sábado, 21 de abril de 2012

Mal / Bem estar


A TV estava ligada na nova novela da Globo, “Avenida Brasil”. Tinha começado a assisti-la na expectativa de que sua trama lhe despertasse algum interesse, pudesse acalmá-la ou surtir algum efeito renovador, quem sabe ao menos afastá-la daquele turbilhão de pensamentos que puxavam mais um tanto de sentimentos e que irremediavelmente a jogavam no mesmo buraco de sempre. Suspiro.  Simpatizara-se com o nome escolhido pelo autor, “Avenida Brasil”, que sabe-se lá por qual  associação lhe remetera aos personagens do Veríssimo da “Família Brasil”  no Estadão, ao invés da controvertida Avenida Brasil carioca. A coluna do Veríssimo sempre funcionara como um oásis naquele monte de letras sem fim do jornal que seus pais assinavam desde sempre, além é claro, d’O Estadinho, único que exibia cores e os personagens da Turma da Mônica. As tirinhas da “Família Brasil” chamavam a atenção por sua simplicidade, de traços e conteúdo, embora sua ironia fosse além do que ela podia entender então. Foi a partir de sua adolescência que pode legitimar esta admiração e reconhecer a inspiração com que o autor descrevia as situações engraçadas e constrangedoras do cotidiano de todos. Um humor fino, beirando o absurdo, percorria as observações do pai, sempre às voltas com o seu salário curto, da mãe, dona de casa, da filha, eternamente apaixonada, do filho adolescente (com tudo o que este universo pode conter de situações surpreendentes) e do neto. Balançou a cabeça, um gesto que denunciava aquela conversa íntima com suas lembranças, e tentou voltar ao fio que começara a tecer. Ah sim, a nova novela das nove, que em pouco tempo desenhava personagens tão difíceis de simpatizar, ocupados em organizar planos maquiavélicos, estratégias de vingança, vestidos sem nenhum pudor com roupas de heróis sem caráter. Aquele cenário não lhe trazia a paz esperada nem lhe permitia a curtição de um entretenimento, ao contrário, cutucava, causava um certo incômodo e levava-a a divagar. Se por um lado a força e a urgência de uma boa audiência seriam fatores decisivos para as ideias e roteiros das novelas, os enredos certamente precisavam despertar a atenção dos espectadores, surpreender ou tocar fundo na alma da maioria. Mesmo não se considerando uma seguidora assídua, sabia serem as novelas um produto nada desprezível da cultura brasileira, que abrangiam uma enorme fatia da população do país. Era ao mesmo tempo um retrato social, um veículo de produção de certos ideais e promotor de debates sobre valores caducados e outros ainda em ebulição. E para acompanhar o volátil tempo atual, suas histórias (pelo menos as de peso) há muito haviam deixado para trás enredos assépticos, em que o bom mocismo imperava, os protagonistas eram todos idôneos e o amor sacralizado. Isso não combinaria mais com este mundo fluido, com valores sempre em cheque e  pessoas em permanente dívida com o futuro ou nostálgicas de um passado imaginado mais calmo. Ela mesma só estava ali pensando sobre todas estas coisas, porque havia quebrado a perna em um tombo ridículo, e restava-lhe zapear a TV dia e noite em busca de um programa ansiolítico ou ler na cama quando a insônia vinha lhe fazer companhia. Certo, duas impossibilidades em tempos “normais”. Voltou a parear a “Família Brasil”, um tanto e quanto ingênua em suas tiradas irônicas sobre as mazelas do dia a dia de uma família classe média e a “Avenida Brasil” com seus personagens ressentidos, vingativos e prontos a puxar o tapete de seus adversários. Acabara de chegar de suas sessões diárias de fisioterapia, um local agradável, que reunia (ao acaso?) profissionais delicados e alegres que, sem notar, criavam uma atmosfera afetuosa que contagiava a todos ali presentes. Um ambiente que “impunha” a troca de gentilezas. Pensar que esta paz era possível, que estava logo ali, ao seu alcance, lhe trouxe a PAZ que buscava. Desligou a TV, apagou a luz e adormeceu.

