O filme Casamento Silencioso, em cartaz na capital, traz cenas hilárias e um tanto caricatas sobre um casamento que seria realizado em uma pequena vila na Romênia no ano de 1953, justamente no dia da morte de Stalin, o líder russo, então comandante maior dos países ocupados. Por ordem expressa dos representantes do partido, a família e todo o povo da pequena cidade que havia se preparado para os festejos, deveria cancelar qualquer cerimônia, fossem de mortes, nascimentos ou casamentos. Todos se recolhem a suas casas, mas inconformados, decidem realizar uma cerimônia muda, às escondidas, esforçando-se para se comunicar através de gestos ao redor de uma farta mesa de comidas e bebidas. O que se segue dá panos a muitas mangas de reflexões sobre nossas celebrações, assim como a extensão de seus significados. As cerimônias que acompanham mortes, nascimentos e casamentos, embora tenham acentos culturais singulares, são quase universais e provavelmente sua origem esteja não só no valor que damos a tais fatos, mas na nossa impossibilidade de cobrir o significado destas passagens humanas. É difícil para todos nós imaginarmos um nascimento, um casamento ou uma morte sem o peso de sua simbologia, e são justamente os ritos da tradição que repetimos indefinidamente, o que nos tranqüiliza. O casal do filme em questão vivia uma paixão avassaladora, constrangendo aos moradores que não suportavam mais conviver com as cenas públicas de seus encontros ardentes. A cerimônia do casamento deveria apaziguar a todos, colocando os pontos nos “is” ao formalizar a união destes corpos sem destino certo. A partir daí, o encontro dos corpos ganha um significado, um futuro, uma perpetuação possível da tradição. E para consagrar esta passagem, que muda os adjetivos que acompanham a espécie animal para os da espécie humana, nada mais sugestivo do que uma grande festa, com muita música, bebida, comida e danças para que todos possam enfim compartilhar de suas razões. Se a festa adquire uma razão de ser, podemos então extrapolar os limites do cotidiano, e ultrapassar certas fronteiras que em geral usamos para comer, beber e dançar. Neste sentido, muitas de nossas cerimônias admitem alguns excessos, desde que estes tenham suas razões devidamente partilhadas pela comunidade. Planejadas com um ano de antecedência, contando muitas vezes com um serviço especializado de cerimônias, as festas de casamento na atualidade continuam a cumprir este ritual de passagem, mesmo quando se transformam em verdadeiros eventos, promovendo não só um encontro testemunhal entre familiares e amigos, mas momentos minuciosamente registrados de grande júbilo para os orgulhosos pais e os esperançosos cônjuges.
coluna do dia 28 de julho de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Segredos do futuro
Em clima de comemoração dos 40 anos em que o homem pisou pela primeira vez na lua, jornais, revistas e TV mobilizaram-se para produzir matérias que pudessem cobrir as reminiscências do impacto desta conquista humana e as reflexões sobre seu valor. Transmitida ao vivo no ano de 1969, o mundo parou para assistir as imagens mágicas da Apollo 11, pousada na superfície da lua, e do astronauta que ali deixava suas pegadas. Passadas estas quatro décadas, qual seria o valor que atribuímos a esta ousadia humana? Uma visada pelos inúmeros comentários colhidos pela internet nos mostra que tal acontecimento é hoje um fato consolidado e importante de nossa história, ou seja, há um significado compartilhado pela maioria que a chegada à lua ( para além de uma estratégia política) celebrava um avanço incomensurável do saber científico alcançado pelo homem. Por outro lado, tal como o olhar de cada um para uma obra de arte qualquer, é possível reunir um número sem fim de depoimentos individuais que descrevem este momento de suas vidas acentuando o valor de sua experiência individual, como uma marca em sua memória. Grosso modo, o saber das ciências seria mais objetivo e, portanto passível de ser medido e partilhado. Já as histórias que cada um conta sobre suas impressões são subjetivas e compõem o repertório que alimenta nosso imaginário social, junto com a literatura, o cinema e as religiões. É aqui que se encaixam o discurso dos jovens de então, que atribuíram a este fato um sentido poético e libertador para suas vidas, descrevendo a magia de suas fantasias de conquista do espaço e da construção de possibilidades ou de apostas de um futuro desconhecido, mas possível. Muitos localizam ali a matriz de seus projetos de vida e do despertar de suas paixões por motores e máquinas, fossem como construtores ou como pilotos. Paradoxalmente aqui também se encaixam os que ainda hoje duvidam deste acontecimento e criam uma infinidade de suposições com o intuito de justificar sua descrença. Afinal, não é fácil pensar que somos um minúsculo grão de areia no infinito espaço de um universo antes sagrado, que aos poucos vai sendo desvendado, aumentando as chances de não sermos seres tão especiais quanto nossa história já acreditou. De um lado e de outro, é das profundezas de cada alma que os sonhos e as fantasias, os temores e as assombrações emergem destes “encontros” e ganham significados particulares. E assim como a História de nossa existência humana, ressignificada a cada época, graças ao acúmulo de conhecimentos, podemos ampliar o sentido de certas vivências passadas, ao desvendar certas dimensões de nossos sentimentos, antes fora de nosso alcance.
