quinta-feira, 30 de maio de 2013

Porque não é tudo azul


Em 1987 Philip Tetlock, então professor de psicologia e de ciência política de Berkeley (Califórnia, USA) resolveu investigar os resultados de previsões que cientistas políticos e outros pensadores faziam sobre fatos importantes (econômicos, políticos, sociais) que aconteciam no mundo. Nessa época, começava a desmoronar o antigo império socialista da União Soviética e dois anos depois cairia o Muro de Berlim, hoje vistos como marco importantes de um novo período mundial. Após 15 anos de pesquisa, Tetlock não só chegou à conclusão de que uma alta porcentagem das previsões destes pensadores não se confirmava, como os discriminou em duas grandes categorias, os “porcos-espinhos”  e as “raposas”, a partir dos resultados de questionários destinados a captar seus modos de apreensão do mundo. Em resumo, os "porcos-espinhos” seriam os que acreditam em certos princípios (grandes ideias) que regem o mundo e sustentam todas as interações que ocorrem na sociedade. Já as “raposas” admitem a fragmentação, acreditam em abordagens diferentes para um problema e tendem a ser mais tolerantes em relação às nuances, à incerteza, à complexidade e às opiniões discordantes. Para ele as “raposas” seriam os que conseguiriam fazer melhores previsões justamente por não se encantarem com uma ideia grandiosa e preferirem um exame mais minucioso e diversificado dos fatos (Caderno Ilustríssima do dia 12/05/2013). Mesmo com as diferenças e uma avaliação mais favorável às “raposas”, Tetlock reconhece ser a política um campo especialmente suscetível a previsões infelizes devido aos seus “elementos humanos”. Em uma recente entrevista, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman do alto de seus 88 anos afirmava ter passado sua vida perseguindo um único e nobre objetivo, o de ser capaz de compreender os seres humanos e o diálogo inter-humano. Conclui que nós preferimos habitar um mundo ordenado, limpo e transparente, em que o bem e o mal, a beleza e a feiura, a verdade e a mentira se encontrem nitidamente separados um do outro e jamais se misturam, para que possamos ter certeza de como são as coisas, aonde ir e como proceder. Gostamos de imaginar que os julgamentos e escolhas possam ser feitos sem o árduo trabalho de nossa compreensão. De certa forma Bauman afirma tal e qual Tetlock que temos uma tendência, provavelmente protetora, de “ordenar” nossa apreensão do mundo de uma forma mais simples e objetiva. Quanto à política, é hoje um tema dos mais viscosos, e em quase a totalidade dos países, o “político” está de braço atado aos interesses econômicos, sejam de empresas, do próprio Estado ou de seus “jogadores”. A infinita complexidade da dimensão política fica esquecida e mesmo a mídia, esquivando-se de um debate sobre as inconsistências ideológicas, dá maior visibilidade às disputas de poder entre os de esquerda e os de direita, os conservadores e os social democráticos, a situação e a oposição, os privilegiados e os oprimidos, e assim por diante. Avaliações de “porcos-espinhos”, diria o cientista americano, ou uma visão do mundo que tenta “ordenar” as coisas para não provocar dúvidas ou desconfortos, diria Bauman. Sendo a terceira maior cidade do mundo, São Paulo esbanja complexidade e deveria convocar permanentemente o setor público para as suas deficiências e a população para debater suas questões mais cabeludas. Mas São Paulo também exibe uma exuberante contemporaneidade cultural que a maioria de seus habitantes mal reconhece. Ela é, por exemplo, a cidade mais nordestina do Brasil, assim como possui a maior quantidade de negros. A Virada Cultural que acontece todo maio e já foi uma ideia de outros governos deveria ser apartidária. Uma ideia boa para todos não deveria ter dono. Aqueles que acorrem ao seu chamado e se preparam para usufruir da  sua extensa e variada programação sabem bem que para curtir a Virada Cultural  é preciso “compreender” seu sentido e deixar-se afetar pela convivência com as diferenças em toda a extensão que esta palavra pode ter: de classes sociais, de raças, de idades, de modos de viver, de cantar, dançar, de comer, de chorar, de se alegrar e até de não gostar. Nem “porcos-espinhos” nem “raposas”, nem um mundo muito ordenado, apenas gente disposta deixar a vida cotidiana e se deixar surpreender.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Pais, filhos, família.


