer-se necessária. Por isso o filme incomoda, e ficamos sem saber em que arquivo guarda-lo: teremos que inventar ou nos indignar.
Para conferir: A Pele Que Habito (La Piel que Habito) – Espanha 2011
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O que a gente pode fazer

As dores em seu corpo funcionavam como lembretes ao não lhe deixar esquecer que a noite tinha sido um calvário. Acordara pelo menos duas vezes na madrugada, assaltado por sua angústia e por uma sensação de medo. Talvez não houvesse nada pior do que estes “sentimentos agudos” que ficam a brigar com o torpor do sono até que finalmente vencem a batalha e inundam todo o corpo. Ponto para a  consciência crítica a lhe importunar sem descanso. O quarto ainda estava escuro, mas o barulho da manhã já invadia o ambiente. Tentou evitar olhar para os enormes números digitais vermelhos do relógio, mas eles haviam sido colocados ali no alto justamente para facilitar a organização de sua rotina diária. Medo. Medo de ter que pensar, de ter que se lembrar de tudo. De ter que resolver, decidir, agir. Nestas horas parecia fácil visualizar que à proporção da evolução,também pipocavam formas de se safar do peso da administração da própria vida. Na medida em que o orçamento ganhava algum volume era possível nomear agentes que passavam a funcionar como co-autores desta empreitada. Tinha se beneficiado desta prerrogativa sem nenhuma culpa. Seu secretário “faz tudo” e seu motorista – cuidadosamente selecionados – foram assumindo parte a parte de suas obrigações a ponto de se confundirem com ele mesmo. Os três juntos eram imbatíveis e podiam jogar horas sem deixar a bola cair, tamanha a sincronia. E quando se atinge um estágio em que é possível se ter a ilusão do controle (quase) absoluto é muito fácil se esquecer do imponderável. Do inesperado. Das surpresas. Tem-se a impressão de que a vida vai (mesmo) andar no trilho da tranquilidade, para sempre. Sentiu a vergonha inundando seu corpo, ultrapassando e se misturando por alguns segundos com o tormento do medo – um medo que não ousava dizer o seu nome, uma espécie de covardia autocomplacente. Será que havia estudos sobre estas diferenças, anunciadas pelo corpo, para as sensações de medo/ angustia, vergonha/humilhação, nojo/horror? Cada grupo parecia movimentar órgãos e vísceras específicos, como se fossem tonalidades diferentes de desconfortos. Vergonha de que? Não sabia ao certo, mas tinha dificuldade em se lembrar de si mesmo no passado recente. A figura poderosa que se tornara, um pouco arrogante e muito vaidosa, cuja presença provocava uma ruidosa avalanche de luzes, câmeras e microfones. Pensar que quase todos buscam esta espetacularização de suas vidas, este reconhecimento estampado nos olhos dos outros, a satisfação de estar em evidencia. Tal como um balão de aniversário, foi só a festa acabar para que ele ficasse sem ar, sem função, esquecido ali, à mercê dos que se ocupam da limpeza geral no dia seguinte. De repente  aquela parafernália tecnológica de sua casa que tanto lhe enchia de orgulho, da qual ele se ufanava de ter bolado e conquistado, já não fazia o menor sentido. Aninha bem que tentara lhe alertar. Mas desistira. Na ultima reunião familiar (antes do “desastre”) ela já fazia comentários irônicos, sem aquela preocupação/indignação de irmã mais velha diante dos “maus” comportamentos do caçula. A experiência humana seria mais complexa do que a tarefa de buscar, comprovar e ostentar status, teria dito. Para ela, qualquer atividade humana deveria -  antes de mais nada - ser reconhecida por sua responsabilidade social. Aninha seguia este modelo de gestão de vida, em que os encontros, as reuniões, a solidariedade, as trocas entre as pessoas precisavam ocupar a primeira linha de ações de qualquer ser humano. Balançou a cabeça. Com tantas coisas para decidir, surpreendia-se por este resgate de ideias sobre a vida. Ele que  sempre engrossara o coro dos que  consideravam sua irmã uma militante social, agora sentia-se tal e qual um mendigo desamparado, sem amigos que valessem a pena, louco por uma lembrança que lhe devolvesse um valor, uma medida de sua capacidade de ser amado. Resolveu ligar para Aninha.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Quem sou eu?

