Formávamos um quarteto de amigas à espera de um
garçom que nos atendesse. Enquanto isso, a única avó da mesa saca seu celular e
passa a desfilar as fotos de seus três netinhos. Todas olham embevecidas as
caras, bocas e poses de cada um. Faz-se um ohhhhh geral. Sem conseguir evitar,
outra amiga tira seu celular da bolsa e mostra a foto de seus dois amores
estampada na capa. Que lindos, exclamamos duas de nós. Que pelos
maravilhosos!!! Eles parecem estar sorrindo! Indignada, a outra balança a
cabeça sem poder entender o entusiasmo. A dona dos cachorros sorri e comenta em
tom baixinho: “ela nunca teve cachorros, não sabe o que é isso”. O “isso” era
sem dúvida o sentimento comum que havia tomado conta de nós três que, ao
contrário, tínhamos muitas estórias para contar sobre nossos cães em nossas
vidas. O estranhamento desta amiga para quem os cães eram apenas animais como
outros quaisquer, no entanto despertou-nos a ânsia de explicar o que (para ela)
era inexplicável: como nossas vidas tinham sido afetadas por estas criaturas.
Passamos assim a contar estórias emocionadas, como se estivéssemos falando de
nossos próprios filhos. A dona da foto do celular que morava em uma casa em
Belo Horizonte descreveu seu dia a dia com aqueles que eram, por enquanto, seus
“netos” de 10 e 8 anos. Os filhos já haviam se mudado para compor novas
famílias, mas ainda não eram pais e os dois cães ocupavam o lugar das crianças
da família, o que os tornava assunto de interesse de todos. Pelo menos uma vez
ao dia seus filhos ligavam para saber notícias das “crianças”, fato que a
deixava muito empolgada, pronta para descrever entusiasmada as últimas peripécias
da dupla. Ouvindo-a narrar sua estória pensei (com meus botões) como a
experiência de ter esses “bichinhos” morando em apartamentos acrescentava
variáveis inimagináveis ao convívio entre os “donos” e seus cães. As lembranças
de Bob ainda estavam misturadas ao luto pela sua morte acontecida há dois
meses, depois de 18 anos de convivência diária e intensa. Bob era um Fox Paulistinha
(o amor pela raça herdamos de nossa querida amiga ribeirão-pretana Márcia),
conhecido por sua inteligência, que passou a dividir espaços conosco quando
meus filhos ainda estavam na pré-adolescência (8 e 12 anos) e rapidamente fez
de nossa casa sua casa. Tinha seus lugares, alimentos, objetos, odores e sons
preferidos assim como sabia comunicar aqueles que não faziam seu gosto. Ao
longo de nossa vida “familiar” desenvolveu comportamentos diferenciados que agradava
a cada um em particular. Sua vitalidade era invejável: ao som do interfone
corria à porta a espera da “visita” até que esta tocasse a campainha. Se se
anunciasse a possibilidade de algum passeio não descansava enquanto o fato não
se consumasse, ou seja, ia do local em que estava sua coleira até a porta,
voltava-se para o “anunciante” e repetia este percurso à exaustão (de todos). Quando
finalmente “vestia” a coleira, saía pelo corredor até o elevador saltitante e
satisfeito. Se faltasse água ou ração sabia bater com insistência nos
respectivos pratos para pedi-los. Morreu de velhice como quem não queria ir-se.
Em seu ultimo ano de vida, mesmo tendo perdido a visão e a audição, ainda
distinguia as pessoas e os locais pelo faro. Tinha se tornado membro “efetivo”
da família e era raro não ser tema de conversas animadas ao redor de mesas de
almoço ou jantar em que se discorria sobre suas surpreendentes estórias. Nossa
amiga desconhecia este mundo “novo” em que cães comportam-se de forma ajustada
a casa, à rotina e à convivência com seus “familiares”, se “humanizam” e entendem vários códigos de nossa linguagem. Cães
que adoecem e se alegram com seus donos, podem se deprimir ou serem “ansiosos”.
Cães que vivem como gente.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Nós na foto
Dia desses uma amiga, após ser convocada por si
mesma a passar uma informação que evitaria uma surpresa desagradável a uma
colega, comentou ironicamente que sua atitude tinha como objetivo maior
contribuir com a garantia de seu passe para o “paraíso”. Assim, em pequenas
“prestações”, ela apostava na conquista de certo sossego enquanto vivesse, já
que poderia contar com o conforto de acreditar que “Alguém” estaria pontuando
seu bom comportamento. Corta. Um conhecido que participou recentemente de uma
reunião em seu condomínio ficou espantado
quando num certo momento, em um efeito dominó, alguns moradores passaram a se
alterar e ficar mais violentos ao reclamarem seus direitos ou queixarem-se dos
incômodos do convívio coletivo. Suspirou aliviado, a seguir, diante da
intervenção sensível do síndico que, ao perceber que tais moradores precisavam
de uma atenção especial, soube se colocar como mediador dos conflitos,
oferecendo-se para ajudar a resolver algumas pendengas, sem se esquecer de
evocar aos reclamantes a parte que lhes cabia na política (sempre difícil, sem
dúvida) da boa vizinhança. Quem sabe algo que tenha faltado na história trágica
divulgada dias atrás, em que sem conseguirem resolver as crescentes desavenças
que só aumentavam o ódio de parte a parte, um empresário de 62 anos de posse de
seu 38, invadiu enlouquecido o apartamento de cima e matou a queima roupa o
casal de moradores, poupando de sua ira apenas o filho de um ano e meio.