coluna do dia 21 de julho de 2009
coluna do dia 21 de julho de 2009
quarta-feira, 15 de julho de 2009
De mãe para filhos
As primeiras cenas do filme francês Horas de Verão (em cartaz na capital), mostram a comemoração dos 75 anos de Hélène, junto a seus filhos e netos, na casa de campo em que reside próximo a Paris, em companhia de uma antiga empregada e uma infinidade de móveis e objetos de arte de grande valor. Enquanto as crianças e adolescentes brincam e se perdem pelos campos ensolarados, os três filhos ( dois homens e uma mulher) e as duas noras sentam-se em volta da matriarca no jardim. As conversas tentam cobrir o tempo de ausência de Adrienne (que mora em Nova York) e Jérémie, o caçula, que reside com a mulher e seus dois filhos na China. Frédéric, esposa e dois filhos são os únicos que moram na França. Quanto a Hélène,a mãe, sua fala e olhares antecipam seu sentimento de que o fim está próximo, o que a leva a partilhar com o filho mais velho suas sugestões em relação ao legado artístico e de grande valor que a casa contém. Embora o filme seja muito simples e singelo no modo como irá mostrar a morte da mãe e as negociações que se seguirão entre os três filhos para decidirem o futuro da casa e do acervo artístico que ela possui, há nas entrelinhas, uma tentativa de discussão e reflexão sobre as heranças familiares, sejam elas materiais ou afetivas, diante de uma nova maneira de se estar e viver no mundo. Ao contrário do que se poderia imaginar, Hélène pede à Frédéric que vendam os quadros e os objetos de arte, que por valerem muito, poderiam ser mais úteis a eles, assim como a casa e seus móveis assinados. Frédéric não suporta imaginar a morte da mãe e muito menos a desaparição da casa de sua infância e seus objetos tão investidos de sua história familiar. Não é o que pensam seus dois irmãos que residem fora da França. Sabemos como cada filho, ao nascer, recebe um lugar dentro da família, antecipado pelo imaginário de seus pais que já sonham com seu nome e seu futuro. Mas cada criança tem sua história individual, para além de suas origens familiares e sociais, e caberá a cada um, substituir a imagem idealizada dos pais da infância, dos sabores, cheiros e ruídos deste lugar de proteção, permitindo que a família deixe de ser sua única fonte de referência. Frédéric se surpreende e sofre com a decisão dos irmãos pela venda total do patrimônio familiar, mas precisa se render ao fato de ser voz vencida. Ele se vê confrontado com a necessidade não só de renegociar com o que imaginava ser sua filiação na família, mas com seus sonhos de manter esta memória viva. Há uma exigência do mundo atual no destino de cada filho, que a primeira vista parece paradoxal. As famílias precisam cuidar e proteger seus filhos, mas precisam também deixá-los seguir suas vidas, cumprindo assim um papel ao mesmo tempo de tradição e de transformação. E, embora os sinos da tradição muitas vezes toquem alto demais e confundam o valor do novo e do velho, este filme mostra como é possível negociar as medidas destes dois importantes itens na vida de todos, quando há espaço para a coerência ( e não arbitrariedades) e respeito pelas diferenças.
