segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um certo (e modesto) olhar


Documenta de Kassel? Já tinha ouvido falar sobre esta exposição de arte contemporânea que acontece a cada cinco anos na Alemanha e me empolguei com a ideia ir até lá conferir sua fama. Depois de uma semana de mergulho na cultura berlinense nada parecia mais apropriado, inclusive pela oportunidade de viajar pelos moderníssimos trens alemães. Cidade de uns 200 mil habitantes, Kassel recebe a todos que chegam a sua estação para a Documenta com um tapete vermelho. Um jeito simpático e de certa maneira despojado de anunciar a importância deste período de cem dias em que a cidade é sede desta respeitada mostra. Também um jeito de avisar os desavisados (meu caso) que se está diante de um evento muito maior do que se imagina. Em sua 13ª edição, a primeira foi idealizada em 1955 por Arnold Bode, professor de arte e design que, diante de uma Alemanha pós-guerra devastada (também) culturalmente pela ditadura nazista, pretendia abrir um amplo debate sobre as artes, preservar as tendências e reposicionar a Alemanha no circuito internacional cultural. Quando se é um visitante do país na atualidade, não é difícil se deparar com este espírito de reconstrução não só geográfica, política ou cultural, mas moral. Há um grande empenho não mais em romper com a herança sombria do passado, mas em repara-la continuamente. O primeiro olhar de quem desce na estação central da cidade fica capturado pelo “colorido” formado pelas pessoas. São muitos os que fazem parte do mundo das artes e se organizam para estar em algum momento na cidade. E quando se tem apenas dois dias um planejamento dos espaços e artistas a serem visitados é mais do que necessário. De cara somos imersos em um mundo habitado por pessoas que pensam a arte atual como uma forma de surpreender, de trazer novos sentidos ao que já se conhece. De apresentar nosso mundo arte-cultural como um enorme espaço sem fronteiras, mesmo quando são apresentadas suas diferenças e marcas. Uma arte engajada, que quer pensar o futuro da vida humana por meio de todos os debates possíveis, em relação à natureza, as novas formas de política, a sustentabilidade ou ainda nas formas de sobrevivências econômicas, éticas e emocionais. Arte em movimento, sempre a absorver os novos conhecimentos, a se renovar. Para a curadora desta edição, a escritora ítalo-americana Carolyn Christov-Bakargiev, uma arte que não é feita apenas por artistas, mas que inclui historiadores, filósofos, físicos, ativistas ambientais, todos convidados a refletir sobre as incertezas e os riscos que nos rondam, sobre a situação do mundo atual. Por isso seu time foi composto por gestores provenientes das áreas de artes, filosofia, biologia, física, antropologia, política, arquitetura e economia, e as obras de 150 artistas de 55 países, escolhidas sem que o critério fosse necessariamente fazer parte das estrelas do cenário contemporâneo. Utilizando, além dos museus e o parque, um grande e eclético numero de espaços espalhados pela cidade para as obras - a nova e a velha estação de trem, hotéis, bunker, campo de concentração, um hospital desativado - o panorama geral estava mais para o sensível e significativo do que para o espetacular e majestoso. Talvez o exemplo mais interessante desta caracterização seja os dois trabalhos da dupla canadense Janet Cardiff  e George Miller. Em um deles, talvez o mais genial, cada visitante deveria seguir o monitor de um Ipod em uma visita guiada pela voz da artista na movimentada estação de trem, percorrendo o mesmo percurso que ela fez no dia da gravação do vídeo, surpreendendo-se com as intervenções de bandas, bailarinas, vozes, sons de pelotões nazistas, silêncios ou ainda interrupções artificiais. É inevitável que o passado e o presente, o real e o virtual se entrelacem. A mesma dupla assina outro emocionante “sound art”, com caixas instaladas entre as árvores do Karlsaue Park ( o majestoso parque da cidade) que recriam os bombardeios da segunda guerra mundial, o transporte de judeus aos campos de concentração e termina com vozes maravilhosas de um coral. Belíssimo!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Feridas expostas