Provavelmente sem poder suportar o que imaginava serem as consequências de seu
ato, apontou a seguir o revolver para si e pôs, assim, um “fim” a todas as
perturbações. Como sempre acontece em fatos tão inimagináveis à maioria -
justamente pela maneira obscena e banal com que a vida humana é tratada – espalham-se
indignações, mas principalmente medos e inseguranças já que qualquer um, de
qualquer lugar, pode ser portador de um excesso incompreensível de violência e
ódio. Mas quem sabe o “matador” não estivesse em seu estado normal, quem sabe
ele estivesse passando por problemas graves, ou portador de algum transtorno
psíquico? Não é o que revela sua esposa (e amigos) que atribui seu ato a um
“surto de loucura” circunscrito àquela situação. Claro que não podemos afirmar
muito sobre suas razões e/ou desrazões. Podemos somente reafirmar que faz parte
de nossos arquivos históricos, as inúmeras formas (a depender de épocas
históricas) de se fazer mal ao outro, de se deixar fazer mal e até de se fazer
mal a si próprio. Não há convívio sem conflitos e para vivermos todos precisamos
de um jeito ou de outro, negociar com nossa economia destrutiva tanto quando
ela se dirige a nós mesmos quanto aos outros. Mas assim como o que muda na
história são as formas do “mal”, para cada um de nós estas negociações ficam
atadas ao complexo processo de nos tornarmos gente. Na reunião de condomínio
citada acima, o síndico emprestou suas palavras para dar um sentido aos
distúrbios entre os moradores, delimitando ao mesmo tempo as responsabilidades
que cabia a cada parte, inclusive ao condomínio enquanto regulador desta
convivência. Também minha amiga negociava consigo mesma os “custos” de sua
solidariedade para com a colega. São estratégias de reconhecimento que, se por
um lado podem funcionar como moduladores da violência, estão cada vez mais
sujeitas à possibilidade ou não de existir um “outro”, um terceiro, capaz de
ajudar a constituir (no plano psíquico) ou fazer as vezes do espaço ético
necessário à convivência humana (no plano social). Nem a bondade nem a maldade
habitam lugares predeterminados em nossos cérebros. Elas são construções
categoria 3D Não nascemos bons ou maus. Comecemos,
pois pela admissão de que todos podem “cometer” o mal.
Curtir, compartilhar, excluir.
Dos filmes indicados ao Oscar 2013, apenas “Os
Miseráveis” estava na prateleira aguardando certa reticencia minha a encarar
esta versão musicada da obra de Victor Hugo. Talvez porque tendo assistido a
versão anterior estrelada em 2000 nos cinemas com Gérard
Depardieu encarnando Jean Valjean e John Malkovich o de seu algoz Javert, minha
curiosidade se restringisse ao esmero desta nova produção e ao recorte dado aos
cinco volumes da saga publicada pelo autor em 1862. Finda a sessão, no entanto,
percebi que minha resistência também passeava pela aridez deste período da
historia, por sua miséria real, social e moral. Sem recursos financeiros de
qualquer ordem, sem opções de trabalho, sem direitos, restava “aos miseráveis” franceses
acreditarem serem visíveis para um Deus solidário e benevolente. Se Deus se
importasse, não só valeria a pena viver, mas desejar ser um ser humano, e quiçá
melhor. A biografia de Victor Hugo impressiona não só pela sua extensa e
diversificada produção literária, ativa até o final de sua vida, (é dele p.e. “O
Corcunda de Notre Dame”), mas por seu ininterrupto engajamento nas lutas
políticas e ideológicas do século XIX, arauto declarado da democracia liberal e
humanitária. Exilou-se nas ilhas de Jersey e Guernesey durante todo o segundo
Império de Napoleão III (quase vinte anos), retornando somente após a sua
queda, muito aclamado pelo povo francês. Revisto assim, desde o século XXI,
Victor Hugo foi um destes homens de espírito livre em um tempo sombrio, que
ousou defender suas ideias, escreveu como e quanto quis e viveu apaixonado pela
vida, apostando em dias melhores. No entanto, assistir ao seu épico “Les
Miserables”, se pode produzir um grande desconforto pela dramaticidade pungente
daquelas vidas com destinos tão estreitos, também causa um grande alívio,
quando medimos quão distantes estamos deste mundo sem leis, sem liberdade, sem
oportunidades e porque não, sem conforto. De lá para cá, neste mesmo mundo,
promovemos grandes transformações físicas e sociais que nos permitiram
aumentar e muito nosso tempo para cuidar
e saber mais sobre nós mesmos. O próprio verbo “consumir” só tem sentido quando
pensamos que hoje, ao nascer uma criança, é muito provável que ela já venha
acompanhada de desejos de adultos que a anteciparam e sonharam para ela uma
vida cheia de bons momentos e muito sucesso. Seja lá o que isso possa significar
para cada adulto que investe sua criança com seus sonhos. A capa da revista americana
Times de 9 de maio de 2013 chamava a atenção para a Geração “Me Me Me” ou Millennials,
