As vésperas do final do mundo anunciado pelo calendário Maia, duas
noticias diferentes podiam ser apreciadas na mesma página de uma mídia digital.
De um lado, uma charge em que algumas pessoas do lado ocidental assistem e
comentam as imagens ao vivo exibidas por uma TV sobre o final do mundo na
Austrália e no Japão (que sempre acontece antes), de outro uma foto em que algumas
pessoas sentadas em círculo aguardam a passagem do dia 21 de dezembro, data
mística em que eles acreditam encerrar um circulo. Ou seja, embora a grande
maioria da população mundial faça piada ou descarte o valor desta profecia, há
sempre uma parcela que encampa a ideia de um apocalipse, um final dos tempos,
uma passagem importante. Apesar do prognóstico moderno de um esvaecimento da
religião, mantém-se a
crença na existência de uma força superior, de forças sobrenaturais ou de
sinais que confirmam um lugar para o “divino”. Por quê? Estaria a religiosidade
a serviço de tornar tolerável o intolerável da condição humana? Ou de dar um
sentido especial, menos “cru” para as nossas vidas? Não parece haver consenso
neste quesito, ao contrário, o assunto é sempre polêmico mesmo entre os que pertencem
à categoria dos “crentes” ou seguidores de algum conjunto de dogmas ou
práticas. Não é difícil aceitar que a
ideia de “Deus” seja hoje bastante flexível, variando conforme as tradições de
cada cultura, ou de cada sociedade. Se não há mais uma Grande Religião, que
forneça um (quase) único conjunto de valores ou que regule de forma absoluta o
permitido e o proibido mantemos no mundo atual um espaço de “religiosidade” ou
de espiritualidade que, para alguns, pode prover um sentido para as suas vidas,
para outros fornecer códigos que os ampare e permita um guia sobre temas
complexos da vida humana como a sexualidade, o casamento, a morte, o mal e o
bem, a pobreza, a miséria, etc. Há pouco tempo assisti a um filme que esteve em
cartaz no Brasil, um projeto coletivo, chamado “Sete dias em Havana”, que se
dividia em episódios para cada dia da semana cada um filmado por um diretor
diferente. Em comum, apenas a visão de cada um deles para Havana, a capital da
mítica ilha de Cuba. Mas porque fazer um filme sobre a Cuba atual, alquebrada,
com problemas sócio-políticos e financeiros que mantém um líder acamado, que
segue propagando a seu povo um ideal revolucionário empoeirado? Uma pergunta
que se assemelha e muito a muitas que foram feitas por todos que se surpreenderam com o barulho em
torno da profecia dos maias. Com origens e sensibilidades diferentes nenhum dos
diretores construiu alguma tese histórica ou politica sobre Cuba, mas prestou
sua homenagem ao pequeno país, destacando temas de seu cotidiano e aspectos de
seu povo e sua cultura. Estavam lá o sonho de escapar para uma vida menos dura no
exterior, os "jeitinhos", a boa música, a beleza e a sensualidade, o sincretismo
religioso, a tristeza dos que convivem com o exilio de seus queridos, o “mito”
encarnado mas já desgastado de Fidel. Parece que estamos fadados a criar
espaços em que depositamos crenças importantes para cada época. E hoje também
podemos conhecer um pouco mais sobre as crenças de cada um ou mesmo sobre a
falta delas.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Afia-se olhares
O que o tráfico e a exploração sexual de mulheres no
exterior, a morte da enfermeira que atendeu a princesa britânica Kate, o
julgamento do Mensalão ou o documentários sobre bullying podem ter em comum, além
de serem pautas de notícias recentes e despertarem polêmicas ou debates
acirrados? Vejamos. Tema da nova novela da Globo, o tráfico e exploração sexual
de mulheres no exterior volta ao centro da controvérsia entre os que defendem
os direitos humanos e os que militam pelos direitos das prostitutas. Uma
leitura cuidadosa dos argumentos de ambas as partes apenas revela suas complexas
tramas. Ponto para a novela que provoca tais discussões trazendo à tona um
debate de questões delicadas, que habitam as fronteiras do preconceito e dos
tabus além de ser um tema sob o foco das políticas restritivas de imigração de
países europeus. Dois apresentadores de um programa de rádio australiano telefonaram
para o hospital em que a princesa Kate Middleton havia se internado e, com
gravação ao vivo e imitando a voz da rainha, pediram para uma enfermeira que
lhe dessem informações sobre o estado de saúde da duquesa. Vítima da
“pegadinha” , que rapidamente se espalhou pela mídia, a enfermeira teria
cometido suicídio dias depois. Afinal como podemos definir o humor, sua função
no mundo atual e seus limites? Se para provocar risos o humor necessita buscar
a contradição, a transgressão, o deslocamento de algo, sempre de forma
