sexta-feira, 29 de março de 2013

Quem sou este


Um texto indignado, mas corajoso do jornalista carioca Luiz Fernando Vianna foi publicado na Ilustríssima (Folha de SP) de 17 de março de 2013. Próximo ao recém-instituído (2008) dia mundial da conscientização do autismo, 2 de abril, não se pode deixar de celebrar qualquer espaço midiático que se abre para este que é um tema dos mais controvertidos. Escrito de forma coloquial, o reporter se apresenta desde o início como pai de uma criança autista agora com 12 anos e discorre com um tom às vezes áspero e sarcástico, outras cético e até melancólico sobre as agruras deste lugar revelando sua pesada bagagem no trato da natureza dos constrangimentos em torno desta “viagem”. Se há pontos de interrogações, debates ou mesmo disputas nos campos médicos e psi em torno das origens, do diagnóstico e dos “tratamentos” não é nada dificil imaginar como muitos destes pais ficam à deriva, batendo de porta em porta em busca de respostas  e direções. Em uma tentativa de discutir as implicações desse diagnóstico para a vida de uma criança e de seus pais, Vianna toma um atalho bastante pessoal ao percorrer seus impactos morais, pedagógicos e emocionais e, embora dedique algum espaço ao ressentimento diante do preconceito, celebra o auxilio dos recentes relatos de autistas na web e/ou produções literárias e cinematográficas de biografias sobre o tema. Ainda em uma jornada muito pessoal, critica e contrapõe as metodologias terapeuticas segundo uma abordagem cognitivo- comportamental ou psicanalitica e aponta as controversias em relação às recentes pesquisas na área médica que sinalizam fatores neurologicos ou genéticos. Como cada campo acena com suas “verdades” sobre o tema geralmente cabe aos pais (nem sempre com um consenso entre os conjuges) escolher (acreditar, apostar) em algum destes caminhos. A propria definição de autismo pode variar segundo a época e os grupos que se ocupam de pesquisa-lo e/ou oferecer tratamentos. Na linguagem acadêmica atual o autismo – que atinge quase 1% da população global - tem sido tratado como uma disfunção global do desenvolvimento que altera e afeta a capacidade de comunicação, de socialização (estabelecer relacionamentos) e de comportamento (responder apropriadamente ao ambiente). E para acomodar os diversos modos de manifestação e a gama de possibilidades dos sintomas mais recentemente cunhou-se o termo Transtorno do Espectro Autista. A psicanálise esteve desde sempre associada aos caminhos e descaminhos deste transtorno e muitos psicanalistas se dedicaram ao que lhes parecia ser um campo fertil de pesquisa sobre os primórdios da constituição do psiquismo humano, compondo relatos e teorias importantes através de suas clínicas. Mas, afora os quadros fenomenológicos descritivos, é provavel que o fato de não existir uma teoria consensual sobre o autismo pese sobre a respeitabilidade social das práticas, assim como pela manutenção do preconceito. Também é provavel que algumas das teorias no campo da psicanalise tenham contribuido para que certas representações culturais sobre o autismo fossem relacionadas à ideia de deficit, de impossibilidade, de um mundo psíquico desvitalizado ou de pais que não ofereciam as condições necessárias para um desenvolvimento “adequado”. Se, no entanto for possivel – como já acontece em alguns lugares - não engessar a “condição” autista com teorias fechadas e rígidas e tornar seu campo mais aberto a atendimentos feitos por equipes multidisciplinares, é provavel que não seja mais o adjetivo “vergonha” (destacado pelo reporter)  que abaterá  aos pais que descobrem ter um filho com este diagnóstico. Para a psicanálise em especial, toda e qualquer criança cumpre uma trajetória singular de desenvolvimento e constituição, ainda que nasça com alguma alteração genética.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Quem é a criança do século XXI?


