quinta-feira, 8 de junho de 2017

Diálogos de amor: porque ansiamos e sofremos por amor

Diálogos de amor: porque ansiamos e sofremos por amor
Gisela Haddad

Por que um psicanalista deveria falar sobre o amor, terra de poetas e artistas que desde séculos destrincham suas faces e seus mistérios? Talvez porque o psicanalista escuta as coisas da alma, e de certa forma o valor do amor para cada um, suas historias de amor particular, seu romance familiar, de amor, mas também de dores. Afinal o que nos faz humanos, ou seja, que nos constitui subjetivamente é um encontro de almas.
E porque falar de amor? Desde o século XV Shakespeare  inaugurava uma literatura em que o homem passava a se questionar sobre seus  sentimentos, evidenciando os dilemas da alma humana diante de suas contradições. Hoje isso se tornou corriqueiro e nem precisamos mencionar apenas a literatura, somos invadidos por imagens de filmes, novelas ou mesmo cenas do cotidiano relatadas pela mídia que nos emocionam e nos capturam, obrigando-nos a compartilhar da alegria, da tristeza  ou dos tormentos dos personagens.
Mas o que é o amor? Como sabemos se estamos amando ou não? Que amores reverenciar ou quais rejeitar? Existe diferença entre paixão e amor? E entre o amor por nossos parceiros, nossos pais, nossos filhos, nossos irmãos?
A verdade é que o amor ocupa um lugar quase sagrado na cultura ocidental  e  em geral não discutimos suas razões.  Mesmo que ele tenha assumido feições diferentes pela história, seu valor se mantém incontestável. Diante de frases como “ele a ama” ou “ela o ama muito”, “ela /ele fez por amor”, o assunto se encerra. Sabemos do que se trata ao mesmo tempo em que não podemos explicar muito bem. Mistérios da alma e ponto final.
Mas mesmo que evitemos questionar o valor do amor, mesmo que o amor acabe sempre transcendendo nossas representações, é possível historiar suas transformações ao longo da cultura humana. Vamos tentar fazer um rápido passeio por elas.
Para os antigos, em especial os gregos, o Amor Supremo, que continha as qualidades da Justiça, da Beleza e da Verdade figurava como o grande ideal de cada cidadão e estava atado às virtudes com as quais cada um queria ser reconhecido pelo coletivo. O amor sensual não era proibido, mas o domínio sobre seus excessos era bem-visto como um caminho para o supremo bem. A era cristã inaugurou um longo domínio sobre os destinos do amor, separando de um lado o amor permitido, dirigido a Deus e ao semelhante e de outro o amor proibido, carnal e pecaminoso. Entre os desejos “carnais” – a gula, por exemplo - o sexo era o mais temido por ser o mais rebelde e persistente, e visto, portanto como algo poderoso. Por isso não podemos deixar de sublinhar a grande importância que a Igreja Católica teve no entendimento do valor do amor para nós modernos, tanto do amor com o sentido de Bem Supremo quanto do amor erótico ou sensual. A igreja assumiu a tarefa de controlar ou conter a sexualidade pregando o abandono de interesses mundanos da cidade, e valorizando a vida de casal e o recolhimento. A partir de Santo Agostinho é possível perceber a inclusão do amor- paixão a Deus, um amor que será vivido internamente, acompanhado de uma reflexão sobre seus efeitos. A Igreja passa a convidar a todos a buscar dentro de si o amor a Deus e será este êxtase sentimental o núcleo das paixões amorosas herdadas pelo romantismo. O amor passa a vir de dentro, das entranhas e esta interioridade irá definir o individuo da modernidade.
Sabemos que o desejo de saber manifestou-se desde os tempos mais primitivos como uma tentativa do homem para lidar com o medo e com as angústias que o assolavam no contato com a Natureza e com seus semelhantes. A religião, as primeiras descobertas e a ciência são criações humanas que tentam diminuir esse sofrimento, sugerindo, inclusive, suas utopias e seus ideais de conseguir, um dia, suprimi-lo de forma absoluta. Em muitos momentos compartilhamos esse sonho, deixamo-nos embarcar nessa expedição em busca do melhor dos mundos. Porém, por paradoxal que possa parecer, quando se pode fazer um “retorno” ao mundo em que que se vive, com suas mazelas e seus sofrimentos, é um ato de liberdade.
O nascimento da ciência marca o inicio da Modernidade. Descartes, a Razão, o Iluminismo são ícones modernos que pretenderam elevar o homem ao centro do universo. Assim, somente pelo uso da razão sairíamos das trevas em direção à aquisição de conhecimentos que finalmente nos permitiriam entender e controlar a natureza, e podemos acrescentar aqui a importância do entendimento da natureza humana. Ao voltarmos nosso olhar para os séculos modernos podemos afirmar que a ciência mudou e muito nossas vidas e se comparamos às vidas humanas do longo período da Idade Média, estas mudanças foram rápidas, em especial as do último século, com o avanço das biotecnociencias. Mas se estas transformações nos trouxeram confortos e benesses inimagináveis é verdade que em relação aos costumes e à moral nosso mundo virou de ponta cabeça, indicando que para o quesito felicidade a coisa é bem mais complexa.