inesperada, também é verdade que ele pode ser violento quando, por meio do
risível, humilha, faz cruéis caricaturas ou envergonha radicalmente suas
“vítimas”. Ou seja, um setor que também vive em fronteiras delicadas. Ainda em
andamento, o julgamento do Mensalão continua a forjar dissidências e discursos
inflamados, mas são poucas as vozes que apontam para o fato, inédito em nosso
país, da decisão do Supremo Tribunal Federal de punir políticos que ocupam
posições de poder estabelecidas. Nem governos de direita, nem de esquerda
deveriam se considerar acima da lei e o Estado não poderia estar a serviço do
sistema politico ou de grupos específicos; precisaria antes, ser um bem público
que pertencesse aos cidadãos. Mas que espécie de “cidadãos” somos nós,
brasileiros? Estaríamos dispostos, cada um, a reconhecer a universalidade das normas
quando aplicadas a nós mesmos ou não abrimos mão das benesses do poder e dos
favoritismos? Bullying, o inquietante
documentário do diretor norte-americano Lee Hirsch, escolhe cinco casos emblemáticos,
em quatro Estados americanos, acompanhando-os ao longo de um ano, não só para investigar
com mais acuidade a violência física e psicológica entre alunos, mas ampliar o
debate sobre um tema que envolve pais, alunos, educadores e policiais. Segundo
estatísticas, em 2011 treze milhões de crianças americanas teriam sofrido algum
tipo de bullying, nas escolas, nos ônibus, em casa, ou através de celulares e
internet. Claro que em maior ou menor grau, todos nós, em algum momento de
nossas vidas, mas principalmente na infância ou adolescência, somos vítimas ou
sofremos gozações e/ou constrangimentos por ações de grupos ou pessoas. Até
mesmo um bullying silencioso, tramado por intrigas, difamações, em que se espalham
comentários boca a boca, via internet ou redes sociais. Mas o que o
documentário expõe é quando esta prática ultrapassa a fronteira do permitido,
viola radicalmente as leis do convívio humano e instala a lei da selva. Ou
seja, em cada uma das notícias aqui veiculadas esbarramos nas difíceis e
permanentes fronteiras de todo processo civilizatório, quando fica a cada um e
seus descendentes a tarefa de desenvolver uma sensibilidade ética. Uma tarefa
para lá de delicada, que exige daquele que cuida ao menos um reconhecimento da
existência do outro. Pano para muita manga e muita discussão.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Novos guias para velhas questões
No final da década de setenta, finda a minha
graduação de Psicologia em Ribeirão, parti para São Paulo em busca de
especializações na área de clínica. Vinha com meu fusca e nenhum casaco de lã
na mala. Soluções para as temporadas de frio foram fáceis, mas dirigir em São
Paulo se mostrava enlouquecedor. A lógica era outra, as ruas quase nunca
seguiam uma reta, ou mantinham-se paralelas umas às outras, as avenidas não
tinham retorno à vista e as distâncias para se chegar a algum lugar ficavam
infinitas. Costumava colocar no colo um calhamaço de páginas que eu comprara
chamado Guia de Ruas de São Paulo, mas ainda assim era difícil entender as
rotas e alcançar os destinos de chegada, e o alívio era indescritível se isso
acontecesse. Quando meu filho fez 18 anos e tirou sua carteira de motorista, a
cada vez que ele precisava ir a algum lugar novo, construíamos um mapa caseiro
com algumas indicações importantes para evitar que ele se perdesse em algum dos
“logradouros” sem saída. Afim de que ele pudesse se situar na disposição dos
bairros e ter minimamente uma direção de ida e volta, compramos um mapa da
cidade que ficava aberto e pendurado como quadro em seu quarto, com algumas
marcas dos lugares mais comuns pelos quais ele transitava. A ideia era que aos
poucos ele pudesse se familiarizar com a paisagem urbana um tanto quanto
“caótica” e se sentisse mais seguro para arriscar novos caminhos. Estas
lembranças me vieram à tona ao ler, na Ilustríssima do último domingo, o
depoimento do escritor gaúcho André Czarnobai que, desafiado a passar uma
semana sem entrar ou usar a internet, narrou dia após dia os pormenores de sua
abstinência. Pensei em como os usuários do Google sentem-se a “salvo” não só
por suas dúvidas e inquietações, mas por seus desejos, já que há ali uma oferta
rápida e eficiente de informações que antes precisavam ser checadas em
instituições, dicionários, pais, autoridades, mapas, professores, médicos,
advogados, etc. Ainda que uma grande parte de gerações anteriores não aderiu ao
mundo digital e pouco se utiliza da internet, as “redes” que foram possíveis serem
construídas, o acesso à comunicação com amigos ou às informações diversificadíssimas
vão aos poucos constituindo um Grande Lugar de Amparo, inédito e surpreendente.
