sexta-feira, 18 de maio de 2012

Virada cultural


O Brasil (assim como outros países emergentes) vem se tornando foco de interesse dos que buscam visualizar “tendências” do futuro da vida humana, ou seja, dos que, diante da “certeza” de tantas incertezas, tentam antecipar um roteiro ou mapa para os variados setores de nossas vidas: finanças, saúde, felicidade, trabalho, cultura, relacionamentos, etc. de olho no que imaginam ser uma espécie de laboratório do planeta. De país periférico, passamos a objeto de reflexão e curiosidade dos que apostam que, sem o peso de uma “tradição” civilizatória/intelectual/científica/ ideológica, nossas soluções para as rápidas mudanças que o mundo contemporâneo impõe podem ser diferenciadas, quiçá inovadoras. Será? Talvez, se tomamos o Brasil em um estágio de adolescência, curtindo a ferveção/pulsação incessante deste período e/ou impelido a inventar uma disponibilidade infinita para o novo, mas sem muitos compromissos para com seu mal ajambrado passado. Uma visão romântica? De certa maneira sim. O romantismo guarda em certo grau uma visão idealizada da condição humana, ou dos estágios da vida. Viver em um patamar quase sempre provisório para as soluções dos problemas (leves ou escabrosos) pode desembocar na invenção de modos criativos de existência, ou ser um desastre. As possibilidades de vida humana sem direitos e obrigações civilizatórios mais ou menos encarnados costumam ser injustas ou confusas. Mas certamente vivemos em uma era em que a cultura global pede muita flexibilidade. E se há um setor efervescente, que tem sido pensado e ocupado por jovens inspirados, cheios de ideias e orgulhosos do acervo hiperdiversificado do Brasil, é nossa cultura. Um bom exemplo são as edições da virada cultural paulistana, um evento que completou oito anos no último dia 5/6 de maio e que aos poucos foi arregimentando diferentes camadas da população. Pensemos em seu duplo sentido. Virada tanto significa o novo, algo que implica em uma ruptura com o velho quanto alude ao fato de ser um evento que “vira” a noite /dia e oferece espetáculos para todos os gostos e idades ininterruptamente. Fui conferir. Depois de estudar o mapa dos quase cem locais espalhados pela cidade, elegi o centro de São Paulo (onde se concentravam mais da metade dos palcos) para apreciar uma das apresentações da programação do “Piano na praça” no sábado à noite. Para aqueles que não conhecem, o palco fica na Praça Dom Gaspar, atrás da Biblioteca Mario de Andrade, em um lugar arborizado e muito apropriado para um solo de piano. Tudo trabalhava a favor: a noite de lua cheia iluminava as belas e antigas construções do centrão, o clima era de um outono agradável, muita gente transitava para lá e para cá e policiais espalhados em duplas pelas esquinas estavam a postos para orientar os transeuntes sobre os melhores trajetos dos destinos escolhidos. Impossível não sentir certa satisfação ao cruzar com alguns grupos de senhorinhas que estudavam seu “mapa da virada” para tentar eleger com algum consenso as próximas atrações. Quanto a mim, já estava decidido, a próxima parada seria o coreto da Praça da República. Que boa escolha! Depois de ouvir um excelente solo ao piano, sentada embaixo de árvores centenárias, nada melhor do que balançar mansamente o esqueleto junto aos que já se encontravam ao redor do antigo coreto. No “ar”? O Projeto Coisa Fina, uma banda composta de feras da música instrumental brasileira que promove uma fusão do jazz ao baião, maracatu e samba. Na pauta, muitas músicas do genial maestro Moacir Santos. Com muito orgulho, tudo coisa nossa!