sábado, 7 de abril de 2012

A raça brasileira

Em 31 de março último houve um evento realizado pelo Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae  cujo título era O Racismo e o Negro no Brasil, um tema para lá de atual já que os males de nosso século parecem gravitar em torno da violência da xenofobia (nossa aversão/medo irracional e excessivo diante do diferente/desconhecido), da intolerância étnico racial ou religiosa. Aberto ao público, gratuito e no formato de um sociodrama, pelo menos um terço dos que ali compareceram eram descendentes de negros, vindos de diferentes setores e instituições da sociedade. O intuito era promover um debate a partir de uma sensibilização de cada um sobre as expectativas de sua presença ali, suas crenças e a percepção de si e do outro dentro da questão da discriminação racial. Levados a buscar e cavoucar lembranças de cenas impactantes ou importantes sobre o preconceito, aos poucos todos (vítimas ou não) foram adentrando no clima desta violência humana. É difícil pensar o “racismo” como uma invenção humana. Podemos pertencer como origem à determinada etnia, mas isso não nos coloca, a priori, abaixo ou acima de outras. No entanto, nossa história humana se ocupou em criar esquemas classificatórios que pudessem justificar a dominação e o desprezo de uns por outros. No mundo atual, ainda que os critérios biológicos possam atestar que cada ser humano tem uma individualidade genômica absoluta que ao interagir com o ambiente  molda uma exclusiva e singular trajetória de vida, convivemos com um imaginário cultural que muitas vezes classifica estrategicamente os indivíduos pela cor da sua pele, sua aparência física, sua condição social/intelectual, sua religião, de forma equivocada e moralmente irrelevante. A questão da representação social do negro no Brasil - embora recentemente venha sendo mais discutida - é extremamente complexa. As cenas de humilhação (e, portanto de dor) ainda se repetem, às vezes de forma violenta, mas em grande parte de forma velada. Em meio ao sociodrama, no corpo a corpo das cenas de “brancos” versus as sofridas pelos “negros” era impossível não perceber nossa distancia deste universo atravessado por injustiças. Se o “nosso” negro sempre encontrou barreiras para a sua integração à sociedade, mesmo que imperceptivelmente para muitos, continuamos a reproduzir este preconceito e a desigualdade. Aqui e ali ouvimos os ecos da romântica ideia de uma democracia racial brasileira ou da falta de um racismo institucionalizado (como o dos USA ou África do Sul), o que contribui para manter o mito de um paraíso racial, onde teria imperado um modelo escravocrata mais brando. Diferente sim, com certeza. Diante deste (mínimo) contato mais denso com sua “história” somos levados a constatar que para a maior parte dos descendentes negros pertencentes à geração dos pioneiros que lutam por um espaço novo em nossa cultura, a dor e o ressentimento (às vezes a raiva) são companheiros permanentes. É a geração dos jovens que ameniza essa tristeza. São eles que começam a poder se orgulhar de sua história, a buscar um reconhecimento de sua origem étnico-racial, a reconstruir sua identidade. São eles que apostam na transformação das representações sociais e se articulam para constituir ações, ocupar territórios interditados, expandir sua cultura. A contar e recontar sua própria história para curar as feridas e sair da invisibilidade.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Benvindos bebês!