Um casal de amigos que, assim como tantos, enfrentou as duras e conflituosas questões que acompanham as dificuldades de engravidar acabou decidindo adotar uma criança. Passados alguns anos e muito felizes em seus papéis parentais sentiram-se seguros para fazer uma segunda adoção. Na busca ou espera de opções se depararam com um casal de gêmeos e se apaixonaram pela ideia. Sua experiência foi tão satisfatória que abriu espaço para que um casal de amigos seus, que enfrentava as mesmas dificuldades, decidisse adotar uma criança. Coisas de destino, no abrigo em que escolheram seu “filho”, este só poderia ser adotado se seus dois irmãos também pudessem ficar juntos. E foi assim que de um dia para outro, eles se tornaram pais de três crianças, irmãos entre si. O processo de adoção, embora seja uma prática antiga no Brasil, sofreu transformações importantes nas ultimas décadas, principalmente a partir da implantação do ECA (Estatuto da Criança e do adolescente) em 1990. Os antigos “orfanatos”, quase depósitos de crianças abandonadas e órfãs foram se transformando em “abrigos” e a guarda, a tutela e a adoção de crianças ganharam normas e assistência de profissionais de diversas áreas – jurídica, social, psicológica- que cuidam dos trâmites necessários a este processo. No dia 27 de abril último, o Parlamento francês aprovou o projeto que permite tanto o casamento entre pessoas do mesmo sexo quanto a adoção de crianças por casais homossexuais, e o mundo assistiu surpreso os protestos indignados de uma parcela bastante significativa da população de um dos países com mais longa tradição na defesa dos direitos humanos. O que teria acontecido? Sem nenhum ineditismo, já que vários países (não só da Europa) já aprovaram tal medida e em muitos outros (no Brasil inclusive) estes processos (ou parte deles) tramitam no plenário, a gritaria parecia informar alguma mudança drástica demais aos modos de viver até então. Se atentarmos a uma certa revolução nos costumes, nem tão silenciosa, não fica difícil voltarmos algumas décadas quando a conquista da igualdade do direito das mulheres de viver suas vidas como bem quisessem transformou o campo amoroso e sexual e ajudou a fundar uma nova maneira de entendermos a constituição da família e seus sagrados lugares de pai, mãe e filhos. Nessa ocasião muitos pensadores saíram a campo tentando prever o futuro destas mudanças drásticas. Quais? Os anticoncepcionais permitiam as mulheres terem uma autonomia antes inimaginável sobre sua maternidade e sua vida sexual. Aos poucos as leis que regiam os casamentos - antes um projeto social amplo, construído em longo prazo - tiveram que “desconstruir” o que parecia tão natural, incluindo as leis sobre separações e divórcios. Tais liberdades abriram caminhos para que os homossexuais que viviam às sombras das sociedades pudessem inicialmente tímidos e depois com muita gana brigar por seus direitos. Em geral a promulgação de uma nova lei acontece quando na cultura aqueles comportamentos já estão em voga. Homossexuais de quase todos os países democráticos não só vivem maritalmente como muitos adotam crianças. É provável que a barulheira em torno da consolidação destes direitos tenha suas motivações em certa crença difícil de ser desconstruída: a de que nossa família não se funda mais em uma ordem natural, biológica e heterossexual, em que um “macho” deve copular com uma “fêmea” para que nasçam os filhos, perpetuando assim a espécie, os ritos e a tradição. Neste sentido demos mais alguns passos no afastamento  de nossa “animalidade” em direção a uma cultura humana, baseada em critérios sociais. As crianças vão precisar ser “adotadas” – em um processo de se tornarem filhos- e os pais terão que construir sua parentalidade, ou seja, “adotar” suas crianças sendo elas filhas biológicas ou não.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Desejar, falar, pensar, sonhar, fazer.