Por ocasião das ultimas Olimpíadas de Londres várias reportagens de diferentes jornais aproveitaram o tema para publicarem textos que ressaltavam fatos da longa história deste evento, muitos sobre as tensões advindas das dificuldades da convivência inevitável com a diversidade dos povos e suas culturas. Uma delas relembrava a realizada em1936 em Berlim, palco das Olimpíadas de Hitler, que aproveitou a ocasião para fazer uma pomposa propaganda de seu regime tornando-a um momento histórico de sua glória, a despeito do desejo do Comitê Olímpico Internacional de vetar tal acontecimento diante do mal estar da ascensão do 3º Reich. Em 1972 a Alemanha sediava novamente as Olimpíadas e quem sabe pretendendo sacodir um pouco tanta poeira construiu a Vila Olímpica de Munique com capacidade para 16 mil pessoas, e um estádio (75 mil m²) que exibia uma inovadora obra de arquitetura, com teto suspenso de lona transparente. Mas na manhã do dia 5 de setembro, um grupo de palestinos da organização Setembro Negro invadiu os dormitórios da delegação israelense, assassinou dois de seus atletas e fez outros nove de reféns em troca da libertação de 200 árabes prisioneiros em Israel. Por muito pouco a Olimpíada não se interrompeu. Qualquer um que decida visitar Berlim nos tempos atuais não conseguirá deixar de lado a historia desta cidade que carrega as cicatrizes mais violentas da historia (e da alma) alemã. Afinal não é pouca coisa ter sido a sede da ascensão e queda do nazismo (e seus horrores) e em seguida ser dividida em duas, “cedendo” ao longo de anos uma parte de seu corpo ao regime comunista soviético. No entanto o que mais surpreende é perceber que hoje a cidade expõe suas feridas sem nenhuma concessão, lado a lado com as melhores atrações das vanguardas culturais, artísticas e musicais. Exemplo disso é a visita que se pode fazer a partir do histórico Portão de Brandemburgo, marco do inicio da cidade no século XIII, saqueado por Napoleão em 1806, terra de ninguém no período pós- segunda guerra e principal ícone da queda da Cortina de Ferro em 1989. Pode-se conferir como Berlim lida com seu passado ao caminhar alguns quarteirões a partir dali em direção ao Memorial do Holocausto (2005), uma enorme e contundente sequência de pilares retangulares de concreto cinza escuro que lembram lápides de túmulos, com alturas variadas. Idealizado pelo arquiteto americano Peter Eisenman em memória aos judeus mortos sob o regime de Hitler- embora não haja nenhuma menção às estas vítimas - convida o visitante tanto ao sentimento de paz e liberdade quanto ao de claustrofobia ao recriar um clima de isolamento e desorientação nos altos corredores. Próximo dali, em outro capítulo da história a céu aberto, é possível ver partes do Muro de Berlim ou suas cicatrizes marcadas nas ruas, visitar a sala do Silêncio (ONU) que incita os visitantes a refletirem sobre a paz, se inteirar sobre a vida do lado socialista de Berlim no memorial e Centro de Documentação do Muro que esmiúçam sua construção e queda, assim como os curiosos métodos utilizados para atravessar a fronteira. Tudo isso ao redor da agora moderníssima praça Potsdamer ,vinte e três anos atrás  cortada pelo muro (que chegou a ter mais de 150 quilômetros de extensão),em que também é possível visitar o recém aberto centro de documentação Topografia do Terror, construído sob os antigos calabouços do aparelho policial nazista, quartel-general da SS e da Gestapo, onde mais de 15 mil adversários do regime foram aprisionados e torturados. Intrigante é também perceber que este passado histórico e seus fantasmas não impedem Berlim de ser louvada por sua cultura, salsicha e cerveja, uma cidade que recebe de braços abertos muitos estrangeiros, muitos jovens, artistas, abriga uma enorme comunidade de turcos e exibe uma das melhores economias da Europa. Se é fato  que suas cicatrizes compõem sua identidade, não há como não reverenciar certa coragem na exposição de sua alma.

