No último
dia 5 de agosto no caderno Ilustríssima da Folha de SP o chinês Ai Weiwei, artista
engajado de seu país, escrevia um texto ainda sob o impacto da cerimonia de
abertura das Olimpíadas de Londres. Crítico, comparava-a com a pompa apresentada
em Pequim 2008, que segundo ele, tinha de tudo, menos um sentimento de
autenticidade do povo chinês. Na contramão das críticas de muitos sobre o que acharam
ser britânica demais para o restante do mundo, Weiwei proclamou a inglesa de
festa de verdade, que refletia sua sociedade civil, sua gente, seus valores,
sua história, da rainha à enfermeira. Sem esconder uma admiração invejosa,
destacou o fato de ser a Inglaterra uma nação de indivíduos e não de um (único)
partido. Concordei (meio secretamente) com ele. Em meio a alguns que torciam o
nariz para a cerimonia de encerramento que aconteceu no domingo, 12 de agosto -
que de certa maneira completava a da abertura - fui tomada pela emoção quando
vi surgir na tela, ícones importantes de minha geração. O que podia ser
considerado brega e clichê me parecia uma ideia honesta e simples que agradava
e muito ao público presente. Em um mundo em que a tecnologia pode fabricar
efeitos especiais de tirar o fôlego de qualquer cidadão, a Inglaterra com sua
tradição de peso inquestionável escolhia apresentar sua cultura de forma
singela e alegre. Tal e qual uma grande festa musical, o que se via era um
verdadeiro desfile do cancioneiro pop britânico com grande parte de seus símbolos de ontem e hoje juntos. George
Michael, Annie Lennox, Pink Floyd, Spice Girls, The Who, Queen, Oasis foram
alguns que surgiram acompanhados dos quase quatro mil voluntários que se
dispuseram a cantar e dançar. Lá pelas tantas, imagens de John Lennon, depois de
Freddie Mercury, projetadas no telão levavam a plateia ao delírio. Nem mesmo o
peculiar humor inglês ficou fora, representado por Eric Idle, do Monty Python. A
boa música produzida pelos ingleses e dirigida principalmente aos jovens foi
escolhida para brilhar naquele encerramento. Para nós brasileiros, o final
daquela cerimonia significava o passe do bastão: - Agora é de vocês, sua hora
de preparar a cidade e organizar a “infra” para poder acolher e receber com
dignidade os mais de dez mil atletas e os milhares de turistas que prestigiam
esta festa esportiva. Uma festa que graças aos novos recursos de comunicação
parece estar sendo realizada logo ali, ao lado da casa de cada um. Que ao longo
dos séculos em que se repete guarda um desejo humano de superação de limites
físicos e mentais de corpos. Que pela primeira vez apresentou atletas de ambos
os sexos de todos os países participantes. Que ousou mandar para casa os
atletas que não compreenderam o sentido da “reunião” de povos e, portanto da
convivência com a diversidade, com o estrangeiro. Que apostou, em sua
organização, na “inspiração” que legaria às futuras gerações. Um modelito que
poderia ser levado em consideração pelos brasileiros que se ocuparão da
organização da próxima olimpíada. No entanto, numa visada geral, não são poucos
os brasileiros que andam antecipando seu sentimento de vergonha para os
possíveis furos de nossa hospedagem. Este mesmo ceticismo surpreendeu o governo
federal que imaginava uma grande mobilização pública em torno do tão esperado julgamento
do Mensalão. Em uma recente reportagem jornalística as câmeras mostravam o
pátio da Esplanada vazio e nem todas as cadeiras reservadas aos interessados ocupadas.
Esta é talvez a grande e nefasta consequência de episódios não transparentes em
seus custos e processos, que além de não produzirem benefícios para a
população, engordam os bolsos de políticos e empresários gulosos. Se a
organização de um grande evento como as Olimpíadas é sempre uma preocupação
para qualquer país que a realize, fica para cada um de nós, cidadãos
brasileiros a tarefa de encontrar modos que nos ajudem a prevenir (ou alardear)
a corrupção que em geral se associa a isso. Alguma ideia?
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Tempo, tempo, tempo, tempo.
