Documenta de Kassel? Já tinha ouvido falar sobre
esta exposição de arte contemporânea que acontece a cada cinco anos na Alemanha
e me empolguei com a ideia ir até lá conferir sua fama. Depois de uma semana de
mergulho na cultura berlinense nada parecia mais apropriado, inclusive pela oportunidade
de viajar pelos moderníssimos trens alemães. Cidade de uns 200 mil habitantes,
Kassel recebe a todos que chegam a sua estação para a Documenta com um tapete
vermelho. Um jeito simpático e de certa maneira despojado de anunciar a
importância deste período de cem dias em que a cidade é sede desta respeitada mostra.
Também um jeito de avisar os desavisados (meu caso) que se está diante de um
evento muito maior do que se imagina. Em sua 13ª edição, a primeira foi idealizada
em 1955 por Arnold Bode, professor de arte e design que, diante de uma Alemanha
pós-guerra devastada (também) culturalmente pela ditadura nazista, pretendia
abrir um amplo debate sobre as artes, preservar as tendências e reposicionar a
Alemanha no circuito internacional cultural. Quando se é um visitante do país
na atualidade, não é difícil se deparar com este espírito de reconstrução não
só geográfica, política ou cultural, mas moral. Há um grande empenho não mais
em romper com a herança sombria do passado, mas em repara-la continuamente. O
primeiro olhar de quem desce na estação central da cidade fica capturado pelo
“colorido” formado pelas pessoas. São muitos os que fazem parte do mundo das
artes e se organizam para estar em algum momento na cidade. E quando se tem
apenas dois dias um planejamento dos espaços e artistas a serem visitados é
mais do que necessário. De cara somos imersos em um mundo habitado por pessoas
que pensam a arte atual como uma forma de surpreender, de trazer novos sentidos
ao que já se conhece. De apresentar nosso mundo arte-cultural como um enorme
espaço sem fronteiras, mesmo quando são apresentadas suas diferenças e marcas. Uma
arte engajada, que quer pensar o futuro da vida humana por meio de todos os
debates possíveis, em relação à natureza, as novas formas de política, a
sustentabilidade ou ainda nas formas de sobrevivências econômicas, éticas e emocionais.
Arte em movimento, sempre a absorver os novos conhecimentos, a se renovar. Para
a curadora desta edição, a escritora ítalo-americana Carolyn
Christov-Bakargiev, uma arte que não é feita apenas por artistas, mas que inclui
historiadores, filósofos, físicos, ativistas ambientais, todos convidados a
refletir sobre as incertezas e os riscos que nos rondam, sobre a situação do
mundo atual. Por isso seu time foi composto por gestores provenientes das áreas
de artes, filosofia, biologia, física, antropologia, política, arquitetura e economia,
e as obras de 150 artistas de 55 países, escolhidas sem que o critério fosse necessariamente
fazer parte das estrelas do cenário contemporâneo. Utilizando, além dos museus
e o parque, um grande e eclético numero de espaços espalhados pela cidade para
as obras - a nova e a velha estação de trem, hotéis, bunker, campo de
concentração, um hospital desativado - o panorama geral estava mais para o
sensível e significativo do que para o espetacular e majestoso. Talvez o
exemplo mais interessante desta caracterização seja os dois trabalhos da dupla
canadense Janet Cardiff e George Miller.
Em um deles, talvez o mais genial, cada visitante deveria seguir o monitor de um
Ipod em uma visita guiada pela voz da artista na movimentada estação de trem,
percorrendo o mesmo percurso que ela fez no dia da gravação do vídeo,
surpreendendo-se com as intervenções de bandas, bailarinas, vozes, sons de pelotões
nazistas, silêncios ou ainda interrupções artificiais. É inevitável que o passado
e o presente, o real e o virtual se entrelacem. A mesma dupla assina outro
emocionante “sound art”, com caixas instaladas entre as árvores do Karlsaue
Park ( o majestoso parque da cidade) que recriam os bombardeios da segunda
guerra mundial, o transporte de judeus aos campos de concentração e termina com
vozes maravilhosas de um coral. Belíssimo!