Sãos e insanos medos


Ano passado, ainda sob o impacto da fantástica ascensão da rede social Facebook, um programa de TV, atrás de respostas para tanto sucesso, entrevistava uma das jovens responsáveis pela equipe que alimentava a empresa com “boas ideias”. Na tentativa de responder ao repórter sobre o processo de criação ou mais propriamente de reflexão sobre os anseios e preocupações da nova geração, ela citava dois slogans considerados pontos de partida: não ficar siderado pela utopia da perfeição e forçar uma ultrapassagem pela barreira do medo. Em resumo, se o feito é melhor que o perfeito, o que você faria se não tivesse medo? Embora panfletária e charmosa, a frase bordeava alguns dos dilemas de novas gerações, sempre às voltas com a dupla liberdade X segurança. Um deles seria o medo. Não o que comanda o mantra que as gerações anteriores costumam rezar sempre que percebem não terem mais à mão as antigas referencias para as suas vidas, mas um medo de ordem mais endêmica, mais visceral. Generalizado, como diria uma jovem amiga. Convicta de que as ameaças para a existência humana eram mais óbvias, os perigos mais reais e havia menos mistérios sobre o que fazer para aliviá-los, acha que os riscos de hoje são mais incertos, o que causaria muita insegurança e uma busca sem fim por segurança e estabilidade. Assim se situa. Os estilos de vida, crenças e convicções estariam mudando rapidamente antes de terem tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades o que contribuiria para que os empregos e os relacionamentos em geral parecessem voláteis. Engenheira de produção, minha aflita amiga também discorria sobre o panorama das empresas nas quais trabalha que exigem competência, desempenho competitivo, iniciativa e autonomia e nem sempre oferecem as antigas garantias de leis trabalhistas. Ao invés disso, incentivam o mercado da subjetividade em que cada um pode ser medido como “looser” ou  “winner” conforme se adapte ou não profissional e financeiramente aos seus valores. E para os que se sentem meio perdidos, que busquem ajuda dos novos especialistas, os “coach”. É verdade que desde que a vida humana passou a ser regulada pela tecnologia e a busca da felicidade passou a fazer parte do avanço biotecnológico, todos precisam de força, memória, atividade. Sai o regime das certezas, abre-se o da multiplicidade, grande fonte de angustia. Tudo é temporário. O surpreendente é que minha amiga, longe de fechar suas questões e transforma-las em verdades, avaliava-as sob o prisma de sua geração, que não possuiria o mesmo preparo que a de seu irmão mais novo, por exemplo. Ele já pertenceria à geração Z (de zapear) um nativo digital que, segundo ela, teme menos esse futuro, gosta das provocações e encara com bom humor a falta de certezas e heróis. Age como se fosse natural sermos todos pessoas comuns, não se impressiona com o excesso de informações que precisa filtrar e parece usufruir mais os benefícios do que os riscos da evolução tecnológica. Nas redes sociais sabe cultivar os laços e obter benesses do espaço de trocas, acolhimento e solidariedade. Confiança necessária para o tipo de trabalho que faz em que as pessoas se organizam em clusters ou em outras formas de cooperação. Ela se aflige quando percebe que nestas poucas décadas, o futuro que levava séculos para chegar, depois 100 anos, 50 e agora mal cumpre os 5 anos, nem lhe deixa espaço para um respirar aliviada. Já seu irmão deve saber que vive no futuro, um futuro cada vez mais focado no intangível. Se ele tem medo? Com certeza, de outras coisas.