Alguns pensadores destacam o papel da tradição como um critério para a divisão entre o mundo pré-moderno e moderno. No mundo antigo, os homens nasceriam com lugares predeterminados, sem chances de transitarem por lugares sociais diferentes. Nascidos escravos, ferreiros ou aristocratas, morriam como tal. Os valores e costumes funcionavam mais como crenças do que acordos sociais. A Igreja funcionava como a única doadora de regras, impondo suas leis e suas punições via  controle dos saldos de pecados.O mundo moderno irá criar o universo das leis e passará ao Estado esta função de controle das normas e costumes. Assim as  certezas que vinham pelo reconhecimento da comunidade à que cada um pertencia, as certezas morais e cognitivas transmitidas pela tradição, a segurança de um destino preestabelecido pelo projeto de um Deus onisciente se esvaneceram. Caberia a cada um cuidar de si, de seu destino, de suas escolhas, e também de sua parceria amorosa. O amor romântico acenava com uma junção possível: casamento, amor e sexo a serviço da família conjugal. Mas nos primeiros séculos modernos a Igreja ainda emprestará seus códigos morais, na tentativa de cobrir o desamparo e o vazio deixado pela quebra destas tradições. Aos poucos o amor vai passar a ser uma peça essencial na cultura individualista que, à frente das lutas atropelará as tradições, enfrentará as barreiras sociais, as raças, culturas, religiões e preconceitos. Seu sucesso se manterá porque assim como o agir humano, sua razão é subjetiva: quando fazemos algo por amor, fazemos por nós mesmos, sem precisar obedecer a ninguém, se não às nossas paixões. Casamos ou vivemos juntos porque amamos e aos poucos a cultura pode “naturalizar” o fato de que nossas escolhas sejam fundadas no amor. Hoje nos surpreendemos quando isso não acontece e em geral classificamos estas escolhas como hipócritas ou interesseiras. Cuidamos de nossas crianças porque as amamos e quando isso não acontece estranhamos. Talvez porque sejam razões que testemunhem nossa autonomia conquistada às duras penas. Por outro lado ficamos tateando novos valores em particular os que giram em torno do amor e da sexualidade, eixos modernos de nossas vidas. Namoros, sexo, casamentos, descendências, educação e destino dos filhos são temas que se tornaram atuais e pedem reflexões e debates. Nossas parcerias românticas construídas na promessa da incondicionalidade, da exclusividade e da felicidade demonstram não ter garantias. O amor nos deixa desprotegidos contra o sofrimento, a mercê do outro e expostos a dores extremas sempre que somos rejeitados, traídos ou abandonados. A enorme expectativa que depositamos sobre nossas parcerias amorosas é quase sempre um terreno propício à frustração e a decepção. Cada vez mais temos que enfrentar uma revisão ou mesmo o desabamento de nossos projetos de realização erótica e existencial a dois. Por quê? O que mudou?
Em geral as mudanças nos costumes e nos valores costumavam ser mais lentas. Passavam-se décadas até que um novo costume pudesse ultrapassar as resistências naturais às mudanças e se impor como novidade aceita. O mundo atual pede uma aceleração jamais vista. Em poucas décadas vimos alguns de nossos mais caros valores serem questionados, derrubados e substituídos. Os processos de emancipação feminina e a desconstrução dos papéis masculinos e femininos redefiniram a família, o papel do amor, a vida profissional e transformaram profundamente as relações.
Antes o masculino e o feminino formavam um par e um só se definia em relação ao outro. Os estudos sobre gênero tem apontado o fato de que cada sociedade constrói de um jeito a diferença dos sexos, o que faz cair por terra a naturalização desta diferença.  Por séculos a feminilidade esteve ligada ao lugar que a mulher ocupava junto ao homem, já que era definida e interpretada a partir da concepção dos homens. Eram eles quem definia o que a caracterizava, como ela deveria se portar, seus limites e encargos. Vale notar que as mulheres só começaram a escrever sobre si mesmas há poucas décadas.
Também na configuração da família tradicional burguesa os lugares de cada um estavam muito bem definidos. Mas as mudanças descritas acima foram desconstruindo este modelo fazendo surgir um sentimento de luto e certa nostalgia em relação a esta perda. Na verdade a família não se acabou, apenas teve que se ajustar aos novos tempos. Ainda desejamos formar uma família, viver em família e criar condições de convívio protetoras e agradáveis. Elas continuam a ser  famílias tranquilas e bem estruturadas ou atrapalhadas e tensas. Por estarem baseadas em um contrato de caráter mais transitório entre os cônjuges aumentam os divórcios, as separações e a recomposição conjugal. Talvez esta nova configuração revele com mais ênfase o eterno conflito entre nossos sonhos de sossego e nossos anseios de independência.
