É possível que um dos melhores lugares do mundo para
se fazer uma pesquisa sobre fé/crenças religiosas seja a Índia, país que
convive com um surpreendente pluralismo religioso. O hinduísmo, por exemplo, é
uma religião de muitos deuses e deusas, que em momentos especiais encarnaram o
Ser Supremo e Absoluto para se tornarem acessíveis à humanidade. Além disso, há
no país um grande número de muçulmanos, budistas, católicos, judeus, etc. Segundo
o escritor Yann Martel, foi durante uma
viagem a este país tão instigante em seus contrastes que ele decidiu escrever
seu livro, vencedor do Booker Prize de 2002, “As aventuras de Pi”. Antes de se
tornar um filme que está em cartaz atualmente e agradando a muitos, a história
sofreu uma denúncia de plágio, que de certa forma foi confirmada pelo autor,
que teria lido uma resenha no NY Times sobre o livro do escritor gaúcho Moacir
Scliar, “Max e os felinos”. Esclarecimentos feitos, passados dez anos, quem
está na direção deste roteiro é o taiwanês Ang Lee, que já revelou sua extrema
versatilidade, sensibilidade e ousadia em filmes tão díspares e importantes
como “ O Segredo de Brokeback Mountain” , “O Tigre e o Dragão” e “Razão e
Sensibilidade”. Neste filme o indiano Piscene (Pi) Patel já adulto, professor bem sucedido e residente
no Canadá, é procurado por um escritor que recebeu uma dica de um amigo em
comum para que se inteirasse da “boa” história de sua vida. Mais precisamente
sobre a grande aventura do jovem Pi, cuja família, dona de um zoológico em
Pondicherry, Índia, decide fechar o
empreendimento e se mudar para o Canadá, local em que pretendiam vender os
animais e reiniciar a vida. Durante a viagem, o cargueiro naufraga devido a uma
terrível tempestade, fazendo de Pi o único sobrevivente, que no entanto precisará
dividir o bote salva-vidas com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre
de bengala chamado Richard Parker. Mas para que o escritor entenda sua
história, Pi precisa narrá-la desde a sua infância, do significado de seu nome
(uma piscina de Paris que teria encantado seu pai, grande apreciador da
natação, e das lindas moças que ali desfilavam), de seu constrangimento na
escola pelo apelido Pi que lembrava o ato de fazer xixi e era motivo de gozação
permanente, e de sua curiosidade pelo sentido da vida e das relações entre as
pessoas, que o fazia um pesquisador fervoroso das religiões, mesmo contra o gosto
de seu pai ateu. Há muito mais fatos interessantes e ainda que o filme possa
ser resumido à grandeza de sua produção, de seus efeitos especiais, sua tecnologia
3D, e a viagem fantástica de Pi, talvez seu maior valor resida na articulação
que o protagonista faz de sua “aventura” com sua história pessoal, ao revelar suas
digressões, suas dúvidas, suas superações, as (boas) certezas de seu pai, a
doçura de sua mãe ao incentivar sua busca de sentidos para a vida, sua relação
mais fraternal que rival com o irmão mais velho. Sendo o único sobrevivente do
cargueiro japonês, porém, ao aportar no México, sua história não parece
verossímil aos ouvidos dos que investigam as causas do naufrágio. Pi constrói,
assim, uma outra versão em que ao invés de animais, ele teria feito este trajeto
no bote com mais quatro pessoas, que não teriam conseguido sobreviver. E diante
do olhar hesitante do escritor e interlocutor deixa a ele a escolha de qual
história relatar. Qual lhe parecia ser a mais interessante? Aquela em que são
acrescidos sentidos para que a tragédia que assolara sua vida pudesse ser
amenizada ou a realidade nua e crua, sem consolo ou feitos heroicos? O
semblante do escritor se modifica. Seus olhos brilham, quem sabe por serem os
escritores aqueles que escrevem as histórias que embalam nossa imaginação, que funcionam
como fonte e espaço de nossos sonhos.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Excessos & confortos
Na Folha de São Paulo do dia 1º de janeiro de 2013 é
possível ler uma resenha do livro "O Século do Conforto - Quando os parisienses
descobriram o casual e criaram o lar moderno"- de Joan DeJean, editora
Civilização, uma pesquisa sobre a invenção a partir da era moderna, de modos
menos duros e mais confortáveis de viver, mais adequados às conversas e aos
momentos de descanso, de diversão e principalmente de sedução. Entre os itens
selecionados pela pesquisadora, está o sofá, que passa a permitir não só
momentos de descanso e ócio, como uma maior proximidade/intimidade entre as
pessoas, inclusive de diferentes sexos, o que facilitava a prática dos assédios
amorosos, além das leituras ou das “fofocas”. Outro item mencionado seriam os
banheiros que passavam a ter chuveiros com água corrente, acrescentando assim
um plus de prazer a um ato inicialmente higiênico. Num jogo rápido, é como se
pudéssemos conferir a escalada moderna em direção ao usufruto dos prazeres (mais
mundanos?, mais eróticos? mais livres de protocolos?) algo que na atualidade
nos parece de direito. Poucos contestariam o fato de ser hoje bastante “natural”
para cada um a busca de satisfação, mesmo nas desmesuras dos apetites ou na
insaciabilidade dos desejos, incluindo aí a prática de uma certa antecipação (imaginária)
do quanto poderemos nos lambuzar (de prazer) diante das milhares de
possibilidades que criamos no mundo atual que contêm este tipo de promessa.
