sexta-feira, 6 de março de 2020

A potência da psicanálise como dispositivo para (o fazer) político. Gisela Haddad *


A potência da psicanálise como dispositivo para (o fazer) político.
 Gisela Haddad *

Um pouco da história do grupo
O Grupo de Intervenção e Pesquisa Clínica: da gestação à primeira infância resultou da parceria entre o Departamento de Psicanálise e o Programa Einstein na Comunidade Paraisópolis (PECP) iniciada em 2012. Em atuação na comunidade desde o ano de 1998, o PECP foi idealizado pelo Departamento de Voluntários do Einstein para ser um Centro de Atenção Primária voltado para a prevenção e promoção de saúde, com programas de atendimentos voltados para a população de mães, bebês e gestantes da comunidade. Recentemente, porém o PECP passou a oferecer assistência médica em subespecialidades pediátricas para a Rede Básica de Campo Limpo e em seu ambulatório recebe crianças de 0 a 14 anos que são encaminhadas pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS) da região para o serviço médico e multiprofissional (psicologia, assistência social, assistência materno-infantil, fisioterapia, fonoaudiologia, psicopedagogia, nutrição, terapia ocupacional). Apenas o PAG (Programa de Atenção à Gestante) e o PAB (Programa de Atenção ao Bebê) se mantiveram como grupos de atenção primária, sustentados pelo voluntariado do HIAE.
Deste grupo, que se reúne mensalmente no Sedes, algumas pessoas compõe o que chamamos de grupo de apoio e outras realizam os atendimentos de gestantes e mães de bebês no PECP. Praticar a clínica psicanalítica em uma instituição voltada ao atendimento da população de Paraisópolis nos coloca questões que guardam certas especificidades. A começar pelo fato de esta ser uma instituição idealizada e mantida pelo Departamento de Voluntários do Einstein, que segue um modelo de gestão que visa a eficiência de seus serviços, com foco em qualidade e segurança (em 2013 recebeu o certificado internacional de acreditação na área de saúde) e com isso oferece um plus em sua organização nem sempre possível em outras instituições. Por outro lado, nesta escolha de modelo de gestão, está implícita a expectativa de resultados que precisam ser transformados em estatísticas favoráveis aos critérios de avaliação destes certificados. Quando iniciamos nosso trabalho no PECP a equipe contratada de psicólogos, embora jovem, nos surpreendeu positivamente por sua atuação tanto pelo incansável trabalho de equipe como pela preocupação permanente em ajustar e debater entre si e com os outros profissionais os atendimentos realizados e seus impasses. Um trabalho sério e comprometido que, tendo como norte as premissas psicanalíticas, pretendia construir novos e mais promissores caminhos de atuação institucional e seus dispositivos clínicos. Na passagem de 2015 para 2016 mudanças radicais culminaram com a demissão de vários profissionais principalmente das áreas de psicologia, fonoaudiologia e enfermagem que apontavam para um novo modelo de gestão, em que as equipes perdiam grande parte de sua autonomia e presença em programas. Durante o ano de 2014, por exemplo, pudemos participar do grupo de atenção à gestante, uma experiência bastante rica, que nos incentivou a construir balizadores clínicos para gestação, mas que precisou ser interrompida.
No entanto, a instituição oferece recursos importantes para a realização dos atendimentos desta população, tanto no que se refere às equipes multiprofissionais quanto às oficinas e cursos para as mães, assim como alternativas de programas esportivos para as crianças. Seu serviço social auxilia na busca de creches, orienta a população na resolução de diferentes problemas e realiza visitas domiciliares quando necessário. A população local respeita o PECP, sabe que é um lugar em que se oferece um serviço de qualidade e os que ali chegam são os que apostam/desejam melhorar suas vidas e a de seus filhos.
Desde que iniciamos os atendimentos no PECP vimos definindo e redefinindo nosso escopo de trabalho entre nós e junto à equipe de psicólogos contratados, e temos buscado pensar as particularidades da clínica psicanalítica que se pratica com uma população em vulnerabilidade social e situações-limite. Isto significa refletir sobre questões amplas como as relações entre subjetividade/ pobreza ou subjetividade/violência, o lugar social da maternidade, as configurações de conjugalidade e de famílias. Mas também sobre a frequente ausência de cuidados básicos enfrentados com arranjos muitas vezes precários tanto físicos quanto psíquicos (embora às vezes criativos) ou sobre os relatos de histórias de abandono, maus-tratos e indiferença. Todo este cenário nos impõe permanentemente uma cuidadosa análise desta realidade, despidos de preconceitos, o que para muitos de nós significa fazer um longo trabalho de luto das idealizações que cercam não só a maternidade e a gestação, mas toda a diversidade dos arranjos de vida, para que possamos alcançar a escuta necessária para acompanhá-las.
Estamos, portanto diante de um trabalho delicado, que ao mesmo tempo exige um comprometimento com itens fundamentais como ajudar a conquistar a autonomia e a responsabilidade na condução da própria vida, visando um tornar-se agente da própria história. Para isso tem sido fundamental a compreensão do espaço urbano da periferia, das possíveis relações entre os sujeitos e a comunidade, com as escolas e a cultura local, com as ofertas de trabalho, ou seja, com seus recursos e obstáculos. Nossa intervenção vai muito além do modelo individualizado, ao fazer a palavra circular em conjunto, ao lado da criação de estratégias e alternativas possíveis que viabilizem saídas ao desamparo ou à violência. Convite permanente para o abandono da lógica racional e a abertura de um espaço para uma terceira via, que preenchida por fantasias, sonhos, romances e tudo o que nos faz suportar melhor a perda das ilusões de perfeição e os infortúnios da vida, nos permita conviver com a dureza de nos saber imperfeitos, sem respostas certas para viver, e com muitos limites e insuficiências.
Um pouco da história da comunidade
Em 2012, ano em que iniciamos nossos atendimentos na comunidade de Paraisópolis, tivemos a oportunidade de visitar, no Sesc Pompeia, a mostra Paraisópolis, Uma Cidade Dentro da Outra, um trabalho denso e tocante da fotógrafa Renata Castello Branco, que durante dois anos,  com a ajuda do guia Negro San - morador desta comunidade -“mergulhou” em pelo menos 400 casas cujos moradores aceitaram seu convite, e produziu 95 registros fotográficos do interior destas casas , além de imagens e vídeos com depoimentos sobre suas vidas. Na ocasião tivemos o privilégio de conversar com a artista que, ainda sob o impacto deste trabalho, contou-nos como este a fizera construir um novo olhar sobre a vida destes moradores, sua particular e tão colorida estética com as combinações de objetos, a organização de seus espaços muitas vezes mínimos, quase sempre a ostentar enormes televisões de plasma ou sofisticados equipamentos de som. Cada casa um universo e uma história, com seus caprichos, ideais e valores, que acabam compondo uma narrativa sobre a comunidade.
A favela de Paraisópolis, a segunda maior de São Paulo existe desde 1921 com a instalação de famílias em um terreno particular que daria lugar a um loteamento para casas de classe alta, mas foi a partir de 1947, com as obras do Estádio do Morumbi e do Hospital Israelita Albert Einstein, que um grande número de trabalhadores, nordestinos em sua maioria, passaram a ocupar os lotes vazios do lugar, construindo seus barracos e dando vida ao que hoje é considerado um bairro. Dividido em cinco regiões - Centro, Antonico, Brejo, Grotão e Grotinho – enquanto o Centro é urbanizado e asfaltado, nas regiões mais pobres como o Brejo, o Grotão e o Grotinho predominam as vielas estreitas e os barracos de madeira, às vezes de papelão, muitos construídos encima do esgoto.