E o amor? O amor segue como o grande protagonista do psiquismo humano, gerando inúmeras historias. Talvez porque nossas relações amorosas são desde a nossa infância as responsáveis pelas nossas ficções. São elas que nos guiam no contato com o mundo. Já há algum tempo estas histórias nos dão pistas sobre o percurso do amor na cultura, assim como as ligações nem sempre pacíficas entre amor e sexo. São elas que marcam as maneiras de amar e as transformações do erotismo. Herdeiro da literatura, o cinema se constituiu no grande repertório amoroso da atualidade e sempre nos premia com algumas referencias sobre estas mudanças que em geral nos deixam divididos.
Vejamos. O filme “Tinha que ser você” (Last Chance Harvey/2009) do diretor Joel Hopkin com Dustin Hoffman e Emma Thompson, apesar de ser mais um filme sobre uma história de amor banal, nos oferece um ótimo panorama das mudanças de que falamos: amores, casamento, família, separação, filhos, trabalho, novos amores e futuro.
Harvey é um compositor de jingles frustrado que trabalha em uma agência de publicidade de Nova York e cujo grande sonho era ter sido um pianista de jazz. Aos 60 e poucos anos, separado já a algum tempo de sua esposa, precisa ir a Londres para o casamento de sua filha. Na cena inicial percebe-se certa tensão entre Harvey e seu chefe, que tenta convencê-lo a aceitar suas direções de um projeto em andamento. Harvey parece ter dificuldades em negociar seus desejos e mesmo sua ida a Londres parece desagradar ao chefe que preferia vê-lo mergulhado neste trabalho. Desde sua chegada a Londres fica evidente seu desconforto em ter que encontrar sua antiga família e embora saiba estar sendo esperado para participar do ensaio do casamento, demora-se no bar do hotel tomando alguns drinks na tentativa de se encorajar. Sua ex-mulher está há tempos casada com Scott, que ao contrário dele se sente à vontade (talvez muito para seu gosto) como o padrasto de sua filha. Sentindo-se um peixe fora d’água, Harvey tenta se adequar aos protocolos do cerimonial. Mas tudo pode piorar e piora. Sua filha, depois do abraço e entre sorrisos, pergunta-lhe delicadamente se ele se importaria que Scott entrasse com ela na igreja. Já meio alto, Harvey  fica tomado pela mágoa e desiste de participar da cerimonia. Em um ímpeto, decide voltar para  NY, mas perde o avião. Neste ínterim recebe um telefonema de seu chefe demitindo-o e, desorientado, entrega-se a bebida no bar do aeroporto, local em que conhecerá Kate. Kate trabalha no departamento de estatísticas do aeroporto e assim como Harvey, tem uma vida solitária, dedicada a cuidar de sua mãe doente que a solicita  permanentemente. Sentada no mesmo bar com amigos, seu celular toca inúmeras vezes com chamadas da mãe. Kate olha os casais à sua volta, um olhar que denuncia seu anseio por uma companhia. Neste momento está sentada junto com amigos e com alguém apresentado por a amiga- cupido, prática que, longe de ser criticada pode muitas vezes ser um canal interessante para juntar solitários. Na verdade este filme desvenda as dificuldades pessoais de Harvey e Kate no quesito relações amorosas. Ambos parecem desacreditar na possibilidade de manterem uma relação, embora de formas diferentes. Harvey se ressente de seu passado enquanto Kate parece ter medo de arriscar. Ao que parece, o impacto sofrido por Harvey o faz repensar sobre sua situação. Quando o destino os junta, abre-se um horizonte para ambos. À medida que seu interesse por Kate aumenta Harvey começa a poder colocar palavras em seus sentimentos. O interesse de Kate pela história de mágoas de Harvey faz com que este possa  redimensionar sua historia e sua relação com a filha e a ex-mulher. O mais duro, segundo sua própria conclusão, tinha sido perceber que ele não fazia parte da família. Era um estranho. Não combinava com a mobília. Confessa talvez pela primeira vez que Scott, ao contrário, havia caído como uma luva. Ele combinava com a mobília, e tinha sido um bom pai para a sua filha e um ótimo marido para a sua mulher. Diante de “verdades” tão cruas, Kate tem um momento de insight. Ela o convence a ir ao casamento e ele a convence a ir com ele. Sentindo-se amparado por suas conclusões e pela companhia amorosa de Kate, Harvey consegue surpreender a si e aos membros da família, que acostumados a um convívio tenso entre ele e Scott, podem ouvir um inesperado discurso em que os pontos nos “is” finalmente foram colocados.
Ao invés de olhar o passado como algo que não poderia ou não deveria ter acontecido, um sintoma psíquico que o engessava, Harvey começa a pensar que tinha o presente e o futuro. A dor de saber-se não especial e descartável, de ser substituível no amor do outro era insuportável. É difícil conseguirmos conviver sabendo não haver nada que garanta o amor eterno  e que garanta que seremos amados incondicionalmente, mantendo para sempre o par perfeito. Ao contrário, há sempre condições para o amor continuar a existir e estas estão ligadas ao como cada um consegue negociar com o que imagina lhe ser prometido, esperado, permitido e proibido. São maneiras de desejar, de ser reconhecido e de pedir amor.