Estão aí as propagandas criadas para que possamos degustar tal antecipação e que
atestam o caráter ilimitado de nossas fantasias. Mas não deixa de ser
interessante pensar que a pesquisa toma o “conforto” como ponto de partida para
as várias invenções que hoje poderiam ser contabilizadas como a instituição
progressiva do direito aos excessos, ou melhor, da assunção da falta de limites
para o que podemos desejar. No entanto é inegável que a quebra sistemática de
protocolos que continham regras específicas, mais rígidas e constrangedoras dos
modos de se estar no mundo tenha como contraponto um novo “custo vida” para
cada um. E ele nem sempre é muito transparente, ou simples. Sem muitas normas e
referencias que nos orientem, cabe a cada um produzir os limites e fronteiras
necessários não só ao convívio com os outros, mas conosco mesmos. Mais do que
nunca somos “medidos” (até por nós mesmos, a famosa autoestima), mas agora
muito mais pela competência com a qual conseguimos gerenciar nossos excessos e
manter ao mesmo tempo nossos laços profissionais e amorosos, nosso corpo bem
talhado, uma medida aceitável para nosso consumo de objetos, drogas, alimentos,
isso tudo sem sucumbir a um “excessivo” sentimento de vazio ou de fracasso que nos
conduza à depressão. Custos preciosos para tentarmos manter nosso “conforto”. Parece,
portanto, que o “conforto” que no inicio da modernidade significava muito mais
a produção de ferramentas e objetos que facilitassem ou tornassem mais
prazerosa nossas vidas, deslocou-se para um conforto interno, psíquico, em que
tentamos evitar a qualquer custo, um excesso de “mal estar”, que nos proteja de
grandes deformações em nossa (auto) imagem, da solidão, do sentimento de
desamparo, da falta de sentido de nossas vidas, da preocupação e aflição com o
corpo ou com suas limitações (doença, envelhecimento, morte) para que possamos usufruir,
sem culpa ou vergonha, dos “bons” excessos. Operação delicada, que no melhor
dos casos produz nossos sintomas psíquicos, nossas tentativas de buscar um
quantum de “conforto” ao preço de uma redução substancial do espectro ilimitado
que uma vida pode oferecer.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
À espreita de 2013
Dizem
que as comemorações em torno da noite de Natal, cuja palavra guarda o significado
de nascimento – que se desdobra em renascimento - ganhou na atualidade uma
dimensão que ultrapassa sua tradição cristã, consolidando um clima
antecipatório de confraternizações de final de ano, em que grupos os mais
variados se reúnem festivamente no tom de expectativas para um novo ciclo. Parece,
no entanto que a tensão criada em torno do dia 21 de dezembro de 2012, marcado
como data do final dos tempos, teria adiado as trocas de mensagens e ensejos
que costumeiramente abundam em e-mails ou redes sociais. Ou seja, o ano de 2013
estaria menos “antecipado” no imaginário de cada um, que por cautela não teria
projetado, como sempre, um agendamento futuro de novos desejos e realizações
não cumpridas. Além disso, 2013 termina com 13, número considerado por tradição
agourento, acrescentando pontos ao clima de desconfiança reinante. A verdade é
que não podemos descartar a importância dos ritos, tampouco as interferências
que anunciam ruídos em seus esperados percursos. Nossa “rotina”, por exemplo, é
um frequente alvo de nosso fastio e não são poucas as vezes em que
desconjuramos seu aspecto repetitivo, sonhando com alternativas mais
fantásticas. Mas basta estarmos afastados dela há algum tempo para que
comecemos a contar os minutos que faltam para o retorno de seu “conforto”.
