sexta-feira, 11 de maio de 2012
Danos morais
Dias destes testemunhei um acidente que não só
me tirou o fôlego por alguns instantes, como me doeu a alma por um bom tempo.
Prestes a passar por um cruzamento importante e antecipando a troca do sinal
verde pelo vermelho através da visão do amarelo, fui diminuindo a velocidade
quando à minha esquerda um carro atravessou apressadamente já no vermelho. Nada
de novo - apesar de transgressivo - não fosse o fato do motorista não ter visto
a travessia de duas bicicletas e não ter conseguido evitar a colisão com uma
delas. Pior, apesar de ter sido obrigado a frear, o carro logo engatou nova
marcha e sumiu avenida afora, sem titubear. Não parou para se informar sobre os
estragos de sua imprudência ou para socorrer a vítima se fosse o caso. Fui
tomada por um mal estar insuportável que só foi mediamente amenizado ao
perceber que o rapaz atropelado se levantava e tirava às pressas sua bicicleta toda
torta do meio da rua. Imaginei que, como eu, ele estaria tomado por um misto de
alívio por sair incólume e muita raiva pela imprudência, covardia e indiferença
do motorista. Seu companheiro de bicicleta saiu em disparada para tentar
alcançar o carro, enquanto algumas pessoas na calçada se movimentaram em sua
direção para acolhê-lo. Invadiu-me a certeza de que todos ali partilhavam do
mesmo sentimento de aversão contra o malfadado motorista, seu ato antissocial,
sua falta de respeito para com os outros. Graças ao incentivo de construções de
ciclovias e à pronta adesão de milhares de jovens, o número de ciclistas que
transitam no dia a dia da cidade de São Paulo aumentou consideravelmente nestes
últimos dois anos, assim como os acidentes. Sem muitas leis, os protestos que
reúnem os usuários de bikes nestas ocasiões tem pressionado o setor público a
construir uma “visibilidade” para o ciclista através de implantação de novas normas
principalmente para os veículos. Com o rádio ligado quase sempre na Eldorado
FM, venho acompanhando esta evolução por uma de suas mais famosas “bike
reporter”, Renata Falzoni, que informara recentemente sobre campanhas públicas
e novas leis de transito que passam a proteger a vida do ciclista e
garantir-lhe o uso das ruas. Segui com meus pensamentos e me pus a “inventar”
um diálogo com um outro fictício em que eu pudesse discorrer sobre minha
repulsa ao ato “violento” daquele motorista. Um tipo de violência que nos deixa
impotente diante da constatação de que fica a cargo de cada um decidir sobre o
“uso” e o “abuso” que faz das pessoas. Resta-nos a aposta em um espaço comum de
constrangimento compartilhado, como o que imaginei em relação aos que
assistiram o acidente. Saber que a maioria poderia se indignar me alentava. Uma
amiga me relatara sobre este mesmo constrangimento compartilhado quando, em um
grande magazine, assistira a uma explosão violenta de um pai diante do filho
que derrubara uma peça do mostruário. Todos pararam e olharam assustados como a
esperar que aquele pai pudesse pedir desculpas por seu “excesso”. Ficaríamos
listando um número sem fim de exemplos de tais violações e talvez um dos mais
escabrosos pudesse ser o que a mídia tem chamado de “cachoeiragate” em que um
homem consegue construir e manter uma rede de influencia e troca de favores,
posicionando-se tal e qual um “padrinho” em todas as esferas de poder da
sociedade, arrastando partidos, corporações, empresas, prefeitos, governadores,
polícia, etc. É por desconfiar que a fronteira entre o “civilizado” e o
“bárbaro”, entre o digno e o indigno habita permanente em cada um de nós que
precisamos desta zona de conforto que imaginamos existir, uma zona moral que
seria partilhada pela maioria de “nós”, que não nos deixaria sozinhos diante de
certas violações desastrosas das normas de convivência e que nos ajudasse a
reafirmar certos valores preciosos na manutenção dos laços sociais
Ouvir, cuidar, refletir...
