domingo, 11 de junho de 2017

Encontros amorosos: amor, paixão e desejo na cultura moderna

Encontros Amorosos: amor, paixão e desejo na cultura moderna
                                                                                     
                                                                                      Gisela Haddad

Resumo: O texto tenta refletir sobre as implicações das mudanças nas questões que giram em torno do amor e do sexo na constituição das uniões amorosas. Resgata de forma resumida as coordenadas históricas e culturais que organizaram a vida amorosa desde a modernidade e sua articulação com os mecanismos de construção de uma particular subjetividade. A literatura romântica oferece um retrato tanto da exaltação do amor e dos destinos trágicos das paixões como do debate inédito sobre o sexual humano, além de promover a construção de cenários de encontros, desencontros e experiências amorosas cujas sensações especiais e dores pungentes passam a colorir as fantasias humanas.
Palavras chave: amor, sexualidade, psicanálise, modernidade

                                                 O mais singular livro dos livros
                             É o Livro do Amor;
                                     Li-o com toda a atenção:
                                      Poucas folhas de alegrias,
                                        De dores cadernos inteiros...
                                  ...O insolúvel, quem o resolve?
                                                         Os amantes que tornam a encontrar-se
                                                                               Livro de Leitura, Goethe

Utilizada originalmente pelas ciências naturais para designar a atração entre dois elementos químicos diferentes, mas afins, a expressão afinidades eletivas foi o título escolhido por Goethe para coroar seu romance de 1809 - escrito quando já era um sexagenário- quiçá para tentar compreender por qual imperioso impulso dois seres buscam-se um ao outro, atraem-se, ligam-se e a seguir ressurgem dessa união íntima numa forma renovada e imprevista.
Goethe é considerado um ícone do romantismo, movimento que trazia como novidade o acolhimento das contradições e antíteses, e o fato de que nossas vidas não seriam ditadas somente pela razão, mas também pelo nosso estado d’alma. Na Alemanha em especial ganhava força uma vertente denominada Sturm und Drang (tempestade e ímpeto) que rompia violentamente com conceitos e esquemas que regulavam as relações individuais e sociais, políticas e morais e repercutia profundamente na arte e na literatura ao proclamar a liberdade absoluta do artista.
Nesta Europa da era burguesa, final do século XVIII e início do século XIX, vivia-se um momento cultural turbulento, pleno de debates sobre as paixões terrenas (amor erótico) e elevadas (amor sublime). Juntamente com os valores modernos pós-revolução francesa, que pretendiam transpor as barreiras das diferenças de direitos entre homens e mulheres, das diferenças culturais, de raça e de religião e dos preconceitos sociais, o mito do amor romântico prometia atender às demandas de prazer e de felicidade humanas ao acenar com a possibilidade da junção casamento/amor/sexo e apostar que em algum lugar do futuro cada um viveria sua história de amor com alguém especial. Ao realizar uma síntese das paixões sexuais e amorosas e oferecer uma medida mista de enaltecimento do sentimento (amor) levado às alturas com a melhor das emoções (sexo) dentro do casamento, este amor verdadeiro passa a ser um destino pessoal almejado por homens e mulheres, que podem escolher seus parceiros por amor e construir roteiros, sensibilidades e aspirações amorosas inéditos. Surge um imaginário sociocultural diferenciado, uma dimensão humana de interioridade e uma subjetividade amorosa que tanto na sua dimensão trágica (impossibilidade) quanto dramática (ambivalência) toma um espaço central na vida dos dois sexos.  O estilo romântico da literatura oitocentista privilegia de forma inaugural estes anseios amorosos, inspirando uma nova maneira de existir humana, voltada para o conhecimento de si.  As historias de amor alimentam-se e são alimentadas em um circuito permanente por um repertório sempre renovável distribuído entre os romances. Verdadeiras ou fictícias, tais historias fascinam a todos e se perpetuam ao serem lidas e relidas, lembradas ou citadas.
Em Afinidades Eletivas, Goethe, no entanto, expunha a contingencia e a ambigüidade da moderna sina humana amor-desejo, responsável pelo pêndulo entre o imperativo de nossa natureza que solicita e deseja, o imperativo moral, que tanto pode nos constranger quanto nos dignificar e nossa ânsia de reconhecimento amoroso. Neste terreno arenoso, a razão sucumbia, como viria a constatar Freud, aos desígnios mais crus de nossas tendências pulsionais. Por questionar repetidamente a tão esperada fidelidade, o idealizado casamento e o significado do amor, as paixões inesperadas desconstruíam as expectativas de uma vida amorosa tranqüila e pacífica e revelavam a complexidade de nossos desejos.
Parte integrante deste mito amoroso, a sexualidade humana, por seu caráter disruptivo, havia se mantido durante grande parte da história ocidental como uma dimensão da vida que deveria ser acobertada, tendo como aval a ideologia judaico-cristã, que condenava a carne e silenciava suas paixões em proveito das coisas do espírito. Se a cultura de então incentivava certas condutas para o convívio amoroso entre os sujeitos, as paixões despertadas pelo desejo rompiam com a moral da época de Goethe, e tornavam trágica a busca pela realização amorosa romântica, que não podia suportar a invasão das forças da natureza responsáveis pela atração irrefreável entre as pessoas.
Na medida em que o tema da sexualidade se impunha interferindo nos modos como os indivíduos davam sentido e valor às suas condutas, aos seus deveres, prazeres e sentimentos, a moral sexual burguesa tentava abater a importância da ligação do sexo com o prazer. Os casamentos de então pretendiam civilizar as relações sexuais, restringindo-as à sua vigência e impondo limites à vida sexual de homens e mulheres (principalmente destas). Sabemos quão o ethos freudiano irá revelar o avesso da moral burguesa. Por ser via de acesso à vida do corpo e da espécie, o sexo adquiria um lugar de destaque nos discursos médicos, políticos, jurídicos, religiosos e psicológicos, no intuito não só de focalizar a saúde dos indivíduos, mas de criar dispositivos e normas para o prazer sexual. Parte da literatura da época se ocupava em revelar tais disparidades através de narrativas que ora condenavam a sexualidade ao vício e à insanidade, ora exaltavam suas possibilidades de êxtases prazerosos. As histórias amorosas mantinham seu papel de fornecer pistas sobre o percurso do amor na cultura e as idiossincrasias da complexa ligação amor-sexo.
Grande parte da inquietação em torno da sexualidade dirigia-se às matizes do erotismo feminino que habitavam o imaginário masculino, considerado transbordante, excessivo e incontrolável. Se a literatura (quase que exclusivamente escrita por homens) denunciava esse misto de fascínio e medo, os discursos sociais se apressavam em adestrar o corpo e a sexualidade da mulher à procriação e ao casamento; qualquer desejo ou comportamento sexual que extravasasse esses limites era tratado como excesso, degeneração ou patologia. O amor romântico, embora acenasse com uma solução de controle da sexualidade feminina por meio do casamento, incitava a junção de duas figuras míticas, a santa e a prostituta, divisão que a cultura se ocupava em caucionar, diante da dificuldade masculina de enfrentar a figura da mulher-mãe assexuada (protótipo do primeiro amor de todos), e a figura da mulher sensual. Sexo e amor confirmavam sua difícil convivência pelo fascínio-medo da mulher sensual e da mãe cuidadora, cuja junção seria inadmissível em tal contexto histórico. Pode-se entender por que havia grande tolerância social aos homens infiéis, que, de certa forma, possibilitava a eles resguardar-se dessa atração proibida e inconsciente, vivendo o sexo de um lado e o amor de outro. Essa prática serviu para que a infidelidade masculina pudesse ser naturalizada e o adultério feminino condenado (chegando a ser considerado crime até algumas décadas atrás). Ao contrário do par de modelos opostos, a mulher sensual e mal vista ou a maternal bem aceita, aos homens a cultura reservava uma moral mais branda. Ainda assim, como revelava Goethe, as paixões inesperadas podiam surpreender a todos.
