quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ode aos rituais

Um amigo querido informava-me o quanto sua (única) filha andava mergulhada na construção de uma nova vida a dois. Percebendo seu semblante apreensivo perguntei-lhe como ele estava vivendo este momento. Seu rosto se iluminou ao me responder prontamente que já havia tido “aquela” conversa com o futuro genro. “Foi uma exigência minha - completou- afinal os rituais são sábios.” A quais rituais ele se referia? Sabemos que os rituais de uma determinada cultura são ritos mitológicos. E ainda que “mitologia” invoque uma volta ao estágio primitivo de nossa espécie em que nosso conhecimento sobre a condição humana e sua relação com a natureza era quase nulo, de certa maneira ela se mantém ressignificada, já que os motivos da imaginação mítica estariam sempre ligados à busca do que ainda nos escapa sobre as nossas origens, mas principalmente como damos sentido (ou significamos), como entendemos e interpretamos nossa existência. É difícil imaginarmos um fio evolutivo para este entendimento, pois teríamos que levar em conta um movimento incessante entre a tradição e a inovação, entre forças produtivas e criativas em todos os domínios da vida cultural. Pensemos por exemplo que antes da criação de leis, era o sistema de tabus que regulavam as ações humanas e a vida social de determinado grupo. Ao mesmo tempo em que cada membro tinha uma série de deveres e de obrigações, os inúmeros ritos ameaçavam paralisar suas vidas, com suas infindáveis restrições de comer ou não certos alimentos, andar ou ficar parado em determinados locais, pronunciar exatamente certas palavras e por aí vai. A proibição contava com o medo da transgressão e seus rituais de purificação, ao mesmo tempo em que promovia uma obediência passiva. Hoje somos livres, graças ao fato de acreditarmos que somos capazes de refletir sobre o bem e o mal, fazer escolhas e ser responsável por elas. Nossa relação com nossos semelhantes é regulada não mais pelo medo e sim pelo cumprimento de leis sempre renováveis e pela ética. Apostamos em nosso amplo conhecimento sobre nós, os outros e o mundo para entendê-los e promover uma convivência possível. Contamos com a culpa e a vergonha como balizas para nossos pensamentos e atos. Há um novo “zeitgeist” ou “espirito da época”, um novo ethos. E novos desafios para se pensar sobre o que transgride ou não se inclui neste espírito em suas infinitas  razões. A narrativa mítica tanto serve para acomodar o que é aceitável quanto o que ultrapassa a percepção ou  a explicação racional do mundo. Talvez a literatura, mais do que a filosofia, seja a herdeira da mitologia nesta tarefa de transmissão cultural, ao recontar e adaptar os mitos, incluindo aí este eterno e difícil papel dos pais na função de apresentar, escolher e compartilhar (transmitir) o mundo humano e seus símbolos para suas crianças. Crianças que precisam cumprir outro  importante “ritual”, ao abrir todas as janelas possíveis que a ajudem a transpor o ninho familiar, e assim promover a continuidade da roda da vida humana. Meu amigo falava como se a complexidade de seus sentimentos em relação a esta “passagem” de sua filha, pudesse ser exorcizada naquele ritual. Tinha razão. O ritual contém esta história de nossa história. Era com pesar que ele encerrava seu papel de homem e adulto privilegiado de sua filhinha. Talvez tivesse sido duro encenar a “entrega das mãos” dela para o futuro genro. Mas ele estava satisfeito pela sensação de missão cumprida. Era bom perceber que sua menininha havia crescido e transformara-se em uma mulher adulta e autônoma. Melhor ainda era vê-la feliz! Afinal se há algo extremamente “moderno” é o fato de que cada um de nós precisa se responsabilizar por estas tarefas civilizatórias, e a de sermos pais carrega o severo peso da perfeição. Vigiamos a felicidade dos nossos filhos como medida de nossa competência.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Dorviver

