É no mínimo interessante ler ou assistir as diferentes reportagens que pretendem cobrir os quarenta anos de Woodstock, o festival que marcou época e tornou-se ao longo destes anos, objeto de análises e críticas de estudos da cultura. Há os que se lembram nostalgicamente da singeleza e ingenuidade dos jovens que ali aportaram, vindos de cada canto do USA, país que assassinara um ano antes seu líder negro que pregava a irmandade entre as raças (Luther King) e demoraria mais alguns para trazer de volta seus jovens sobreviventes à guerra do Vietnã. Outros preferem utilizar um tom mais sarcástico, acentuando o caráter de trocas humanas e de cooperação que emanava dali, mas que não teria sobrevivido à sedução capitalista que impôs uma convivência mais competitiva. Há ainda os que vaticinam contra a permissividade dos três dias de rock ,drogas e sexo, como se ali houvesse sido gerado uma nova (e para muitos,constrangedora) maneira de se viver a vida. Lenda? Legado? Ou produto de uma série de contingências e circunstâncias sociais e políticas que permitiram que quase meio milhão de jovens atendessem a um chamado para se reunirem ao som de algumas bandas? O que fez com que esta turba de jovens transformasse tal evento em um dos maiores acontecimentos do final dos anos sessenta, encenando um protesto pacífico contra a guerra e a favor da paz, ao levar a sério o amor como força de combate contra a ânsia de poder, o ódio e a violência? De certa maneira, há unanimidade quanto ao fato deste evento ter se tornado grande de maneira fortuita. Os próprios realizadores, por não esperarem uma resposta espontânea de tal porte àquele apelo banal, viram-se obrigados a entregarem a organização à sorte e ao acaso do destino, mas principalmente à responsabilidade de cada uma das pessoas ali presentes, músicos e bandas incluídas. Ninguém sonhava com a repercussão que esta convivência de três dias de sol, chuva e lama (possível tão somente graças à tolerância e a troca de gentilezas entre seus participantes) alcançaria para a cultura da época. Embora seja esperado que os aniversários destas datas provoquem reflexões, debates e análises sobre sua origem e importância, é fato que a história sempre sofre uma ressignificação quando interpretada a partir de um presente. Assim como olhamos nosso passado e podemos julgá-lo de forma diferente a cada década, acrescentando adjetivos que não podíamos perceber e apagando outros que perderam sua importância, hoje é possível analisarmos Woodstock como uma metáfora dos sonhos da geração pós segunda guerra mundial, um símbolo das mudanças gestadas lentamente no ocidente a partir do desejo e da crença de cada jovem na possibilidade de tornar melhor o mundo em que viviam. Um mundo que pudesse finalmente eliminar as diferenças entre os povos e aclamar sua irmandade, apostando na capacidade de cada um em se responsabilizar por suas escolhas e em respeitar a dos outros. Aos que fizeram parte desta geração e assistem a este momento emocionados (revivendo-o a partir do documentário Woodstock: 3 Dias de Paz, Amor e Música, de Michael Wadleigh) identificam ali seus ideais juvenis de apostas neste mundo possível. Para estes, Woodstock é a fotografia desta utopia, aquela foto- troféu que guardamos eternamente por sabermos que ela capturou um momento inédito e possivelmente único. Mas nem ao mar nem à terra, o mundo continuou girando e os jovens também, em sua tarefa exaustiva e infinita de buscar um mundo melhor e construir novas utopias. Com um legado importante graças a esta geração Woodstock, a grande maioria de nossos jovens não necessita enfrentar discriminações por raças, religiões ou preferências sexuais e seguem buscando em seus laços de amizade, um certo amparo diante de suas incertezas ou sofrimento. Quanto às medidas de seus prazeres e deveres, desde que estas passaram a ser responsabilidade de cada um, serão sempre trabalhosas e arduamente construídas ao longo de suas vidas. No plano político, foi com o slogan “ um outro mundo é possível” que o Brasil acolheu-os vindos do mundo todo para participarem dos Fóruns Sociais Mundiais que aconteceram a partir de 2001 em Porto Alegre, quem sabe acreditando serem capazes de transformar e reconstruir o mundo. Exemplo? A Folha On-line exibia dia destes, a foto de várias pizzas cujos desenhos da cobertura lembravam o bigode de Sarney, e que seriam distribuídas na abertura da exposição de escândalos da política nacional do Museu da Corrupção (www.dcomercio.com.br/muco/home.htm) realizada na faculdade de Direito São Francisco.
