domingo, 21 de abril de 2013

Intervalo


Ainda que timidamente, ao longo dos últimos anos foram sendo lançados filmes cuja temática girava em torno do envelhecimento. Lembro-me que em um deles, cujo nome em inglês (Late Bloomers) poderia ser um “despertar tardio”, traduzido aqui por “Amor sem fim”, a bela Isabella Rosselini, em crise com um marido (William Hurt) que se recusava a aceitar o fato de estar envelhecendo, matricula-se em uma academia e em  uma tentativa de testar sua “visibilidade” ensaia uma entrada na lanchonete logo após notar que todos os homens ali presentes haviam virado a cabeça para olhar uma jovem que passara. Mal sucedida, apesar de ter desabotoado alguns dos botões de sua blusa, ela se senta desolada, certa de ter se tornado “invisível”. Se a grande maioria dos filmes preferiu abordar o tema pela via da comédia romântica, alguns sublinhando as mudanças na vida sexual, caso dos hilários “Alguém tem que ceder” e “Simplesmente Complicado”, o diretor Michael Haneke (Amor) levou o Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano com um difícil, duro e melancólico filme que aborda de forma crua a “decadência” física de seus protagonistas e cônjuges, ambos próximos dos 80 anos. Por ocasião de seu lançamento, muitos que o assistiam aconselhavam seus/suas colegas mais velho(a)s a não irem com muita sede ao pote (evitarem ver o filme), tal o impacto de sua realidade. Nem seria preciso repetir o argumento de que o envelhecimento na atualidade vai conquistando sim uma visibilidade, mas muito mais por ser uma nova (e ainda desconhecida) realidade. A faixa dos 70 aos 100 anos ganhou uma população que antes era escassa ou praticamente inexistia, o que tem exigido esforços de todos os lados (famílias, governos, ciências) em busca de politicas publicas e novas pesquisas nas áreas da saúde, etc., na tentativa de ajustar/inventar soluções que lhes ofereçam algum bem estar. Por outro lado cria-se uma expectativa de vida difícil de ser prevista, apostando aqui que alguns possam desejar fazer essas previsões. É muito mais comum a recusa a se imaginar velhos, pois as limitações que a velhice impõe quase nunca são agradáveis de serem pensadas, além de tornar muito próxima a ideia da tão temida morte. Mas há os que enfrentam essa dolorosa reflexão e tentam minimamente antecipa-la. Como estarei vivendo aos 80? Poderei andar normalmente? Minha memória estará intacta, estarei lúcida/o? Terei companhia, vou querer conversar, contar sobre minha vida? Vou morar em minha própria casa dependendo de cuidadores ou filhos ou vou para uma casa de repouso? Como passarei meus dias? Poderei me sentir feliz? Sem dúvida esta ultima questão resume de certa forma as inquietações sobre o envelhecimento. Uma amiga próxima me contava que seus pais, cujas idades já ultrapassaram os 80 anos, estavam vivendo uma “boa” velhice. Para ela, o adjetivo “bom” só poderia ser empregado se ainda houvesse “paixões” possíveis. Seu pai, por exemplo, adorava cumprir uma rotina diária em que lia os jornais e depois se ocupava em montar um cardápio que lhe apetecesse e para o qual deveria sair em busca dos ingredientes. As noites eram reservadas para jogar tranca  com amigos do condomínio. Após sofrer um tombo, porém, teve que se confinar em casa e passou a ficar muito entristecido. Muito angustiada e impotente diante daquela tristeza, minha amiga constatava perplexa essa rápida e inesperada mudança. De uma hora para outra seu pai havia perdido a vontade de viver. Sensível, sua cardiologista propôs que contratasse um motorista/cuidador por algumas horas para que pudesse sair e dar continuidade a parte de sua rotina, o que fez com que ele aos poucos recuperasse sua “vida”. O problema é que as paixões precisam ser orquestradas pelas almas. Ou pela do próprio protagonista ou a de alguém que possa interpreta-las.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Já ouviu falar?


