Colunas, blogs ou reportagens cujo tema gira em torno de um balanço do ano que termina ou de algumas previsões ou aspirações para o próximo, são lugar comum nesta época. Em meio à agitação que se vive no mês de dezembro, mês que mais se aproxima de uma celebração ( ainda que datada) da amizade humana, com confraternizações de todos os grupos a que pertencemos,trocas de presentes, palavras de reconhecimento e gratidão, em geral encontramos um espaço para pensar sobre o que ficamos devendo aos planos que traçamos um ano atrás ou o que pretendemos agendar para o próximo, sejam propostas concretas ou mesmo aquelas que fazem parte de secretos e íntimos desejos, novos ou antigos, que imaginamos poder realizar nos próximos 365 dias do ano. O valor que de certa forma acabamos atribuindo a esta passagem de um ano para o outro a torna algo simbólico, que no arrancar da última folha do calendário nos faz distribuir a todos que fazem parte de nosso rol de amizade, desejos que também necessitamos acreditar ser possíveis para nós, algo que possa se parecer com “daqui para frente tudo vai ser diferente”. Gostamos de imaginar um pacote de felicidade, incluindo algum sucesso, dinheiro, amores, viagens... e claro, como imaginar e sonhar não custa nada, quem sabe também saúde,um corpo mais magrinho e atlético, talvez trocar o carro,comprar aquele laptop mais ágil,ou aquele apartamento com varanda, um pouco maior, com o sol batendo o dia inteiro,bem próximo do parque para que possamos caminhar até lá nos finais de semana. OK, o mundo atual oferece mesmo esta brecha para nossos sonhos de consumo. Podemos imaginar um futuro em que muitos destes sonhos se tornarão realidade.Mas não custa lembrar que nem sempre nosso ano que passou nos apresenta apenas nossa conta devedora. Muitas vezes ele foi difícil, nos surpreendeu com fatos desagradáveis e inesperados, com perdas dolorosas ou danos e prejuízos impossíveis de digerir. Neste sentido, estar a um passo do final dele nos faz respirar aliviados, como se esta passagem pudesse acenar com o fim de algo e começo de outra coisa. Melhor, muito melhor com certeza. E o fato de podermos apostar nisso, que este sofrimento ao qual estivemos submetidos pode ficar no passado, neste ano que se finda, nos dá aquele plus de confiança necessário para que nossas vidas ganhem um novo sentido. De um lado ou de outro, nos acostumamos ao longo dos tempos a manter este significado importante para esta passagem, como se nos permitíssemos dividir nossas vidas em pedaços de um ano, talvez por percebermos que precisamos de um futuro datado, não só para não nos perdermos no mar de nossos desejos e aspirações, mas também para que possamos conferir o que pudemos realizar ou quanto pudemos caminhar ou evoluir dentro da escala que cada um de nós utiliza para avaliar sua vida, ou a si próprio. Bom Natal a todos.
Coluna do dia 23 de dezembro de 2009
terça-feira, 30 de junho de 2009
Maysas
Jayme Monjardim se tornou conhecido do público quando ousou quebrar a hegemonia global das novelas mostrando ao público um pouco das incontáveis belezas naturais de nosso Brasil, de sua cultura diversificada e do povo, costume e estilo próprios do Pantanal mato-grossense. Discreto, pouco dizia de sua condição de único filho de nossa Maysa, morta em 1977, aos 40 anos, em um acidente na ponte Rio-Niterói. Somente agora, aos 52 anos , Jayme decidiu tornar pública sua história, encomendando ao escritor Manoel Carlos, fã confesso da cantora,um roteiro para uma minissérie sobre sua mãe que começa a ser exibida pela Rede Globo em janeiro de 2009. Atendendo a um palpite de Manoel Carlos, seus dois filhos irão interpretá-lo em diferentes momentos de sua vida. Jornalistas de todos os cantos acorreram ao seu alcance no intuito de saber como andava sua alma diante da iminência desta exibição. Ao ler as várias entrevistas, no entanto, a pergunta que fica no ar e que todos parecem querer fazer não é a que resgata a história atribulada e corajosa da vida de sua mãe, mas aquela, escondida nos recônditos de suas entranhas de filho e que só ele poderia revelar. Às vezes seguro, outras emocionado, Jayme chega a confessar que este projeto antigo e difícil tinha seu tempo