Parece que precisamos acreditar que para além de todas os revezes e solavancos,
há uma continuidade assegurada para nossas vidas em algum “lugar” do mundo. Mesmo
assim, de tempos em tempos, o mundo parece exigir que mudemos nosso modo de
pensa-lo. Um texto do Valor Econômico de alguns dias atrás trazia a história do
surgimento das enciclopédias no século XVIII cujo objetivo seria o de reunir
todo o conhecimento produzido até então para que pudesse ser melhor utilizado
pelas futuras gerações. Um século que anunciava as Luzes ao pretender retirar a
humanidade de suas superstições ou crenças obscuras e buscava meios para
organizar os saberes e produzir assim novos modos de viver e se comportar. Passados
mais de dois séculos, não só o volume do conhecimento acumulado é infinitamente
maior, como o modo de apreensão deste é completamente diferente. Contamos hoje
com uma moderníssima e infinita “enciclopédia” que funciona ao mesmo tempo como
biblioteca, arquivo vivo, centro de dados, pode ser instantânea, simultânea, e sem
hierarquias. Esperamos que nossos bebês possam ser super eficientes ao
“realizar” a promessa de serem portadores deste saber e tal como uma “empresa”
que se divide em múltiplos setores, avancem na possibilidade de fazer um bom
uso desta fragmentação necessária, sem perder de vista o Todo. Já os idosos,
aqueles que não se aquietaram como Niemeyer ou Dona Canô, só partem porque seus
corpos já não podem acompanhar seu desejo de viver o futuro. De certa forma
conseguimos produzir este acervo inominável ao alcance de quase todos. Mas o
quesito mudança de comportamento derrapa inevitavelmente em nossas
fragilidades. Estas que nos fazem temer que o mundo se acabe ou que
simplesmente não continue como está. Por isso vale a pena desejar a todos nós
um ótimo futuro em 2013.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Apocalipse já
As vésperas do final do mundo anunciado pelo calendário Maia, duas
noticias diferentes podiam ser apreciadas na mesma página de uma mídia digital.
De um lado, uma charge em que algumas pessoas do lado ocidental assistem e
comentam as imagens ao vivo exibidas por uma TV sobre o final do mundo na
Austrália e no Japão (que sempre acontece antes), de outro uma foto em que algumas
pessoas sentadas em círculo aguardam a passagem do dia 21 de dezembro, data
mística em que eles acreditam encerrar um circulo. Ou seja, embora a grande
maioria da população mundial faça piada ou descarte o valor desta profecia, há
sempre uma parcela que encampa a ideia de um apocalipse, um final dos tempos,
uma passagem importante. Apesar do prognóstico moderno de um esvaecimento da
religião, mantém-se a
crença na existência de uma força superior, de forças sobrenaturais ou de
sinais que confirmam um lugar para o “divino”. Por quê? Estaria a religiosidade
a serviço de tornar tolerável o intolerável da condição humana? Ou de dar um
sentido especial, menos “cru” para as nossas vidas? Não parece haver consenso
neste quesito, ao contrário, o assunto é sempre polêmico mesmo entre os que pertencem
à categoria dos “crentes” ou seguidores de algum conjunto de dogmas ou
práticas. Não é difícil aceitar que a
ideia de “Deus” seja hoje bastante flexível, variando conforme as tradições de
cada cultura, ou de cada sociedade. Se não há mais uma Grande Religião, que
forneça um (quase) único conjunto de valores ou que regule de forma absoluta o
permitido e o proibido mantemos no mundo atual um espaço de “religiosidade” ou
de espiritualidade que, para alguns, pode prover um sentido para as suas vidas,
para outros fornecer códigos que os ampare e permita um guia sobre temas
complexos da vida humana como a sexualidade, o casamento, a morte, o mal e o
bem, a pobreza, a miséria, etc. Há pouco tempo assisti a um filme que esteve em
cartaz no Brasil, um projeto coletivo, chamado “Sete dias em Havana”, que se
dividia em episódios para cada dia da semana cada um filmado por um diretor
diferente. Em comum, apenas a visão de cada um deles para Havana, a capital da
mítica ilha de Cuba. Mas porque fazer um filme sobre a Cuba atual, alquebrada,
com problemas sócio-políticos e financeiros que mantém um líder acamado, que
segue propagando a seu povo um ideal revolucionário empoeirado? Uma pergunta
que se assemelha e muito a muitas que foram feitas por todos que se surpreenderam com o barulho em
torno da profecia dos maias. Com origens e sensibilidades diferentes nenhum dos
diretores construiu alguma tese histórica ou politica sobre Cuba, mas prestou
sua homenagem ao pequeno país, destacando temas de seu cotidiano e aspectos de
seu povo e sua cultura. Estavam lá o sonho de escapar para uma vida menos dura no
exterior, os "jeitinhos", a boa música, a beleza e a sensualidade, o sincretismo
religioso, a tristeza dos que convivem com o exilio de seus queridos, o “mito”
encarnado mas já desgastado de Fidel. Parece que estamos fadados a criar
espaços em que depositamos crenças importantes para cada época. E hoje também
podemos conhecer um pouco mais sobre as crenças de cada um ou mesmo sobre a
falta delas.
