segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Quem quer ser milionário?


Há poucos dias assisti um debate informal (mas inflamado) deflagrado a partir de um tema polêmico surgido em uma roda de amigos. A aprovação pelo Legislativo, em agosto último, de cotas de 50% nas universidades federais para alunos oriundos de escolas públicas, sendo priorizados estudantes negros, indígenas e/ou de baixa renda, provocava indignação em grande parte dos presentes, às vésperas dos exames vestibulares de filhos e netos. Embora eu tenda a simpatizar com iniciativas que busquem promover inclusão social, resolvi apurar os argumentos prós e contras que ali travavam uma disputa. Havia paixão, muita paixão nas defesas dos pontos de vista e era isso que mais chamava a atenção. Afinal, as cotas para estudantes de baixa renda, negros e índios para além de escancarar as enormes disparidades do nosso Brasil desigual, pareciam não demonstrar tantas diferenças de desempenho dos “cotistas” em relação aos outros estudantes, segundo algumas Universidades que já a implantaram. O que parecia prevalecer ali, em um dos polos, era uma grande resistência para pensar novas soluções para velhos problemas principalmente quando estas ameaçavam a destituição de um conforto aparentemente “adquirido”. De certa maneira há no Brasil um consenso (para o que têm e os que não têm) em torno de certas garantias de “bem estar” social para a elite. Do lado oposto, alguém se  lembrou que o escritor afro americano Teju Cole, um dos convidados da última FLIP, a feira de literatura internacional, estranhou não cruzar com visitantes negros em Paraty. Pus-me a pensar que em meu bairro (SP) não há negros fazendo compras nos supermercados, lojas, dirigindo carros nas ruas, comendo ou bebendo nos bares e restaurantes. Detalhe, eles compõem um pouco mais da metade de nossa população. Outros frisaram como alguns países europeus, que adotaram políticas de inclusão generalista para deficientes (incluindo idosos que utilizam cadeiras de rodas ou andadores) promoveram o aumento desta população na ocupação de espaços públicos, o que poderia surpreender a todos os brasileiros, caso isso começasse a acontecer por aqui. Não estamos acostumados a ver deficientes nas ruas porque não temos políticas que promovam seu acesso aos lugares ou transportes públicos. Estes defendiam que a lei das cotas poderia servir para facilitar o acesso das classes menos favorecidas ao ensino superior. Ponto. A questão é que este tipo de discussão não se esgota em um plebiscito que pede o sim ou o não. Ela é para lá de complexa. Se por um lado nos ufanamos de nossa diversidade étnica, resultado de uma confluência de origens diferentes- indígenas,  portugueses, escravos negros africanos, das ondas imigratórias de europeus, árabes e japoneses e mais recentemente asiáticos e sul-americanos - e muitas vezes somos lembrados por promover uma integração e uma miscigenação racial, tanto os negros quanto os indígenas brasileiros sempre ocuparam posições menos prestigiadas em nossa sociedade. Acostumamos a viver aceitando que sobre o grupo "negro", por exemplo, recaiam todos os tipos de estereótipos negativos. Há também certo “sossego” em relação a uma marca brasileira, o clientelismo, em que as relações pessoais ficam acima do poder público, a lei tende a ser aplicada apenas para os menos favorecidos, enquanto uma minoria privilegiada consegue burla-las. Minoria esta que é sempre branca, sendo o “branco” não apenas uma cor, mas uma qualidade social: aquele que sabe ler, que é mais educado e que ocupa uma posição social mais elevada. E se recentemente  começa a existir um movimento de contestação destes valores, seja por meio de políticas oficiais mas sobretudo via cultura ( literatura, cinema, música, redes sociais), as desigualdades e sua “violência” no dia-a-dia continuam ignoradas. O preconceito é velado talvez porque de foro íntimo, e se reflete nas escolhas que fazemos ou nas relações que estabelecemos. Mais que isso, tendemos a colocar esta discussão como se fosse algo que não nos implica, ou seja, se há uma agencia promovendo leis, cabe-nos ser contra ou a favor, sem que seja necessário refletirmos sobre o sofrimento que esta exclusão produz. Sofrimento (no geral) do qual ninguém escapa, e diante do qual todos gostaríamos de ser acolhidos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Fissuras