Todos nós já pudemos viver os transtornos que a falta de energia causa em nossas rotinas. Seja em casa, no trabalho ou nos momentos de lazer, só conseguimos avaliar como e quanto o aparato eletroeletrônico governa nossas vidas quando este mundo- cujo funcionamento nos é quase sempre desconhecido e inacessível - emudece. Desamparados e impotentes resta-nos esperar que aquela “entidade” formada pelos técnicos que dominam esta linguagem esquisita possa rapidamente nos devolver o mundo iluminado e eficiente que rege nosso cotidiano. Uma lembrança que deve ter contribuído para me introduzir a este tipo de “consciência crítica” foi quando, pela primeira vez, conheci o interior de meu radinho de pilha. Como era possível que alguém pudesse saber onde começar a procurar as razões de sua “morte” naquela infinidade de micro pontinhos - prateados e dourados- ligados por milhões de finos e coloridos fios? Assim também nos sentimos quando nossos carros param de funcionar ou nossos corpos passam a emitir ruídos de “dor”. Sem entender os motivos de seu “cansaço” ou de suas “falhas” buscamos aqueles que nos darão alguma pista do que fazer. Não há dúvidas de que temos que dar graças a esta porcentagem da população global que se dedica a estudar e a pesquisar este complexo mundo biotecnoeletronico e suas minúcias e assim nos contemplar com novas e melhores chances não só de usufruirmos de suas benesses, mas de contar com seu conhecimento quando somos assaltados pelas suas deficiências e caímos nesta “vala” dos “sem saber o que fazer com isso”. Por isso investimos na “saúde” de nossos aparelhos, veículos e corpos. Com os dois primeiros podemos trocá-los constantemente por novos e mais eficientes. Para o nosso corpo existem computadores e máquinas de última geração que nos informam sobre seu funcionamento geral e acusam os setores precários que necessitam cuidados pontuais. De certa forma sabermos que existe este “Saber” nos conforta. O duro é quando estamos em algum tipo de sofrimento, já encerramos a investigação sobre suas causas e voltamos para nossas rotinas com etiquetas que indicam serem nossas dores advindas do “stress” ou de problemas emocionais. Como traduzir isso em explicações plausíveis? Na tentativa de preencher esta falta de saber passamos a buscar pedaços de nossa história que nos pareçam reveladores de tal sofrimento. Traumas violentos, famílias desestruturadas, bullying, injustiças amorosas, vale qualquer coisa que compartilhe das tendências das manifestações do espirito para legitimar nosso sofrer, mesmo que ele resista a medicamentos e persista ao longo dos anos. É como se este tipo de sofrimento, mais conhecido como dores da alma, nos impusesse um certo “não saber” sobre nós mesmos. Pior, um “não saber” que, sem nos darmos conta, não fazemos questão de saber. Na verdade a própria “natureza” de nossa alma é paradoxal já que gestada-  desde o início de nossas vidas - em torno de nossos conflitos e de nossas tentativas de solucioná-los, nem sempre satisfatórias. Na briga entre o que precisamos e o que desejamos, o que deveríamos fazer- segundo as normas que regem nossa cultura ou as apostas que fizemos em nós mesmos- e o que queremos fazer, nas escolhas (nem sempre claras) que fazemos, e no que esperamos receber daqueles que nos são caros, cada um tece de forma particular um estilo, um jeito de ser e de enfrentar a vida. E de produzir seus males. Os psicanalistas precisam passar pela experiência de descobrir suas próprias cegueiras, seus pontos estratégicos de fuga de suas dores, e todas as proteções que criam para os excessos de luzes e sombras que atormentam seu espirito, para tentar ajudar (ou guiar) aos que os procuram, a mergulhar na profundeza de suas almas.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Reticências

Uma amiga gaúcha que reside há décadas em uma praia paradisíaca do Nordeste (afastada dos grandes centros), fazia um relato pesaroso sobre a relação dos “nativos” com a pesca de peixes ou com a exuberância de suas praias e mares. Como era possível que não se importassem com a visível degradação ambiental via despejo de dejetos e restos de todas as naturezas? Sentia-se propensa a criar uma associação de moradores locais para fiscalizar a preservação daquele pedaço de “céu”, mas temia que sua proposta não encontrasse eco algum. Eles pareciam longe de se perceberem agentes políticos capazes de fazer diferença na melhoria das condições de suas próprias vidas. O pescador sabe que a lei o impede de usar uma rede muito fina que retenha junto aos peixes grandes, os recém-nascidos, mas não sabe avaliar as consequências de seu desinteresse para o futuro de sua vida e de seus filhos. Mesmo falando de um lugar de impotência, minha amiga incitava a uma reflexão, convocava seus ouvintes a pensar junto com ela as ações (soluções) que pudessem “afetar” a consciência crítica do povoado e quem sabe provocar mudanças em seu comportamento. Sua preocupação poderia ser considerada uma gota no oceano, uma atividade política bem ao estilo contemporâneo. Os movimentos “Ocupe” que pipocaram nos USA e repicaram em muitos outros países (inclusive por aqui), as ocupações de praças em países árabes islâmicos, ou na Europa, seriam novas maneiras de escrever ou fazer