“Vizinha de porta” do Morumbi, Paraisópolis que hoje possui quase 90 mil habitantes, sempre esteve rodeada de condomínios luxuosos, o que de certa maneira contribuiu para que os moradores da comunidade tivessem oportunidades de empregos, ao oferecer serviços de babás, empregadas domésticas, motoristas, seguranças, jardineiros, etc. No pacote das particularidades desta comunidade existem ainda 45 projetos sociais entre associações, ONGs e instituições filantrópicas. Além do PECP, a ONG Meninos do Morumbi, um curso preparatório para vestibulares da Universidade Mackenzie, um Espaço Esportivo e Cultural Bovespa, uma Escola da Comunidade mantida pelo Colégio Porto Seguro, entre outros com áreas de atuação em saúde, educação, cultura, esporte e serviços assistenciais como doação de enxovais e entrega de alimentos. Uma favela atípica seja por ser a única de São Paulo instalada em uma área que não pertence ao poder público ou a um pequeno número de proprietários, ou ainda por possuir desde 1988 uma importante União de Moradores com eleições para presidente a cada dois anos, que funciona como uma prefeitura local e foi responsável pela criação em 1994 do Fórum Multientidades que realiza uma reunião mensal com representantes de todas as organizações sociais do bairro com o objetivo de estabelecer uma comunicação entre estas, seus serviços e a população. Em 2009, com um projeto do arquiteto Franklin Lee para uma nova sede (ainda não realizado), idealizado em conjunto com a população da comunidade, a União dos Moradores ficou entre os 12 finalistas do Deutsche Bank Urban Age Award, prêmio que seleciona projetos que beneficiam comunidades e sua população local, com o objetivo de aprimorar seus ambientes urbanos. Existe ainda, desde 2013 um roteiro oficial chamado “Paraisópolis das Artes” que leva as pessoas a um passeio pelos principais pontos de referência locais, um contato com a cultura do bairro, destacando artistas e lugares que contribuem para o que eles chamam de Nova Paraisópolis. Com duração de 3 horas, é possível visitar a Oficina do Berbela, artista que constrói obras de arte a partir de sucatas e ferros descartáveis, a Casa de Pedra do escultor Estevão, conhecido como o Gaudí brasileiro, o Ballet e a Orquestra local e o incrível mural da bailarina de Eduardo Kobra, a Rádio Comunitária e o campo de futebol do projeto Craques do Amanhã. Sabemos ainda que em 2015, Paraisópolis foi alçada a um inédito protagonismo quando a rede Globo colocou no ar a novela I love Paraisópolis. Uma verdadeira cidade, cheia de contrastes, mas também cheia de vida. Tem sido através destas inúmeras possibilidades de se olhar Paraisópolis, que nossa equipe constrói continuamente uma história do lugar pela escuta das histórias das vidas das pessoas com as quais cruzamos em nosso trabalho, e que em geral nos surpreende seja pelo impacto das faltas, seja pelo colorido e força do pulsar da vida. Um encontro que nos faz confrontar com nossa individualidade por nos forçar a fazer uma passagem de um mundo ordenado conforme certa lógica, para um diferente, com sua lógica particular. Pensamos ser neste espaço “indeterminado” que podemos experienciar novas formas de intersubjetividade.  
O fazer político
São inúmeros os psicanalistas, brasileiros inclusive, muitos de nossa comunidade Sedes, que não se furtam em articular psicanálise e política ao refletirem permanentemente sobre o mundo “interno” articulando-o ao que acontece em torno de si e do resto do mundo. Se chamarmos de política toda a ação humana que produza algum efeito sobre a organização, o funcionamento e os objetivos de uma sociedade, o psicanalista tem como função princeps a de agente de transformação social, e a clínica psicanalítica pode ser considerada um modo de ação e relação que pretende transformar a condição das pessoas. Podemos destacar pelo menos dois vetores que fazem da clínica uma prática política: o seu compromisso com o desejo,  uma vez que este é sempre um espaço social e político a conquistar, e o fato de que a clínica psicanalítica visa mudanças. Além disso, um tratamento não pode ser realizado de modo desinteressado ou neutro, e ao escutar o sofrimento de alguém não visamos somente suas dores, mas principalmente as estratégias de existência associadas a essas dores, os jogos de poder e as regras que os sustentam. Associar a prática clínica com a prática política significa dizer que ela é necessariamente comprometida.
A equipe Sedes, junto à equipe multidisciplinar que realiza os atendimentos na comunidade Paraisópolis, busca escutar os sujeitos e os modos como são afetados, mas também elucidar o discurso e as práticas sociais para problematizar os modos como estes afetam a subjetividade. Na prática isto significa conhecer o espaço urbano e compreendê-lo nas relações sociais e familiares que o permeiam assim como pensar as situações críticas mais recorrentes em que os sujeitos ficam expostos e criar dispositivos para trabalhá-las.
Como nestes espaços é mais frequente a ausência de redes sociais e familiares, que às vezes nem chegam a ser construídas ou sofrem pelo excesso de violência e/ou desamparo, as alternativas de entrada para o mundo do tráfico e do crime ou para as inúmeras opções de igrejas evangélicas acabam se tornando comuns. Além disso, a ausência do trabalho formal associado à penetração do tráfico de drogas e outras atividades ilícitas criam uma porosidade entre o mundo formal e informal, entre o lícito e o ilícito.
Uma breve pesquisa em trabalhos publicados sobre atendimento institucional ou com populações em situação de risco, realizados por psicanalistas em conjunto com profissionais de outras áreas, nos mostra que nas últimas décadas tal prática não só aumentou como foi responsável pela preocupação em construir dispositivos clínicos pautados pela escuta do inconsciente que se configurem em uma contribuição da psicanálise às situações sociais críticas. Podemos afirmar que este tem sido nosso norte.
Em nossos atendimentos somos confrontados frequentemente com fatores como a vulnerabilidade social, a dificuldade econômica, a falta de alternativa, a delinquência, as drogas, o risco de morte, o que nos leva a refletir sobre as possibilidades e limites da escuta analítica, diante deste cenário de violência e precariedade.
Por isso ao lermos alguns trabalhos publicados, identificamos em nossa clínica esta preocupação em construir um projeto terapêutico para cada atendimento, fosse ele um atendimento individual ou familiar, a partir de certas “ancoragens” destes sujeitos com a vida, mas principalmente na possibilidade de auxilia-los a se apropriar de seus recursos, ainda que parcos ou frágeis, viabilizando sua inserção e visibilidade social ao encontrar saídas novas de como construir uma vida verdadeiramente autônoma. Um trabalho coletivo e compartilhado em que o inédito pode ser bem-vindo no modo como cada profissional encontra alternativas de percurso ou meios de ajudar os sujeitos a criarem soluções próprias.
Estamos falando de pequenas conquistas, como poder se reconhecer como uma mãe cuidadosa que pode oferecer novos horizontes/perspectivas para o filho por vir ou para aqueles que já existem, como alguém que possui uma inteligência acima da média e pode por isso fazer o curso técnico de contabilidade desejado, escolher um trabalho ou um curso que sempre fez parte de seus sonhos, se “separar” de seu passado violento ou de sua família de origem, quando esta é promotora de crueldades ou pertence ao mundo do crime, enfim de contribuir para que cada um possa cuidar de sua própria vida e buscar um futuro para si. Nesse sentido sabemos que quando se abre um espaço de escuta para o sujeito é possível para ele falar das dores do seu viver, passo importante para a promoção de novas significações.
O trabalho com populações que vivem mais próximas da precariedade, da violência e do desamparo nos convoca a encarar a vida destas pessoas ou de suas famílias sem julgamentos morais ou normativos o que exige que enterremos muitas das idealizações que construímos em torno de uma vida considerada normal. Fica claro também que para ajudarmos a alguém a se emancipar e ganhar autonomia, é de suma importância discriminar o que deve ser incentivado, o que precisa de parâmetros e limites claros e o que necessita ser vetado. Para nós isto seria um fazer político, uma tarefa civilizatória, humanizadora e amorosa que exige menos competências intelectuais e mais conhecimento sobre si, sobre o outro, sobre o sentido/valor da vida de cada um, sobre a importância de se deixar afetar e de suportar /respeitar o estranho ou desconhecido. Algo que permita uma abertura ao negativo para escutar as dores que não podem ser sofridas, ou suportar o que não consegue ser dito, apenas atuado, e a intolerância/estranhamento a este excesso. Um processo que torne possível que estas pessoas passem a enunciar uma leitura própria de si mesmo e conquistem um lugar no mundo, ao invés do silenciamento que as mantém excluída.
Neste sentido quando o trabalho em instituição permite a constituição de projetos que possam ter a medida das possibilidades de cada um, projetos estes que visem possibilitar uma ampliação das chances de uma vida mais autônoma e integrada socialmente, este trabalho, de certa forma, assegura e/ou ajuda a estruturar a continuidade do social. Seus atores (equipe multidisciplinar e pacientes) ajudam a construir uma rede ao mesmo tempo subjetiva e social em um espaço de construção coletiva em que possam ser discutidos os impasses vivenciados, os limites do trabalho, o esgotamento dos recursos disponíveis, bem como as experiências de potência e os avanços realizados.
Referências Bibliográficas
Anuário A Rede de Inclusão Digital 2010/2011- http://www.revista.arede.inf.br/site/images/anuario2011/Anuario_ARede_2011.pdf
BROIDE, J. & BROIDE, E. A psicanálise em situações sociais críticas: metodologia clínica e intervenções, São Paulo: Editora Escuta, 2005
CASTRO, L.O. Uma análise dos sentidos da não-participação para os moradores de uma favela em São Paulo nos serviços prestados por organizações do terceiro setor. Tese de mestrado em Psicologia Social PUC-SP 2009
GONDAR, J.  A clínica como prática política. Lugar Comum No19, pp. 125-134