“Cartas a uma jovem psicanalista”
é um livro (mais ou menos recente) escrito por um psicanalista brasileiro que há
anos reside na França, Heitor O´Dwyer de Macedo, este título sendo uma
homenagem àquele utilizado por Rainer Maria Rilke no inicio do século XX em que o poeta francês
se dirige a um jovem admirador e tenta “desidealizar” o percurso rumo à consagração do poeta ao revelar-lhe quão
inseparável a poesia seria da sua própria vida. Pode-se dizer que ambos os
autores alertam para a impossibilidade de se prever estas trajetórias, e optam
por discorrer sobre a suas paixões ao apresentar suas marcas pessoais na
expectativa de contribuir com alguma luz para seus respectivos iniciantes. A maioria dos textos
gestados nas instituições psicanalíticas
e dirigidos aos que desejam iniciar sua formação reiteram que este
processo acontece no próprio percurso da formação em que, além da aquisição e
apropriação das conceituações teóricas, a análise pessoal desempenha um papel
central. Que esta análise não é suficiente para se tornar um analista. Que é
preciso analisar outros e submeter a sua clínica à escuta apurada de um
supervisor. E embora todos concordem
que viver uma análise é a condição principal para que alguém exerça o ofício de
analista, todos afirmam não haver um manual em que estejam recenseados
procedimentos para a investigação do inconsciente como prática terapêutica: não
há um saber a priori. O que a psicanálise insiste em revelar ao sujeito à sua
revelia é parte integrante do saber e da intervenção psicanalítica, seu
paradoxo e sua razão de ser, e só podemos nos considerar psicanalistas se pudermos
nos submeter a uma análise com alguém que também se submeteu, etc. Tal e qual
um ritual de passagem, esta transmissão, sempre via inconsciente, está articulada de forma complexa ao modo de
apreensão daqueles que escolhemos para serem nossos analistas. E isto é apenas
uma ponta do iceberg. É na intimidade de nossa análise pessoal que cada um se
aproxima e se apropria do modo de operar da psicanálise e ao mesmo tempo é
quando podemos conhecer o trabalho de um outro analista. Também é como
analisando que podemos verificar a realidade psíquica, reconhecer sua existência,
experimentá-la. Uma experiência a portas fechadas, sem testemunhas, que não se
ensina, e que é transmitida na medida em que são oferecidos sentidos possíveis
aos nossos sintomas, sonhos e lapsos, à medida que somos defrontados com nossas
dores e resistências na viagem em direção ao reconhecimento de nossos conflitos
e desejos. Trilhar este caminho, portanto é uma experiência que se vive na
carne, visceral e pessoal. Por outro lado, é na clínica que a teoria se recria.
Deitados (ou não) no divã daquele que elegemos como nosso analista, vamos nos
familiarizando com o método psicanalítico, reconstruindo nossa historia
psíquica, e nos incumbindo de refazê-la (ou ressignifica-la) continuamente. Estes
passos iniciais da prática clínica não são nada fáceis, pois paralelo ao
mergulho em nosso inconsciente, o contato com nossos pacientes nos lança as
mesmas questões, e nos convoca a revisitá-las por outros ângulos. Além disso, não
é nada fácil tolerar as dúvidas a que estamos expostos quando elaboramos
teoricamente nossos atendimentos clínicos ou escolher saídas para os impasses que
ela promove. Ao fascínio que a maioria de nós sente no exercício da profissão
de psicanalista se contrapõe profundos sentimentos de inadequação e despreparo
pessoal, conceitual e técnico. Muitas vezes caímos em uma certa rigidez técnica e alguma
confusão teórica, ou sacralizamos os textos, em uma tentativa de antecipação
teórica que nos auxilie a suportar nossa aflição diante do não saber. E a história não acaba aí. Como qualquer
escolha de profissão, ser um psicanalista nos coloca diante de questões de
identidade, reconhecimento e pertinência. Temos que eleger a instituição, os
analistas, os supervisores. Precisamos inicialmente de Mestres, a quem possamos
atribuir todo o saber, o que muitas vezes
transforma nosso discurso teórico
em dogma. Mais, o árduo percurso rumo a este oficio parece ser atenuado quando
o idealizamos e apostamos na possibilidade de vir a alcançar no seu saber, uma
espécie de completude, de respostas a todas as perguntas (nossas e dos outros).