Quando em setembro de 2012 participei do FDC Experience a convite de uma de suas organizadoras estava bastante curiosa para assistir o  convidado da rodada final de conversas, Bernardo Paz, o polêmico idealizador de Inhotim, museu de arte contemporânea de Brumadinho, pequena cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. O FDC Experience é uma proposta da Fundação Dom Cabral (também mineira) - que figura entre as 10 melhores escolas de negócios do mundo-  e foi pensado para ser um evento anual que reunisse gestores espalhados pelo Brasil, dispostos a ouvir e debater novos rumos e cenários de modelos organizacionais junto a pensadores de áreas diversas como economia, história, tecnologia da informação, jornalismo, psicanalise, arte. Mas Bernardo Paz não se enquadra em modelos e tampouco se submete a padrões para comparações. Ele é um intuitivo, como ele mesmo costuma se definir. Quando conta a história de Inhotim não a separa de seu destino inquieto e atormentado, sempre insatisfeito, sempre angustiado, sempre ansioso, sempre deprimido, pelo qual toma pílulas para dormir e outras para acordar. Também não se considera um conhecedor de artes, embora fale com paixão sobre seus jardins botânicos exuberantes da grife do amigo Burle Marx com espécies tropicais raras ou de cada um dos “pedaços” de sua fazenda, que foram sendo ocupados pela arte de artistas brasileiros e estrangeiros de renome e compõem hoje um dos mais importantes acervos de arte contemporânea. Seu depoimento comove, no entanto, porque é espontâneo e parece querer convocar a todos a seguir seus sonhos, mas realizar algo pela humanidade. Estas lembranças me ocorreram quando poucos dias atrás a mídia anunciou o lançamento no Brasil do livro “Governança Inteligente para o Século XXI: Uma Via Intermediária entre Ocidente e Oriente”. Escrito a duas mãos, um de seus autores (o outro é cientista político), o alemão-americano que se auto intitula  investidor e filantropo e cuja fortuna ocupa algum número no ranking da Forbes, desde 2001se desfez de seus bens materiais – casas e carros incluídos – para se dedicar às ideias que pudessem contribuir para mudar os rumos dos governos do mundo. Com olhos discriminadores para as políticas governamentais de países diversos (Ásia, Europa, USA, América Latina) e suas relações com a sociedade civil, o mercado financeiro e as inovações tecnológicas, ambos buscam alguns sinais que indiquem um ponto de equilíbrio possível entre esses eixos, levando em conta as diferenças culturais de cada região do globo. Ou seja, não buscam fórmulas prontas e únicas e sim “manipuladas” caso a caso e para isso constituem pequenos grupos de intelectuais interessados em compor “usinas de ideias”. Já na cidade de São Paulo um grupo de jovens resolveu ocupar (de 5 a 14 de abril/2013) o chamado "baixo centro"  - os bairros de Santa Cecília, Vila Buarque, Campos Elísios, Barra Funda e Luz - com atividades culturais. Por acreditarem ser a ocupação  da cidade um direito de cada cidadão e com vistas a convocar a população local a se integrar, o projeto que inclui entre outras coisas intervenções urbanas, debates, desfiles, música, shows,foi organizado de forma a captar recursos por um sistema colaborativo, uma espécie de financiamento coletivo. Para viabilizar as 530 atividades inscritas, foi calculado um valor “x” que precisaria ser alcançado até a noite de segunda feira  dia 1°de abril, via contribuições pelo site. Detalhe: o cálculo dos custos ficava disponível para consulta em uma planilha on-line e caso não se atingisse o tal valor, todas as contribuições retornariam aos seus “donos”. Bingo! Eles conseguiram. Enquanto eu escrevia este texto pensava que atos revolucionários independem de épocas ou de fórmulas prévias. Às vezes são apenas boas ideias.