Texto apresentado no evento “A psicologia entre dores e amores” realizado  pelo curso de Psicologia da UNIP  Araraquara  no 27 de agosto 2010

domingo, 4 de janeiro de 2015

A “velha” a fiar

Dentre as personalidades a serem louvadas no ano de 2014, é provável que o papa Francisco consiga a unanimidade. Contrariando as expectativas da Cúria romana, ou quem sabe, cumprindo os desejos de seu antecessor que surpreendeu o mundo ao renunciar a este cargo máximo de poder da Igreja Católica, ele parece estar corajosamente disposto a resgatar e estender os princípios humanistas cristãos. Logo após ter sido um dos arquitetos das negociações em torno do fim do embargo de meio século dos USA contra Cuba, o papa veio a público em sua mensagem de Natal no Vaticano, e diante de cardeais, bispos e monsenhores afirmou que como qualquer corpo humano, a Cúria sofre de doenças, e que a cura destas passaria necessariamente por uma consciência das doenças. Um recado e tanto para organizações que como a Cúria (e muitos Estados), “não têm notícias” sobre seu funcionamento esclerosado e mergulhado nos líquidos corrosivos e poluentes da corrupção e outros subprodutos do fascínio do poder. Um sintoma que nasce do que é negado e desprezado porque assusta e é moral e eticamente inaceitável, mas que precisa vir a ser conhecido e entendido, como o lado sombrio da mente humana. Mais de dois milênios após seu surgimento é difícil avaliar com precisão a incidência do cristianismo em todos os continentes, sua participação nas diferentes culturas e na maneira como o mundo é hoje. É provável que a permanente disseminação de sua doutrina, em suas várias vertentes, encontre ecos no empenho dos primeiros cristãos que decidiram levar sua fé a todos os povos, e apostaram na sua potência ao aproximar a imagem de Deus (Cristo) dos homens comuns, incitando-os a sentirem-se parceiros deste Deus sendo bons, responsáveis e respeitosos com seus próximos. Este seria segundo alguns pensadores, o principal papel das religiões, que ao emprestarem sua doutrina sobre a origem e os destinos dos homens e conclamarem-nos a seguir seus passos e conter suas paixões, resolveriam um dos mais difíceis dramas humanos, aquele que está associado à compreensão se seus aspectos destrutivos, seus sentimentos agressivos, seu ódio, sua violência, seus medos e sua voracidade: toda a selvageria que o impede de construir um lugar de convívio para si e para os seus. Mesmo em nosso paradoxal tempo de alta e ininterrupta tecnologia, em que novas ferramentas não cessam de prometer levar a todos “um pouco mais além”, permanece a busca de zonas de conforto, espaços em que o que é conhecido e verossímil parece curar a ansiedade provocada pela sensação de que não haveria mais certezas para o futuro. Ainda que seja justamente esta incerteza em relação ao que se pode esperar do futuro, o que move a todos a desejar construí-lo. Por isso, apesar de muitos adentrarem no mês de dezembro  com o sentimento de não ter podido concluir ou realizar o que planejaram para o ano que se despede, aos poucos a chegada do próximo vai se impondo e impondo um futuro. Pode até ser de mudanças. Um ótimo Natal a todos os leitores.