* Este texto foi construído com a colaboração dos membros do Grupo de Intervenção e Pesquisa Clínica: da gestação à primeira infância: Anna Maria Alcântara do Amaral, Anna Mehoudar (coordenadora), Daniela de Andrade Athuil Galvão de Sousa, Eva Wongtschowski, Gisele Senne de Moraes, Lucia Helena Navarro, Mira Wajntal, Rubia Zecchin e Yone Maria Rafaeli

Gisela Haddad é membro do Departamento de Psicanálise, integrante do Grupo de Intervenção e Pesquisa Clínica: da gestação à primeira infância, do Grupo Generidades, da Revista Percurso e do Blog do Departamento. É mestre em Psicologia Clinica e autora do livro Amor e Fidelidade, Coleção Clínica Psicanalítica da Casa do Psicólogo (2009) Amor (Coleção Emoções, Editora Duetto – 2010).









Encontros Amorosos: amor, paixão e desejo na cultura moderna
                                                                                     
                                                                                      Gisela Haddad

Resumo: O texto tenta refletir sobre as implicações das mudanças nas questões que giram em torno do amor e do sexo na constituição das uniões amorosas. Resgata de forma resumida as coordenadas históricas e culturais que organizaram a vida amorosa desde a modernidade e sua articulação com os mecanismos de construção de uma particular subjetividade. A literatura romântica oferece um retrato tanto da exaltação do amor e dos destinos trágicos das paixões como do debate inédito sobre o sexual humano, além de promover a construção de cenários de encontros, desencontros e experiências amorosas cujas sensações especiais e dores pungentes passam a colorir as fantasias humanas.
Palavras chave: amor, sexualidade, psicanálise, modernidade

                                                 O mais singular livro dos livros
                             É o Livro do Amor;
                                     Li-o com toda a atenção:
                                      Poucas folhas de alegrias,
                                        De dores cadernos inteiros...
                                  ...O insolúvel, quem o resolve?
                                                         Os amantes que tornam a encontrar-se
                                                                               Livro de Leitura, Goethe