sexta-feira, 29 de março de 2013

O peso da liberdade


Uma amiga me contava que a vida em cidades do interior, se tem suas vantagens no quesito “qualidade” também pode ser bem pesada quando certas condutas consideradas “outsiders” (fora do padrão, ou melhor, fora do esperado) ficam mais expostas aos julgamentos morais da maioria. Detalhe, ela reclamava das reações à sua recente separação conjugal, que imaginava não ser mais motivo para tantas exclamações. Afinal porque era tão difícil respeitar escolhas tomadas na intimidade de vidas privadas? À medida que ela me contava sua aflita sensação de estar sendo equivocadamente julgada me lembrava de uma época já distante, criança ainda, em que a quase totalidade da população de minha cidade, incluídos aí meus pais, seguiam os preceitos da religião católica. Encaminhar os filhos às escolas para serem alfabetizados tinha o mesmo peso de envia-los ao catecismo, cujas aulas faziam parte dos currículos das escolas primárias. O discurso “laico”, ou seja, dos professores e pais confundia-se com as normas religiosas. Batismos, primeira-comunhões, crismas, missas aos domingos e procissões eram eventos sociais que compunham a vida de quase todos e estavam pareados em importância com outras festas (pagãs) como os bailes, o carnaval, o réveillon, os desfiles patrióticos, os campeonatos esportivos, os jogos coletivos, etc. Pensei de imediato como aquilo que tomamos como “normalidade”, ou melhor, o que a cada época instituímos como permitido, como esperado, está à mercê das leituras que fazemos (com nossa comunidade, nossa cultura) sobre os sentidos e modos de se estar no mundo. A inusitada troca de papas acontecida recentemente trouxe à tona uma infinidade de debates a respeito do destino do catolicismo (e de suas mais polêmicas restrições), algo que na época descrita acima seria impensável, quando ao contrário, a maioria dos “pais” desfrutava do conforto das normas religiosas na escolha dos caminhos morais da educação de seus filhos. Emprestando sua leitura sobre o certo e o errado como verdades inquestionáveis a religião católica era uma grande parceira nesta empreitada. Mas os movimentos de transmissão, aquilo que passamos à geração seguinte, costumam balançar entre a continuidade e a ruptura e quando existe um espaço de liberdade, as inquietações, os pesares e amarras são repensadas, não sem muitas resistências do que parecia estabelecido. A antropóloga e professora da UNB (Universidade de Brasília) Debora Diniz participou dia 1° de março em Belém da primeira reunião de conselheiros médicos do país para a discussão da descriminalização do aborto no Brasil, uma espécie de deliberação sobre o direito das mulheres decidirem sobre o futuro de suas gestações. Levava consigo os números de uma pesquisa em saúde pública brasileira sobre o aborto ilegal e inseguro e muitas histórias de mulheres em sofrimento. Segundo ela entre os 18 e os 39 anos, mais de 3 milhões de mulheres, em algum momento de suas vidas reprodutivas, realizaram um aborto ( ilegal, é claro) e temeram pela sua saúde (e vida), pela sua fé ou pela sua prisão. Na mesma reunião participavam um representante da igreja católica e um promotor de justiça, ambos defendendo os riscos do aborto, cada um em sua praia. No texto em que descreve suas impressões sobre o evento (publicado no caderno Alias do Estadão no dia 24 de março ultimo) a antropóloga faz um balanço dos 20 anos desde que, pela primeira vez, a descriminalização do aborto foi pensada pelo Conselho Federal de Medicina como uma necessidade de saúde para as mulheres. Sentiu-se premiada ao presenciar a declaração do CFM  “a favor da vida”, ao assumir uma posição ética que reconhecia a autonomia das mulheres para decidir pelo aborto e dos médicos pela assistência à saúde. Ao se posicionar a favor do direito de escolha, o CFM ajudava a retirar o tema do aborto de uma ordem moral religiosa, hegemônica até então em nosso país, e a serviço do silenciamento de temas que nos são caros, geradores de conflitos e angustias, como a morte e o sexo. Claro que poderíamos construir muitos parágrafos se quiséssemos dar voz a um júri composto de pessoas diversas, convocadas a opinar sobre o tema. A gritaria em torno da escolha do pastor Feliciano para o comando da comissão de Direitos Humanos é um exemplo de como a sociedade se divide quanto às suas escolhas “morais”. O fato é que a falta de um consenso sobre nossas condutas morais, que muitas vezes nos faz sentir saudades das velhas referências, parece ser o preço a pagar pela conquista de nossa liberdade de escolha. E quem sabe viver uma boa vida hoje não mais signifique “adaptar-se” completamente  a algum status quo,  mas conseguir  certa flexibilidade capaz de matizar as mudanças. Minha amiga está bem, mas teve que se haver com a falta de consenso em torno de sua decisão.   