Sou a primeira filha de uma prole de sete. Me acostumei a acompanhar os processos de gravidez e parto de minha mãe e depois de certa idade a participar não só da preparação do espaço físico para receber o futuro bebê - separar as roupinhas, organizá-las nas gavetas recém-esvaziadas para conter o herdado e o novo vestuário, “promover” a mudança do caçula do berço à cama - como também dos cuidados de higiene e alimentação necessários a todo recém-nascido. Mesmo com todo esse “know- how”  a experiência de ser mãe pela primeira vez superou e muito qualquer expectativa de vivê-la de forma simples e tranquila. Em uma recente reunião realizada com colegas de trabalho, algumas jovens cuja passagem pela maternidade ainda era viva, relatavam (de forma corajosa) a surpresa  com que haviam se deparado com o seu despreparo - e a consequente  sensação de desamparo – diante do tornar-se mãe. As lembranças de minha mãe tantas vezes grávida, de sua tranquilidade diante do processo de crescimento de seu útero, sua alegria no preparo para receber o bebê e sua experiência no manejo dos cuidados, faziam com que eu imaginasse (e fantasiasse) que esta passagem de filha para mãe fosse algo natural, sem percalços. Ledo engano. Assim como o sexo e a morte, também os nascimentos (não por acaso) sempre estiveram envoltos em ritos/rituais de passagens a depender da época e da cultura. Minha mãe – talvez por morar no interior - só veio a conhecer um médico ginecologista que instituísse a prática das consultas mensais de pré-natal e lhe passasse novas e modernas informações sobre gestação e trabalho de parto, a partir do sexto filho. Antes, as intervenções cirúrgicas (cesáreas) eram raras e o parto, apesar de ser feito em hospitais gerais, ficavam a cargo de parteiras profissionais, que na maioria das vezes, se punham ao lado das camas das futuras mães e rezavam o terço enquanto elas se debatiam em dores a cada contração. Estamos falando de algumas décadas atrás. De lá para cá é difícil dimensionar todas as mudanças em torno dos cuidados/preparo médicos e paramédicos e do conforto que o mercado voltado para esta etapa da vida oferece para os pais e os bebês. São tantas as opções e tantas as informações disponíveis àqueles que pretendem planejar seu futuro de pais que, de certa maneira, não é difícil viverem esta fase com a sensação de se estar amparado e protegido por tal aparato. Mas toda a movimentação em torno deste preparo, que não deixa de ser importante, ainda ignora o peso desta mudança crucial: a do bebê que deverá entrar na vida, a da mãe que terá que abandonar sua gravidez e construir seu espaço materno e o pai que precisará se inteirar sobre a importância destes dois processos. O que parece pouco pode surpreender pelo número incomensurável de mães e pais que ficam aterrorizados diante da culpa por qualquer sinal que lhes pareça desviante no comportamento de seu bebê ou em sua performance de pais. O que fazer se o bebê não consegue mamar? Ou se ele chora sem parar? Quando a mãe se deprime e não consegue cuidar de seu filho? Se o pai se apavora e prefere se distanciar ao invés de dividir a tarefa do cuidar? Assim que o bebê nasce percebemos ter mergulhado em uma piscina funda e desconhecida. Após o susto, para os que sabem nadar, resta “aprender” a nadar junto. Para os que nunca “souberam”, é preciso superar o terror para depois “aprender”. As aspas são para lembrar que este aprendizado não está nas cartilhas. São recursos internos que cada um leva nesta empreitada, e outros que poderão ser construídos quando o ambiente puder oferecer esta ajuda. As jovens mães presentes naquela reunião questionavam nossa cultura e sua insistência em tornar o parto o mais asséptico, funcional e rápido possível, sem lugar para a contenção das angústias suscitadas e sem aviso prévio sobre o tempo (em geral bem mais longo do que imaginamos) necessário para que cada um, mãe e pai, se apropriem deste novo lugar em suas vidas e na vida de seu filho. Uma tarefa que exige MESMO muita disponibilidade e coragem. A “aflição” quase perene destes cuidados se esvai bem mais tarde, e se tivermos sorte, poderemos sair das cadeiras de pai ou mãe ideal, nos lembrar de nossas performances desajeitadas e quiçá narrá-las aos nossos filhos, como pais possíveis que pudemos ser.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Os que se importam

Dia destes um jovem executivo confidenciava a um colega de trabalho que, à diferença de seu antigo terapeuta, o atual se importava com ele, e isso fazia diferença. Seu comentário me remeteu a um recente relato de uma amiga que lamentava a forma constrangedora com que alguns médicos conveniados ao seu plano de saúde, faziam questão de frisar que ela estaria desfrutando de seus preciosos conhecimentos apesar de eles estarem sendo muito mal pagos. A morte do geógrafo Aziz Ab’Saber ocorrida nesta sexta dia 16 de março espalhou vários obituários pela mídia que tentavam informar ao público aspectos relevantes de sua biografia. Quem foi este homem? É possível que a quase totalidade do meio acadêmico conhecesse sua importância e soubesse que ele era integrante da Academia Brasileira de Ciências, presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), além de ter sido presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) entre 1982 e 1983, onde trabalhou pelo tombamento da Serra do Mar. Também é quase certo que muitos soubessem ser ele uma fonte básica e obrigatória para qualquer debate sobre a questão ambiental brasileira não só por seu vasto conhecimento em áreas como a ecologia, biologia evolutiva, geologia, arqueologia e geografia, mas por jamais se furtar em marcar sua presença como agente politico sempre em busca de soluções para o bem coletivo, sobretudo quando o assunto dissesse respeito aos riscos ambientais. Graças a certas “armações” do destino, no entanto, pude ser uma observadora mais próxima da figura humana de Aziz Ab’Saber, alguém que desfrutava de uma inquietude incessante diante do sentido de se estar no mundo e parecia “se importar” em transformar seu conhecimento em “produto utilizável e acessível” ao maior número de pessoas possíveis. Sabiamente, nas últimas décadas, se aproximou dos jovens e deixava explícita sua ânsia em despertá-los para a sua importância no futuro da boa vida humana, fosse com a construção de  uma preocupação com a natureza, mas sobretudo com a construção de uma consciência “política” , uma noção do papel que cada um deveria ter para consigo, com o outro e com o mundo em que vive. Em um mundo com parâmetros menos definidos como é o que vivemos, em que se ganhou muito em liberdade e em poder tecno-cientifico, há poucas diretrizes sobre os modos de se organizar a vida em comum, principalmente para uma geração marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. Sobram chamadas para os prazeres que podem ser cada vez mais facilmente conquistáveis, mas faltam convites que possam dizer sobre a condição humana e sobre o também “prazer” de poder fazer parte (importante) de um mundo que ainda precisa de bons legados para ser transmitidos aos que nos sucedem. Alguém que se disponha a intermediar a herança com a criação. Obrigada professor!