Se há um paradoxo do qual a psicanálise se ocupa é o que imana do impacto do encontro entre o bebê e o adulto e tudo o que este encontro produz de enigmático. A cada nascimento de um ser humano, aquela que o gesta pode ou não antecipar sua existência ao imaginar e criar uma representação para aquele feto que ali vive, pode ou não aceitar que ele seja um outro e não uma continuação de si ou um intruso, pode ou não se relacionar com ele atribuindo-lhe um nome e depositando nele projeções e idealizações de sua própria historia ou desejos de felicidade, de heroísmo. Estamos falando deste encontro certamente imprevisível e quase sempre perturbador que é dar a vida a um novo ser, que produz uma mudança de lugar na cadeia geracional das mulheres (e de homens), e que mesmo que para o observador externo seja um processo que ocorra de forma asséptica e bem sucedida, esconde um desconhecido em outro registro. Ou seja, toda a criação de um outro humano envolve a violência do encontro com o “outro” e cabe ao novo-ser “traduzir” este impacto e seus desdobramentos, com a ajuda dos que o cercam, durante seu longo e infinito caminho de se tornar humano. Em cartaz no MAM (Museu de Arte Moderna de SP) de setembro a dezembro deste ano a exposição “Histórias às Margens” da artista carioca Adriana Varejão impressiona pela ousadia com que ela expõe “suas” vísceras através de suas obras. Ao cruzar o umbral e adentrar nas salas somos tomados de um sentimento de estranhamento e inquietação diante de enormes e belas telas de azulejos portugueses, por exemplo, que apresentam improváveis cortes para revelar partes do corpo humano, em geral vísceras extremamente realistas. E se este primeiro momento impactante puder dar lugar a uma curiosidade sobre um certo “percurso” da obra é como se a artista fizesse um convite a cada visitante para partilhar de sua intimidade, de uma historia pessoal. Ao contrário de outras artes que privilegiam a estética ou a invenção de novos modos de dizer o mesmo, tem-se a impressão de que esta é uma arte viva, um verdadeiro “trabalho” de obra, como se as telas fossem projeções de enigmas da artista, de corpo vivo e presente, em busca de significações e traduções possíveis sobre si e o mundo. Nesta exposição em especial, organizada de tal forma que pudesse criar um percurso em ordem cronológica, quase um “resumo” de sua obra, é possível perceber um deslocamento entre uma linguagem que apresenta um funcionamento primitivo (vísceras) em suas tonalidades e intensidades, que aos poucos, mesmo fragmentados, passa a apresentar partes do corpo humano, rostos da artista com pequenos “furos” nos olhos até a surpresa da sala final, com seus mais recentes trabalhos, grandes e lindos pratos de parede que expõem frutos do mar ou frutas, em tons marítimos verde e azul, um convite ao prazer. Uma leitura barroca, que admite as aberturas, as feridas, uma entre as infinitas possibilidades de construirmos nossas representações de nós mesmos e do mundo, que por sorte pode se deslocar e ampliar. Recomendo.                                                    

Para conferir: Adriana Varejão – Histórias às margens 
MAM  SP (Parque Ibirapuera) até 16/12     Entrada gratuita