coluna do dia 19 de agosto de 2009
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Samba de muitas notas
Confesso não me lembrar das disciplinas teóricas (história da música, por exemplo) que faziam parte do aprendizado musical oferecido pelo Conservatório Musical de Araraquara, local em que estudei piano por muitos anos, mas a música, em toda a sua extensão sensorial, teve um peso substancial nas diversas etapas de minha vida. Assim como certos cheiros e sabores, os sons de nossa infância podem ser verdadeiras coreografias das lembranças que nos são significativas. Cenas de minha mãe tocando Chopin, assobiando os sambas cantados por Francisco Alves, ou de meu pai dançando ao som dos mais variados “long-plays” que tocavam na linda rádio-vitrola de nossa sala são apenas indícios de que ambos, por canais diferentes, imprimiram uma cultura musical em nossa família e, de certa forma contribuíram para que seus sete filhos( e a maioria de seus netos) se tornassem amantes incondicionais da “boa” música. Ao lado disso, a partir das décadas de sessenta e setenta, a singular conjuntura sócio-econômica-cultural do ocidente possibilitou o aparecimento de várias expressões juvenis nascidas no anseio de transformação da sociedade, e impôs uma importante mudança no panorama musical mundial.Tal como o boom da literatura nos dois séculos anteriores, a música transformou-se em porta-voz oficial das insatisfações, dúvidas, desejos e apostas dos jovens. Em um não tão lento e bastante perceptível movimento, ela foi ganhando um espaço inédito na vida dos jovens, auxiliado também pela velocidade e pelas facilidades com que o mercado passou a divulgá-las ( discos, TV, shows, festivais). Nasce assim, uma forma contemporânea de grande alcance desta influencia musical, um convite a muitos jovens, que daí em diante, começam a desejar a aprender a tocar piano, violão, guitarra, percussão, ou a formarem duplas, conjuntos e bandas que pudessem reproduzir os sons e as letras de suas preferências. Esta explosão cultural da música teve uma repercussão importante no Brasil, que ao lado da invasão dos diferentes estilos de rock,começa a movimentar um caldo cultural imenso e próprio de nosso país. Nestas mesmas décadas, os LPs ou compactos que tocavam em nossas vitrolas portáteis podiam ser os últimos lançamentos dos ícones da então promissora Bossa Nova (aquele som de samba eclipsado pelas batidas sincopadas do violão, com letras de um romance mais moderno, menos trágico) ou de Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, assim como de qualquer “ música pop” que emplacasse um sucesso. Além disso, a nova cultura musical chegava com uma proposição inusitada de movimentos corporais, um dançar em que os corpos acompanhavam livremente os sons, entregues aos compassos da música. A vida da maioria dos jovens passa a se entrelaçar com estas músicas, suas letras, suas melodias, seus ritmos. No Brasil, pudemos assistir aos poucos, um mergulho em nossas raízes musicais, e do samba, do choro, do baião, do forró, das músicas de viola, surgiu uma pluralidade de estilos novos, que conversavam com o erudito, o jazz, o rock e o pop internacional, mas também com o folclore e os mais variados gêneros regionais. Na voz e na caneta de muitos brasileiros ( Tom, Vinícius, Chico, Caetano, Milton, Gil, Hermeto são apenas alguns), nossa música foi ganhando um status internacional importante, mas também um reconhecimento de muitos jovens, que passaram a se interessar pelo seu acervo rico e variado. Foi uma surpresa agradável, por exemplo, ouvir no domingo último, em Araraquara, a mistura de rock e samba que o conjunto Sambô de Ribeirão Preto imprimiu em seu repertório. Quem poderia imaginar que um dia dançaríamos ao som de um legítimo ( e muito bom) samba de roda, com cavaquinho, pandeiro e rebolo, cantando "I Fell good", de James Brown?
