Um texto indignado, mas
corajoso do jornalista
carioca Luiz Fernando Vianna foi publicado na Ilustríssima (Folha
de SP) de 17 de março de 2013. Próximo ao recém-instituído (2008) dia mundial
da conscientização do autismo, 2 de abril, não se pode deixar de celebrar
qualquer espaço midiático que se abre para este que é um tema dos mais
controvertidos. Escrito de forma coloquial, o reporter se apresenta desde o início
como pai de uma criança autista agora com 12 anos e discorre com um tom às vezes
áspero e sarcástico, outras cético e até melancólico sobre as agruras deste
lugar revelando sua pesada bagagem no trato da natureza dos constrangimentos em
torno desta “viagem”. Se há pontos de interrogações, debates ou mesmo disputas
nos campos médicos e psi em torno das origens, do diagnóstico e dos
“tratamentos” não é nada dificil imaginar como muitos destes pais ficam à
deriva, batendo de porta em porta em busca de respostas e direções. Em uma tentativa de discutir as
implicações desse diagnóstico para a vida de uma criança e de seus pais, Vianna
toma um atalho bastante pessoal ao percorrer seus impactos morais, pedagógicos
e emocionais e, embora dedique algum espaço ao ressentimento diante do
preconceito, celebra o auxilio dos recentes relatos de autistas na web e/ou
produções literárias e cinematográficas de biografias sobre o tema. Ainda em
uma jornada muito pessoal, critica e contrapõe as metodologias terapeuticas
segundo uma abordagem cognitivo- comportamental ou psicanalitica e aponta as
controversias em relação às recentes pesquisas na área médica que sinalizam fatores
neurologicos ou genéticos. Como cada campo acena com suas “verdades” sobre o
tema geralmente cabe aos pais (nem sempre com um consenso entre os conjuges)
escolher (acreditar, apostar) em algum destes caminhos. A propria definição de
autismo pode variar segundo a época e os grupos que se ocupam de pesquisa-lo
e/ou oferecer tratamentos. Na linguagem acadêmica atual o autismo – que atinge quase
1% da população global - tem sido tratado como uma disfunção global do
desenvolvimento que altera e afeta a capacidade de comunicação, de socialização
(estabelecer relacionamentos) e de comportamento (responder apropriadamente ao
ambiente). E para acomodar os diversos modos de manifestação e a gama de
possibilidades dos sintomas mais recentemente cunhou-se o termo Transtorno do
Espectro Autista. A psicanálise esteve desde sempre associada aos caminhos e
descaminhos deste transtorno e muitos psicanalistas se dedicaram ao que lhes
parecia ser um campo fertil de pesquisa sobre os primórdios da constituição do
psiquismo humano, compondo relatos e teorias importantes através de suas
clínicas. Mas, afora os quadros fenomenológicos descritivos, é provavel que o
fato de não existir uma teoria consensual sobre o autismo pese sobre a respeitabilidade
social das práticas, assim como pela manutenção do preconceito. Também é
provavel que algumas das teorias no campo da psicanalise tenham
contribuido para que
certas representações culturais sobre o autismo fossem relacionadas à ideia de
deficit, de impossibilidade, de um mundo psíquico desvitalizado ou de pais que
não ofereciam as condições necessárias para um desenvolvimento “adequado”. Se,
no entanto for possivel – como já acontece em alguns lugares - não engessar a
“condição” autista com teorias fechadas e rígidas e tornar seu campo mais
aberto a atendimentos feitos por equipes multidisciplinares, é provavel que não
seja mais o adjetivo “vergonha” (destacado pelo reporter) que abaterá
aos pais que descobrem ter um filho com este diagnóstico. Para a
psicanálise em especial, toda e qualquer criança cumpre uma trajetória singular
de desenvolvimento e constituição, ainda que nasça com alguma alteração
genética.
sexta-feira, 29 de março de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
Quem é a criança do século XXI?