Uma  manchete da Folha on line do dia 12 de março de 2013 chamava a atenção para as dificuldades de se colocar limites para as crianças. Um dos destaques do texto do caderno Equilíbrio era a pesquisa da mestre em educação e autora de "Limites Sem Trauma”, Tania Zagury para quem as famílias estariam sob o governo de uma tirania infantil. Baseada em um estudo com 160 famílias no início dos anos 90, ela afirmava que os pais dos anos 80 ao desejarem uma educação menos cerceadora para seus filhos, teriam perdido a medida. O título da matéria ainda sugeria um debate com especialistas sobre os motivos pelos quais seria tão difícil aos pais nos dias atuais, encontrarem a tal medida equilibrada para conter as birras ou as transgressões nos horários de alimentação, sono e estudos. Em geral diante de situações difíceis  tentamos fazer comparações entre épocas passadas e atuais, discorrendo sobre as desvantagens e vantagens de uma e outra. É claro que cada época traz uma nova leitura da realidade, novos parâmetros e valores. E há também novas leituras sobre os descaminhos humanos. Não há como negar que vivemos na época atual, uma crise geral de autoridade, em todos os níveis da sociedade. Mas as “crises” não significam fim e sim um remanejamento temporário de certas “verdades” instituídas. O problema é que em períodos de crise ficamos desamparados, quase sem referencias sobre certas ações, comportamentos e ideias antes tão claras. Não é fácil esvaziar estereótipos e dar lugar a novas maneiras de estar no mundo. Uma  “verdade” de nossa época é que jamais a infância foi tão valorizada, destacada, estudada, cuidada, etc. Não por acaso. Se há um bocado de razões, podemos sublinhar o fato de que a infância é mais do que em qualquer época de nossas vidas, aquela que parece ser definitiva dos rumos que cada um tomará. Assim, uma boa infância ou uma infância feliz seria uma espécie de garantia de um adulto satisfeito consigo próprio, com pique e ferramentas para enfrentar os percalços da vida. Quase todos os pais de hoje só se sentem realizados quando sua prole cresce e se transforma em adultos “felizes”. Mas certamente esta não é uma tarefa simples e muito menos fácil e é comum nos depararmos com o desamparo do adulto diante das exigências ou dos conflitos dos filhos, a quem eles próprios prometeram dar “tudo de bom e de melhor”. São pais que ora se sentem exasperados, ora  culpados ou  impotentes, e muitas vezes incapazes de educar sua criança. Na melhor das hipóteses, a não imposição de limites e o “medo” de desaprovação de sua função de pai ou de mãe faz com que muitos desistam de exercer sua responsabilidade e autoridade. Digo no melhor das hipóteses porque não se podem deixar de fora aqueles pais que abusam, rivalizam, violentam, ou seja, desrespeitam os direitos de suas crianças que por seu lado não têm como se defender da displicência, da irresponsabilidade nem dos excessos de amor e ira de seus pais. Difícil mesmo. Talvez a mais importante e mais complexa tarefa de nossos tempos: “criar” um novo ser humano.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Você tem um sonho?



Em uma entrevista concedida a Marilia Gabriela o diretor do filme “Colegas” que está estreando em circuito nacional confessa que a ideia de criar um roteiro protagonizado por atores com Síndrome de Down era um sonho antigo, uma homenagem amorosa ao tio materno, portador da mesma síndrome, de quem ele tinha lembranças intensas, de alguém generoso e muito divertido. Mais, seu filme deveria recriar o clima de aventura que ele guardava dos momentos em que brincavam juntos. Entre a ideia, o projeto (com tudo o que isso significa em termos de roteiro, seleção de atores, captação de recursos, etc.) e a consolidação do sonho, com direito ao premio de melhor filme no festival de Gramado de 2012, passaram-se sete anos. Na entrevista, realizada com o diretor e os três atores, Marcelo Galvão conta que sua intenção sempre fora tentar passar para o público os mesmos sentimentos que guardava em relação a sua convivência com o tio, ou seja, de como o laço amoroso que os unia ignorava as diferenças entre eles. Embora a Síndrome de Down - um distúrbio genético caracterizado pela presença do cromossomo 21 adicional em todas as células do organismo - seja bastante conhecida por suas características físicas específicas e pelo desenvolvimento geral mais lento de seus portadores, o comportamento e a personalidade de cada um ficam muito mais submetidos às influencias do meio familiar e cultural a que pertencem. Isso fica claro na entrevista dos três protagonistas que a despeito de partilharem algumas dificuldades, vão narrando suas historias de vida, com suas conquistas e dores, como as nossas. Ou seja, mostram que podem ser pessoas ricas ou pobres, cultas ou sem instrução, felizes ou infelizes. Se por um lado o filme pode circular exibindo apenas o rótulo de uma comédia romântica bem ao estilo “queremos, logo podemos” tendo como fundo a força dos sonhos de cada um, certamente os prêmios, o marketing e o espaço que a mídia está oferecendo a ele poderão funcionar como uma chamada ao polêmico tema da inclusão de pessoas com deficiência em diversos âmbitos da sociedade. Lembremos que essa é uma ideia nova, que tem apenas algumas décadas, e por isso mesmo está longe de amparar todos os que precisam desta “inclusão”. Destes, destacamos os pais, para os quais os desafios desta jornada são vividos com muito desamparo, inúmeras  incertezas, sentimentos confusos e contraditórios. O que fazer? Como oferecer a seus bebes um futuro promissor? O que é melhor, lutar para que sejam aceitos em escolas regulares e enfrentem as discriminações ou isola-los em classes ou instituições com seus pares? E quando alcançarem a adolescência? E se quiserem se casar?  Qualquer um que se puser no lugar destes que perguntam  poderá imaginar a dor que enfrentam e as diferenças com as quais cada família tentará contornar a perda do “bebê perfeito” e enfrentar a nova e inesperada realidade, que no mínimo lhes exigirá  muitas mudanças. Por isso, talvez o maior valor da ideia deste filme seja a sensível experiência de seu diretor, que graças a convivência amorosa com seu tio, soube ser possível transformar um pré-conceito muitas vezes tácito e silencioso, por isso mesmo mais danoso do que podemos perceber. 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O Papa é pop?