Próxima parada: Rio 2016


No último dia 5 de agosto no caderno Ilustríssima da Folha de SP o chinês Ai Weiwei, artista engajado de seu país, escrevia um texto ainda sob o impacto da cerimonia de abertura das Olimpíadas de Londres. Crítico, comparava-a com a pompa apresentada em Pequim 2008, que segundo ele, tinha de tudo, menos um sentimento de autenticidade do povo chinês. Na contramão das críticas de muitos sobre o que acharam ser britânica demais para o restante do mundo, Weiwei proclamou a inglesa de festa de verdade, que refletia sua sociedade civil, sua gente, seus valores, sua história, da rainha à enfermeira. Sem esconder uma admiração invejosa, destacou o fato de ser a Inglaterra uma nação de indivíduos e não de um (único) partido. Concordei (meio secretamente) com ele. Em meio a alguns que torciam o nariz para a cerimonia de encerramento que aconteceu no domingo, 12 de agosto - que de certa maneira completava a da abertura - fui tomada pela emoção quando vi surgir na tela, ícones importantes de minha geração. O que podia ser considerado brega e clichê me parecia uma ideia honesta e simples que agradava e muito ao público presente. Em um mundo em que a tecnologia pode fabricar efeitos especiais de tirar o fôlego de qualquer cidadão, a Inglaterra com sua tradição de peso inquestionável escolhia apresentar sua cultura de forma singela e alegre. Tal e qual uma grande festa musical, o que se via era um verdadeiro desfile do cancioneiro pop britânico com grande parte de seus  símbolos de ontem e hoje juntos. George Michael, Annie Lennox, Pink Floyd, Spice Girls, The Who, Queen, Oasis foram alguns que surgiram acompanhados dos quase quatro mil voluntários que se dispuseram a cantar e dançar. Lá pelas tantas, imagens de John Lennon, depois de Freddie Mercury, projetadas no telão levavam a plateia ao delírio. Nem mesmo o peculiar humor inglês ficou fora, representado por Eric Idle, do Monty Python. A boa música produzida pelos ingleses e dirigida principalmente aos jovens foi escolhida para brilhar naquele encerramento. Para nós brasileiros, o final daquela cerimonia significava o passe do bastão: - Agora é de vocês, sua hora de preparar a cidade e organizar a “infra” para poder acolher e receber com dignidade os mais de dez mil atletas e os milhares de turistas que prestigiam esta festa esportiva. Uma festa que graças aos novos recursos de comunicação parece estar sendo realizada logo ali, ao lado da casa de cada um. Que ao longo dos séculos em que se repete guarda um desejo humano de superação de limites físicos e mentais de corpos. Que pela primeira vez apresentou atletas de ambos os sexos de todos os países participantes. Que ousou mandar para casa os atletas que não compreenderam o sentido da “reunião” de povos e, portanto da convivência com a diversidade, com o estrangeiro. Que apostou, em sua organização, na “inspiração” que legaria às futuras gerações. Um modelito que poderia ser levado em consideração pelos brasileiros que se ocuparão da organização da próxima olimpíada. No entanto, numa visada geral, não são poucos os brasileiros que andam antecipando seu sentimento de vergonha para os possíveis furos de nossa hospedagem. Este mesmo ceticismo surpreendeu o governo federal que imaginava uma grande mobilização pública em torno do tão esperado julgamento do Mensalão. Em uma recente reportagem jornalística as câmeras mostravam o pátio da Esplanada vazio e nem todas as cadeiras reservadas aos interessados ocupadas. Esta é talvez a grande e nefasta consequência de episódios não transparentes em seus custos e processos, que além de não produzirem benefícios para a população, engordam os bolsos de políticos e empresários gulosos. Se a organização de um grande evento como as Olimpíadas é sempre uma preocupação para qualquer país que a realize, fica para cada um de nós, cidadãos brasileiros a tarefa de encontrar modos que nos ajudem a prevenir (ou alardear) a corrupção que em geral se associa a isso. Alguma ideia?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tempo, tempo, tempo, tempo.


