segunda-feira, 19 de março de 2012

O sentido da doença

Sob o instigante título “A ciência olha o escuro” a matéria do caderno Aliás do Estadão do último domingo, 11 de março, dava voz ao médico oncologista Siddhartha Mukherjee , autor de  “O Imperador de Todos os Males: Uma Biografia do Câncer” . Vencedor do Prêmio Pulitzer de 2011 na categoria não ficção, Mukherjee se propõe a desmistificar o câncer, o mal que atinge um número sem fim de humanos pelo mundo afora, e que, segundo ele, só é reconhecido consensualmente por sua descrição de um crescimento anormal de células e pelo fato de colocar a todos em pé de igualdade diante do aspecto trágico de se estar doente. Avanços e pesquisas à parte, a reação de cada ser humano para com sua doença é sempre diferente e particular, motivo pelo qual ele insiste na mistura de arte e ciência da Medicina ao enfatizar a sensibilidade na visão que cada médico deveria ter de seu paciente. Sua leitura nos faz recordar que as representações sociais das doenças não são fixas, ao contrário, constituem-se e se modificam através da história, assim como os tipos de doentes. Entre os séculos XIX e XX, por exemplo, de uma visão romântica sobre a tuberculose, que a associava à criação artística, passou-se a encará-la como  um produto da pobreza e de descuido público. Susan Sontag também fez referência às representações culturais do câncer e da tuberculose em seu ensaio “A doença como metáfora”- escrita em meio a sua própria luta contra o câncer- representações estas produzidas tanto pela literatura ficcional quanto pelos discursos médicos/psiquiátricos que privilegiariam a ideia de doença como um mal social ou como uma punição ao ser humano. Nesta mesma linha de raciocínio, o conceito de saúde, ao também sofrer influências de seu tempo, seria entendido hoje como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente como a ausência de doença. A maioria dos leitores concordaria que a saúde é praticamente um dever que também inclui a perfeição corporal e a felicidade plena, o que faz com que todos se sintam convocados a pautar suas vidas na busca da saúde perfeita, sob pena de ser moralmente responsabilizados por estas falhas. De forma grosseira, na tentativa de se realizar um mapeamento completo/absoluto da saúde, a “psicossomática” passou a ser encarada como um setor da Medicina que almejaria descobrir a natureza exata da relação entre as emoções e as funções corporais e analisaria as doenças sempre pela relação causal com que o psíquico participa de qualquer doença. Na ponta final, toda doença poderia ser interpretada como um acontecimento psicológico, o que estimularia a crença de que adoecemos porque (inconscientemente) queremos adoecer e por isso podemos nos curar pela mobilização de nossa vontade, e pior, estaríamos aptos a escolher entre morrer e não morrer da doença. Haja onipotência!  Parece haver um pacto entre os que “curam” e os que precisam ser curados. Ambas as fatias comungam da ideologia vigente na atualidade de que as insatisfações ou desconfortos seriam desvios que devem ser suprimidos. A boa vida estaria associada à aquisição de habilidades e competências e a experiência de sofrimento acenaria a falência das obrigações existenciais. Tal tentativa de “ajuste” sem brechas acaba por desvelar o quanto as doenças carregam – desde sempre - o significado de maldição, mudando apenas seu sentido e justificativas a cada época. Permanecem tabus e disseminam o temor justamente por nos colocar frente a frente com nossos limites. Diante da dor/sofrimento (nosso ou do outro) não é dificil recuar, nos espantar ou sentir horror, o que nos faz buscar incessantemente formas sempre mais sofisticadas de cercear ou controlar os males da alma e do corpo. Também é este terror, surpresa ou curiosidade que sentimos diante de certas vidas marcadas pelo trágico, excêntrico ou estranho, que obstaculizam a tarefa clínica dos que se ocupam de cuidar. É sobre a complexidade destes cuidados que Siddhartha Mukherjee  tenta chamar a atenção em seu livro, ressaltando a importância do confronto com a emergência da subjetividade e suas consequências, mas principalmente a possibilidade de exercer um trabalho que potencialize o espaço do posicionamento de cada um frente a sua dor e sua doença. Não podemos nos esquecer de que a saúde mental/corporal como ideal e como bem comum, assim como o anseio da ciência em buscar eliminar nossos males são sintônicos com o desejo humano de silenciar as vozes destoantes, enigmáticas e por vezes dolorosas da experiência do adoecer. Buscamos incansavelmente um sistema de proteção contra qualquer sofrimento insuportável.