É comum aos que curtem cinema preferirem assistir aos seus filmes em boas salas, que ofereçam uma excelência de som e de imagens e assim facilitem o processo de envolvimento que a história vai apresentando, a ponto de muitas vezes se torcer para que o filme não termine, que se prolongue infinitamente. Claro que este tipo de mágica acontece quando há alguma identificação com os personagens ou com o tema apresentado. Foi esse o clima que vivi ao assistir a poucos dias atrás “Depois de maio”, do diretor francês Olivier Assayas. Reticente no início, imaginando tratar-se de mais um retorno (nostálgico?) ao cultuado ano de 1968 e sua marca revolucionária, foi decisivo o número de estrelinhas que acompanhavam seu título nos guias divulgados pela imprensa. Como prefiro me surpreender a me antecipar, não li resenhas ou críticas que pudessem diminuir as dúvidas. Fui. De lambuja convidei uma amiga que também curte cinema. Finda a sessão senti-me constrangida em demonstrar de forma muito efusiva minha (agradável) surpresa com a abordagem que o filme faz sobre um período importante de minha geração e de minha vida. Não precisei. Ela estava emocionada e se antecipou ao verbalizar seu pesar pelo término do filme. Queria que ele continuasse, que mostrasse as cenas dos próximos capítulos de sua vida. Tivemos que eleger um lugar para podermos falar uma à outra sobre este impacto. Uma entrevista no jornal Valor (28/04/2013) confirmava ser o filme uma maneira de o próprio diretor questionar este período de sua vida, o histórico anos 70, anos em que cabia aos jovens protagonizarem mudanças importantes ou se alienarem sob os véus da tradição, tamanha era a vala que parecia se formar entre o estabelecido e as transformações por vir. Lá estavam tanto o apelo ao engajamento político com a promessa de um mundo melhor e mais igual, que cobrava um envolvimento ideológico absoluto, quanto o movimento da contracultura que questionava os valores morais tradicionais e incentivava as experiências de libertação pelo amor, sexo ou drogas. Entre estes cabia ainda a todos decidir sobre suas realizações pessoais, seu futuro. Como se pudesse voltar e espiar a si próprio neste passado, o diretor preferiu não “romancear” a época nem glamourizar  algum destes dois lados e aproveitou este distanciamento para  refletir sobre os desejos, dúvidas e inseguranças dos jovens, quem sabe em busca de indícios que antecipassem a candura e a inocência daquela aposta em ideais humanitários tão elevados ou em modos de vidas tão alternativos. No filme, ao eleger Gilles como seu alter ego, empresta ao personagem a possibilidade (que talvez os jovens imersos nestas mudanças não conseguissem) de uma vista aérea de sua vida, dando-lhe assim a chance de debater suas escolhas. Ainda que se saiba que a “juventude” é um período (legítimo, diga-se) de suspensão, transição e passagem, Gilles encarna o adolescente “ideal” que busca de forma equilibrada um lugar para si no mundo, e tenta tirar o melhor dos dois lados. Nesse sentido é como se o diretor constatasse que nestas poucas décadas tivemos que nos haver (às duras penas) com esta promessa de felicidade (de um mundo perfeito com pessoas satisfeitas), que está longe de ser um estado a se conquistar já que o desencanto, os obstáculos, os reveze e as lutas para uma vida que valha a pena ser vivida fazem parte do pacote. Mas também de que estamos mesmo em um novo mundo, com um novo corpo, outra sexualidade, ética e moralidade e com modelos sociopolíticos caducos. Neste balanço entre seu passado e o presente - que o diretor convida-nos a participar - parece reverberar a citação do pensador francês Blaise Pascal proferida na primeira cena do filme pelo professor de literatura: “Entre nós, o inferno e o céu, há somente a vida, que é a coisa mais frágil do mundo”. Um convite à busca de novos sonhos e novas referências poéticas, já que aquelas que deram sentido aos anos setenta perderam seu prazo de validade.