coluna do dia 12 de agosto de 2009
coluna do dia 12 de agosto de 2009
terça-feira, 4 de agosto de 2009
À Deriva
Em geral a expressão “à deriva” nos remete a situações em que certas embarcações marítimas se vêem obrigadas por algum motivo a interromperem seu curso e a ficarem sem rumo, mas também cabe aos que propositalmente desligam seus motores e se deixam ficar algum tempo ao compasso do mar. No filme brasileiro que leva este nome e que acaba de entrar em cartaz na capital,as primeiras imagens que vemos são os corpos de uma menina de 14 anos e de seu pai, boiando,totalmente entregues ao balanço das ondas. Ficar assim à deriva, no mar azul, sem saber direito quando as ondas vão chegar e se deixar levar para cima e para baixo, olhos fixos na imensidão do céu, ouvidos submersos e atentos aos sons abafados pela água, pode ser uma experiência de muito prazer para alguns, mas acima de tudo é, sem dúvida, uma experiência de entrega, de se deixar levar e exige por isso,um mínimo de confiança. Esta cena, que também encerra o filme, parece ser utilizada pelo diretor para anunciar a delicadeza com que ele irá tratar do tema a ser explorado, tão caro para nós modernos. Filipa, a menina que acompanha o pai nas águas do mar de Búzios, é a mais velha de uma família de três filhos e naquele momento ainda não foi assaltada pelos sentimentos difíceis que todos os filhos vivem quando seus pais estão prestes a se separar. As separações, que na atualidade já fazem parte de um repertório comum a muitas famílias, são sempre mal vistas por todos, inclusive pelos próprios protagonistas, que em geral prorrogam esta decisão, titubeiam ou tentam diferentes maneiras de “salvar” a relação. As razões deste mal estar em torno da ruptura de um casamento não são tão óbvias e nem tão simples como se quer acreditar, mas com certeza nos mostram o quanto apostamos na construção de uma família estável, quando imaginamos a felicidade de nossos filhos. Felicidade esta que se tornou um item de máxima importância para a realização pessoal de todos, mas que é desde sempre, paradoxal. Há pouco tempo a Folha de São Paulo anunciou um enxame de livros acadêmicos americanos, frutos de pesquisas recentes em torno do que seria a felicidade para nós, contemporâneos: saúde, prosperidade, juventude? Sentir-se bem, desfrutar da vida e desejar que essa sensação se mantenha? As respostas são controversas e embora mostrem a felicidade como um fenômeno histórico, ou seja, dependente dos valores e crenças que elegemos a cada época, o fato destas pesquisas existirem mostra o quanto ela permanece sendo um de nossos mais importantes ideais, algo que imaginamos perseguir, mesmo que durante nossas vidas, elejamos diferentes objetivos como fontes desta felicidade. Mas para os que elegeram ser pais, a felicidade de seus filhos é geralmente parte integrante de sua própria felicidade e isso em geral se deve ao fato de que se aposta que eles poderão viver ( ter, fazer, realizar) o que não pudemos. Neste sentido as separações são sempre um saco sem fundo, em que não só pressentimos que os nossos pimpolhos irão sofrer, como nos angustiamos por não poder antecipar o quanto tais dores irão calar para sempre a possibilidade de eles poderem ser felizes. Por isso o filme em questão agrada a todos, mesmo que pareça ( ou justamente por esta razão) estar abordando temas tão banais. Agrada porque o clima tenso e inquietante de uma relação conjugal em crise, é mostrado pelo olhar de Filipa, a adolescente que precisará trocar a imagem idealizada de seus pais, pela crueza de suas realidades, vivendo na própria pele, os dramas que o amor e o sexo impõe a todos. Tal como um ritual de passagem, a menina tenta entender a mulher, ajustar seu olhar sobre os homens, às custas do desmoronamento de suas certezas infantis e de muitas lágrimas. Mas ainda assim, será possível a ela voltar a ficar à deriva com o pai ao seu lado, no mesmo mar azul de sua infância.
