domingo, 13 de outubro de 2013

Somos tão jovens

Dias atrás, uma notícia na mídia que divulgava a nova orientação para psicólogos americanos sobre a extensão da adolescência até os 25 anos, ao invés dos 18 anos, abria um debate sobre a infantilização dos jovens, levando em conta especialmente o alongamento do período de sua permanência na casa dos pais. Não é dificil confirmar estes dados estatisticamente e é provavel que a tal mudança de diretriz estivesse « atualizando », ou melhor, ajustando as políticas públicas para garantir por um período maior uma assistencia diferenciada aos jovens no campo educacional, social, médico e jurídico. Como sempre acontece, as leis precisam contemplar as mudanças da cultura, que nas últimas décadas alteraram e muito o vetor de nossas crenças e parâmetros. Mas imaginar que os jovens já não aspirem mais tornar-se independentes pode ser uma ideia reducionista quando analisamos quão « jovem » é a estética do mundo contemporâneo. Se os oráculos de Delfos significavam para os gregos antigos um recurso (sagrado) para a obtenção de respostas sobre problemas cotidianos, questões de guerra, vida sentimental, previsões de tempo, etc, hoje para decifrar o futuro a mídia fareja as novidades sem fim que surgem do mundo jovem. A máxima de que o que importa para os jovens é o presente estendeu-se para todos. O mundo atual nos convida a viver o mais que pudermos, a desfrutar de tudo o que conseguirmos, a buscar  prazer no que fazemos, a sermos feliz, etc. Seguindo esta lógica, desde o instante em que nascem desejamos que nossos filhos sejam lindos, inteligentes, carismáticos, felizes, competentes, amados, magros. E o que querem os jovens hoje? Entre outras coisas buscam aflitos uma maneira de cumprir tantos ideais. Se as gerações anteriores precisavam ralar para se safarem dos valores preestabelecidos e cultuados pelos pais e sociedade, rasgando os protocolos e rompendo com os constrangimentos sociais, a geração de jovens hoje precisa encarar o fato de que o futuro está em aberto e tudo pode ser possível. Paradoxalmente isso tem sido motivo de muito desamparo e aflição (pânicos, depressões, drogas), já que para se tornar “gente” é preciso construir um “eu” que dê conta do recado, ou melhor, dos inúmeros recados: seja do mundo interno, sempre tumultuado com suas paixões, dores, medos e desencantos, um mundo que jamais é silencioso ou isento e quando isso acontece convém desconfiar ser uma tentativa (muitas vezes sintomática) de controlar e/ou se proteger do tumulto ; seja do mundo sociocultural com suas inúmeras demandas de competencia, que exige ainda um saber se colocar diante dos outros e a construção de um lugar para si que possa ser reconhecido tanto no plano profissional quanto no amoroso. Difícil encarar a vida sem se anestesiar ou enlouquecer. Se admitirmos que a família já não tem o mesmo peso na definição dos destinos (o plural é importante ) dos jovens, ao mesmo tempo em que isso pode abrir portas inusitadas e importantes, também pode paralisar e engessar. Muitos jovens se sentem insuficientemente preparados para um futuro que depende tanto deles para ser construído. Se tal afirmação pode explicar em parte o aumento desta “gestação” do jovem antes de se “jogar” no mundo em busca de um futuro, é verdade que nós, pais, também vivemos nossas incertezas e ficamos muitas vezes entre a constatação (e a frustração)  de que nossos pimpolhos não estão preparados e a agonia diante do que fazer para ajuda-los/incentiva-los a decolar. A boa notícia é que a grande maioria dos jovens faz uso de uma nova prerrogativa ao construir redes de amizades que podem funcionar como suplência interessante para o debate de suas questões