Quem sou este


Um texto indignado, mas corajoso do jornalista carioca Luiz Fernando Vianna foi publicado na Ilustríssima (Folha de SP) de 17 de março de 2013. Próximo ao recém-instituído (2008) dia mundial da conscientização do autismo, 2 de abril, não se pode deixar de celebrar qualquer espaço midiático que se abre para este que é um tema dos mais controvertidos. Escrito de forma coloquial, o reporter se apresenta desde o início como pai de uma criança autista agora com 12 anos e discorre com um tom às vezes áspero e sarcástico, outras cético e até melancólico sobre as agruras deste lugar revelando sua pesada bagagem no trato da natureza dos constrangimentos em torno desta “viagem”. Se há pontos de interrogações, debates ou mesmo disputas nos campos médicos e psi em torno das origens, do diagnóstico e dos “tratamentos” não é nada dificil imaginar como muitos destes pais ficam à deriva, batendo de porta em porta em busca de respostas  e direções. Em uma tentativa de discutir as implicações desse diagnóstico para a vida de uma criança e de seus pais, Vianna toma um atalho bastante pessoal ao percorrer seus impactos morais, pedagógicos e emocionais e, embora dedique algum espaço ao ressentimento diante do preconceito, celebra o auxilio dos recentes relatos de autistas na web e/ou produções literárias e cinematográficas de biografias sobre o tema. Ainda em uma jornada muito pessoal, critica e contrapõe as metodologias terapeuticas segundo uma abordagem cognitivo- comportamental ou psicanalitica e aponta as controversias em relação às recentes pesquisas na área médica que sinalizam fatores neurologicos ou genéticos. Como cada campo acena com suas “verdades” sobre o tema geralmente cabe aos pais (nem sempre com um consenso entre os conjuges) escolher (acreditar, apostar) em algum destes caminhos. A propria definição de autismo pode variar segundo a época e os grupos que se ocupam de pesquisa-lo e/ou oferecer tratamentos. Na linguagem acadêmica atual o autismo – que atinge quase 1% da população global - tem sido tratado como uma disfunção global do desenvolvimento que altera e afeta a capacidade de comunicação, de socialização (estabelecer relacionamentos) e de comportamento (responder apropriadamente ao ambiente). E para acomodar os diversos modos de manifestação e a gama de possibilidades dos sintomas mais recentemente cunhou-se o termo Transtorno do Espectro Autista. A psicanálise esteve desde sempre associada aos caminhos e descaminhos deste transtorno e muitos psicanalistas se dedicaram ao que lhes parecia ser um campo fertil de pesquisa sobre os primórdios da constituição do psiquismo humano, compondo relatos e teorias importantes através de suas clínicas. Mas, afora os quadros fenomenológicos descritivos, é provavel que o fato de não existir uma teoria consensual sobre o autismo pese sobre a respeitabilidade social das práticas, assim como pela manutenção do preconceito. Também é provavel que algumas das teorias no campo da psicanalise tenham contribuido para que certas representações culturais sobre o autismo fossem relacionadas à ideia de deficit, de impossibilidade, de um mundo psíquico desvitalizado ou de pais que não ofereciam as condições necessárias para um desenvolvimento “adequado”. Se, no entanto for possivel – como já acontece em alguns lugares - não engessar a “condição” autista com teorias fechadas e rígidas e tornar seu campo mais aberto a atendimentos feitos por equipes multidisciplinares, é provavel que não seja mais o adjetivo “vergonha” (destacado pelo reporter)  que abaterá  aos pais que descobrem ter um filho com este diagnóstico. Para a psicanálise em especial, toda e qualquer criança cumpre uma trajetória singular de desenvolvimento e constituição, ainda que nasça com alguma alteração genética.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Quem é a criança do século XXI?