domingo, 11 de março de 2012

Paixão/ medo do novo

Na visada diária pelos jornais digitais, a foto de um casal de homens jovens e risonhos chamava a atenção pela manchete que a acompanhava. Em 2009, ao pleitear ao conselho do Club Athletico Paulistano (do qual seria sócio desde pequeno), a inclusão de seu companheiro como seu dependente, o cirurgião plástico Mario Warde Filho teve seu pedido vetado. Qualificando-se vítima de discriminação, o casal foi à Justiça e no mês passado obteve uma decisão favorável. A divulgação da notícia pela mídia abriu o debate (mais que atual) sobre as parcerias gays. Aqui e ali os membros desta centenária e elitizada associação se posicionaram, alguns para defender a igualdade de direitos e apoiar a decisão da justiça que reconhece uma entidade familiar na união estável entre pessoas do mesmo sexo, e outros (a maioria) que, inconformados diante da possibilidade de conviver tão proximamente com o que lhes soa “estranho”, justificam sua indignação invocando a manutenção de uma “ordem moral” imaginária. A ideia de “clubes” assim como de condomínios privados parece conter uma aspiração (tipicamente humana) de encontrar e ocupar um lugar plenamente satisfatório onde reinaria a absoluta harmonia, a completa satisfação e nenhum ruído perturbador. Há temas recorrentes da história humana como a escravidão, os genocídios e as diversas formas de intolerância que se utilizam do recurso (também tipicamente humano) de justificativas imaginárias (quase sempre inconscientes), o que contribui para ampliar o imbróglio de uma grande fatia de nossa historia. Na Ilustríssima do dia 4 de março último, a matéria intitulada “A mitologia das ideias” discutia o fato de que a razão humana teria evoluído menos para aumentar o nosso conhecimento e nos aproximar de alguma verdade sobre nós ou o mundo do que para confirmar nossos sentimentos, palpites ou intuições. Nossa porção racional procuraria elaborar argumentos “racionais” que justificassem nossas conclusões- geralmente a serviço de nossos interesses/crenças - e se poria a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, independentemente de ter qualquer uma das duas. Não. Isto não é uma crítica, antes uma constatação, a de que nossas paixões e medos seguem nos norteando. À medida que nossas sociedades tornam-se mais complexas, também parecem mais inconsistentes, construídas sobre contradições sem síntese possível. Vivemos um ciclo sem fim em que tentamos responder interrogações, buscar sentido e certeza, que logo mais se afastam para dar lugar a novas perguntas. São zonas de desconforto, por isso buscamos o “conforto” do conhecido, do mesmo. E se há algo que se impõe e ao mesmo tempo nos causa temor é a ideia de que nossa identidade sexual seja uma questão em aberto, que passamos a vida construindo e tentando, inutilmente fechá-la. A intolerância com a ambiguidade e ambivalência da sexualidade alheia é proporcional àquela que sentimos diante de nossas indefinições, que por serem insuportáveis e jamais admitidas, transformam-se em tiros nas janelas dos que transgridem o modelo binário de escolha sexual e amorosa, caso de homossexuais, transexuais, etc. Recentemente entrevistado pelo programa Roda Viva, o cartunista Laerte, que causou (e vem causando) estupefação desde que resolveu passar a se vestir de mulher, surpreendeu ao público que o assistiu ao responder muito à vontade e ao mesmo tempo com clareza e consistência sobre suas dúvidas e inquietações. Sem pretender qualquer postura panfletária ou militante, Laerte reivindica o direito de não se “enquadrar” nas duas opções de gêneros que a cultura oferece por acreditar que as possibilidades humanas possam ser mais amplas. Sua postura, ao invés de acirrar os prós e contras, promoveu um debate honesto e corajoso com seus interlocutores e pode ter contribuído para abrir nichos novos para se pensar os destinos da complexa sexualidade humana em um futuro nem tão distante. Para uns, talvez para a maioria de nós,o medo sobrepuje a paixão pelo novo. Para outros e poucos, o contrário. Resta constatar que ambas as posturas podem vir a fazer parte da vida de cada um de nós.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Ressonâncias do (e no) Oscar