Um grande paradoxo, já que tal expectativa desloca a Psicanálise de seu papel
de investigadora da condição humana para coloca-la em um lugar de Verdade
absoluta. Se a psicanalise nos convida a
compartilhar de sua pretensão permanente na desconstrução da majestade do eu e
dos ideais absolutos de seu tempo, não estamos isentos, como indivíduos-psicanalistas,
de no exercício da
tarefa de cuidar/ouvir do sofrimento e da dor humana escorregarmos para o lugar
dos que imaginam saber como “deveria ser ”.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Arte e deuses
Em conversas ao pé da porta com uma querida amiga, ela me contava como às vezes se entristecia ao perceber que suas lembranças de infância lhe surgiam fragmentadas. E se durante muito tempo seguiu culpando sua fraca memória, este argumento já não cabia. Desconfiava isso sim, que lhe faltava coragem para amarrar sua história e quem sabe por pura proteção, teria evitado trazer à tona passagens muito tristes ou impactantes de sua vida. Havia lido em algum lugar o depoimento de um escritor que ao descrever seu percurso até a realização de seu primeiro livro, também se debatia com os entrecortes de sua memória infantil. E tal dificuldade lhe causava tanta agonia, que escrever em algum lugar, cartas, cadernos ou diários, lhe devolvia a sensação de ser dono de suas lembranças. Só depois de muitas entrevistas em que foi questionado sobre os caminhos de sua inspiração, teria passado a tentar entender o motor que movia sua necessidade de escrever. Era-lhe vital colocar em prosa suas apreensões e fantasias, fossem quais fossem. Às vezes escudo, às vezes possibilidade, escrever, que agora poderia ser sua melhor ferramenta, tinha sido a única forma de construir uma ponte mais ou menos segura entre si e o mundo, que lhe permitisse seguir rumo ao desconhecido. Quando de tempos em tempos se permitia (ou podia) voltar a ler seus textos, por vezes conseguia traçar o fio de sua intuição, antes sem rumo. O relato de tal escritor teria sido muito inspirador para ela, que não sendo uma escritora e sim artista plástica, via sua arte vagando em um espaço sem sentidos definidos. Como ele havia confessado, ela também criava suas peças aparentemente sem nenhuma (pré) concepção, embora lhe fosse imprescindível classificá-las em seguida como a poderem ser guardadas em algum “arquivo” imaginário que lhe parecesse coerente com seu acervo artístico. Se durante um bom tempo esta simples tarefa lhe trouxe conforto, neste momento as dúvidas lhe assaltavam e o que parecia ordenado passou a lhe perturbar. Precisava achar o fio da meada, saber a que/para que/porque sua inspiração surgia ou não. Era como se sua produção só pudesse ser chamada de arte se ela encontrasse um sentido para ela. E isso a levava a outra premissa, a de que ao construir a história de sua arte pudesse entender a sua própria. Mas...e se sua arte fosse uma espécie de imposição dos “vãos” de sua memória? E se ela só pudesse acontecer graças à sua impossibilidade de colocar sua história na “linha do tempo”? Estaria ela condenada a viver uma arte-sintoma? Sua aflição me parecia genuína. Como ajudá-la? O que dizer? Fui socorrida pela lembrança do vídeo de uma escritora famosa que também passara pelas aflições que atravessam o ato criativo. Após escrever um livro que lhe rendeu muita fama, entrou no vácuo do futuro. Como repetir a dose? Como enfrentar a expectativa de seus leitores que não cessavam de lhe perguntar sobre a vinda do “segundo”? A resposta, dizia ela, demorou a chegar e finalmente a libertou deste martírio. A Arte não seria humana e sim uma entidade divina, coisa de deuses que escolhiam aleatoriamente alguns serzinhos humanos como portadores eventuais de suas ( pré) visões.