Para conferir: “Depois de Maio” (Après Mai)  França 2013

Diretor: Olivier Assayas

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Entre utopias e nostalgias: os laços amorosos hoje


 
Dois filmes lançados há poucos anos e quase simultaneamente, traziam à tona  questões  importantes, embora diferentes sobre os laços amorosos na atualidade. O primeiro deles, “Antes do por do sol”, apostava na relevância do romantismo tanto nas escolhas quanto no discurso dos apaixonados e longe de ser piegas agradava a muitos por apresentar uma fórmula de romance sem a gordura da idealização. Tal composição não só tornava a história possível, mas cultuada por muitos jovens (homens e mulheres) talvez por facilitar o imaginar-se no lugar dos dois protagonistas, que sem quaisquer certezas, se jogavam na vida com suas inseguranças, anseios e apostas. Closer, o outro filme, preferiu enxugar todo o romance e expor “bem de perto” cenas bastante realistas da vida amorosa, revelando o avesso das paixões, dos desejos, dos ciúmes, das traições e das vinganças. “Perto demais” segundo Calligaris (em uma crônica sobre o filme no jornal Folha de São Paulo), seríamos muito normais, referindo-se ao fato do filme ter causado um misto de impacto e incômodo justamente por exibir nossos mais recônditos sentimentos.

Como se vê, a despeito dos dois filmes terem produzido suas marcas por vias controversas, ambos contaram com uma identificação significativa do público, como a mostrar que o que se passava na tela podia acontecer com as pessoas que habitam este mundo real e atual. Sem dúvida há um imenso acervo de histórias filmadas que privilegiam os conflitos, dores, dramas e anseios que giram em torno das relações amorosas. Não por acaso, já que ocupando uma grande fatia do cotidiano das vidas de quase todos, a paralisia (ou a angústia) de se perceber totalmente incompetente para fazer e manter laços, a agonia de suportar a ausência ou os ciúmes, as inseguranças frente as incertezas do sentimento do outro, ou do seu desejo, as dores de se saber não poder ser exclusivo para o outro, demonstram ser os laços amorosos um tema central, assim como seus tortuosos caminhos de busca e conquista, um dos mais discutidos.

As “utopias” e as “nostalgias” citadas no título acima, ou melhor, certos olhares que damos ao futuro ou ao passado como mantenedores de ideais - sejam eles quais forem- poderiam ser nossas ilusões, sem as quais nossas vidas se tornam áridas. Se utilizarmos estes dois termos como báscula do espaço ocupado pelos laços amorosos, é possível destacar tanto a visão nostálgica dos que lamentam viverem privados do romantismo apaixonado do início da modernidade, quanto os que o vivem como uma “utopia”, mantendo tal ideal como único sinônimo da felicidade a ser conquistada.

Sem muitas referencias sobre o destino destas apreensões, há os que refletem os laços amorosos humanos prevendo um futuro desastroso, frente a um sujeito “líquido”, sem interioridade ou capacidade de reflexão de si, colecionador de sensações, absorvido em si próprio e cujas relações seriam efêmeras. No livro “Amor líquido” o sociólogo Bauman  traça um painel da “misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, do sentimento de insegurança que ela inspira e dos desejos conflitantes de apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos”. Abandonados aos próprios sentidos e sentimentos, todos ansiariam pela segurança do convívio, mas em geral não suportariam ou não se sentiriam aptos a isso. Tal “incompetência” criaria um impasse na questão amorosa da atualidade, onde o ideal de felicidade atribuído a esta, teria que conviver com as impossibilidades na manutenção de vínculos, oscilando entre o sonho e o pesadelo, entendendo-se aqui os prazeres do convívio e os horrores da clausura.