Tons musicais

Não havia me dado conta da superposição de datas das mortes de Tom Jobim e John Lennon. Embora a morte de John acontecida há trinta e quatro anos, talvez nunca possa deixar de ser lamentada pela forma trágica e cruel com que um menino esquisito decidiu que ele deveria morrer, ambos Tom e John, são exemplos humanos de patrimônios artísticos. E isso quer dizer que em seus aniversários de morte, sempre se pode rememorar um pouco de suas obras não só através de documentários ou textos escritos por aqueles que têm algo a contar ou recordar, mas (principalmente) pela fartura com que a mídia projeta imagens de seus melhores momentos, o que permite a muitos de nós revivermos o inesquecível. Fui fã incondicional de ambos, por motivos diversos. John Lennon era o rapaz irrequieto e ousado daquela banda que descobri aos quatorze anos, quando comprei meu primeiro LP dos Beatles e nunca mais pude parar de acompanhar o percurso daquela dupla de meninos geniais que compunham músicas e letras que tanto sentido fazia para os jovens com os quais eu convivia. O ponto alto desta época foi a formação de uma banda cover dos Beatles com garotos de nossa turma de Araraquara, cujas apresentações eram imperdíveis e ocasião para que  dançássemos e cantássemos juntos, os hits. Cada lançamento de um novo álbum dos Beatles era aguardado com muita ansiedade e o disco cumpria o ritual de rodar seguidamente por muitas semanas até que pudéssemos eleger cada um, suas preferencias. Em novembro último, a convite de uma amiga, fui assistir em São Paulo ao show de Paul McCartney, sem sequer imaginar o impacto que aquelas “velhas” músicas tocadas ao vivo por um dos ícones dos Beatles iriam me causar. Fui tomada pela emoção, vi-me adentrando ao túnel do tempo e pude resgatar a importância de ter vivido tão intensa e apaixonadamente minha beatlemania. Naquela época, junto com eles, todos nós estávamos crescendo e gostávamos de pensar nas mudanças que aquelas músicas promoviam. O mundo parecia muito pequeno e ao mesmo tempo anunciava e oferecia infinitas formas de se viver. Tom Jobim veio (para mim) depois, passados os anos da adolescência, na calmaria. Brasileiro até no nome, me ensinou a amar a música brasileira, e me encantou com os acordes melódicos que compunham o cancioneiro da bossa nova. Sua música pode ser ouvida em qualquer ocasião, em qualquer lugar talvez porque contenha aqueles acordes ao mesmo tempo destoantes e harmônicos que enchem a alma de alegria. Primeiro foi sua parceria com Vinícius de Moraes que renderam os maiores standards (tão cariocas) da bossa nova. Depois as lindas canções compostas junto com Chico Buarque, com letras mais densas, mais mundanas. Nosso grande maestro, nosso gênio. Em 2001, sete anos após a morte de Tom, fui agraciada pela sorte  ao assistir ao compositor japonês Ryuichi Sakamoto, responsável por uma das trilhas musicais mais lindas do cinema (Furyo- Em nome da honra) e apaixonado pela música de Tom Jobim desde seus 14 anos, tocar em São Paulo junto ao Quarteto Jobim-Morelembau, formação que acompanhava Tom em seus últimos shows. Por estas e outras não posso deixar de concordar com o filósofo inglês Alain de Bouton, que diz que obras de arte podem nos ajudar a lembrar do que importa,  podem nos fornecer esperança, expandir nossos horizontes e até ajudar a nos entender melhor. Quando podemos fazer uma retrospectiva (re)significando nossa percepção destas vivências, melhor.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A violência do amor