para acontecer. "Maysa - Quando Fala o Coração" tem assim um significado especial, de resgate de sua relação ao mesmo tempo curta e tumultuada com a mãe, mas também de tornar possível uma declaração tardia de seu amor e de sua admiração àquela mulher destemida que desafiou os padrões sociais de sua época ao não abrir mão de seu grande sonho. Abrir o baú destas memórias, colocar a si próprio como personagem de uma história ao mesmo tempo particular e pública, dividir esta história com os filhos que pela primeira vez entram em contato com a saga desta avó,admirada e execrada pela sociedade de seu tempo, é no mínimo um ato generoso. Parte importante de nosso acervo musical em um momento cultural em que ser mulher e cantora significava enfrentar um preconceito silencioso, Maysa soube falar e cantar para a sua época, expondo ao mesmo tempo sua paixão e sua melancolia diante de seus sentimentos por vezes incompreensíveis até para si mesma. Sua dependência alcoólica e as constantes tentativas de se livrar dela, revelam o lado sombrio de sua luta : buscar apaixonadamente a vida sem saber ao certo o que fazer com seus limites para os difíceis percalços desta busca. Aos 15 anos Maysa compôs “Adeus” sua primeira música, mas é com o título de outra composição sua, “Felicidade Infeliz” que ela resume sua vida. Podemos conferir, em janeiro.
Coluna do dia 16 de dezembro de 2008
Coluna do dia 16 de dezembro de 2008
Capitulando
Apesar de não sermos um país que dispense um lugar tão diferenciado para a sua própria literatura, o romance Dom Casmurro e seus personagens Capitu e Bentinho são velhos conhecidos da maioria. Na cola da comemoração do centenário de morte de Machado de Assis reverenciado e com razão, como um dos maiores escritores brasileiros, a Rede Globo colocou no ar desde ontem, uma minissérie em cinco capítulos sobre esta trama que, por supor um adultério feminino e expor a hipocrisia da sociedade imperial da época, foi e continua a ser motivo de debates e controversas além de palco de alguns júris que se propuseram a tentar condenar e/ou defender Capitu. Não custa lembrar que o romance é narrado por Bentinho como a fazer uma retrospectiva de sua vida e da suposição que o perseguiu ( e ainda o persegue quando escreve) de que sua Capitu, então amada esposa , teria se envolvido com seu melhor amigo Escobar e que seu único filho Ezequiel pudesse ser fruto deste relacionamento. Fosse como dúvida ou como realidade, a grande genialidade de Machado de Assis não foi repetir a velha fórmula do triangulo amoroso, sempre um bom ingrediente para nossas histórias amorosas, mas sim revelar através da ambigüidade de seu personagem narrador, a “verdadeira” natureza humana. É justamente por Bentinho ter optado por acreditar em suas suposições e ter deixado Capitu e seu filho na Suíça, que ele precisa fazer este exercício atormentado de escrever e rememorar seu passado, na tentativa de justificar e sacramentar sua decisão, demonstrar a culpa de Capitu e se livrar de sua própria culpa em relação aos seus sentimentos de ciúmes, inveja, rivalidade e por que não crueldade. É esta sensibilidade apontada em Machado de Assis por quase todos os seus estudiosos e leitores apaixonados, que lhe confere a capacidade de analisar as nuances nem sempre perceptíveis da alma humana. A leitura de um texto desta grandeza não só promove diferentes maneiras de apreensão por parte de cada um dos leitores, como a cada época, graças ao bonde da história que jamais pára, pode permitir novas reflexões sobre os mesmos dramas humanos.É assim que o adultério feminino foi durante quase sete décadas o grande tema a se destacar deste texto e, podemos dizer hoje ,a empobrecer sua riqueza, já que não se trata de chegar a este tipo de “verdade”moral.Para além da possibilidade de traição de Capitu, há um homem que se dispõe a abrir sua alma e relatar seu drama, sua paixão,suas dúvidas, seus ciúmes,seu ódio e suas escolhas.Os romances, assim como os filmes e as canções são produtos desta pequena parcela humana de autores,a quem nunca podemos deixar de agradecer e reverenciar por nos oferecer constantemente possibilidades de estudar, perscrutar e entender um pouco mais de nós mesmos.