ou seja, aquele 1/3 da população mundial que nasceu entre 1980 e 2000 e que
possuem características próprias por seu uso da tecnologia e pela maneira com
que se relacionam com a felicidade. Esta geração que estaria desconstruindo de
forma radical antigas maneiras de viver mereceu uma extensa matéria que cruzava
resultados de diversas pesquisas e batizava-os de narcisistas (ou
autocentrados) e preguiçosos e, embora menos preconceituosos por conviverem com
uma diversidade maior de pessoas, mais alienados politicamente e com suas vidas
definitivamente atadas ao modo “rede” de funcionamento. Auto fotografar-se,
postar informações sobre onde se encontram, com quem, o que estão fazendo, o
que estão vestindo, comendo, pensando ou sentindo através de seus smartphones,
os define. Com um tom cético, a matéria não parecia vislumbrar um mundo melhor
“dirigido” por esta geração. A jovem americana Zara Kessler, de 22 anos,
editora de opinião da rede “Bloomberg” saiu em defesa de sua geração, marcando
as diferenças de épocas e lembrando que todas as gerações de jovens podem ser
analisadas sob o estranhamento dos adultos que foram jovens em tempos
anteriores. Mais que isso, ela pontuou algumas dessas diferenças, a começar
pelo plano dos ideais vigentes nas sociedades atuais, que estariam vetados à
sua geração como certas profissões antes celebrizadas, salários altos,
aquisição de casa própria e bens materiais, etc. Não haveria no horizonte do
mundo futuro, esta mesma aposta que já foi de gerações anteriores. Podemos
acrescentar aos itens citados o fato de que a tão badalada “autoestima” ,
caçada por sua geração como se fosse condição de sobrevivência, é antes de mais
nada um produto dos desejos dos pais. A felicidade que todos sonhamos para
nossos filhos os faz presa desta busca, o que na maioria das vezes não
corresponde ao que realmente sentem ou pensam de si. Ao contrário, é com muito
“suor” que os jovens desta geração buscam
reconhecer seus recursos, talentos e falhas para poderem, enfim,
vislumbrar alternativas possíveis de vida, de amores, de trabalho. No mundo de
Victor Hugo, muita coisa ainda precisava acontecer, mas a grande maioria hoje delas
nos parece óbvias. Zara Kessler, com seus 22 anos, não sabe ainda como vai ser
o mundo futuro. Nós também não. Mas vai ser muito diferente deste.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Porque não é tudo azul
Em 1987 Philip Tetlock, então professor de
psicologia e de ciência política de Berkeley (Califórnia, USA) resolveu
investigar os resultados de previsões que cientistas políticos e outros
pensadores faziam sobre fatos importantes (econômicos, políticos, sociais) que
aconteciam no mundo. Nessa época, começava a desmoronar o antigo império socialista
da União Soviética e dois anos depois cairia o Muro de Berlim, hoje vistos como
marco importantes de um novo período mundial. Após 15 anos de pesquisa, Tetlock
não só chegou à conclusão de que uma alta porcentagem das previsões destes
pensadores não se confirmava, como os discriminou em duas grandes categorias,
os “porcos-espinhos” e as “raposas”, a
partir dos resultados de questionários destinados a captar seus modos de
apreensão do mundo. Em resumo, os "porcos-espinhos” seriam os que
acreditam em certos princípios (grandes ideias) que regem o mundo e sustentam
todas as interações que ocorrem na sociedade. Já as “raposas” admitem a
fragmentação, acreditam em abordagens diferentes para um problema e tendem a
ser mais tolerantes em relação às nuances, à incerteza, à complexidade e às
opiniões discordantes. Para ele as “raposas” seriam os que conseguiriam fazer
melhores previsões justamente por não se encantarem com uma ideia grandiosa e
preferirem um exame mais minucioso e diversificado dos fatos (Caderno
Ilustríssima do dia 12/05/2013). Mesmo com as diferenças e uma avaliação mais
favorável às “raposas”, Tetlock reconhece ser a política um campo especialmente
suscetível a previsões infelizes devido aos seus “elementos humanos”. Em uma
recente entrevista, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman do alto de seus 88 anos
afirmava ter passado sua vida perseguindo um único e nobre objetivo, o de ser
capaz de compreender os seres humanos e o diálogo inter-humano. Conclui que nós
preferimos habitar um mundo ordenado, limpo e transparente, em que o bem e o
mal, a beleza e a feiura, a verdade e a mentira se encontrem nitidamente
separados um do outro e jamais se misturam, para que possamos ter certeza de
como são as coisas, aonde ir e como proceder. Gostamos de imaginar que os
julgamentos e escolhas possam ser feitos sem o árduo trabalho de nossa
compreensão. De certa forma Bauman afirma tal e qual Tetlock que temos uma tendência,
provavelmente protetora, de “ordenar” nossa apreensão do mundo de uma forma