Utilizada originalmente pelas ciências naturais para designar a atração entre dois elementos químicos diferentes, mas afins, a expressão afinidades eletivas foi o título escolhido por Goethe para coroar seu romance de 1809 - escrito quando já era um sexagenário- quiçá para tentar compreender por qual imperioso impulso dois seres buscam-se um ao outro, atraem-se, ligam-se e a seguir ressurgem dessa união íntima numa forma renovada e imprevista.
Goethe é considerado um ícone do romantismo, movimento que trazia como novidade o acolhimento das contradições e antíteses, e o fato de que nossas vidas não seriam ditadas somente pela razão, mas também pelo nosso estado d’alma. Na Alemanha em especial ganhava força uma vertente denominada Sturm und Drang (tempestade e ímpeto) que rompia violentamente com conceitos e esquemas que regulavam as relações individuais e sociais, políticas e morais e repercutia profundamente na arte e na literatura ao proclamar a liberdade absoluta do artista.
Nesta Europa da era burguesa, final do século XVIII e início do século XIX, vivia-se um momento cultural turbulento, pleno de debates sobre as paixões terrenas (amor erótico) e elevadas (amor sublime). Juntamente com os valores modernos pós-revolução francesa, que pretendiam transpor as barreiras das diferenças de direitos entre homens e mulheres, das diferenças culturais, de raça e de religião e dos preconceitos sociais, o mito do amor romântico prometia atender às demandas de prazer e de felicidade humanas ao acenar com a possibilidade da junção casamento/amor/sexo e apostar que em algum lugar do futuro cada um viveria sua história de amor com alguém especial. Ao realizar uma síntese das paixões sexuais e amorosas e oferecer uma medida mista de enaltecimento do sentimento (amor) levado às alturas com a melhor das emoções (sexo) dentro do casamento, este amor verdadeiro passa a ser um destino pessoal almejado por homens e mulheres, que podem escolher seus parceiros por amor e construir roteiros, sensibilidades e aspirações amorosas inéditos. Surge um imaginário sociocultural diferenciado, uma dimensão humana de interioridade e uma subjetividade amorosa que tanto na sua dimensão trágica (impossibilidade) quanto dramática (ambivalência) toma um espaço central na vida dos dois sexos.  O estilo romântico da literatura oitocentista privilegia de forma inaugural estes anseios amorosos, inspirando uma nova maneira de existir humana, voltada para o conhecimento de si.  As historias de amor alimentam-se e são alimentadas em um circuito permanente por um repertório sempre renovável distribuído entre os romances. Verdadeiras ou fictícias, tais historias fascinam a todos e se perpetuam ao serem lidas e relidas, lembradas ou citadas.
Em Afinidades Eletivas, Goethe, no entanto, expunha a contingencia e a ambigüidade da moderna sina humana amor-desejo, responsável pelo pêndulo entre o imperativo de nossa natureza que solicita e deseja, o imperativo moral, que tanto pode nos constranger quanto nos dignificar e nossa ânsia de reconhecimento amoroso. Neste terreno arenoso, a razão sucumbia, como viria a constatar Freud, aos desígnios mais crus de nossas tendências pulsionais. Por questionar repetidamente a tão esperada fidelidade, o idealizado casamento e o significado do amor, as paixões inesperadas desconstruíam as expectativas de uma vida amorosa tranqüila e pacífica e revelavam a complexidade de nossos desejos.
Parte integrante deste mito amoroso, a sexualidade humana, por seu caráter disruptivo, havia se mantido durante grande parte da história ocidental como uma dimensão da vida que deveria ser acobertada, tendo como aval a ideologia judaico-cristã, que condenava a carne e silenciava suas paixões em proveito das coisas do espírito. Se a cultura de então incentivava certas condutas para o convívio amoroso entre os sujeitos, as paixões despertadas pelo desejo rompiam com a moral da época de Goethe, e tornavam trágica a busca pela realização amorosa romântica, que não podia suportar a invasão das forças da natureza responsáveis pela atração irrefreável entre as pessoas.
Na medida em que o tema da sexualidade se impunha interferindo nos modos como os indivíduos davam sentido e valor às suas condutas, aos seus deveres, prazeres e sentimentos, a moral sexual burguesa tentava abater a importância da ligação do sexo com o prazer. Os casamentos de então pretendiam civilizar as relações sexuais, restringindo-as à sua vigência e impondo limites à vida sexual de homens e mulheres (principalmente destas). Sabemos quão o ethos freudiano irá revelar o avesso da moral burguesa. Por ser via de acesso à vida do corpo e da espécie, o sexo adquiria um lugar de destaque nos discursos médicos, políticos, jurídicos, religiosos e psicológicos, no intuito não só de focalizar a saúde dos indivíduos, mas de criar dispositivos e normas para o prazer sexual. Parte da literatura da época se ocupava em revelar tais disparidades através de narrativas que ora condenavam a sexualidade ao vício e à insanidade, ora exaltavam suas possibilidades de êxtases prazerosos. As histórias amorosas mantinham seu papel de fornecer pistas sobre o percurso do amor na cultura e as idiossincrasias da complexa ligação amor-sexo.
Grande parte da inquietação em torno da sexualidade dirigia-se às matizes do erotismo feminino que habitavam o imaginário masculino, considerado transbordante, excessivo e incontrolável. Se a literatura (quase que exclusivamente escrita por homens) denunciava esse misto de fascínio e medo, os discursos sociais se apressavam em adestrar o corpo e a sexualidade da mulher à procriação e ao casamento; qualquer desejo ou comportamento sexual que extravasasse esses limites era tratado como excesso, degeneração ou patologia. O amor romântico, embora acenasse com uma solução de controle da sexualidade feminina por meio do casamento, incitava a junção de duas figuras míticas, a santa e a prostituta, divisão que a cultura se ocupava em caucionar, diante da dificuldade masculina de enfrentar a figura da mulher-mãe assexuada (protótipo do primeiro amor de todos), e a figura da mulher sensual. Sexo e amor confirmavam sua difícil convivência pelo fascínio-medo da mulher sensual e da mãe cuidadora, cuja junção seria inadmissível em tal contexto histórico. Pode-se entender por que havia grande tolerância social aos homens infiéis, que, de certa forma, possibilitava a eles resguardar-se dessa atração proibida e inconsciente, vivendo o sexo de um lado e o amor de outro. Essa prática serviu para que a infidelidade masculina pudesse ser naturalizada e o adultério feminino condenado (chegando a ser considerado crime até algumas décadas atrás). Ao contrário do par de modelos opostos, a mulher sensual e mal vista ou a maternal bem aceita, aos homens a cultura reservava uma moral mais branda. Ainda assim, como revelava Goethe, as paixões inesperadas podiam surpreender a todos.
A ânsia pelo momento de êxtase máximo do ser humano – em que duas pessoas seriam bastante uma para a outra, não necessitando de mais nada no mundo, em uma espécie de consumação máxima da realização dos desejos – desencadeou um debate questionador sobre as maneiras de amar, as transformações do erotismo, as práticas sexuais e as restrições impostas aos sexos. A psicanálise inaugurou uma forma de decifração desse tumulto interior, percorreu seus caminhos e por meio de uma análise especial de suas mazelas, lançou novas questões, procurando elucidá-las. Para isso, empreendeu um projeto de conhecimento da sexualidade humana desenhada pelo inconsciente, sublinhou o papel do recalcamento, o lugar de fantasia do “sexual” e revelou um sujeito ao mesmo tempo livre e coagido por ela. Neste último século foram principalmente as mudanças em torno da sexualidade que se impuseram e afirmaram de forma inédita o direito de cada um ao prazer sexual. Estas mudanças interferiram sobremaneira na paisagem social e admitiram uma nova ética da sexualidade. Amor e sexo estão separados, ainda que possam compor várias melodias. O enigmático se deslocou de nossa sexualidade para nossos desejos. O ficar, prática que se consolidou entre os adolescentes e que hoje permeia as relações de todas as idades, abriu um espaço inusitado para relacionamentos passageiros, fortuitos, que não visam compromissos futuros e em que predomina a sensorialidade. Nem por isso deixou de existir o espaço privilegiado das relações amorosas que buscam um envolvimento mais efetivo entre os pares e por isso prevêem uma confluência de interesses e desejos continuamente negociados. Apostando ainda em sua durabilidade, estas relações incluem a possibilidade de uma ruptura, caso haja a finitude de interesse de uma ou ambas as partes ou quando os pactos que as asseguravam se desfazem. O casamento deixou de ser uma instituição, tornando- se apenas uma formalidade, um modo de administrar as expectativas de laços conjugais mais duráveis. Os novos parceiros se formam em regime de simetria e, como cada um é o único legislador de sua relação amorosa, precisa negociar constantemente com o par, investindo nele, se o objetivo de ambos for prolongar o relacionamento.