Uma manchete
da Folha on line do dia 12 de março de 2013 chamava a atenção para as dificuldades de se colocar
limites para as crianças. Um dos destaques do texto do caderno Equilíbrio era a
pesquisa da mestre em educação e autora de "Limites Sem Trauma”, Tania
Zagury para quem as famílias estariam sob o governo de uma tirania infantil.
Baseada em um estudo com 160 famílias no início dos anos 90, ela afirmava que os
pais dos anos 80 ao desejarem uma educação menos cerceadora para seus filhos, teriam
perdido a medida. O título da matéria ainda sugeria um debate com especialistas
sobre os motivos pelos quais seria tão difícil aos pais nos dias atuais,
encontrarem a tal medida equilibrada para conter as birras ou as transgressões
nos horários de alimentação, sono e estudos. Em geral diante de situações
difíceis tentamos fazer comparações
entre épocas passadas e atuais, discorrendo sobre as desvantagens e vantagens
de uma e outra. É claro que cada época traz uma nova leitura da realidade,
novos parâmetros e valores. E há também novas leituras sobre os descaminhos
humanos. Não há como negar que vivemos na época atual, uma crise geral de
autoridade, em todos os níveis da sociedade. Mas as “crises” não significam fim
e sim um remanejamento temporário de certas “verdades” instituídas. O problema
é que em períodos de crise ficamos desamparados, quase sem referencias sobre certas
ações, comportamentos e ideias antes tão claras. Não é fácil esvaziar
estereótipos e dar lugar a novas maneiras de estar no mundo. Uma “verdade” de nossa época é que jamais a
infância foi tão valorizada, destacada, estudada, cuidada, etc. Não por acaso.
Se há um bocado de razões, podemos sublinhar o fato de que a infância é mais do
que em qualquer época de nossas vidas, aquela que parece ser definitiva dos
rumos que cada um tomará. Assim, uma boa infância ou uma infância feliz seria
uma espécie de garantia de um adulto satisfeito consigo próprio, com pique e
ferramentas para enfrentar os percalços da vida. Quase todos os pais de hoje só
se sentem realizados quando sua prole cresce e se transforma em adultos “felizes”.
Mas certamente esta não é uma tarefa simples e muito menos fácil e é comum nos
depararmos com o desamparo do adulto diante das exigências ou dos conflitos dos
filhos, a quem eles próprios prometeram dar “tudo de bom e de melhor”. São pais
que ora se sentem exasperados, ora
culpados ou impotentes, e muitas
vezes incapazes de educar sua criança. Na melhor das hipóteses, a não imposição
de limites e o “medo” de desaprovação de sua função de pai ou de mãe faz com
que muitos desistam de exercer sua responsabilidade e autoridade. Digo no
melhor das hipóteses porque não se podem deixar de fora aqueles pais que
abusam, rivalizam, violentam, ou seja, desrespeitam os direitos de suas
crianças que por seu lado não têm como se defender da displicência, da
irresponsabilidade nem dos excessos de amor e ira de seus pais. Difícil mesmo.
Talvez a mais importante e mais complexa tarefa de nossos tempos: “criar” um
novo ser humano.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Você tem um sonho?
Em uma entrevista concedida a Marilia Gabriela o
diretor do filme “Colegas” que está estreando em circuito nacional confessa que
a ideia de criar um roteiro protagonizado por atores com Síndrome de Down era
um sonho antigo, uma homenagem amorosa ao tio materno, portador da mesma
síndrome, de quem ele tinha lembranças intensas, de alguém generoso e muito
divertido. Mais, seu filme deveria recriar o clima de aventura que ele guardava
dos momentos em que brincavam juntos. Entre a ideia, o projeto (com tudo o que
isso significa em termos de roteiro, seleção de atores, captação de recursos, etc.)