Afia-se olhares
O que o tráfico e a exploração sexual de mulheres no
exterior, a morte da enfermeira que atendeu a princesa britânica Kate, o
julgamento do Mensalão ou o documentários sobre bullying podem ter em comum, além
de serem pautas de notícias recentes e despertarem polêmicas ou debates
acirrados? Vejamos. Tema da nova novela da Globo, o tráfico e exploração sexual
de mulheres no exterior volta ao centro da controvérsia entre os que defendem
os direitos humanos e os que militam pelos direitos das prostitutas. Uma
leitura cuidadosa dos argumentos de ambas as partes apenas revela suas complexas
tramas. Ponto para a novela que provoca tais discussões trazendo à tona um
debate de questões delicadas, que habitam as fronteiras do preconceito e dos
tabus além de ser um tema sob o foco das políticas restritivas de imigração de
países europeus. Dois apresentadores de um programa de rádio australiano telefonaram
para o hospital em que a princesa Kate Middleton havia se internado e, com
gravação ao vivo e imitando a voz da rainha, pediram para uma enfermeira que
lhe dessem informações sobre o estado de saúde da duquesa. Vítima da
“pegadinha” , que rapidamente se espalhou pela mídia, a enfermeira teria
cometido suicídio dias depois. Afinal como podemos definir o humor, sua função
no mundo atual e seus limites? Se para provocar risos o humor necessita buscar
a contradição, a transgressão, o deslocamento de algo, sempre de forma
inesperada, também é verdade que ele pode ser violento quando, por meio do
risível, humilha, faz cruéis caricaturas ou envergonha radicalmente suas
“vítimas”. Ou seja, um setor que também vive em fronteiras delicadas. Ainda em
andamento, o julgamento do Mensalão continua a forjar dissidências e discursos
inflamados, mas são poucas as vozes que apontam para o fato, inédito em nosso
país, da decisão do Supremo Tribunal Federal de punir políticos que ocupam
posições de poder estabelecidas. Nem governos de direita, nem de esquerda
deveriam se considerar acima da lei e o Estado não poderia estar a serviço do
sistema politico ou de grupos específicos; precisaria antes, ser um bem público
que pertencesse aos cidadãos. Mas que espécie de “cidadãos” somos nós,
brasileiros? Estaríamos dispostos, cada um, a reconhecer a universalidade das normas
quando aplicadas a nós mesmos ou não abrimos mão das benesses do poder e dos
favoritismos? Bullying, o inquietante
documentário do diretor norte-americano Lee Hirsch, escolhe cinco casos emblemáticos,
em quatro Estados americanos, acompanhando-os ao longo de um ano, não só para investigar
com mais acuidade a violência física e psicológica entre alunos, mas ampliar o
debate sobre um tema que envolve pais, alunos, educadores e policiais. Segundo
estatísticas, em 2011 treze milhões de crianças americanas teriam sofrido algum
tipo de bullying, nas escolas, nos ônibus, em casa, ou através de celulares e
internet. Claro que em maior ou menor grau, todos nós, em algum momento de
nossas vidas, mas principalmente na infância ou adolescência, somos vítimas ou
sofremos gozações e/ou constrangimentos por ações de grupos ou pessoas. Até
mesmo um bullying silencioso, tramado por intrigas, difamações, em que se espalham
comentários boca a boca, via internet ou redes sociais. Mas o que o
documentário expõe é quando esta prática ultrapassa a fronteira do permitido,
viola radicalmente as leis do convívio humano e instala a lei da selva. Ou
seja, em cada uma das notícias aqui veiculadas esbarramos nas difíceis e
permanentes fronteiras de todo processo civilizatório, quando fica a cada um e
seus descendentes a tarefa de desenvolver uma sensibilidade ética. Uma tarefa
para lá de delicada, que exige daquele que cuida ao menos um reconhecimento da
existência do outro. Pano para muita manga e muita discussão.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Novos guias para velhas questões
No final da década de setenta, finda a minha
graduação de Psicologia em Ribeirão, parti para São Paulo em busca de
especializações na área de clínica. Vinha com meu fusca e nenhum casaco de lã
na mala. Soluções para as temporadas de frio foram fáceis, mas dirigir em São