mais simples e objetiva. Quanto à política, é hoje um tema dos mais viscosos, e
em quase a totalidade dos países, o “político” está de braço atado aos
interesses econômicos, sejam de empresas, do próprio Estado ou de seus
“jogadores”. A infinita complexidade da dimensão política fica esquecida e
mesmo a mídia, esquivando-se de um debate sobre as inconsistências ideológicas,
dá maior visibilidade às disputas de poder entre os de esquerda e os de
direita, os conservadores e os social democráticos, a situação e a oposição, os
privilegiados e os oprimidos, e assim por diante. Avaliações de “porcos-espinhos”,
diria o cientista americano, ou uma visão do mundo que tenta “ordenar” as
coisas para não provocar dúvidas ou desconfortos, diria Bauman. Sendo
a terceira maior cidade do mundo, São Paulo esbanja complexidade e deveria
convocar permanentemente o setor público para as suas deficiências e a população para debater suas questões mais cabeludas. Mas São
Paulo também exibe uma exuberante contemporaneidade cultural que a maioria de
seus habitantes mal reconhece. Ela é, por exemplo, a cidade mais nordestina do
Brasil, assim como possui a maior quantidade de negros. A Virada Cultural que acontece
todo maio e já foi uma ideia de outros governos deveria ser apartidária. Uma
ideia boa para todos não deveria ter dono. Aqueles que acorrem ao seu chamado e
se preparam para usufruir da sua extensa
e variada programação sabem bem que para curtir a Virada Cultural é preciso “compreender” seu sentido e deixar-se
afetar pela convivência com as diferenças em toda a extensão que esta palavra
pode ter: de classes sociais, de raças, de idades, de modos de viver, de
cantar, dançar, de comer, de chorar, de se alegrar e até de não gostar. Nem
“porcos-espinhos” nem “raposas”, nem um mundo muito ordenado, apenas gente disposta
deixar a vida cotidiana e se deixar surpreender.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Pais, filhos, família.
Um casal de amigos que, assim como tantos, enfrentou
as duras e conflituosas questões que acompanham as dificuldades de engravidar acabou
decidindo adotar uma criança. Passados alguns anos e muito felizes em seus
papéis parentais sentiram-se seguros para fazer uma segunda adoção. Na busca ou
espera de opções se depararam com um casal de gêmeos e se apaixonaram pela
ideia. Sua experiência foi tão satisfatória que abriu espaço para que um casal
de amigos seus, que enfrentava as mesmas dificuldades, decidisse adotar uma
criança. Coisas de destino, no abrigo em que escolheram seu “filho”, este só
poderia ser adotado se seus dois irmãos também pudessem ficar juntos. E foi
assim que de um dia para outro, eles se tornaram pais de três crianças, irmãos
entre si. O processo de adoção, embora seja uma prática antiga no Brasil,
sofreu transformações importantes nas ultimas décadas, principalmente a partir
da implantação do ECA (Estatuto da Criança e do adolescente) em 1990. Os
antigos “orfanatos”, quase depósitos de crianças abandonadas e órfãs foram se
transformando em “abrigos” e a guarda, a tutela e a adoção de crianças ganharam
normas e assistência de profissionais de diversas áreas – jurídica, social,
psicológica- que cuidam dos trâmites necessários a este processo. No dia 27 de
abril último, o Parlamento francês aprovou o projeto que permite tanto o
casamento entre pessoas do mesmo sexo quanto a adoção de crianças por casais
homossexuais, e o mundo assistiu surpreso os protestos indignados de uma parcela
bastante significativa da população de um dos países com mais longa tradição na
defesa dos direitos humanos. O que teria acontecido? Sem nenhum ineditismo, já
que vários países (não só da Europa) já aprovaram tal medida e em muitos outros
(no Brasil inclusive) estes processos (ou parte deles) tramitam no plenário, a
gritaria parecia informar alguma mudança drástica demais aos modos de viver até
então. Se atentarmos a uma certa revolução nos costumes, nem tão silenciosa,
não fica difícil voltarmos algumas décadas quando a conquista da igualdade do
direito das mulheres de viver suas vidas como bem quisessem transformou
o campo amoroso e sexual e ajudou a fundar uma nova maneira de entendermos a
constituição da família e seus sagrados lugares de pai, mãe e filhos. Nessa
ocasião muitos pensadores saíram a campo tentando prever o futuro destas
mudanças drásticas. Quais? Os anticoncepcionais permitiam as mulheres terem uma
autonomia antes inimaginável sobre sua maternidade e sua vida sexual. Aos
poucos as leis que regiam os casamentos - antes um projeto social amplo,
construído em longo prazo - tiveram que “desconstruir” o que
parecia tão natural, incluindo as leis sobre separações e divórcios. Tais
liberdades abriram caminhos para que os homossexuais que viviam às sombras das
sociedades pudessem inicialmente tímidos e depois com muita gana brigar por