e a consolidação do sonho, com direito ao premio de melhor filme no festival de
Gramado de 2012, passaram-se sete anos. Na entrevista, realizada com o diretor
e os três atores, Marcelo Galvão conta que sua intenção sempre fora tentar
passar para o público os mesmos sentimentos que guardava em relação a sua
convivência com o tio, ou seja, de como o laço amoroso que os unia ignorava as
diferenças entre eles. Embora a Síndrome de Down - um distúrbio
genético caracterizado pela presença do cromossomo 21 adicional em todas as
células do organismo - seja bastante conhecida por suas características físicas
específicas e pelo desenvolvimento geral mais lento de seus portadores, o comportamento
e a personalidade de cada um ficam muito mais submetidos às influencias do meio
familiar e cultural a que pertencem. Isso fica claro na entrevista dos três
protagonistas que a despeito de partilharem algumas dificuldades, vão narrando
suas historias de vida, com suas conquistas e dores, como as nossas. Ou seja,
mostram que podem ser pessoas ricas ou pobres, cultas ou sem instrução, felizes
ou infelizes. Se por um lado o filme pode circular exibindo apenas o rótulo de uma
comédia romântica bem ao estilo “queremos, logo podemos” tendo como fundo a
força dos sonhos de cada um, certamente os prêmios, o marketing e o espaço que
a mídia está oferecendo a ele poderão funcionar como uma chamada ao polêmico
tema da inclusão de pessoas com deficiência em diversos
âmbitos da sociedade. Lembremos que essa é uma ideia nova, que tem apenas
algumas décadas, e por isso mesmo está longe de amparar todos os que precisam
desta “inclusão”. Destes, destacamos os pais, para os quais os desafios desta
jornada são vividos com muito desamparo, inúmeras incertezas, sentimentos confusos e
contraditórios. O que fazer? Como oferecer a seus bebes um futuro promissor? O
que é melhor, lutar para que sejam aceitos em escolas regulares e enfrentem as
discriminações ou isola-los em classes ou instituições com seus pares? E quando
alcançarem a adolescência? E se quiserem se casar? Qualquer um que se puser no lugar
destes que perguntam poderá imaginar a
dor que enfrentam e as diferenças com as quais cada família tentará contornar a
perda do “bebê perfeito” e enfrentar a nova e inesperada realidade, que no
mínimo lhes exigirá muitas mudanças. Por
isso, talvez o maior valor da ideia deste filme seja a sensível experiência de seu
diretor, que graças a convivência amorosa com seu tio, soube ser possível transformar
um pré-conceito muitas vezes tácito e silencioso, por isso mesmo mais danoso do
que podemos perceber.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
O Papa é pop?
Na semana passada uma amiga muito querida com quem
usualmente troco ideias sobre assuntos os mais variados, apostava que eu havia
escrito sobre a renúncia do Papa Bento XVI. Fiquei alguns minutos em silencio,
me questionando sobre as razões pelas quais isso não ocorrera. Eu havia
arquivado em meu computador vários textos interessantes, li alguns deles,
assisti a alguns programas que debatiam as possíveis causas deste ato
inesperado, que como li em algum lugar, “causou um grande assombro pela
novidade inaudita”, mas faltava-me motivação e por decorrência, inspiração.