história, um movimento social globalizado facilitado pelo acesso cada vez maior de todos ao mundo internáutico. Mesmo que combinem diferentes reivindicações ou que fracassem em curto prazo ninguém pode negar-lhes o estatuto de ato politico e democrático no sentido de permitir a cada um, fosse o quê e quem, o direito de clamar por algo que lhe pareça justo. A novidade estaria na maneira pouco usual de se fazer politica, pelo menos em sua relação com o poder, não mais concentrado na soberania dos países e seus estados, nem no líder e sua massa alienada , mas na assunção de “potencia” e autonomia de cada um em sua chance de inventar novas maneiras de dar sentido ao mundo, de transformar o utópico em criação ou detonar a paralisia dos cenários do cotidiano. Sem dúvida existem os que olham com descaso algumas das recentes manifestações de ocupação do espaço público, classificando-as como desprovidas de ideologia ou fadadas ao vazio já que compartilhadas (em sua extensão e abrangência) apenas pelas pontas dos dedos dos que clicam frenética e indiscriminadamente nas redes sociais. Não importa. Como bem lembrou, em artigo recente na Folha de São Paulo, a filósofa e professora da USP Olgária Matos, o movimento que paralisou a França em 1968 e disparou no ocidente um número sem fim de mudanças radicais em seus valores, teve seu início com estudantes que reivindicavam o direito de receber a visita de suas colegas e namoradas em seus quartos de estudantes. Minha amiga já conseguiu arrebanhar alguns jovens “doutores” que ali residem e que queimam suas pestanas escrevendo livros sobre a sustentabilidade futura do planeta. Pode ser um começo.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Um homem invisível?

Claudio Torres ficou mais conhecido pelo público brasileiro após o sucesso de seu filme “A mulher invisível” (2009) em que Selton Mello inventa a mulher perfeita (Luana Piovani) para não precisar mais sofrer de amor. Mas tem em seu “DNA” o fato de ser filho de Fernanda Montenegro e Fernando Torres (já falecido), além de irmão de Fernanda Torres, um time de atores nacionais de primeiríssima linha. Em 2011 ele lançou mais um filme, “O homem do futuro” em que Wagner Moura interpreta um cientista e professor amargurado e solteiro (João), na faixa dos quarenta anos, que pesquisa uma nova fonte de energia barata e renovável, mas está prestes a ter sua verba cortada. Pressionado e sem perspectivas, ele decide testar (apesar de muito medo) sua máquina de produção de energia que acaba levando-o “involuntariamente” ao passado, na mesma data em que foi humilhado publicamente por Helena (Alinne Moraes) e ganhou o apelido de Zero, sua sina até os dias atuais. Gago, “nerd” e perdidamente apaixonado por Helena - a “deusa” desejada por todos os homens da faculdade - neste mesmo dia ela havia declarado seu amor por ele depois de tê-lo conhecido mais intimamente graças às aulas particulares de matemática que ele gentilmente lhe concedia. Em êxtase total, minutos antes da trágica e para sempre dolorosa humilhação, ele se prepara para cantar com sua amada a música “Tempo Perdido” de Renato Russo na festa à fantasia que anuncia o final do curso. É neste instante que o “outro” João, aquele que ficou trancafiado neste vergonhoso e insuportável sentimento de si, chega do futuro, consegue “assistir” as cenas do triunfante e inocente João e decide tentar mudar seu próprio destino. A comédia romântica é um gênero que agrada ao público em geral e foi este clima ameno e engraçado que o diretor escolheu para abordar um dos sentimentos humanos mais adstringentes: a humilhação e a vergonha que a acompanha, cujo peso aumenta e muito quando vivida na adolescência. Não por acaso o bullying se tornou uma preocupação quase global. Embora alguns críticos classificassem o filme como ficção cientifica, sua trama estaria muito mais comprometida com a complexidade de nossas vidas subjetivas, principalmente ao apontar a importância de certas vivencias passadas e traumáticas e o quanto elas podem nos enclausurar para sempre em circuitos fechados e repetitivos. O João que sofrerá esta fatídica exposição é um jovem tímido, cuja gagueira já sinaliza suas inibições e, portanto fadado a viver com horror sua vergonha pela revelação de sua fragilidade e perda de qualquer dignidade. Seu precário mundo interno irá se desmoronar aos olhos dos outros, e só lhe restará viver uma vida monocromática, melancólica e ocupar o desagradável lugar de vítima com espasmos ocasionais de muito rancor. Seu fundo musical será embalado pela cáustica letra de “Creep”( Radiohead) anunciando o sentimento de si (“verme”) e o ressentimento que permeará sua vida, estampado na frase “I wish I was especial” ( eu queria ter sido especial). O mais interessante deste filme, no entanto é a solução encontrada pelo diretor para retificar este destino e possibilitar uma virada na vida de João a fim de que ele deixe de ser Zero. Se em um primeiro momento a “volta ao passado” (quem nunca se imaginou retrocedendo a algum acontecimento passado para muda-lo?) tem a finalidade de apagar o sofrimento dilacerante da vergonha, impedindo simplesmente que o fato aconteça, na sequencia e diante das consequências desta tentativa de eliminar os “maus” momentos e as dores por eles geradas, um terceiro João, mais distante de seu ódio e sina, admite a humanidade da experiência de sua vergonha e reúne a coragem necessária para  deixar sua vida rolar. Wagner Moura fará três versões de João, em momentos diferentes de sua vida, tratando de fazê-los conversar um com o outro para ampliar sua visão de homem e de si, rever/ajustar sua historia e enfim viver o amor e a dor. O trecho abaixo da letra de “Tempo perdido” é uma amostra deste deslocamento: sai o tom ácido do drama, ainda que não se elimine as dificuldades do caminho sempre tortuoso que cada um precisa percorrer para se tornar “gente”.

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens...”

Para conferir: O Homem do Futuro (Brasil, 2011)                                      Direção: Claudio Torres                                                                             Elenco: Wagner Moura, Alinne Moraes, Maria Luísa Mendonça, Gabriel Braga Nunes e Fernando Ceylão

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Natal & Amor

As imagens, os textos, os sons não deixam dúvidas. Se a origem é cristã, o dia 25 de dezembro repete o momento em que milhões de famílias buscam se reunir e a grande maioria das pessoas admite celebrar a irmandade da espécie e pensar nos desvalidos da vida. Parece que precisamos desta data para abrir nossos corações, ajudar aos menos afortunados, em uma espécie de busca de sentido para nossas vidas. Ou somente para fazermo-nos merecedores da compaixão divina, com seu poder de “tirar os pecados do mundo” e os nossos. Tentamos enumerar nossas boas ações e encontrar razões para nossos sonhos mesquinhos ou egoístas. Pedimos perdão por nossos prazeres e gozos. Enfim, o clima convida a um “mea culpa” que zere o cronômetro moral e nos coloque sob os trilhos da solidariedade e da possibilidade de “amar qualquer que seja o próximo”. Mesmo que pareça simplório crer que nossos gulosos prazeres e nossa culpa consequente expliquem o bem e o mal que regem nossas vidas. Embutido, mas não tão claro, há neste singelo balanço um sentimento de nossa precariedade diante das misérias e violencias que podemos cometer. Pressentimos que se a reunião dos homens em sociedade é uma condição de sobrevivência para a espécie, ela contraria os interesses individuais, pois exige toda uma gama de limites e renúncias aos nossos excessos de amores e ódios. Por mais que inventemos leis e propaguemos o valor do amor, não conseguimos tornar estas forças do “mal” inoperantes. Nossa “realidade psíquica” é uma realidade que ultrapassa aquela que organiza nosso mundo; pior, é particular de cada um e não pode ser coletivizada. Teríamos que acreditar que as grandes revoluções só aconteceriam na consciência dos homens que pudessem contemplar  sua humilde existência (moral/ psíquica). Mas isso, na hierarquia moderna de nossos valores, desbancaria a felicidade e a segurança como os itens mais ansiados e honraria nossa “autonomia” ou o fato de ser possível a cada um escolher seu projeto de vida e realizá-lo, ou melhor ainda, inventa-lo. Fácil? Assim parece ou poderia ser. Mas na verdade é extremamente doloroso e árido admitirmos que sejamos os únicos responsáveis por nossas desventuras. Não por acaso construímos sentidos místicos que nos dão a impressão de que não somos autônomos e evitamos “saber” que em nosso mundo não há tantos mistérios além de nossas próprias dificuldades, medos e confusões. Precisamos mais que nunca de datas como esta que nos envolvam e nos permitam desfrutar do clima do amor entre os homens. Amor que, mesmo vestindo novas roupagens, continua a cumprir sua função de ligar e encantar nosso mundo.  Resta-nos juntar as boas coisas que a vida ainda nos oferece e lembrarmos em retrospectiva, como alguns de nós sabem mostrar que o “amor” existe e que o mundo vale a pena. São boas histórias que nos ajudam a viver e a desejar um feliz 2012 a todos.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Eu, tu, eles.