seus direitos. Em geral a promulgação de uma nova lei acontece quando na
cultura aqueles comportamentos já estão em voga. Homossexuais de quase todos os
países democráticos não só vivem maritalmente como muitos adotam crianças. É
provável que a barulheira em torno da consolidação destes direitos tenha suas
motivações em certa crença difícil de ser desconstruída: a de que nossa família
não se funda mais em uma ordem natural, biológica e heterossexual, em que um
“macho” deve copular com uma “fêmea” para que nasçam os filhos, perpetuando
assim a espécie, os ritos e a tradição. Neste sentido demos mais alguns passos
no afastamento de nossa “animalidade” em
direção a uma cultura humana, baseada em critérios sociais. As crianças vão
precisar ser “adotadas” – em um processo de se tornarem filhos- e os pais terão
que construir sua parentalidade, ou seja, “adotar” suas crianças sendo elas
filhas biológicas ou não.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Desejar, falar, pensar, sonhar, fazer.
É comum aos que curtem
cinema preferirem assistir aos seus filmes em boas salas, que ofereçam uma
excelência de som e de imagens e assim facilitem o processo de envolvimento que
a história vai apresentando, a ponto de muitas vezes se torcer para que o filme
não termine, que se prolongue infinitamente. Claro que este tipo de mágica
acontece quando há alguma identificação com os personagens ou com o tema
apresentado. Foi esse o clima que vivi ao assistir a poucos dias atrás “Depois
de maio”, do diretor francês Olivier Assayas. Reticente no início, imaginando
tratar-se de mais um retorno (nostálgico?) ao cultuado ano de 1968 e sua marca
revolucionária, foi decisivo o número de estrelinhas que acompanhavam seu título
nos guias divulgados pela imprensa. Como prefiro me surpreender a me antecipar,
não li resenhas ou críticas que pudessem diminuir as dúvidas. Fui. De lambuja
convidei uma amiga que também curte cinema. Finda a sessão senti-me
constrangida em demonstrar de forma muito efusiva minha (agradável) surpresa
com a abordagem que o filme faz sobre um período importante de minha geração e
de minha vida. Não precisei. Ela estava emocionada e se antecipou ao verbalizar
seu pesar pelo término do filme. Queria que ele continuasse, que mostrasse as
cenas dos próximos capítulos de sua vida. Tivemos que eleger um lugar para
podermos falar uma à outra sobre este impacto. Uma entrevista no jornal Valor
(28/04/2013) confirmava ser o filme uma maneira de o próprio diretor questionar
este período de sua vida, o histórico anos 70, anos em que cabia aos jovens
protagonizarem mudanças importantes ou se alienarem sob os véus da tradição,
tamanha era a vala que parecia se formar entre o estabelecido e as
transformações por vir. Lá estavam tanto o apelo ao engajamento político com a
promessa de um mundo melhor e mais igual, que cobrava um envolvimento
ideológico absoluto, quanto o movimento da contracultura que questionava os
valores morais tradicionais e incentivava as experiências de libertação pelo
amor, sexo ou drogas. Entre estes cabia ainda a todos decidir sobre suas realizações
pessoais, seu futuro. Como se pudesse voltar e espiar a si próprio neste
passado, o diretor preferiu não “romancear” a época nem glamourizar algum destes dois lados e aproveitou este
distanciamento para refletir sobre os desejos,
dúvidas e inseguranças dos jovens, quem sabe em busca de indícios que
antecipassem a candura e a inocência daquela aposta em ideais humanitários tão
elevados ou em modos de vidas tão alternativos. No filme, ao eleger Gilles como
seu alter ego, empresta ao personagem a possibilidade (que talvez os jovens
imersos nestas mudanças não conseguissem) de uma vista aérea de sua vida,
dando-lhe assim a chance de debater suas escolhas. Ainda que se saiba que a
“juventude” é um período (legítimo, diga-se) de suspensão, transição e passagem,
Gilles encarna o adolescente “ideal” que busca de forma equilibrada um lugar para
si no mundo, e tenta tirar o melhor dos dois lados. Nesse sentido é como se o
diretor constatasse que nestas poucas décadas tivemos que nos haver (às duras
penas) com esta promessa de felicidade (de um mundo perfeito com pessoas
satisfeitas), que está longe de ser um estado a se conquistar já que o desencanto,
os obstáculos, os reveze e as lutas para uma vida que valha a pena ser vivida fazem
parte do pacote. Mas também de que estamos mesmo em um novo mundo, com um novo
corpo, outra sexualidade, ética e moralidade e com modelos sociopolíticos
caducos. Neste balanço entre seu passado e o presente - que o diretor
convida-nos a participar - parece reverberar a citação do pensador francês Blaise
Pascal proferida na primeira cena do filme pelo professor de literatura: “Entre
nós, o inferno e o céu, há somente a vida, que é a coisa mais frágil do mundo”.