O
ano era 1972, o andar era o oitavo e na sala tocava insistentemente o álbum “Clube
da Esquina”. Pensando bem, é provável que as meninas que dividiam o espaço
comigo naquele apê não tivessem coragem suficiente para barrar meu entusiasmo e
colocar algum limite naquele ato insano de repetir à exaustão cada uma das
faixas. Há uma vaga lembrança de momentos em que baixava certo sentimento de
vergonha quando então eu carregava minha vitrola Phillips preta para a varanda,
fechava a porta de vidro e podia me entregar livremente ao fascínio e à emoção que
aquelas músicas me despertavam. Quem eram aqueles rapazes desconhecidos, aquele
negro com voz de “Deus”, aquelas melodias inesperadas, mistura de música
clássica e folclórica com uma pegada de rock e brasilidade? De alguma maneira
eu intuía estar vivendo um momento que marcaria um antes e um depois. Mais por
sorte do que azar (ali eu queimava toda a minha mesada) a melhor casa de discos
de Ribeirão Preto ficava enfrente a praça XV, passagem obrigatória e diária
para que eu pudesse conferir todos os lançamentos (que não foram poucos)
daquele ano: Caetano com o disco “Transa”, Gil e seu “Expresso 2222”, os Novos
Baianos e “Acabou Chorare” são apenas alguns
que disparam lembranças e me carregam ao
tempo em que minha vida acadêmica se confundia com um novo mundo que eu
acreditava estar aos meus pés. Tempos de repúblicas estudantis, de novas e
importantes amizades, de expansão do conhecimento, de amores nunca antes vividos.
Ainda conservo meu acervo de LPs que guardam esta parte importante de minha
história. Estávamos em plena ditadura militar e estes ousados “meninos”, cada
um ao seu modo, produziam uma revolução via música brasileira ao colocar em
verso e sons tudo o que nós jovens, precisávamos para entrar na dança da
contracultura. Milton Nascimento e os mineiros desciam com sua new
musicalidade, Caetano e Gil voltavam de seu exilio londrino dispostos a quebrar
paradigmas, os Novos Baianos, moleques talentosos, decidiam inaugurar uma vida
coletiva em um sitio em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Ao time é preciso acrescentar
Chico Buarque, cujo “barulho” se concentrava nas letras, que cantavam a
descabida censura, a malandragem carioca, as facetas de nossa brasilidade, os
amores do ponto de vista das mulheres ou dos homens. Foi com estes grandes e
queridos companheiros de vida que me deparei esta semana quando, em uma mesma
página de algum jornal digital anunciavam-se Milton em seus 40 anos de
carreira, Caetano fazendo 70 anos e Chico lançando mais um CD ao vivo intitulado
"Na Carreira". O tempo, inexorável, mostrava sua cara. Como a me
consolar, ao ligar o rádio de meu carro, quase tive que parar para poder curtir
melhor a beleza da letra da música “Essa pequena” de Chico Buarque, em que ele canta
a passagem do tempo comparando sua perspectiva com a da “pequena”. Verdade
dura, poesia pura. Voltei ao ano de 1972, quando entrei na faculdade em Ribeirão
Preto e tinha certeza que o mundo era pequeno demais para meus sonhos. O tempo
nem era uma questão. Confiram:
Meu
tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu
dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Feito
avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Às
vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena
A cabeleira do Zezé
Jovem e sensível, a
professora de uma escola infantil me contava sobre um assunto ao mesmo tempo
delicado e perturbador que teria surgido em uma reunião de pais. Em meio a um
importante debate sobre o futuro das famílias, dos pais e da educação dos
filhos, alguns teriam questionado como seria quando as crianças de pais
homossexuais começassem a frequentar as escolas, tendo que enfrentar o fato de
possuir dois pais ou duas mães. Que futuro estaria reservado para estas
crianças? Como responder à surpresa das outras? Ao invés de preleções de
caráter moral a favor ou contra ou de previsões ameaçadoras do bem estar
familiar, ela preferiu deixar ao futuro a tarefa de acomodar (ou não) tais
mudanças. Mas lembrou que, a despeito de tendermos a considerar nossas crenças
eternas, não seria difícil conferir as transformações sofridas no seio da
família nestas últimas décadas. O tema, polêmico, esquentou ainda mais o debate
sem, contudo, chegar a um consenso. De fato tentamos esquecer que para além de
nossas origens biológicas ou de famílias “bem constituídas” há uma infinita
variedade de caminhos e escolhas que constituem a historia de cada um. Mais
confortável imaginar que nossas historias possam ser asseguradas (melhores?) se
cumprimos certos protocolos - mesmo com datas de validade expiradas - talvez na
tentativa de dividir a responsabilidade (sempre dura) sobre nossos futuros. É o
caso desta nova disposição familiar, baseada em uma relação homoafetiva, com
filhos gerados por inseminação artificial ou adotados. Estariam estas crianças