O Oscar é a premiação mais badalada (e ansiosamente esperada) por todos os que apreciam minimamente a sétima arte. Ano após ano, nos meses de dezembro a fevereiro que antecedem a festa, há um boom de filmes indicados e um zumzumzum para se definir os favoritos do público, mesmo quando aqueles que foram arrematando outros prêmios importantes, não coincidam com estas preferências. O Oscar é também a vitrine top do mundo das celebridades - que dele se beneficia- e que gira em torno deste território tão americano e ao mesmo tempo tão conhecido mundo afora, graças ao fato de sua indústria cinematográfica se manter imbatível há quase um século. A história do Oscar, suas premiações a diretores, atores, atrizes e filmes ao longo dos anos, se confunde com a própria historia do país, além de movimentar uma importante fatia de sua economia. Isto porque seus roteiros compõem retratos importantes das inúmeras dimensões de sua cultura. Nas ultimas décadas, por força de um barateamento na produção e distribuição de bons filmes (graças às benesses da tecnologia digital) diretores de países europeus, asiáticos, israelitas e árabes, ou mesmo da América do Sul, puderam surpreender - aqui e ali - com filmes que impactaram por sua força politica, sua arte, seu poder estético ou cultural. No entanto o Oscar segue com sua festa singular e exuberante a expor seus mais celebrados artistas, esperados a cada ano por uma multidão de pessoas e repórteres no tradicional “tapete vermelho” estendido no percurso que leva ao Highland Center (ex- Kodak Theatre) em Los Angeles. Artistas que se esmeram em sua apresentação visual, desfilando produções dos mais disputados estilistas. Outra atração da noite (tipicamente americana) é o apresentador da premiação, em geral alguém que deverá ser ágil com as palavras e certeiro nas piadas, que devem surpreender pela inteligência, sem serem demasiado pesadas. Assim é que muitos espectadores espalhados pelo mundo se preparam para esta transmissão (ao vivo) e colam seu olhar nas escolhas mais importantes da noite, na expectativa de no dia seguinte dividir com os amigos suas satisfações ou frustrações. Um pouco mais à vontade, com um governo democrata cujo chefe também estampa o ineditismo de sua raça negra, os filmes indicados se abstiveram de retratar a situação politica e econômica algo indefinida dos USA ou as incertezas que rondam a economia de países antes estáveis. “O Artista”, filme francês que arrematou os mais disputados prêmios é mudo e foi rodado em preto e branco, bem ao estilo das produções do passado, em uma homenagem a vários ícones da história do cinema. Encantou o público com uma singela e tocante história de amor, destas que convocam a plateia a torcer para que cada um dos protagonistas possa finalmente descobrir o quanto o outro também o ama. Mereceu o prêmio principalmente pela ousadia de sua produção em tempos de filmes em 3D e de facilidades inusitadas para efeitos especiais. Apostou  com isso em um cinema intimista, que captura o espectador ao lhe exigir compartilhar os sentimentos ali presentes através da linguagem expressiva dos olhares e gestos. No mesmo clima saudosista e de reverência aos grandes artistas da década de 20, Woody Allen (que não compareceu ao Oscar) levou a estatueta de melhor roteiro original por seu filme “Meia Noite em Paris”. Já “Historias Cruzadas”, que aborda os percalços do racismo nos USA no Mississipi da década de 60- reduto americano da segregação racial mais violenta- teve sua premiação para a melhor atriz coadjuvante, ela também negra, em um dos momentos mais emocionantes da noite. Sem grandes surpresas, a premiação manteve-se light, coincidiu com os palpites dos críticos, e privilegiou produções de orçamentos mais modestos realizadas por diretores menos conhecidos. Contemplou o cinema arte e entretenimento.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Guerra e Paz