As teclas pretas das teclas brancas


Em minha família, pianos abertos, prontos para serem tocados por quem quisesse era (e ainda é) uma cena comum. Tínhamos um em nossa casa, em cada uma das casas de nossos avós e de muitas de nossas tias. Quando éramos pequenos, minha mãe, que havia se formado no Conservatório Dramático e Musical de Araraquara, costumava tocar as músicas de um maravilhoso álbum de Chopin lançado por ocasião do filme sobre sua vida - À noite sonhamos (1945)- com a seleção da trilha sonora. Por conter muitas fotos de cenas do filme, adorávamos folheá-lo, e embora tivéssemos nossas preferencias – Noturno n 2, o Estudo Revolucionário ou o Estudo das teclas pretas, por exemplo - era impossível decifrar aquelas bolinhas pretas, cheias, vazias, com hastes, junto com muitas ou separadas que seguiam por espaços de linhas pelo álbum todo. Não me lembro de quem me ensinou a tocar o “bife”, uma espécie de introdução ao teclado de um piano, mas lembro-me bem de meu orgulho quando me punha a toca-lo sempre que tivesse alguma plateia. Sentia-me muito sabida por poder arrancar um som agradável e conhecido daquelas teclas brancas, mas principalmente das pretas. Parecia natural, portanto que aos cinco anos eu começasse a ter aulas de piano com Dona Eda, uma jovem mulher muito alta, que morava com sua irmã e sua mãe bem enfrente ao comércio de meu pai. Não conheci nenhuma professora tão doce e tão preparada para ensinar crianças pequenas a ler aqueles hieróglifos musicais e sei hoje que devo à sua imensa paciência o fato de eu ter me formado em piano. Como naquela época eram necessários 9 anos de estudos para se obter o diploma, depois de alguns anos tive que me despedir de minhas aulas particulares com Dona Eda para ingressar no Conservatório Musical da cidade. Um marco que sublinhava minha passagem à pré-adolescência com novos e mais difíceis destinos. Deixava para trás com muita dor na alma, não apenas minha querida professora, mas alguém especial, que sabia exercer com maestria a difícil tarefa/arte de ensinar, em uma combinação de delicadeza, reconhecimento pontual de minhas aquisições e muito jogo de cintura para com a pesada disciplina exigida para este aprendizado. Uma de suas estratégias era colocar balas deliciosas encima das mãos enquanto eu tocava e se eu conseguisse não derruba-las poderia levar para casa em dobro. Nem tudo eram flores. Muitas vezes “emburrei” nos degraus da varanda exigindo que ela, no devido tempo, fosse me convencer a voltar e tentar novamente. Assim como a máxima que diz que governo bom é governo invisível, que não nos impõe sua presença, Dona Eda trabalhava nos bastidores. Tudo o que me lembro dela passa por este canal amoroso de sua aptidão para transmitir seu conhecimento sem fazer alarde. Uma das questões que mais se debate nos dias de hoje é como e quais valores deveriam ser transmitidos de geração a geração, que possam servir de ferramentas para uma vida “bem vivida”, um convívio entre pessoas minimamente  respeitoso. É natural que muitos se lembrem de como a educação tradicional privilegiava a transmissão de comportamentos virtuosos geralmente baseados em alguns ideais já estabelecidos e coletivamente cultuados. Mas as rupturas com estes ideais foram de tal ordem que temos dificuldades para dimensionar a nova realidade que nos circunda e entender seus múltiplos aspectos. Desconfiamos que ficou muito mais complexa a tarefa da transmissão entre gerações e que não será o contato com os objetos ou ferramentas que farão crianças melhores, mais inteligentes ou felizes, mas como estes objetos/ferramentas  serão mediados por adultos capazes de fornecer significados e ajustes importantes ao que ainda não sabem. Em qualquer piano aberto pode-se dedilhar o bife. Alguns sabem toca-lo, ou a temas musicais de seu gosto. Muitos não se atrevem. Outros tantos sabem TUDO de música e podem tocar não só piano como qualquer instrumento. No inicio do aprendizado utilizamos muito mais as teclas brancas e à medida que a harmonia aumenta em complexidade é que as pretas passam a ser utilizadas. As teclas pretas são os meios tons entre uma tecla branca e outra, ou seja, podemos inclui-las para aumentar as opções de modulações do som ou tocar apenas as notas básicas que todos conhecem. Não sei se eu teria continuado a estudar piano se não tivesse tido meu pré-primário com Dona Eda. Foi ela quem me “revelou” não a música, mas a beleza da música e me transformou em alguém apaixonada por ritmos, sons especiais, inaugurando um espaço novo e importante no meu conjunto. Talvez a tarefa desafiadora de qualquer adulto contemporâneo seja a de se preparar para ser este decifrador para os pequenos, mas sabendo que é preciso começar pelas teclas brancas para quem sabe chegar às pretas.