condenadas a ser “diferentes”, sem chances de felicidade, ou vale a regra de
que no final das contas, para que uma família passe a existir, é preciso basicamente
que se queira isso? Se há boas noticias nas mudanças que aconteceram e
continuam a acontecer nas famílias atuais, é que elas finalmente se livraram de
alguns séculos de hipocrisia e dissimulação. Antes era crucial que se
mantivesse a fachada dos casamentos e se escondessem as tensões sexuais, as
violências e os constrangimentos dos lares. Maridos podiam manter uma alegre vida
erótica fora de casa. Homossexuais se casavam com o sexo oposto, tinham filhos
e quiçá mantinham ligações homoeróticas na calada da noite. Às mulheres restava
conformar-se em viver à margem da vida pública, sem direitos, sem voz. Violências
veladas ou encarnadas eram encenadas, mas guardadas no silencio dos segredos
sob a égide da vergonha e da humilhação. Foram as últimas gerações que exigiram
de si e dos outros uma coerência entre o sentir e o fazer. A partir daí pudemos
constatar como as identidades sexuais
são incertas, como cada um de nós porta tanto traços femininos quanto
masculinos, como é difícil saber o que é ser mulher ou homem, pai ou mãe. E,
embora os gays finalmente pudessem sair do armário e assumir seu amor pelo
mesmo sexo, nem por isso ficaram livres de viver seus (nossos) dilemas de
identidade. Mas mesmo sem as antigas certezas e com milhares de questões difíceis
e em aberto, a família continua sendo o laboratório da experiência humana, o
lugar onde os dramas são experimentados e o amor pode acontecer. O espaço em
que cada um ganha uma data de nascimento, uma origem, um passado. Minha amiga
professora tinha razão. É provável que no futuro a marchinha de carnaval que
ecoa o refrão “será que ele é” não guarde o mesmo sentido.
sábado, 4 de agosto de 2012
Deitado eternamente
Quem se propõe a fazer um recenseamento via web de reportagens que tomem
o “Brasil” como tema, seja para avaliar junto aos outros, seu papel político,
econômico ou cultural, para analisar suas condições de sede da Copa do Mundo (2014)
ou das Olimpíadas (2016), prever seu futuro como nação, ou somente para tentar compor
uma imagem mais ou menos consensual sobre sua “marca”, fatalmente se depara com
vozes dissonantes, algumas bem negativas outras nem tanto. Tomemos por exemplo,
uma pequena pesquisa feita com os estrangeiros que participaram da
Rio+20 que elegeram o povo brasileiro como o melhor produto do país e
reclamaram do caos do trânsito ou dos preços nas alturas. Nenhuma novidade. É
verdade que as reportagens sobre cultura são geralmente elogiosas e as sobre
política e sociedade, bem menos. Estamos acostumados a
ser mal avaliados (por estrangeiros ou não) e curiosamente não parecemos nos
importar quando correspondentes estrangeiros evidenciam as diferenças sociais expostas
em nossas metrópoles com suas favelas, crianças pobres pelas ruas ou o descaso em
relação à devastação ambiental. Também não ligamos quando vemos propagados de
forma positiva, mas estereotipada, nosso samba, carnaval, mulatas ou futebol. É
certo que recentemente passamos a receber maior atenção da mídia exterior de
olho em uma economia que não se abateu com a crise da Europa ao manter um índice
baixo de desemprego, um PIB razoável e um cenário em que “nascem” 19 novos
milionários por dia, sobe a procura de executivos brasileiros para controlar
empresas mundiais e jorra petróleo em nossas costas. Na onda deste inédito
interesse por nossa “brasilidade”, pesquisadores de marketing/comunicação saíram
em busca dos indícios de nossa marca Brasil, associando-a a
alegria, solidariedade, sensualidade, cor, calor, inovação, juventude, valores
que estariam em alta pelo mundo, mas que não parecem fazer muito “vento” na
percepção que temos de nós mesmos. Por quê? Parece haver consenso de que não temos
uma tradição de agregar valor ao que nos é próprio o que nos levaria a
permanecer fascinados com o “estrangeiro”. Alguns atribuem isto à singularidade
de nossa historia colonial acrescido de um insistente baixo índice de confiança
em nossos atributos. A verdade é que não conseguimos responder muito bem porque
estaríamos sendo a bola da vez e mesmo reconhecendo o grande potencial de nossa
cultura ainda não nos apropriamos de nosso jeito de cria-la, pensa-la,
consumi-la. É como se nossa brasilidade escorregasse como um líquido, difícil
de se deixar analisar. Nos anos 20, o polêmico
Oswald de Andrade ousou proclamar o movimento antropofágico com a finalidade
de incentivar o que intuía já fazer parte de nossa cultura, ou seja, a assimilação
da cultura europeia – dominante na época – com o intuito de degluti-la e
remodelá-la segundo a realidade brasileira. A ideia de antropofagia cai como luva para uma tentativa de análise da
marca Brasil. Ou seja, o que muitas vezes é visto como reverencia ao de “fora”,
ou ao mais civilizado/valorizado/reconhecido, seria na verdade um jeito