Se é verdade como preconizam muitos, que a nossa era se caracteriza pela
falência quase total de antigas referências que nos guiavam em nossos modos de
viver o presente e projetar nossos futuros, parece que as novas gerações se
encarregaram de buscar novas formas que deem conta deste desamparo. Vejamos.
Caso alguém queira organizar suas finanças, mas não tenha ideia de
regras ou funcionamento do mercado, fazer uma maquiagem, mas não confia muito
na sua escolha de produtos ou de cores, preparar um jantar para amigos queridos
com um cardápio inesquecível, conferir a grafia daquela palavra que há tempos
não utiliza ou fazer consultas sobre o melhor custo benefício de qualquer
produto que necessite, pode dispor de todas essas informações no clicar de
teclas nas pontas de seus dedos. É pouco? É possível também agendar e pagar as
contas, ler em qualquer tempo sobre algum tema que lhe seja caro, assistir a um
programa de TV, um filme, um show, ouvir aquela música que tantas recordações
lhe traz, buscar imagens/guias de cidades, países, obras de artistas significativos
ou ainda conferir/reclamar sobre qualquer produto comprado. Enfim, não há fim
para o sem- número de opções que se pode encontrar armazenados à disposição dos
usuários da internet. A ideia atrás da proposta feita ao escritor gaúcho era
definir se sua relação com a internet estaria já no campo do vício, tal e qual
uma droga. Mas a “falta” da internet nos sete dias propostos permitiu a ele
perceber que sua vida ficava sem este grande recurso facilitador. Seria
possível viver sem ela? Claro que sim, mas não valia a pena. Faz muito tempo
que meu filho não precisa mais dos mapinhas caseiros. E se isso confirma o
lugar de conforto que a Internet oferece aos jovens é importante lembrar que em
qualquer tempo ou lugar as novas invenções produzidas (por nós mesmos) para
ampliar o número de ferramentas que facilitem ou promovam maior satisfação a
nós ou às nossas vidas, jamais nos livrarão da responsabilidade que cada um
deve ter sobre seu uso.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Quem quer ser milionário?
Há poucos dias assisti um debate informal (mas inflamado) deflagrado a partir de um tema polêmico surgido em uma roda de amigos. A aprovação pelo Legislativo, em agosto último, de cotas de 50% nas universidades federais para alunos oriundos de escolas públicas, sendo priorizados estudantes negros, indígenas e/ou de baixa renda, provocava indignação em grande parte dos presentes, às vésperas dos exames vestibulares de filhos e netos. Embora eu tenda a simpatizar com iniciativas que busquem promover inclusão social, resolvi apurar os argumentos prós e contras que ali travavam uma disputa. Havia paixão, muita paixão nas defesas dos pontos de vista e era isso que mais chamava a atenção. Afinal, as cotas para estudantes de baixa renda, negros e índios para além de escancarar as enormes disparidades do nosso Brasil desigual, pareciam não demonstrar tantas diferenças de desempenho dos “cotistas” em relação aos outros estudantes, segundo algumas Universidades que já a implantaram. O que parecia prevalecer ali, em um dos polos, era uma grande resistência para pensar novas soluções para velhos problemas principalmente quando estas ameaçavam a destituição de um conforto aparentemente “adquirido”. De certa maneira há no Brasil um consenso (para o que têm e os que não têm) em torno de certas garantias de “bem estar” social para a elite. Do lado oposto, alguém se lembrou que o escritor afro americano Teju Cole, um dos convidados da última FLIP, a feira de literatura internacional, estranhou não cruzar com visitantes negros em Paraty. Pus-me a pensar que em meu bairro (SP) não há negros fazendo compras nos supermercados, lojas, dirigindo carros nas ruas, comendo ou bebendo nos bares e restaurantes. Detalhe, eles compõem um pouco mais da metade de nossa população. Outros frisaram como alguns países europeus, que adotaram políticas de inclusão generalista para deficientes (incluindo idosos que utilizam cadeiras de rodas ou andadores) promoveram o aumento desta população na ocupação de espaços públicos, o que poderia surpreender a todos os brasileiros, caso isso começasse a acontecer por aqui. Não estamos acostumados a ver deficientes nas ruas porque não temos políticas que promovam seu acesso aos lugares ou transportes públicos. Estes defendiam que a lei das cotas poderia servir para facilitar o acesso das classes menos favorecidas ao ensino superior. Ponto. A questão é que este tipo de discussão não se esgota em um plebiscito que pede o sim ou o não. Ela é para lá de complexa. Se por um lado nos ufanamos de nossa diversidade étnica, resultado de uma confluência de origens