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Danos morais

Dias destes testemunhei um acidente que não só me tirou o fôlego por alguns instantes, como me doeu a alma por um bom tempo. Prestes a passar por um cruzamento importante e antecipando a troca do sinal verde pelo vermelho através da visão do amarelo, fui diminuindo a velocidade quando à minha esquerda um carro atravessou apressadamente já no vermelho. Nada de novo - apesar de transgressivo - não fosse o fato do motorista não ter visto a travessia de duas bicicletas e não ter conseguido evitar a colisão com uma delas. Pior, apesar de ter sido obrigado a frear, o carro logo engatou nova marcha e sumiu avenida afora, sem titubear. Não parou para se informar sobre os estragos de sua imprudência ou para socorrer a vítima se fosse o caso. Fui tomada por um mal estar insuportável que só foi mediamente amenizado ao perceber que o rapaz atropelado se levantava e tirava às pressas sua bicicleta toda torta do meio da rua. Imaginei que, como eu, ele estaria tomado por um misto de alívio por sair incólume e muita raiva pela imprudência, covardia e indiferença do motorista. Seu companheiro de bicicleta saiu em disparada para tentar alcançar o carro, enquanto algumas pessoas na calçada se movimentaram em sua direção para acolhê-lo. Invadiu-me a certeza de que todos ali partilhavam do mesmo sentimento de aversão contra o malfadado motorista, seu ato antissocial, sua falta de respeito para com os outros. Graças ao incentivo de construções de ciclovias e à pronta adesão de milhares de jovens, o número de ciclistas que transitam no dia a dia da cidade de São Paulo aumentou consideravelmente nestes últimos dois anos, assim como os acidentes. Sem muitas leis, os protestos que reúnem os usuários de bikes nestas ocasiões tem pressionado o setor público a construir uma “visibilidade” para o ciclista através de implantação de novas normas principalmente para os veículos. Com o rádio ligado quase sempre na Eldorado FM, venho acompanhando esta evolução por uma de suas mais famosas “bike reporter”, Renata Falzoni, que informara recentemente sobre campanhas públicas e novas leis de transito que passam a proteger a vida do ciclista e garantir-lhe o uso das ruas. Segui com meus pensamentos e me pus a “inventar” um diálogo com um outro fictício em que eu pudesse discorrer sobre minha repulsa ao ato “violento” daquele motorista. Um tipo de violência que nos deixa impotente diante da constatação de que fica a cargo de cada um decidir sobre o “uso” e o “abuso” que faz das pessoas. Resta-nos a aposta em um espaço comum de constrangimento compartilhado, como o que imaginei em relação aos que assistiram o acidente. Saber que a maioria poderia se indignar me alentava. Uma amiga me relatara sobre este mesmo constrangimento compartilhado quando, em um grande magazine, assistira a uma explosão violenta de um pai diante do filho que derrubara uma peça do mostruário. Todos pararam e olharam assustados como a esperar que aquele pai pudesse pedir desculpas por seu “excesso”. Ficaríamos listando um número sem fim de exemplos de tais violações e talvez um dos mais escabrosos pudesse ser o que a mídia tem chamado de “cachoeiragate” em que um homem consegue construir e manter uma rede de influencia e troca de favores, posicionando-se tal e qual um “padrinho” em todas as esferas de poder da sociedade, arrastando partidos, corporações, empresas, prefeitos, governadores, polícia, etc. É por desconfiar que a fronteira entre o “civilizado” e o “bárbaro”, entre o digno e o indigno habita permanente em cada um de nós que precisamos desta zona de conforto que imaginamos existir, uma zona moral que seria partilhada pela maioria de “nós”, que não nos deixaria sozinhos diante de certas violações desastrosas das normas de convivência e que nos ajudasse a reafirmar certos valores preciosos na manutenção dos laços sociais

Ouvir, cuidar, refletir...