coluna do dia 5 de agosto de 2009
coluna do dia 5 de agosto de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Os sons dos casamentos
O filme Casamento Silencioso, em cartaz na capital, traz cenas hilárias e um tanto caricatas sobre um casamento que seria realizado em uma pequena vila na Romênia no ano de 1953, justamente no dia da morte de Stalin, o líder russo, então comandante maior dos países ocupados. Por ordem expressa dos representantes do partido, a família e todo o povo da pequena cidade que havia se preparado para os festejos, deveria cancelar qualquer cerimônia, fossem de mortes, nascimentos ou casamentos. Todos se recolhem a suas casas, mas inconformados, decidem realizar uma cerimônia muda, às escondidas, esforçando-se para se comunicar através de gestos ao redor de uma farta mesa de comidas e bebidas. O que se segue dá panos a muitas mangas de reflexões sobre nossas celebrações, assim como a extensão de seus significados. As cerimônias que acompanham mortes, nascimentos e casamentos, embora tenham acentos culturais singulares, são quase universais e provavelmente sua origem esteja não só no valor que damos a tais fatos, mas na nossa impossibilidade de cobrir o significado destas passagens humanas. É difícil para todos nós imaginarmos um nascimento, um casamento ou uma morte sem o peso de sua simbologia, e são justamente os ritos da tradição que repetimos indefinidamente, o que nos tranqüiliza. O casal do filme em questão vivia uma paixão avassaladora, constrangendo aos moradores que não suportavam mais conviver com as cenas públicas de seus encontros ardentes. A cerimônia do casamento deveria apaziguar a todos, colocando os pontos nos “is” ao formalizar a união destes corpos sem destino certo. A partir daí, o encontro dos corpos ganha um significado, um futuro, uma perpetuação possível da tradição. E para consagrar esta passagem, que muda os adjetivos que acompanham a espécie animal para os da espécie humana, nada mais sugestivo do que uma grande festa, com muita música, bebida, comida e danças para que todos possam enfim compartilhar de suas razões. Se a festa adquire uma razão de ser, podemos então extrapolar os limites do cotidiano, e ultrapassar certas fronteiras que em geral usamos para comer, beber e dançar. Neste sentido, muitas de nossas cerimônias admitem alguns excessos, desde que estes tenham suas razões devidamente partilhadas pela comunidade. Planejadas com um ano de antecedência, contando muitas vezes com um serviço especializado de cerimônias, as festas de casamento na atualidade continuam a cumprir este ritual de passagem, mesmo quando se transformam em verdadeiros eventos, promovendo não só um encontro testemunhal entre familiares e amigos, mas momentos minuciosamente registrados de grande júbilo para os orgulhosos pais e os esperançosos cônjuges.
coluna do dia 28 de julho de 2009
coluna do dia 28 de julho de 2009
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Segredos do futuro
Em clima de comemoração dos 40 anos em que o homem pisou pela primeira vez na lua, jornais, revistas e TV mobilizaram-se para produzir matérias que pudessem cobrir as reminiscências do impacto desta conquista humana e as reflexões sobre seu valor. Transmitida ao vivo no ano de 1969, o mundo parou para assistir as imagens mágicas da Apollo 11, pousada na superfície da lua, e do astronauta que ali deixava suas pegadas. Passadas estas quatro décadas, qual seria o valor que atribuímos a esta ousadia humana? Uma visada pelos inúmeros comentários colhidos pela internet nos mostra que tal acontecimento é hoje um fato consolidado e importante de nossa história, ou seja, há um significado compartilhado pela maioria que a chegada à lua ( para além de uma estratégia política) celebrava um avanço incomensurável do saber científico alcançado pelo homem. Por outro lado, tal como o olhar de cada um para uma obra de arte qualquer, é possível reunir um número sem fim de depoimentos individuais que descrevem este momento de suas vidas acentuando o valor de sua experiência individual, como uma marca em sua memória. Grosso modo, o saber das ciências seria mais objetivo e, portanto passível de ser medido e partilhado. Já as histórias que cada um conta sobre suas impressões são subjetivas e compõem o repertório que alimenta nosso imaginário social, junto com a literatura, o cinema e as religiões. É aqui que se encaixam o discurso