 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Em busca das origens


Por uma feliz coincidência, em visita ao Rio de Janeiro no mês passado pude ver no Jardim Botânico a exposição Gênesis, com as majestosas fotos do fotógrafo Sebastião Salgado, que agora aportam na cidade de São Paulo. Nas palavras de Jô Soares que o recebeu em um programa todo dedicado a ele, Salgado é um patrimônio cultural brasileiro, um fotógrafo mundialmente conhecido e várias vezes premiado por seu trabalho sempre implicado com a condição humana global. Mas quando explica este último trabalho – Gênesis - Salgado lembra que apesar do nome remeter às origens, o projeto que durou 12 anos (quatro de planejamento e oito fotografando em diversos países), fecha um ciclo e só poderia ter acontecido após todos os anteriores, das guerras na África, aos refugiados e ao seu trabalho intitulado Êxodos . Como alguém que foi afetado, ele adverte ainda assombrado, quão importante seria cada um de nós, habitantes deste planeta, cumprirmos com a nossa quota de cuidados para a sua preservação. É interessante que ele faça uso de sua imagem para falar sobre este tema tão debatido, mas ainda tão reservado aos militantes ecologicamente corretos, chamando a atenção sobre o lugar de “natureza” que ocupamos no universo. Aos 69 anos, Salgado se proclama um privilegiado por ter podido visitar nestes últimos anos lugares remotos do globo, muitos deles ainda desabitados ou de difícil acesso e parece desejar tocar os espectadores ao revelar as maravilhas que permanecem imunes à aceleração da vida moderna. Nas conversas com amigos que também viram as fotos, alguns lembraram que Salgado havia passado por momentos difíceis após seu trabalho de 2000, Êxodos, confrontado que foi com pilhas imensas de pessoas mortas que o fizeram “morrer” em vida. Tal e qual os que sobreviveram ao holocausto na segunda guerra mundial, mas ao custo de “morrer" em vida, Salgado conta que não podia mais se imaginar investindo em algum novo projeto fotográfico. Quando se vive a violência entre humanos representada na sua mais pura brutalidade, fora de qualquer consideração ética, desaparece de nosso horizonte a ideia de que somos especiais, diferentes, superiores. Talvez por isso ele se refira ao novo projeto como aquele em que buscou fotografar “outros animais”  e outra natureza, ainda não tocada pelos humanos, e só agora, depois desta jornada em que foi apresentado a esta parte desconhecida do planeta, pode falar sobre ele. Se é verdade que como animais “humanos”, estamos em permanente interrogação na busca de algumas certezas que ora nos parecem tão próximas e óbvias, ora desaparecem e transformam-se em novas perguntas, ficamos com a impressão de que Sebastião Salgado  reencontra um sentido para sua vida.

Para conferir: Gênesis -  Sebastião Salgado (Curadoria: Lélia Wanick Salgado)

Onde: Sesc Belenzinho São Paulo,  até 1 de dezembro de 2013.