Coluna do dia 09 de dezembro de 2008
Coluna do dia 09 de dezembro de 2008
Violência e desamparo
A revista Veja da semana passada trazia de volta à mídia o que se convencionou chamar de “caso Isabella” , exibindo na capa as fotos de seus dois protagonistas, Alexandre e Anna Carolina e convidando o público a acompanhar os 200 dias de suas (boas) vidas de cadeia . A palavra “boa” vinha em parêntesis como a provocar o leitor a julgar a medida que deveria ter a vida de prisão do casal . Estaria justa ou o sistema jurídico precisaria tomar medidas mais duras? Ficamos sabendo então, o dia a dia de cada um, suas preferências, os amigos eleitos, as visitas das duas famílias e suas particularidades, os recursos, as chances, etc. Entretanto o que fica mais em evidência na reportagem é que após serem acusados da autoria de um dos crimes mais rechaçados da atualidade, a vida íntima de ambos passou a ser de domínio público e não mais questionamos os limites da exposição de qualquer detalhe sórdido de suas árvores genealógicas como se todos comungássemos de um sentimento coletivo não só de repúdio ao seu ato criminoso, mas de consentimento de que ambos não mais merecem desfrutar dos mesmos direitos de cidadãos comuns como nós. Assim, deixamos de lado a compaixão e damos de ombros a qualquer excesso que seja cometido em suas vidas, já que estes podem ser descontados na imensa dívida moral contraída por ambos após seu repugnante ato. Sem a pretensão de fazer aqui um julgamento moral sobre o caso, pareceu-me interessante trazer a tona algumas questões que ele suscita. Embora o tom da reportagem anuncie uma vistoria sobre a gestão das medidas legais, há também uma intenção nem tão velada, em perscrutar as razões históricas, sociais e emocionais que estariam implicadas no fracasso ou no “erro” humano cometido pelo casal. Seria a família?A criança? O mundo contemporâneo e suas complexas transformações? De certa maneira acompanhamos curiosos o rastreamento destas possíveis explicações, não só por desejarmos que o casal possa ser julgado e punido diante da comprovação de seu crime, mas porque no fundo sabemos da complexidade destes atos violentos cometidos no auge de um descontrole sobre nosso ódio, nossa ira ou nossa dor. Sabemos ser possível desejarmos a morte de alguém que em algum momento de nossas vidas é responsabilizado por nosso sofrimento, e sabemos também o quanto nossa fúria pode magoar, humilhar ou destruir aquele que a despertou. É esta pequena fronteira entre o “mal” que podemos desejar ou sonhar para um outro e o ato de fazê-lo de forma cabal que nos transforma em transgressores e nos coloca à margem da sociedade em que vivemos.O casal em questão já está sendo submetido às nossas leis que cuidam dos que infringem estas fronteiras e produzem uma espécie de “guarda” sobre o convívio humano. O que cabe a nós então, leitores e mídia incluídos? Dividirmo-nos entre os que buscam a verdade sem compaixão, portanto de forma cruel, os que julgam segundo uma moral convencional que lhes foi passada, sem pensar ou refletir, ou optarmos por considerar a particularidade do caso, exercitando nossa ética, aquela que nos obriga a pensar o que este “ato” que devastou a família e todos os seus membros pode nos revelar sobre as realidades incômodas e conflituosas que nos causam sofrimento.
Coluna do dia 02 de dezembro de 2008
Coluna do dia 02 de dezembro de 2008
O que é ser uma mulher?