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Feridas expostas
Por ocasião das ultimas Olimpíadas de Londres várias
reportagens de diferentes jornais aproveitaram o tema para publicarem textos
que ressaltavam fatos da longa história deste evento, muitos sobre as tensões advindas
das dificuldades da convivência inevitável com a diversidade dos povos e suas
culturas. Uma delas relembrava a realizada em1936 em Berlim, palco das
Olimpíadas de Hitler, que aproveitou a ocasião para fazer uma pomposa propaganda
de seu regime tornando-a um momento histórico de sua glória, a despeito do
desejo do Comitê Olímpico Internacional de vetar tal acontecimento diante do
mal estar da ascensão do 3º Reich. Em 1972 a Alemanha sediava novamente as
Olimpíadas e quem sabe pretendendo sacodir um pouco tanta poeira construiu a
Vila Olímpica de Munique com capacidade para 16 mil pessoas, e um estádio (75
mil m²) que exibia uma inovadora obra de arquitetura, com teto suspenso de lona
transparente. Mas na manhã do dia 5 de setembro, um grupo de palestinos da
organização Setembro Negro invadiu os dormitórios da delegação israelense,
assassinou dois de seus atletas e fez outros nove de reféns em troca da
libertação de 200 árabes prisioneiros em Israel. Por muito pouco a Olimpíada
não se interrompeu. Qualquer um que decida visitar Berlim nos tempos atuais não
conseguirá deixar de lado a historia desta cidade que carrega as cicatrizes
mais violentas da historia (e da alma) alemã. Afinal não é pouca coisa ter sido
a sede da ascensão e queda do nazismo (e seus horrores) e em seguida ser
dividida em duas, “cedendo” ao longo de anos uma parte de seu corpo ao regime comunista
soviético. No entanto o que mais surpreende é perceber que hoje a cidade expõe suas
feridas sem nenhuma concessão, lado a lado com as melhores atrações das vanguardas
culturais, artísticas e musicais. Exemplo disso é a visita que se pode fazer a
partir do histórico Portão de Brandemburgo, marco do inicio da
cidade no século XIII, saqueado por Napoleão em 1806, terra de ninguém no
período pós- segunda guerra e principal ícone da queda da Cortina de Ferro em
1989. Pode-se conferir como Berlim lida com seu passado ao caminhar alguns
quarteirões a partir dali em direção ao Memorial do Holocausto (2005), uma
enorme e contundente sequência de pilares retangulares de concreto cinza escuro
que lembram lápides de túmulos, com alturas variadas. Idealizado pelo arquiteto
americano Peter Eisenman em memória aos judeus mortos sob o regime de Hitler-
embora não haja nenhuma menção às estas vítimas - convida o visitante tanto ao
sentimento de paz e liberdade quanto ao de claustrofobia ao recriar um clima de
isolamento e desorientação nos altos corredores. Próximo dali, em outro capítulo
da história a céu aberto, é possível ver partes do Muro de Berlim ou suas
cicatrizes marcadas nas ruas, visitar a sala do Silêncio (ONU) que incita os
visitantes a refletirem sobre a paz, se inteirar sobre a vida do lado
socialista de Berlim no memorial e Centro de Documentação do Muro que esmiúçam sua
construção e queda, assim como os curiosos métodos utilizados para atravessar a
fronteira. Tudo isso ao redor da agora moderníssima praça Potsdamer ,vinte e
três anos atrás cortada pelo muro (que chegou
a ter mais de 150 quilômetros de extensão),em que também é possível visitar o
recém aberto centro de documentação Topografia do Terror, construído sob os
antigos calabouços do aparelho policial nazista, quartel-general da SS e da
Gestapo, onde mais de 15 mil adversários do regime foram aprisionados e
torturados. Intrigante é também perceber que este passado histórico e seus
fantasmas não impedem Berlim de ser louvada por sua cultura, salsicha e
cerveja, uma cidade que recebe de braços abertos muitos estrangeiros, muitos
jovens, artistas, abriga uma enorme comunidade de turcos e exibe uma das
melhores economias da Europa. Se é fato que
suas cicatrizes compõem sua identidade, não há como não reverenciar certa
coragem na exposição de sua alma.