“Cartas a uma jovem psicanalista” é um livro (mais ou menos recente) escrito por um psicanalista brasileiro que há anos reside na França, Heitor O´Dwyer de Macedo, este título sendo uma homenagem àquele utilizado por Rainer Maria Rilke  no inicio do século XX em que o poeta francês se dirige a um jovem admirador e tenta “desidealizar” o percurso rumo à  consagração do poeta ao revelar-lhe quão inseparável a poesia seria da sua própria vida. Pode-se dizer que ambos os autores alertam para a impossibilidade de se prever estas trajetórias, e optam por discorrer sobre a suas paixões ao apresentar suas marcas pessoais na expectativa de contribuir com alguma luz para  seus respectivos iniciantes. A maioria dos textos gestados nas instituições psicanalíticas  e dirigidos aos que desejam iniciar sua formação reiteram que este processo acontece no próprio percurso da formação em que, além da aquisição e apropriação das conceituações teóricas, a análise pessoal desempenha um papel central. Que esta análise não é suficiente para se tornar um analista. Que é preciso analisar outros e submeter a sua clínica à escuta apurada de um supervisor.   E embora todos concordem que viver uma análise é a condição principal para que alguém exerça o ofício de analista, todos afirmam não haver um manual em que estejam recenseados procedimentos para a investigação do inconsciente como prática terapêutica: não há um saber a priori. O que a psicanálise insiste em revelar ao sujeito à sua revelia é parte integrante do saber e da intervenção psicanalítica, seu paradoxo e sua razão de ser, e só podemos nos considerar psicanalistas se pudermos nos submeter a uma análise com alguém que também se submeteu, etc. Tal e qual um ritual de passagem, esta transmissão, sempre via inconsciente,  está articulada de forma complexa ao modo de apreensão daqueles que escolhemos para serem nossos analistas. E isto é apenas uma ponta do iceberg. É na intimidade de nossa análise pessoal que cada um se aproxima e se apropria do modo de operar da psicanálise e ao mesmo tempo é quando podemos conhecer o trabalho de um outro analista. Também é como analisando que podemos verificar a realidade psíquica, reconhecer sua existência, experimentá-la. Uma experiência a portas fechadas, sem testemunhas, que não se ensina, e que é transmitida na medida em que são oferecidos sentidos possíveis aos nossos sintomas, sonhos e lapsos, à medida que somos defrontados com nossas dores e resistências na viagem em direção ao reconhecimento de nossos conflitos e desejos. Trilhar este caminho, portanto é uma experiência que se vive na carne, visceral e pessoal. Por outro lado, é na clínica que a teoria se recria. Deitados (ou não) no divã daquele que elegemos como nosso analista, vamos nos familiarizando com o método psicanalítico, reconstruindo nossa historia psíquica, e nos incumbindo de refazê-la (ou ressignifica-la) continuamente. Estes passos iniciais da prática clínica não são nada fáceis, pois paralelo ao mergulho em nosso inconsciente, o contato com nossos pacientes nos lança as mesmas questões, e nos convoca a revisitá-las por outros ângulos. Além disso, não é nada fácil tolerar as dúvidas a que estamos expostos quando elaboramos teoricamente nossos atendimentos clínicos ou escolher saídas para os impasses que ela promove. Ao fascínio que a maioria de nós sente no exercício da profissão de psicanalista se contrapõe profundos sentimentos de inadequação e despreparo pessoal, conceitual e técnico. Muitas vezes  caímos em uma certa rigidez técnica e alguma confusão teórica, ou sacralizamos os textos, em uma tentativa de antecipação teórica que nos auxilie a suportar nossa aflição diante do não saber.  E a história não acaba aí. Como qualquer escolha de profissão, ser um psicanalista nos coloca diante de questões de identidade, reconhecimento e pertinência. Temos que eleger a instituição, os analistas, os supervisores. Precisamos inicialmente de Mestres, a quem possamos atribuir todo o saber, o que muitas vezes  transforma  nosso discurso teórico em dogma. Mais, o árduo percurso rumo a este oficio parece ser atenuado quando o idealizamos e apostamos na possibilidade de vir a alcançar no seu saber, uma espécie de completude, de respostas a todas as perguntas (nossas e dos outros). Um grande paradoxo, já que tal expectativa desloca a Psicanálise de seu papel de investigadora da condição humana para coloca-la em um lugar de Verdade absoluta. Se  a psicanalise nos convida a compartilhar de sua pretensão permanente na desconstrução da majestade do eu e dos ideais absolutos de seu tempo, não estamos isentos, como indivíduos-psicanalistas, de no exercício da tarefa de cuidar/ouvir do sofrimento e da dor humana escorregarmos para o lugar dos que imaginam saber como “deveria ser ”.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Arte e deuses