Se o século passado pode ser avaliado como aquele que elevou o amor à categoria de valor humano máximo, cujas louvações traduziram-se em produções as mais variadas, na literatura, no cinema, teatro e novelas, além de, é claro, alimentar um imaginário idealizado sobre a vida amorosa, o século XXI tem surpreendido a todos pela incidência da violência, ainda que suas formas devam ser analisadas à luz do contexto histórico atual. Embora o mundo nunca tenha sido tão globalmente comprometido com o direito à livre expressão, paradoxalmente esta “liberdade” tem resvalado muitas vezes para comportamentos e manifestações bastante violentas. Uma nota recente na mídia revelava que, a despeito dos esforços do governo alemão para que o nazismo e sua ideologia truculenta permaneçam enterrados, há sempre grupos de fanáticos dispostos a reverenciar os fantasmas de alguns ícones hitleristas. Em continuidade a noticia sobre a tentativa de homenagear a data de morte de um destes ícones, ao invés de manifestações contrárias que insuflassem o ódio entre as pessoas, a população “indignada” havia planejado algo na linha do humor na tentativa de espelhar o absurdo e a infâmia  de tal comportamento. O filme “Relatos Selvagens” do diretor argentino Damián Szifron segue um pouco a linha do humor (negro, com certeza), mas, ao contrário, não poupa em nada a passagem da linha (sempre tênue, é verdade) que separa a civilização da barbárie. Sucesso de bilheteria em seu país, contrariando as expectativas do próprio diretor que se diz surpreso, o filme se divide em seis pequenas estórias, todas elas desenvolvendo um argumento em comum: como os personagens reagirão diante de situações frustrantes, humilhantes ou inesperadas. Acertou quem pensou em planos de vinganças normalmente “irrealizáveis”. Todas se realizam!!!! E se isto pode causar um grande mal estar, o que seria esperado para todos que ensaiamos nossas vinganças sem jamais leva-las adiante, aos poucos fica clara a intenção de encenar uma caricatura de situações corriqueiras que fazem parte da vida cotidiana, utilizando um humor macabro. Todos os protagonistas se desesperam, agem sem controle, e levam às ultimas consequências, sua ira ou seu desejo de vingança. Considerado pelo diretor como a realização de um projeto menor perto de outros mais acalentados, seu trunfo no entanto, está muito mais na proximidade de nossa realidade psíquica do que se pode imaginar. Nenhuma civilização de qualquer época deixou de perseguir caminhos que oferecessem regras e valores que garantissem a convivência humana. Sabemos hoje que nem mesmo as leis, cada vez mais homogêneas e internalizadas por todos, conseguem esta garantia. Somos seres em permanente conflito e precisamos continuamente negociar conosco tais concessões, avaliando os custos e danos.  O diretor Szifron é jovem, tem 39 anos e se declara, antes de qualquer rótulo, um cinéfilo de carteirinha. Alguns jornalistas o veem como um filhote do diretor Tarantino. Nada mais justo, já que este ousado diretor americano possibilitou ao mundo todo, através de dois de seus recentes e impactantes filmes – Bastardos Inglórios e Django Livre – uma vingança coletiva ao providenciar destinos funestos a Hitler e sua alta cúpula, e aos “donos insanos” de escravos do sul dos USA, respectivamente. Assim como Tarantino, o diretor argentino resolveu dar voz aos que se sentem indignados com as infâmias que sofrem no dia a dia. Coisas de cinema, que pode e deve brincar com a realidade.   
Para conferir:
Relatos Selvagens- Argentina 2014

Diretor - Damián Szifron

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Quem pai?

Desde que meu filho se tornou pai, adotamos a prática de trocar  textos/reportagens/blogs de pais que descrevem seu percurso nesta empreitada, buscando novas referencias desta função antes relegada a um segundo plano nos cuidados com o bebê. Graças a estes novos pais sensíveis, alguns textos são verdadeiros bálsamos ao revelarem os sentimentos de amor lado a lado com as tentativas de compreender os sinais vindos do convívio com o filho(a), os pactos com a cônjuge na divisão do tempo “full time” que um bebê exige ou na condução das escolhas diante dos impasses da tarefa de fazer de um bebê um menino ou uma menina que possa entender seu lugar na família e no mundo e ainda gostar de viver no mundo humano. Esta tendência, somada às imagens cada vez mais comuns de pais que sozinhos conduzem os carrinhos de seu bebê pelas ruas das grandes cidades do mundo, dão mostras de um deslocamento, ainda que tímido, na imagem que os homens têm de si mesmos e nas referencias que os representam enquanto gênero. No entanto não é tão simples ou fácil que mudanças de costumes, principalmente aquelas que vêm acopladas a comportamentos que dão corpo e alma a determinados papéis já consagrados dentro das sociedades, possam se processar em curto prazo. Aqui e ali, ao mesmo tempo em que somos contemplados com ícones importantes da sociedade contemporânea que tentam escapar do “formal” ou da cartilha do “bem-sucedido” preocupado em manipular sua imagem tal e qual um personagem, ainda nos deparamos, com certa perplexidade, com uma fatia considerável de pessoas que se alinham aos “tementes”, outra categoria que ensurdece e borra qualquer sinal de “bom” futuro. O papa Francisco é um exemplo destes ícones inovadores que surpreende o mundo ao convocar a todos a debater temas tabus dentro de uma instituição conservadora. Aos olhos perplexos de muitos, ele propôs ao quadro dos “servidores” da própria Igreja, um debate sobre questões que atravessam o sagrado conceito de “família” como a homossexualidade e os divorciados, antes excluídos das bênçãos divinas. Se isto pode se configurar como um serviço a favor da vida e principalmente do afeto como seu combustível, uma grande fatia dos “tementes” representam ao contrário, forças religiosas conservadoras que apoiam a volta ao militarismo e às guerras e instigam as atitudes machistas e homofóbicas. Na linha do equívoco da mistura entre governos e religião, talvez o exemplo mais contundente seja o Islã, que parece ter perdido seu rumo ao tentar restabelecer um tempo em que puderam ser importantes e referendar a cultura mundial. Ainda que não sejam aprovados pela maioria dos muçulmanos, o novíssimo Estado Islâmico, considerado por muitos como um sucessor ainda mais radical do movimento Al-Queda, representa a imagem de um Islã que busca a volta ao século VII, ou seja, de um tempo em que podiam ser vitoriosos e poderosos e que tal feito podia ser atribuído  aos desígnios de um Deus. Em um mundo em que cabe cada vez mais a cada um buscar um lugar “político”, em que questões éticas e políticas como justiça, hospitalidade, responsabilidade e democracia fiquem subentendidas, esta “missão” que não é nada simples, exige que se considere os legados, as heranças, mas sempre para argumenta-las e supera-las, adequando-as às novas formas de se viver. Esta tarefa está diretamente relacionada com os cuidados e a educação das crianças do futuro, que precisam de tempo, espaço e dicas para explorar o mundo, descobrir quem são e quiçá desafiar as metas parentais e de seu tempo.