A ânsia pelo momento de êxtase máximo do ser humano – em que duas pessoas seriam bastante uma para a outra, não necessitando de mais nada no mundo, em uma espécie de consumação máxima da realização dos desejos – desencadeou um debate questionador sobre as maneiras de amar, as transformações do erotismo, as práticas sexuais e as restrições impostas aos sexos. A psicanálise inaugurou uma forma de decifração desse tumulto interior, percorreu seus caminhos e por meio de uma análise especial de suas mazelas, lançou novas questões, procurando elucidá-las. Para isso, empreendeu um projeto de conhecimento da sexualidade humana desenhada pelo inconsciente, sublinhou o papel do recalcamento, o lugar de fantasia do “sexual” e revelou um sujeito ao mesmo tempo livre e coagido por ela. Neste último século foram principalmente as mudanças em torno da sexualidade que se impuseram e afirmaram de forma inédita o direito de cada um ao prazer sexual. Estas mudanças interferiram sobremaneira na paisagem social e admitiram uma nova ética da sexualidade. Amor e sexo estão separados, ainda que possam compor várias melodias. O enigmático se deslocou de nossa sexualidade para nossos desejos. O ficar, prática que se consolidou entre os adolescentes e que hoje permeia as relações de todas as idades, abriu um espaço inusitado para relacionamentos passageiros, fortuitos, que não visam compromissos futuros e em que predomina a sensorialidade. Nem por isso deixou de existir o espaço privilegiado das relações amorosas que buscam um envolvimento mais efetivo entre os pares e por isso prevêem uma confluência de interesses e desejos continuamente negociados. Apostando ainda em sua durabilidade, estas relações incluem a possibilidade de uma ruptura, caso haja a finitude de interesse de uma ou ambas as partes ou quando os pactos que as asseguravam se desfazem. O casamento deixou de ser uma instituição, tornando- se apenas uma formalidade, um modo de administrar as expectativas de laços conjugais mais duráveis. Os novos parceiros se formam em regime de simetria e, como cada um é o único legislador de sua relação amorosa, precisa negociar constantemente com o par, investindo nele, se o objetivo de ambos for prolongar o relacionamento.
Na época de Goethe, a tarefa de encontrar uma acomodação feliz entre as reivindicações individuais e culturais indicava a necessidade de internalizar a repressão social dos sentimentos destrutivos e dos desejos sexuais temidos, que deveriam se transformar em uma consciência moral vinculada à culpa. Hoje a pluralidade dos códigos de convivência nos coloca em contínuos conflitos a serem administrados para que possamos validar a diversidade de nossas opções. Mantém-se a procura por realizações sentimentais e satisfações sensoriais, mas a liberdade sexual que hoje se usufrui, impensável mesmo há três ou quatro décadas atrás, incentiva a  busca e não condena mais o prazer físico. Estamos, sob este ponto de vista, mais livres para decidir sobre o que fazer (e como fazer) com os nossos corpos, sensual e eroticamente emancipados.
O remanejamento dos antigos códigos de convivência amorosa também assegurou uma liberdade maior a cada indivíduo, que hoje pode escolher, entre um leque amplo de opções, aquilo que mais se afina com seus gostos ou estilo de viver; mas não tem sido fácil para a grande maioria fazer o luto do ideal de amor romântico, habitante velado ou declarado do íntimo de cada um. Talvez porque as dores provocadas pela luta entre a manutenção deste anseio romântico e todos os sentimentos que o acompanham - como o medo da perda, do abandono ou da traição - sejam reminiscências do romance infantil vivido por cada um em seu seio familiar. A psicanálise, que no ultimo século ajudou a desvendar esse modelo de contexto familiar e a complexidade das subjetividades de seus membros, revelou não só os bastidores conflituosos das relações entre mãe, pai, filhos e filhas, mas o lugar privilegiado das funções (amorosas) parentais na constituição do psiquismo humano. O amor incondicional imaginado durante os cuidados e acolhimento dos primeiros anos de vida transformaria cada um em Narciso e marcaria um destino de busca para ser amado e admirado. Recuperar esta imagem de centro do mundo e de todas as atenções confunde-se com a promessa do romantismo amoroso, que assim parece legitimar a expectativa de  satisfação sexual e sentimental e a busca de  um parceiro (a) que devolva este olhar que se espera poder amparar e confortar.  Vivemos em um circuito amoroso que se repete indefinidamente. O amor que esperamos ter recebido de nossos pais na infância moldará aquele que nutrimos por nós mesmos. Este, por sua vez, fará com que busquemos, no outro que iremos eleger, o mesmo reconhecimento e valor do amor. Espera-se que possamos encontrar maneiras de nos amar mesmo quando não fomos tão amados quanto gostaríamos, e quem sabe buscar por meio de nossas escolhas o amor que queríamos ter recebido.
Não por acaso são inúmeras as produções culturais que alimentam a ideia de que a vida não tem sentido se não encontrarmos nosso par amoroso, o que torna as escolhas amorosas o centro nervoso da relação que temos com nossos eleitos. De certa maneira, repetimos indefinidamente esta busca e tentamos responder aos enigmas das afinidades eletivas. Como nos apaixonamos? O que faz com que nos sintamos atraídos amorosa e sexualmente por alguém? Porque experimentamos uma aceleração de nossos batimentos cardíacos, um suar frio, às vezes um rubor ou uma inesperada inibição diante de alguém?  
Na visão psicanalítica, estamos sempre buscando as condições infantis de amar, tentando reconhecer no outro os traços de nossas relações com nossos pais, seguindo nossos registros inconscientes de prazer. Escolhemos nossos parceiros em função das experiências de vida, marcas de prazer e de desprazer, modos de sentir o outro ou de interpretar a busca de satisfação. A biografia amorosa contém a memória do corpo erotizado, assim como as maneiras singulares de desejar reconhecimento e amor do outro. Pode ser um traço particular – ou um conjunto deles – que para cada um terá uma função determinante nesta escolha. Algo próprio, que se relacione com sua história singular e íntima, sempre atravessada por fantasias e pelos ideais que o eleito representa como veículo de satisfação.
Em geral, quando o amor bate à porta sem avisar, e a sua presença se impõe prescindindo de definições ou apresentações prévias, estamos diante da paixão. Considerada o auge do sentimento de amor, a fronteira entre nós e o outro ameaça desaparecer e contra todas as provas de nossos sentidos, declaramos que somos praticamente um só, fazendo disso um fato. A experiência da paixão é a de um amor ideal: colocamos o eleito no lugar do nosso próprio eu idealizado e não podemos mais distingui-lo de nós mesmos. Apagam-se as diferenças e tem-se a sensação de nada faltar, uma captura narcísica inconsciente em que vemos no outro o que somos, o que fomos ou o que gostaríamos de ser ou possuir. Não só temos a convicção de que o outro pode sanar a nossa falta como também a de que nós temos aquilo que lhe falta. Imaginamo-nos capazes de oferecer-lhe todo o prazer sem jamais sermos fonte de sofrimento. Um é necessário e vital para a sobrevivência do outro, não havendo possibilidade de pensar ou desejar algo que não lhe seja voltado; as divergências são ameaçadoras e a exigência de exclusividade é exorbitante. Vivemos tal e qual uma relação aditiva e alienada. O amor-paixão busca essa complementaridade; amamos para ser amados.
Mas nossas parcerias românticas, construídas na promessa da incondicionalidade, exclusividade e felicidade, não possuem garantias. Quando amamos, ficamos desprotegidos contra o sofrimento, mais à mercê do outro e expostos a dores extremas se rejeitados, traídos ou abandonados. Território-limite entre nós e um outro, a experiência amorosa é fonte dos conflitos mais humanos, que gravitam entre o amor e o ódio, o domínio e a subjugação, o desejo e a indiferença, a rivalidade e a generosidade. Na medida em que se ama, é impossível não correr os riscos da perda e seus desdobramentos em termos de sofrimento.
As mudanças na cultura atual em torno de uma sexualidade mais livre não nos isentam das dores do amor, ao contrário, apenas nos fazem construir novas defesas contra elas. Transgressiva, ela mantém seus traços infantis de perversa, por explorar, exagerar e exceder os diferentes modos de satisfação, e polimorfa, por admitir muitas formas, plásticas e mutáveis. Cada par tenta fazer acordos que possam regular o prazer, o gozo e o sofrimento que suas relações amorosas e sexuais demandam, tendo como pano de fundo, o anseio de que o eleito possa significar o fim desta busca incessante e o conforto do amor incondicional. A despeito desta aposta, as infidelidades rondam as dissoluções e questionam repetidamente a contabilidade conjugal. Na exclusividade pretendida por ambos os parceiros e caucionada pelo imaginário cultural, ressoa a imposição infantil poderosa a qual a maioria dos sujeitos resiste a renunciar, independente de sexos ou gêneros. Nada é mais gratificante do que a ilusão de possuir a fonte do amor incondicional; nada é mais terrível do que perdê-la.
Sabemos que, no terreno do amor e do sexo, não há como expurgar a contingência, a ambigüidade e a dúvida. Resta-nos construir caminhos em que o jogo narcísico que nos constitui e reúne, também possa  inventar uma ética amorosa para nossas condutas. Pode-se dizer que as afinidades eletivas nestes dois séculos que nos separam de Goethe, mantêm este dilema entre nosso ideal subjetivo e os ideais sociais, mas nossas dores e temores estão mais ligados à confiança que conseguimos ou não obter sobre nossas potencialidades.
Ao que parece, as inúmeras opções que nosso mundo contemporâneo produz no intuito de nos oferecer felicidade continuam ganhando mais sentido se vividas junto a um  parceiro amoroso. O amor mostra como precisamos desse lugar, ainda que imaginário, em que solicitamos do outro que nos responda sobre nossa importância. Mais do que tudo, almejamos ser especiais.
   