Quando o historiador Walter Isaacson, escolhido pelo próprio Steve Jobs para ser seu biógrafo, perguntou-lhe ao final da maratona de entrevistas e conversas sobre sua vida, porque ele, sempre discreto, estivera tão disposto a  se abrir e falar de si, ouviu algo surpreendente. Steve Jobs queria que seus filhos o conhecessem melhor, soubessem de seus feitos e entendessem as razões pelas quais ele nem sempre pudera estar presente. Personalidade midiática, glamourizado e convertido em símbolo, é provável que Steve Jobs quisesse desvendar o homem atrás do mito e quem sabe, ao ajudar a construir textos sobre sua vida pessoal, tornar cada leitor um crítico/parceiro de sua identidade. Não só pelas biografias - que as estatísticas apontam um crescimento jamais visto - mas há hoje um certo apelo para o entendimento de si e o falar de si. E os motivos não parecem simples ou poucos. Por um lado, em um mundo sem critérios rígidos e prévios para eleger celebridades, a fama projeta pessoas dos mais variados setores e as coloca sob o foco da curiosidade mundana, um verdadeiro culto à privacidade pública. Pessoas que se veem, de repente, incitadas a criar discursos atraentes sobre si e a ensinar os passos para se alcançar uma “identidade” bem sucedida. Por outro lado a invisibilidade assusta: como viver sem saber quem somos ou sem ter algum reconhecimento que nos devolva um saber sobre nós? O temor a este vazio (ou vácuo) poderia ajudar a alimentar uma dimensão imaginária do si mesmo? A verdade é que a complexidade do ser humano (que não cessa de aumentar) nos mostra que não há fórmulas mágicas e prontas que possam dar conta de todas as suas dimensões. Desde que nos pusemos a tentar entender nosso “eu” só conseguimos falar de nós como seres fragmentados, ora apontando nossos ideais, nossos sonhos, ora nossas conquistas e triunfos, ou ainda nossas descrenças e medos, nossas fragilidades e impotência, e por aí vai. A psicanalise contribuiu bastante para um olhar diferenciado sobre o funcionamento de nosso psiquismo, nossa subjetividade com seus paradoxos e incertezas. O fato de a cultura atual funcionar  em grande parte pela lógica do marketing, buscando incessantemente capturar  nossos desejos e paixões mais profundos para produzir ofertas de prazer e felicidade, ou criando formas de encantamento que nos projetem e nos tornem visíveis não garante a cada um, um lugar ao sol. No mundo business, por exemplo, a subjetividade ganha espaço e há um verdadeiro mercado de identidades profissionais bem planejadas, cuidadosamente descritas para que ganhem coerência, atualidade e estilo. Se no escurinho de nossas camas, precisamos nos esforçar para acreditar no personagem, nem sempre é fácil “cair na real”  e viver  a vida na sua dimensão real. Ao planejar sua própria biografia por saber que sua vida estava próxima ao fim, Steve Jobs pode ter desejado participar de alguma maneira na perpetuação de sua imagem. Porque não planejar seu futuro pós-morte? No final das contas todos  precisamos “esquecer” que  a vida dura somente o espaço entre o nascimento e a morte  e precisamos sim da construção de uma confiança imaginaria no destino e da criação de ficções sobre a importância que temos para os outros ou sobre o significado de nossos atos corriqueiros.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Memoria dissolvida