Um convite à busca de novos sonhos e novas referências poéticas, já que aquelas
que deram sentido aos anos setenta perderam seu prazo de validade.
Para conferir: “Depois de Maio”
(Après Mai) França 2013
Diretor: Olivier Assayas
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Entre utopias e nostalgias: os laços amorosos hoje
Como se vê, a despeito dos dois
filmes terem produzido suas marcas por vias controversas, ambos contaram com
uma identificação significativa do público, como a mostrar que o que se passava
na tela podia acontecer com as pessoas que habitam este mundo real e atual. Sem
dúvida há um imenso acervo de histórias filmadas que privilegiam os conflitos,
dores, dramas e anseios que giram em torno das relações amorosas. Não por
acaso, já que ocupando uma grande fatia do cotidiano das vidas de quase todos, a
paralisia (ou a angústia) de se perceber totalmente incompetente para fazer e
manter laços, a agonia de suportar a ausência ou os ciúmes, as inseguranças
frente as incertezas do sentimento do outro, ou do seu desejo, as dores de se
saber não poder ser exclusivo para o outro, demonstram ser os laços amorosos um
tema central, assim como seus tortuosos caminhos de busca e conquista, um dos
mais discutidos.
As “utopias” e as “nostalgias”
citadas no título acima, ou melhor, certos olhares que damos ao futuro ou ao
passado como mantenedores de ideais - sejam eles quais forem- poderiam ser nossas
ilusões, sem as quais nossas vidas se tornam áridas. Se utilizarmos estes dois
termos como báscula do espaço ocupado pelos laços amorosos, é possível destacar
tanto a visão nostálgica dos que lamentam viverem privados do romantismo
apaixonado do início da modernidade, quanto os que o vivem como uma “utopia”,
mantendo tal ideal como único sinônimo da felicidade a ser conquistada.
Sem muitas referencias sobre o
destino destas apreensões, há os que refletem os laços amorosos humanos prevendo
um futuro desastroso, frente a um sujeito “líquido”, sem interioridade ou
capacidade de reflexão de si, colecionador de sensações, absorvido em si
próprio e cujas relações seriam efêmeras. No livro “Amor líquido” o sociólogo Bauman traça um painel da “misteriosa fragilidade
dos vínculos humanos, do sentimento de insegurança que ela inspira e dos
desejos conflitantes de apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos”. Abandonados
aos próprios sentidos e sentimentos, todos ansiariam pela segurança do
convívio, mas em geral não suportariam ou não se sentiriam aptos a isso. Tal
“incompetência” criaria um impasse na questão amorosa da atualidade, onde o
ideal de felicidade atribuído a esta, teria que conviver com as
impossibilidades na manutenção de vínculos, oscilando entre o sonho e o pesadelo,
entendendo-se aqui os prazeres do convívio e os horrores da clausura.
Sem desconsiderar tais análises
importantes e legítimas ou mesmo a complexidade das relações humanas na
atualidade, fica a pergunta sobre o paradoxo da manutenção do desejo das relações
amorosas, que desde a modernidade, resiste às transformações culturais e persiste
em sua cadeira cativa de ideal de felicidade. Para o bem e para o mal, ou ainda
por motivações conscientes e inconscientes diversas, a grande maioria deseja se
ligar amorosamente a um outro, quem sabe porque, como afirma Bauman ,estar
apaixonado ainda faz ressurgir a fé na regularidade do mundo e na previsibilidade
dos eventos, indispensáveis para a manutenção de nossa ilusão.
A ilusão e seu lugar no imaginário
humano foi tema das preocupações de Freud para quem a vida sem ilusões seria
impossível, já que não seria alimentada pelo desejo que nos humaniza. Mas, se é
possível utilizar adjetivos banais, há as “boas” e as “más” ilusões, e as “boas”,
segundo Lajonquiére, seriam as que não mascarariam a marca da fragilidade de
nossa existência e não formatariam a distância entre nós e os ideais que dão
sentido à nossa vida. Seguindo tal raciocínio, poder-se-ia dizer que a aposta freudiana
em uma subjetividade mais ciente de sua fragilidade em parte teria se realizado.