O ano era 1972, o andar era o oitavo e na sala tocava insistentemente o álbum “Clube da Esquina”. Pensando bem, é provável que as meninas que dividiam o espaço comigo naquele apê não tivessem coragem suficiente para barrar meu entusiasmo e colocar algum limite naquele ato insano de repetir à exaustão cada uma das faixas. Há uma vaga lembrança de momentos em que baixava certo sentimento de vergonha quando então eu carregava minha vitrola Phillips preta para a varanda, fechava a porta de vidro e podia me entregar livremente ao fascínio e à emoção que aquelas músicas me despertavam. Quem eram aqueles rapazes desconhecidos, aquele negro com voz de “Deus”, aquelas melodias inesperadas, mistura de música clássica e folclórica com uma pegada de rock e brasilidade? De alguma maneira eu intuía estar vivendo um momento que marcaria um antes e um depois. Mais por sorte do que azar (ali eu queimava toda a minha mesada) a melhor casa de discos de Ribeirão Preto ficava enfrente a praça XV, passagem obrigatória e diária para que eu pudesse conferir todos os lançamentos (que não foram poucos) daquele ano: Caetano com o disco “Transa”, Gil e seu “Expresso 2222”, os Novos Baianos e  “Acabou Chorare” são apenas alguns que disparam lembranças  e me carregam ao tempo em que minha vida acadêmica se confundia com um novo mundo que eu acreditava estar aos meus pés. Tempos de repúblicas estudantis, de novas e importantes amizades, de expansão do conhecimento, de amores nunca antes vividos. Ainda conservo meu acervo de LPs que guardam esta parte importante de minha história. Estávamos em plena ditadura militar e estes ousados “meninos”, cada um ao seu modo, produziam uma revolução via música brasileira ao colocar em verso e sons tudo o que nós jovens, precisávamos para entrar na dança da contracultura. Milton Nascimento e os mineiros desciam com sua new musicalidade, Caetano e Gil voltavam de seu exilio londrino dispostos a quebrar paradigmas, os Novos Baianos, moleques talentosos, decidiam inaugurar uma vida coletiva em um sitio em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Ao time é preciso acrescentar Chico Buarque, cujo “barulho” se concentrava nas letras, que cantavam a descabida censura, a malandragem carioca, as facetas de nossa brasilidade, os amores do ponto de vista das mulheres ou dos homens. Foi com estes grandes e queridos companheiros de vida que me deparei esta semana quando, em uma mesma página de algum jornal digital anunciavam-se Milton em seus 40 anos de carreira, Caetano fazendo 70 anos e Chico lançando mais um CD ao vivo intitulado "Na Carreira". O tempo, inexorável, mostrava sua cara. Como a me consolar, ao ligar o rádio de meu carro, quase tive que parar para poder curtir melhor a beleza da letra da música “Essa pequena” de Chico Buarque, em que ele canta a passagem do tempo comparando sua perspectiva com a da “pequena”. Verdade dura, poesia pura. Voltei ao ano de 1972, quando entrei na faculdade em Ribeirão Preto e tinha certeza que o mundo era pequeno demais para meus sonhos. O tempo nem era uma questão. Confiram:

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela

Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la

Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai

Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena

A cabeleira do Zezé


Jovem e sensível, a professora de uma escola infantil me contava sobre um assunto ao mesmo tempo delicado e perturbador que teria surgido em uma reunião de pais. Em meio a um importante debate sobre o futuro das famílias, dos pais e da educação dos filhos, alguns teriam questionado como seria quando as crianças de pais homossexuais começassem a frequentar as escolas, tendo que enfrentar o fato de possuir dois pais ou duas mães. Que futuro estaria reservado para estas crianças? Como responder à surpresa das outras? Ao invés de preleções de caráter moral a favor ou contra ou de previsões ameaçadoras do bem estar familiar, ela preferiu deixar ao futuro a tarefa de acomodar (ou não) tais mudanças. Mas lembrou que, a despeito de tendermos a considerar nossas crenças eternas, não seria difícil conferir as transformações sofridas no seio da família nestas últimas décadas. O tema, polêmico, esquentou ainda mais o debate sem, contudo, chegar a um consenso. De fato tentamos esquecer que para além de nossas origens biológicas ou de famílias “bem constituídas” há uma infinita variedade de caminhos e escolhas que constituem a historia de cada um. Mais confortável imaginar que nossas historias possam ser asseguradas (melhores?) se cumprimos certos protocolos - mesmo com datas de validade expiradas - talvez na tentativa de dividir a responsabilidade (sempre dura) sobre nossos futuros. É o caso desta nova disposição familiar, baseada em uma relação homoafetiva, com filhos gerados por inseminação artificial ou adotados. Estariam estas crianças condenadas a ser “diferentes”, sem chances de felicidade, ou vale a regra de que no final das contas, para que uma família passe a existir, é preciso basicamente que se queira isso? Se há boas noticias nas mudanças que aconteceram e continuam a acontecer nas famílias atuais, é que elas finalmente se livraram de alguns séculos de hipocrisia e dissimulação. Antes era crucial que se mantivesse a fachada dos casamentos e se escondessem as tensões sexuais, as violências e os constrangimentos dos lares. Maridos podiam manter uma alegre vida erótica fora de casa. Homossexuais se casavam com o sexo oposto, tinham filhos e quiçá mantinham ligações homoeróticas na calada da noite. Às mulheres restava conformar-se em viver à margem da vida pública, sem direitos, sem voz. Violências veladas ou encarnadas eram encenadas, mas guardadas no silencio dos segredos sob a égide da vergonha e da humilhação. Foram as últimas gerações que exigiram de si e dos outros uma coerência entre o sentir e o fazer. A partir daí pudemos constatar  como as identidades sexuais são incertas, como cada um de nós porta tanto traços femininos quanto masculinos, como é difícil saber o que é ser mulher ou homem, pai ou mãe. E, embora os gays finalmente pudessem sair do armário e assumir seu amor pelo mesmo sexo, nem por isso ficaram livres de viver seus (nossos) dilemas de identidade. Mas mesmo sem as antigas certezas e com milhares de questões difíceis e em aberto, a família continua sendo o laboratório da experiência humana, o lugar onde os dramas são experimentados e o amor pode acontecer. O espaço em que cada um ganha uma data de nascimento, uma origem, um passado. Minha amiga professora tinha razão. É provável que no futuro a marchinha de carnaval que ecoa o refrão “será que ele é” não guarde o mesmo sentido.