Sãos e insanos medos
Ano passado, ainda sob o impacto da fantástica
ascensão da rede social Facebook, um programa de TV, atrás de respostas para
tanto sucesso, entrevistava uma das jovens responsáveis pela equipe que alimentava
a empresa com “boas ideias”. Na tentativa de responder ao repórter sobre o
processo de criação ou mais propriamente de reflexão sobre os anseios e
preocupações da nova geração, ela citava dois slogans considerados pontos de
partida: não ficar siderado pela utopia da perfeição e forçar uma ultrapassagem
pela barreira do medo. Em resumo, se o feito é melhor que o perfeito, o que
você faria se não tivesse medo? Embora panfletária e charmosa, a frase bordeava
alguns dos dilemas de novas gerações, sempre às voltas com a dupla liberdade X
segurança. Um deles seria o medo. Não o que comanda o mantra que as gerações
anteriores costumam rezar sempre que percebem não terem mais à mão as antigas
referencias para as suas vidas, mas um medo de ordem mais endêmica, mais
visceral. Generalizado, como diria uma jovem amiga. Convicta de que as ameaças para a existência humana eram mais
óbvias, os perigos mais reais e havia menos mistérios sobre o que fazer para aliviá-los,
acha que os riscos de hoje são mais incertos, o que causaria muita insegurança
e uma busca sem fim por segurança e estabilidade. Assim se situa. Os estilos
de vida, crenças e convicções estariam mudando rapidamente antes de terem tempo
de se solidificar em costumes, hábitos e verdades o que contribuiria para que os
empregos e os relacionamentos em geral parecessem voláteis. Engenheira de
produção, minha aflita amiga também discorria sobre o panorama das empresas nas
quais trabalha que exigem competência, desempenho competitivo, iniciativa e
autonomia e nem sempre oferecem as antigas garantias de leis trabalhistas. Ao
invés disso, incentivam o mercado da subjetividade em que cada um pode ser
medido como “looser” ou “winner”
conforme se adapte ou não profissional e financeiramente aos seus valores. E
para os que se sentem meio perdidos, que busquem ajuda dos novos especialistas,
os “coach”. É verdade que desde que a vida humana passou a ser regulada pela
tecnologia e a busca da felicidade passou a fazer parte do avanço
biotecnológico, todos precisam de força, memória, atividade. Sai o regime das
certezas, abre-se o da multiplicidade, grande fonte de angustia. Tudo é
temporário. O surpreendente é que minha amiga, longe de fechar suas questões e
transforma-las em verdades, avaliava-as sob o prisma de sua geração, que não
possuiria o mesmo preparo que a de seu irmão mais novo, por exemplo. Ele já
pertenceria à geração Z (de zapear) um nativo digital que, segundo ela, teme
menos esse futuro, gosta das provocações e encara com bom humor a falta de
certezas e heróis. Age como se fosse natural sermos todos pessoas comuns, não
se impressiona com o excesso de informações que precisa filtrar e parece usufruir
mais os benefícios do que os riscos da evolução tecnológica. Nas redes sociais sabe
cultivar os laços e obter benesses do espaço de trocas, acolhimento e
solidariedade. Confiança necessária para o tipo de trabalho que faz em que as
pessoas se organizam em clusters ou em outras formas de cooperação. Ela se
aflige quando percebe que nestas poucas décadas, o futuro que levava séculos para
chegar, depois 100 anos, 50 e agora mal cumpre os 5 anos, nem lhe deixa espaço
para um respirar aliviada. Já seu irmão deve saber que vive no futuro, um
futuro cada vez mais focado no intangível. Se ele tem medo? Com certeza, de
outras coisas.