Na semana passada uma amiga muito querida com quem usualmente troco ideias sobre assuntos os mais variados, apostava que eu havia escrito sobre a renúncia do Papa Bento XVI. Fiquei alguns minutos em silencio, me questionando sobre as razões pelas quais isso não ocorrera. Eu havia arquivado em meu computador vários textos interessantes, li alguns deles, assisti a alguns programas que debatiam as possíveis causas deste ato inesperado, que como li em algum lugar, “causou um grande assombro pela novidade inaudita”, mas faltava-me motivação e por decorrência, inspiração. Domingo último, ao comparecer a uma missa de sétimo dia, fui surpreendida por minha escuta atenta aos textos falados pelo padre e pelos fiéis, pela leitura do evangelho, pela invocação do sacerdote pedindo a todos que se engajassem na campanha da fraternidade ou não se esquecessem da quaresma e seu significado de reflexão espiritual focado na oração, na penitência e na caridade. Não pude deixar de pensar que a igreja católica tem um numero significativo de seguidores no mundo todo (mais de um bilhão de pessoas) e que os papas católicos (que ainda mantém uma autoridade soberana) sempre ocuparam um lugar de respeito, tanto para o mundo das religiões quanto para o mundo laico. E se a modernidade nascida com o Iluminismo encorajou o homem a usar sua liberdade para conquistar sua autonomia e construir suas próprias leis ao invés de se submeter às leis de Deus, a Igreja católica sobrevive como referencia moral e suas “mensagens” continuam a ganhar repercussão e debates em diferentes níveis da sociedade. Quase no final da missa, um membro da comunidade daquela igreja pediu a atenção para alguns recados. Depois de elencar informes sobre datas e horários de eventos durante a quaresma, pediu licença para ler o discurso proferido pelo papa na ocasião em que este anunciou sua renúncia. Finda a leitura, convidou a todos a terem fé e a confiarem neste ato do sumo pontífice, invocando sua condição de mensageiro da palavra de Deus. Em resumo, a renúncia do papa seria também um desejo de Deus. Tal como um bom “líder”, ou um bom apóstolo, aquele homem tentava levar um alento àquela comunidade, dissipando os sentimentos de confusão e medo que imaginava povoar a mente da maioria dos fiéis (assim como a dele). A grande maioria dos textos divulgados pela mídia que debatiam o “assombroso” anúncio papal apresentava esta inquietude. Algum mal físico importante abatera o papa? Um sinal de declínio da igreja católica? Resultado de lutas políticas internas de poder? Fim do conservadorismo e anúncio de uma igreja mais moderna que discuta temas como homossexualidade, aborto, eutanásia? Preferi uma entrevista feita pelo caderno Aliás do Estadão deste ultimo domingo com o filósofo e professor Paolo Flores D’Arcais da Universidade de Roma La Sapienza, um intelectual de esquerda que em 2001 recebeu o ainda cardeal Joseph Ratzinger para um debate sobre fé e razão promovido pela revista italiana  MicroMega. Na época ocupando lados opostos em um embate longo e fervoroso aberto ao público, D’Arcais confessa para o repórter do Alias seu respeito ao “homem” Ratzinger e ao ato deste como papa, classificando-o de um gesto de "extraordinária honestidade intelectual". No seu entender, a renúncia do papa não teria como motivo alguma debilidade física, mas quem sabe uma falta de energia psicológica ("l’animo") para uma tarefa duríssima, de limpeza da corrupção que corre solta no topo da Cúria em meio às lutas fraticidas das facções (sem contar as denuncias frequentes de casos de pedofilia sem julgamento). Tarefas que se realizadas, o levariam irremediavelmente à ruptura com alguns de seus mais próximos colaboradores. Ou seja, ao papa faltaria o “gosto” pelo jogo político, este que é pura paixão para alguns, e que se faz necessário quando se ocupa um lugar de chefia, mas principalmente de tanto poder. No entanto, seguindo este raciocínio, a renúncia é o ato politico possível, e deve exigir de seus “pares” um confronto com tais conflitos ao mesmo tempo em que desperta a atenção do mundo sobre eles.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O que queremos?