Uma  manchete da Folha on line do dia 12 de março de 2013 chamava a atenção para as dificuldades de se colocar limites para as crianças. Um dos destaques do texto do caderno Equilíbrio era a pesquisa da mestre em educação e autora de "Limites Sem Trauma”, Tania Zagury para quem as famílias estariam sob o governo de uma tirania infantil. Baseada em um estudo com 160 famílias no início dos anos 90, ela afirmava que os pais dos anos 80 ao desejarem uma educação menos cerceadora para seus filhos, teriam perdido a medida. O título da matéria ainda sugeria um debate com especialistas sobre os motivos pelos quais seria tão difícil aos pais nos dias atuais, encontrarem a tal medida equilibrada para conter as birras ou as transgressões nos horários de alimentação, sono e estudos. Em geral diante de situações difíceis  tentamos fazer comparações entre épocas passadas e atuais, discorrendo sobre as desvantagens e vantagens de uma e outra. É claro que cada época traz uma nova leitura da realidade, novos parâmetros e valores. E há também novas leituras sobre os descaminhos humanos. Não há como negar que vivemos na época atual, uma crise geral de autoridade, em todos os níveis da sociedade. Mas as “crises” não significam fim e sim um remanejamento temporário de certas “verdades” instituídas. O problema é que em períodos de crise ficamos desamparados, quase sem referencias sobre certas ações, comportamentos e ideias antes tão claras. Não é fácil esvaziar estereótipos e dar lugar a novas maneiras de estar no mundo. Uma  “verdade” de nossa época é que jamais a infância foi tão valorizada, destacada, estudada, cuidada, etc. Não por acaso. Se há um bocado de razões, podemos sublinhar o fato de que a infância é mais do que em qualquer época de nossas vidas, aquela que parece ser definitiva dos rumos que cada um tomará. Assim, uma boa infância ou uma infância feliz seria uma espécie de garantia de um adulto satisfeito consigo próprio, com pique e ferramentas para enfrentar os percalços da vida. Quase todos os pais de hoje só se sentem realizados quando sua prole cresce e se transforma em adultos “felizes”. Mas certamente esta não é uma tarefa simples e muito menos fácil e é comum nos depararmos com o desamparo do adulto diante das exigências ou dos conflitos dos filhos, a quem eles próprios prometeram dar “tudo de bom e de melhor”. São pais que ora se sentem exasperados, ora  culpados ou  impotentes, e muitas vezes incapazes de educar sua criança. Na melhor das hipóteses, a não imposição de limites e o “medo” de desaprovação de sua função de pai ou de mãe faz com que muitos desistam de exercer sua responsabilidade e autoridade. Digo no melhor das hipóteses porque não se podem deixar de fora aqueles pais que abusam, rivalizam, violentam, ou seja, desrespeitam os direitos de suas crianças que por seu lado não têm como se defender da displicência, da irresponsabilidade nem dos excessos de amor e ira de seus pais. Difícil mesmo. Talvez a mais importante e mais complexa tarefa de nossos tempos: “criar” um novo ser humano.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Você tem um sonho?



Em uma entrevista concedida a Marilia Gabriela o diretor do filme “Colegas” que está estreando em circuito nacional confessa que a ideia de criar um roteiro protagonizado por atores com Síndrome de Down era um sonho antigo, uma homenagem amorosa ao tio materno, portador da mesma síndrome, de quem ele tinha lembranças intensas, de alguém generoso e muito divertido. Mais, seu filme deveria recriar o clima de aventura que ele guardava dos momentos em que brincavam juntos. Entre a ideia, o projeto (com tudo o que isso significa em termos de roteiro, seleção de atores, captação de recursos, etc.) e a consolidação do sonho, com direito ao premio de melhor filme no festival de Gramado de 2012, passaram-se sete anos. Na entrevista, realizada com o diretor e os três atores, Marcelo Galvão conta que sua intenção sempre fora tentar passar para o público os mesmos sentimentos que guardava em relação a sua convivência com o tio, ou seja, de como o laço amoroso que os unia ignorava as diferenças entre eles. Embora a Síndrome de Down - um distúrbio genético caracterizado pela presença do cromossomo 21 adicional em todas as células do organismo - seja bastante conhecida por suas características físicas específicas e pelo desenvolvimento geral mais lento de seus portadores, o comportamento e a personalidade de cada um ficam muito mais submetidos às influencias do meio familiar e cultural a que pertencem. Isso fica claro na entrevista dos três protagonistas que a despeito de partilharem algumas dificuldades, vão narrando suas historias de vida, com suas conquistas e dores, como as nossas. Ou seja, mostram que podem ser pessoas ricas ou pobres, cultas ou sem instrução, felizes ou infelizes. Se por um lado o filme pode circular exibindo apenas o rótulo de uma comédia romântica bem ao estilo “queremos, logo podemos” tendo como fundo a força dos sonhos de cada um, certamente os prêmios, o marketing e o espaço que a mídia está oferecendo a ele poderão funcionar como uma chamada ao polêmico tema da inclusão de pessoas com deficiência em diversos âmbitos da sociedade. Lembremos que essa é uma ideia nova, que tem apenas algumas décadas, e por isso mesmo está longe de amparar todos os que precisam desta “inclusão”. Destes, destacamos os pais, para os quais os desafios desta jornada são vividos com muito desamparo, inúmeras  incertezas, sentimentos confusos e contraditórios. O que fazer? Como oferecer a seus bebes um futuro promissor? O que é melhor, lutar para que sejam aceitos em escolas regulares e enfrentem as discriminações ou isola-los em classes ou instituições com seus pares? E quando alcançarem a adolescência? E se quiserem se casar?  Qualquer um que se puser no lugar destes que perguntam  poderá imaginar a dor que enfrentam e as diferenças com as quais cada família tentará contornar a perda do “bebê perfeito” e enfrentar a nova e inesperada realidade, que no mínimo lhes exigirá  muitas mudanças. Por isso, talvez o maior valor da ideia deste filme seja a sensível experiência de seu diretor, que graças a convivência amorosa com seu tio, soube ser possível transformar um pré-conceito muitas vezes tácito e silencioso, por isso mesmo mais danoso do que podemos perceber. 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O Papa é pop?