Próxima parada: Rio 2016
No último
dia 5 de agosto no caderno Ilustríssima da Folha de SP o chinês Ai Weiwei, artista
engajado de seu país, escrevia um texto ainda sob o impacto da cerimonia de
abertura das Olimpíadas de Londres. Crítico, comparava-a com a pompa apresentada
em Pequim 2008, que segundo ele, tinha de tudo, menos um sentimento de
autenticidade do povo chinês. Na contramão das críticas de muitos sobre o que acharam
ser britânica demais para o restante do mundo, Weiwei proclamou a inglesa de
festa de verdade, que refletia sua sociedade civil, sua gente, seus valores,
sua história, da rainha à enfermeira. Sem esconder uma admiração invejosa,
destacou o fato de ser a Inglaterra uma nação de indivíduos e não de um (único)
partido. Concordei (meio secretamente) com ele. Em meio a alguns que torciam o
nariz para a cerimonia de encerramento que aconteceu no domingo, 12 de agosto -
que de certa maneira completava a da abertura - fui tomada pela emoção quando
vi surgir na tela, ícones importantes de minha geração. O que podia ser
considerado brega e clichê me parecia uma ideia honesta e simples que agradava
e muito ao público presente. Em um mundo em que a tecnologia pode fabricar
efeitos especiais de tirar o fôlego de qualquer cidadão, a Inglaterra com sua
tradição de peso inquestionável escolhia apresentar sua cultura de forma
singela e alegre. Tal e qual uma grande festa musical, o que se via era um
verdadeiro desfile do cancioneiro pop britânico com grande parte de seus símbolos de ontem e hoje juntos. George
Michael, Annie Lennox, Pink Floyd, Spice Girls, The Who, Queen, Oasis foram
alguns que surgiram acompanhados dos quase quatro mil voluntários que se
dispuseram a cantar e dançar. Lá pelas tantas, imagens de John Lennon, depois de
Freddie Mercury, projetadas no telão levavam a plateia ao delírio. Nem mesmo o
peculiar humor inglês ficou fora, representado por Eric Idle, do Monty Python. A
boa música produzida pelos ingleses e dirigida principalmente aos jovens foi
escolhida para brilhar naquele encerramento. Para nós brasileiros, o final
daquela cerimonia significava o passe do bastão: - Agora é de vocês, sua hora
de preparar a cidade e organizar a “infra” para poder acolher e receber com
dignidade os mais de dez mil atletas e os milhares de turistas que prestigiam
esta festa esportiva. Uma festa que graças aos novos recursos de comunicação
parece estar sendo realizada logo ali, ao lado da casa de cada um. Que ao longo
dos séculos em que se repete guarda um desejo humano de superação de limites
físicos e mentais de corpos. Que pela primeira vez apresentou atletas de ambos
os sexos de todos os países participantes. Que ousou mandar para casa os
atletas que não compreenderam o sentido da “reunião” de povos e, portanto da
convivência com a diversidade, com o estrangeiro. Que apostou, em sua
organização, na “inspiração” que legaria às futuras gerações. Um modelito que
poderia ser levado em consideração pelos brasileiros que se ocuparão da
organização da próxima olimpíada. No entanto, numa visada geral, não são poucos
os brasileiros que andam antecipando seu sentimento de vergonha para os
possíveis furos de nossa hospedagem. Este mesmo ceticismo surpreendeu o governo
federal que imaginava uma grande mobilização pública em torno do tão esperado julgamento
do Mensalão. Em uma recente reportagem jornalística as câmeras mostravam o
pátio da Esplanada vazio e nem todas as cadeiras reservadas aos interessados ocupadas.
Esta é talvez a grande e nefasta consequência de episódios não transparentes em
seus custos e processos, que além de não produzirem benefícios para a
população, engordam os bolsos de políticos e empresários gulosos. Se a
organização de um grande evento como as Olimpíadas é sempre uma preocupação
para qualquer país que a realize, fica para cada um de nós, cidadãos
brasileiros a tarefa de encontrar modos que nos ajudem a prevenir (ou alardear)
a corrupção que em geral se associa a isso. Alguma ideia?
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Tempo, tempo, tempo, tempo.
O
ano era 1972, o andar era o oitavo e na sala tocava insistentemente o álbum “Clube
da Esquina”. Pensando bem, é provável que as meninas que dividiam o espaço
comigo naquele apê não tivessem coragem suficiente para barrar meu entusiasmo e
colocar algum limite naquele ato insano de repetir à exaustão cada uma das
faixas. Há uma vaga lembrança de momentos em que baixava certo sentimento de
vergonha quando então eu carregava minha vitrola Phillips preta para a varanda,
fechava a porta de vidro e podia me entregar livremente ao fascínio e à emoção que
aquelas músicas me despertavam. Quem eram aqueles rapazes desconhecidos, aquele
negro com voz de “Deus”, aquelas melodias inesperadas, mistura de música
clássica e folclórica com uma pegada de rock e brasilidade? De alguma maneira
eu intuía estar vivendo um momento que marcaria um antes e um depois. Mais por
sorte do que azar (ali eu queimava toda a minha mesada) a melhor casa de discos
de Ribeirão Preto ficava enfrente a praça XV, passagem obrigatória e diária
para que eu pudesse conferir todos os lançamentos (que não foram poucos)
daquele ano: Caetano com o disco “Transa”, Gil e seu “Expresso 2222”, os Novos
Baianos e “Acabou Chorare” são apenas alguns
que disparam lembranças e me carregam ao
tempo em que minha vida acadêmica se confundia com um novo mundo que eu
acreditava estar aos meus pés. Tempos de repúblicas estudantis, de novas e
importantes amizades, de expansão do conhecimento, de amores nunca antes vividos.