Domingo último, ao comparecer a uma missa de sétimo dia, fui surpreendida por minha
escuta atenta aos textos falados pelo padre e pelos fiéis, pela leitura do
evangelho, pela invocação do sacerdote pedindo a todos que se engajassem na
campanha da fraternidade ou não se esquecessem da quaresma e seu significado de
reflexão espiritual focado na oração, na penitência e na caridade. Não pude
deixar de pensar que a igreja católica tem um numero significativo de
seguidores no mundo todo (mais de um bilhão de pessoas) e que os papas
católicos (que ainda mantém uma autoridade soberana) sempre ocuparam um lugar
de respeito, tanto para o mundo das religiões quanto para o mundo laico. E se a
modernidade nascida com o Iluminismo encorajou o homem a usar sua liberdade
para conquistar sua autonomia e construir suas próprias leis ao invés de se
submeter às leis de Deus, a Igreja católica sobrevive como referencia moral e
suas “mensagens” continuam a ganhar repercussão e debates em diferentes níveis
da sociedade. Quase no final da missa, um membro da comunidade daquela igreja
pediu a atenção para alguns recados. Depois de elencar informes sobre datas e
horários de eventos durante a quaresma, pediu licença para ler o discurso
proferido pelo papa na ocasião em que este anunciou sua renúncia. Finda a
leitura, convidou a todos a terem fé e a confiarem neste ato do sumo pontífice,
invocando sua condição de mensageiro da palavra de Deus. Em resumo, a renúncia
do papa seria também um desejo de Deus. Tal como um bom “líder”, ou um bom
apóstolo, aquele homem tentava levar um alento àquela comunidade, dissipando os
sentimentos de confusão e medo que imaginava povoar a mente da maioria dos
fiéis (assim como a dele). A grande maioria dos textos divulgados pela mídia que
debatiam o “assombroso” anúncio papal apresentava esta inquietude. Algum mal
físico importante abatera o papa? Um sinal de declínio da igreja católica?
Resultado de lutas políticas internas de poder? Fim do conservadorismo e anúncio
de uma igreja mais moderna que discuta temas como homossexualidade, aborto,
eutanásia? Preferi uma entrevista feita pelo caderno Aliás do Estadão deste ultimo
domingo com o filósofo e professor Paolo Flores D’Arcais da
Universidade de Roma La Sapienza, um intelectual de esquerda que em 2001
recebeu o ainda cardeal Joseph Ratzinger para um debate sobre fé e razão
promovido pela revista italiana MicroMega.
Na época ocupando lados opostos em um embate longo e fervoroso aberto ao
público, D’Arcais confessa para o repórter do Alias seu respeito ao “homem”
Ratzinger e ao ato deste como papa, classificando-o de um gesto de
"extraordinária honestidade intelectual". No seu entender, a renúncia
do papa não teria como motivo alguma debilidade física, mas quem sabe uma falta
de energia psicológica ("l’animo") para uma tarefa duríssima, de
limpeza
da corrupção que corre solta no topo da Cúria em meio às lutas fraticidas das
facções (sem contar as denuncias frequentes de casos de pedofilia sem
julgamento). Tarefas que se realizadas, o levariam irremediavelmente à ruptura
com alguns de seus mais próximos colaboradores. Ou seja, ao papa faltaria o
“gosto” pelo jogo político, este que é pura paixão para alguns, e que se faz necessário
quando se ocupa um lugar de chefia, mas principalmente de tanto poder. No
entanto, seguindo este raciocínio, a renúncia é o ato politico possível, e deve
exigir de seus “pares” um confronto com tais conflitos ao mesmo tempo em que desperta
a atenção do mundo sobre eles.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
O que queremos?