sábado, 21 de abril de 2012
Paradoxos
O que você faria se fosse assaltado à mão armada e
os ladrões levassem, além de cartões de créditos, um bauzinho de madeira com
uma quantia razoável em dinheiro e duas passagens para a Tanzânia, ganho dias
antes em sua festa de bodas de prata, como um presente rateado por amigos e
parentes? Este é o mote para as reflexões que se seguirão entre os personagens do
filme “As neves de Killimanjaro”, do diretor francês (da Marselha), Robert
Guédiguian. O valor de sua temática, no entanto transcende as fronteiras dos
países, ao colocar em foco um debate importante sobre certas convicções
ideológicas de direita e esquerda, que sempre escorrem para o certo e o errado,
o bem e o mal. Se há uma lógica em curso nos dias atuais é a dos paradoxos, que
nos convida a não fechar e sim a admitir vários matizes sobre um assunto, e
exige que repensemos tudo por nossa conta e risco (embora fundamentados, claro).
E para crer ou apostar na possibilidade de se seguir buscando mundos e homens
melhores, talvez não seja mais tão
importante se alinhar a alguma ideologia de esquerda prêt-à-porter. O filme
apresenta quase todos os ingredientes deste tipo de questionamento. Michel, participante
ativo da efervescência político-cultural dos anos sessenta é o presidente do
sindicato dos pescadores de Marselha que, diante da atual crise que abate a
Europa, precisará dispensar vinte trabalhadores. Com o propósito de não cometer
injustiças decide fazer um sorteio, sendo ele mesmo um dos sorteados, o que surpreende
a todos, em particular ao seu companheiro de trabalho e amigo de infância, que
ao contrário, o condena por esta escolha, ressaltando que sua posição na escala
de poderes teria lhe permitido tal concessão. Assim se enuncia que seremos expectadores
dos diferentes dilemas que assaltarão aos personagens ao precisarem fazer uma
escolha ética. A título de reflexão, embora moral e ética possam ser tomadas
como um conjunto expressam conceitos diferentes. A moral seria o conjunto de
valores e normas que elegemos para nortear nossas vidas, que usamos para justificar,
dirigir e dar sentido a ela e que em geral nos ajuda a discriminar o que
aceitamos ou não como condutas a serem seguidas. Mas ao ter que colocar em
prática estes “nossos” valores, estamos no exercício da ética, o que quer dizer
enfrentar dúvidas e acertos com nossas próprias balizas. À medida que as
questões éticas acompanham as transformações sociais, carregam mais e mais
desafios, lembrando que em uma democracia o comportamento ético não se impõe: é
uma adesão livre ao que se acredita ser o melhor a fazer e inclui as tensões
impostas pelo poder, pelas leis, pela vaidade, pela violência (nossa e dos
outros). A aposentadoria “forçada” de Michel lhe dará tempo para pensar sobre
suas próprias convicções, inclusive aquelas que lhe pareciam tão límpidas e
certas como o engajamento em uma cultura da liberdade, da igualdade e da
solidariedade. Mas mesmo descendo aos infernos da dúvida, da raiva pelas
injustiças sofridas, de sua própria imposição a uma certa conduta humanista,
Michel mantém seu caule intacto, fornecendo pistas de um modelo humano
possível, corajoso em sua abertura às contradições. Um contraponto ao
personagem principal do filme "Um homem bom", o pacato e alienado Halder,
professor de literatura na Alemanha que começa a ser invadida (em todos os
poros) pelo nazismo, e que por medo, por falta de valores mais precisos sobre si,
sobre o mundo e as pessoas, se deixa capturar pelas ofertas sedutoras de
prestigio dos poderosos que gravitam em torno do fürher. Inverte e contraria
suas próprias linhas de pensamento e, perdido em suas concessões, não consegue
sequer ajudar seu (antes melhor) amigo judeu a escapar do cerco alemão. Como a
nos lembrar de que muitas vezes é preciso coragem para não ficar indiferente ao
que nos acontece.