Difícil era entrar naquele saguão e não se impactar com o tamanho dos painéis, dispostos um contra o outro. A cada vez um número limitado de pessoas era liberado, muitas famílias, uns tantos idosos, poucos jovens, afinal estávamos em pleno feriado de carnaval. Até ali a escolha do programa se mostrava acertada. O céu de São Paulo, em geral anuviado, ostentava seu melhor azul, graças ao sol que naquela manhã brilhava majestoso. A cidade vazia permitia que o trânsito dos carros passasse despercebido, dando um toque de leveza às suas ruas sempre nervosas e congestionadas. A visão do conjunto formado pelo Memorial da América Latina completava o quadro com suas linhas brancas desenhadas por Niemayer e cumpria sua função de arte que surpreende: ao entrar, o espaço interior ganhava uma dimensão inimaginável quando visto de fora. Celulares nas mãos, muitos se punham a fotografar, buscando dar um destino a emoção daquela visão. Era preciso gravar cada pedaço, não perder nem os detalhes nem o conjunto. Os painéis Guerra e Paz estão entre os principais trabalhos de Portinari, encomendados a ele em 1952 pelo governo brasileiro como um presente para a sede da ONU em Nova York. Medindo aproximadamente 14 x 10 m cada um, ficam expostos no hall de entrada da Assembleia Geral da ONU, mas estão temporariamente no Brasil (e devem seguir para alguns destinos pelo mundo) enquanto vige uma reforma naquela instituição. Ao vê-los é impossível não identificar o traço característico da obra deste grande pintor natural de Brodósqui, marcada por tipos físicos bem nacionais que interpretam suas misérias, lutas, alegrias e esperanças. Ao meu lado um menino de uns oito anos olha atentamente ora um, ora o outro painel. Seu pai havia lhe imposto uma tarefa e era impossível não ser contagiada por seu entusiasmo. Após alguns minutos, satisfeito com sua pesquisa ele anuncia seu veredito final: “É este o da paz!” Seu olhar antes inquieto, parece se beneficiar desta paz. Sigo-o e bem ali, no meio do painel, uma boa quantidade de crianças em diferentes situações de brincadeiras. Os tons “da paz” são mais claros, dourados, como se ali a luz fosse permanente, e o clima sereno. Embora a ideia dos painéis divida a paz de um lado e a guerra de outro, para muitos pensadores elas não são contraditórias, e sim processos inseparáveis, como se fossem representantes tanto da condição humana quanto de seu processo civilizatório, muito embora  mudem com os tempos, não apenas em suas formas, mas também em seus sentidos. Assim, uma reflexão sobre a economia da violência no século XXI, deveria levar em conta não só as novas formas de conflitos que surgem no panorama mundial, mas as maneiras inéditas de suas soluções. Parece-nos longe a imagem de um mundo de indivíduos iguais e felizes, ou uma comunidade internacional integrada por Estados pacíficos e soberanos. Nem mesmo a premissa compartilhada por muitos de que o curso da história deva seguir a conquista crescente de liberdade ou a de que a rota de cada indivíduo precisa incluir a construção de sua ética, é unanimemente consentida. Mas quando a palavra é a esperança, nada mais singelo e legítimo do que contemplar uma criança e seguir com ela em sua aposta de um bom futuro. Sempre e quando isso é (for) possível.