Na época de Goethe, a tarefa de encontrar uma acomodação feliz entre as reivindicações individuais e culturais indicava a necessidade de internalizar a repressão social dos sentimentos destrutivos e dos desejos sexuais temidos, que deveriam se transformar em uma consciência moral vinculada à culpa. Hoje a pluralidade dos códigos de convivência nos coloca em contínuos conflitos a serem administrados para que possamos validar a diversidade de nossas opções. Mantém-se a procura por realizações sentimentais e satisfações sensoriais, mas a liberdade sexual que hoje se usufrui, impensável mesmo há três ou quatro décadas atrás, incentiva a  busca e não condena mais o prazer físico. Estamos, sob este ponto de vista, mais livres para decidir sobre o que fazer (e como fazer) com os nossos corpos, sensual e eroticamente emancipados.
O remanejamento dos antigos códigos de convivência amorosa também assegurou uma liberdade maior a cada indivíduo, que hoje pode escolher, entre um leque amplo de opções, aquilo que mais se afina com seus gostos ou estilo de viver; mas não tem sido fácil para a grande maioria fazer o luto do ideal de amor romântico, habitante velado ou declarado do íntimo de cada um. Talvez porque as dores provocadas pela luta entre a manutenção deste anseio romântico e todos os sentimentos que o acompanham - como o medo da perda, do abandono ou da traição - sejam reminiscências do romance infantil vivido por cada um em seu seio familiar. A psicanálise, que no ultimo século ajudou a desvendar esse modelo de contexto familiar e a complexidade das subjetividades de seus membros, revelou não só os bastidores conflituosos das relações entre mãe, pai, filhos e filhas, mas o lugar privilegiado das funções (amorosas) parentais na constituição do psiquismo humano. O amor incondicional imaginado durante os cuidados e acolhimento dos primeiros anos de vida transformaria cada um em Narciso e marcaria um destino de busca para ser amado e admirado. Recuperar esta imagem de centro do mundo e de todas as atenções confunde-se com a promessa do romantismo amoroso, que assim parece legitimar a expectativa de  satisfação sexual e sentimental e a busca de  um parceiro (a) que devolva este olhar que se espera poder amparar e confortar.  Vivemos em um circuito amoroso que se repete indefinidamente. O amor que esperamos ter recebido de nossos pais na infância moldará aquele que nutrimos por nós mesmos. Este, por sua vez, fará com que busquemos, no outro que iremos eleger, o mesmo reconhecimento e valor do amor. Espera-se que possamos encontrar maneiras de nos amar mesmo quando não fomos tão amados quanto gostaríamos, e quem sabe buscar por meio de nossas escolhas o amor que queríamos ter recebido.
Não por acaso são inúmeras as produções culturais que alimentam a ideia de que a vida não tem sentido se não encontrarmos nosso par amoroso, o que torna as escolhas amorosas o centro nervoso da relação que temos com nossos eleitos. De certa maneira, repetimos indefinidamente esta busca e tentamos responder aos enigmas das afinidades eletivas. Como nos apaixonamos? O que faz com que nos sintamos atraídos amorosa e sexualmente por alguém? Porque experimentamos uma aceleração de nossos batimentos cardíacos, um suar frio, às vezes um rubor ou uma inesperada inibição diante de alguém?  
Na visão psicanalítica, estamos sempre buscando as condições infantis de amar, tentando reconhecer no outro os traços de nossas relações com nossos pais, seguindo nossos registros inconscientes de prazer. Escolhemos nossos parceiros em função das experiências de vida, marcas de prazer e de desprazer, modos de sentir o outro ou de interpretar a busca de satisfação. A biografia amorosa contém a memória do corpo erotizado, assim como as maneiras singulares de desejar reconhecimento e amor do outro. Pode ser um traço particular – ou um conjunto deles – que para cada um terá uma função determinante nesta escolha. Algo próprio, que se relacione com sua história singular e íntima, sempre atravessada por fantasias e pelos ideais que o eleito representa como veículo de satisfação.
Em geral, quando o amor bate à porta sem avisar, e a sua presença se impõe prescindindo de definições ou apresentações prévias, estamos diante da paixão. Considerada o auge do sentimento de amor, a fronteira entre nós e o outro ameaça desaparecer e contra todas as provas de nossos sentidos, declaramos que somos praticamente um só, fazendo disso um fato. A experiência da paixão é a de um amor ideal: colocamos o eleito no lugar do nosso próprio eu idealizado e não podemos mais distingui-lo de nós mesmos. Apagam-se as diferenças e tem-se a sensação de nada faltar, uma captura narcísica inconsciente em que vemos no outro o que somos, o que fomos ou o que gostaríamos de ser ou possuir. Não só temos a convicção de que o outro pode sanar a nossa falta como também a de que nós temos aquilo que lhe falta. Imaginamo-nos capazes de oferecer-lhe todo o prazer sem jamais sermos fonte de sofrimento. Um é necessário e vital para a sobrevivência do outro, não havendo possibilidade de pensar ou desejar algo que não lhe seja voltado; as divergências são ameaçadoras e a exigência de exclusividade é exorbitante. Vivemos tal e qual uma relação aditiva e alienada. O amor-paixão busca essa complementaridade; amamos para ser amados.
Mas nossas parcerias românticas, construídas na promessa da incondicionalidade, exclusividade e felicidade, não possuem garantias. Quando amamos, ficamos desprotegidos contra o sofrimento, mais à mercê do outro e expostos a dores extremas se rejeitados, traídos ou abandonados. Território-limite entre nós e um outro, a experiência amorosa é fonte dos conflitos mais humanos, que gravitam entre o amor e o ódio, o domínio e a subjugação, o desejo e a indiferença, a rivalidade e a generosidade. Na medida em que se ama, é impossível não correr os riscos da perda e seus desdobramentos em termos de sofrimento.
As mudanças na cultura atual em torno de uma sexualidade mais livre não nos isentam das dores do amor, ao contrário, apenas nos fazem construir novas defesas contra elas. Transgressiva, ela mantém seus traços infantis de perversa, por explorar, exagerar e exceder os diferentes modos de satisfação, e polimorfa, por admitir muitas formas, plásticas e mutáveis. Cada par tenta fazer acordos que possam regular o prazer, o gozo e o sofrimento que suas relações amorosas e sexuais demandam, tendo como pano de fundo, o anseio de que o eleito possa significar o fim desta busca incessante e o conforto do amor incondicional. A despeito desta aposta, as infidelidades rondam as dissoluções e questionam repetidamente a contabilidade conjugal. Na exclusividade pretendida por ambos os parceiros e caucionada pelo imaginário cultural, ressoa a imposição infantil poderosa a qual a maioria dos sujeitos resiste a renunciar, independente de sexos ou gêneros. Nada é mais gratificante do que a ilusão de possuir a fonte do amor incondicional; nada é mais terrível do que perdê-la.
Sabemos que, no terreno do amor e do sexo, não há como expurgar a contingência, a ambigüidade e a dúvida. Resta-nos construir caminhos em que o jogo narcísico que nos constitui e reúne, também possa  inventar uma ética amorosa para nossas condutas. Pode-se dizer que as afinidades eletivas nestes dois séculos que nos separam de Goethe, mantêm este dilema entre nosso ideal subjetivo e os ideais sociais, mas nossas dores e temores estão mais ligados à confiança que conseguimos ou não obter sobre nossas potencialidades.
Ao que parece, as inúmeras opções que nosso mundo contemporâneo produz no intuito de nos oferecer felicidade continuam ganhando mais sentido se vividas junto a um  parceiro amoroso. O amor mostra como precisamos desse lugar, ainda que imaginário, em que solicitamos do outro que nos responda sobre nossa importância. Mais do que tudo, almejamos ser especiais.
   