Paulo se mostrava enlouquecedor. A lógica era outra, as ruas quase nunca
seguiam uma reta, ou mantinham-se paralelas umas às outras, as avenidas não
tinham retorno à vista e as distâncias para se chegar a algum lugar ficavam
infinitas. Costumava colocar no colo um calhamaço de páginas que eu comprara
chamado Guia de Ruas de São Paulo, mas ainda assim era difícil entender as
rotas e alcançar os destinos de chegada, e o alívio era indescritível se isso
acontecesse. Quando meu filho fez 18 anos e tirou sua carteira de motorista, a
cada vez que ele precisava ir a algum lugar novo, construíamos um mapa caseiro
com algumas indicações importantes para evitar que ele se perdesse em algum dos
“logradouros” sem saída. Afim de que ele pudesse se situar na disposição dos
bairros e ter minimamente uma direção de ida e volta, compramos um mapa da
cidade que ficava aberto e pendurado como quadro em seu quarto, com algumas
marcas dos lugares mais comuns pelos quais ele transitava. A ideia era que aos
poucos ele pudesse se familiarizar com a paisagem urbana um tanto quanto
“caótica” e se sentisse mais seguro para arriscar novos caminhos. Estas
lembranças me vieram à tona ao ler, na Ilustríssima do último domingo, o
depoimento do escritor gaúcho André Czarnobai que, desafiado a passar uma
semana sem entrar ou usar a internet, narrou dia após dia os pormenores de sua
abstinência. Pensei em como os usuários do Google sentem-se a “salvo” não só
por suas dúvidas e inquietações, mas por seus desejos, já que há ali uma oferta
rápida e eficiente de informações que antes precisavam ser checadas em
instituições, dicionários, pais, autoridades, mapas, professores, médicos,
advogados, etc. Ainda que uma grande parte de gerações anteriores não aderiu ao
mundo digital e pouco se utiliza da internet, as “redes” que foram possíveis serem
construídas, o acesso à comunicação com amigos ou às informações diversificadíssimas
vão aos poucos constituindo um Grande Lugar de Amparo, inédito e surpreendente.
Se é verdade como preconizam muitos, que a nossa era se caracteriza pela
falência quase total de antigas referências que nos guiavam em nossos modos de
viver o presente e projetar nossos futuros, parece que as novas gerações se
encarregaram de buscar novas formas que deem conta deste desamparo. Vejamos.
Caso alguém queira organizar suas finanças, mas não tenha ideia de
regras ou funcionamento do mercado, fazer uma maquiagem, mas não confia muito
na sua escolha de produtos ou de cores, preparar um jantar para amigos queridos
com um cardápio inesquecível, conferir a grafia daquela palavra que há tempos
não utiliza ou fazer consultas sobre o melhor custo benefício de qualquer
produto que necessite, pode dispor de todas essas informações no clicar de
teclas nas pontas de seus dedos. É pouco? É possível também agendar e pagar as
contas, ler em qualquer tempo sobre algum tema que lhe seja caro, assistir a um
programa de TV, um filme, um show, ouvir aquela música que tantas recordações
lhe traz, buscar imagens/guias de cidades, países, obras de artistas significativos
ou ainda conferir/reclamar sobre qualquer produto comprado. Enfim, não há fim
para o sem- número de opções que se pode encontrar armazenados à disposição dos
usuários da internet. A ideia atrás da proposta feita ao escritor gaúcho era
definir se sua relação com a internet estaria já no campo do vício, tal e qual
uma droga. Mas a “falta” da internet nos sete dias propostos permitiu a ele
perceber que sua vida ficava sem este grande recurso facilitador. Seria
possível viver sem ela? Claro que sim, mas não valia a pena. Faz muito tempo
que meu filho não precisa mais dos mapinhas caseiros. E se isso confirma o
lugar de conforto que a Internet oferece aos jovens é importante lembrar que em
qualquer tempo ou lugar as novas invenções produzidas (por nós mesmos) para
ampliar o número de ferramentas que facilitem ou promovam maior satisfação a
nós ou às nossas vidas, jamais nos livrarão da responsabilidade que cada um
deve ter sobre seu uso.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Quem quer ser milionário?