Fontes Bibliográficas
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___________. Terra de Ninguém, São Paulo: Publifolha,2004
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COSTA, J. F. Sem fraude nem favor, Rio de Janeiro: Rocco, 1998
FOUCAULT, M. Historia da Sexualidade II – O uso dos prazeres, Rio de Janeiro: Graal, 1984.
FREUD, S. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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__________.Um tipo especial da escolha de objeto feita pelos homens (Contribuições à Psicologia do Amor) (1910).
__________.Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (Contribuições a psicologia do amor) (1912).
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__________. Sobre o narcisismo (1915).
GAY, P. A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud: A educação dos sentidos, São Paulo: Cia das Letras, 1999.
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GOETHE, J.W. Afinidades Eletivas, Coleção Grandes Clássicos, São Paulo: Nova Alexandria, 1992
HADDAD, G. Amor e fidelidade, São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009
HADDAD, G. Amor, São Paulo: Duetto, 2010
HEILBORN, M. L. Dois é par , Rio de Janeiro: Garamond, 2004.
MONZANI, L. R. Desejo e prazer na idade moderna, Campinas: UNICAMP, 1995
NUNES, S. A. O corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha, Rio de Janeiro: 
                    Civilização Brasileira, 2000.
ROUDINESCO, E.    A família em desordem, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.


Gisela Haddad é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. É autora do livro Amor e Fidelidade (Coleção Psicanalítica, Casa do Psicólogo - 2009)  e Amor (Coleção Emoções, Editora Duetto – 2010).