Quanto: Entrada franca

Um pouco do que somos no que seremos


 
Desde o seu lançamento nos USA, o tão esperado filme sobre a vida de Steve Jobs, o criador da Apple e um dos maiores gênios da tecnologia contemporânea, tem frustrado a maioria das expectativas. Em cartaz desde o início de setembro/2013 no Brasil, “Jobs” parece desfrutar de uma espécie de consenso quanto às (más?) escolhas feitas por seu diretor diante das 632 páginas da biografia publicada em 2011 logo após a morte do protagonista. Em um rápido passeio pelas resenhas de alguns críticos as cobranças concentram-se tanto na falta dos fatos importantes de sua carreira como de detalhes de sua vida pessoal como os conflitos com seus colegas de juventude que tanto contribuíram para seu sucesso. Embora tenha assistido ao filme já contaminada por estas impressões e sem grandes expectativas, não posso dizer que não tenha me surpreendido. As primeiras cenas já anunciam (ou denunciam) o recorte pretendido pelo diretor. Em seu compasso diferente e solitário, Steve estaciona o carro e, como faz usualmente, dirige-se calado, sem olhar para os lados, a um pequeno e lotado auditório onde é ovacionado e anuncia ao microfone a mais recente e bombástica criação da Apple: o I-Pod. Ao final de um discurso rápido, mas orgulhoso, ele retira de seu bolso um aparelho que promete armazenar mil músicas em formato digital. Era o ano de 2001. Enquanto assistia, fiz rapidamente a conta desses 12 anos e pensei, emocionada, como esta invenção havia mudado para sempre a vida de pessoas comuns (como eu), amantes da música. Motivo de chacota de meus familiares, antes desta data e durante uns bons anos eu havia produzido ao menos oito fitas cassetes que pudessem compor um mix de minhas músicas preferidas, retiradas pacientemente de meu acervo de CDs. Em muitos momentos do filme, Jobs vai reiterar este propósito antecipatório, ao realizar desejos que nem sonhávamos que tínhamos. Sonhos de uma vida mais prática e confortável, que na atualidade passaram a ser mais possíveis para quem se dispõe a realiza-los. Corta. Desta cena retornamos ao Steve Jobs dos anos 70 na Califórnia, que acaba de desistir de sua faculdade, anda descalço, assiste apenas às aulas que lhe interessam como observador, viaja para a Índia e busca ansiosamente um sentido para a sua vida. Assim como muitos de sua época, ele engrossa o círculo dos “esquisitos” (nerds, hippies, místicos, militantes) desta pequena década dos anos 70, intensa em suas rupturas com a tradição e a partir da qual surgiriam inúmeros movimentos questionadores/transformadores na cultura ocidental. Quando Jobs tenta convencer seu amigo Woz (Steve Wozniak) sobre a ideia de transformar os computadores da época em pessoais ou domésticos, insiste que o acesso à internet e ao mundo virtual significava o mesmo que a invenção da roda, a partir da qual o mundo não teria sido o mesmo. Ainda que o filme dispense muitos detalhes da vida de Jobs, ele mantém um compromisso com a história recente ao problematizar o lugar do homem contemporâneo. Muito mais responsável pela sua própria existência, desejando romper com os destinos pré-estabelecidos pela família e pela cultura, Jobs é um homem que busca (e precisa) se auto inventar. O contraponto da jornada de invenção de si (presente e futura) é seu encimesmamento, um disfarce e uma proteção de suas fragilidades na árdua tarefa de tentar encontrar novas balizas. Passadas algumas décadas sabemos um pouco mais sobre os custos desta tão complexa tarefa que requer na almejada gestão de nós mesmos, um bom trânsito no contato conosco, nossa mente, nosso corpo, nossa história e com todas as pessoas, trabalho, ações, ideais, etc, intimados que somos a nos inventar, criar e recriar, construir-se, desconstruir-se, flexibilizar-se. Se Jobs perseguiu sua crença de realizar sonhos humanos inimagináveis dedicando-se “full time” a pensa-los, parece que foi ao custo de evitar sistematicamente tais contatos. Mas fica aqui minha reverencia a ele que pensou, idealizou e criou celulares e computadores cada vez mais sofisticadas e funcionais que facilitaram a vida de todas as pessoas e causaram uma verdadeira revolução antropológica.