Em conversas ao pé da porta com uma querida amiga, ela me contava como às vezes se entristecia ao perceber que suas lembranças de infância lhe surgiam fragmentadas. E se durante muito tempo seguiu culpando sua fraca memória, este argumento já não cabia. Desconfiava isso sim, que lhe faltava coragem para amarrar sua história e quem sabe por pura proteção, teria evitado trazer à tona passagens muito tristes ou impactantes de sua vida. Havia lido em algum lugar o depoimento de um escritor que ao descrever seu percurso até a realização de seu primeiro livro, também se debatia com os entrecortes de sua memória infantil. E tal dificuldade lhe causava tanta agonia, que escrever em algum lugar, cartas, cadernos ou diários, lhe devolvia a sensação de ser dono de suas lembranças. Só depois de muitas entrevistas em que foi questionado sobre os caminhos de sua inspiração, teria passado a tentar entender o motor que movia sua necessidade de escrever. Era-lhe vital colocar em prosa suas apreensões e fantasias, fossem quais fossem. Às vezes escudo, às vezes possibilidade,  escrever, que agora poderia ser sua melhor ferramenta, tinha sido a única forma de construir uma ponte mais ou menos segura entre si e o mundo, que lhe permitisse seguir rumo ao desconhecido. Quando de tempos em tempos se permitia (ou podia) voltar a ler seus textos, por vezes conseguia traçar o fio de sua intuição, antes sem rumo. O relato de tal escritor teria sido muito inspirador para ela, que não sendo uma escritora e sim artista plástica, via sua arte vagando em um espaço sem sentidos definidos. Como ele havia confessado, ela também criava suas peças aparentemente sem nenhuma (pré) concepção, embora lhe fosse imprescindível classificá-las em seguida como a poderem ser guardadas em algum “arquivo” imaginário que lhe parecesse coerente com seu acervo artístico. Se durante um bom tempo esta simples tarefa lhe trouxe conforto, neste momento as dúvidas lhe assaltavam e o que parecia ordenado passou a lhe perturbar. Precisava achar o fio da meada, saber a que/para que/porque sua inspiração surgia ou não. Era como se sua produção só pudesse ser chamada de arte se ela encontrasse um sentido para ela. E isso a levava a outra premissa, a de que ao construir a história de sua arte pudesse entender a sua própria. Mas...e se sua arte fosse uma espécie de imposição dos “vãos” de sua memória? E se ela só pudesse acontecer graças à sua impossibilidade de colocar sua história na “linha do tempo”? Estaria ela condenada a viver uma arte-sintoma? Sua aflição me parecia genuína. Como ajudá-la? O que dizer? Fui socorrida pela lembrança do vídeo de uma escritora famosa que também passara pelas aflições que atravessam o ato criativo. Após escrever um livro que lhe rendeu muita fama, entrou no vácuo do futuro. Como repetir a dose? Como enfrentar a expectativa de seus leitores que não cessavam de lhe perguntar sobre a vinda do “segundo”? A resposta, dizia ela, demorou a chegar e finalmente a libertou deste martírio. A Arte não seria humana e sim uma entidade divina, coisa de deuses que escolhiam aleatoriamente alguns serzinhos humanos como portadores eventuais de suas ( pré) visões.

sábado, 21 de abril de 2012

Paradoxos


O que você faria se fosse assaltado à mão armada e os ladrões levassem, além de cartões de créditos, um bauzinho de madeira com uma quantia razoável em dinheiro e duas passagens para a Tanzânia, ganho dias antes em sua festa de bodas de prata, como um presente rateado por amigos e parentes? Este é o mote para as reflexões que se seguirão entre os personagens do filme “As neves de Killimanjaro”, do diretor francês (da Marselha), Robert Guédiguian. O valor de sua temática, no entanto transcende as fronteiras dos países, ao colocar em foco um debate importante sobre certas convicções ideológicas de direita e esquerda, que sempre escorrem para o certo e o errado, o bem e o mal. Se há uma lógica em curso nos dias atuais é a dos paradoxos, que nos convida a não fechar e sim a admitir vários matizes sobre um assunto, e exige que repensemos tudo por nossa conta e risco (embora fundamentados, claro). E para crer ou apostar na possibilidade de se seguir buscando mundos e homens melhores, talvez  não seja mais tão importante se alinhar a alguma ideologia de esquerda prêt-à-porter. O filme apresenta quase todos os ingredientes deste tipo de questionamento. Michel, participante ativo da efervescência político-cultural dos anos sessenta é o presidente do sindicato dos pescadores de Marselha que, diante da atual crise que abate a Europa, precisará dispensar vinte trabalhadores. Com o propósito de não cometer injustiças decide fazer um sorteio, sendo ele mesmo um dos sorteados, o que surpreende a todos, em particular ao seu companheiro de trabalho e amigo de infância, que ao contrário, o condena por esta escolha, ressaltando que sua posição na escala de poderes teria lhe permitido tal concessão. Assim se enuncia que seremos expectadores dos diferentes dilemas que assaltarão aos personagens ao precisarem fazer uma escolha ética. A título de reflexão, embora moral e ética possam ser tomadas como um conjunto expressam conceitos diferentes. A moral seria o conjunto de valores e normas que elegemos para nortear nossas vidas, que usamos para justificar, dirigir e dar sentido a ela e que em geral nos ajuda a discriminar o que aceitamos ou não como condutas a serem seguidas. Mas ao ter que colocar em prática estes “nossos” valores, estamos no exercício da ética, o que quer dizer enfrentar dúvidas e acertos com nossas próprias balizas. À medida que as questões éticas acompanham as transformações sociais, carregam mais e mais desafios, lembrando que em uma democracia o comportamento ético não se impõe: é uma adesão livre ao que se acredita ser o melhor a fazer e inclui as tensões impostas pelo poder, pelas leis, pela vaidade, pela violência (nossa e dos outros). A aposentadoria “forçada” de Michel lhe dará tempo para pensar sobre suas próprias convicções, inclusive aquelas que lhe pareciam tão límpidas e certas como o engajamento em uma cultura da liberdade, da igualdade e da solidariedade. Mas mesmo descendo aos infernos da dúvida, da raiva pelas injustiças sofridas, de sua própria imposição a uma certa conduta humanista, Michel mantém seu caule intacto, fornecendo pistas de um modelo humano possível, corajoso em sua abertura às contradições. Um contraponto ao personagem principal do filme "Um homem bom", o pacato e alienado Halder, professor de literatura na Alemanha que começa a ser invadida (em todos os poros) pelo nazismo, e que por medo, por falta de valores mais precisos sobre si, sobre o mundo e as pessoas, se deixa capturar pelas ofertas sedutoras de prestigio dos poderosos que gravitam em torno do fürher. Inverte e contraria suas próprias linhas de pensamento e, perdido em suas concessões, não consegue sequer ajudar seu (antes melhor) amigo judeu a escapar do cerco alemão. Como a nos lembrar de que muitas vezes é preciso coragem para não ficar indiferente ao que nos acontece. 