Em meados de janeiro deste ano a mídia divulgou o resultado de uma pesquisa realizada em conjunto por duas universidades alemãs (Universidade Humboldt e a Universidade Técnica de Darmastadt)  que revelava que uma em cada três pessoas sentia-se pior ou mais insatisfeita com a própria vida após visitar o Facebook  e visualizar o conteúdo compartilhado por amigos em situações de sucesso. A manchete destacava  que testemunhar as férias, a vida amorosa e o sucesso profissional dos amigos no Facebook causava inveja, infelicidade ou sentimento de solidão em grande parte dos entrevistados. Fotografias de férias e comparação de felicitações de aniversário, de incentivos ou de carinho estariam entre os itens mais duros de engolir, quer dizer, aqueles que mais provocariam inveja e ressentimento, a depender da quantidade dos "curtir" ou dos comentários postados. Embora a ideia de utilizar o Facebook como plataforma para se obter um panorama atualizado das novas formas de convivência virtual seja muito interessante, o uso dos resultados incitava os jovens a desistir da rede social e assim evitar os “maus” sentimentos, algo no mínimo questionável. Mal comparando seria como se a cada vez que os filhos reclamassem aos pais de sentirem-se “menos”, de desejarem ter a vida de alguns amigos, de não suportarem conviver com uma suposta felicidade de outros na escola, estes pais providenciassem rapidamente uma mudança desta escola para algum lugar “melhor”, que pudesse protegê-los destes desconfortos. Por outro lado a pesquisa deixou de fora um dos mais pungentes e duros sentimentos que a rede social escancara, a dor de cotovelo. Percebam que evitei usar a palavra ciúmes por imaginar a “dor de cotovelo”, tal como é usada em nossa cultura, como abrangendo melhor as várias dores contidas em separações amorosas. Entrar no Facebook para acompanhar a vida do(a) ex, seus passos, suas fotos, sua nova paquera, a constatação de que ele(a) pode ( ou consegue) prosseguir sua vida, é um dos sentimentos mais devastadores pois convoca aquele que está sofrendo a aceitar o fato de não ser tão especial como desejaria . É ter que encarar sua “insignificância”, ao mesmo tempo em que deverá (tentar) processar seu luto pela perda daquele (a) que ainda lhe é tão especial. Mas analisar a relação dos usuários do Facebook  com suas dores, ou denunciar que esta rede pode expor as fragilidades de todos que a utilizam não necessariamente é um mal exercício. Pode isto sim, ser um convite para se pensar sobre possíveis novos modos (não necessariamente melhores ou piores, mas diferentes) de construção de convivência no espaço social. De saída, tal convivência estaria muito mais pautada na expectativa de uma “irmandade”, que funciona ao mesmo tempo como suporte e proteção, ao oferecer um “compartilhar” dos sucessos e fracassos dos amigos, mas também - não poderia deixar de ser - como polo de sentimentos de rivalidade, inveja e ciúmes, que como todos sabem, são humanos demasiado humanos. Ou melhor, são impasses e desafios desta nova existência humana, deste modo de convivência com os pares em que a liberdade para se fazer e dizer o que se quer exige necessariamente um confronto com as faltas e as fragilidades de cada um. Resta-nos  analisar as estratégias de negação da realidade, ou melhor nossas formas de nos defender e nos proteger destes sentimentos e saber distinguir as boas formas daquelas que são ruins. Você sairia do Facebook para evitar sofrer?