sábado, 4 de agosto de 2012

Deitado eternamente


Quem se propõe a fazer um recenseamento via web de reportagens que tomem o “Brasil” como tema, seja para avaliar junto aos outros, seu papel político, econômico ou cultural, para analisar suas condições de sede da Copa do Mundo (2014) ou das Olimpíadas (2016), prever seu futuro como nação, ou somente para tentar compor uma imagem mais ou menos consensual sobre sua “marca”, fatalmente se depara com vozes dissonantes, algumas bem negativas outras nem tanto. Tomemos por exemplo, uma pequena pesquisa feita com os estrangeiros que participaram da Rio+20 que elegeram o povo brasileiro como o melhor produto do país e reclamaram do caos do trânsito ou dos preços nas alturas. Nenhuma novidade. É verdade que as reportagens sobre cultura são geralmente elogiosas e as sobre política e sociedade, bem menos. Estamos acostumados a ser mal avaliados (por estrangeiros ou não) e curiosamente não parecemos nos importar quando correspondentes estrangeiros evidenciam as diferenças sociais expostas em nossas metrópoles com suas favelas, crianças pobres pelas ruas ou o descaso em relação à devastação ambiental. Também não ligamos quando vemos propagados de forma positiva, mas estereotipada, nosso samba, carnaval, mulatas ou futebol. É certo que recentemente passamos a receber maior atenção da mídia exterior de olho em uma economia que não se abateu com a crise da Europa ao manter um índice baixo de desemprego, um PIB razoável e um cenário em que “nascem” 19 novos milionários por dia, sobe a procura de executivos brasileiros para controlar empresas mundiais e jorra petróleo em nossas costas. Na onda deste inédito interesse por nossa “brasilidade”, pesquisadores de marketing/comunicação saíram em busca dos indícios de nossa marca Brasil, associando-a a alegria, solidariedade, sensualidade, cor, calor, inovação, juventude, valores que estariam em alta pelo mundo, mas que não parecem fazer muito “vento” na percepção que temos de nós mesmos. Por quê? Parece haver consenso de que não temos uma tradição de agregar valor ao que nos é próprio o que nos levaria a permanecer fascinados com o “estrangeiro”. Alguns atribuem isto à singularidade de nossa historia colonial acrescido de um insistente baixo índice de confiança em nossos atributos. A verdade é que não conseguimos responder muito bem porque estaríamos sendo a bola da vez e mesmo reconhecendo o grande potencial de nossa cultura ainda não nos apropriamos de nosso jeito de cria-la, pensa-la, consumi-la. É como se nossa brasilidade escorregasse como um líquido, difícil de se deixar analisar. Nos anos 20, o polêmico  Oswald de Andrade ousou proclamar o movimento antropofágico com a finalidade de incentivar o que intuía já fazer parte de nossa cultura, ou seja, a assimilação da cultura europeia – dominante na época – com o intuito de degluti-la e remodelá-la segundo a realidade brasileira. A ideia de antropofagia  cai como luva para uma tentativa de análise da marca Brasil. Ou seja, o que muitas vezes é visto como reverencia ao de “fora”, ou ao mais civilizado/valorizado/reconhecido, seria na verdade um jeito brasileiro de emprestar, de “comer” os modelos/conceitos estrangeiros para em seguida transforma-los, reinventa-los. Assim ficamos sem muitas teorias que nos expliquem, mas mantemos nossa marca de improvisação. De certa forma, palatável com as inconsistências/ liquidez deste mundo contemporâneo.