Em meados de janeiro deste ano a mídia divulgou o
resultado de uma pesquisa realizada em conjunto por duas universidades alemãs (Universidade Humboldt e a
Universidade Técnica de Darmastadt) que
revelava que uma em cada três pessoas sentia-se pior ou mais insatisfeita com a
própria vida após visitar o Facebook e
visualizar o conteúdo compartilhado por amigos em situações de sucesso. A
manchete destacava que testemunhar as
férias, a vida amorosa e o sucesso profissional dos amigos no Facebook causava inveja, infelicidade ou sentimento de
solidão em grande parte dos entrevistados. Fotografias de férias e comparação
de felicitações de aniversário, de incentivos ou de carinho estariam entre os itens
mais duros de engolir, quer dizer, aqueles que mais provocariam inveja e
ressentimento, a depender da quantidade dos "curtir" ou dos comentários
postados. Embora a ideia de utilizar o Facebook como plataforma para se obter
um panorama atualizado das novas formas de convivência virtual seja muito
interessante, o uso dos resultados incitava os jovens a desistir da rede social
e assim evitar os “maus” sentimentos, algo no mínimo questionável. Mal
comparando seria como se a cada vez que os filhos reclamassem aos pais de
sentirem-se “menos”, de desejarem ter a vida de alguns amigos, de não
suportarem conviver com uma suposta felicidade de outros na escola, estes pais
providenciassem rapidamente uma mudança desta escola para algum lugar “melhor”,
que pudesse protegê-los destes desconfortos. Por outro lado a pesquisa deixou
de fora um dos mais pungentes e duros sentimentos que a rede social escancara,
a dor de cotovelo. Percebam que evitei usar a palavra ciúmes por imaginar a
“dor de cotovelo”, tal como é usada em nossa cultura, como abrangendo melhor as
várias dores contidas em separações amorosas. Entrar no Facebook para
acompanhar a vida do(a) ex, seus passos, suas fotos, sua nova paquera, a
constatação de que ele(a) pode ( ou consegue) prosseguir sua vida, é um dos
sentimentos mais devastadores pois convoca aquele que está sofrendo a aceitar o
fato de não ser tão especial como desejaria . É ter que encarar sua
“insignificância”, ao mesmo tempo em que deverá (tentar) processar seu luto
pela perda daquele (a) que ainda lhe é tão especial. Mas analisar a relação dos
usuários do Facebook com suas dores, ou
denunciar que esta rede pode expor as fragilidades de todos que a utilizam não
necessariamente é um mal exercício. Pode isto sim, ser um convite para se
pensar sobre possíveis novos modos (não necessariamente melhores ou piores, mas
diferentes) de construção de convivência no espaço social. De saída, tal
convivência estaria muito mais pautada na expectativa de uma “irmandade”, que
funciona ao mesmo tempo como suporte e proteção, ao oferecer um “compartilhar” dos
sucessos e fracassos dos amigos, mas também - não poderia deixar de ser - como
polo de sentimentos de rivalidade, inveja e ciúmes, que como todos sabem, são
humanos demasiado humanos. Ou melhor, são impasses e desafios desta nova
existência humana, deste modo de convivência com os pares em que a liberdade
para se fazer e dizer o que se quer exige necessariamente um confronto com as
faltas e as fragilidades de cada um. Resta-nos analisar as estratégias de negação da
realidade, ou melhor nossas formas de nos defender e nos proteger destes
sentimentos e saber distinguir as boas formas daquelas que são ruins. Você
sairia do Facebook para evitar sofrer?
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Zona de desconforto
Em meados do mês passado, zapeando com o controle da
TV me deparei com um programa da apresentadora Marcia Peltier em que o
entrevistado era um jovem rapaz que discorria sobre a história das drogas no
mundo e no Brasil. Jornalista e editor da Revista Galileu, Tarso de Castro
vinha a público divulgar os dados de sua pesquisa sobre este tema, o que teria
resultado na publicação de seu livro “Almanaque das Drogas”, uma espécie de
catálogo que pretendia abranger aspectos históricos, econômicos, políticos e de
saúde deste universo. À pertinência do tema somava-se o fato de estarmos
vivendo em meio ao barulho provocado pela polêmica da internação compulsória de
usuários de crack que ganhou destaque na mídia, chamou a atenção da população e