Para conferir:

Título: As neves do Kilimandjaro (Les Neiges du  Kilimandjaro)
França  2011                                                                                                                           
Diretor: Robert Guédiguian

Título: Um Homem Bom (Good)
Reino Unido / Alemanha/ 2008
Direção:
Vicente Amorim

Mal / Bem estar


A TV estava ligada na nova novela da Globo, “Avenida Brasil”. Tinha começado a assisti-la na expectativa de que sua trama lhe despertasse algum interesse, pudesse acalmá-la ou surtir algum efeito renovador, quem sabe ao menos afastá-la daquele turbilhão de pensamentos que puxavam mais um tanto de sentimentos e que irremediavelmente a jogavam no mesmo buraco de sempre. Suspiro.  Simpatizara-se com o nome escolhido pelo autor, “Avenida Brasil”, que sabe-se lá por qual  associação lhe remetera aos personagens do Veríssimo da “Família Brasil”  no Estadão, ao invés da controvertida Avenida Brasil carioca. A coluna do Veríssimo sempre funcionara como um oásis naquele monte de letras sem fim do jornal que seus pais assinavam desde sempre, além é claro, d’O Estadinho, único que exibia cores e os personagens da Turma da Mônica. As tirinhas da “Família Brasil” chamavam a atenção por sua simplicidade, de traços e conteúdo, embora sua ironia fosse além do que ela podia entender então. Foi a partir de sua adolescência que pode legitimar esta admiração e reconhecer a inspiração com que o autor descrevia as situações engraçadas e constrangedoras do cotidiano de todos. Um humor fino, beirando o absurdo, percorria as observações do pai, sempre às voltas com o seu salário curto, da mãe, dona de casa, da filha, eternamente apaixonada, do filho adolescente (com tudo o que este universo pode conter de situações surpreendentes) e do neto. Balançou a cabeça, um gesto que denunciava aquela conversa íntima com suas lembranças, e tentou voltar ao fio que começara a tecer. Ah sim, a nova novela das nove, que em pouco tempo desenhava personagens tão difíceis de simpatizar, ocupados em organizar planos maquiavélicos, estratégias de vingança, vestidos sem nenhum pudor com roupas de heróis sem caráter. Aquele cenário não lhe trazia a paz esperada nem lhe permitia a curtição de um entretenimento, ao contrário, cutucava, causava um certo incômodo e levava-a a divagar. Se por um lado a força e a urgência de uma boa audiência seriam fatores decisivos para as ideias e roteiros das novelas, os enredos certamente precisavam despertar a atenção dos espectadores, surpreender ou tocar fundo na alma da maioria. Mesmo não se considerando uma seguidora assídua, sabia serem as novelas um produto nada desprezível da cultura brasileira, que abrangiam uma enorme fatia da população do país. Era ao mesmo tempo um retrato social, um veículo de produção de certos ideais e promotor de debates sobre valores caducados e outros ainda em ebulição. E para acompanhar o volátil tempo atual, suas histórias (pelo menos as de peso) há muito haviam deixado para trás enredos assépticos, em que o bom mocismo imperava, os protagonistas eram todos idôneos e o amor sacralizado. Isso não combinaria mais com este mundo fluido, com valores sempre em cheque e  pessoas em permanente dívida com o futuro ou nostálgicas de um passado imaginado mais calmo. Ela mesma só estava ali pensando sobre todas estas coisas, porque havia quebrado a perna em um tombo ridículo, e restava-lhe zapear a TV dia e noite em busca de um programa ansiolítico ou ler na cama quando a insônia vinha lhe fazer companhia. Certo, duas impossibilidades em tempos “normais”. Voltou a parear a “Família Brasil”, um tanto e quanto ingênua em suas tiradas irônicas sobre as mazelas do dia a dia de uma família classe média e a “Avenida Brasil” com seus personagens ressentidos, vingativos e prontos a puxar o tapete de seus adversários. Acabara de chegar de suas sessões diárias de fisioterapia, um local agradável, que reunia (ao acaso?) profissionais delicados e alegres que, sem notar, criavam uma atmosfera afetuosa que contagiava a todos ali presentes. Um ambiente que “impunha” a troca de gentilezas. Pensar que esta paz era possível, que estava logo ali, ao seu alcance, lhe trouxe a PAZ que buscava. Desligou a TV, apagou a luz e adormeceu.