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Zona de desconforto


Em meados do mês passado, zapeando com o controle da TV me deparei com um programa da apresentadora Marcia Peltier em que o entrevistado era um jovem rapaz que discorria sobre a história das drogas no mundo e no Brasil. Jornalista e editor da Revista Galileu, Tarso de Castro vinha a público divulgar os dados de sua pesquisa sobre este tema, o que teria resultado na publicação de seu livro “Almanaque das Drogas”, uma espécie de catálogo que pretendia abranger aspectos históricos, econômicos, políticos e de saúde deste universo. À pertinência do tema somava-se o fato de estarmos vivendo em meio ao barulho provocado pela polêmica da internação compulsória de usuários de crack que ganhou destaque na mídia, chamou a atenção da população e dividiu as opiniões. Perguntava-me o que seria um “bom” debate de ideias para um tema tão importante e complexo, que afeta em diferentes níveis a vida de todos os cidadãos? Difícil resposta principalmente ao se levar em conta ser a Adição um fenômeno que transcende o uso do que convencionamos chamar de drogas, caso do álcool, maconha, cocaína, crack, ecstasy, etc. para citar aqueles que mais facilmente elegemos como objetos “culpados”. Lembrando ainda serem estes “objetos” utilizados pelos “viciados” de forma compulsiva e incontrolável, fato que se constitui um enigma para a maioria e um drama para os familiares. A adição ou o “vício”, porém, é uma forma de relação abusiva e compulsiva com os mais variados objetos, e para além daqueles velhos conhecidos, pode-se estabelecer um tipo similar de relação com a comida, o esporte, os exercícios físicos, o sexo, a internet, o trabalho, as compras, o celular, o computador, etc. Ou seja, o que está priorizado nesta relação é mais o “uso” que se faz do objeto do que o objeto em si, já que o objeto eleito pelo “viciado” assume um poder quase mágico sobre ele e adquire um lugar de promessa de paraíso perdido. Para quem está de fora desta “relação de paixão”, no entanto, é fácil perceber a alteração que a vida psíquica e física do adicto sofre, sua lenta escravização ao objeto de seu vício e a perda total de sua liberdade de escolha ao perder sua capacidade de decidir usar ou não aquela “droga”. Ela passa a ser necessária, de forma absoluta. Quem está de fora, sente-se fora mesmo, excluído, perplexo, impotente e incapaz de interromper aquele ciclo. Aqueles que convivem com “viciados” (principalmente os dependentes químicos), incluídos aqui todos os que cuidam ou que fazem parte de redes de atendimentos relatam de tempos em tempos seu desânimo ao perceberem-se enredados neste circuito quase fechado. Quando se trata de politicas de saúde pública as coisas parecem ficar mais confusas. As sociedades em geral, a brasileira em particular, costuma tratar de forma leviana seus desvalidos, muitas vezes vistos como “dejetos”, o que promove políticas mais focadas na higienização do que no acolhimento. Não temos uma tradição de discussão ampla e coletiva sobre questões como estas e, por isso, a grande maioria da população espera que o Estado cumpra seu papel de solucionar o problema, de preferencia adotando medidas fortes e “eficazes”. Do outro lado, não é raro que especialistas e técnicos de diferentes orientações teóricas e clínicas, cujas vidas estão comprometidas com o atendimento (em várias frentes) aos drogaditos  concordem ser estes cuidados extremamente complexos. De saída, o “público” é heterogêneo o que acarreta medidas diferentes para cada caso. Uma simples pergunta para apenas um dos grupos de dependentes, por exemplo, pode nos revelar como o assunto exige cuidados: os usuários de crack estão nas ruas porque são viciados ou se viciam por serem moradores de rua? Não há respostas corretas ou únicas. Elas são muitas e variadas, assim como as histórias que guardam as dores e o sofrimento de cada um. O resgate da Historia pode aumentar nosso entendimento por revelar que não existiu e nem existem sociedades humanas que não tenham criado formas de escapes para aqueles de nós que não podem suportar a realidade. Da neurose à loucura, passando pelas drogas, a mente humana não cessa de tentar evitar o sofrimento através de variados métodos que anestesiam ou possibilitam a fuga da realidade incômoda. Métodos muitas vezes “potentes” que visam conter nossas angústias, principalmente quando elas ameaçam nossa sobrevivência física, mas especialmente a psíquica.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Impacto social