diferentes- indígenas, portugueses, escravos negros africanos, das ondas imigratórias de europeus, árabes e japoneses e mais recentemente asiáticos e sul-americanos - e muitas vezes somos lembrados por promover uma integração e uma miscigenação racial, tanto os negros quanto os indígenas brasileiros sempre ocuparam posições menos prestigiadas em nossa sociedade. Acostumamos a viver aceitando que sobre o grupo "negro", por exemplo, recaiam todos os tipos de estereótipos negativos. Há também certo “sossego” em relação a uma marca brasileira, o clientelismo, em que as relações pessoais ficam acima do poder público, a lei tende a ser aplicada apenas para os menos favorecidos, enquanto uma minoria privilegiada consegue burla-las. Minoria esta que é sempre branca, sendo o “branco” não apenas uma cor, mas uma qualidade social: aquele que sabe ler, que é mais educado e que ocupa uma posição social mais elevada. E se recentemente começa a existir um movimento de contestação destes valores, seja por meio de políticas oficiais mas sobretudo via cultura ( literatura, cinema, música, redes sociais), as desigualdades e sua “violência” no dia-a-dia continuam ignoradas. O preconceito é velado talvez porque de foro íntimo, e se reflete nas escolhas que fazemos ou nas relações que estabelecemos. Mais que isso, tendemos a colocar esta discussão como se fosse algo que não nos implica, ou seja, se há uma agencia promovendo leis, cabe-nos ser contra ou a favor, sem que seja necessário refletirmos sobre o sofrimento que esta exclusão produz. Sofrimento (no geral) do qual ninguém escapa, e diante do qual todos gostaríamos de ser acolhidos.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Fissuras
Se há um paradoxo do qual a psicanálise se ocupa é o
que imana do impacto do encontro entre o bebê e o adulto e tudo o que este
encontro produz de enigmático. A cada nascimento de um ser humano, aquela que o
gesta pode ou não antecipar sua existência ao imaginar e criar uma
representação para aquele feto que ali vive, pode ou não aceitar que ele seja
um outro e não uma continuação de si ou um intruso, pode ou não se relacionar
com ele atribuindo-lhe um nome e depositando nele projeções e idealizações de
sua própria historia ou desejos de felicidade, de heroísmo. Estamos falando
deste encontro certamente imprevisível e quase sempre perturbador que é dar a
vida a um novo ser, que produz uma mudança de lugar na cadeia geracional das
mulheres (e de homens), e que mesmo que para o observador externo seja um
processo que ocorra de forma asséptica e bem sucedida, esconde um desconhecido
em outro registro. Ou seja, toda a criação de um outro humano envolve a
violência do encontro com o “outro” e cabe ao novo-ser “traduzir” este impacto e
seus desdobramentos, com a ajuda dos que o cercam, durante seu longo e infinito
caminho de se tornar humano. Em cartaz no MAM (Museu de Arte Moderna de SP) de
setembro a dezembro deste ano a exposição “Histórias às
Margens” da artista carioca Adriana Varejão impressiona pela
ousadia com que ela expõe “suas” vísceras através de suas obras. Ao cruzar o umbral e adentrar nas salas somos tomados de um sentimento
de estranhamento e inquietação diante de enormes e belas telas de azulejos portugueses,
por exemplo, que apresentam improváveis cortes para revelar partes do corpo
humano, em geral vísceras extremamente realistas. E se este primeiro momento
impactante puder dar lugar a uma curiosidade sobre um certo “percurso” da obra
é como se a artista fizesse um convite a cada visitante para partilhar de sua
intimidade, de uma historia pessoal. Ao contrário de outras artes que
privilegiam a estética ou a invenção de novos modos de dizer o mesmo, tem-se a
impressão de que esta é uma arte viva, um verdadeiro “trabalho” de obra, como
se as telas fossem projeções de enigmas da artista, de corpo vivo e presente,
em busca de significações e traduções possíveis sobre si e o mundo. Nesta
exposição em especial, organizada de tal forma que pudesse criar um percurso em
ordem cronológica, quase um “resumo” de sua obra, é possível perceber um
deslocamento entre uma linguagem que apresenta um funcionamento primitivo
(vísceras) em suas tonalidades e intensidades, que aos poucos, mesmo
fragmentados, passa a apresentar partes do corpo humano, rostos da artista com pequenos
“furos” nos olhos até a surpresa da sala final, com seus mais recentes
trabalhos, grandes e lindos pratos de parede que expõem frutos do mar ou
frutas, em tons marítimos verde e azul, um convite ao prazer. Uma leitura
barroca, que admite as aberturas, as feridas, uma entre as infinitas
possibilidades de construirmos nossas representações de nós mesmos e do mundo,
que por sorte pode se deslocar e ampliar. Recomendo.