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Os políticos e os homens


O processo eleitoral dos USA não tem passado e nem poderia passar despercebido, já que a orquestração de sua economia e os rumos de sua politica externa ecoa, para o bem e para o mal, pelo mundo afora. Não pude assistir aos debates entre os dois candidatos Obama e Romney, transmitidos ao vivo, mas acompanhei as noticias da disputa, das estatísticas, do impacto de declarações de um e de outro ou ainda de seus titubeios. E chamou-me a atenção um texto do escritor Chico Mattoso que reside em Chicago, publicado no ultimo domingo pela Folha de SP, em que ele descrevia o sentimento de cansaço da maioria dos americanos em torno da campanha de seus candidatos. Seriam muitos os que não esconderiam seu mau humor diante do espaço “quase infinito” que este período pré-eleitoral ocupou nas mídias, transformando o país em um samba de uma nota só. Como ilustração deste tédio generalizado, em clima de humor negro, até o furacão Sandy teria sido aclamado como novidadeiro, desviando o foco dos comentaristas de plantão. Mas porque um processo eleitoral que pretende atrair os eleitores para a discussão e o debate provocaria tal desinteresse? Em que paragens andariam a beleza cívica do pleito, a festa da democracia, perguntava-se o escritor. Surpreendi-me com esta leitura que me parecia familiar, muito próxima ao que se assistiu com as campanhas politicas dos candidatos a prefeitos nas recentes eleições de outubro no Brasil. As acusações e denúncias de um lado a outro ao invés de espaços para o debate de ideias, as estatísticas a favor de ventos inesperados e o povo apostando de maneira geral no “novo confiável” que pudesse “calar” as encenações que, longe de fazer algum apelo aos eleitores, causavam irritação. E não foram poucos os que se sentiram aliviados ao término dos horários eleitorais gratuitos e dos espaços de propaganda política na mídia. Às vésperas das eleições americanas, o jornalista da Folha de SP Sergio Dávila (que já foi correspondente nos USA) analisava o resultado da campanha eleitoral que, apesar de se configurar em um empate, poderia favorecer Barack Obama neste 6 de novembro. Por quê? Dentre outras causas, ele apontava que Obama representaria o “mal conhecido”, ou seja, que o fato de ele ser "socialista", "muçulmano", e negro já teria sido assimilado pela maior parte da população depois de quatro anos de governo, enquanto o "polígamo", mórmon e "liberal enrustido" Mitt Romney poderia representar uma surpresa desagradável. Em São Paulo, as eleições foram ganhas por um candidato que pertence ao PT, o partido mais malhado nas mídias nos últimos tempos, ao mesmo tempo em que seus antes respeitados dinossauros eram condenados no julgamento do Mensalão. As pesquisas pós-eleições informaram que esta escolha teria sido baseada principalmente no desejo de mudança e no fato do candidato ser novo na política. Mas também no índice elevado de rejeição de seu rival tucano, que teria se descaracterizado como político confiável nas gestões anteriores. Aqui e lá, em ambas as eleições, o que parece prevalecer para o eleitorado é que existe sim um “homem” atrás do político e de seu partido e resta saber se há chances de se confiar nele, ou ao menos confiar mais do que em seu opositor. Ou seja, na tentativa de se evitar embarcar ingenuamente nos discursos prometeicos, estaria aberta a caça de algum novo índice de confiança fora do circuito do romantismo militante ou da lógica de um partido político? Estaríamos enquanto mundo global, mais sabidos a respeito de nossas mazelas humanas e mais aptos ou ousados para apostar em novas maneiras de nos organizarmos, avaliarmos e escolher nossos dirigentes?

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Com-paixão


Confesso não saber muito sobre Lady Gaga, além do fato de sua persistência (e perspicácia) em manter os espaços midiáticos atentos as suas (em geral bizarras) surpresas. Mas, ainda sob o impacto da morte da cantora londrina Amy Winehouse no ano passado - com quem era frequentemente comparada – a nova-iorquina Lady Gaga fez um pedido comovente ao público e aos fãs para que cuidassem de suas pop (e super) stars, lembrando que Amy tinha aberto as portas para garotas como ela, que não se encaixavam no mundo pop tradicional, ajudando-a, por exemplo, a se aceitar como diferente e especial. Achei simpática e sensível sua chamada. Recentemente uma outra reportagem incluía a cantora, que em resposta às maldosas críticas de que estaria engordando teria lançado a campanha "Body Revolution 2013" (Revolução do Corpo) ao mesmo tempo em que fazia uma revelação bombástica, a de que desde os seus 15 anos, teria sofrido de transtornos alimentares como anorexia e bulimia. Muito a vontade em seus apelos midiáticos, postou uma foto sua de biquíni, olhos fechados, sem nenhuma outra “montagem” na imagem, como a incentivar seus fãs a enviarem suas fotos naturais, principalmente àqueles que estivessem passando por situações similares ou que já tivessem superado traumas e dificuldades. A ordem seria aceitar seus corpos do jeito que fossem: magros ou gordos. A Folha de São Paulo há poucas semanas, mostrava como sua campanha teria repercutido de forma favorável em alguns setores médicos, ao revelar que o psiquiatra Takí Cordás – responsável pelo Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de SP- teria louvado sua iniciativa admitindo que ela pudesse ajudar os 4% da população mundial de adolescentes que seriam vítimas destes transtornos, incitando-os a buscarem ajuda especializada. Com sua primeira vinda ao Brasil marcada para o dia 9 de novembro no Rio de Janeiro e em São Paulo no dia 11, em um flash mob, muitos de seus fãs brasileiros compareceram à Avenida Paulista na tarde deste ultimo sábado levantando as principais bandeiras políticas da estrela. Questionados, a maioria se dizia feliz por saber que apesar de se reunirem tendo em comum um sentimento de exclusão, desfrutavam do fato de possuir não uma madrinha qualquer, mas uma pop star do quilate de Lady Gaga, cotada entre as mulheres mais poderosas da atualidade, e que ainda assim, encabeça esta causa e convida a todos a celebrar as diferenças, que segundo ela seriam importantes na conquista da liberdade, da criatividade e da felicidade. Lady Gaga não passa desapercebida e isso parece ser o lema de sua vida artística, que caminha lado a lado com jogadas midiáticas, fruto de um marketing permanente e atento. Mas não há dúvidas de que suas escolhas agradam uma grande parte dos jovens (muitos fãs devotos), que se sentem acolhidos e amparados por um discurso que lhes faz sentido. Afinal a adolescência costuma mesmo ser uma época de nossas vidas em que nos sentimos extremamente vulneráveis, em que nossa imagem corporal é totalmente refém de nossa  incipiente ou inexistente autoestima, em que quase nunca conseguimos falar em nome de nosso “euzinho”, sempre a se sentir inadequado, fora dos padrões que imaginamos existir para outros adolescentes. As distorções da imagem corporal, comuns nos casos de anorexia e bulimia, ajudam a revelar a complexidade deste período em que temos que transpor as fronteiras entre nossa dependência e autonomia e encontrar nossos próprios ideais, ainda tão colados ao que nossos pais esperam de nós. Segundo palavras de uma fã, Joanne Angeline Germanotta ou Lady Gaga, apesar de não ser uma unanimidade no mundo musical, e alimentar continuamente os paparazzi que ficam a espera dos próximos capítulos de sua vida, tem optado de forma corajosa por agregar valor social em sua carreira, acendendo as tochas para que jovens do mundo todo apostem em seu amor próprio. Porque discordar de madame?