A vida entre parêntesis

Em entrevista à Folha de São Paulo no mês de novembro, o artista londrino Damien Hirst  que veio ao Brasil para abrir uma exposição de seus trabalhos, e que há 20 anos é considerado uma celebridade no mundo das artes, confessava que desde 2008, quando percebeu que não era imortal, que podia envelhecer, adoecer ou morrer, conseguiu finalmente ter uma visão de si, de seu passado e de sua vida, mesmo que no início tivesse ficado tomado pelo pânico. Detalhe: a morte sempre foi seu tema principal. Mergulhado nos excessos de si, de grana, de drogas, não lhe era possível sequer balizar o valor que suas obras tinham para ele. A impressão que se tem ao final da entrevista é que uma parte de si não pode deixar de administrar este personagem, e o tom mais confessional o ajuda a manter-se mais “amado” do que “odiado” ou “invejado”. Líder dos YBAs, ou melhor, dos jovens artistas britânicos dos anos 90, Damien teve uma carreira meteórica ao se associar a um colecionador conhecido pelo estilo agressivo na aposta midiática e marqueteira, o que o fez acumular uma grande fortuna. Nos últimos dez anos, no entanto tornou-se, junto ao sucesso de suas obras, uma pessoa non grata em boa parte de Londres e em alguns lugares da Europa, a ponto de evitar comparecer às vernissages de suas exposições. Em São Paulo, entre alguns selfies com os admiradores, apelava para o caráter mais genuíno e cordial dos brasileiros. Vivendo em uma época em que o recurso midiático projeta os famosos num perímetro antes inimaginável, ao mesmo tempo em que glamuriza sua intimidade, Damien talvez não estivesse preparado (será que alguém está?) para se tornar, assim como sua obra, um objeto da curiosidade e apetite infinito do público. Já a Ilustríssima do dia 9 de novembro, na onda do projeto Alemanha+Brasil 2013-2014, uma parceria do governo alemão e do Instituto Goethe para celebrar as relações entre os dois países, desafiou 11 nomes representativos das duas culturas para escreverem a partir de um futuro fictício: "Estamos no ano de 2064 e hoje você está celebrando seu 50º aniversário. Como está o mundo neste dia?" Imaginar-se nascendo hoje e vivendo aos 50 anos em 2064 não é tarefa fácil. O que escolher para ficar ou mudar? Que tons usar, os cinzas ou os coloridos? Como pensar o mundo ou as pessoas? Um resumo dos relatos mostra que a maioria consagra a hegemonia da ciência e da tecnologia para os corpos e para os modos de viver, embora alguns acentuem as notas mais nostálgicas, de um passado com mais recursos naturais e menos vida artificial. Uma boa parte aposta que a ciência e a tecnologia levarão às ultimas consequências o projeto de parecermos felizes, vivos por muito mais tempo, com possibilidade de apagarmos a memória a fim de evitar as dores, as paixões ou os loucos desejos. Mas se para alguns só resta tentar “comprar” memórias justamente para não esquecer o passado de amores e dores, para outros sempre haverá brechas, furos e tréguas, e a humanidade não cessará de inventar novas formas de resistência ao status quo. Saber/poder improvisar pode vir as ser valioso. Apenas um (alemão) imaginou um mundo sustentável, que teria derrubado o modo de vida baseado no consumo infinito de objetos, e instalado o desapego, inventando um estilo de vida do alivio e do prazer. No balanço final o mundo pode ser vivido sem futuro, em guerra perpétua, muito gelado ou muito quente, e principalmente com muito medo. A entrevista feita a Damien discutida no inicio do texto, tenta capturar a “verdade” de sua vida, escarafunchando o passado e o presente, como a oferecer ao leitor um sentido que não está claro e precisa ser narrado. Ao discorrer sobre minhas impressões a respeito do artista baseada em suas respostas ao repórter, opto por privilegiar um ângulo de sua vida ao invés de outros. Os 11 relatos apresentados pela Ilustrissima também contém esta diversidade de olhares para o futuro do mundo, provavelmente construída a partir do sentido que cada autor atribui à sua vida. 