Para conferir: Adriana Varejão – Histórias às
margens
MAM SP (Parque
Ibirapuera) até 16/12 Entrada
gratuita
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Os políticos e os homens
O
processo eleitoral dos USA não tem passado e nem poderia passar despercebido,
já que a orquestração de sua economia e os rumos de sua politica externa ecoa,
para o bem e para o mal, pelo mundo afora. Não pude assistir aos debates entre
os dois candidatos Obama e Romney,
transmitidos ao vivo, mas acompanhei as noticias da disputa, das estatísticas,
do impacto de declarações de um e de outro ou ainda de seus titubeios. E
chamou-me a atenção um texto do escritor Chico Mattoso que reside em Chicago,
publicado no ultimo domingo pela Folha de SP, em que ele descrevia o sentimento
de cansaço da maioria dos americanos em torno da campanha de seus candidatos.
Seriam muitos os que não esconderiam seu mau humor diante do espaço “quase
infinito” que este período pré-eleitoral ocupou nas mídias, transformando o
país em um samba de uma nota só. Como ilustração deste tédio generalizado, em
clima de humor negro, até o furacão Sandy teria sido aclamado como novidadeiro,
desviando o foco dos comentaristas de plantão. Mas porque um processo eleitoral
que pretende atrair os eleitores para a discussão e o debate provocaria tal
desinteresse? Em que paragens andariam a beleza cívica do pleito, a festa da
democracia, perguntava-se o escritor. Surpreendi-me com esta leitura que me parecia
familiar, muito próxima ao que se assistiu com as campanhas politicas dos
candidatos a prefeitos nas recentes eleições de outubro no Brasil. As acusações
e denúncias de um lado a outro ao invés de espaços para o debate de ideias, as
estatísticas a favor de ventos inesperados e o povo apostando de maneira geral
no “novo confiável” que pudesse “calar” as encenações que, longe de fazer algum
apelo aos eleitores, causavam irritação. E não foram poucos os que se sentiram
aliviados ao término dos horários eleitorais gratuitos e dos espaços de
propaganda política na mídia. Às vésperas das eleições americanas, o jornalista
da Folha de SP Sergio Dávila (que já foi correspondente nos USA) analisava o
resultado da campanha eleitoral que, apesar de se configurar em um empate,
poderia favorecer Barack Obama neste 6 de novembro. Por quê? Dentre outras
causas, ele apontava que Obama representaria o “mal conhecido”, ou seja, que o
fato de ele ser "socialista", "muçulmano", e negro já teria
sido assimilado pela maior parte da população depois de quatro anos de governo,
enquanto o "polígamo", mórmon e "liberal enrustido" Mitt
Romney poderia representar uma surpresa desagradável. Em São Paulo, as eleições
foram ganhas por um candidato que pertence ao PT, o partido mais malhado nas
mídias nos últimos tempos, ao mesmo tempo em que seus antes respeitados
dinossauros eram condenados no julgamento do Mensalão. As pesquisas
pós-eleições informaram que esta escolha teria sido baseada principalmente no desejo de mudança e no fato do
candidato ser novo na política. Mas também no índice elevado de rejeição de seu
rival tucano, que teria se descaracterizado como político confiável nas gestões
anteriores. Aqui e lá, em ambas as eleições, o que parece prevalecer para o
eleitorado é que existe sim um “homem” atrás do político e de seu partido e resta
saber se há chances de se confiar nele, ou ao menos confiar mais do que em seu
opositor. Ou seja, na tentativa de se evitar embarcar ingenuamente nos
discursos prometeicos, estaria aberta a caça de algum novo índice de confiança
fora do circuito do romantismo militante ou da lógica de um partido político? Estaríamos
enquanto mundo global, mais sabidos a respeito de nossas mazelas humanas e mais
aptos ou ousados para apostar em novas maneiras de nos organizarmos, avaliarmos
e escolher nossos dirigentes?