Para conferir:  Jobs ( USA 2013)

Elenco: Ashton Kutcher, Josh Gad, Annika Bertea

Direção: Joshua Michael Stern

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Mães, filhos e aflições


Uma jovem mãe contava a outras jovens mães sobre sua agonia desde que havia se dado conta que suas duas filhas, com diferença de apenas um ano, haviam entrado na pré-adolescência. Sem parâmetros, sentindo-se perdida na difícil tarefa de discriminar o que consentir e o que proibir, o que não dar importância e o que se preocupar, ela teria encontrado certo alento na interlocução via Facebook com outros pais/mães de adolescentes. Havia descoberto a página do Facebook intitulada “Mães e pais de adolescentes” destinada a incentivar a troca de ideias e dicas sobre os filhos. Fui conferir. Simpática, a tal página anuncia quem é o seu público e convida os pais/mães a conversarem ali. Também descreve esta atordoante faixa etária ponderando sobre seu fascínio num mundo em que crianças e adolescentes usam teclas e botões “como se fossem  extensões de seus dedos, falam a mesma língua dos softwares e aprendem rápida e facilmente tudo o que lhes desperta o interesse.” Mas pondera que esta facilidade de tudo saber confunde-se as vezes com o tudo querer, o que tornaria difícil para os adultos/pais manterem seu foco na árdua tarefa de educa-los. Democrática e aberta, incentiva a todos a dar voz às suas aflições e/ou aos seus conselhos. A jovem mãe que está contando às suas interlocutoras sua descoberta, no entanto, não parece satisfeita. Há muitas perguntas sem respostas e ela continua aflita, sentindo-se incompetente e perdida. Em sua coluna na Folha de SP do dia 20 de agosto de 2013, sob o título “Depressão e autenticidade” Vladimir Safatle , baseado em uma recente pesquisa que diz que em cada cinco mulheres, uma passará por depressão ao tornar-se mãe, convida a todos a refletir sobre  o ônus que a experiência social de ser mãe carrega na atualidade. Referindo-se ao fato de que hoje as mulheres já não têm modelos únicos ou formais do “tornar-se mãe” como acontecia até algumas décadas atrás, ele aborda o despreparo de todas diante do inevitável confronto com bebês (filhos) que despertam sentimentos ambíguos e contraditórios. Longe de fazer a apologia da tradição “de mãe para filha” em que os mitos e os rituais não eram questionados e valiam para todos indiscriminadamente, e diante do atual arsenal de especialistas que prescrevem caminhos a seguir, ele questiona o lugar dos afetos que tendem a ser silenciados por todos – pais, parentes, especialistas. Lembrei-me da história contada por minha faxineira sobre uma conhecida sua, mocinha de 23 anos, que se casou com um rapaz um pouco mais velho, 33 anos, descasado, que já tinha um filho de seu primeiro casamento. Apaixonada, sonhava em ter um filho com ele como a consolidar a relação. Grávida de 8 meses viaja para o Nordeste a fim de visitar seus familiares. Na volta, em visita a uma cidade vizinha, o bebê rompe a bolsa e “decide” nascer. Sem conhecer ninguém ela passa horas à espera de um atendimento no hospital. Como seu nenê não acompanha o desenvolvimento esperado começa a leva-lo a médicos que indicam a ressonância magnética para um diagnóstico mais apurado. Nas datas marcadas para o exame, sem explicações plausíveis, falta sistematicamente. Morre de medo de saber que não tinha conseguido gerar um filho perfeito. Paralisada e envergonhada, não consegue ser a mãe que tinha imaginado, o que faz com que seu filho também não possa “existir”. Quando finalmente comprova ser ele “normal”, pode enfim olha-lo com amor e exibi-lo orgulhosa. É provável que a mãe das pré-adolescentes sinta-se inundada/assaltada por seus fantasmas adolescentes, incapaz de responder a si mesma sobre suas questões ainda tão confusas. Também ela tenta silenciar seus ruídos e os que são provocados pelo confronto com esta passagem das filhas.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