dividiu as opiniões. Perguntava-me o que seria um “bom” debate de ideias para
um tema tão importante e complexo, que afeta em diferentes níveis a vida de
todos os cidadãos? Difícil resposta principalmente ao se levar em conta ser a Adição
um fenômeno que transcende o uso do que convencionamos chamar de drogas, caso do
álcool, maconha, cocaína, crack, ecstasy, etc. para citar aqueles que mais
facilmente elegemos como objetos “culpados”. Lembrando ainda serem estes “objetos”
utilizados pelos “viciados” de forma compulsiva e incontrolável, fato que se
constitui um enigma para a maioria e um drama para os familiares. A adição ou o
“vício”, porém, é uma forma de relação abusiva e compulsiva com os mais
variados objetos, e para além daqueles velhos conhecidos, pode-se estabelecer um
tipo similar de relação com a comida, o esporte, os exercícios físicos, o sexo,
a internet, o trabalho, as compras, o celular, o computador, etc. Ou seja, o
que está priorizado nesta relação é mais o “uso” que se faz do objeto do que o
objeto em si, já que o objeto eleito pelo “viciado” assume um poder quase
mágico sobre ele e adquire um lugar de promessa de paraíso perdido. Para quem está
de fora desta “relação de paixão”, no entanto, é fácil perceber a alteração que
a vida psíquica e física do adicto sofre, sua lenta escravização ao objeto de
seu vício e a perda total de sua liberdade de escolha ao perder sua capacidade
de decidir usar ou não aquela “droga”. Ela passa a ser necessária, de forma
absoluta. Quem está de fora, sente-se fora mesmo, excluído, perplexo, impotente
e incapaz de interromper aquele ciclo. Aqueles que convivem com “viciados”
(principalmente os dependentes químicos), incluídos aqui todos os que cuidam ou
que fazem parte de redes de atendimentos relatam de tempos em tempos seu desânimo
ao perceberem-se enredados neste circuito quase fechado. Quando se trata de
politicas de saúde pública as coisas parecem ficar mais confusas. As sociedades
em geral, a brasileira em particular, costuma tratar de forma leviana seus desvalidos,
muitas vezes vistos como “dejetos”, o que promove políticas mais focadas na
higienização do que no acolhimento. Não temos uma tradição de discussão ampla e
coletiva sobre questões como estas e, por isso, a grande maioria da população
espera que o Estado cumpra seu papel de solucionar o problema, de preferencia
adotando medidas fortes e “eficazes”. Do outro lado, não é raro que
especialistas e técnicos de diferentes orientações teóricas e clínicas, cujas
vidas estão comprometidas com o atendimento (em várias frentes) aos
drogaditos concordem ser estes cuidados
extremamente complexos. De saída, o “público” é heterogêneo o que acarreta
medidas diferentes para cada caso. Uma simples pergunta para apenas um dos
grupos de dependentes, por exemplo, pode nos revelar como o assunto exige
cuidados: os usuários de crack estão nas ruas porque são viciados ou se viciam
por serem moradores de rua? Não há respostas corretas ou únicas. Elas são
muitas e variadas, assim como as histórias que guardam as dores e o sofrimento
de cada um. O resgate da Historia pode aumentar nosso entendimento por revelar
que não existiu e nem existem sociedades humanas que não tenham criado formas
de escapes para aqueles de nós que não podem suportar a realidade. Da neurose à
loucura, passando pelas drogas, a mente humana não cessa de tentar evitar o
sofrimento através de variados métodos que anestesiam ou possibilitam a fuga da
realidade incômoda. Métodos muitas vezes “potentes” que visam conter nossas angústias,
principalmente quando elas ameaçam nossa sobrevivência física, mas
especialmente a psíquica.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Impacto social
Assistir ao filme “No” impõe a todos um sobrevoo sobre a história recente
do Chile. O golpe militar que derrubou Salvador Allende em 1973 - presidente
eleito neste país em1970 - é considerado o mais cruento da história da América
Latina, deixando um saldo de três mil mortos e desaparecidos, além de milhares
de presos políticos, exilados e torturados. Depois de 15 anos à frente de tal
ditadura sangrenta, Augusto Pinochet foi pressionado pelos governos
internacionais a submeter-se a um plebiscito popular que legitimasse seu desejo