Para
conferir:
Título: As neves do Kilimandjaro (Les Neiges du Kilimandjaro)
França 2011
Diretor: Robert Guédiguian
França 2011
Diretor: Robert Guédiguian
Mal / Bem estar
A
TV estava ligada na nova novela da Globo, “Avenida Brasil”. Tinha começado a assisti-la
na expectativa de que sua trama lhe despertasse algum interesse, pudesse
acalmá-la ou surtir algum efeito renovador, quem sabe ao menos afastá-la
daquele turbilhão de pensamentos que puxavam mais um tanto de sentimentos e que
irremediavelmente a jogavam no mesmo buraco de sempre. Suspiro. Simpatizara-se com o nome escolhido pelo
autor, “Avenida Brasil”, que sabe-se lá por qual associação lhe remetera aos personagens do
Veríssimo da “Família Brasil” no Estadão,
ao invés da controvertida Avenida Brasil carioca. A coluna do Veríssimo sempre funcionara
como um oásis naquele monte de letras sem fim do jornal que seus pais assinavam
desde sempre, além é claro, d’O Estadinho, único que exibia cores e os personagens
da Turma da Mônica. As tirinhas da “Família Brasil” chamavam a atenção por sua
simplicidade, de traços e conteúdo, embora sua ironia fosse além do que ela
podia entender então. Foi a partir de sua adolescência que pode legitimar esta
admiração e reconhecer a inspiração com que o autor descrevia as situações engraçadas e constrangedoras do cotidiano de todos. Um humor fino, beirando o absurdo, percorria as
observações do pai, sempre às voltas com o seu salário curto, da mãe, dona de
casa, da filha, eternamente apaixonada, do filho adolescente (com tudo o que
este universo pode conter de situações surpreendentes) e do neto. Balançou a
cabeça, um gesto que denunciava aquela conversa íntima com suas lembranças, e
tentou voltar ao fio que começara a tecer. Ah sim, a nova novela das nove, que
em pouco tempo desenhava personagens tão difíceis de simpatizar, ocupados em
organizar planos maquiavélicos, estratégias de vingança, vestidos sem nenhum
pudor com roupas de heróis sem caráter. Aquele cenário não lhe trazia a paz
esperada nem lhe permitia a curtição de um entretenimento, ao contrário,
cutucava, causava um certo incômodo e levava-a a divagar. Se por um lado a
força e a urgência de uma boa audiência seriam fatores decisivos para as ideias
e roteiros das novelas, os enredos certamente precisavam despertar a atenção
dos espectadores, surpreender ou tocar fundo na alma da maioria. Mesmo não se
considerando uma seguidora assídua, sabia serem as novelas um produto nada desprezível
da cultura brasileira, que abrangiam uma enorme fatia da população do país. Era
ao mesmo tempo um retrato social, um veículo de produção de certos ideais e
promotor de debates sobre valores caducados e outros ainda em ebulição. E para
acompanhar o volátil tempo atual, suas histórias (pelo menos as de peso) há
muito haviam deixado para trás enredos assépticos, em que o bom mocismo
imperava, os protagonistas eram todos idôneos e o amor sacralizado. Isso não
combinaria mais com este mundo fluido, com valores sempre em cheque e pessoas em permanente dívida com o futuro ou
nostálgicas de um passado imaginado mais calmo. Ela mesma só estava ali
pensando sobre todas estas coisas, porque havia quebrado a perna em um tombo
ridículo, e restava-lhe zapear a TV dia e noite em busca de um programa
ansiolítico ou ler na cama quando a insônia vinha lhe fazer companhia. Certo,
duas impossibilidades em tempos “normais”. Voltou a parear a “Família Brasil”,
um tanto e quanto ingênua em suas tiradas irônicas sobre as mazelas do dia a
dia de uma família classe média e a “Avenida Brasil” com seus personagens
ressentidos, vingativos e prontos a puxar o tapete de seus adversários. Acabara
de chegar de suas sessões diárias de fisioterapia, um local agradável, que
reunia (ao acaso?) profissionais delicados e alegres que, sem notar, criavam uma
atmosfera afetuosa que contagiava a todos ali presentes. Um ambiente que “impunha”
a troca de gentilezas. Pensar que esta paz era possível, que estava logo ali,
ao seu alcance, lhe trouxe a PAZ que buscava. Desligou a TV, apagou a luz e
adormeceu.