Mas porque precisava ser desta maneira? A vida estaria lhe dando uma chance ou lhe punindo? Vitória sentia-se confusa, justo ela, tão intelectualizada, sempre rápida no gatilho, a dar palpites e sugestões ou a resolver problemas cabeludos (seus e de outros). A família- todos do interior de Minas- sentia orgulho desta menina e não lhe poupava elogios. Fazia tempo que ela havia se mudado para o Rio de Janeiro atrás de seus sonhos e sim... podia dizer sem titubear que muitos deles se realizaram. De jornalista famosa passara a cineasta, algo que imaginara desde a sua infância, quando “dirigia” a turma da rua improvisando cenários e vestimentas. Era ela quem escrevia o roteiro, mas costumava incentivar todos a escolherem quem seria o melhor ator para cada papel. Esta estratégia não só evitava os conflitos advindos dos ciúmes e das rivalidades, como conferia maior legitimidade aos eleitos. Os “estúdios” de seu Cinemoção ficavam no enorme quintal de sua casa e seus pais jamais se opuseram, ao contrário, até palpitavam e algumas vezes ajudavam na composição dos cenários. Sua mãe, ah... ela era o máximo! Que saudades daquele olhar interessado, investido de energia. Tinha certeza que aquela sua paixão pela vida a alimentara e a movera o tempo todo. Por isso não encontrava palavras para descrever a “cena” do cotidiano de um portador de Alzeimer, este sujeito que rompe os fios de sua memória. Consultas ao Google, aos neurocientistas, aos familiares de outros atingidos por esta doença não puderam responder aquela pergunta que insistia: por quê? Como é possível que ainda saudável, resultados de exames apontando a saúde de uma “jovem”, sua mãe havia abandonado sua bem instalada identidade, sua mais valiosa morada? Porque ela havia preferido este não lugar, sem história, um caminho sem volta, parecendo não se importar em perder-se de si mesmo? Tal como um “filme”, Vitoria tentava achar o fio que pudesse dar sentido a este quadro dramático. Era muito difícil estar ali ao seu lado, ao lado daquele corpo tão conhecido e tão querido e perceber que em algum lugar dele havia um “ralo” sugador de histórias passadas, das quais ela se sentia parte. História de uma mulher e mãe tão sabida, centro nervoso da casa, daquelas que levavam a palavra aonde ainda não existia. Que sabia tecer devagarinho as asas de seus filhos e separar-se deles na hora certa. Todos voaram. Vitoria se surpreendia ao perceber, no entanto, quanto ela se mantinha presente na ausência. Saber que ela existia, que estaria ali para recebê-la, para atender seus telefonemas a qualquer hora e dia, fazia tanta diferença! Não tinha se preparado para perder esta mãe. Havia reservado estes dias para estar com ela, ficar ali ao seu lado, olhando com atenção cada menção daquele corpo às vezes acenando com alguma possibilidade de resgate de seu eu, às vezes alheia a tudo e a todos. Pretendia não adiar este olhar para o passado, não deixar para traz esta história. Queria ser uma espécie de memoria-prótese de sua mãe. Quantas vezes mencionara aos amigos quão “especial” era ela, e como admirava  sua capacidade de conhecer a si e aos outros, fato que usava para intervir com delicadeza ao menor sinal de desamparo ou pedido de socorro. Uma máquina de compor, organizar, traduzir, interpretar. Que mundo estranho ela habitava agora? Aos 78 anos, no auge da “velhice”, o conforto e o refúgio dos idosos costuma ser suas lembranças do passado. Alguns com tons mais melancólicos pelo que não puderam realizar, outros a cotejar o passado e o presente com um olhar mais justo. Tantos filmes são baseados nas memórias de prazeres e descobertas de alguém, histórias que nos fazem chorar, arrepiar, acelerar nossos corações. Ali, em silencio, de mãos dadas, Vitoria imaginou uma das cenas de seu próximo filme, as duas, mãe e filha, conversando sobre a dor da morte de seu pai. Vitoria a lhe garantir a possibilidade de ela inventar novos laços para ocupar o lugar dos perdidos. A impedir que sua memória-história se perdesse e com ela a sua paixão pela vida.  