 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Deixem vir os pequeninos


Imagino que todos saibam ou imaginam o que significa a maratona de exames anuais – muitas vezes semestrais - que temos que nos submeter para checar nossa saúde quando nos aproximamos ou já mergulhamos na “melhor idade”. Foi numa dessas manhãs que assisti pela primeira vez ao novo programa matinal da apresentadora global Fátima Bernardes. Próximo ao dia 12 de outubro, que antes de se tornar feriado nacional em homenagem a Nossa Senhora da Aparecida era mais conhecido como o dia da criança, o programa celebrava a infância. Para meu deleite lá estavam a dupla de compositores Sandra Peres e Paulo Tatit, do “Palavra Cantada”, que há algumas décadas se debruçam sobre o cancioneiro infantil nacional recuperando canções e compondo novas. Para abrir seu programa, Fátima incitava seus convidados a cavoucar a memória atrás das canções de sua infância e dentre estas (para os que já fossem pais) quais teriam sido reproduzidas com seus filhos. Na toada destas lembranças algumas jovens mães aproveitaram para questionar o conteúdo de certas canções infantis tradicionais que ao invés de palavras de acalanto continham letras assustadoras, caso do boi da cara preta, da cuca que vem pegar, do pau que foi atirado no gato ou do cravo que brigou com a rosa deixando-a despedaçada. Qual seria o sentido delas? Por quais razões o ato de ninar bebês ou de entretê-los viria acompanhado de palavras que descreveriam ações tão assustadoras? Senti não ter acompanhado o debate que se seguiu, mas me lembrei de imediato dos contos infantis povoados de bruxas, lobo-maus e monstros. Quem tem filhos ou netos sabe o quanto as historias infantis são instrumentos para o conhecimento do mundo tanto por enunciar os problemas como por propor soluções. Elas em geral não funcionam como exemplos, mas como modos de facilitar o acesso da criança à complexidade das relações e dos afetos dando pistas para possíveis ações. Não por acaso fadas e bruxas com suas tramas cruéis ou pacificadoras continuam a fazer sucesso. Um dos motivos é porque revelam as dificuldades das relações familiares, em que filhos podem odiar aqueles que mais amam e pais podem “devorar” suas crias. Além disso, as historias  admitem a existência de sentimentos desagradáveis, mas inevitáveis como a raiva, a inveja ou os ciúmes que, sempre mal vistos e condenados por atrapalharem as relações sociais, podem ameaçar as crianças que se sentem inseguras com o amor de seus pais, que tem medo de serem abandonadas, que se sentem culpadas por disputarem um lugar especial e rivalizar com algum irmão ou em desejar ocupar o lugar da mãe com o pai ou vice versa. Ao contrário do que se imagina, portanto, as “boas” historias são as que permitem que as fantasias, os temores, os desejos proibidos sejam vividos de forma simbólica e isso acontece sempre que as crianças elegem alguma historia em especial que precisa ser contada por um bom tempo ou quando há pedidos de que sejam transformadas/ recriadas de acordo com suas necessidades, para dar conta de seus conflitos, angustias e frustrações ou dar forma a sentimentos confusos. Se a infância jamais alcançou tamanho foco na historia da humanidade é porque mais do que nunca há um consenso de que neste período as vivências são formadoras e constituintes. Isto convoca a todos que pretendem exercer a paternidade ou a maternidade, escancarando suas incertezas e inseguranças. Algumas canções antigas como as que invocam o boi da cara preta ou a cuca provavelmente cantam o desamparo  dos pais diante da “infância” que seus filhos evocam neles.