brasileiro de emprestar, de “comer” os modelos/conceitos estrangeiros para em
seguida transforma-los, reinventa-los. Assim ficamos sem muitas teorias que nos
expliquem, mas mantemos nossa marca de improvisação. De certa forma, palatável
com as inconsistências/ liquidez deste mundo contemporâneo.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Casa de Bia
Os leitores que acompanham minha coluna já sabem que todas as vezes que viajo ao Rio de Janeiro acabo encontrando maneiras de registrar minha paixão por aquele pedaço do mundo. Confesso que minha empolgação tem início desde que surge, no horizonte, um motivo para a visita, o que significa comprar passagens, escrever para os amigos, marcar conversas e matar as saudades de “todos”, pessoas e lugares. A exuberância da geografia em torno da baía de Guanabara e adjacências já se oferece plena com a aterrisagem do avião no aeroporto Santos Dumont e se mantém surpreendente aqui e ali dentro do taxi, mesmo em dias nublados e frios, caso deste último final de semana. Se não me canso de admirar tanta beleza estética, também me contagio com o “carioquês” , um estilo de vida, de relação com a cidade e com o povo que me parece sui generis. Premiada, pela primeira vez fiquei hospedada no bairro de Santa Tereza, em casa de uma amiga querida. Bia, sua casa, marido, filhos, genro, noras, cachorros, compõem e expressam bem uma parte importante deste estilo carioca de ser, que não apenas ama sua cidade, conhece a fundo sua história e sua cultura, mas vive profundamente engajado com seus problemas e soluções. O que é isso? Talvez uma espécie de ocupação responsável e amorosa da cidade, de utilização de seus espaços, aproveitando o que ela oferece de bom e mobilizando-se contra os maus. É incrível como uma apropriação da cidade ou do bairro em que se mora pode fazer diferença na maneira como as pessoas convivem umas com as outras, tornando-as ao mesmo tempo críticas e abertas ao diferente. Nossas andanças matinais pelo bairro foram verdadeiras aulas da história da ocupação de Santa Teresa, com paradas obrigatórias para as vistas que o alto do morro oferece da Baía de Guanabara e para os casarões e palacetes que conservam uma parte do Rio Antigo - ocupada pelos que aqui aportaram a partir da chegada da corte de Portugal e escolheram o morro para viver porque a vista era linda, a água boa ou o clima mais ameno. Também escritores e artistas desde sempre se sentiram atraídos, seduzidos por seu charme. Onde hoje funciona o Parque das Ruínas, por exemplo, foi a casa da mecenas Laurinda Santos Lobo que reunia em seus saraus os artistas da época. E se o glamour deu lugar à desolação quando as favelas passaram a dominar o entorno, Santa nunca saiu de cena, sendo o alvo preferido, nos anos setenta, dos artistas que chegavam da Bahia, São Paulo ou Minas e viam ali, juntos, charme e vida barata. Hoje seu visual mantém certa mistura entre o antigo reformado/novo e o descuidado, suas poucas ruas “largas” não tem lugar para estacionar carros, em suas vielas passeiam moradores que se cumprimentam e muitos turistas que batem pernas, uns com mapas na mão, outros a se perder pelas vielas deixando-se surpreender pelas galerias e ateliers de artes, pelas lojas coloridas, pelos restaurantes de comida natural, nordestina, mineira, carioca. A noite são os jovens que invadem os bares (um pouco mais baratos que na cidade) quase todos exibindo música ao vivo de boa qualidade. Ao lado de sua recém Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), o bairro possui a AMASP, uma antiga e atuante associação de moradores que no momento, entre outras reivindicações, briga para ter de volta os famosos bondinhos, desde que no ano passado um deles descarrilou, deixando cinco mortos, mais de 50 feridos e expondo o descaso dos governos com sua manutenção. Muitos dos moradores exibem a foto do bondinho em suas janelas, fazendo coro com o movimento e tornando público seu desejo pela volta do funcionamento original de suas linhas que serviam prioritariamente a comunidade a preços módicos, ao invés do plano atual de transforma-los em turísticos. Mesmo os que nunca foram a Santa Teresa conhecem estes charmosos veículos que ali circulam desde o século passado e contribuíram para ampliar o charme especial e romântico do bairro, seguindo a rota do tempo no sobe-e-desce de suas ladeiras. Na volta de nossos passeios, já na mesa que dá para a horta e para as plantas de Bia, tomando um suco verde caseiro e jogando conversa “dentro” pensava como era inevitável que minhas lembranças se sentissem em casa com aquele jeito “interiorano” de viver em que as pessoas se conhecem, sabem os nomes, os endereços, a história de cada um. Alguém mexeu no portão de Bia: era o feirante que vinha entregar as frutas, verduras e legumes que ela havia pedido de manhãzinha.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Por quais livros/autores dobram os sinos?