Assistir ao filme “No” impõe a todos um sobrevoo sobre a história recente do Chile. O golpe militar que derrubou Salvador Allende em 1973 - presidente eleito neste país em1970 - é considerado o mais cruento da história da América Latina, deixando um saldo de três mil mortos e desaparecidos, além de milhares de presos políticos, exilados e torturados. Depois de 15 anos à frente de tal ditadura sangrenta, Augusto Pinochet foi pressionado pelos governos internacionais a submeter-se a um plebiscito popular que legitimasse seu desejo de mais oito anos no poder. Certo de que os plebiscitos feitos sob ditaduras costumavam ser favoráveis a quem detinha o poder, foi surpreendido pela vitória do “não”. É sobre esse fato verídico que o filme “No”, de Pablo Larraín discorre. O diretor conta que tinha 12 anos quando as emissoras de TV do Chile exibiram a vitória apertada (56% contra 44%) do referendo que rejeitou a permanência do governo militar no país, um acontecimento que marcou sua vida e a de seu país. A partir da leitura da peça  “O plebiscito”, do escritor chileno Antonio Skármeta, e de muitas pesquisas sobre o período, Larraín decidiu priorizar as campanhas publicitárias do Sim e do Não que tinham 15 minutos diários na televisão para convocar o povo a votar a seu favor. Na época, o jovem René Saavedra, filho de um exilado político que volta ao Chile, e talentoso publicitário em franca ascensão no país, é convidado a assumir a campanha do "não" e acaba criando uma peça inovadora para a época, que vendia a ideia de esperança e felicidade, ao invés de expor os terrores da era Pinochet. De forma astuta, a campanha derrota o ditador utilizando as mesmas ferramentas de sua propaganda política com fartas visões sobre um promissor futuro do país. Mas seria mesmo esta vitória apenas fruto de uma manobra publicitária bem feita? Ao assistir ao filme com amigos, finda a sessão, ainda que o final feliz produzisse uma sensação de redenção, no burburinho dos comentários, espectadores mais engajados confessavam certo estranhamento, uma desconfiança de que o publicitário, longe de comungar com alguma ideologia política, teria apenas “vencido” uma concorrida disputa com seu rival, no caso a turma que cuidava da campanha do “sim”. Instalada a polemica, surgiam as perguntas. Teria sido a peça publicitária decisiva para que o governo Pinochet ganhasse maior visibilidade negativa, nacional e internacionalmente, obrigando-o a deixar o governo dois anos depois? Qual teria sido seu diferencial? Que valor moral atribuir aos métodos utilizados na campanha, mais próximos ao marketing político (tão vigente na atualidade)? Ou ainda, porque deixar de fora o sofrimento legítimo dos que foram destituídos de seus direitos, dos que perderam seus familiares, dos que foram torturados? Como não usar o espaço dos 15 minutos para denunciar as barbaridades cometidas pelo governo compulsoriamente censuradas para o povo? Vale dizer que o filme sustenta um clima de suspense do inicio ao fim só por mostrar as tensões vividas pela equipe do “não” que, pisando em ovos em um governo sob censura, precisa fazer sua omelete parecer maravilhosa, apesar de quase sem ovos. Tarefa ardilosa que este publicitário vivido pelo ator mexicano Gael García Bernal tenta desempenhar, convencendo a turma do “não” a eleger programas otimistas, que pudessem despertar principalmente aos jovens, convocando-os a reconquistar a alegria de viver e a confiança no futuro ao divulgar seu slogan "Chile, a alegria está chegando”, fazendo-os acreditar que seu voto poderia mudar a situação politica do país. De meu lado, surpreendi-me positivamente pela escolha da “alegria”. Fiquei imaginando (talvez de forma romântica) que aquele “menino” já tinha em seu currículo as duras experiências dos que precisam viver exilados de seu país. Quem sabe em sua volta, já desenhasse a possibilidade de um novo país, por isso insistia em despertar nos jovens a paixão de viver uma nova época e uma nova cultura. Pode ser que quisesse transformar, pela via da publicidade - que como sabemos corre atrás dos desejos humanos- seu desejo de pertencimento a um novo país incitando um sentimento de humanidade comum a todos os chilenos, sem diferenças de idade, posição social, partidos políticos. Se o mundo não cessa de refazer ciclos em que alguns se instituem donos absolutos de uma verdade por algum período, há que haver os que rememoram a força do desejo de renovar em cada um, e da possibilidade de fazer historia com alguma ousadia. De forma sensível, o diretor farejou nos comerciais produzidos na época (ele não os reproduziu e sim utilizou os originais) algo de diferente sob o céu de brigadeiro. Vale a pena conferir este tônus de uma fina ironia, bom humor e alegria.

(No), de Pablo Larraín, Chile / França / EUA, 2012