de mais oito anos no poder. Certo de que os plebiscitos feitos sob ditaduras
costumavam ser favoráveis a quem detinha o poder, foi surpreendido pela vitória
do “não”. É sobre esse fato verídico que o filme “No”, de Pablo Larraín discorre. O diretor conta que tinha 12 anos
quando as emissoras de TV do Chile exibiram a vitória apertada (56% contra 44%)
do referendo que rejeitou a permanência do governo militar no país, um
acontecimento que marcou sua vida e a de seu país. A partir da leitura da peça “O plebiscito”, do escritor chileno Antonio
Skármeta, e de muitas pesquisas sobre o período, Larraín decidiu priorizar as
campanhas publicitárias do Sim e do Não que tinham 15 minutos diários na
televisão para convocar o povo a votar a seu favor. Na época, o jovem René
Saavedra, filho de um exilado político que volta ao Chile, e talentoso publicitário
em franca ascensão no país, é convidado a assumir a campanha do "não"
e acaba criando uma peça inovadora para a época, que vendia a ideia de
esperança e felicidade, ao invés de expor os terrores da era Pinochet. De forma
astuta, a campanha derrota o ditador utilizando as mesmas ferramentas de sua
propaganda política com fartas visões sobre um promissor futuro do país. Mas
seria mesmo esta vitória apenas fruto de uma manobra publicitária bem feita? Ao
assistir ao filme com amigos, finda a sessão, ainda que o final feliz produzisse
uma sensação de redenção, no burburinho dos comentários, espectadores mais
engajados confessavam certo estranhamento, uma desconfiança de que o
publicitário, longe de comungar com alguma ideologia política, teria apenas
“vencido” uma concorrida disputa com seu rival, no caso a turma que cuidava da
campanha do “sim”. Instalada a polemica, surgiam as perguntas. Teria sido a peça
publicitária decisiva para que o governo Pinochet ganhasse maior visibilidade
negativa, nacional e internacionalmente, obrigando-o a deixar o governo dois
anos depois? Qual teria sido seu diferencial? Que valor moral atribuir aos
métodos utilizados na campanha, mais próximos ao marketing político (tão
vigente na atualidade)? Ou ainda, porque deixar de fora o sofrimento legítimo
dos que foram destituídos de seus direitos, dos que perderam seus familiares,
dos que foram torturados? Como não usar o espaço dos 15 minutos para denunciar as
barbaridades cometidas pelo governo compulsoriamente censuradas para o povo? Vale
dizer que o filme sustenta um clima de suspense do inicio ao fim só por mostrar
as tensões vividas pela equipe do “não” que, pisando em ovos em um governo sob
censura, precisa fazer sua omelete parecer maravilhosa, apesar de quase sem
ovos. Tarefa ardilosa que este publicitário vivido pelo ator mexicano Gael
García Bernal tenta desempenhar, convencendo a turma do “não” a eleger programas otimistas, que pudessem despertar principalmente aos jovens,
convocando-os a reconquistar a alegria de viver e a confiança no futuro ao
divulgar seu slogan "Chile, a alegria está chegando”, fazendo-os acreditar que seu voto poderia mudar a situação politica do
país. De meu
lado, surpreendi-me positivamente pela escolha da “alegria”. Fiquei imaginando
(talvez de forma romântica) que aquele “menino” já tinha em seu currículo as
duras experiências dos que precisam viver exilados de seu país. Quem sabe em
sua volta, já desenhasse a possibilidade de um novo país, por isso insistia em despertar
nos jovens a paixão de viver uma nova época e uma nova cultura. Pode ser que quisesse
transformar, pela via da publicidade - que como sabemos corre atrás dos desejos
humanos- seu desejo de pertencimento a um novo país incitando um sentimento de
humanidade comum a todos os chilenos, sem diferenças de idade, posição social,
partidos políticos. Se o mundo não cessa de refazer ciclos em que alguns se
instituem donos absolutos de uma verdade por algum período, há que haver os que
rememoram a força do desejo de renovar em cada um, e da possibilidade de fazer
historia com alguma ousadia. De forma sensível, o diretor farejou nos
comerciais produzidos na época (ele não os reproduziu e sim utilizou os
originais) algo de diferente sob o céu de brigadeiro. Vale a pena conferir este
tônus de uma fina ironia, bom humor e alegria.
(No), de Pablo Larraín, Chile / França / EUA, 2012
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