segunda-feira, 19 de março de 2012

O sentido da doença

Sob o instigante título “A ciência olha o escuro” a matéria do caderno Aliás do Estadão do último domingo, 11 de março, dava voz ao médico oncologista Siddhartha Mukherjee , autor de  “O Imperador de Todos os Males: Uma Biografia do Câncer” . Vencedor do Prêmio Pulitzer de 2011 na categoria não ficção, Mukherjee se propõe a desmistificar o câncer, o mal que atinge um número sem fim de humanos pelo mundo afora, e que, segundo ele, só é reconhecido consensualmente por sua descrição de um crescimento anormal de células e pelo fato de colocar a todos em pé de igualdade diante do aspecto trágico de se estar doente. Avanços e pesquisas à parte, a reação de cada ser humano para com sua doença é sempre diferente e particular, motivo pelo qual ele insiste na mistura de arte e ciência da Medicina ao enfatizar a sensibilidade na visão que cada médico deveria ter de seu paciente. Sua leitura nos faz recordar que as representações sociais das doenças não são fixas, ao contrário, constituem-se e se modificam através da história, assim como os tipos de doentes. Entre os séculos XIX e XX, por exemplo, de uma visão romântica sobre a tuberculose, que a associava à criação artística, passou-se a encará-la como  um produto da pobreza e de descuido público. Susan Sontag também fez referência às representações culturais do câncer e da tuberculose em seu ensaio “A doença como metáfora”- escrita em meio a sua própria luta contra o câncer- representações estas produzidas tanto pela literatura ficcional quanto pelos discursos médicos/psiquiátricos que privilegiariam a ideia de doença como um mal social ou como uma punição ao ser humano. Nesta mesma linha de raciocínio, o conceito de saúde, ao também sofrer influências de seu tempo, seria entendido hoje como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente como a ausência de doença. A maioria dos leitores concordaria que a saúde é praticamente um dever que também inclui a perfeição corporal e a felicidade plena, o que faz com que todos se sintam convocados a pautar suas vidas na busca da saúde perfeita, sob pena de ser moralmente responsabilizados por estas falhas. De forma grosseira, na tentativa de se realizar um mapeamento completo/absoluto da saúde, a “psicossomática” passou a ser encarada como um setor da Medicina que almejaria descobrir a natureza exata da relação entre as emoções e as funções corporais e analisaria as doenças sempre pela relação causal com que o psíquico participa de qualquer doença. Na ponta final, toda doença poderia ser interpretada como um acontecimento psicológico, o que estimularia a crença de que adoecemos porque (inconscientemente) queremos adoecer e por isso podemos nos curar pela mobilização de nossa vontade, e pior, estaríamos aptos a escolher entre morrer e não morrer da doença. Haja onipotência!  Parece haver um pacto entre os que “curam” e os que precisam ser curados. Ambas as fatias comungam da ideologia vigente na atualidade de que as insatisfações ou desconfortos seriam desvios que devem ser suprimidos. A boa vida estaria associada à aquisição de habilidades e competências e a experiência de sofrimento acenaria a falência das obrigações existenciais. Tal tentativa de “ajuste” sem brechas acaba por desvelar o quanto as doenças carregam – desde sempre - o significado de maldição, mudando apenas seu sentido e justificativas a cada época. Permanecem tabus e disseminam o temor justamente por nos colocar frente a frente com nossos limites. Diante da dor/sofrimento (nosso ou do outro) não é dificil recuar, nos espantar ou sentir horror, o que nos faz buscar incessantemente formas sempre mais sofisticadas de cercear ou controlar os males da alma e do corpo. Também é este terror, surpresa ou curiosidade que sentimos diante de certas vidas marcadas pelo trágico, excêntrico ou estranho, que obstaculizam a tarefa clínica dos que se ocupam de cuidar. É sobre a complexidade destes cuidados que Siddhartha Mukherjee  tenta chamar a atenção em seu livro, ressaltando a importância do confronto com a emergência da subjetividade e suas consequências, mas principalmente a possibilidade de exercer um trabalho que potencialize o espaço do posicionamento de cada um frente a sua dor e sua doença. Não podemos nos esquecer de que a saúde mental/corporal como ideal e como bem comum, assim como o anseio da ciência em buscar eliminar nossos males são sintônicos com o desejo humano de silenciar as vozes destoantes, enigmáticas e por vezes dolorosas da experiência do adoecer. Buscamos incansavelmente um sistema de proteção contra qualquer sofrimento insuportável.