Fontes Bibliográficas
AULAGNIER, P. Os destinos do prazer, Rio de Janeiro: Imago, 1985
_____________.  “Observações sobre a feminidade e suas transformações”, In O desejo e a perversão CLAVREUL,J. (org),Campinas: Papirus, 1991
CALLIGARIS, C. Crônicas do individualismo cotidiano, São Paulo: Ática, 1996
___________. Terra de Ninguém, São Paulo: Publifolha,2004
___________. Quinta Coluna, São Paulo: Publifolha,2008
COSTA, J. F. Sem fraude nem favor, Rio de Janeiro: Rocco, 1998
FOUCAULT, M. Historia da Sexualidade II – O uso dos prazeres, Rio de Janeiro: Graal, 1984.
FREUD, S. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira Rio de Janeiro: Imago, 1996.
__________. Moral sexual “civilizada” e doença nervosa moderna (1908).
__________.Um tipo especial da escolha de objeto feita pelos homens (Contribuições à Psicologia do Amor) (1910).
__________.Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (Contribuições a psicologia do amor) (1912).
__________.Os instintos e suas vicissitudes (1915).
__________. Sobre o narcisismo (1915).
GAY, P. A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud: A educação dos sentidos, São Paulo: Cia das Letras, 1999.
__________. A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud: A paixão terna, São Paulo: Cia das Letras, 2000.
GOETHE, J.W. Afinidades Eletivas, Coleção Grandes Clássicos, São Paulo: Nova Alexandria, 1992
HADDAD, G. Amor e fidelidade, São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009
HADDAD, G. Amor, São Paulo: Duetto, 2010
HEILBORN, M. L. Dois é par , Rio de Janeiro: Garamond, 2004.
MONZANI, L. R. Desejo e prazer na idade moderna, Campinas: UNICAMP, 1995
NUNES, S. A. O corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha, Rio de Janeiro: 
                    Civilização Brasileira, 2000.
ROUDINESCO, E.    A família em desordem, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.