Para conferir: Guerra e Paz
Quando: de 7 de fevereiro a 21 de abril (de terça a domingo, das 9h às 18h)
Onde: Memorial da América Latina - Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664  Barra Funda São Paulo
Quanto: gratuito


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

São Valentim

Diz a lenda (e a historia) que o imperador romano Claudio II teria resolvido proibir os casamentos em seu reino visando a formação de um exército maior e mais poderoso. Ele acreditava que sem famílias, os jovens se alistariam sem titubear e com maior entusiasmo. Não contava, porém com a dissidência de um jovem bispo que secretamente continuava a celebrar os casamentos. Descoberto, Valentim é preso passando a receber milhares de flores e bilhetes dos jovens, que viam nele um defensor do amor. Mas a historia não acaba aí. Enquanto aguardava o cumprimento de sua sentença, Valentim recebe a visita da filha cega do carcereiro por quem se apaixona perdidamente e para quem deixa uma mensagem de adeus. O dia de sua execução, 14 de fevereiro, passa a ser rememorado por aqueles que quisessem dedicar alguma mensagem aos seus amores. A partir do século XVII países como a Inglaterra, a França e os USA adotam a data para celebrar com mais pompa e circunstancia (e com pouco mais liberdade), o dia dos namorados, prática que nas últimas décadas se expandiu pelo mundo afora. Com poucas exceções - no Brasil esta data foi fixada às vésperas do dia de Santo Antônio, o santo português casamenteiro que em suas pregações religiosas, valorizava a importância da união amorosa -  namorados de todas as idades e do mundo inteiro são convocados a celebrarem com trocas de presentes e cartões e engrossam as transações comerciais com surpresas românticas, mantendo a boa fama da data.  Até o site de buscas Google dedicou um logotipo animado ao Dia de São Valentim aos países que comemoram o Dia dos Namorados neste 14 de fevereiro. No  vídeo que dura cerca de um minuto, com direito a trilha sonora interpretada por Tony Bennett,  um garoto encena várias tentativas para conquistar uma menina. No final a tela se enche de corações vermelhos. Uma cena que não deverá ser compartilhada pela cidade de Aceh, na Indonésia. Ao menos não publicamente. Em nota divulgada pela internet, fica-se sabendo que a lei islâmica (vigente ali há uma década) proíbe que os casais celebrem a data. Acostumados com a truculência dos tribunais islâmicos que fiscalizam e punem as infrações morais com castigos físicos, o povo dali se submete às revistas feitas nos locais mais isolados que farejam os casais que infringem as rígidas regras. Em Aceh o dia dos namorados é associado a expressões de amor e sexo que ali são proibidas entre pessoas solteiras. A nota ainda divulga que, se quisessem desfrutar o clima romântico  tradicional da data, os casais de Aceh teriam que fazê-lo muito bem escondidos em seus lares. A história do dia dos namorados, embora possa ser avaliada majoritariamente por seu apelo consumista, acompanha a história de nossa relação com o amor e o sexo. Vimos como no início da Idade Média, Valentim buscava incentivar as uniões amorosas entre os jovens, apesar da tirânica decisão do imperador em silenciar seus anseios de acasalamento. Em sua visão de chefe de um império, tais práticas desviariam os homens de seus deveres de guerreiros prontos a lutar por seu reino. Já a Igreja católica se preocupava em dar um destino menos promíscuo ao sexo, ao enquadrá-lo nos limites do sagrado casamento. A sexualidade humana se mantém como instituidora do cultural, por ultrapassar o campo da biologia e falhar repetidamente em se conformar as normas  e restrições que a regulam. É justamente esta falha ou erro que abre espaço para transformações tanto individuais quanto sociais. Foram necessários muitos séculos para que a sexualidade e o amor angariassem lugares dignos e mais livres entre as escolhas humanas. Ainda que cada cultura permita a realização de certas condutas e interdite outras, sabemos que em nossa aldeia global não é mais possível impedir que as culturas se relacionem minimamente através de trocas internáuticas de informações, imagens, conhecimento e costumes do mundo todo. As recentes e audaciosas ações dos jovens de alguns países árabes transgrediram proibições seculares ao garantirem a circulação das informações. Cumprem, quem sabe, um ciclo ao produzir turbulência em verdades estabelecidas. São mudanças que causam temores por acenarem com o novo, mas trazem a esperança  e a promessa de um mundo melhor, quando apostam mais na capacidade de cada indivíduo em inventar novas e melhore maneiras de se viver.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

E o Oscar “poderia” ir para...