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Este seu olhar

Sentia-se cética demais para levar adiante aquele papo sobre “mau olhado”. Resolveu dar uma volta, beber um copo de água, mas aquele mal estar não lhe deixava. Se desse corda aos seus impulsos voltaria àquela roda de conversas e endossaria o coro dos que já haviam se sentido vítima do famigerado olho gordo. Tantas histórias. Mas mesmo afastada dali não podia evitar que algumas imagens de pessoas viessem à sua memória. (Suspiro). Não. Sua autocrítica não lhe permitiria arremessar a responsabilidade de seus infortúnios a outros, ainda que algumas destas figuras desenterradas de suas lembranças pudessem desfrutar de certa unanimidade quanto ao adjetivo (amedrontador?) de invejoso. Não devia ser por acaso que a inveja figurava entre os sete pecados capitais e muitos de seus portadores fossem personagens famosos na historia da literatura. De Iago (da peça de Shakespeare) que invadido por este “líquido mortífero” destrói a vida de Otelo ao leva-lo a matar injustamente sua amada Desdêmona e depois enlouquecido de remorso, a si próprio, à Rainha Má, cujo espelho não lhe deixa esquecer que Branca de Neve existe e é portadora de tudo o que ela deseja ter/ser, ou ainda o trio da Madrasta e suas duas filhas, que tentam impedir a bela Cinderela de comparecer ao baile promovido pelos reis à caça de uma esposa para o príncipe, e depois, de experimentar o sapatinho de cristal que lhe pertence. Sábias histórias infantis que permitem a nós crianças identificarmos nossos traços mais vis ainda que seja para imagina-los bem longe de nossas mentes, habitando apenas aqueles seres perversos ou asquerosos. Sentir inveja dói. Perceber-se alvo dela é ao mesmo tempo enlouquecedor e paralisador. E é por “conhecermos” quão devastador pode ser este sentimento que atribuímos força ao “olhar” às nossas costas, pronto a nos devorar, arrancar nossas entranhas, se apossar de nós. (Ufa!). O desconforto aumenta, sente-se inquieta com estes pensamentos e claramente dividida quanto ao rumo de suas digressões. De um lado tem ganas de dar vazão a estas rememorações, voltar à infância, não evitar a percepção de sua própria inveja, esta emoção viva e marcante, de cor rubra, que só pode ser incômoda quando somos alvo, porque  sua saliva quente e raivosa nos é familiar. Quantas vezes se é surpreendido por este insuportável ruído ao constatar que uma outra pessoa consegue ser ou ter algo que se deseja ou que se imagina que perdeu? O ideal seria poder fazer uma espécie de acordo com esta luta interna, ao sustentar as lembranças da invasão sorrateira da inveja em seu ser, mas não mais deixar de lado a experiência única de saber-se personagem passivo do “olhar” faminto e raivoso da inveja de um outro. Afinal a força deste olhar malévolo e devastador (mesmo quando seu portador não o reconhece) acompanha a própria historia da humanidade e desde os tempos mais remotos a sabedoria popular se encarregou de inventar medidas protetoras, algumas universais. Quem não conhece a figura das benzedeiras de “quebranto” - aquele estado de falta de vontade  e esmorecimento geral que toma conta do corpo principalmente das crianças indefesas expostas ao olhar dos invejosos ou mal-intencionados? Ou a figa, um amuleto muito utilizado para afastar seus efeitos? Quando ainda não sabíamos que a inveja era tão humana, quase parte de nosso DNA, era mais fácil imagina-la como uma “emoção má” e passível de ser eliminada. Ser benzida por uma curandeira podia trazer um alívio contra as forças invisíveis do mal dos outros. Duro mesmo parecia ser conviver com o saber-se passível de sentir  a mais venenosa das emoções. E era isso que iria dividir com a turma. Que atirasse a primeira pedra quem nunca sofreu deste mal.