Ainda conservo meu acervo de LPs que guardam esta parte importante de minha
história. Estávamos em plena ditadura militar e estes ousados “meninos”, cada
um ao seu modo, produziam uma revolução via música brasileira ao colocar em
verso e sons tudo o que nós jovens, precisávamos para entrar na dança da
contracultura. Milton Nascimento e os mineiros desciam com sua new
musicalidade, Caetano e Gil voltavam de seu exilio londrino dispostos a quebrar
paradigmas, os Novos Baianos, moleques talentosos, decidiam inaugurar uma vida
coletiva em um sitio em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Ao time é preciso acrescentar
Chico Buarque, cujo “barulho” se concentrava nas letras, que cantavam a
descabida censura, a malandragem carioca, as facetas de nossa brasilidade, os
amores do ponto de vista das mulheres ou dos homens. Foi com estes grandes e
queridos companheiros de vida que me deparei esta semana quando, em uma mesma
página de algum jornal digital anunciavam-se Milton em seus 40 anos de
carreira, Caetano fazendo 70 anos e Chico lançando mais um CD ao vivo intitulado
"Na Carreira". O tempo, inexorável, mostrava sua cara. Como a me
consolar, ao ligar o rádio de meu carro, quase tive que parar para poder curtir
melhor a beleza da letra da música “Essa pequena” de Chico Buarque, em que ele canta
a passagem do tempo comparando sua perspectiva com a da “pequena”. Verdade
dura, poesia pura. Voltei ao ano de 1972, quando entrei na faculdade em Ribeirão
Preto e tinha certeza que o mundo era pequeno demais para meus sonhos. O tempo
nem era uma questão. Confiram:
Meu
tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu
dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Feito
avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Às
vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena
A cabeleira do Zezé
Jovem e sensível, a
professora de uma escola infantil me contava sobre um assunto ao mesmo tempo
delicado e perturbador que teria surgido em uma reunião de pais. Em meio a um
importante debate sobre o futuro das famílias, dos pais e da educação dos
filhos, alguns teriam questionado como seria quando as crianças de pais
homossexuais começassem a frequentar as escolas, tendo que enfrentar o fato de
possuir dois pais ou duas mães. Que futuro estaria reservado para estas
crianças? Como responder à surpresa das outras? Ao invés de preleções de
caráter moral a favor ou contra ou de previsões ameaçadoras do bem estar
familiar, ela preferiu deixar ao futuro a tarefa de acomodar (ou não) tais
mudanças. Mas lembrou que, a despeito de tendermos a considerar nossas crenças
eternas, não seria difícil conferir as transformações sofridas no seio da
família nestas últimas décadas. O tema, polêmico, esquentou ainda mais o debate
sem, contudo, chegar a um consenso. De fato tentamos esquecer que para além de
nossas origens biológicas ou de famílias “bem constituídas” há uma infinita
variedade de caminhos e escolhas que constituem a historia de cada um. Mais
confortável imaginar que nossas historias possam ser asseguradas (melhores?) se
cumprimos certos protocolos - mesmo com datas de validade expiradas - talvez na
tentativa de dividir a responsabilidade (sempre dura) sobre nossos futuros. É o
caso desta nova disposição familiar, baseada em uma relação homoafetiva, com
filhos gerados por inseminação artificial ou adotados. Estariam estas crianças
condenadas a ser “diferentes”, sem chances de felicidade, ou vale a regra de
que no final das contas, para que uma família passe a existir, é preciso basicamente
que se queira isso? Se há boas noticias nas mudanças que aconteceram e
continuam a acontecer nas famílias atuais, é que elas finalmente se livraram de
alguns séculos de hipocrisia e dissimulação. Antes era crucial que se
mantivesse a fachada dos casamentos e se escondessem as tensões sexuais, as
violências e os constrangimentos dos lares. Maridos podiam manter uma alegre vida
erótica fora de casa. Homossexuais se casavam com o sexo oposto, tinham filhos
e quiçá mantinham ligações homoeróticas na calada da noite. Às mulheres restava
conformar-se em viver à margem da vida pública, sem direitos, sem voz. Violências
veladas ou encarnadas eram encenadas, mas guardadas no silencio dos segredos
sob a égide da vergonha e da humilhação. Foram as últimas gerações que exigiram
de si e dos outros uma coerência entre o sentir e o fazer. A partir daí pudemos
constatar como as identidades sexuais
são incertas, como cada um de nós porta tanto traços femininos quanto
masculinos, como é difícil saber o que é ser mulher ou homem, pai ou mãe. E,
embora os gays finalmente pudessem sair do armário e assumir seu amor pelo
mesmo sexo, nem por isso ficaram livres de viver seus (nossos) dilemas de
identidade. Mas mesmo sem as antigas certezas e com milhares de questões difíceis
e em aberto, a família continua sendo o laboratório da experiência humana, o
lugar onde os dramas são experimentados e o amor pode acontecer. O espaço em
que cada um ganha uma data de nascimento, uma origem, um passado. Minha amiga
professora tinha razão. É provável que no futuro a marchinha de carnaval que
ecoa o refrão “será que ele é” não guarde o mesmo sentido.