coluna do dia 14 de julho de 2009
coluna do dia 14 de julho de 2009
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Menina –moça
A imagem da menina -moça Maisa, a nova sensação do programa do apresentador Silvio Santos, pode ser vista como um paradigma da complexidade de nosso mundinho atual, já que ela é ao mesmo tempo o protótipo das bizarrices sedutoras que a mídia pode oferecer ao público, e o resultado do grau de liberdade e de acesso que todos podem sonhar em alcançar em sua busca de sucesso e prestígio. Maisa e seus 7 aninhos,aparece em público vestida conforme o modelo da menina prodígio dos anos 30-40 de Hollywood , a atriz Shirley Temple, que muitos não devem se lembrar, mas que marcou o início de uma época em que as crianças passariam a ser atrizes. Assim, em uma jogada mercadológica, pretendeu-se juntar em uma mesma imagem, a lembrança nostálgica da infância inocente , com seus cabelos cacheados e loiros e a caricatura de um adulto em miniatura que em um passe de mágica, é independente e espontâneo, além de rápido e inteligente em suas respostas. Crianças- adultos que prometem a nós, seus pais, que poderão enfim realizar nossos sonhos de felicidade: zero de sofrimento com muito dinheiro fácil. Nada demais se tudo se passasse no plano encantado do imaginário, e não precisássemos lembrar que atrás desta menina pulsa um ser humano infantil. Com poucas exceções, a mídia tem preferido seguir a ideologia das estatísticas do IBOPE , a mesma do mestre Silvio Santos e divulgar as gafes, os choros, as tiradas infames, ou seja os acertos e erros de Maisa, ao invés de questionar os usos e abusos de sua imagem de criança e portanto de sua condição “real” de ser humano que necessita não só de cuidados, mas de referências, limites e princípios humanos norteadores. É certo que o modelo da adultez infantil nos fascina, ao acenar com a possibilidade de manter nossas crianças em um permanente “seja feliz”, sem que tenhamos que nos deparar com nossa responsabilidade de transmissão e, portanto de limites e restrições para a obtenção de valores humanos de respeito, de privacidade, de verdade, de identidade, de preservação. Discordo, porém, dos clamores que tentam moralizar nossa cultura como se ela fosse um simulacro enganador, assim como não acredito na volta aos antigos valores tradicionais para garantir uma “ordem e trabalho” que não encontra mais eco no bonde da história, que é bom lembrar, pode até parar, ir devagar, mas não tem volta. Acredito também que não podemos deixar de valorizar o fato de nunca termos sido tão livres e soberanos para discordarmos das ideologias, legislarmos sobre nossas crenças ou escolhermos sobre nosso agir moral. Mas se de um lado, ganhamos em mais liberdade, por outro, muitas vezes nos sentimos vulneráveis e carentes de orientação na adequação de nossas ações e das dúvidas entre o certo e o errado. Diante da fogueira das vaidades, sucumbimos facilmente às promessas de prestígio e visibilidade, o que muitas vezes nos aproxima de uma versão cínica do nosso agir moral, aquela em que não há avaliação objetiva de nossos atos e nossas motivações são apenas interesseiras, fronteira tênue para a sociopatia, em que o desprezo e a incapacidade de se conformar às normas sociais, permite que se engane e se manipule os outros sem remorso nem responsabilidade,impondo suas próprias regras ainda que estas desrespeitem o coletivo. Este talvez seja nosso grande desafio: sem muitas referências passadas, nossas apostas de uma boa vida no presente e no futuro dependem cada vez mais do nosso preparo para enfrentar nossas responsabilidades para com o próximo, filhos aí devidamente incluídos.
Texto publicado em 26 de maio de 2009
Texto publicado em 26 de maio de 2009
terça-feira, 7 de julho de 2009
Flipando
Os leitores que, como eu, apreciam uma boa leitura, provavelmente estiveram antenados com a realização da ultima FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, que desde 2003 acontece na primeira semana de julho e já é conhecida ( e reconhecida) pela qualidade dos autores convidados, pelo irresistível entusiasmo de seu público e pela descontraída hospitalidade da charmosa cidade. Evento mais que moderno, há muito pouco tempo nem imaginaríamos estar face a face com autores de livros que apreciamos, ouvindo-os falar sobre seus processos de criação, sobre suas vidas íntimas, suas hesitações ou esperanças. Como em todos os espetáculos, em meio aos burburinhos suscitados pelos “eleitos” e mais assediados, aqui e ali é sempre possível extrair falas de alguns escritores que se encaixam a certos anseios de seus leitores. Foi neste clima que “bebi” as palavras do escritor francês Grégoire Bouillier , em uma entrevista concedida à Folha de São Paulo, dias antes de sua chegada ao Brasil, quando afirmou ser o desafio maior da literatura, aquele de tornar compreensível ao próprio autor e aos seus leitores, o que se sofre e se experimenta pessoalmente, já que a vida nos desafia permanentemente a contá-la, e devemos aproveitar nossas dúvidas e questões para virá-las lentamente em direção à