sábado, 7 de abril de 2012
A raça brasileira
Em 31 de março último houve um evento realizado pelo Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae cujo título era O Racismo e o Negro no Brasil, um tema para lá de atual já que os males de nosso século parecem gravitar em torno da violência da xenofobia (nossa aversão/medo irracional e excessivo diante do diferente/desconhecido), da intolerância étnico racial ou religiosa. Aberto ao público, gratuito e no formato de um sociodrama, pelo menos um terço dos que ali compareceram eram descendentes de negros, vindos de diferentes setores e instituições da sociedade. O intuito era promover um debate a partir de uma sensibilização de cada um sobre as expectativas de sua presença ali, suas crenças e a percepção de si e do outro dentro da questão da discriminação racial. Levados a buscar e cavoucar lembranças de cenas impactantes ou importantes sobre o preconceito, aos poucos todos (vítimas ou não) foram adentrando no clima desta violência humana. É difícil pensar o “racismo” como uma invenção humana. Podemos pertencer como origem à determinada etnia, mas isso não nos coloca, a priori, abaixo ou acima de outras. No entanto, nossa história humana se ocupou em criar esquemas classificatórios que pudessem justificar a dominação e o desprezo de uns por outros. No mundo atual, ainda que os critérios biológicos possam atestar que cada ser humano tem uma individualidade genômica absoluta que ao interagir com o ambiente molda uma exclusiva e singular trajetória de vida, convivemos com um imaginário cultural que muitas vezes classifica estrategicamente os indivíduos pela cor da sua pele, sua aparência física, sua condição social/intelectual, sua religião, de forma equivocada e moralmente irrelevante. A questão da representação social do negro no Brasil - embora recentemente venha sendo mais discutida - é extremamente complexa. As cenas de humilhação (e, portanto de dor) ainda se repetem, às vezes de forma violenta, mas em grande parte de forma velada. Em meio ao sociodrama, no corpo a corpo das cenas de “brancos” versus as sofridas pelos “negros” era impossível não perceber nossa distancia deste universo atravessado por injustiças. Se o “nosso” negro sempre encontrou barreiras para a sua integração à sociedade, mesmo que imperceptivelmente para muitos, continuamos a reproduzir este preconceito e a desigualdade. Aqui e ali ouvimos os ecos da romântica ideia de uma democracia racial brasileira ou da falta de um racismo institucionalizado (como o dos USA ou África do Sul), o que contribui para manter o mito de um paraíso racial, onde teria imperado um modelo escravocrata mais brando. Diferente sim, com certeza. Diante deste (mínimo) contato mais denso com sua “história” somos levados a constatar que para a maior parte dos descendentes negros pertencentes à geração dos pioneiros que lutam por um espaço novo em nossa cultura, a dor e o ressentimento (às vezes a raiva) são companheiros permanentes. É a geração dos jovens que ameniza essa tristeza. São eles que começam a poder se orgulhar de sua história, a buscar um reconhecimento de sua origem étnico-racial, a reconstruir sua identidade. São eles que apostam na transformação das representações sociais e se articulam para constituir ações, ocupar territórios interditados, expandir sua cultura. A contar e recontar sua própria história para curar as feridas e sair da invisibilidade.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Benvindos bebês!