Havia sentido um friozinho no estômago em algum momento próximo ao final do mês de novembro. Pensar que logo mais dezembro se iniciaria causava-lhe tamanha ansiedade que precisava respirar, “deletar” tais pensamentos e forçar a volta à rotina. Misturava-se a isso certo pesar já que em sua infância os dias que antecediam o Natal eram impacientemente esperados. Sua cidade vestia-se de verde e vermelho e todas as luzes do mundo se acendiam. Papais Noéis de verdade, sinos, presépios, lojas que estendiam seu horário de fechamento até às dez da noite e exibiam vitrines reluzentes, músicas com temas natalinos. Assim começavam as férias escolares, praticamente junto ao anúncio de proximidade da celebração do Natal. Era uma conjunção de boas novas. Os adultos ficavam mais imersos e apressados a fim de poder cumprir os prazos para a compra dos presentes e dos quitutes da ceia e do almoço do Natal. Nozes, castanhas, avelãs e panetones ganhavam espaço. Parentes chegavam de suas cidades promovendo o encontro de primos que podiam brincar quase sem limites de horários. Pensando bem, era como se este pequeno espaço de tempo entre o final do ano letivo e o 24 /25 de dezembro fosse o verdadeiro “carnaval” infantil: desapareciam as rígidas medidas disciplinares impostas pelos pais e pelas obrigações escolares ao mesmo tempo em que se descortinava um mundo colorido, agitado e cheio de novidades prazerosas. Da penúria ao excesso, dormir era perder tempo. O dia seguinte já estava ali, à espera de novos e deliciosos momentos. Quem poderia imaginar tantas mudanças? Como tudo na vida, o período que antecede o Natal também tinha seu lado B. Não que a reunião dos familiares - cada vez mais escasso em números, mais concentrado em seus núcleos- tivesse deixado de ser agradável. Mas a velha “aura” mágica deste período do ano havia se dissipado quase completamente. Ok, o olhar de um adulto cinquentão (ou sessentão?) pode ser cético, duro demais. Pintava sim um olhar invejoso aos que podiam manter a alegria e o entusiasmo através dos tempos, uma alegria sem dúvida necessária para empolgar filhos e netos. Ele tinha que se esforçar. Muito! Nem sabia ao certo se podia chamar de preguiça ou de dor o fato de evitar as aglomerações em torno de shoppings e de “visitas” aos enfeites majestosos de Natal espalhados pela cidade. Não conseguia ver sentido naquele bloco de pessoas zanzando pela cidade, nem mesmo nas inúmeras confraternizações que pipocavam nos bares, dos amigos da infância, dos colegas de faculdade, daqueles do antigo trabalho, do atual, etc, etc. E a passagem do ano? Só de imaginar as estradas coalhadas de carros ou os aeroportos lotados com todos bufando pelos atrasos dos voos, sentia falta de ar. Preocupava-se com este azedume. Seria assim para sempre? Não conseguiria mais desfrutar (nem compartilhar) minimamente o clima especial de todo final de ano? Não poderia responder a esta questão, ao menos não agora. Sabia bem que sua tristeza, apatia ou aflição (sabe-se lá) estavam atreladas a uma reflexão mais profunda que havia sido disparada desde julho, quando completara sessenta anos. O futuro ficara bem mais curto e estava difícil ajustar os sonhos para que se amoldassem melhor à realidade. Um choque, uma ferida aberta que pedia um tempo, quem sabe uma nova lente para encarar as mudanças que o corpo começava a anunciar e a mente precisava processar. Era isso. Estava doendo demais e não havia energia disponível para a alegria transformadora que estas festas pedem. Quem sabe o próximo ano reservasse a ele alguma surpresa. Que fosse boa, que lhe devolvesse o pique, o encanto pela vida, pelas pessoas, pelos seus. E por ele.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Por uma ação de graças