domingo, 11 de março de 2012

Paixão/ medo do novo

Na visada diária pelos jornais digitais, a foto de um casal de homens jovens e risonhos chamava a atenção pela manchete que a acompanhava. Em 2009, ao pleitear ao conselho do Club Athletico Paulistano (do qual seria sócio desde pequeno), a inclusão de seu companheiro como seu dependente, o cirurgião plástico Mario Warde Filho teve seu pedido vetado. Qualificando-se vítima de discriminação, o casal foi à Justiça e no mês passado obteve uma decisão favorável. A divulgação da notícia pela mídia abriu o debate (mais que atual) sobre as parcerias gays. Aqui e ali os membros desta centenária e elitizada associação se posicionaram, alguns para defender a igualdade de direitos e apoiar a decisão da justiça que reconhece uma entidade familiar na união estável entre pessoas do mesmo sexo, e outros (a maioria) que, inconformados diante da possibilidade de conviver tão proximamente com o que lhes soa “estranho”, justificam sua indignação invocando a manutenção de uma “ordem moral” imaginária. A ideia de “clubes” assim como de condomínios privados parece conter uma aspiração (tipicamente humana) de encontrar e ocupar um lugar plenamente satisfatório onde reinaria a absoluta harmonia, a completa satisfação e nenhum ruído perturbador. Há temas recorrentes da história humana como a escravidão, os genocídios e as diversas formas de intolerância que se utilizam do recurso (também tipicamente humano) de justificativas imaginárias (quase sempre inconscientes), o que contribui para ampliar o imbróglio de uma grande fatia de nossa historia. Na Ilustríssima do dia 4 de março último, a matéria intitulada “A mitologia das ideias” discutia o fato de que a razão humana teria evoluído menos para aumentar o nosso conhecimento e nos aproximar de alguma verdade sobre nós ou o mundo do que para confirmar nossos sentimentos, palpites ou intuições. Nossa porção racional procuraria elaborar argumentos “racionais” que justificassem nossas conclusões- geralmente a serviço de nossos interesses/crenças - e se poria a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, independentemente de ter qualquer uma das duas. Não. Isto não é uma crítica, antes uma constatação, a de que nossas paixões e medos seguem nos norteando. À medida que nossas sociedades tornam-se mais complexas, também parecem mais inconsistentes, construídas sobre contradições sem síntese possível. Vivemos um ciclo sem fim em que tentamos responder interrogações, buscar sentido e certeza, que logo mais se afastam para dar lugar a novas perguntas. São zonas de desconforto, por isso buscamos o “conforto” do conhecido, do mesmo. E se há algo que se impõe e ao mesmo tempo nos causa temor é a ideia de que nossa identidade sexual seja uma questão em aberto, que passamos a vida construindo e tentando, inutilmente fechá-la. A intolerância com a ambiguidade e ambivalência da sexualidade alheia é proporcional àquela que sentimos diante de nossas indefinições, que por serem insuportáveis e jamais admitidas, transformam-se em tiros nas janelas dos que transgridem o modelo binário de escolha sexual e amorosa, caso de homossexuais, transexuais, etc. Recentemente entrevistado pelo programa Roda Viva, o cartunista Laerte, que causou (e vem causando) estupefação desde que resolveu passar a se vestir de mulher, surpreendeu ao público que o assistiu ao responder muito à vontade e ao mesmo tempo com clareza e consistência sobre suas dúvidas e inquietações. Sem pretender qualquer postura panfletária ou militante, Laerte reivindica o direito de não se “enquadrar” nas duas opções de gêneros que a cultura oferece por acreditar que as possibilidades humanas possam ser mais amplas. Sua postura, ao invés de acirrar os prós e contras, promoveu um debate honesto e corajoso com seus interlocutores e pode ter contribuído para abrir nichos novos para se pensar os destinos da complexa sexualidade humana em um futuro nem tão distante. Para uns, talvez para a maioria de nós,o medo sobrepuje a paixão pelo novo. Para outros e poucos, o contrário. Resta constatar que ambas as posturas podem vir a fazer parte da vida de cada um de nós.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Ressonâncias do (e no) Oscar