Debate Psicanálise e Cinema - Cisne Negro

Debate Psicanálise e Cinema – Cisne Negro

Gisela Haddad

Não se assiste ao filme Cisne Negro impunemente. Lembro-me de ter ficado com uma sensação perturbadora durante alguns dias. No momento em que escrevo este texto, já com alguma distancia no tempo, torna-se mais fácil analisar o impacto que o drama de Nina exerce sobre nós. Não por acaso ele causou tanto frisson na área psi, que produziu muitos textos espalhados pelas redes sociais.
O diretor, Darren Aronofsky - conhecido por privilegiar análises psicológicas de seus personagens - nos presentou, entre outras coisas, com a apresentação de muitas cenas ilustrativas dos sintomas típicos de uma paranóia. Mas pensar neste filme como um caso clínico é reduzir sua beleza e seu valor estético/artístico e mais, é deixar de lado o fato de ele ser uma produção cultural e por isso ser uma leitura atualizada de nossa condição humana, o que pode enriquecer nosso debate sobre ele. É possível, por exemplo, analisar os diferentes lugares que a cultura reservou e reserva para a loucura, a maneira como a loucura se enlaça com a arte na história, ou ainda em como a loucura impõe este “estranho/familiar” que em geral provoca uma sensação de desconforto, mal estar e estranhamento. Foi assim que a maioria das pessoas que viram o filme descreveram seus sentimentos e é bem capaz que este descompasso situe-se na exigência que sua narrativa impõe a cada um para que abra mão de suas referências - se puder – para entrar em outra lógica, sem tentar enquadrá-la em seus parâmetros. A loucura, tão comum e frequente na cultura, suscita sentimentos intensos de repulsa, de temor e às vezes de idealização.  
Cisne Negro é também a encenação de uma das peças mais importantes da história do ballet, uma releitura moderna do clássico dos clássicos, “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky. “O Lago dos Cisnes" é mais do que a história de um cisne, ou de um papel para uma bailarina. Conta a história de um príncipe, Siegfried, que, coagido pela mãe a se casar com uma cortesã, se apaixona, ao invés, por uma mulher-cisne, Odette, a princesa transformada em cisne branco que só retornará à vida humana pelo amor sincero de um príncipe. Numa noite de luar com o céu encoberto, Siegfried confunde-a com Odile, a filha do feiticeiro Rothbart, que tentara seduzi-lo no baile e, enfeitiçado, jura-lhe amor eterno, condenando assim Odette ao suicídio e à morte. No início interpretado por duas bailarinas, com o tempo alguns coreógrafos perceberam que haveria uma maior coerência com a dramaturgia da peça se fosse  um mesmo corpo encenando esta divisão. Ou seja, é arte como expressão legítima do psiquismo humano ou de sua compreensão no contexto histórico. Exaustivamente encenada nestes últimos dois séculos, O Lago dos Cisnes parece exercer seu fascínio justamente por este desafio imposto à prima ballerina que precisa tanto encarnar o cisne branco, que obedece a um rigor e a um controle extraordinários, quanto o cisne negro, quase uma catarse deste controle. Para o cisne branco, símbolo do amor ideal e puro, o bater de asas são gestos de proteção, mais instintivos, o que exige movimentos mais lentos e suaves. Já para o cisne negro os movimentos são mais rápidos, sensuais e libidinosos. Odette, o cisne branco, jamais encara o príncipe Siegfred enquanto que Odile está sempre a seduzi-lo. Tchaikovsky aproveitou-se da mitologia local em que o cisne representa a feminilidade, mas compõe uma história trágica. Talvez porque vivesse em uma época cujos valores herdeiros da Revolução Francesa (Iluminismo) prometiam liberdade e autonomia, mas na verdade limitavam a vida adulta ao trabalho, ao exército e ao casamento. A vida real era asfixiante, a sexualidade civilizada e a homossexualidade inaceitável. O cisne negro seria uma tentativa de  burlar esta moral burguesa, sem sucesso. O casamento entre o príncipe a princesa acaba em morte aos dois. O filme do diretor Darren Aronofsky abre com imagens de Nina interpretando o Cisne Branco juntamente com o príncipe Siegfried e o feiticeiro/demônio Rothbarth. A câmera capta seus movimentos suaves e precisos, mas logo ficamos sabendo se tratar de um sonho. O sonho de Nina que almeja ardentemente ser a primeira bailarina do Ballet de Nova York. Seu rosto parece satisfeito ao acordar. Sua vida tem um sentido. Ela se levanta e inicia sua jornada diária. Na cena em que o diretor anuncia que estará selecionando a rainha cisne, ele informa sobre a versão escolhida, em que a menina virginal, pura e doce está presa no corpo de um cisne. Ela quer a liberdade, mas só o verdadeiro amor pode quebrar o feitiço. Seu desejo é quase concedido sob a forma de um príncipe. Mas, antes que ele possa declarar seu amor, o gêmeo lascivo, o Cisne Negro, engana e o seduz. Devastado, o Cisne Branco pula de um penhasco, matando-se e, na morte, encontra a liberdade. A partir daí o filme induz cada espectador a ser refém da perspectiva de Nina na imersão da conquista do que parece ser a sua (e de sua mãe) única razão de viver: ser a prima ballerina. Embarcamos em uma viagem às vezes emocionante, outras aterrorizante, à sua psique. O resultado é uma sensação mista entre o sufoco, a aflição e o desconforto. Para muitos uma sensação de horror. Para poucos, o da compaixão. Ficamos aprisionados em seu corpo, ao mesmo tempo em que este é testemunha do surto psicótico de seu psiquismo. Assim  como Nina, não conseguimos mais distinguir delírio de realidade. O diretor Aronofsky consegue, de forma genial, criar um paralelo entre a história da bailarina Nina e a saga que ela interpreta. Cada personagem - a mãe, o diretor,  Lily, e até mesmo Beth, ex- prima donna deste corpo de ballet que acaba se suicidando - ocupa um lugar no imaginário de Nina e passam a ser protagonistas de sua trama paranóica.
Nina é escolhida com ressalvas pelo diretor. Ela é tecnicamente perfeita para encarnar o Cisne Branco: silencioso, doce, contido. Por isso, ao escolhê-la, o diretor deixa claro que ela precisará despertar seu Cisne Negro, deixar vir à tona a agressividade e o erotismo. Mas ele está longe de perceber o significado desta demanda que lhe faz. Talvez se ele se interessasse em acompanhá-la a sua casa, ao seu quarto cor de rosa mantido com uma decoração infantil, à sua rotina diária de horários e dietas rígidas sob os cuidados de uma mãe que se dedica de forma absoluta à realização pela filha, de seu frustrado sonho de ser uma grande bailarina. Se ele pudesse assistir às cenas de seu cotidiano, quem sabe haveria um destino diferente para aquela menina. Mas desde o início o filme já anuncia o fim trágico tal e qual as grandes tragédias gregas em que os heróis nada podem fazer contra o que já lhes está predestinado. Ter que ocupar o lugar da Rainha Cisne desencadeará sua crise. Ao defrontar-se com as exigências que esta experiência lhe coloca, ela não poderá suportar suas insuficiências ou responder aos impasses por não ter como responder, por não ter  referências ou um saber e assim seu mundo começa a ruir e sua resposta é o delírio. Até então sustentada por uma suplência que a aderência ao desejo de sua mãe lhe proporcionava e submetida às certezas maternas, Nina podia viver sem a dúvida ou algum enigma a respeito de si. Mas agora é ao diretor que ela deve se submeter e responder aos seus pedidos, alguém que lhe impõe questões difíceis, confronta-a com o real do sexo, que ela está longe de poder digerir ou suportar. Reduzida à condição de objeto e vítima de seu diretor, é invadida por suas próprias pulsões, perseguida por incessantes demandas imaginárias. O delírio é uma produção de defesa contra o extermínio subjetivo. É uma espécie de construção, uma tentativa de ordenar, dar algum sentido àquele mundo que a circunda e as relações com aquelas pessoas. É o delírio  que lhe permite continuar a viver a bailarina , embora a um custo altíssimo.
Fosse ela neurótica, poderia se questionar se o diretor a achava mesmo especial, desconfiar se ele estaria tramando algo, duvidar se a colega rival a amava ou estava a fim de ferra-la. Mas para Nina não há chances de dúvidas. Ela precisa de certezas a respeito de si e dos demais. Resta-lhe ser a perseguida. Sua experiência é da ordem da certeza, é plena, é absoluta. Ela “sabe” que a conquista do papel principal está em perigo graças às más intenções de Lilly, sua rival, que além de seduzi-la também seduziu seu diretor, que por estar apaixonado, não hesitará em substituí-la por Lilly. O delírio é a  tentativa desesperada dela reconstruir seu mundo espatifado, uma tentativa de saída da crise já que  através dele ela pode obter uma significação subjetiva para si, uma história na qual poderá se incluir e se contar. Sua vida resume-se agora a este trabalho de interpretação destas situações enigmáticas dirigidas a ela, as quais ela só pode responder por meio desta construção. São relações de força, não dialetizáveis, de um mundo sem equívocos, sem contingência e de uma sexualidade sem tropeços. Só nos resta acompanhá-la nesta outra lógica, e vivermos seu aprisionamento até a morte.
No final testemunhamos mais uma vez que o insuportável suscitado pela loucura é o que ela revela de nós mesmos, aquilo que não queremos saber, aquilo que  queremos manter  oculto, reprimido.  Ela nos evoca a fragilidade de nossa própria significação mostrando que ela não está livre de dúvida ou de questionamento, que somos órfãos dos deuses. Nos lembra que sem esta ficção que construímos sobre quem somos, podemos ficar  reduzidos ao nosso próprio corpo. Que a vida não tem nenhum sentido a priori, e que é sobre esse fundo de não sentido que às duras penas construímos um sentido para nossa existência.
Nina circula de modo diferente nas significações da cultura, possui outra escala de referências e valores. Sem  esta “estrada principal”, todas as estradas, ou seja, as avenidas, ruas e ruelas, se equivalem.
É muito difícil conviver com a alteridade que a loucura provoca, por isso existem poucas pessoas dispostas a isso, e menos ainda são as capacitadas para um convívio construtivo. Se há algo que revoluciona nossa concepção de sujeito, mesmo a do sujeito neurótico, é a experiência com a psicose. Por isso para acompanhar uma busca de significação de um psicótico é necessário uma paixão pela variedade das significações humanas. O psicótico reinventa o mundo, cria suas próprias regras, constrói associações inusitadas e sentidos inesperados. Suas palavras são preto no branco, são sérias, decisivas e precisam de respostas muito bem pesadas e pensadas. Sua vida é sempre por um fio e aquilo que ele constrói às duras penas por toda a vida pode desmoronar em um minuto.
Na psicose o acesso ao simbólico - este legado que nos possibilita fazer parte de uma história, ter uma origem, um passado que nos antecede, um mundo que podemos compartilhar com suas leis, regras e normas – está vetado. Se nenhum significante consegue substituir o significante do desejo materno, a lógica simbólica se organiza de outra forma, assim como a realidade psíquica do sujeito. Ele pode ficar assujeitado a uma relação primitiva com a mãe e se tornar o único objeto de desejo dela, provavelmente porque a mãe imaginou- o como alguém que pudesse satisfazê-la por completo. Sem poder ser um outro diferente da mãe, institui-se entre eles uma relação fusional, sem espaços para mediadores, um “mal entendido” trágico e fascinante que obstaculiza e destitui qualquer terceiro. Muitas vezes a mãe cria suas próprias leis, que diferem da lei compartilhada pela cultura. Esta é nossa Nina.


Trabalho apresentado em Sorocaba - Maio de 2011

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O lugar da loucura na sociedade