Gisela Haddad é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. É autora do livro Amor e Fidelidade (Coleção Psicanalítica, Casa do Psicólogo - 2009)  e Amor (Coleção Emoções, Editora Duetto – 2010).

sexta-feira, 23 de novembro de 2018





Sobre  o Ressentimento

Gisela Haddad

Este trabalho tenta pensar o ressentimento, afeto conhecido e próximo de nosso cotidiano, a partir das concepções de Nietzsche, entrelaçando-se com o que parece ser  uma certa configuração psíquica presente naquilo que tem sido chamado de novas formas de subjetividade. Destacamos duas questões que podem ser levantadas a partir deste fenômeno clínico, uma econômica, relativa a pulsão de morte onde o ressentimento se assemelharia a uma melancolia às avessas com estreita associação com o masoquismo, e outra, dinâmica, na problemática do reconhecimento intersubjetivo, onde o ressentimento parece ser a expressão de uma servidão voluntária ao narcisismo.

          


Na pesquisa do campo semântico, o termo ressentimento no dicionário do Aurélio diz respeito ao sujeito que está magoado, aquele que se melindra com facilidade ou que sofreu os efeitos de abalo, dano ou moléstia. Em espanhol a palavra correspondente é remordimiento e define-se como a amarga e arraigada lembrança de uma injúria particular, da qual se deseja tirar  satisfações. Pode-se dizer que seu sinônimo é a palavra rancor, que vem do latim e que quer dizer queixa, querela, demanda. Já em francês, ressentiment traz em sua etimologia a repetição de uma vivência cuja qualidade da emoção é hostil.
Quem primeiro se debruçou sobre a questão do  ressentimento  foi Nietzsche, filósofo alemão (1844-1900) que, ao se propor fazer uma genealogia da moral não desejava apresentar novos valores ou reforçar outros já existentes e sim questionar a própria existência dos valores. Filho de um pastor luterano (dado que não deve ser desconsiderado) Nietzsche afirmava que a partir da vigência da ética judaico-cristã, teria havido uma inversão nos valores da humanidade e explicava este fato através do que ele chamou de moral dos escravos e moral dos senhores.
Para se tentar entender melhor seu legado bastante denso e de difícil acesso, devemos nos reportar a sua visão antropológica e histórica do início da humanidade onde o humano ou o que ele chama de “a besta loira” teve de abdicar em parte de sua liberdade para viver em comunidade e com isso aprender a respeitar regras, aprendizado este que foi feito em cima de dor e sofrimento e não de altruísmo.
Nesta convivência, cria-se então uma relação credor/devedor e, na medida em que o devedor não paga a sua dívida ou não cumpre sua promessa são criados métodos de castigo que, pela coerção imposta pela dor e sofrimento faz surgir uma memória da dívida ou uma consciência de culpa. Isto é o que Nietzsche vai chamar de má consciência, ou seja, a consciência do dever não cumprido e das terríveis consequências disso.
Surge daí uma hierarquia de valores, tendo no topo os que dominam, nas camadas mais baixas os dominados e, para administrar esta relação hierárquica de senhores e escravos, os sacerdotes.
Segundo Nietzsche serão os sacerdotes judeus quem, em virtude de sua impotência, inverterão os valores ao propagar a vingança dos escravos contra seus mestres, utilizando-se de uma artimanha ideológica- o ethos da caridade- infectando os senhores com a mentalidade de escravo e roubando sua vitalidade natural, sua insolência agressiva e autocrática, iniciando uma moral do ressentimento. A principal marca desta moral é o ideal ascético, que despreza as coisas materiais do mundo e coloca as esperanças numa vida além. O sacerdote encarna esta contradição de usar a hostilidade e o ressentimento como fator de preservação da vida.
 A atualidade desta análise da subjetividade humana merece ser destacada aqui, como uma forma patológica de se defender, onde há uma escolha deliberada de abrir mão da liberdade em prol de um submeter-se ao outro, acreditando que ele tenha meios de se responsabilizar  e cuidar. 
Segundo alguns autores, Nietzsche, além de ter encontrado o termo ressentimento nas traduções francesas do escritor russo Dostoievski também teria se inspirado  em alguns personagens de seus livros, personagens esses que,  ao se sentirem imensamente infelizes, rompiam com a religião e construíam sua própria ética  fundando o protótipo de um novo homem.
Ao contrário dos ressentidos, este novo homem  teria a coragem de assumir a realidade de um mundo onde Deus estaria morto sem que isto significasse uma vida sem sentido. Para Nietzsche isto era liberdade, era a possibilidade do homem construir o seu próprio destino sem arrependimentos, era o que ele chamava de superhomem.
Para evitar o enfraquecimento o homem deveria assumir uma perspectiva além do bem e do mal, além da moral, o que não significava além do bom e do mau. Bom seria tudo que intensificasse esse sentimento de potência no homem e mau seria o que proviesse da fraqueza. Um humano capaz de se responsabilizar pelos seus atos.
Podemos dizer que na mesma linha de Freud, mas por vias diferentes, Nietzsche  intuiu o papel do inconsciente na vida humana ao denunciar que as “intenções” de algumas escolhas estariam a serviço de algo com o sentido inverso. Tanto a ideologia quanto a moral e a religião seriam faces ressentidas da impossibilidade do homem assumir seu próprio destino. Muitos anos depois da morte do filósofo, Freud escreveria seu texto “O futuro de uma ilusão” onde colocaria a religião como uma necessidade do ser humano suportar seu desamparo originário ou sua impotência.
Muitos autores usaram esta teorização sobre o ressentimento em Nietzsche para explicar as revoluções onde a inveja destrutiva dos que nada tem pelos que possuem, incitaria as massas e daria um motivo às desordens. Foi Nietzsche também quem cunhou o termo “sacerdotes ascéticos” para designar intelectuais (jornalistas, escritores, filósofos) fracassados ou amargos, cuja insatisfação pessoal leva-los ia às suas vocações como militantes políticos e revolucionários.
Ao descrever seu “superhomem”, Nietzsche talvez achasse assim como Freud, que ele poderia aceitar sua natureza pulsional sem amargura e encontrar um destino de grandeza ao exercer um domínio sobre este caos. Na verdade toda a questão do ressentimento estaria nessa impossibilidade de negociar com a satisfação dessas pulsões eróticas ou destrutivas, fato que fez com que Freud se debruçasse sobre o que ele chamou de inconsciente para teorizar a respeito dos complexos  percursos  que resultariam dessa luta.
Nietzsche se antecipa a Freud na tentativa de descrever essas duas forças antagônicas, as da destruição e as da construção ou o duelo da vida e da morte que o homem teria que se haver. 
Poder-se ia pensar que o homem contemporâneo, vivendo em um mundo onde a individualidade atingiu seu momento máximo, possibilitando que se assumisse a responsabilidade de sua vida privada e que arbitrasse sobre o certo e o errado com total liberdade, conseguiria finalmente  ser este superhomem imaginado por Nietzsche, com espaço para viver suas paixões, mas sendo forte o suficiente para administrar sua natureza pulsional.
Mas o que vemos em termos de subjetividade correspondente não confere. Muito se tem escrito e questionado sobre as novas formas de subjetividades determinadas pela pós-modernidade, e parece que a humanidade não escapa nunca de produzir novas formas de sofrimentos. Penso que o ressentimento é o sintoma que pode estar denunciando que esta transcendência de valores  almejada e alcançada pelo homem não traz a felicidade esperada, pois o aumento da responsabilidade sobre o próprio destino aumenta o efeito da desilusão e favorece  esta configuração psíquica.   
O ressentimento é um afeto próximo, conhecido e usado desde sempre no senso comum. Quando se pesquisa a palavra pela internet, encontra-se vários sites, alguns ligados às comunidades religiosas, que, utilizando-se de um discurso de autoajuda, referem-se à maneira como se deve proceder para evitá-lo e todas as consequências nefastas que se produzem quando isto não é possível.
Usado geralmente como adjetivo com sentido pejorativo denotando um certo desprezo ao portador do mesmo, o sujeito ressentido é facilmente condenado pelas pessoas que em geral se consideram isentas de tal discurso. Em um artigo da revista Época o jornalista Augusto Nunes trata do ressentimento como o 8º pecado capital fazendo referência ao modo como algumas pessoas públicas destilam eternamente suas mágoas atribuindo seus fracassos a alguém numa digestão interminável. “Frequentador dos subúrbios da ira, sobrinho do orgulho e primo da cobiça, o ressentimento é irmão da inveja, com quem costuma ser confundido” diz o jornalista.
Colocar o ressentimento como o 8º pecado capital é classificá-lo como um sentimento de certo modo inaceitável, que as pessoas não deveriam ter ou sentir. Entretanto é quase unânime este modo de ver as pessoas que se ressentem facilmente, e principalmente aquelas que parecem não poder esquecer jamais as desfeitas sofridas, e que muitas vezes aos ouvidos incrédulos dos outros, repetem suas histórias magoadas, destilando seu rancor às pessoas implicadas.
Tão inquietante que  o psicólogo e doutor Frederic Luskin publicou um livro intitulado “O poder do perdão”, em que discorre sobre uma pesquisa feita na Universidade de Stanford, onde o ressentimento é definido como algo que pode e deve ser superado, e que o ato de culpar os outros ou apegar-se a mágoas faria com que a vida pessoal e profissional se desorganizasse, possibilitando tomar decisões equivocadas além de liberar substâncias químicas do corpo associadas ao estresse. Em compensação, ao aprender a perdoar, o indivíduo deixaria de desempenhar e identificar-se com o papel de vítima, e passaria a desfrutar de uma vida com saúde e satisfação.
Sem dúvidas, não se deve desconsiderar o incômodo que nos causa o discurso ressentido por clamar repetidamente e de forma hostil seu lugar de vítima. Mas é por sabermos que o sujeito ressentido sofre, prisioneiro que é de seus sintomas, que nos dispusemos a pensar um pouco sobre o que se passa nos subterrâneos de seu psiquismo.
O recorte que se pode fazer olhando a maneira como o ressentimento incide na vida de algumas pessoas, comprometendo e marcando um sentimento de menos-valia e um discurso onde o outro é o eterno impecilho também foi feito por Kancinper, psicanalista argentino que dedicou um livro ao tema. Ele coloca o ressentimento no bojo dos complexos edipianos e fraternos e situa o sujeito ressentido num circuito entre a pulsão de morte, narcisismo e como uma consequência direta da inveja.
   Em seu estudo sobre o narcisismo, Hugo Bleichemar coloca o ressentimento como uma das compensações possíveis diante da necessidade de se dar conta da renúncia à satisfação pulsional. Para ele os sofrimentos narcisistas aumentam com a insatisfação do desejo principalmente porque marcam a dependência do sujeito ao outro, no qual as suas satisfações se esgotam. Gozar passa a ser a prova de uma integridade narcísica preservada e a inveja do outro atinge o seu ápice quando se imagina que este goza sem conflitos, ou melhor, sem inibição, sem culpa, e sem vergonha. O domínio sobre as pulsões é sempre algo perseguido e a impossibilidade de saciar a necessidade de domínio provoca a raiva narcisista negando ao sujeito a possibilidade de liberá-lo do desejo.
Gabriel, um executivo bem colocado no mercado, trabalhando numa empresa cuidadosamente escolhida, ressente-se por   estar sempre insatisfeito, de olho em  cargos de empresas com  maior prestígio que a sua. Enquanto sonho impossível, a empresa de seus sonhos é tudo o que ele parece querer para se sentir finalmente satisfeito. Durante o processo rigoroso de seleção a que se submete, o medo de fracassar coloca-o diante de sua impotência, e o seu ressentimento re-aparece .Gabriel supervaloriza sua impotência o que justifica seu rancor recorrente e o torna prisioneiro de seu ressentimento. Quanto mais liberdade e soberania ele poderia ter para fazer suas conquistas, mais sedutor parece ser abrir mão disso e transferir ao outro esta responsabilidade para não ter que se haver com o sofrimento imponderável.   
O ressentimento caracteriza-se pela repetição sem fim de injúrias narcisistas que não podem ser esquecidas. No ressentimento o sujeito se satisfaz naquilo que o machuca, seus lamentos sem fim. O sintoma insiste porque dá uma solução ao desejo e a pulsão. No ressentimento o sujeito vive o lugar de vítima  do eu assujeitado mas com ódio. Ele quer ser o outro, quer ter o que imagina que o outro tem, a posse do gozo. Além disso, existe nos pacientes ressentidos uma inacessibilidade narcísica que dificulta a retificação de seus sintomas e isto acontece porque o próprio ressentimento é tomado na transferência.
Na clínica, é possível observar em  alguns pacientes, um fio que  liga algumas configurações  patológicas num mesmo quadro clínico com sintomas que  desembocam num ressentir-se sem fim, num lamento sofrido e injurioso dirigido em geral a um outro  sempre culpado. Questionando-se eternamente pela má sorte e pelo destino invariavelmente frustrante, o ressentido apresenta um discurso magoado e na maioria das vezes rancoroso, o que numa primeira escuta causa um certo mal estar parecendo constituir-se em uma queixa excessiva diante de motivos aparentemente pouco convincentes. O que causa um desconforto aos ouvidos é o fato de ser uma retórica recorrente onde o modo de contato com o mundo é sempre o de legitimar o lugar de vítima e justificar o rancor.
Mas assim como a inveja, que mereceu um estudo minucioso de Melanie Klein que a percebia como algo primordial e resistente a qualquer elaboração, o ressentimento tem suas semelhanças na clínica. Não por acaso, já que ele é um produto direto da inveja embora dependa do ideal do eu para se manter. O ressentido sofre com seu próprio ódio, com algo de si que não pode ser revelado nem a si próprio e tenta sobreviver diante do que percebe ser-lhe muito destrutivo.  O incômodo da escuta de seu discurso é justamente a percepção da hostilidade rancorosa, velada ou não, mas sempre presente. Há, no entanto, um sofrimento que se sobrepõe a este rancor, formando um movimento circular em que sofrimento torna-se causa de rancor e rancor causa de sofrimento.
Na canção ininterrupta e repetitiva o ressentido demora a perceber que é prisioneiro de seu sintoma e quando percebe, questiona insistentemente a causa de seus fracassos todos anotados na mesma agenda onde não são registradas suas conquistas.
Ele pede sim o reconhecimento, mas para legitimar as injúrias sofridas, vingar-se justamente, tudo numa visão do futuro onde o que importa é mais o acerto de contas rancoroso com o passado do que a promessa do novo e do bom.
O sujeito ressentido tem, em geral, um radar aguçado para as injustiças e arbitrariedades e as vive com um ódio inconfesso e muitas vezes não assumido que é em geral o que causa a indignação de seus interlocutores. É justamente este ódio que não pode ser assumido pelo ressentido que está na base de todas as leituras feitas sobre o ressentimento, a começar de Nietzsche. Há uma espécie de covardia moral atribuída aos ressentidos que, ao não poderem assumir o confronto e a negociação, sedimentam uma atitude de mágoa e revanche em relação ao outro e de autoindulgência em relação a si.
Embora sejam pacientes que busquem a análise, resistem e, em geral, fazem os analistas se  confrontarem com todos os sinais de fracasso: reação terapêutica negativa, ódio inconsciente, masoquismo, doenças do ideal.  
Em que pese a constatação, na clínica contemporânea, de uma subjetividade na qual os traços de ressentimento sobejam, parece importante ressaltar a incidência da cultura atual que, ao vender a promessa de uma vida sem conflitos e sofrimentos aumenta o confronto entre o que é possível realizar e a decepção da promessa.