Ainda hoje é comum se ouvir esta questão (e não só pelos homens) geralmente formulada em tons que anunciam um enigma sem solução. Talvez em parte haja mesmo uma necessidade cultural de manter um certo véu sobre “ o que é ser mulher”. Mas estarmos em pleno século XXI nos permite abrir o leque deste complexo- mulher e apostar que a mudança dos tempos traz consigo novas conquistas do ser humano no saber sobre si mesmo.Sabemos hoje o quanto a história da humanidade é sempre revista a partir dos novos paradigmas que são colocados pela aquisição destes saberes. Estas questões me foram suscitadas pela história da Duquesa, filme que estreou neste fim de semana na capital sobre a vida de Georgiana Spencer, que viveu na Inglaterra no tumultuado período em que aconteceu a Revolução Francesa e participou do fervilhar de suas idéias, concepções de mundo e de vida e de uma ideologia que marcaria o fim de uma era. Georgiana se tornou duquesa ao aceitar se casar aos 17 anos com o rico e poderoso duque de Devonshire, que aos 26 anos já tinha uma filha bastarda com uma de suas empregadas e buscava apenas um herdeiro para seu nome e fortuna. Bonita, inteligente e carismática, Georgiana marcava sua presença na corte, fosse desenhando seus vestidos e acessórios ou discutindo com sensibilidade e argúcia as pautas políticas do Partido Liberal,que comungava o clima revolucionário de então. A referência que o filme faz a Revolução Francesa não é gratuita. Ali se teceu o que viria a ser a aspiração moderna do mundo ocidental, ou seja, a igualdade, a liberdade e a fraternidade, que pretendiam resumir o fato de a humanidade poder partir do ponto zero, sem diferença de raças, classes ou gêneros. Passados três séculos pode-se dizer que estas questões continuam sendo digeridas pela cultura, principalmente no que diz respeito ao lugar reservado para a mulher.O filme aborda de forma sutil a violência imposta pela hierarquia entre os sexos, que convencionou um poder e uma liberdade ao homem e um submetimento à mulher.Creio não ser por acaso que os filmes busquem focar as relações amorosas e seus percalços: sexo,amor, traição, filhos, maternidade, paternidade. A experiência amorosa é necessariamente um território limite entre nós e um outro e por isso mesmo é fonte dos conflitos mais humanos, que gravitam entre o amor e o ódio,o domínio e a subjugação, o desejo e a indiferença, a rivalidade e a generosidade, etc. Georgiana parece ser uma mulher que confia em seus princípios humanos e na sua capacidade de fazer escolhas, de aceitar ou rejeitar argumentos e propostas. Parece ser alguém que conviveu com o exercício da reflexão sobre a vida e as pessoas e aprendeu a discordar ou encontrar caminhos alternativos. Em sua vida privada ela será testada de várias formas e terá que fazer escolhas corajosas, mesmo que para nós modernos, pareçam injustas.
Coluna do dia 25de novembro de 2008
Coluna do dia 25de novembro de 2008
Novas cores do amor
É agradável ler um texto cujas idéias andam passeando por nossa cabeça. É como se alguém tivesse sido generoso e pudesse nos ajudar a organizar nossa estante de palavras, ajeitando-as de forma mais harmoniosa, tirando os excessos, acrescentando adjetivos mais apropriados, etc. Foi assim que me senti ao ler o texto de Jonathan Franzen no caderno Mais! da Folha do último domingo, “ Amor sem pudor”. Embora polêmico e controverso, o amor ocupa um lugar meio sagrado no imaginário social. Com um passado glorioso, desde sempre foi alçado a condição de sublime, fosse identificado a um Bem acima de qualquer suspeita, a um sentimento que deveria ser devotado exclusivamente aos deuses, ou a algo especialíssimo entre dois seres quando agraciados e capturados por ele, certos de estarem na rota da felicidade. Mas assim como a sexualidade humana, o amor também viajou no trem da história e adquiriu tonalidades que não possuía. Em nome dele muitos crimes foram e ainda são cometidos e muitas coerções são admitidas , assim como algumas dores dilacerantes são perpetuadas. Por outro lado, este mesmo amor, foi e continua a ser bandeira de muitas lutas contra discriminações sociais, étnicas, sexuais e religiosas. Sentimento privilegiado da zona privada das vidas das pessoas, no mundo atual ninguém questiona os rituais amorosos, sejam os que se realizam em torno do amor de pais por seus filhos, destes por seus pais ou de pares que desejem exibir suas paixões. Mas por ter se tornado inquestionável como condição nas relações mais íntimas, sua antiga moradia privada tem escancarado suas cortinas. Franzen é um escritor americano de 47 anos considerado há quase uma década uma destas boas revelações da literatura mundial. A palavra “mundial” deve ser destacada já que um escritor desta geração, pelo menos cá em nosso Ocidente, deve oferecer uma leitura cujas referências culturais ou questionamentos sobre a vida humana farão parte de nosso repertório. É assim que ele descreve neste texto um pouco de sua inquietação ao se deparar, em qualquer recinto público, com pessoas penduradas em seus celulares, que de forma automática e sem se sentirem constrangidas por não trocarem palavras com os que os estão auxiliando nos serviços, passam a falar em voz alta sobre suas vidas íntimas ou profissionais, rindo ou se exaltando seja em alguma fila, na compra de ingressos ou objetos,em mesas de bares ou restaurantes, etc. E se pergunta como foi que em tão pouco tempo todos se autorizaram a divulgar em alto e bom tom, pedaços enormes de suas vidas privadas em recintos públicos repletos de estranhos? Será que seria ele o “vovô” da história, ao se sentir desconfortável em ouvir declarações de amor de enamorados ou de pais para seus filhos no caixa dos supermercados? É interessante como Franzen estaria revelando a partir de seu constrangimento, um temor do qual compartilho, o de que o “amor” se banalize e que nossas vidas, já sem muitos guias de destinos, fiquem sem este que ainda nos presenteia com um sentido. Mesmo que adquira outras cores.