O lugar da loucura na sociedade

A loucura é historicamente marcada pelo estigma social e diz respeito a manifestação radical de uma diferença ao se expressar numa experiência dilacerante e refratária ao laços sociais. A exclusão do louco estaria relacionada à negação que a sociedade faz de sua própria loucura, e se a loucura fica depositada na figura do louco, isso permite à comunidade, por oposição imaginar-se sã.
Se focarmos na história da loucura veremos que ela é tão antiga quanto a humanidade, sendo que até a idade média era vista como diversidade, carregada de conteúdo místico e tratada através de exorcismo ou sacrifício. Em seguida  passou a exercer um certo fascínio pelo saber que dela decorria. Loucura e razão passaram a ter uma relação muito próxima e confundiam-se entre si.
Foi a partir do século XVI, com as mudanças sócio-políticas da modernidade que os espaços sociais e de trabalho se modificaram consolidando um processo de segregação de todos os que ameaçam a ordem social: mendigos, doentes, loucos, ociosos e prostitutas.
A miséria e a loucura deixaram de ter a positividade mística herdada pela Igreja e passaram a ser um obstáculo contra a boa marcha do Estado. Sem a referencia do sagrado para os miseráveis e loucos, eles passam a ser confinados por serem ociosos  e incapacitados para o trabalho. Um confinamento que interna no mesmo lugar o enfermo, o libertino, a prostituta, o imbecil e o insano.
A construção da noção de psicopatologia nos reporta a história da construção da tradição da psiquiatria moderna e a transformação que esta imprimiu à loucura na modernidade ocidental. Ao descrevê-la como desrazão e depois como doença mental retirou-lhe o estatuto de espaço oracular de enunciação da verdade, inserida nos rituais comunitários e, portanto em permanente diálogo com a cultura. Foi esta substituição da experiência trágica pela experiência crítica da loucura que a inscreveu como uma experiência estranha ao homem e a cultura.
Foucault, aponta também o nascimento de uma nova sensibilidade social à miséria, aos deveres da assistência, aos problemas políticos e econômicos,  e ao sonho de uma cidade onde a obrigação moral se uniria a lei civil.
Esta mesma confusão entre loucos e criminosos será vista com espanto já que a loucura passa a ser mais bem observada e entendida como uma limitação humana que provocava incapacitação para o trabalho.
Com a revolução francesa a reforma política econômica e administrativa nas relações sociais faz com que a loucura deixe de ser um objeto do poder judiciário e passe a ser encargo da medicina. Essa passagem para o campo a saúde dará início a um outro capítulo da história da loucura.
O século XVIII tem como referencia ideológica o iluminismo e o racionalismo que dá inicio ao individualismo, libertando o individuo da ignorância e da submissão às superstições e a religião.
Embora haja uma transformação na consciência da loucura e na proposição de assisti-la, ela ainda será confinada, e este asilo será uma metáfora da exclusão.
A transformação da loucura em doença mental que acontece junto ao nascimento da psiquiatria como ciência e do asilo como espaço de tratamento da alienação mental, coloca a loucura como objeto de uma terapêutica e de um saber médico e a diferencia dos que transgrediam as leis. Mas a estratégia de tratamento utilizada visava silenciar as manifestações que passam a ser vistas como doenças.
Claro que nestes 200 anos que nos separam da obra de Pinel, o médico francês que ligou seu nome à libertação dos loucos, muitas mudanças ocorreram no tratamento da loucura, principalmente a partir do questionamento da própria ordem psiquiátrica feita nas últimas décadas.
As comunidades terapêuticas, o movimento da antipsiquiatria, a psicoterapia institucional e a psiquiatria democrática realizaram uma crítica profunda da cultura asilar e manicomial.Mesmo que os asilos ainda permaneçam aqui e acolá, as transformações ocorridas na assistência psiquiátrica foram inúmeras.
O que hoje leva o nome de Reforma Psiquiátrica pretendeu tanto desconstruir a cultura manicomial hegemônica, criada em torno do asilo, suas práticas de exclusão e redução da loucura a doença mental quanto criar um novo campo de atenção psicossocial. Reformular as práticas terapêuticas, criar leis, mudar a imagem da loucura no imaginário social, no entanto é um processo complexo que aponta não só para uma mudança política quanto clinica.
Por outro lado, a mudança mais difícil talvez seja aquela que pretende modificar a figura do louco no imaginário social, deslocando-o de objeto humano desprovido de razão para um sujeito que precisa ser tratado tanto na sua dimensão psíquica como social (relação com a família, grupos sociais, escola, trabalho, comunidade e lazer).
Abordar o sofrimento psíquico em uma perspectiva de cuidados e não de cura faz um deslocamento importante na direção de uma mudança neste imaginário social.
Aqui no Brasil, após a reforma ocorrida na década de 90 proliferam os hospitais-dia, os lares abrigados e os CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) que substituíram os antigos asilos e que oferecem uma alternativa de tratamento multidisciplinar para a população carente.
A defesa da cidadania do louco, de seus direitos, a exigência de respeito social à sua diferença, a criação de espaços de sociabilidade para ele estão entre as reivindicações e conquistas mais freqüentes dos profissionais de saúde que lutam pela inserção do louco na cultura.
O Acompanhante Terapêutico, atividade que tem se difundido bastante recentemente, tem se mostrado um bom dispositivo na tentativa de inserção do louco na sociedade, uma preocupação recente dos profissionais com a reabilitação psicossocial inclusive como uma exigência ética, que visa a (re) construção do exercício da cidadania e de um lugar efetivo  na casa, no trabalho e na rede social.
Mas é importante apontar a complexidade desta tarefa que visa intervir na existência e no sofrimento destas pessoas, e não confundi-las com mero entretenimento, ou com adestramento.
Apesar da criação desta rede, os modos tradicionais de tratar a loucura ainda permanecem e isto também se deve à reincidência da resistência humana em contestar sua relação com o louco e uma recusa em ouvir sua linguagem perturbadora e aparentemente estranha.
Porque, afinal, a loucura mantém esta dimensão de repúdio, de estranheza, e muitas vezes de fascínio?
Há pouco mais de 100 anos Freud mostrou que não era preciso opor a loucura à normalidade. Deslocou-a do registro do erro e colocou-a em um modo particular do sujeito dizer sobre si. Com sua prática clinica, descobriu que a loucura mostrava o que de certa maneira já estava no inconsciente de cada um. Os loucos seriam aqueles que teriam sucumbido a uma luta que seria a mesma para todos. Ao contrário da concepção psiquiátrica, Freud valorizou o discurso do psicótico e suas produções, e percebeu que este discurso falava dele, de seus desejos, ainda que ele mesmo não pudesse se reconhecer. O delírio, por exemplo, seria um veículo de comunicação de seu sintoma, e paradoxalmente uma tentativa de cura. Apesar destes feitos, Foucault faz uma crítica ao discurso da psicanálise, que não teria restituído a experiência trágica da loucura, mantendo-a na tradição da psiquiatria que visava uma cura e, portanto uma normatização da experiência humana.
A escuta da loucura não marca apenas uma possibilidade de humanização da relação do louco com quem o assiste ou com os demais, mas principalmente um respeito à sua palavra e uma implicação efetiva na possibilidade dele poder fazer parte da sociedade. É isto que marca a diferença com as assistências alienantes, que tratam o louco como  um objeto que não porta nenhum saber sobre si mesmo e que demanda cuidados de proteção definidos a priori tal e qual um bebê, o que o torna  refém de uma prática moral educativa.
Perdem-se assim a escuta do novo, o reconhecimento e o respeito pela diferença e cai-se em um cuidado formal, uma prática do exercício de caridade ou piedade. Se há comunicação entre razão e desrazão, isto permite desvendar a singularidade de cada sujeito no enfrentamento de um conflito que é de todos ainda que ganhe destinos diferentes.
Como vimos os loucos ainda hoje exercem este duplo fascínio: ao mesmo tempo em que impõem aos cidadãos métodos efetivos para tratá-los e inseri-los na sociedade, recuperando sua autonomia e cidadania, mantêm sua condição de objeto de repúdio e de estranheza.

Estamira

Ao contrário do filme “Bicho de 7 cabeças” que denuncia o sistema manicomial, em “Estamira” seu diretor resolve “escutar” durante quatro anos o que esta senhora que viveu entre sua casa e o lixão onde trabalha tem a dizer sobre si, seu mundo, suas crenças, seus desejos.
Apesar de este discurso expor uma percepção do mundo e de si confusa e delirante, (o psicótico precisa inventar sozinho um sentido para a sua presença no mundo), muitas vezes é possível ouvi-la falar de questões que podemos identificar como nossas, tais como as que desvendam o desamparo humano social, econômico e político. A diferença entre as crenças e a visão de mundo de Estamira e as nossas é que as nossas são amparadas por uma credibilidade já que compartilhadas pela maioria.
O filme não  pretende fazer denúncias sobre a exclusão e nem busca uma idealização do louco, mas coloca em evidência a humanidade da loucura, mostrando-a como uma possibilidade, por vezes a única, do sujeito  sobreviver.
O louco permanece sendo para a sociedade, alguém que recebe ou nosso olhar compassivo, ou de exclusão ou de zombaria e ódio.
É bom lembrar que nosso ódio ou desprezo pelo diferente está ligado a nossa necessidade de expulsar de nós mesmos aquela semelhança percebida nele que nos assombra.
Já em um plano mais cultural e menos pessoal, a loucura interroga diretamente a capacidade dos humanos de estar junto, se agruparem, fazer trocas, ou seja, de viver em sociedade, já que nos coloca diante dos enigmas do que acontece no espaço entre humanos quando os códigos sociais convencionais falham.