Ponderemos. Não há como nos esquecer de outra afirmação freudiana que aponta
nosso desamparo humano, baseado na premissa de que ao nascer, precisamos de
cuidados de um outro para sobreviver, o que criaria para sempre a necessidade de
sermos amados. Na base dos laços humanos estaria, portanto, a necessidade de ser
reconhecido, cuidado e amado. E mesmo vivendo hoje o apogeu da ideologia do
individualismo com nosso Eu a ocupar o lugar que antes pertencia à natureza ou
a Deus, desejamos amar e ser amados e continuamos a buscar as melhores maneiras
para isso. Se ousarmos encarar os sujeitos contemporâneos não pelo que deixamos
de ser – até porque isso implicaria em uma norma de existência e, portanto,
numa descrição moral - mas no que nos é possível, lembrando que somos sempre
produtos da cultura que produzimos, abrimos espaço para pensar mais livremente sobre os arranjos psíquicos dos laços
amorosos atuais. Vale dizer que a intenção é propositalmente modesta, apenas
uma tentativa de investigar e decifrar as regras da nova gramática amorosa,
tendo como base os filmes citados.
Em meados de 1996, o diretor Richard
Linklater apostou em sua boa ideia e convidou os atores Ethan Hawke e Julie
Delpy para serem coautores (além de atores) no roteiro de dois filmes, rodados
em dois tempos reais com os mesmos atores. Na verdade uma historia de amor que
seria filmada em duas etapas, com intervalo de alguns anos (acabou sendo de
nove anos), sendo que a primeira deveria se passar no romântico cenário de
Viena e a outra em Paris. No primeiro filme, Jesse um americano e Celine uma
francesa se conhecem num trem que corta a Europa e decidem passar uma noite
juntos em Viena, local onde deveriam se separar. “Antes do amanhecer” (título
do filme) eles voltam à estação de trem onde ela deverá seguir viagem à Paris
e, sem trocar telefones, endereços ou sobrenomes, fazem uma promessa
“apaixonada”: iriam se reencontrar ali, na mesma estação daqui a seis meses.
Uma prova de amor?
Este seria o ponto de partida para o
próximo filme. Nove anos mais tarde, Jesse escreveu um romance em que narra a
sua história com Celine, e está em Paris para lança-lo na charmosa livraria Shakespeare
and Company. À pergunta de um jornalista sobre o que teria acontecido com os
personagens de seu livro, referindo-se ao fato deste terminar com a promessa de
um encontro, Jesse responde que isto dependeria da visão de cada leitor, se
cínica ou romântica. Mas a despeito de sua resposta cética, as intenções do
diretor era mesmo se chafurdar no romance ao fazer adentrar nesse momento, ali na
livraria onde acontecia o lançamento, a linda Celine. O fato pouco usual de
serem dois filmes feitos com os mesmos atores encarnando os mesmos personagens
em diferentes tempos de suas vidas, sendo eles também co-roteiristas, dá um aspecto de veracidade
que fisga de imediato o espectador. No primeiro filme, ainda adolescentes, eles
falam de suas vidas, de seus projetos. A paixão é inocente, insegura, desprevenida
e traz a aposta de um novo encontro às escuras, próprio dos sonhos onipotentes
dos jovens. Na sequencia eles estão mais velhos, seus rostos mostram as marcas
dos anos e seus diálogos as responsabilidades do mundo adulto. E é com
sutileza, respeito e cuidado que vão contando um ao outro (tendo as ruas de
Paris como cenário) sobre seus sucessos e fracassos, os ajustes que tiveram que
fazer em seus ideais de juventude, e finalmente a importância daquele encontro
passado, em suas vidas. Esteticamente belo o filme convida o público a se
identificar com os personagens na intimidade dos laços amorosos que são
construídos ali, ao vivo. Viena e Paris estão entre as mais belas molduras e
habitam o imaginário da maioria das pessoas como cenário de grandes romances. A
câmera acompanha os personagens a pouca
distancia, captando olhares, sorrisos, palavras, gestos e convoca o
público a testemunhar o envolvimento de ambos e o impacto do encontro vivido no
filme anterior, para a vida de ambos. Aquele encontro no passado
transformara-se em uma referencia para o futuro. O mais inovador, no entanto
seria a espontaneidade com que Jesse e Celine falavam de si, de seus medos,
conflitos, inseguranças, e da tranquilidade com que refletem sobre suas escolhas,
ilusões, conquistas e fracassos, seus projetos frustrados, enfim sobre o que
acontece na banalidade da vida de todos,mas que tem o peso de ser o que
importa. Mais que isso, em seus diálogos há um interesse genuíno de cada um
escutar o que outro tem a dizer.
Em“Closer” , filme do diretor Mike
Nichols, dois homens e duas mulheres vão viver encontros, desencontros, uniões
e rupturas numa combinação de sexo, paixão, traições, vaidade e rivalidades,
compondo uma crônica da complexidade das relações amorosas humanas atuais.