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Com-paixão
Confesso não saber muito sobre Lady Gaga, além do
fato de sua persistência (e perspicácia) em manter os espaços midiáticos
atentos as suas (em geral bizarras) surpresas. Mas, ainda sob o impacto da
morte da cantora londrina Amy Winehouse no ano passado - com quem era frequentemente
comparada – a nova-iorquina Lady Gaga fez um pedido comovente ao público e aos
fãs para que cuidassem de suas pop (e super) stars, lembrando que Amy tinha
aberto as portas para garotas como ela, que não se encaixavam no mundo pop
tradicional, ajudando-a, por exemplo, a se aceitar como diferente e especial. Achei
simpática e sensível sua chamada. Recentemente uma outra reportagem incluía a
cantora, que em resposta às maldosas críticas de que estaria engordando teria
lançado a campanha "Body Revolution 2013" (Revolução do Corpo) ao
mesmo tempo em que fazia uma revelação bombástica, a de que desde os seus 15
anos, teria sofrido de transtornos alimentares como anorexia e bulimia. Muito a
vontade em seus apelos midiáticos, postou uma foto sua de biquíni, olhos
fechados, sem nenhuma outra “montagem” na imagem, como a incentivar seus fãs a
enviarem suas fotos naturais, principalmente àqueles que estivessem passando
por situações similares ou que já tivessem superado traumas e dificuldades. A
ordem seria aceitar seus corpos do jeito que fossem: magros ou gordos. A Folha
de São Paulo há poucas semanas, mostrava como sua campanha teria repercutido de
forma favorável em alguns setores médicos, ao revelar que o psiquiatra Takí
Cordás – responsável pelo Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do
Hospital das Clínicas de SP- teria louvado sua iniciativa admitindo que ela
pudesse ajudar os 4% da população mundial de adolescentes que seriam vítimas
destes transtornos, incitando-os a buscarem ajuda especializada. Com sua
primeira vinda ao Brasil marcada para o dia 9 de novembro no Rio de Janeiro e em
São Paulo no dia 11, em um flash mob,
muitos de seus fãs brasileiros compareceram à Avenida Paulista na tarde deste
ultimo sábado levantando as principais bandeiras políticas da estrela. Questionados,
a maioria se dizia feliz por saber que apesar de se reunirem tendo em comum um
sentimento de exclusão, desfrutavam do fato de possuir não uma madrinha
qualquer, mas uma pop star do quilate
de Lady Gaga, cotada entre as mulheres mais poderosas da atualidade, e que
ainda assim, encabeça esta causa e convida a todos a celebrar as diferenças,
que segundo ela seriam importantes na conquista da liberdade, da criatividade e
da felicidade. Lady Gaga não passa desapercebida e isso parece ser o lema de sua
vida artística, que caminha lado a lado com jogadas midiáticas, fruto de um
marketing permanente e atento. Mas não há dúvidas de que suas escolhas agradam
uma grande parte dos jovens (muitos fãs devotos), que se sentem acolhidos e
amparados por um discurso que lhes faz sentido. Afinal a adolescência costuma mesmo
ser uma época de nossas vidas em que nos sentimos extremamente vulneráveis, em
que nossa imagem corporal é totalmente refém de nossa incipiente ou inexistente autoestima, em que
quase nunca conseguimos falar em nome de nosso “euzinho”, sempre a se sentir
inadequado, fora dos padrões que imaginamos existir para outros adolescentes.
As distorções da imagem corporal, comuns nos casos de anorexia e bulimia, ajudam
a revelar a complexidade deste período em que temos que transpor as fronteiras
entre nossa dependência e autonomia e encontrar nossos próprios ideais, ainda
tão colados ao que nossos pais esperam de nós. Segundo palavras de uma fã, Joanne
Angeline Germanotta ou Lady Gaga, apesar de não ser uma unanimidade no mundo
musical, e alimentar continuamente os paparazzi que ficam a espera dos próximos
capítulos de sua vida, tem optado de forma corajosa por agregar valor social em
sua carreira, acendendo as tochas para que jovens do mundo todo apostem em seu
amor próprio. Porque discordar de madame?
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