dos jovens de então, que atribuíram a este fato um sentido poético e libertador para suas vidas, descrevendo a magia de suas fantasias de conquista do espaço e da construção de possibilidades ou de apostas de um futuro desconhecido, mas possível. Muitos localizam ali a matriz de seus projetos de vida e do despertar de suas paixões por motores e máquinas, fossem como construtores ou como pilotos. Paradoxalmente aqui também se encaixam os que ainda hoje duvidam deste acontecimento e criam uma infinidade de suposições com o intuito de justificar sua descrença. Afinal, não é fácil pensar que somos um minúsculo grão de areia no infinito espaço de um universo antes sagrado, que aos poucos vai sendo desvendado, aumentando as chances de não sermos seres tão especiais quanto nossa história já acreditou. De um lado e de outro, é das profundezas de cada alma que os sonhos e as fantasias, os temores e as assombrações emergem destes “encontros” e ganham significados particulares. E assim como a História de nossa existência humana, ressignificada a cada época, graças ao acúmulo de conhecimentos, podemos ampliar o sentido de certas vivências passadas, ao desvendar certas dimensões de nossos sentimentos, antes fora de nosso alcance.
coluna do dia 21 de julho de 2009
coluna do dia 21 de julho de 2009
quarta-feira, 15 de julho de 2009
De mãe para filhos
As primeiras cenas do filme francês Horas de Verão (em cartaz na capital), mostram a comemoração dos 75 anos de Hélène, junto a seus filhos e netos, na casa de campo em que reside próximo a Paris, em companhia de uma antiga empregada e uma infinidade de móveis e objetos de arte de grande valor. Enquanto as crianças e adolescentes brincam e se perdem pelos campos ensolarados, os três filhos ( dois homens e uma mulher) e as duas noras sentam-se em volta da matriarca no jardim. As conversas tentam cobrir o tempo de ausência de Adrienne (que mora em Nova York) e Jérémie, o caçula, que reside com a mulher e seus dois filhos na China. Frédéric, esposa e dois filhos são os únicos que moram na França. Quanto a Hélène,a mãe, sua fala e olhares antecipam seu sentimento de que o fim está próximo, o que a leva a partilhar com o filho mais velho suas sugestões em relação ao legado artístico e de grande valor que a casa contém. Embora o filme seja muito simples e singelo no modo como irá mostrar a morte da mãe e as negociações que se seguirão entre os três filhos para decidirem o futuro da casa e do acervo artístico que ela possui, há nas entrelinhas, uma tentativa de discussão e reflexão sobre as heranças familiares, sejam elas materiais ou afetivas, diante de uma nova maneira de se estar e viver no mundo. Ao contrário do que se poderia imaginar, Hélène pede à Frédéric que vendam os quadros e os objetos de arte, que por valerem muito, poderiam ser mais úteis a eles, assim como a casa e seus móveis assinados. Frédéric não suporta imaginar a morte da mãe e muito menos a desaparição da casa de sua infância e seus objetos tão investidos de sua história familiar. Não é o que pensam seus dois irmãos que residem fora da França. Sabemos como cada filho, ao nascer, recebe um lugar dentro da família, antecipado pelo imaginário de seus pais que já sonham com seu nome e seu futuro. Mas cada criança tem sua história individual, para além de suas origens familiares e sociais, e caberá a cada um, substituir a imagem idealizada dos pais da infância, dos sabores, cheiros e ruídos deste lugar de proteção, permitindo que a família deixe de ser sua única fonte de referência. Frédéric se surpreende e sofre com a decisão dos irmãos pela venda total do patrimônio familiar, mas precisa se render ao fato de ser voz vencida. Ele se vê confrontado com a necessidade não só de renegociar com o que imaginava ser sua filiação na família, mas com seus sonhos de manter esta memória viva. Há uma exigência do mundo atual no destino de cada filho, que a primeira vista parece paradoxal. As famílias precisam cuidar e proteger seus filhos, mas precisam também deixá-los seguir suas vidas, cumprindo assim um papel ao mesmo tempo de tradição e de transformação. E, embora os sinos da tradição muitas vezes toquem alto demais e confundam o valor do novo e do velho, este filme mostra como é possível negociar as medidas destes dois importantes itens na vida de todos, quando há espaço para a coerência ( e não arbitrariedades) e respeito pelas diferenças.