Na semana passada uma amiga muito querida com quem usualmente troco ideias sobre assuntos os mais variados, apostava que eu havia escrito sobre a renúncia do Papa Bento XVI. Fiquei alguns minutos em silencio, me questionando sobre as razões pelas quais isso não ocorrera. Eu havia arquivado em meu computador vários textos interessantes, li alguns deles, assisti a alguns programas que debatiam as possíveis causas deste ato inesperado, que como li em algum lugar, “causou um grande assombro pela novidade inaudita”, mas faltava-me motivação e por decorrência, inspiração. Domingo último, ao comparecer a uma missa de sétimo dia, fui surpreendida por minha escuta atenta aos textos falados pelo padre e pelos fiéis, pela leitura do evangelho, pela invocação do sacerdote pedindo a todos que se engajassem na campanha da fraternidade ou não se esquecessem da quaresma e seu significado de reflexão espiritual focado na oração, na penitência e na caridade. Não pude deixar de pensar que a igreja católica tem um numero significativo de seguidores no mundo todo (mais de um bilhão de pessoas) e que os papas católicos (que ainda mantém uma autoridade soberana) sempre ocuparam um lugar de respeito, tanto para o mundo das religiões quanto para o mundo laico. E se a modernidade nascida com o Iluminismo encorajou o homem a usar sua liberdade para conquistar sua autonomia e construir suas próprias leis ao invés de se submeter às leis de Deus, a Igreja católica sobrevive como referencia moral e suas “mensagens” continuam a ganhar repercussão e debates em diferentes níveis da sociedade. Quase no final da missa, um membro da comunidade daquela igreja pediu a atenção para alguns recados. Depois de elencar informes sobre datas e horários de eventos durante a quaresma, pediu licença para ler o discurso proferido pelo papa na ocasião em que este anunciou sua renúncia. Finda a leitura, convidou a todos a terem fé e a confiarem neste ato do sumo pontífice, invocando sua condição de mensageiro da palavra de Deus. Em resumo, a renúncia do papa seria também um desejo de Deus. Tal como um bom “líder”, ou um bom apóstolo, aquele homem tentava levar um alento àquela comunidade, dissipando os sentimentos de confusão e medo que imaginava povoar a mente da maioria dos fiéis (assim como a dele). A grande maioria dos textos divulgados pela mídia que debatiam o “assombroso” anúncio papal apresentava esta inquietude. Algum mal físico importante abatera o papa? Um sinal de declínio da igreja católica? Resultado de lutas políticas internas de poder? Fim do conservadorismo e anúncio de uma igreja mais moderna que discuta temas como homossexualidade, aborto, eutanásia? Preferi uma entrevista feita pelo caderno Aliás do Estadão deste ultimo domingo com o filósofo e professor Paolo Flores D’Arcais da Universidade de Roma La Sapienza, um intelectual de esquerda que em 2001 recebeu o ainda cardeal Joseph Ratzinger para um debate sobre fé e razão promovido pela revista italiana  MicroMega. Na época ocupando lados opostos em um embate longo e fervoroso aberto ao público, D’Arcais confessa para o repórter do Alias seu respeito ao “homem” Ratzinger e ao ato deste como papa, classificando-o de um gesto de "extraordinária honestidade intelectual". No seu entender, a renúncia do papa não teria como motivo alguma debilidade física, mas quem sabe uma falta de energia psicológica ("l’animo") para uma tarefa duríssima, de limpeza da corrupção que corre solta no topo da Cúria em meio às lutas fraticidas das facções (sem contar as denuncias frequentes de casos de pedofilia sem julgamento). Tarefas que se realizadas, o levariam irremediavelmente à ruptura com alguns de seus mais próximos colaboradores. Ou seja, ao papa faltaria o “gosto” pelo jogo político, este que é pura paixão para alguns, e que se faz necessário quando se ocupa um lugar de chefia, mas principalmente de tanto poder. No entanto, seguindo este raciocínio, a renúncia é o ato politico possível, e deve exigir de seus “pares” um confronto com tais conflitos ao mesmo tempo em que desperta a atenção do mundo sobre eles.