luz. Para ele, os livros mais reverenciados seriam os que falam ao ponto mais íntimo de nós mesmos, constroem nosso imaginário e inserem palavras, histórias ou situações que não poderíamos formular sozinhos. Quando alguns livros continuam a viver em nós e a nos influenciar sem que o saibamos, é porque eles nos fizeram diferença e é possível verificar em algum momento de nossas vidas, suas marcas e influências. Lembrei-me imediatamente do livro que classifico como o divisor de águas de minha vida, quando aos 19 ou 20 anos li “O jogo da amarelinha” do escritor argentino Julio Cortázar. Embora já houvesse “conhecido” Garcia Marquez, Jorge Amado e outras obras contemporâneas que desconstruíam a lógica amena dos romances de então, este livro perturbava em todos os sentidos. Com uma narrativa incomum, cujo objetivo não era o desfecho de uma trama, este anti-romance invertia a ordem convencional ao privilegiar a subjetividade dos personagens sem colocá-los em uma história de começo, meio e fim. A proposta desconcertante do autor, de que cada leitor pudesse escolher ler a obra seguindo um ordenamento linear dos capítulos ( do 01 ao 56) ou saltando segundo suas instruções ao final de cada capítulo ( começando pelo capitulo 72),já indicava sua ousadia formal. Melhor ainda era mergulhar na alma de seus personagens, que como ele, eram em sua maioria, imigrantes latinos vivendo na Paris dos anos 50 e 60, palco de questionamentos políticos e sociais, mas principalmente de encenações do que viria a se constituir uma verdadeira revolução cultural. Os diálogos, as manias, os livros, as músicas e as idéias e a ânsia de viver dos personagens já anunciavam este nosso novo mundo. Maior impacto ainda era o fato destes personagens não se levarem tão a sério, utilizando-se de uma via irônica para se referir aos seus dramas cotidianos, que revelava uma coragem em se apresentar por suas falhas, feridas e perdas. Lido no início dos anos setenta, o livro me causou um alvoroço interno, ainda que não houvessem palavras para definir meus sentimentos. Provavelmente são estas obras que chamamos de vanguarda, e que em diferentes tempos e lugares se tornam o arauto de mudanças importantes, ao apontar caminhos inesperados.
coluna do dia 7 de julho de 2009
coluna do dia 7 de julho de 2009
Ser ou não ser
Figura emblemática, Michael Jackson foi sem dúvida um artista de nossos tempos. Nascido na era da mídia, cedo seu talento o alçou a ícone musical do planeta. A década de 80 foi sua. Era difícil assistir aos seus clips inovadores, verdadeiros roteiros cinematográficos produzidos com recursos e efeitos que a tecnologia da época oferecia, acrescido de sua performance corporal perfeita, e não cultuar este conjunto como uma obra de arte. Aos que bebiam de sua destreza corporal, e tentavam imitar seus passos inquietantes, ou aos que cantavam seus hits, acompanhando seus gritos e breques, suas roupas ao mesmo tempo personalista e comuns, Michael Jackson fazia história na música pop mundial. Morto aos 50 anos, dos quais 45 faziam parte de sua vida artística, nos últimos anos acostumamo-nos a assistir sua humanidade frágil, estampada na figura trágica que seu corpo se transformou. Como é de praxe em mortes de ídolos, no dia seguinte à sua morte, pudemos assistir de nosso sofá, os melhores momentos de sua arte. Há séculos que a arte e os seres humanos por trás dela,seguem fascinando a nós, simples mortais. Quem sabe por ocupar este espaço especial, que nos transporta a lugares impensáveis e conseguir reunir diferentes pessoas, atravessando barreiras étnicas, sociais e geográficas, a arte e o artista continuam a ser reverenciados sem questionamento, perpetuando o congraçamento humano em torno do sublime. Ainda que tentemos submetê-la às nossas interpretações, que insistamos em utilizar adjetivos que a descrevam, ela só continua a ser arte por desconstruir nossas expectativas e perturbar nossos sentidos. E continua a nos oferecer a possibilidade de sonharmos em ser tão especiais quanto a arte dos artistas, que o tornam único. Mas é um equívoco quando imaginamos o homem especial que existiria por trás do artista, esquecendo-nos que sua história é humana. Dono de um estilo performático inusitado, Michael Jackson desde sempre anunciou ao mundo o lado trágico de sua vida artística, sonho perseguido pelo pai de maneira doentia e autoritária. A partir de meados dos anos 90, foi o estranho mundo de Michael que passou a gerar as manchetes : seu comportamento excêntrico, sua gradual mudança da cor da pele e as acusações de abuso sexual contra menores. Suas canções recebiam menos atenção que a sua aparência - o nariz alongado, a pele esbranquiçada, o cabelo liso. Como outros ícones da música (Elvis Presley, Janis Joplin, Jimi Hendrix), Michael tentava arrastar sua arte junto ao peso e o preço de sua sobrevivência. Mas para nós, seus fãs, é sempre difícil encarar o lado humano do mito, sem reclamar de seus erros. A morte deste menino-homem, deste talentormento como o definiu Tom Zé, o reconduz ao ídolo amado e imitado que foi. Michael Jackson é lenda.