Aqui, desejo, amor e o sexo são apresentados formando várias composições
diferentes e possíveis e os personagens estão às voltas com o desafio de
combinar as imposições de seu individualismo com suas faltas e ideais. Não há julgamentos
morais sobre suas escolhas, consistindo aí o encanto do filme, por deixar o
público à vontade para viver seus próprios sentimentos, ao identificar-se aqui
e acolá com o drama dos desejos humanos.
Passado em Londres, seu cenário urbano
é o das grandes metrópoles atuais, portanto global, e conta a história do
entrecruzamento de quatro personagens. Dan é um escritor frustrado que escreve em
obituários de um jornal e se envolve com Alice, uma stripper americana, após um
acidente em que ele a socorre. Tempos depois se preparando para o vernissage do
romance que escreveu sobre seu relacionamento com Alice acaba atraído por Ana,
a fotógrafa que fará a capa de seu livro. Ana percebe seu interesse e inicia um
jogo em que o rejeita a princípio, pois também fotografa Alice. Não querendo e
nem podendo esquecê-la Dan decide intervir em sua vida armando um encontro via
um site de relacionamento da internet entre ela e o dermatologista Larry (com o
qual mantinha um chat disfarçando-se de mulher), ao qual pretende monitorar a
distancia. A partir daqui, os espectadores acompanham os enlaces e desenlaces
amorosos dos quatro personagens em que questões difíceis vão sendo apresentadas
como painéis do repertório amoroso atual: como cada um define para si o que
representa apaixonar-se por alguém, o que quer ou deseja desta pessoa, o que
acontece quando um dos dois desiste, ou trai, como é ouvir o outro falar de
seus sentimentos mais íntimos, mas que perturba e fere, etc. “Closer” previlegia os impasses das ligações
amorosas, desde a insegurança da solidão e, portanto, a expectativa de
enlaçar-se amorosamente com alguém, à insegurança que a relação provoca. Na
falta de garantias, ou na tentativa de controlar o jogo amoroso entra-se facilmente
no terreno das humilhações e/ou da arrogância, da submissão e/ou poder
absoluto. A titulo de ilustração, durante a realização deste texto, foi enviado
via e-mail para dez pessoas de idades e sexos diferentes e que assistiram aos
filmes, algumas questões para que relatassem em poucas palavras suas impressões.
De um modo geral, a repercussão dos
filmes para elas se deveu ao fato de evidenciarem tanto os valores admitidos e
compartilhados num plano social, como os vividos na intimidade, hoje mais livres
dos cerceamentos morais, o que daria o tom de legitimidade que todos lhe
atribuem. O fato das relações amorosas se passarem no espaço da privacidade
aponta para as questões morais individuais, que na atualidade estão muito mais
submetidas aos critérios subjetivos de cada um. Os filmes mostram como estas
questões dependem e precisam ser negociadas entre os parceiros, e seus custos,
renúncias e riscos, indexados conforme as possibilidades e limites de cada um.
A saga romântica dos filmes de Richard Liklater coloca os ideais amorosos a uma
distancia possível, o que funciona como um alento para jovens e adultos que se sentem capazes de poder viver/sentir o
mesmo. Ali são mostradas de forma delicada as marcas de certos encontros que
tem o poder de nos remeter ao mesmo tempo ao “passado” da experiência prazerosa
e ao “futuro” do que desejaríamos que acontecesse. Muitas pessoas apontaram as
diferenças de gênero que ambos os filmes evidenciam, ou seja, de que os
personagens são compostos levando-se em conta que os homens agem, pensam e
sentem diferente das mulheres, a despeito da simetria da liberdade amorosa e
sexual de ambos. O fato de hoje os
sujeitos terem mais liberdade para viver separadamente amor, casamento e sexo amplia
as possibilidades de composições de experiências que são articuladas tanto às
questões de gênero, quanto aos ideais. Se é verdade que há um certo alargamento
do presente e portanto um aumento das experiências, pelo menos no item amoroso
as referencias nostálgicas ou as categorias
de um porvir não desapareceram. Sabemos o quanto faz parte da linguagem
amorosa, as promessas, compromissos e perdões. Assim também como é patente a
busca de segurança e conforto nestes enlaces.
Estes comentários são apenas uma
amostra do que seria possível levantar
em um mapeamento das relações amorosas na atualidade, um vasto campo de pesquisa justamente por se
constituírem como um valor que se mantêm impermeável às mudanças de outros. De
qualquer forma, apesar da manutenção do laço amoroso como um ideal de
felicidade, ficam evidentes as mudanças da relação dos sujeitos com este ideal
na atualidade e é fato que o laço amoroso permite às pessoas partilharem de um
horizonte de sentido que, ainda que seja ilusório, oferece chances de
construção de um futuro ou de novas “utopias”.
Texto apresentado no X Encontro Psicanalítico
do CPPL - Recife “Novos temas para a Psicanálise?!” 26, 27 e 28 de maio de 2005
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