sábado, 4 de agosto de 2012
Deitado eternamente
Quem se propõe a fazer um recenseamento via web de reportagens que tomem
o “Brasil” como tema, seja para avaliar junto aos outros, seu papel político,
econômico ou cultural, para analisar suas condições de sede da Copa do Mundo (2014)
ou das Olimpíadas (2016), prever seu futuro como nação, ou somente para tentar compor
uma imagem mais ou menos consensual sobre sua “marca”, fatalmente se depara com
vozes dissonantes, algumas bem negativas outras nem tanto. Tomemos por exemplo,
uma pequena pesquisa feita com os estrangeiros que participaram da
Rio+20 que elegeram o povo brasileiro como o melhor produto do país e
reclamaram do caos do trânsito ou dos preços nas alturas. Nenhuma novidade. É
verdade que as reportagens sobre cultura são geralmente elogiosas e as sobre
política e sociedade, bem menos. Estamos acostumados a
ser mal avaliados (por estrangeiros ou não) e curiosamente não parecemos nos
importar quando correspondentes estrangeiros evidenciam as diferenças sociais expostas
em nossas metrópoles com suas favelas, crianças pobres pelas ruas ou o descaso em
relação à devastação ambiental. Também não ligamos quando vemos propagados de
forma positiva, mas estereotipada, nosso samba, carnaval, mulatas ou futebol. É
certo que recentemente passamos a receber maior atenção da mídia exterior de
olho em uma economia que não se abateu com a crise da Europa ao manter um índice
baixo de desemprego, um PIB razoável e um cenário em que “nascem” 19 novos
milionários por dia, sobe a procura de executivos brasileiros para controlar
empresas mundiais e jorra petróleo em nossas costas. Na onda deste inédito
interesse por nossa “brasilidade”, pesquisadores de marketing/comunicação saíram
em busca dos indícios de nossa marca Brasil, associando-a a
alegria, solidariedade, sensualidade, cor, calor, inovação, juventude, valores
que estariam em alta pelo mundo, mas que não parecem fazer muito “vento” na
percepção que temos de nós mesmos. Por quê? Parece haver consenso de que não temos
uma tradição de agregar valor ao que nos é próprio o que nos levaria a
permanecer fascinados com o “estrangeiro”. Alguns atribuem isto à singularidade
de nossa historia colonial acrescido de um insistente baixo índice de confiança
em nossos atributos. A verdade é que não conseguimos responder muito bem porque
estaríamos sendo a bola da vez e mesmo reconhecendo o grande potencial de nossa
cultura ainda não nos apropriamos de nosso jeito de cria-la, pensa-la,
consumi-la. É como se nossa brasilidade escorregasse como um líquido, difícil
de se deixar analisar. Nos anos 20, o polêmico
Oswald de Andrade ousou proclamar o movimento antropofágico com a finalidade
de incentivar o que intuía já fazer parte de nossa cultura, ou seja, a assimilação
da cultura europeia – dominante na época – com o intuito de degluti-la e
remodelá-la segundo a realidade brasileira. A ideia de antropofagia cai como luva para uma tentativa de análise da
marca Brasil. Ou seja, o que muitas vezes é visto como reverencia ao de “fora”,
ou ao mais civilizado/valorizado/reconhecido, seria na verdade um jeito
brasileiro de emprestar, de “comer” os modelos/conceitos estrangeiros para em
seguida transforma-los, reinventa-los. Assim ficamos sem muitas teorias que nos
expliquem, mas mantemos nossa marca de improvisação. De certa forma, palatável
com as inconsistências/ liquidez deste mundo contemporâneo.
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