domingo, 9 de novembro de 2014

O pão nosso de cada dia


O diretor Richard Llnklater é cultuado por uma parcela importante de jovens que assistiram a sua trilogia Before "Antes do Pôr-do-Sol"/ "Antes do Amanhecer"/ "Antes da Meia-Noite", e desfrutaram do roteiro aparentemente despretensioso destes filmes que apresentavam uma inovação ao eleger como protagonistas do par amoroso, os mesmos atores, em três épocas diferentes de suas vidas, perfazendo um intervalo de nove anos. Assim, os sonhos e expectativas amorosas de juventude, podiam ser revistos e checados sob outras perspectivas pelo casal, à medida que ficavam mais velhos. Seu mais novo projeto, “Boyhood”, ganhador do Urso de Prata de Berlim pela direção, é tão ou mais ousado e primoroso. Durante 12 anos, também com os mesmos atores, Linklater filmou a historia de uma família de classe média, que vive no Estado do Texas – local pouco utilizado como cenário no cinema americano – permitindo a nós, espectadores, acompanharmos seus membros em seus pequenos dramas, conflitos e anseios, na tristeza e na alegria. É a vida cotidiana que nos toca viver que se apresenta, com seus altos e baixos, ainda que o projeto de Linklater não deixe de fora certos acontecimentos impactantes como a invasão do Iraque no governo Bush, a surpreendente eleição de Obama, o sucesso da saga Harry Porter entre jovens e crianças e claro, as transformações que o mundo digital trouxe aos modos de vida de todos. São dois filhos de pais separados – o caçula e sua irmã mais velha - que vivem com a mãe e precisam segui-la em suas mudanças de casa, cidade, maridos. O pai músico, que no inicio do filme usa a metáfora “trabalhando no Alaska” como desculpa por não pertencer ao mundo dos bem sucedidos,  logo retoma sua parte no convívio com os filhos. Assim como na sua trilogia sobre o amor, neste também os diálogos entre os adultos, entre estes e as crianças, entre as próprias crianças ou os adolescentes, são um diferencial do filme. Linklater parece fazer questão de utilizar o espaço cênico para debater ideias importantes sobre as relações humanas. Nada é deixado de lado, nem as brincadeiras bem humoradas, nem as mágoas, as dúvidas, as más escolhas (e suas consequências), as humilhações ou as questões sem respostas. Mas embora possa parecer um roteiro sem pretensões maiores do que a de apresentar a vida de uma família comum sem julgamentos morais ou normativos, não há como não aplaudir a preocupação do diretor em salientar o papel fundamental que os adultos contemporâneos precisam exercer não só quando escolhem serem pais, mas simplesmente por ocuparem um lugar assimétrico em relação aos mais jovens, e só por isso já estarem convocados a assumir a tarefa civilizatória e humanizadora. Neste sentido, de forma despretensiosa e deslocada dos discursos idealizados sobre família/pais e filhos, ele sublinha a importância desta responsabilidade e, portanto do comprometimento e cuidados com esta função, que para ser amorosa – fator imprescindível para acontecer um link com a vida e consigo mesmo – exige menos competências intelectuais e mais conhecimento sobre si, sobre o sentido/valor da vida de cada um, sobre a importância de se deixar afetar e de suportar /respeitar o estranho ou desconhecido. Moral da história: fica muito mais difícil ajudarmos os “garotos” a se emancipar e ganhar autonomia, se não percorremos antes este caminho e pudemos compreender a importância de discriminar o que deve ser incentivado, o que precisa de parâmetros e limites claros e o que necessita ser vetado. Não, não precisamos ser/bancar os adultos sabichões, ao contrário, pode ser salutar dividir algumas dúvidas e incertezas.
Para conferir: Boyhood  - 2014 - USA
Diretor: Richard Linklater

Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke