segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Dezembrite
Dezembro é um mês que concentra um número infinito de providencias, trabalhos e eventos a serem cumpridos dentro do curto prazo que antecede as festas do final do ano. E mesmo que já saibamos e tentemos antecipar algumas destas “obrigações” é quase impossível não sermos atropelados pelo seu excesso. São grandes e pequenas confraternizações dos diferentes grupos a que pertencemos, pequenos mimos aos que nos fornecem serviços durante o ano, presentes para os mais chegados, planejamento de ceias/almoços junto aos familiares ou de férias quando acontecem nesta época e tudo isso em paralelo aos “fechamentos” e balanços de nossas atividades sejam elas quais forem. A febre do final de ano ainda promove um corre-corre de multidões às lojas e shoppings da cidade e passeios aos pontos mais enfeitados para a ocasião, o que em geral torna o trânsito das cidades mais lento e caótico. Ao lado deste movimento intenso em torno do cumprimento das agendas de cada um, mantém-se uma tradição entre algumas empresas, famílias e indivíduos, de doações em dinheiro, alimentos ou presentes a certas instituições que se dedicam a abrigar crianças ou adultos órfãos, com câncer, com AIDS, deficientes, idosos. Mesmo sendo uma tradição enraizada em nossa cultura é curioso que se concentre nos finais de ano este movimento de doações aos mais necessitados, seja em forma de contribuições ou ainda em oferta de serviços, lazer,visitas, aparentemente de forma desinteressada, sem contrapartida. Embora pareça simples, é sempre complexo invocar o sentido desta economia de doações, trocas e retribuições que permeiam as nossas relações. Poucos contestariam, por exemplo, que as doações ou gestos de solidariedade sempre rendem ao seu portador um ganho, seja em satisfação pessoal e íntima ou em um reconhecimento social, de poder ou de status. Neste sentido elas poderiam apenas confirmar, de forma cética, um regime de domínio de uns sobre outros. Por outro lado as celebrações de fim de ano fazem ecoar nossas heranças religiosas na forma de leis divinas cujas inscrições indicam uma série de “obrigações”, renúncias e sacrifícios no empenho infinito de administrar e organizar nossa vida social. “Não matarás”, “Não roubarás”, “Não desejarás a mulher do próximo”, “Amarás ao próximo como a ti mesmo”, “Não cobiçarás as coisas alheias” são algumas das restrições a que todos devem se submeter, algo como passes para garantir um lugar no “paraíso”. Na verdade, em forma de leis, costumes ou crenças, estamos falando da fundação da cultura humana que precisa reiterar esta passagem (sempre delicada) de nossa porção animal sendo civilizada pela necessidade de convivermos, sempre a nos lembrar a fronteira com um regime de pura violência, de uso bárbaro da força e do poder, do “ou eu ou ele”. Só participamos destas trocas quando tememos tal “natureza” e aceitamos nossos pactos civilizatórios. Se isto nos coloca em um constante conflito entre ser e dever ser, é como cada um “constrói” de forma permanente sua humanidade, ou seja, um “poder ser”, que fará a diferença. De certa forma é salutar que possamos nos lembrar que somos seres de passagem, que vamos morrer ,que somos inacabados, porque assim podemos (com)partilhar os sentimentos de desamparo, talvez o que nos permite dar importância à solidariedade contra a precariedade e insuficiência de todos. Nesta tarefa infinita de inventarmos novas maneiras de viver nossos limites é que reiteramos o papel do amor: não o amor ansioso de uma fusão para impedir a sensação de brechas, mas o que nos faz sentir orgulho de nossa (com)paixão pelos outros. Nada mais alentador para o “fim” do ano, tempo de semear a esperança de um começo/recomeço deste círculo sem fim de “viver.com”.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
O melhor dos tempos, o pior dos tempos
Parece que estamos sempre revisitando o passado - seja o nosso ou da historia da humanidade- e assim seguimos (re)avaliando certos fatos, reverenciando ou não personagens importantes, analisando criticamente certas paixões,renovando-as, etc. Algumas semanas atrás Paul McCartney esteve em São Paulo ao mesmo tempo em que algumas salas de cinema da cidade exibiam o filme “O garoto de Liverpool” sobre a vida do adolescente John Lennon. Não fui ao show, mas pude acompanhar o clima de emoção das mais diversas gerações que ali foram para cantar e ouvir as canções que uma parcela significativa do globo terrestre conhece. Muitos celulares emocionados gravaram os momentos mais tocantes para compartilhar no YouTube ou no Facebook. Tal como uma lenda viva, Paul parece não desprezar este culto a algo que o transcende e sabe que o público reconhece nele uma parte de sua própria historia. Os Beatles sintetizaram como poucos o espírito de uma das mais fascinantes e controversas épocas de todos os tempos e sua discografia capta estes anseios e sonhos, os medos e o ódio, a loucura e as drogas, a vida e a morte. Por isso, assistir ao filme de um adolescente comum que vive em uma pacata (e ainda desconhecida) cidade portuária da Inglaterra nos anos 50, pode nos informar um pouco sobre a eminência da erupção deste movimento de contracultura global. A geração dos jovens nascidos no pós guerra dos anos 40 tinha que assimilar os ecos desta devastação, já que a guerra é aquele período entre parêntesis, em que valores, preceitos, regras de condutas e sonhos são colocados de pernas para o ar. Findo o tormento da “tempestade” é comum que se tente fazer um retorno ao passado tranqüilo em que tudo parecia ter um lugar certo para estar ou acontecer. Todos os desvios, os amores escusos e os pecados vividos durante o fatídico período se tornam feridas abertas que só podem sangrar no silencio. Este é o clima que perpassa o filme sobre a vida de John. Aos 16 anos ele tenta quebrar (com alguma irreverência) as regras zelosas e austeras de sua contida tia Mimi, ganhando muitas vezes a aliança disfarçada de seu tio George que o brinda aqui e ali com alguns mimos. Por decreto de Mimi na casa destes pais “postiços” o rádio só transmite música clássica. Mas George o presenteia com uma gaita, assim como o ajuda a instalar uma caixa de som em seu quarto que lhe permita ouvir faixas mais divertidas do rádio. Separado desde a infância de sua mãe Julia- irmã de Mimi -, John parece saber pouco sobre seu (silenciado) passado embora este o assombre em seus pesadelos. Será na morte inesperada e dolorosa de tio George que ele irá revê-la, passará a tentar conhecê-la e enfrentará as dores de “saber” mais sobre ela e sua própria historia. Uma historia de amores/ódios, ciúme/vingança, dores/sonhos enterrados- como muitas- mas principalmente a historia de uma época que começa a questionar seus valores, prestes a virarem do avesso, já que o prazo de validade de seus sentidos já estava vencido. Esta Julia mais mundana, mais sexy e irreverente, que sabe tocar banjo, adora dançar, é fã de jazz, blues e rock lhe injetará o vírus do espírito da época e lhe apresentará aquele que ele desejará “ser”: Elvis Presley. Em alguns outros lugares do planeta também nascia uma nova era em que a música passava a ter este efeito de reunir multidões e transmitir de forma instantânea, certas ideias e prazeres compartilhados por muitos e muitos jovens.
Para conferir: O garoto de Liverpool (2009)
título original: Nowhere Boy
direção: Sam Taylor-Wood
Para conferir: O garoto de Liverpool (2009)
título original: Nowhere Boy
direção: Sam Taylor-Wood
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Vampiros e bruxos
Dizem que a turma dos “vampiros” não se bica com a turma dos “bruxos”, ou seja, que os fãs da saga “Crepúsculo” consideram-se de uma tribo diferente daqueles que curtem Harry Potter. Com certeza isso não se aplica a todos, mas de qualquer maneira ambas as tribos mostram facetas importantes sobre os jovens atuais e dão algumas pistas sobre seus dilemas. O mundo “paralelo” e mágico de Harry Potter, aquele que transpõe a realidade do cotidiano, nos mostra a dimensão do grande acervo dos símbolos construídos pela humanidade na sua eterna e árdua tarefa de questionar os caminhos e ações de cada um rumo a uma vida digna. Filho de dois bruxos poderosos e do “bem”, assassinados por Lorde Voldemort, do “mal”, o órfão Harry é criado por parentes não-bruxos e quando completa 11 anos recebe o convite para estudar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Mais ou menos como se a partir dali ele pudesse passar a “construir” seu lado humano (crenças, ideais, ética) analisando seu legado (a herança simbólica deixada pelos seus pais, suas ideias, escolhas morais, ações) para definir seu lugar no mundo. Enquanto ele é pequeno e inseguro sente-se protegido por esta herança viva dos pais que serve de guia para seu percurso. Na medida em que cresce, seus heróis podem decepcioná-lo e a vida adulta passa a acenar-lhe com aquilo que todos temos que nos deparar um dia: ele está por sua própria conta. Dali para frente terá que decidir sobre seu futuro, sua vida amorosa e profissional. A saga Crepúsculo tem pretensões mais leves. Ela já nasce no despertar da sexualidade dos pré-adolescentes e, portanto anuncia a abertura de um mundo de desejos, impulsos e fantasias em torno do “uso” do outro como par sexual e todas as incertezas, medos e sentimentos contraditórios das águas tumultuadas da sexualidade e da vida amorosa humana. Mas não é por acaso que ambas as sagas criaram uma infinidade de fãs mundo afora. Elas captam o espírito desta geração de jovens frutos de um mundo globalizado, diversificado, que exige rapidez, conhecimento técnico, informação, mas que os deixa desamparado e desassistido de valores de conduta ou de um autoconhecimento. Por isso muitos gostam de um mundo em que os bruxos precisam ser éticos e respeitar o outro e os vampiros têm vergonha da “avidez” e da violência de seu desejo. A mídia contemporânea vem dedicando um espaço importante sobre a necessidade de “mais ética” nas relações humanas, na política, na ciência, nas empresas. Ao contrário de outras “juventudes”, esta já nasceu em um mundo supostamente mais “justo”. A escravidão (uma tradição que acreditava em hierarquias entre os povos) é universalmente repudiada e mesmo que seja praticada, todos sabem que a liberdade alheia deveria ser respeitada. Mas se a liberdade e o respeito à diferença podem ser considerados valores importantes deste nosso tempo, a verdade é que a liberdade humana é relativa e condicionada à aceitação de limites imprescindíveis à convivência. Precisamos não só aceitar agir de acordo com normas socialmente impostas, mas ser capaz de avaliarmos nossas ações e as dos outros do ponto de vista moral. Nunca estamos livres do ódio, da aversão ou da discriminação produzidos por nossa intolerância, que nos “autoriza” a desrespeitar e agredir o diferente. Mas se odiar é um fato humano, desfrutar deste ódio com uma certa satisfação não é a mesma coisa. A possibilidade de ultrapassar esta fronteira, como fez o grupo de jovens que atacou gratuitamente os gays na semana passada em São Paulo, pede uma repercussão e um debate muito bem-vindo. A geração “harrypúsculo” clama por estes valores.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Estranho/familiar mundo da política
Ela era jovem, entre 23 e 26 anos, e tentava explicar a alguns outros jovens presentes, o impacto que o filme Tropa de Elite 2 lhe causara. Não é que não tivesse gostado. Afinal o filme era impecável, bons atores, excelente fotografia e efeitos especiais, narrativa instigante, senão como explicar o público de 7 milhões de espectadores? Mas saíra confusa do cinema, tendo se emocionado (e chorado) diante da crueza das revelações das ligações interesseiras da maioria dos políticos - sempre em busca de votos e poder - ou da polícia (na pele de seus policiais) sedenta em utilizar seu poder de “fogo” na perpetuação de trocas de favores ($$$), ora com o mundo do crime e tráfico, ora com os que dependem de sua “proteção” para não morrerem como gado. Qual a solução? A seu ver, o diretor José Padilha teria deixado no ar a possibilidade disso não ter saída e era isso que a deixava incomodada e por que não, assustada. Pode ser que dentre os jovens leitores que assistiram ao filme, muitos compartilhem deste sentimento desconfortável. Tendo estreado no intervalo entre o primeiro e o segundo turno das eleições, na vigência da tarefa política de cada um em exercer seu direito de voto e no clima da disputa acirrada entre os dois candidatos, o filme desvenda a fragilidade do sistema de segurança pública e mostra seu comprometimento com os interesses da corrupção política em geral. Detalhe: tal funcionamento parece transcender brigas partidárias e se instalar tal e qual um câncer difícil de tratar. Era isto que dava o tom (do temor) da “descrença” generalizada que permeava a conversa entre os jovens citados acima. Será que as suas dúvidas ultrapassariam as intenções do filme? Vejamos. Para sermos afetados seria necessário que o filme – mesmo afirmando ser seu roteiro fictício- ganhasse veracidade ao apresentar nossa realidade. De fato é impossível assisti-lo e não perceber a familiaridade das situações ali presentes, o que convoca a cumplicidade do espectador. A partir do momento em que respondemos a este apelo passa a ser natural que esperemos que uma denúncia tão séria no “motor” de nossa vida pública/política possa nos dar alguma esperança de soluções à vista. Mas ao contrário, no filme, a figura do tenente-coronel Nascimento (Wagner Moura) seu protagonista principal, é também a do narrador perplexo que divide sua história dramática com o público que o assiste, criando um ótimo clima de suspense, mas também de intimidade, ao relatar não só a trajetória da decadência de sua confiança no BOPE e no sistema político em geral, mas também de suas dúvidas, dores, frustrações e principalmente da sensação de fracasso e impotência que o acompanham neste percurso. Quem sabe a jovem tenha razão em se sentir confusa com os sentimentos suscitados pelo filme que traz à tona uma lógica de funcionamento social injusta, a despeito de uma aposta inicial (BOPE) em nossa capacidade de criar aparelhos mais sensíveis ao justo e ao injusto, ao legal e ilegal, aos vícios e as virtudes. Ao final o tenente-coronel Nascimento parece ceder à “coragem” de seu desafeto Fraga que sustenta, mesmo em meio a todas as pressões, seus ideais de integridade social e política. E se não há “instituições” que possam permanecer imunes à sedução das vantagens de uns sobre os outros, sobra a cada um fazer suas escolhas morais e “pagar” por elas. É o que faz o tenente no limite que a vida contra a morte impõe, às vezes.
Para conferir: Título:Tropa de Elite 2 Direção: José Padilha
Roteiro: Bráulio Mantovani
Elenco: Maria Ribeiro (Rosane), Wagner Moura (Capitão Nascimento), Seu Jorge, Milhem Cortaz (Capitão Fábio), Tainá Müller, Irandhir Santos (Fraga)
Para conferir: Título:Tropa de Elite 2 Direção: José Padilha
Roteiro: Bráulio Mantovani
Elenco: Maria Ribeiro (Rosane), Wagner Moura (Capitão Nascimento), Seu Jorge, Milhem Cortaz (Capitão Fábio), Tainá Müller, Irandhir Santos (Fraga)
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Quem são os clássicos?
Formávamos uma roda de amigos em volta de uma mesa em cuja superfície descansava pratos e copos usados, ali deixados para dar lugar à prosa e ao riso das falas e das memórias de cada um. A certa altura invocávamos as mudanças ocorridas na maneira como no Brasil atual a figura do negro, que em nossa infância sofria claramente uma discriminação “natural”, hoje começava a tomar um lugar especial, de importância na composição de nossa identidade cultural, o que aos poucos abatia as cores vivas do racismo. No tom das lembranças, uma amiga confessava o quanto ela e o irmão ansiavam a presença de tia Nastácia em sua cozinha, já que descendente de alemães e nada talentosa para a gastronomia (mesmo a trivial), em algumas ocasiões sua mãe não só ameaçava nunca mais cozinhar para eles, mas deixá-los a cargo da cozinheira “preta” do Sítio do Picapau Amarelo. “Quantas vezes torcemos para que isto acontecesse!” - disse ela. Estavam abertas as portas de nossa memória para as leituras deste mundo mágico e brasileiro das histórias infantis escritas por Monteiro Lobato. Vi-me invadida pelo clima especial de seus personagens, habitantes de um recanto de magia de minha infância. Ora era Narizinho e suas mediações consistentes, ora a espevitada e incansável Emilia com suas invenções inesperadas. Ambas as meninas eram minhas inspirações infantis e isso graças à minha amiga Tereza, que na mesma rua, algumas casas depois da minha, mantinha imponente na estante de sua sala, esta coleção que de certa maneira me introduziu no fantástico mundo da leitura. Um após outro, fui devorando as Reinações da Narizinho, Emilia no país da Gramática, A Reforma da Natureza, Historias de Tia Nastácia, Os Doze trabalhos de Hércules, satisfeita de saber que havia outros livros ali na estante, com os mesmos habitantes deste universo tipicamente infantil. Refiro-me ao fato de que nada seja mais parecido com o mundo infantil do que a “naturalidade” do espaço do faz de conta, em que uma boneca de pano fala, um boneco de sabugo de milho- o Visconde de Sabugosa- é um sábio e conhecedor das ciências, em que há um burro falante filósofo, um rinoceronte (Quindim) conhecedor de gramática, etc. Também não há nada mais próximo às fantasias infantis do que a “supressão” das figuras do pai e da mãe, sempre responsáveis pelo chamado à realidade, informando incansavelmente aos filhos suas obrigações e deveres, seus limites, interrompendo assim o mundo do “faz de conta”. No Sitio, os adultos embora figuras protetoras, estão representados por Dona Benta, a avó que tenta aconselhar e transmitir alguns conhecimentos mas está longe de exercer as funções coercitivas dos pais e Tia Nastácia, a quituteira “preta” que encarna a cultura popular, com suas crendices e superstições. Nas últimas décadas as prateleiras das livrarias abriram um espaço especial à literatura infantil diante dos números cada vez maiores de títulos, nacionais e estrangeiros. Mas nos anos 50 e 60 é provável que Monteiro Lobato fosse imbatível na composição de uma realidade próxima à nossa, habitada por jabuticabas, saci-pererê, boneca de pano, leitões,besouros, borboletas, ao mesmo tempo em que invocava clássicos gregos ou fazia incursões à lua, marte e saturno. A recente nota distribuída pelo Conselho Nacional de Educação classificando o livro “Caçadas de Pedrinho” de “racista” talvez não esteja levando em consideração o fato da obra de Monteiro Lobato já fazer parte de um acervo clássico de nossa literatura. Só assim pode fazer parte das rodas de conversas sobre a infância de uma geração que se nutriu destes livros e sabe bem que eles foram escritos em tempos diferentes, capturando os valores e costumes da época e, portanto servindo de pesquisa destes traços que atravessam nossa cultura geral.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Elas podem vir a saber o que querem
Está causando “tititi” a estréia marcada para o próximo 11 de novembro da nova série em seis capítulos da rede Globo. Inspirada na célebre frase proferida por Freud em uma carta escrita à amiga e princesa Marie Bonaparte, a trama de “Afinal, o que Querem as Mulheres?” é baseada nas inquietações e questionamentos do estudante de Psicologia André Newman (Michel Melamed), cujo mestrado é dedicado a esclarecer tal premissa. O que não deixa de ser surpreendente, no entanto, é que tendo atravessado quase um século de existência, a famosa frase continue a provocar debates, fomentar textos, ou simplesmente a servir de mote para uma historia contemporânea. De certa maneira ela tanto intriga aos homens para quem (ao menos alguns) as mulheres seriam um eterno enigma, quanto às próprias mulheres que muitas vezes acatam esta imagem de seres sem definição. É bom que lembremos que a frase foi originalmente dirigida a uma mulher e tendo partido de Freud, um pesquisador incansável da alma humana, pretendia não só apontar a complexidade das possíveis respostas, como compartilhar ou dar ouvido às suas falas. Se há um consenso quanto a historia recente das mulheres (ocidentais) este diz respeito às conquistas sociopolíticas que garantiram a todas o direito de serem donas de suas próprias vidas. Mas há também um fato importante que às vezes passa despercebido e que de certa forma mudou o panorama geral das atuais e das próximas gerações de mulheres. Estamos falando de todas aquelas que nas últimas décadas vem contribuindo com a construção de um acervo de depoimentos, reflexões, livros, músicas, projetos sociais, programas de TV, blogs, oferecendo assim um repertorio de ações, pensamentos e sentimentos próprios da “espécie” feminina. Algo com o qual se pode contar quando aquela sensação de vazio ou desamparo, de ódio e cólera, de desespero e angústia invade e já não se sabe o que se passa e porquê. Nestas horas é bom poder imaginar que alguma mulher em algum lugar já pensou ou já sentiu algo semelhante. Que elas existem, tem questões próprias e buscam respostas para si. Segundo o diretor Luiz Fernando Carvalho (o mesmo de “os Maias” e “Capitu”) o seriado não pretende responder a questão freudiana e sim contar a travessia aflita e angustiada de um homem obcecado e fascinado pelos meandros da mente feminina. E ainda que o diretor confesse achar ridícula a tragédia deste personagem, não por acaso o tema do seriado gira em torno desta busca. Afinal o que insiste através dos tempos - mesmo com a consolidada igualdade de direitos entre os sexos- parece ser o “real” de sua diferença, quem sabe a primeira experiência de confronto com um “outro diferente de mim” que toda a criança enfrenta em sua vida social. E foi este talvez o mais perspicaz ponto da pesquisa freudiana, ao dar importância às “teorias” que as crianças constroem para dar conta de tal diferença ou ainda das fantasias criadas para aceitar/ reconhecer a existência de uma outra lógica sexual, atribuída ao sexo oposto, mas que pode muito bem habitar o interior de todas as identidades. Sabemos que a melhor maneira de sustentarmos nossas crenças é nunca confrontá-las. Mas as narrativas atuais têm preferido abrir o debate de certas premissas sobre as quais construímos nossas identidades, questionando ( ainda bem!) as relações humanas, os medos, desejos e anseios de todos nós. Talvez por isso, o diretor se diz animado em apostar em uma nova forma de fazer dramaturgia, uma prosa contemporânea, mais coloquial, que una o romântico ao patético, a tragédia à comédia. Vamos conferir.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Mr. Freud
“Durante a vigília, vejo um tigre e tenho medo; no sonho, tenho medo e vejo um tigre”
Jorge Luis Borges
Pensadores importantes de áreas diversas e épocas diferentes já habitaram as bancas de jornal em coleções que pretendiam ampliar a divulgação (fato que acho louvável) de seus feitos. Recentemente a mídia vem anunciando uma nova coleção de livros sobre alguns que mudaram o mundo, ocasião em que será ressuscitado Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Darwin, Marx, entre outros nomes que contribuíram com suas idéias em áreas como a filosofia, a política, a economia, a religião, e fizeram diferença na maneira como pensamos o mundo e a nós mesmos. A surpresa fica por conta de que um destes livros será dedicado a Freud o que o eleva ao patamar dos personagens importantes da história da humanidade. No senso comum, Freud é lembrado sempre que achamos que ele “explicaria” certos atos ou pensamentos humanos que fogem ao padrão considerado corriqueiro. Quem nunca ouviu a célebre frase “Freud explica”? De certa forma este jargão popular não deixa de apontar para o sentido do “novo campo de saber” inaugurado por Freud, batizado de psicanálise, um ramo da psicologia que se situa entre a filosofia e a medicina e que busca explicar os conteúdos de nossa vida psíquica que ficam fora de nossa consciência. Nossos sonhos seriam o paradigma deste funcionamento psíquico “inconsciente” ou virtual já que insistem em nos causar um estranhamento ao deixar emergir, sempre disfarçados, certos conteúdos soterrados em algum lugar de nossa memória afetiva. Os lapsos, as piadas e finalmente nossos sintomas psíquicos seriam outras das produções deste lugar ao mesmo tempo longínquo e familiar. Por isso nossa história oficial, aquela com a qual nos apresentamos, tem sempre uma versão própria que precisa incluir nossas crenças e fantasias e até sofrer ratificações a fim de escamotear seu conteúdo reprimido. Mas ainda que a cultura atual já tenha absorvido muitas das contribuições da psicanálise tais como a importância atribuída às experiências infantis e aos pais enquanto influência fundamental e determinante para o futuro de cada um de nós, há sempre resistências tanto no nível individual quanto no coletivo, na admissão de uma vida psíquica complexa cujas dimensões possam co-existir sem o nosso conhecimento absoluto. O próprio Freud já teria antecipado tais resistências ao comparar sua psicanálise ao inevitável caos e desordem da chagada da “peste” nos séculos anteriores. No bojo desta inquietação estaria o fato dela não endeusar a consciência e repetir indefinidamente o quanto somos movidos a paixões, o quanto nosso eu não é senhor em sua própria casa e o quanto muito do que somos nos escapa. Não custa lembrar que a experiência psicanalítica, por meio de um dispositivo simples– falar sobre nós mesmos a uma outra pessoa – convida-nos a um mergulho aos meandros de nossa alma, a fim de que possamos tentar conhecer algo daquilo que nos determina à nossa revelia e que nos leva, na maior parte de nossas vidas, a atribuir a outros (pais, parceiros amorosos,chefes, corpo) as nossas infelicidades. E é justamente por não excluir, ao contrário, incluir estes fatores que não estão disponíveis, que ela continua sendo uma experiência que pode levar a uma profunda transformação de nós mesmos: ao permitir que descubramos mais de nós ao nos ouvir falar, que possamos quiçá encontrar e elaborar nossa historia e nossa vida dando-lhe um sentido que não seja demasiado custoso, que nos ajude a encarar a brutalidade do mundo sem a necessidade de interpretá-la como se fosse um complô ou uma penitência merecida por ousarmos criar novos rumos para nossas vidas.
Jorge Luis Borges
Pensadores importantes de áreas diversas e épocas diferentes já habitaram as bancas de jornal em coleções que pretendiam ampliar a divulgação (fato que acho louvável) de seus feitos. Recentemente a mídia vem anunciando uma nova coleção de livros sobre alguns que mudaram o mundo, ocasião em que será ressuscitado Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Darwin, Marx, entre outros nomes que contribuíram com suas idéias em áreas como a filosofia, a política, a economia, a religião, e fizeram diferença na maneira como pensamos o mundo e a nós mesmos. A surpresa fica por conta de que um destes livros será dedicado a Freud o que o eleva ao patamar dos personagens importantes da história da humanidade. No senso comum, Freud é lembrado sempre que achamos que ele “explicaria” certos atos ou pensamentos humanos que fogem ao padrão considerado corriqueiro. Quem nunca ouviu a célebre frase “Freud explica”? De certa forma este jargão popular não deixa de apontar para o sentido do “novo campo de saber” inaugurado por Freud, batizado de psicanálise, um ramo da psicologia que se situa entre a filosofia e a medicina e que busca explicar os conteúdos de nossa vida psíquica que ficam fora de nossa consciência. Nossos sonhos seriam o paradigma deste funcionamento psíquico “inconsciente” ou virtual já que insistem em nos causar um estranhamento ao deixar emergir, sempre disfarçados, certos conteúdos soterrados em algum lugar de nossa memória afetiva. Os lapsos, as piadas e finalmente nossos sintomas psíquicos seriam outras das produções deste lugar ao mesmo tempo longínquo e familiar. Por isso nossa história oficial, aquela com a qual nos apresentamos, tem sempre uma versão própria que precisa incluir nossas crenças e fantasias e até sofrer ratificações a fim de escamotear seu conteúdo reprimido. Mas ainda que a cultura atual já tenha absorvido muitas das contribuições da psicanálise tais como a importância atribuída às experiências infantis e aos pais enquanto influência fundamental e determinante para o futuro de cada um de nós, há sempre resistências tanto no nível individual quanto no coletivo, na admissão de uma vida psíquica complexa cujas dimensões possam co-existir sem o nosso conhecimento absoluto. O próprio Freud já teria antecipado tais resistências ao comparar sua psicanálise ao inevitável caos e desordem da chagada da “peste” nos séculos anteriores. No bojo desta inquietação estaria o fato dela não endeusar a consciência e repetir indefinidamente o quanto somos movidos a paixões, o quanto nosso eu não é senhor em sua própria casa e o quanto muito do que somos nos escapa. Não custa lembrar que a experiência psicanalítica, por meio de um dispositivo simples– falar sobre nós mesmos a uma outra pessoa – convida-nos a um mergulho aos meandros de nossa alma, a fim de que possamos tentar conhecer algo daquilo que nos determina à nossa revelia e que nos leva, na maior parte de nossas vidas, a atribuir a outros (pais, parceiros amorosos,chefes, corpo) as nossas infelicidades. E é justamente por não excluir, ao contrário, incluir estes fatores que não estão disponíveis, que ela continua sendo uma experiência que pode levar a uma profunda transformação de nós mesmos: ao permitir que descubramos mais de nós ao nos ouvir falar, que possamos quiçá encontrar e elaborar nossa historia e nossa vida dando-lhe um sentido que não seja demasiado custoso, que nos ajude a encarar a brutalidade do mundo sem a necessidade de interpretá-la como se fosse um complô ou uma penitência merecida por ousarmos criar novos rumos para nossas vidas.
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