sábado, 7 de abril de 2012

A raça brasileira

Em 31 de março último houve um evento realizado pelo Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae  cujo título era O Racismo e o Negro no Brasil, um tema para lá de atual já que os males de nosso século parecem gravitar em torno da violência da xenofobia (nossa aversão/medo irracional e excessivo diante do diferente/desconhecido), da intolerância étnico racial ou religiosa. Aberto ao público, gratuito e no formato de um sociodrama, pelo menos um terço dos que ali compareceram eram descendentes de negros, vindos de diferentes setores e instituições da sociedade. O intuito era promover um debate a partir de uma sensibilização de cada um sobre as expectativas de sua presença ali, suas crenças e a percepção de si e do outro dentro da questão da discriminação racial. Levados a buscar e cavoucar lembranças de cenas impactantes ou importantes sobre o preconceito, aos poucos todos (vítimas ou não) foram adentrando no clima desta violência humana. É difícil pensar o “racismo” como uma invenção humana. Podemos pertencer como origem à determinada etnia, mas isso não nos coloca, a priori, abaixo ou acima de outras. No entanto, nossa história humana se ocupou em criar esquemas classificatórios que pudessem justificar a dominação e o desprezo de uns por outros. No mundo atual, ainda que os critérios biológicos possam atestar que cada ser humano tem uma individualidade genômica absoluta que ao interagir com o ambiente  molda uma exclusiva e singular trajetória de vida, convivemos com um imaginário cultural que muitas vezes classifica estrategicamente os indivíduos pela cor da sua pele, sua aparência física, sua condição social/intelectual, sua religião, de forma equivocada e moralmente irrelevante. A questão da representação social do negro no Brasil - embora recentemente venha sendo mais discutida - é extremamente complexa. As cenas de humilhação (e, portanto de dor) ainda se repetem, às vezes de forma violenta, mas em grande parte de forma velada. Em meio ao sociodrama, no corpo a corpo das cenas de “brancos” versus as sofridas pelos “negros” era impossível não perceber nossa distancia deste universo atravessado por injustiças. Se o “nosso” negro sempre encontrou barreiras para a sua integração à sociedade, mesmo que imperceptivelmente para muitos, continuamos a reproduzir este preconceito e a desigualdade. Aqui e ali ouvimos os ecos da romântica ideia de uma democracia racial brasileira ou da falta de um racismo institucionalizado (como o dos USA ou África do Sul), o que contribui para manter o mito de um paraíso racial, onde teria imperado um modelo escravocrata mais brando. Diferente sim, com certeza. Diante deste (mínimo) contato mais denso com sua “história” somos levados a constatar que para a maior parte dos descendentes negros pertencentes à geração dos pioneiros que lutam por um espaço novo em nossa cultura, a dor e o ressentimento (às vezes a raiva) são companheiros permanentes. É a geração dos jovens que ameniza essa tristeza. São eles que começam a poder se orgulhar de sua história, a buscar um reconhecimento de sua origem étnico-racial, a reconstruir sua identidade. São eles que apostam na transformação das representações sociais e se articulam para constituir ações, ocupar territórios interditados, expandir sua cultura. A contar e recontar sua própria história para curar as feridas e sair da invisibilidade.