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Coluna do dia 18 de novembro de 2008
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Coluna do dia 18 de novembro de 2008
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Habemos presidente
Nestes últimos meses estivemos convivendo com a figura simpática de Barack Obama nas fotos e manchetes estampadas quase que diariamente nas primeiras páginas dos jornais , ou como personagem de colunas e blogs de quase todos os articulistas, que de forma velada ou escancarada juntaram-se à grande torcida mundial em torno de sua eleição a presidência dos USA. Confesso que compartilhei deste clima, e sem que eu pudesse evitar, fui tomada por uma forte emoção de alegria quando vi anunciada sua vitória na última quarta feira, dia 5 de novembro. Embora a mídia em geral recorte as cenas mais impactantes para provocar uma identificação em seus expectadores, era quase impossível ficar indiferente às reações de júbilo e otimismo que se assistiu tanto na grande maioria do povo americano quanto na do resto do mundo. Pode-se dizer que esta eleição cumpriu um papel inédito na maneira como cada habitante de nossa aldeia global sentiu-se autorizado a torcer por um cargo de presidente de um país que, tanto por sua hegemonia econômica quanto pela extensão de sua força política, ocupa um lugar de esperanças e apostas em mudanças que favoreçam a vida e a convivência humana mundial. Nosso mundo se tornou pequeno não só pela sua estatura diante da imensidão espacial que sabemos existir hoje, mas pela possibilidade de, graças ao grau de conhecimento e tecnologia que atingimos, sabermos o quanto poderemos ser atingidos em tempo real por alguns efeitos maléficos que aconteçam em quaisquer pedacinhos dele. É assim que, de olho no futuro, produziu-se uma certa irmandade da espécie e todos sentiram-se à vontade para comentar, refletir, pensar e problematizar a campanha presidencial dos Estados Unidos. De todos os lados, esperanças se espalharam em torno da figura carismática e mansa de Obama, cuja biografia, postura "cool" e imagem do “negro" que representa mais a mestiçagem étnica deste mundo pós-moderno do que os antigos conflitos raciais dos afro-americanos seduziram a muitos. Talvez por estarmos vivendo em um período especial de questionamentos em torno de políticas e culturas mundiais, o resto do mundo sentiu-se à vontade para se juntar aos anseios de mudança do povo dos USA. A imposição de filiação ao Mercado Econômico Mundial e sua promessa de livre acesso aos bens àqueles que conseguissem apreender suas regras, não garantiu as riquezas anunciadas, ainda que mantivesse nossa identidade de consumidores. A crise financeira que afetou a todos denunciou que diante de suas falhas, o Mercado apenas nos mostra o quanto podemos ficar irmanados em um barco sem direção. Nestes quadros de desamparo geral, o sonho de se tornar rico é sobrepujado, ainda que por pouco tempo, pela necessidade de se refletir e quem sabe inventar novas maneiras de se estar e viver neste mundo. Quando alguma figura consegue ocupar o lugar de promessa deste novo, é natural que comemoremos, já que ganhamos um futuro e podemos acionar nossa velha e preciosa fé.
Coluna do dia 11 de novembro de 2008
Coluna do dia 11 de novembro de 2008
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