coluna do dia 30 de junho de 2009
coluna do dia 30 de junho de 2009
Lóki
Quem não conhece a história dos Mutantes, grupo musical dos anos 70 que, junto ao movimento tropicália, foi responsável pelas mais criativas e irreverentes produções da época? Dali sairiam alguns hinos entoados por muitas gerações de jovens, além de nossa musa do rock brasileiro, Rita Lee. Casados, Rita e Arnaldo também sugeriam a formação de um par inovador, cujos comportamentos indicavam total consonância com os valores da contracultura, o movimento paz e amor, a estética psicodélica. Como todos os artistas que faziam parte deste momento cultural, as drogas, entre elas o chamado LSD, eram parte integrante de suas vidas. Mas os anos dourados desta formação de sucesso se desfez quando o casal se separou, culminando com a saída de Rita do conjunto. Apesar do espaço conquistado pelas letras criativas de Arnaldo Batista, a impressão que ficou no ar, é que ele não teria conseguido superar tal separação. Na semana passada, entrou em cartaz em São Paulo um documentário, Lóki, que tenta costurar este tempo em que o artista esteve vivendo in “off”. Idealizado por produtores mais jovens, que não tiveram a oportunidade de viver esta época áurea dos Mutantes, o filme contém este sentimento de descoberta amorosa e de tentativa de recuperar a importância do artista, surpreendendo o público ao divulgar depoimentos de fãs espalhados pelo mundo inteiro, dentre estes alguns de peso como Kurt Cobain ou Sean Lennon. Para quem viveu, curtiu e cantou como eu, as produções musicais da década de 70, o filme resgata o clima da época e o compromisso da maioria dos artistas jovens com um novo mundo que se abria, mais descompromissado com alguns valores tradicionais e mais livre para ousar e criar novos discursos, estilos e modos de ser e viver. Mas o documentário tem também um lado trágico: o mergulho de Arnaldo em um mundo paralelo, só seu. Embora seu irmão e colegas façam um discurso uníssono em torno da grandeza de sua arte e do papel decisivo do uso indiscriminado de LSD, há aqui e ali alguns indícios de que sua separação de Rita Lee teria provocado um rombo irrecuperável em seu mundo subjetivo. Longe de utilizar uma psicologia barata que junta trauma a um culpado, o filme tenta captar a complexidade de seu percurso, os limites de suas possibilidades e suas tentativas atuais de juntar seus pedaços nas telas que compõe compulsivamente. Jovens e adolescentes, os Mutantes despontaram do interior dos bairros paulistanos para o mundo novo da televisão e da fama. Sabemos como a adolescência é este período em que não somos mais crianças mas também não ganhamos ainda a reverencia do mundo adulto. Ficamos neste vão entre dizer o adeus necessário ao aconchego idealizado de nossa infância, e buscar alternativas fora deste mundinho infantil que passamos a não respeitar mais. É justamente por isso que a juventude se constitui no momento mais original da produção cultural e da renovação dos costumes. Particularmente nas décadas conhecidas pelo movimento da contracultura, havia no plano social um espaço importante de recepção deste novo, o que contribuiu para que as “revoluções adolescentes” fossem muito mais radicais. Mas a verdade é que nem sempre estamos preparados para enfrentar as conseqüências de vôos ousados e sem destino certo em uma etapa da vida em que nossa fragilidade é imensa e nossa auto-imagem incerta. Parabéns aos idealizadores do documentário que souberam evitar um enfoque estereotipado e preconceituoso sobre Arnaldo Batista, ao acolher com extrema delicadeza, a linguagem diferente e muitas vezes perturbadora de sua visão sobre si, sobre a vida e o futuro. Temos um mito.
Coluna do dia 23 de junho de 2009
Coluna do dia 23 de junho de 2009
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