o filme iraniano “A Separação”, um dos grandes favoritos ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro de 2012. Filmes iranianos não são tão comuns, marcam sua presença apenas em festivais e mostras internacionais e em geral atraem um público restrito, formado por críticos e aficionados. No Brasil chegam a serem alvos de comentários irônicos ou piadas, na boca dos que inadvertidamente acompanham alguns mais intelectualizados ao cinema. Geralmente produzidos com poucos recursos, são considerados arte de resistência ao mostrar ao mundo (sempre driblando a censura de seu país) um pouco de sua cultura e seus anseios de liberdade de expressão. Mas o jovem diretor Asghar Farhadi , 39 anos, conseguiu um feito sem igual, conquistando não só o premio de melhor filme (Urso de Ouro/2011) na Alemanha - além do Globo de Ouro/USA de melhor filme estrangeiro e sua indicação para o Oscar deste ano- mas a quase unanimidade do público que o assistiu e que não se cansa de reverenciar a força de sua bem sucedida trama. O título já anuncia que o tema será um drama familiar: os trâmites difíceis da separação de um casal que possui uma filha pré-adolescente. Com este disparador, todos, do ocidente ao oriente sentem-se à vontade para participar dos detalhes da vida íntima da família. Uma câmera ágil e à maneira de um reality show, o diretor (que também é o roteirista) apresenta, através do cotidiano das pessoas envolvidas, um universo antropológico importante ao contemplar tanto a dimensão subjetiva e os conflitos específicos do espaço conjugal/familiar quanto as marcas do funcionamento da sociedade iraniana. Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi) estão diante de um juiz que precisará concordar com as razões do pedido de sua separação. Ela deseja sair do país por achar que o lugar não oferece o ambiente ideal para o crescimento de sua filha, mas ele não concorda, em parte por não poder/querer deixar o pai que está com Alzheimer. Quem fica com a filha? A disputa sobre o destino da filha é o mote para as tentativas de solucionar o embate, seja no desejo desta menina que prefere imaginar que a separação não irá se consumar, no anseio desta mãe, que aposta em um novo começo da família e da relação (fora daquele ambiente), ou nas certezas do pai, mais ligado às tradições e a manutenção “das coisas como elas estão ou são”. O árbitro (juiz) cuja função é fazê-los explicar-lhe as razões de seus conflitos mostra-se pouco ou nada aparelhado para entender as sutilezas destes impasses amorosos. Isto se repete quando o mesmo juiz deverá arbitrar sobre um acontecimento que envolverá a doméstica Razieh contratada por Nader para cuidar de seu pai durante as tardes, enquanto ele trabalha e a filha está na escola. Grávida, ela aceita relutante o emprego (não tem certeza se sua religião permite que ela troque e dê banho em homens), mas esconde o fato do marido, que além de violento está desempregado. Sai o espaço privado, entra o público e o conflito passa a girar em torno da separação abismal entre uma elite que tem acesso a educação e busca na modernidade soluções para os impasses sociopolíticos e religiosos e a classe mais pobre, fechada na tradição e na religião. Parte-se de forma insana em busca de uma verdade (impossível) para os fatos e dilemas através de depoimentos meticulosos de cada envolvido e das testemunhas de cada um. É como se a única via de solução de conflitos, pudesse ficar a cargo da fragilidade de um judiciário (representado ali pelo mesmo homem) que deverá julgar a partir de certas crenças e códigos, qualquer espécie de "litígio", o que deflagra o mapa da precariedade do país para lidar com as contradições morais, religiosas e sociais. O diretor encontra uma forma inteligente e feliz de tecer sua crítica ao caos civilizatório provocado por qualquer estado autoritário (teocrático ou não). Ao mesmo tempo, revela sua aposta na maior flexibilidade das mulheres iranianas, seja na coragem de Simin (a mãe), que não hesita em sonhar com novos horizontes, seja na figura da filha (Termeh), convocada pelo pai e pela mãe a escolher entre as raízes e as tradições ou a um futuro que poderá lhe ser diferente. Pura arte!