Referências   Bibliográficas
BLEICHMAR, H. O narcisismo. Trad:Diehl e Ledur. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

CARDOSO,M.R. Superego. SP Escuta, 2001

ENRIQUEZ,M.Nas encruzilhadas do ódio. SP Escuta,1999

FREUD, S. O problema econômico do masoquismo(1924).In:Obras Completas.Rio de Janeiro,1980

GREEN,A. Narcisismo de vida Narcisismo de morte.Trad:Berliner.SP Escuta, 1988

JANILSON, F. O inconsciente político.SP Ática 1992

LUSKIN,F. O poder do perdão.  Trad:Szlak.SP Novo paradigma, 2002

KANCYPER,L.Ressentimento e Remorso:estudo psicanalítico.Trad:Souza Noto.SP Casa do Psicólogo,1994


KANCYPER, L.Confrontação de Gerações.Trad:Venite.SP Casa do Psicólogo,1999

OCARIZ,M.C. O sintoma e a clínica psicanalítica.SP Via Lettera,2003


Trabalho apresentado nos Estados   Gerais  da  Psicanálise –Segundo

Encontro Mundial  Rio de Janeiro 2003












terça-feira, 13 de junho de 2017

Os ciúmes infantis

Os ciúmes infantis

Gisela Haddad


Dor-de-cotovelo
Caetano Veloso

O ciúme dói nos cotovelos
Na raiz dos cabelos
Gela a sola dos pés
Faz os músculos ficarem moles
E o estômago vão e sem fome
Dói da flor da pele ao pó do osso
Rói do cóccix até o pescoço
Acende uma luz branca em seu umbigo
Você ama o inimigo
E se torna inimigo do amor
O ciúme dói do leito à margem
Dói pra fora na paisagem
Arde ao sol do fim do dia
Corre pelas veias na ramagem
Atravessa a voz e a melodia
A chegada de mais um bebê na família costuma mobilizar os pais no sentido de evitar que o mais velho sinta ciúmes do mais novo. Alguns pais se empenham bastante nisso, preparando o irmão ou irmã mais velha de forma a tentar assegurá-lo de que ele é amado, seguindo passos e regras que acreditam poder eliminar este desconforto causado pela perda de um lugar de privilégio. Às vezes o empenho pode ser excessivo sugerindo uma tentativa de negar por parte de um dos pais ou dos dois, o fato de que  o ciúmes seja inevitável. Podemos dizer que a maneira como os pais vivem a eminência dos ciúmes entre os irmãos está ligada  a sua própria história  e o significado desta trama em sua infância. Dizer que os ciúmes são humanos é redundante. Assim como o luto, os ciúmes é um afeto que faz parte da vida subjetiva de todos, provoca sentimentos de dor e aciona o medo da perda do amor dos pais, no caso de um novo nascimento. Dependendo de como ele será gerenciado, suportado ou significado para a criança poderá ou não desembocar em sintomas e inibições ou definir a maneira como ele irá se relacionar com as pessoas.

Ciúmes, famílias atuais, pais.

Os ciúmes é um afeto difícil de suportar. Sentir-se excluído é extremamente doloroso, pois nos remete a nossa perda originária, ao elo inicial com a mãe vivido como capaz de nos completar plenamente. A perda da exclusividade acarreta a necessidade de renúncias e sacrifícios que necessitam ser negociados no seio familiar e nas novas possibilidades que a criança desvenda em seu futuro que lhe prometem o retorno deste “amor perdido”. Neste sentido o ciúme é a base das futuras relações da criança com os outros.
Quando nasce um irmão esta perda é acionada e a criança ora deseja retornar a este lugar imaginário de completude, ora se compraz de suas novas aquisições no confronto com este semelhante. O nascimento de um irmão é raramente vivido com indiferença e em geral quando isso acontece é porque os próprios pais não podem deixar um espaço para que as palavras e os atos da criança pudessem expressá-lo. Neste caso o ódio recalcado volta-se contra a própria criança, que fica sem os recursos necessários para enfrentar as situações de competição ou concorrência, evitando-as ou colocando-se como indiferente. É muito comum o novo irmão ser alvo de ódio e amor por parte do mais velho, que ora deseja destrui-lo, ora deseja ser ele. Se o nascimento do irmão aciona a demanda de amor absoluto e pleno na criança, isso precisa ser conhecido e não sufocado. Mas não é tarefa fácil.
De qualquer forma o ciúme é estruturante e precisa ser encenado no seio da família. Esta encenação da destruição do outro é necessária para que a agressividade possa ser expressa. Os pais são essenciais nesta encenação e suportar ou não esta encenação definirá o significado que esta terá para cada um deles em sua infância. Será na maneira como as manifestações de ciúmes serão tratadas, se com humor, com palavras que possam traduzir os sentimentos, com limites certeiros ou se com censura excessiva ou respostas agressivas.
A agressividade poderá ou não ser absorvida pelos jogos e dizeres, tornando-se ou não compreensível e digerível. Neste sentido fraternidade e parentalidade se articulam. Como os pais só conseguem responder aos ciúmes de seus filhos com sua própria história, podemos dizer que o caminho da socialização passa pela experiência dos[g1]  ciúmes.
O processo de instauração do semelhante passa pela relação com o irmão, que estabelece a horizontalidade das relações. Neste sentido, a rivalidade entre os irmãos teria uma função positiva na constituição do sujeito, na produção do semelhante. Além da rivalidade pelo amor dos pais, o irmão é rival em relação a sua própria imagem narcísica e pode funcionar como duplo tanto pela máxima semelhança quanto pela diferença inevitável.Neste sentido o irmão força o rompimento da prisão especular, do idêntico a si mesmo, assim como balança o sentimento de ser o objeto de desejo da mãe.
O que muda nas famílias atuais?As novas composições familiares com novos pais e/ou novos irmãos favorecem a fraternidade ou a convivência entre os irmãos?
Os ciúmes e o sentimento fraterno de cumplicidade e parceria não são excludentes. Convivem. Os ciúmes entre irmãos precisam ser vividos, enfrentado, negociado. É necessário que cada irmão lute por um lugar na família e isso necessariamente passa pelo desejo de destruir, agredir, etc. Só lutando eles poderão aprender a dividir espaços e carinhos, resolver conflitos às vezes na guerra, às vezes na paz. Em geral o irmão pode significar um acréscimo na experiência subjetiva da criança.
Quando os ciúmes não são explicitados é sinal que a criança não foi acompanhada na expressão de seus sentimentos, que precisaram ser calados. Isso pode acarretar um não saber sobre si, sobre sua intimidade.
O ciúme expressa o desejo de controlar e possuir unicamente para si a pessoa que se quer bem. Nasce de uma demanda de exclusividade, do desejo de ser tudo para alguém, da situação de não suportar dividir a atenção da pessoa amada com mais ninguém e  traz consigo uma grande angústia de ser excluído, sentir-se fora dos jogos amorosos de nosso bem-amado e correr o risco de perder sua atenção e seu amor. Uma das tarefas mais difíceis do crescimento é superar a forma infantil de amar, que permanece pulsando na penumbra. A criança atemporal que vive escondida em nós é exclusivista, possessiva, onipotente e não quer saber de autonomia e independência do outro.  O adulto precisa conter, de forma transfigurada, a intensidade infantil, povoada de indestrutíveis desejos de perfeição, posse, exclusividade e controle. Há em nós uma criança cheia de onipotência, raiva, desespero, desamparo, medo de abandono: ela luta com seus fantasmas bons e maus, com suas fantásticas figuras imaginárias - as imagos que criadas que não a deixam em paz.

Texto criado para Entrevista sobre ciumes entre irmãos
Programa Fantástico 2005


 [g1]