domingo, 21 de outubro de 2012

Canções de amor

Tenho a impressão de que assim como eu, algumas pessoas podem experimentar a sensação de estar diante de alguma sacada genial, algo de uma grandeza que os excede ou que “faça” muito sentido quando se deparam com determinada imagem, certo trecho de música ou frases de alguma poesia/livro. A dupla Chico Buarque e Edu Lobo, por exemplo, mestres na combinação de melodias e letras que enchem a alma, compuseram uma canção (Choro Bandido), cujos derradeiros versos parecem encerrar uma espécie de metáfora daquilo que nós humanos convencionamos chamar de “amor”. Ao cantarem que “mesmo que os romances sejam falsos como o nosso, são bonitas, não importa, são bonitas as canções; mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons”, os dois compositores nos lembram como a literatura, a música e o cinema conseguem se manter responsáveis por este espaço (idealizado?) de apostas nos amores. Estamos, de fato, quase sempre prontos a reverenciar as historias de amor sejam elas trágicas, loucas ou felizes. E as razões não são tão obvias. Por quê? Uma jovem amiga contava dia destes que poderia “matar” seu namorado depois que este, em uma viagem de férias, havia postado em uma rede social uma foto em que estaria acompanhado de uma linda moça. Enlouquecida, ligou para todas as amigas e imediatamente acionou seu eficiente serviço de “pronto socorro dos feridos pela flechinha de Eros” em que cada uma deveria dar seu pitaco sobre ocorrido. Durante algumas semanas entrou em “alfa” e dominada por sua ira não só proclamava aos quatro cantos os atos de tortura e vingança que seriam aplicados contra o agora “ex”, como anunciava sem culpa ou remorso suas insuportáveis manias e defeitos. Corta-lo de toda ou qualquer rede social tinha sido sua primeira ação. Ahhhh! Como ele tinha tido coragem de fazer esta desfeita a ela? E ela, como tinha sido capaz de acreditar em seu amor? Aquele verme? De dupla amorosa invejada eles passavam à lista dos “falsos ou falidos amores”. Podemos tentar colocar as lentes mais próximas, analisar os detalhes desta história, achar seus caminhos, descaminhos , razões, desrazões. Minha amiguinha andava feliz com esta nova relação. Farta de investir em alguns namorados, no passado, que cedo ou tarde a traíam e resolvida a não se ligar a mais ninguém, tinha feito uma espécie de contrato “diferente” com aquele menino. Havia sim sucumbido ao fato dele não se descolar dela nem por um segundo, sempre a reivindicar um olhar, um sorriso, a elogiar sua beleza, a proclamar seu amor, a declamar poesias ou a inventar letras no violão que cantassem sobre o lugar especial que ele lhe dedicava. Reuniu as amigas e anunciou: elas seriam testemunhas de que ali não havia namoro sério. Eles iriam se curtir enquanto fosse bom e cada um deveria administrar sua liberdade por conta e risco. Mas ela foi gostando, se acostumando a ser rainha e a viver junto a alguém sempre disposto a adivinhar seus desejos ou antecipar suas vontades. As amigas eram convidadas de vez em quando para provarem as novas receitas que ele inventava sempre inspiradas nela. Quem poderia resistir? Mas ainda sob o impacto dos tremores do passado, durona, ela insistia que esta fórmula do compromisso “descompromissado” lhe traria menos expectativas e por decorrência menos sofrimento. Quando as férias dele - já planejadas - chegaram, juntos relembraram os votos iniciais de liberdade. Nas primeiras semanas aproveitando-se do tempo que lhe sobrava, marcou cafés e jantares para conversas, trocas e risadas com as melhores amigas que lhe rendeu um doce sabor deste descompromisso. Apesar disso ele lhe telefonava com frequência tanto para lhe dar noticias quanto para reiterar sua saudade. Foi atropelada pela foto. Implacáveis, dor e sofrimento inundaram sua alma antes de cada célula de seu corpo ser tomada pela raiva. Ele havia atravessado aquela fronteira proibida. Depois de algumas (ou muitas?) semanas, o ódio cedia espaço para a tristeza e ela repetia a si mesma que se iludira com a possibilidade de viver desafetadamente aquela relação. O “amor” nem pedira licença para se deitar no sofá de sua alma. Invadira. Restava-lhe um gosto amargo das antigas certezas e uma história. Uma história que era também tão bonita, que poderia até recomeçar. Mas aí seria outra história.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Voto com paixão