Semanas atrás, em conversa com brasileiros que residem nos USA, falávamos sobre a força da "tradição" que o feriado do Thanksgiving mantém entre os americanos. Uma das pessoas comparou o clima desta data  - em que as famílias americanas  se reúnem em torno do famoso "turkey"- ao nosso Natal. Comemorado toda 4ª quinta feira do mês de novembro, o dia de Ação de Graças rememora a refeição coletiva de agradecimento pela fartura da colheita conquistada pelos peregrinos vindos da Inglaterra, graças aos ensinamentos de alguns índios nativos sobre as técnicas de plantio. O período anterior havia sido de penúria diante do frio e da fome. De certa forma nos familiarizamos com esta celebração e pudemos comprovar seu valor em inúmeros filmes (made in USA) que mostram jovens estudantes e adultos cruzando estados para se reunirem com seus familiares. Muitos destes filmes contam historias de afirmação de vínculos de pertencimento, alguns do reasseguramento dos afetos de amor, mas não são poucos os que descortinam os desencontros tanto pelo via do drama quanto da comédia. Tal e qual as histórias sobre a noite de Natal em torno das expectativas das reuniões familiares, não importa o quão difícil, trabalhoso e tenso seja, a tradição funciona como um polo agregador e inevitável e todos se sentem melhor se puderem "cumprir" com este protocolo. Por não compartilhar de fato do significado do Thanksgiving, uma de minhas interlocutoras, que ali reside há mais de uma década, trazia seu olhar "estrangeiro" sobre esta festa. Insistentemente convidada a participar e incitada a escolher um entre os “anfitriões”, percebia ser difícil para a grande maioria, suportar o fardo da solidão ou da exclusão dos que não possuem famílias e não podem desfrutar do calor da data. Aos poucos foi se acostumando a planejar seu feriado, escolhendo as “famílias” principalmente pelo critério de seu acolhimento e flexibilidade, já que em seu currículo constavam vários jantares que expunham o paradoxo da reunião. Embora houvesse um movimento geral em torno de compra de passagens e presentes, definição de cardápios e receitas de peru, nada garantia que o evento fosse agradável. Na verdade, a produção de intimidade por vezes “involuntária” da família parecia induzir uma espécie de visita ao seu "acervo de memoria afetiva" despertando os pequenos dramas infantis de cada um. Em geral as festas de Natal também impõem a todos o cumprimento de seus rituais - juntar o maior número possível de familiares, decidir a casa, o cardápio, fazer o amigo secreto ou presentear aos que somos gratos - mas nada impede que possam ser tensas, e os motivos podem ser os mais variados. Talvez um denominador comum seja o fato de que nossos mais pungentes dramas são os vividos em nossa infância, no seio familiar, dramas construídos pela força dos amores, das preferencias, do carinho, mas também dos ciúmes, das disputas, das rivalidades e das violências. Muitas famílias, ao longo de suas histórias, conseguem minimizar os efeitos às vezes mortíferos, às vezes agressivos que permeiam suas relações e podem manter um funcionamento mais cool, em que o humor e o amor sobrepujam as diferenças e as tensões. Outras perpetuam este ranço e suas reuniões são palco de trocas ferinas, mágoas e ressentimentos. Porque continuam se reunindo? Saber-se parte de uma família, ter uma origem, uma "organização" a qual se pertence pode ser mais importante do que sentir-se excluído em uma data em que se imagina que TODOS estão "felizes" comemorando com os seus. Pode ser que a dor e o sofrimento deste desamparo sejam mais insuportáveis do que o convívio familiar, mesmo que seja para brigar, beber, falar o que não se deve, ouvir o que não se quer.