post scriptum


Uma notícia curiosa veiculada na mídia digital anunciava um novo programa de entrevistas – Retrovisor - comandado pelo jornalista Paulo Markun. Detalhe, os entrevistados seriam personagens históricos brasileiros já mortos e por isso, representados por atores. Gravados na Biblioteca Municipal Mario de Andrade de São Paulo a plateia estaria convidada a participar das perguntas. Uma ideia bastante original que de certa maneira realiza um sonho humano nada raro de voltar ao passado e confrontar ideias, crenças e atos de pessoas que marcaram a historia. A notícia me remeteu a uma recente entrevista concedida ao programa matinal de Alexandre Machado na Radio Cultura FM, pelo autor da biografia de Getúlio Vargas, o jornalista e escritor Lira Neto que há poucos dias lançou o segundo volume de sua trilogia sobre este importante e polemico personagem brasileiro. Na entrevista, ao ser questionado sobre o período em que Getúlio teria se tornado um ditador, o biógrafo ressaltava o fato de que não há História sem contexto, e sua fala não escondia sua admiração pela inteligência e sagacidade do homem e do político cuja vida  pesquisa/vasculha há três anos. Outro jornalista, o espanhol Juan Arias, que viveu grande parte de sua vida na Itália como correspondente do El Pais, por ocasião da vinda do papa Francisco ao Brasil, teria concedido algumas entrevistas sobre o longo período em que esteve respirando o clima do Vaticano, particularmente nos papados de Paulo VI e de João Paulo II. Emocionado, lembrou certas particularidades de um e outro, seus estilos, seu pensamento. Considerado um estudioso de religião por ter frequentado cursos na Universidade de Teologia e no Instituto Bíblico de Roma, defende a ala progressista da igreja católica, mas avalia com otimismo a escolha do novo papa. Convidado a fazer uma distinção entre informação, análise e opinião, Arias confessou ser esta uma questão complicada. Para ele, um mesmo fato, uma mesma notícia ou uma entrevista com algum personagem importante é perpassada pela ótica –e pela sensibilidade - de quem realiza. É bom lembrar que estamos falando aqui de uma mídia formal, de jornalistas de carreiras que se dedicaram a entender o mundo que os cercava e não se furtaram a opinar sobre isso. A recente exposição do coletivo Mídia Ninja, cujos representantes foram sabatinados no programa Roda Viva da TV Cultura no dia 6 de agosto último, lançou um debate sobre o futuro do jornalismo (e jornalistas) das grandes imprensas, ameaçados pela difusão de uma nova maneira de se publicar noticias, aberta a todos, nas redes sociais. No mesmo dia 6 de agosto uma notícia fazia tremer a capital federal americana ao dar como certa a compra do tradicional jornal Washington Post pela Amazon. Entre textos ácidos, nostálgicos e ponderados, todos tentavam espreitar o porvir, o futuro pós-revolução digital. Do coletivo de jornalistas que se propõe como alternativa ao "mainstream", um dos entrevistados e co-fundador da Mídia Ninja, Bruno Torturra, lembrou que a opinião pública divulgada via rede, tem narrativas múltiplas e é em geral uma salada ideológica. Mas chamou a atenção para  o que se assistiu durante as manifestações de junho, em que a opinião publicada, que tem o monopólio sobre o que é a opinião pública, sofreu o constrangimento de não divulgar o que acontecia e teve que correr atrás para acompanhar as notícias/fotos/vídeos que jorravam nas redes. A verdade é que isso que chamamos Informação quando remetida aos fatos importantes já ocorridos ou às histórias que valem a pena serem revistas sobre personagens já falecidos, nunca mais será a mesma, já que será revisitada e seu contexto será analisado de acordo com as referencias do momento atual. O mesmo vale para as informações /opiniões a respeito de novos e inusitados acontecimentos e o que se delineia é que o mundo digital apenas amplia as opções e com isso possibilita aos que querem saber, um leque mais diversificado de opiniões. No mínimo um ponto a mais em direção à idealizada/paparicada/ falada democracia Por outro lado, não há como negar que novas cores se delineiam no céu das mídias. Resta saber quais serão.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quem quer ser evangélico?