Palestra proferida para a turma de jornalismo da PUC SP 2003


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Diálogos de amor: porque ansiamos e sofremos por amor

Diálogos de amor: porque ansiamos e sofremos por amor
Gisela Haddad

Por que um psicanalista deveria falar sobre o amor, terra de poetas e artistas que desde séculos destrincham suas faces e seus mistérios? Talvez porque o psicanalista escuta as coisas da alma, e de certa forma o valor do amor para cada um, suas historias de amor particular, seu romance familiar, de amor, mas também de dores. Afinal o que nos faz humanos, ou seja, que nos constitui subjetivamente é um encontro de almas.
E porque falar de amor? Desde o século XV Shakespeare  inaugurava uma literatura em que o homem passava a se questionar sobre seus  sentimentos, evidenciando os dilemas da alma humana diante de suas contradições. Hoje isso se tornou corriqueiro e nem precisamos mencionar apenas a literatura, somos invadidos por imagens de filmes, novelas ou mesmo cenas do cotidiano relatadas pela mídia que nos emocionam e nos capturam, obrigando-nos a compartilhar da alegria, da tristeza  ou dos tormentos dos personagens.
Mas o que é o amor? Como sabemos se estamos amando ou não? Que amores reverenciar ou quais rejeitar? Existe diferença entre paixão e amor? E entre o amor por nossos parceiros, nossos pais, nossos filhos, nossos irmãos?
A verdade é que o amor ocupa um lugar quase sagrado na cultura ocidental  e  em geral não discutimos suas razões.  Mesmo que ele tenha assumido feições diferentes pela história, seu valor se mantém incontestável. Diante de frases como “ele a ama” ou “ela o ama muito”, “ela /ele fez por amor”, o assunto se encerra. Sabemos do que se trata ao mesmo tempo em que não podemos explicar muito bem. Mistérios da alma e ponto final.
Mas mesmo que evitemos questionar o valor do amor, mesmo que o amor acabe sempre transcendendo nossas representações, é possível historiar suas transformações ao longo da cultura humana. Vamos tentar fazer um rápido passeio por elas.
Para os antigos, em especial os gregos, o Amor Supremo, que continha as qualidades da Justiça, da Beleza e da Verdade figurava como o grande ideal de cada cidadão e estava atado às virtudes com as quais cada um queria ser reconhecido pelo coletivo. O amor sensual não era proibido, mas o domínio sobre seus excessos era bem-visto como um caminho para o supremo bem. A era cristã inaugurou um longo domínio sobre os destinos do amor, separando de um lado o amor permitido, dirigido a Deus e ao semelhante e de outro o amor proibido, carnal e pecaminoso. Entre os desejos “carnais” – a gula, por exemplo - o sexo era o mais temido por ser o mais rebelde e persistente, e visto, portanto como algo poderoso. Por isso não podemos deixar de sublinhar a grande importância que a Igreja Católica teve no entendimento do valor do amor para nós modernos, tanto do amor com o sentido de Bem Supremo quanto do amor erótico ou sensual. A igreja assumiu a tarefa de controlar ou conter a sexualidade pregando o abandono de interesses mundanos da cidade, e valorizando a vida de casal e o recolhimento. A partir de Santo Agostinho é possível perceber a inclusão do amor- paixão a Deus, um amor que será vivido internamente, acompanhado de uma reflexão sobre seus efeitos. A Igreja passa a convidar a todos a buscar dentro de si o amor a Deus e será este êxtase sentimental o núcleo das paixões amorosas herdadas pelo romantismo. O amor passa a vir de dentro, das entranhas e esta interioridade irá definir o individuo da modernidade.
Sabemos que o desejo de saber manifestou-se desde os tempos mais primitivos como uma tentativa do homem para lidar com o medo e com as angústias que o assolavam no contato com a Natureza e com seus semelhantes. A religião, as primeiras descobertas e a ciência são criações humanas que tentam diminuir esse sofrimento, sugerindo, inclusive, suas utopias e seus ideais de conseguir, um dia, suprimi-lo de forma absoluta. Em muitos momentos compartilhamos esse sonho, deixamo-nos embarcar nessa expedição em busca do melhor dos mundos. Porém, por paradoxal que possa parecer, quando se pode fazer um “retorno” ao mundo em que que se vive, com suas mazelas e seus sofrimentos, é um ato de liberdade.
O nascimento da ciência marca o inicio da Modernidade. Descartes, a Razão, o Iluminismo são ícones modernos que pretenderam elevar o homem ao centro do universo. Assim, somente pelo uso da razão sairíamos das trevas em direção à aquisição de conhecimentos que finalmente nos permitiriam entender e controlar a natureza, e podemos acrescentar aqui a importância do entendimento da natureza humana. Ao voltarmos nosso olhar para os séculos modernos podemos afirmar que a ciência mudou e muito nossas vidas e se comparamos às vidas humanas do longo período da Idade Média, estas mudanças foram rápidas, em especial as do último século, com o avanço das biotecnociencias. Mas se estas transformações nos trouxeram confortos e benesses inimagináveis é verdade que em relação aos costumes e à moral nosso mundo virou de ponta cabeça, indicando que para o quesito felicidade a coisa é bem mais complexa.
Alguns pensadores destacam o papel da tradição como um critério para a divisão entre o mundo pré-moderno e moderno. No mundo antigo, os homens nasceriam com lugares predeterminados, sem chances de transitarem por lugares sociais diferentes. Nascidos escravos, ferreiros ou aristocratas, morriam como tal. Os valores e costumes funcionavam mais como crenças do que acordos sociais. A Igreja funcionava como a única doadora de regras, impondo suas leis e suas punições via  controle dos saldos de pecados.O mundo moderno irá criar o universo das leis e passará ao Estado esta função de controle das normas e costumes. Assim as  certezas que vinham pelo reconhecimento da comunidade à que cada um pertencia, as certezas morais e cognitivas transmitidas pela tradição, a segurança de um destino preestabelecido pelo projeto de um Deus onisciente se esvaneceram. Caberia a cada um cuidar de si, de seu destino, de suas escolhas, e também de sua parceria amorosa. O amor romântico acenava com uma junção possível: casamento, amor e sexo a serviço da família conjugal. Mas nos primeiros séculos modernos a Igreja ainda emprestará seus códigos morais, na tentativa de cobrir o desamparo e o vazio deixado pela quebra destas tradições. Aos poucos o amor vai passar a ser uma peça essencial na cultura individualista que, à frente das lutas atropelará as tradições, enfrentará as barreiras sociais, as raças, culturas, religiões e preconceitos. Seu sucesso se manterá porque assim como o agir humano, sua razão é subjetiva: quando fazemos algo por amor, fazemos por nós mesmos, sem precisar obedecer a ninguém, se não às nossas paixões. Casamos ou vivemos juntos porque amamos e aos poucos a cultura pode “naturalizar” o fato de que nossas escolhas sejam fundadas no amor. Hoje nos surpreendemos quando isso não acontece e em geral classificamos estas escolhas como hipócritas ou interesseiras. Cuidamos de nossas crianças porque as amamos e quando isso não acontece estranhamos. Talvez porque sejam razões que testemunhem nossa autonomia conquistada às duras penas. Por outro lado ficamos tateando novos valores em particular os que giram em torno do amor e da sexualidade, eixos modernos de nossas vidas. Namoros, sexo, casamentos, descendências, educação e destino dos filhos são temas que se tornaram atuais e pedem reflexões e debates. Nossas parcerias românticas construídas na promessa da incondicionalidade, da exclusividade e da felicidade demonstram não ter garantias. O amor nos deixa desprotegidos contra o sofrimento, a mercê do outro e expostos a dores extremas sempre que somos rejeitados, traídos ou abandonados. A enorme expectativa que depositamos sobre nossas parcerias amorosas é quase sempre um terreno propício à frustração e a decepção. Cada vez mais temos que enfrentar uma revisão ou mesmo o desabamento de nossos projetos de realização erótica e existencial a dois. Por quê? O que mudou?
Em geral as mudanças nos costumes e nos valores costumavam ser mais lentas. Passavam-se décadas até que um novo costume pudesse ultrapassar as resistências naturais às mudanças e se impor como novidade aceita. O mundo atual pede uma aceleração jamais vista. Em poucas décadas vimos alguns de nossos mais caros valores serem questionados, derrubados e substituídos. Os processos de emancipação feminina e a desconstrução dos papéis masculinos e femininos redefiniram a família, o papel do amor, a vida profissional e transformaram profundamente as relações.
Antes o masculino e o feminino formavam um par e um só se definia em relação ao outro. Os estudos sobre gênero tem apontado o fato de que cada sociedade constrói de um jeito a diferença dos sexos, o que faz cair por terra a naturalização desta diferença.  Por séculos a feminilidade esteve ligada ao lugar que a mulher ocupava junto ao homem, já que era definida e interpretada a partir da concepção dos homens. Eram eles quem definia o que a caracterizava, como ela deveria se portar, seus limites e encargos. Vale notar que as mulheres só começaram a escrever sobre si mesmas há poucas décadas.
Também na configuração da família tradicional burguesa os lugares de cada um estavam muito bem definidos. Mas as mudanças descritas acima foram desconstruindo este modelo fazendo surgir um sentimento de luto e certa nostalgia em relação a esta perda. Na verdade a família não se acabou, apenas teve que se ajustar aos novos tempos. Ainda desejamos formar uma família, viver em família e criar condições de convívio protetoras e agradáveis. Elas continuam a ser  famílias tranquilas e bem estruturadas ou atrapalhadas e tensas. Por estarem baseadas em um contrato de caráter mais transitório entre os cônjuges aumentam os divórcios, as separações e a recomposição conjugal. Talvez esta nova configuração revele com mais ênfase o eterno conflito entre nossos sonhos de sossego e nossos anseios de independência.
E o amor? O amor segue como o grande protagonista do psiquismo humano, gerando inúmeras historias. Talvez porque nossas relações amorosas são desde a nossa infância as responsáveis pelas nossas ficções. São elas que nos guiam no contato com o mundo. Já há algum tempo estas histórias nos dão pistas sobre o percurso do amor na cultura, assim como as ligações nem sempre pacíficas entre amor e sexo. São elas que marcam as maneiras de amar e as transformações do erotismo. Herdeiro da literatura, o cinema se constituiu no grande repertório amoroso da atualidade e sempre nos premia com algumas referencias sobre estas mudanças que em geral nos deixam divididos.
Vejamos. O filme “Tinha que ser você” (Last Chance Harvey/2009) do diretor Joel Hopkin com Dustin Hoffman e Emma Thompson, apesar de ser mais um filme sobre uma história de amor banal, nos oferece um ótimo panorama das mudanças de que falamos: amores, casamento, família, separação, filhos, trabalho, novos amores e futuro.
Harvey é um compositor de jingles frustrado que trabalha em uma agência de publicidade de Nova York e cujo grande sonho era ter sido um pianista de jazz. Aos 60 e poucos anos, separado já a algum tempo de sua esposa, precisa ir a Londres para o casamento de sua filha. Na cena inicial percebe-se certa tensão entre Harvey e seu chefe, que tenta convencê-lo a aceitar suas direções de um projeto em andamento. Harvey parece ter dificuldades em negociar seus desejos e mesmo sua ida a Londres parece desagradar ao chefe que preferia vê-lo mergulhado neste trabalho. Desde sua chegada a Londres fica evidente seu desconforto em ter que encontrar sua antiga família e embora saiba estar sendo esperado para participar do ensaio do casamento, demora-se no bar do hotel tomando alguns drinks na tentativa de se encorajar. Sua ex-mulher está há tempos casada com Scott, que ao contrário dele se sente à vontade (talvez muito para seu gosto) como o padrasto de sua filha. Sentindo-se um peixe fora d’água, Harvey tenta se adequar aos protocolos do cerimonial. Mas tudo pode piorar e piora. Sua filha, depois do abraço e entre sorrisos, pergunta-lhe delicadamente se ele se importaria que Scott entrasse com ela na igreja. Já meio alto, Harvey  fica tomado pela mágoa e desiste de participar da cerimonia. Em um ímpeto, decide voltar para  NY, mas perde o avião. Neste ínterim recebe um telefonema de seu chefe demitindo-o e, desorientado, entrega-se a bebida no bar do aeroporto, local em que conhecerá Kate. Kate trabalha no departamento de estatísticas do aeroporto e assim como Harvey, tem uma vida solitária, dedicada a cuidar de sua mãe doente que a solicita  permanentemente. Sentada no mesmo bar com amigos, seu celular toca inúmeras vezes com chamadas da mãe. Kate olha os casais à sua volta, um olhar que denuncia seu anseio por uma companhia. Neste momento está sentada junto com amigos e com alguém apresentado por a amiga- cupido, prática que, longe de ser criticada pode muitas vezes ser um canal interessante para juntar solitários. Na verdade este filme desvenda as dificuldades pessoais de Harvey e Kate no quesito relações amorosas. Ambos parecem desacreditar na possibilidade de manterem uma relação, embora de formas diferentes. Harvey se ressente de seu passado enquanto Kate parece ter medo de arriscar. Ao que parece, o impacto sofrido por Harvey o faz repensar sobre sua situação. Quando o destino os junta, abre-se um horizonte para ambos. À medida que seu interesse por Kate aumenta Harvey começa a poder colocar palavras em seus sentimentos. O interesse de Kate pela história de mágoas de Harvey faz com que este possa  redimensionar sua historia e sua relação com a filha e a ex-mulher. O mais duro, segundo sua própria conclusão, tinha sido perceber que ele não fazia parte da família. Era um estranho. Não combinava com a mobília. Confessa talvez pela primeira vez que Scott, ao contrário, havia caído como uma luva. Ele combinava com a mobília, e tinha sido um bom pai para a sua filha e um ótimo marido para a sua mulher. Diante de “verdades” tão cruas, Kate tem um momento de insight. Ela o convence a ir ao casamento e ele a convence a ir com ele. Sentindo-se amparado por suas conclusões e pela companhia amorosa de Kate, Harvey consegue surpreender a si e aos membros da família, que acostumados a um convívio tenso entre ele e Scott, podem ouvir um inesperado discurso em que os pontos nos “is” finalmente foram colocados.
Ao invés de olhar o passado como algo que não poderia ou não deveria ter acontecido, um sintoma psíquico que o engessava, Harvey começa a pensar que tinha o presente e o futuro. A dor de saber-se não especial e descartável, de ser substituível no amor do outro era insuportável. É difícil conseguirmos conviver sabendo não haver nada que garanta o amor eterno  e que garanta que seremos amados incondicionalmente, mantendo para sempre o par perfeito. Ao contrário, há sempre condições para o amor continuar a existir e estas estão ligadas ao como cada um consegue negociar com o que imagina lhe ser prometido, esperado, permitido e proibido. São maneiras de desejar, de ser reconhecido e de pedir amor.