Ainda que alguns críticos/intelectuais (poucos,
ainda bem) torçam o nariz para a “festa” literária que acontece anualmente em
Paraty, seria muito proveitoso perguntar por que ela continua sendo um evento
disputado após 10 anos de existência. E nesta toada, analisar seu sucesso não
só pelo prisma do espetáculo ou mesmo do lugar que a literatura “ainda” ocupa
no mundo atual, mas também pelo surpreendente número de leitores brasileiros –
em um país quase sem tradição literária - que continuam a reverencia-la. E o
que buscam estes “leitores”? Não é fácil responder a esta questão quando se acompanha
os comentários espalhados pela mídia, tanto de “turistas” que ali comparecem ou
dos inúmeros jornalistas que cobrem o evento. Mas a própria diversidade dos
enfoques já anuncia a consagração deste que é um dos maiores e melhores acervos
de nossa história humana: as narrativas que cumprem essa função integradora do
corpo social ao acompanhar os desafios (internos e externos) de cada época. E,
se a iniciativa de se fazer uma feira/festa literária tem seus interesses
capitalistas, com editoras e autores sonhando em aumentar suas cifras, a
proposta de tornar acessível ao público (em geral) um pouco mais do produto dos
que dedicam parte de suas vidas a escrever sobre algo que interessa a muitas
pessoas do mundo todo, não deixa de ter um efeito midiático interessante. Ao
lado da tietagem que normalmente caracteriza algumas relações entre leitores e
autores, há o fato inusitado de se forçar um escritor a “falar” sobre seu
processo criativo, as escolhas de seus temas, a relação de suas narrativas com
sua própria vida, enfim, faze-lo refletir sobre o lugar que a escrita ocupa em
sua vida e como ele percebe/analisa o interesse de seus temas para o público. É
neste confronto que se percebe a variedade das análises - sempre particulares -
que acabam compondo um leque imenso de possibilidades de narrar nossa história
coletiva. Pode estar a serviço de uma ampliação do contato consigo próprio, da
preservação da memória ou o contrário, da tentativa de confundi-la; pode falar
da própria literatura, das cidades, das injustiças sociais; pode dizer o que
ainda não foi dito ou pode simplesmente guardar um anseio de ser lido/reconhecido
por muitos. Os verbos também podem deslizar para o entreter, perpetuar, transmitir,
refletir, e assim vai. E para isso vale falar sobre as entranhas humanas , seja
para apaziguar ou impulsionar seus fantasmas. Sobre os fracassos, a solidão, o
desamparo, os amores, os lugares e as pessoas que lhe são importantes; sobre os
aspectos políticos e sociais do mundo, a violência, as injustiças ou a vida banal
nas cidades. Como vimos não há limites. A leitura de uma boa obra pode ser uma
experiência transformadora para alguns leitores, mas é basicamente uma experiência “humana” em que cada um se
reconhece e dialoga com seu semelhante independente das diferenças étnicas
culturais ou das distancias geográficas entre quem escreve e quem lê. Se uma
análise crítica deve tentar compreender mais do que
conjecturar ou agourar, podemos deixar registrado com certa satisfação que a Flip tem
propiciado um bom e inusitado debate de ideias entre escritores de diferentes
culturas e idades além de dar visibilidade para a literatura. E se ela, a literatura,
estrela máxima do evento, consegue se manter sendo a memória cultural de uma
era, se em última instancia é isso que se constrói e conserva quando se
escreve, é bem capaz que os livros continuem a ser escritos e lidos. Oxalá.