Para conferir: A Separação (Jodaeiye Nader az Simin) - Irã/2010     Direção: Asghar Farhadi
Com: Hatami, Peyman Moadi e Sarina Farhadi

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Posso chorar?

Era possível que seu rosto estampasse a sensação de bem estar que lhe invadia. Naquele momento deveria fazer parte de uma ínfima porcentagem de pessoas que estariam ali, naquele dia, hora, minuto, tendo a chance de passar por aquela experiência. Seus olhos bem que tentaram alcançar algum ser humano. Não havia ninguém, ao menos até onde sua visão lhe guiava. Que privilégio. Tentou convencer sua memória a jamais se “esquecer” daquele quadro. Mas um friozinho desceu e subiu por sua coluna. Ai, esta incômoda sensação que chamamos de medo e que nos invade sem ser chamada. Percebeu que se armava uma guerra em seu interior. De um lado, um forte anseio de prolongar até o impossível aqueles momentos - que mais pareciam oníricos - em que a conjunção de tantos e belos fatores da natureza pareciam encher a alma (ao nível máximo) daquilo que pensamos ser a felicidade. Sentada ali, à beira daquela falésia, cuja altitude deveria ser matematicamente perfeita para lhe proporcionar o conforto de uma visão macroscópica do “universo”, era possível entrar em contato com o “verdadeiro” horizonte: acima o céu azul anil, impecável, juntando-se tal e qual um tom sobre tom ao verde claro e límpido do mar. E que mar! Belo e misterioso, a lhe seduzir insidiosamente com suas águas a ir e vir, às vezes provocantes outras raivosas, até se aquietar nas tranquilas, quando finalmente parava de se exibir e se entregava, deixando-se apreciar, e até ser desejado. Neste tom, o vento ameno da brisa acariciava seu rosto e ela podia sentir-se livre e capaz de amar a si, ao mundo, a vida. Era o medo, um medo difuso e corrosivo que conseguia turvar as águas marinhas antes límpidas. Da sensação de dona do mundo direto a de grão ínfimo e insignificante. Como era possível? Sentia-se tomada por uma vulnerabilidade inaceitável e nada, nada mesmo parecia ser capaz de aliviar seu corpo e sua alma daquela passividade indesejável. Quase se deixando tomar pela tristeza, resolveu enfrenta-lo. Medo de que? A voz ficou presa, segundos antes que seu grito ecoasse infinito abaixo. No fundo sabia que era um conjunto ou uma soma de medos. Um horror por imaginar-se incapaz de “viver a vida que tem que ser vivida”, uma apreensão diante do futuro incerto, talvez sem a constatação de ser amada como esperava ou de amar como deveria, um pânico diante do imprevisível dos perigos e dificuldades e até uma certa vergonha por este “não saber” o que fazer, por perceber-se tão frágil. Poderia ficar ali a aumentar a lista, mas isso começava a lhe dar um gosto de ressaca moral. Lembrou-se de Verinha, que costumava usar esta expressão, com seu jeito cômico de relatar (sem jamais parar de falar) suas peripécias quase sempre desastradas. Entre ela e Verinha havia esta diferença que fazia a “diferença”. Verinha não tinha dentro dela este “modelo” de si perfeito, sempre inalcançável, que lhe cobrasse tiranicamente (e sem piedade) suas falhas. Conseguia rir de si mesma ou chorar quando era assaltada pelas decepções e tristezas que a vida lhe impunha. Tampouco parecia temer (ao menos não tanto quanto ela) se apresentar aos outros com suas feridas e perdas, assim como recompor-se para embarcar no próximo trem que ali passasse. Aquietou-se. Tinha que ser grata à sua memória por trazer-lhe a tona a lembrança desta amiga querida. Não conseguia evitar um esgar risonho ao evocar aquela figurinha amada, tão presente em sua vida sempre que o chão ameaçava lhe faltar. Suspirou. Voltou a sentir um ventinho leve e agradável em seu rosto. Olhou o horizonte e lágrimas (nem um pouco amargas) desceram silenciosas. Que privilegio!