O Oscar é a premiação mais badalada (e ansiosamente esperada) por todos os que apreciam minimamente a sétima arte. Ano após ano, nos meses de dezembro a fevereiro que antecedem a festa, há um boom de filmes indicados e um zumzumzum para se definir os favoritos do público, mesmo quando aqueles que foram arrematando outros prêmios importantes, não coincidam com estas preferências. O Oscar é também a vitrine top do mundo das celebridades - que dele se beneficia- e que gira em torno deste território tão americano e ao mesmo tempo tão conhecido mundo afora, graças ao fato de sua indústria cinematográfica se manter imbatível há quase um século. A história do Oscar, suas premiações a diretores, atores, atrizes e filmes ao longo dos anos, se confunde com a própria historia do país, além de movimentar uma importante fatia de sua economia. Isto porque seus roteiros compõem retratos importantes das inúmeras dimensões de sua cultura. Nas ultimas décadas, por força de um barateamento na produção e distribuição de bons filmes (graças às benesses da tecnologia digital) diretores de países europeus, asiáticos, israelitas e árabes, ou mesmo da América do Sul, puderam surpreender - aqui e ali - com filmes que impactaram por sua força politica, sua arte, seu poder estético ou cultural. No entanto o Oscar segue com sua festa singular e exuberante a expor seus mais celebrados artistas, esperados a cada ano por uma multidão de pessoas e repórteres no tradicional “tapete vermelho” estendido no percurso que leva ao Highland Center (ex- Kodak Theatre) em Los Angeles. Artistas que se esmeram em sua apresentação visual, desfilando produções dos mais disputados estilistas. Outra atração da noite (tipicamente americana) é o apresentador da premiação, em geral alguém que deverá ser ágil com as palavras e certeiro nas piadas, que devem surpreender pela inteligência, sem serem demasiado pesadas. Assim é que muitos espectadores espalhados pelo mundo se preparam para esta transmissão (ao vivo) e colam seu olhar nas escolhas mais importantes da noite, na expectativa de no dia seguinte dividir com os amigos suas satisfações ou frustrações. Um pouco mais à vontade, com um governo democrata cujo chefe também estampa o ineditismo de sua raça negra, os filmes indicados se abstiveram de retratar a situação politica e econômica algo indefinida dos USA ou as incertezas que rondam a economia de países antes estáveis. “O Artista”, filme francês que arrematou os mais disputados prêmios é mudo e foi rodado em preto e branco, bem ao estilo das produções do passado, em uma homenagem a vários ícones da história do cinema. Encantou o público com uma singela e tocante história de amor, destas que convocam a plateia a torcer para que cada um dos protagonistas possa finalmente descobrir o quanto o outro também o ama. Mereceu o prêmio principalmente pela ousadia de sua produção em tempos de filmes em 3D e de facilidades inusitadas para efeitos especiais. Apostou  com isso em um cinema intimista, que captura o espectador ao lhe exigir compartilhar os sentimentos ali presentes através da linguagem expressiva dos olhares e gestos. No mesmo clima saudosista e de reverência aos grandes artistas da década de 20, Woody Allen (que não compareceu ao Oscar) levou a estatueta de melhor roteiro original por seu filme “Meia Noite em Paris”. Já “Historias Cruzadas”, que aborda os percalços do racismo nos USA no Mississipi da década de 60- reduto americano da segregação racial mais violenta- teve sua premiação para a melhor atriz coadjuvante, ela também negra, em um dos momentos mais emocionantes da noite. Sem grandes surpresas, a premiação manteve-se light, coincidiu com os palpites dos críticos, e privilegiou produções de orçamentos mais modestos realizadas por diretores menos conhecidos. Contemplou o cinema arte e entretenimento.