domingo, 8 de julho de 2012
Corpos à deriva
O caderno da Ilustríssima (Folha de São Paulo) do
domingo 1°/07/2012 trazia em sua capa uma foto impactante, um corpo mantido no
ar por um guindaste, uma massa inerte. A reportagem denunciava as execuções
públicas que voltaram a ser permitidas no Irã a partir de 2009. Acontecida dias
antes em uma cidade próxima de Teerã, e aberta propositalmente à população que
se dividia entre olhares espantados e bocas caladas ou em manifestações de
júbilo pela pena aplicada, os dois homens enforcados teriam cometido crimes
inaceitáveis na cultura do país, um estuprador e outro traficante. Mas na
pergunta que permeava a reportagem sobrava espanto: porque retornamos a
processos violentos de punições quando, já no século XXI, teríamos modos mais “civilizados”
de tratar nossos “fora da lei”? Ou seja, porque haveria uma espécie de retorno
do primitivo, como se o processo civilizatório da humanidade guardasse eternamente
seu avesso, nosso lado animal? Não parece ser uma questão fácil de ser respondida,
afinal não foram poucos os que se debruçaram sobre a história de nossa
“civilização” e pensaram sobre os seus fios evolutivos, marcando as formas de
poder e de alienação, assim como os avanços na construção de uma convivência em
que cada um, individualmente, poderia se responsabilizar por sua ‘cidadania’ a
partir do compartilhamento de certas normas e leis que balizariam os direitos,
as obrigações e as punições aos infratores. Parecem existir certas figuras
paradigmáticas de nosso estofo humano que se repetem ali e aqui desmascarando
ora nossa violência, ora nosso lado perverso, ora o grotesco, enfim figuras do
excesso, do nonsense, que denunciam o caldo virulento que nos compõe. Ao ler a reportagem,
me lembrei de certas cenas de filmes, alguns sobre a vida na Idade Média e
outros sobre a ocupação do Oeste americano. Na Idade Média todos viviam sob os
códigos religiosos, as leis eram principalmente divinas e sagradas e as pessoas
estavam condenadas a ganharem os céus por suas virtudes ou o inferno por suas
transgressões e ousadias. Em geral nas cenas de execuções públicas em que
corpos ardiam no fogo do “inferno” ou cabeças eram decapitadas, a população
entoava verdadeiros mantras, exorcizando aqueles que teriam merecido tal pena e
aliviados por terem “Alguém” que vigiasse e se responsabilizasse por estes
destinos. Já os famosos faroestes, em que as cenas de enforcamentos eram parte
da tentativa dos xerifes para fazer valer a lei e a ordem naquelas “terras de
ninguém”, aquele circo se fazia necessário para que cada morte pudesse ter um
valor diferente das outras cometidas sem o respaldo da lei. Um tempo já moderno,
mas de implementação do permitido e do proibido, de construção de um espaço em
que a convivência pudesse ficar minimamente garantida pelo consenso entre os homens,
para que cada um, individualmente, soubesse que apesar de ser livre para
decidir sobre muitas coisas, os dois interditos fundamentais da humanidade, ou
seja, o tabu do incesto e do assassinato precisariam ficar permanentemente validados. Mas como entender o retorno destas
execuções públicas no Irã, em um tempo em que não haveria mais motivos para “festejar”
ou “discriminar” e sim se envergonhar destas mortes sem mediações, quase “animais”,
senão como um dispositivo truculento dos que detém o poder e que certamente enviam
um “aviso” a todos os que se pretendem dissidentes? No mesmo domingo várias matérias
na web chamavam a atenção para o retorno do mito de Fausto, estreando nos cinemas
de São Paulo. Embora esta versão se baseie no livro escrito por Goethe na
Alemanha dos anos 1808, o mito já existia sem uma autoria definida desde o
século XV e sua reincidência só nos revela o quanto Fausto em seu pacto com o
diabo, é a manifestação de nosso eterno desejo moderno em não precisar pagar a
parcela de renúncia, ou seja, nós em busca do absoluto, da não-morte, do gozo do
poder total, do divino. A reportagem da Folha, ao final, estaria às voltas com
mais uma das previsões sobre o destino da história humana, o fim do mundo sem leis, sem flechas, sem
compromissos, onde qualquer um pode escolher o horror ou a esperança?
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