coluna do dia 14 de julho de 2009
coluna do dia 14 de julho de 2009
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Menina –moça
A imagem da menina -moça Maisa, a nova sensação do programa do apresentador Silvio Santos, pode ser vista como um paradigma da complexidade de nosso mundinho atual, já que ela é ao mesmo tempo o protótipo das bizarrices sedutoras que a mídia pode oferecer ao público, e o resultado do grau de liberdade e de acesso que todos podem sonhar em alcançar em sua busca de sucesso e prestígio. Maisa e seus 7 aninhos,aparece em público vestida conforme o modelo da menina prodígio dos anos 30-40 de Hollywood , a atriz Shirley Temple, que muitos não devem se lembrar, mas que marcou o início de uma época em que as crianças passariam a ser atrizes. Assim, em uma jogada mercadológica, pretendeu-se juntar em uma mesma imagem, a lembrança nostálgica da infância inocente , com seus cabelos cacheados e loiros e a caricatura de um adulto em miniatura que em um passe de mágica, é independente e espontâneo, além de rápido e inteligente em suas respostas. Crianças- adultos que prometem a nós, seus pais, que poderão enfim realizar nossos sonhos de felicidade: zero de sofrimento com muito dinheiro fácil. Nada demais se tudo se passasse no plano encantado do imaginário, e não precisássemos lembrar que atrás desta menina pulsa um ser humano infantil. Com poucas exceções, a mídia tem preferido seguir a ideologia das estatísticas do IBOPE , a mesma do mestre Silvio Santos e divulgar as gafes, os choros, as tiradas infames, ou seja os acertos e erros de Maisa, ao invés de questionar os usos e abusos de sua imagem de criança e portanto de sua condição “real” de ser humano que necessita não só de cuidados, mas de referências, limites e princípios humanos norteadores. É certo que o modelo da adultez infantil nos fascina, ao acenar com a possibilidade de manter nossas crianças em um permanente “seja feliz”, sem que tenhamos que nos deparar com nossa responsabilidade de transmissão e, portanto de limites e restrições para a obtenção de valores humanos de respeito, de privacidade, de verdade, de identidade, de preservação. Discordo, porém, dos clamores que tentam moralizar nossa cultura como se ela fosse um simulacro enganador, assim como não acredito na volta aos antigos valores tradicionais para garantir uma “ordem e trabalho” que não encontra mais eco no bonde da história, que é bom lembrar, pode até parar, ir devagar, mas não tem volta. Acredito também que não podemos deixar de valorizar o fato de nunca termos sido tão livres e soberanos para discordarmos das ideologias, legislarmos sobre nossas crenças ou escolhermos sobre nosso agir moral. Mas se de um lado, ganhamos em mais liberdade, por outro, muitas vezes nos sentimos vulneráveis e carentes de orientação na adequação de nossas ações e das dúvidas entre o certo e o errado. Diante da fogueira das vaidades, sucumbimos facilmente às promessas de prestígio e visibilidade, o que muitas vezes nos aproxima de uma versão cínica do nosso agir moral, aquela em que não há avaliação objetiva de nossos atos e nossas motivações são apenas interesseiras, fronteira tênue para a sociopatia, em que o desprezo e a incapacidade de se conformar às normas sociais, permite que se engane e se manipule os outros sem remorso nem responsabilidade,impondo suas próprias regras ainda que estas desrespeitem o coletivo. Este talvez seja nosso grande desafio: sem muitas referências passadas, nossas apostas de uma boa vida no presente e no futuro dependem cada vez mais do nosso preparo para enfrentar nossas responsabilidades para com o próximo, filhos aí devidamente incluídos.
Texto publicado em 26 de maio de 2009
Texto publicado em 26 de maio de 2009
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