O sociólogo argentino Horácio González que fez seu doutorado no Brasil nos anos 80 e agora dirige a Biblioteca Nacional da Argentina se perguntava em entrevista concedida a Ilustríssima no ultimo domingo porque um presidente como Getúlio Vargas, do qual se guarda até o pijama com o buraco da bala que o matou, não se tornou no Brasil um ícone popular da dimensão de Perón. Seriam os brasileiros menos apaixonados por política do que os argentinos? Segundo ele os argentinos teriam uma relação muito singular com as figuras de seu passado como Perón, Evita, Borges ou Gardel, transformados em mitos e, portanto sempre vivos e presentes. Sem conseguir formalizar um parecer definitivo sobre as diferenças entre as duas culturas ponderou se a falta desta tradição aqui poderia ser favorável a uma “felicidade” maior dos brasileiros, mas como um bom argentino sucumbiu à importância dos polêmicos e constantes debates produzidos entre seus conterrâneos que respiram e participam com suas entranhas da sua historia. Talvez o panorama que se delineou no período pré-eleições para prefeito e vereadores da maior e mais rica cidade do Brasil possa nos ajudar a pensar sobre este modo mais “cool” de se comprometer com os rumos da politica do país, dos estados ou das cidades. No dia seguinte às vitórias de Serra e Haddad como candidatos a disputar o segundo turno destas eleições era possível ler vários textos - alguns surpresos, outros orgulhosos, muitos tateando as causas da virada em torno da candidatura Russomano, antes líder das pesquisas. O que teria acontecido? O colunista da Folha de São Paulo Xico Sá chamava a atenção para o facevoto. Segundo ele nas ultimas semanas as pessoas teriam aberto escancaradamente seu voto no Facebook, postado suas convicções, discutido os prós e contras uns e outros, compartilhado informações sobre a idoneidade de alguns candidatos, as jogadas politicas, as ligações partidárias, as parcerias duvidosas. Mas ao contrário do colunista, arrisco colocar o peso menos na rede social – embora ela tenha sido um veiculo veloz não só de trocas, mas de compartilhamentos e, portanto de uma abrangência inédita – e mais no fato mesmo de que estes “brasileiros”, tal como nossos hermanos, teriam exposto suas preferencias politicas de forma apaixonada, acendendo as luzes antes apagadas pelo sentimento generalizado de descrença. Assim, a coragem de uns cutucava a reticencia de outros. Lembrei-me de um debate entre empresários sobre certas características especiais dos gestores brasileiros. Ao contrário de outras culturas, nossos executivos teriam muito jogo de cintura para improvisar situações que evitassem constrangimentos ou mal-estares e pareceriam mais a vontade na manutenção a qualquer custo do clima de cordialidade e tolerância. Tudo se passa como se ao excluir os conflitos, ao não se falar sobre as discordâncias ou não se reclamar os direitos se instalaria um espaço menos agressivo e mais tranquilo. Comportamentos reivindicativos ou falas mais indignadas seriam comumente avaliados como ataques pessoais desnecessários. Nosso estilo “cool” guardaria, portanto em sua origem, uma tentativa de evitar a discórdia, o debate e as discussões tão ao estilo “caliente” de nossos vizinhos. Mas ao preço de perdemos o engajamento e a responsabilidade que todos precisam ter de concordar ou discordar dos valores, de muda-los se for o caso, de se perguntar sobre qual tipo de sociedade deseja viver ou como acha que devam ser as empresas ou os políticos.