Sou a primeira filha de uma prole de sete. Me acostumei a acompanhar os processos de gravidez e parto de minha mãe e depois de certa idade a participar não só da preparação do espaço físico para receber o futuro bebê - separar as roupinhas, organizá-las nas gavetas recém-esvaziadas para conter o herdado e o novo vestuário, “promover” a mudança do caçula do berço à cama - como também dos cuidados de higiene e alimentação necessários a todo recém-nascido. Mesmo com todo esse “know- how” a experiência de ser mãe pela primeira vez superou e muito qualquer expectativa de vivê-la de forma simples e tranquila. Em uma recente reunião realizada com colegas de trabalho, algumas jovens cuja passagem pela maternidade ainda era viva, relatavam (de forma corajosa) a surpresa com que haviam se deparado com o seu despreparo - e a consequente sensação de desamparo – diante do tornar-se mãe. As lembranças de minha mãe tantas vezes grávida, de sua tranquilidade diante do processo de crescimento de seu útero, sua alegria no preparo para receber o bebê e sua experiência no manejo dos cuidados, faziam com que eu imaginasse (e fantasiasse) que esta passagem de filha para mãe fosse algo natural, sem percalços. Ledo engano. Assim como o sexo e a morte, também os nascimentos (não por acaso) sempre estiveram envoltos em ritos/rituais de passagens a depender da época e da cultura. Minha mãe – talvez por morar no interior - só veio a conhecer um médico ginecologista que instituísse a prática das consultas mensais de pré-natal e lhe passasse novas e modernas informações sobre gestação e trabalho de parto, a partir do sexto filho. Antes, as intervenções cirúrgicas (cesáreas) eram raras e o parto, apesar de ser feito em hospitais gerais, ficavam a cargo de parteiras profissionais, que na maioria das vezes, se punham ao lado das camas das futuras mães e rezavam o terço enquanto elas se debatiam em dores a cada contração. Estamos falando de algumas décadas atrás. De lá para cá é difícil dimensionar todas as mudanças em torno dos cuidados/preparo médicos e paramédicos e do conforto que o mercado voltado para esta etapa da vida oferece para os pais e os bebês. São tantas as opções e tantas as informações disponíveis àqueles que pretendem planejar seu futuro de pais que, de certa maneira, não é difícil viverem esta fase com a sensação de se estar amparado e protegido por tal aparato. Mas toda a movimentação em torno deste preparo, que não deixa de ser importante, ainda ignora o peso desta mudança crucial: a do bebê que deverá entrar na vida, a da mãe que terá que abandonar sua gravidez e construir seu espaço materno e o pai que precisará se inteirar sobre a importância destes dois processos. O que parece pouco pode surpreender pelo número incomensurável de mães e pais que ficam aterrorizados diante da culpa por qualquer sinal que lhes pareça desviante no comportamento de seu bebê ou em sua performance de pais. O que fazer se o bebê não consegue mamar? Ou se ele chora sem parar? Quando a mãe se deprime e não consegue cuidar de seu filho? Se o pai se apavora e prefere se distanciar ao invés de dividir a tarefa do cuidar? Assim que o bebê nasce percebemos ter mergulhado em uma piscina funda e desconhecida. Após o susto, para os que sabem nadar, resta “aprender” a nadar junto. Para os que nunca “souberam”, é preciso superar o terror para depois “aprender”. As aspas são para lembrar que este aprendizado não está nas cartilhas. São recursos internos que cada um leva nesta empreitada, e outros que poderão ser construídos quando o ambiente puder oferecer esta ajuda. As jovens mães presentes naquela reunião questionavam nossa cultura e sua insistência em tornar o parto o mais asséptico, funcional e rápido possível, sem lugar para a contenção das angústias suscitadas e sem aviso prévio sobre o tempo (em geral bem mais longo do que imaginamos) necessário para que cada um, mãe e pai, se apropriem deste novo lugar em suas vidas e na vida de seu filho. Uma tarefa que exige MESMO muita disponibilidade e coragem. A “aflição” quase perene destes cuidados se esvai bem mais tarde, e se tivermos sorte, poderemos sair das cadeiras de pai ou mãe ideal, nos lembrar de nossas performances desajeitadas e quiçá narrá-las aos nossos filhos, como pais possíveis que pudemos ser.
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