Texto apresentado no evento “A psicologia entre dores e amores” realizado  pelo curso de Psicologia da UNIP  Araraquara  no 27 de agosto 2010

domingo, 4 de janeiro de 2015

A “velha” a fiar

Dentre as personalidades a serem louvadas no ano de 2014, é provável que o papa Francisco consiga a unanimidade. Contrariando as expectativas da Cúria romana, ou quem sabe, cumprindo os desejos de seu antecessor que surpreendeu o mundo ao renunciar a este cargo máximo de poder da Igreja Católica, ele parece estar corajosamente disposto a resgatar e estender os princípios humanistas cristãos. Logo após ter sido um dos arquitetos das negociações em torno do fim do embargo de meio século dos USA contra Cuba, o papa veio a público em sua mensagem de Natal no Vaticano, e diante de cardeais, bispos e monsenhores afirmou que como qualquer corpo humano, a Cúria sofre de doenças, e que a cura destas passaria necessariamente por uma consciência das doenças. Um recado e tanto para organizações que como a Cúria (e muitos Estados), “não têm notícias” sobre seu funcionamento esclerosado e mergulhado nos líquidos corrosivos e poluentes da corrupção e outros subprodutos do fascínio do poder. Um sintoma que nasce do que é negado e desprezado porque assusta e é moral e eticamente inaceitável, mas que precisa vir a ser conhecido e entendido, como o lado sombrio da mente humana. Mais de dois milênios após seu surgimento é difícil avaliar com precisão a incidência do cristianismo em todos os continentes, sua participação nas diferentes culturas e na maneira como o mundo é hoje. É provável que a permanente disseminação de sua doutrina, em suas várias vertentes, encontre ecos no empenho dos primeiros cristãos que decidiram levar sua fé a todos os povos, e apostaram na sua potência ao aproximar a imagem de Deus (Cristo) dos homens comuns, incitando-os a sentirem-se parceiros deste Deus sendo bons, responsáveis e respeitosos com seus próximos. Este seria segundo alguns pensadores, o principal papel das religiões, que ao emprestarem sua doutrina sobre a origem e os destinos dos homens e conclamarem-nos a seguir seus passos e conter suas paixões, resolveriam um dos mais difíceis dramas humanos, aquele que está associado à compreensão se seus aspectos destrutivos, seus sentimentos agressivos, seu ódio, sua violência, seus medos e sua voracidade: toda a selvageria que o impede de construir um lugar de convívio para si e para os seus. Mesmo em nosso paradoxal tempo de alta e ininterrupta tecnologia, em que novas ferramentas não cessam de prometer levar a todos “um pouco mais além”, permanece a busca de zonas de conforto, espaços em que o que é conhecido e verossímil parece curar a ansiedade provocada pela sensação de que não haveria mais certezas para o futuro. Ainda que seja justamente esta incerteza em relação ao que se pode esperar do futuro, o que move a todos a desejar construí-lo. Por isso, apesar de muitos adentrarem no mês de dezembro  com o sentimento de não ter podido concluir ou realizar o que planejaram para o ano que se despede, aos poucos a chegada do próximo vai se impondo e impondo um futuro. Pode até ser de mudanças. Um ótimo Natal a todos os leitores.