Há poucos dias assisti um debate informal (mas inflamado) deflagrado a partir de um tema polêmico surgido em uma roda de amigos. A aprovação pelo Legislativo, em agosto último, de cotas de 50% nas universidades federais para alunos oriundos de escolas públicas, sendo priorizados estudantes negros, indígenas e/ou de baixa renda, provocava indignação em grande parte dos presentes, às vésperas dos exames vestibulares de filhos e netos. Embora eu tenda a simpatizar com iniciativas que busquem promover inclusão social, resolvi apurar os argumentos prós e contras que ali travavam uma disputa. Havia paixão, muita paixão nas defesas dos pontos de vista e era isso que mais chamava a atenção. Afinal, as cotas para estudantes de baixa renda, negros e índios para além de escancarar as enormes disparidades do nosso Brasil desigual, pareciam não demonstrar tantas diferenças de desempenho dos “cotistas” em relação aos outros estudantes, segundo algumas Universidades que já a implantaram. O que parecia prevalecer ali, em um dos polos, era uma grande resistência para pensar novas soluções para velhos problemas principalmente quando estas ameaçavam a destituição de um conforto aparentemente “adquirido”. De certa maneira há no Brasil um consenso (para o que têm e os que não têm) em torno de certas garantias de “bem estar” social para a elite. Do lado oposto, alguém se lembrou que o escritor afro americano Teju Cole, um dos convidados da última FLIP, a feira de literatura internacional, estranhou não cruzar com visitantes negros em Paraty. Pus-me a pensar que em meu bairro (SP) não há negros fazendo compras nos supermercados, lojas, dirigindo carros nas ruas, comendo ou bebendo nos bares e restaurantes. Detalhe, eles compõem um pouco mais da metade de nossa população. Outros frisaram como alguns países europeus, que adotaram políticas de inclusão generalista para deficientes (incluindo idosos que utilizam cadeiras de rodas ou andadores) promoveram o aumento desta população na ocupação de espaços públicos, o que poderia surpreender a todos os brasileiros, caso isso começasse a acontecer por aqui. Não estamos acostumados a ver deficientes nas ruas porque não temos políticas que promovam seu acesso aos lugares ou transportes públicos. Estes defendiam que a lei das cotas poderia servir para facilitar o acesso das classes menos favorecidas ao ensino superior. Ponto. A questão é que este tipo de discussão não se esgota em um plebiscito que pede o sim ou o não. Ela é para lá de complexa. Se por um lado nos ufanamos de nossa diversidade étnica, resultado de uma confluência de origens diferentes- indígenas, portugueses, escravos negros africanos, das ondas imigratórias de europeus, árabes e japoneses e mais recentemente asiáticos e sul-americanos - e muitas vezes somos lembrados por promover uma integração e uma miscigenação racial, tanto os negros quanto os indígenas brasileiros sempre ocuparam posições menos prestigiadas em nossa sociedade. Acostumamos a viver aceitando que sobre o grupo "negro", por exemplo, recaiam todos os tipos de estereótipos negativos. Há também certo “sossego” em relação a uma marca brasileira, o clientelismo, em que as relações pessoais ficam acima do poder público, a lei tende a ser aplicada apenas para os menos favorecidos, enquanto uma minoria privilegiada consegue burla-las. Minoria esta que é sempre branca, sendo o “branco” não apenas uma cor, mas uma qualidade social: aquele que sabe ler, que é mais educado e que ocupa uma posição social mais elevada. E se recentemente começa a existir um movimento de contestação destes valores, seja por meio de políticas oficiais mas sobretudo via cultura ( literatura, cinema, música, redes sociais), as desigualdades e sua “violência” no dia-a-dia continuam ignoradas. O preconceito é velado talvez porque de foro íntimo, e se reflete nas escolhas que fazemos ou nas relações que estabelecemos. Mais que isso, tendemos a colocar esta discussão como se fosse algo que não nos implica, ou seja, se há uma agencia promovendo leis, cabe-nos ser contra ou a favor, sem que seja necessário refletirmos sobre o sofrimento que esta exclusão produz. Sofrimento (no geral) do qual ninguém escapa, e diante do qual todos gostaríamos de ser acolhidos.
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