Nada mais “in” do que analisar a crescente visibilidade e porcentagem de evangélicos no Brasil à luz da mobilização de católicos em torno da visita do Papa Francisco I ao Rio de Janeiro. Foi mais ou menos este o teor do texto publicado na Ilustríssima do dia 21 de julho de 2013 em que o sociólogo da USP Reginaldo Prandi acompanha o deslocamento de uma população antes majoritariamente católica para o que ele chama de pentecostalismo. Longe de ser uma tarefa fácil já que são muitas as variáveis, algumas bastante complexas! Dentre os temas, a constatação de que assim como a religião católica empreendeu modificações em seus rituais muitas décadas passadas, a fim de se adequar aos tempos modernos, as religiões evangélicas teriam feito uma recauchutagem bem mais radical nas últimas duas décadas. De uma tônica que preconizava a vida austera e simples, adotou-se a teologia da prosperidade, bem ao gosto do mercado de consumo, deixando o “recato” para os temas sobre sexualidade. Ao acenar com a possibilidade de realização de qualquer sonho de consumo, este novo Deus incentiva uma população mais carente – e mais reticente com o avanço dos costumes e direitos - a confiar em um futuro promissor, cheio de “objetos de desejo”. Mais que isso, abriga a todos que se sentem excluídos/desamparados por razões morais, ao emprestar normas e restrições claras às suas condutas para a vida sexual e amorosa. Por bairros e cidades multiplicaram-se grandes salões em que pastores, seguindo um modelo carismático (à Silvio Santos) de pregação, aumentam seus rebanhos espalhando tais promessas. Do púlpito das igrejas ao dos congressos, apenas um passo. Foi assim que assistimos perplexos, um pastor/deputado assumir a presidência de uma comissão de Direitos Humanos da Câmera e sem qualquer constrangimento, tentar leiloar os direitos recém-adquiridos de homossexuais ou impor uma legislação que os “curasse” de seus desvios. Já da esperada, rápida e pontual estadia do Papa em terras cariocas ecoaram textos e reportagens sobre as mudanças que este novo papado pode produzir na Igreja Católica, sobre o “mundo católico” e sua geografia, sobre os custos desta vinda para a cidade do Rio (que chegou até a decretar dois dias de feriado), e sobre os jovens “religiosos” brasileiros. A partir de uma pesquisa realizada em maio pela Data Popular em 100 cidades do país, ficamos sabendo, por exemplo, que 44,2% dos jovens entre 16 e 24 anos são católicos, 37,6% são protestantes/evangélicos, 6,7% são seguidores de outras religiões e 11,5%  não são religiosos. Um dos desafios da vinda do Papa para a Jornada Mundial da Juventude seria a conquista de uma fatia dos católicos afastados através de um upgrade em seu modelo de evangelização. A pesquisa ainda problematiza o papel da religião para os jovens, assim como sua opinião sobre temas controversos como o aborto, a pena de morte e a legalização da maconha, talvez no intuito de “medir” o comprometimento de cada um com sua fé, ou ainda a fé com os códigos que cada religião preconiza. Quem sabe uma tentativa de mapear o complexo lugar que as religiões ocupam na vida das pessoas na atualidade, bem longe daquele em que ela encarnava o Poder. O mais provável é que as religiões acenem com a possibilidade de regulamentação das vidas através de regras fixas e claras, o que alivia o desamparo - às vezes insuportável - de muitos jovens (e de seus pais), uma forma de “proteção” para os sentimentos morais.