Tons musicais

Não havia me dado conta da superposição de datas das mortes de Tom Jobim e John Lennon. Embora a morte de John acontecida há trinta e quatro anos, talvez nunca possa deixar de ser lamentada pela forma trágica e cruel com que um menino esquisito decidiu que ele deveria morrer, ambos Tom e John, são exemplos humanos de patrimônios artísticos. E isso quer dizer que em seus aniversários de morte, sempre se pode rememorar um pouco de suas obras não só através de documentários ou textos escritos por aqueles que têm algo a contar ou recordar, mas (principalmente) pela fartura com que a mídia projeta imagens de seus melhores momentos, o que permite a muitos de nós revivermos o inesquecível. Fui fã incondicional de ambos, por motivos diversos. John Lennon era o rapaz irrequieto e ousado daquela banda que descobri aos quatorze anos, quando comprei meu primeiro LP dos Beatles e nunca mais pude parar de acompanhar o percurso daquela dupla de meninos geniais que compunham músicas e letras que tanto sentido fazia para os jovens com os quais eu convivia. O ponto alto desta época foi a formação de uma banda cover dos Beatles com garotos de nossa turma de Araraquara, cujas apresentações eram imperdíveis e ocasião para que  dançássemos e cantássemos juntos, os hits. Cada lançamento de um novo álbum dos Beatles era aguardado com muita ansiedade e o disco cumpria o ritual de rodar seguidamente por muitas semanas até que pudéssemos eleger cada um, suas preferencias. Em novembro último, a convite de uma amiga, fui assistir em São Paulo ao show de Paul McCartney, sem sequer imaginar o impacto que aquelas “velhas” músicas tocadas ao vivo por um dos ícones dos Beatles iriam me causar. Fui tomada pela emoção, vi-me adentrando ao túnel do tempo e pude resgatar a importância de ter vivido tão intensa e apaixonadamente minha beatlemania. Naquela época, junto com eles, todos nós estávamos crescendo e gostávamos de pensar nas mudanças que aquelas músicas promoviam. O mundo parecia muito pequeno e ao mesmo tempo anunciava e oferecia infinitas formas de se viver. Tom Jobim veio (para mim) depois, passados os anos da adolescência, na calmaria. Brasileiro até no nome, me ensinou a amar a música brasileira, e me encantou com os acordes melódicos que compunham o cancioneiro da bossa nova. Sua música pode ser ouvida em qualquer ocasião, em qualquer lugar talvez porque contenha aqueles acordes ao mesmo tempo destoantes e harmônicos que enchem a alma de alegria. Primeiro foi sua parceria com Vinícius de Moraes que renderam os maiores standards (tão cariocas) da bossa nova. Depois as lindas canções compostas junto com Chico Buarque, com letras mais densas, mais mundanas. Nosso grande maestro, nosso gênio. Em 2001, sete anos após a morte de Tom, fui agraciada pela sorte  ao assistir ao compositor japonês Ryuichi Sakamoto, responsável por uma das trilhas musicais mais lindas do cinema (Furyo- Em nome da honra) e apaixonado pela música de Tom Jobim desde seus 14 anos, tocar em São Paulo junto ao Quarteto Jobim-Morelembau, formação que acompanhava Tom em seus últimos shows. Por estas e outras não posso deixar de concordar com o filósofo inglês Alain de Bouton, que diz que obras de arte podem nos ajudar a lembrar do que importa,  podem nos fornecer esperança, expandir nossos horizontes e até ajudar a nos entender melhor. Quando podemos fazer uma retrospectiva (re)significando nossa percepção destas vivências, melhor.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A violência do amor

Se o século passado pode ser avaliado como aquele que elevou o amor à categoria de valor humano máximo, cujas louvações traduziram-se em produções as mais variadas, na literatura, no cinema, teatro e novelas, além de, é claro, alimentar um imaginário idealizado sobre a vida amorosa, o século XXI tem surpreendido a todos pela incidência da violência, ainda que suas formas devam ser analisadas à luz do contexto histórico atual. Embora o mundo nunca tenha sido tão globalmente comprometido com o direito à livre expressão, paradoxalmente esta “liberdade” tem resvalado muitas vezes para comportamentos e manifestações bastante violentas. Uma nota recente na mídia revelava que, a despeito dos esforços do governo alemão para que o nazismo e sua ideologia truculenta permaneçam enterrados, há sempre grupos de fanáticos dispostos a reverenciar os fantasmas de alguns ícones hitleristas. Em continuidade a noticia sobre a tentativa de homenagear a data de morte de um destes ícones, ao invés de manifestações contrárias que insuflassem o ódio entre as pessoas, a população “indignada” havia planejado algo na linha do humor na tentativa de espelhar o absurdo e a infâmia  de tal comportamento. O filme “Relatos Selvagens” do diretor argentino Damián Szifron segue um pouco a linha do humor (negro, com certeza), mas, ao contrário, não poupa em nada a passagem da linha (sempre tênue, é verdade) que separa a civilização da barbárie. Sucesso de bilheteria em seu país, contrariando as expectativas do próprio diretor que se diz surpreso, o filme se divide em seis pequenas estórias, todas elas desenvolvendo um argumento em comum: como os personagens reagirão diante de situações frustrantes, humilhantes ou inesperadas. Acertou quem pensou em planos de vinganças normalmente “irrealizáveis”. Todas se realizam!!!! E se isto pode causar um grande mal estar, o que seria esperado para todos que ensaiamos nossas vinganças sem jamais leva-las adiante, aos poucos fica clara a intenção de encenar uma caricatura de situações corriqueiras que fazem parte da vida cotidiana, utilizando um humor macabro. Todos os protagonistas se desesperam, agem sem controle, e levam às ultimas consequências, sua ira ou seu desejo de vingança. Considerado pelo diretor como a realização de um projeto menor perto de outros mais acalentados, seu trunfo no entanto, está muito mais na proximidade de nossa realidade psíquica do que se pode imaginar. Nenhuma civilização de qualquer época deixou de perseguir caminhos que oferecessem regras e valores que garantissem a convivência humana. Sabemos hoje que nem mesmo as leis, cada vez mais homogêneas e internalizadas por todos, conseguem esta garantia. Somos seres em permanente conflito e precisamos continuamente negociar conosco tais concessões, avaliando os custos e danos.  O diretor Szifron é jovem, tem 39 anos e se declara, antes de qualquer rótulo, um cinéfilo de carteirinha. Alguns jornalistas o veem como um filhote do diretor Tarantino. Nada mais justo, já que este ousado diretor americano possibilitou ao mundo todo, através de dois de seus recentes e impactantes filmes – Bastardos Inglórios e Django Livre – uma vingança coletiva ao providenciar destinos funestos a Hitler e sua alta cúpula, e aos “donos insanos” de escravos do sul dos USA, respectivamente. Assim como Tarantino, o diretor argentino resolveu dar voz aos que se sentem indignados com as infâmias que sofrem no dia a dia. Coisas de cinema, que pode e deve brincar com a realidade.   
Para conferir:
Relatos Selvagens- Argentina 2014

Diretor - Damián Szifron