Sem desconsiderar tais análises importantes e legítimas ou mesmo a complexidade das relações humanas na atualidade, fica a pergunta sobre o paradoxo da manutenção do desejo das relações amorosas, que desde a modernidade, resiste às transformações culturais e persiste em sua cadeira cativa de ideal de felicidade. Para o bem e para o mal, ou ainda por motivações conscientes e inconscientes diversas, a grande maioria deseja se ligar amorosamente a um outro, quem sabe porque, como afirma Bauman ,estar apaixonado ainda faz ressurgir a fé na regularidade do mundo e na previsibilidade dos eventos, indispensáveis para a manutenção de nossa ilusão.

A ilusão e seu lugar no imaginário humano foi tema das preocupações de Freud para quem a vida sem ilusões seria impossível, já que não seria alimentada pelo desejo que nos humaniza. Mas, se é possível utilizar adjetivos banais, há as “boas” e as “más” ilusões, e as “boas”, segundo Lajonquiére, seriam as que não mascarariam a marca da fragilidade de nossa existência e não formatariam a distância entre nós e os ideais que dão sentido à nossa vida. Seguindo tal raciocínio, poder-se-ia dizer que a aposta freudiana em uma subjetividade mais ciente de sua fragilidade em parte teria se realizado. Ponderemos. Não há como nos esquecer de outra afirmação freudiana que aponta nosso desamparo humano, baseado na premissa de que ao nascer, precisamos de cuidados de um outro para sobreviver, o que criaria para sempre a necessidade de sermos amados. Na base dos laços humanos estaria, portanto, a necessidade de ser reconhecido, cuidado e amado. E mesmo vivendo hoje o apogeu da ideologia do individualismo com nosso Eu a ocupar o lugar que antes pertencia à natureza ou a Deus, desejamos amar e ser amados e continuamos a buscar as melhores maneiras para isso. Se ousarmos encarar os sujeitos contemporâneos não pelo que deixamos de ser – até porque isso implicaria em uma norma de existência e, portanto, numa descrição moral - mas no que nos é possível, lembrando que somos sempre produtos da cultura que produzimos, abrimos espaço para pensar mais livremente  sobre os arranjos psíquicos dos laços amorosos atuais. Vale dizer que a intenção é propositalmente modesta, apenas uma tentativa de investigar e decifrar as regras da nova gramática amorosa, tendo como base os filmes citados.

Em meados de 1996, o diretor Richard Linklater apostou em sua boa ideia e convidou os atores Ethan Hawke e Julie Delpy para serem coautores (além de atores) no roteiro de dois filmes, rodados em dois tempos reais com os mesmos atores. Na verdade uma historia de amor que seria filmada em duas etapas, com intervalo de alguns anos (acabou sendo de nove anos), sendo que a primeira deveria se passar no romântico cenário de Viena e a outra em Paris. No primeiro filme, Jesse um americano e Celine uma francesa se conhecem num trem que corta a Europa e decidem passar uma noite juntos em Viena, local onde deveriam se separar. “Antes do amanhecer” (título do filme) eles voltam à estação de trem onde ela deverá seguir viagem à Paris e, sem trocar telefones, endereços ou sobrenomes, fazem uma promessa “apaixonada”: iriam se reencontrar ali, na mesma estação daqui a seis meses. Uma prova de amor?

Este seria o ponto de partida para o próximo filme. Nove anos mais tarde, Jesse escreveu um romance em que narra a sua história com Celine, e está em Paris para lança-lo na charmosa livraria Shakespeare and Company. À pergunta de um jornalista sobre o que teria acontecido com os personagens de seu livro, referindo-se ao fato deste terminar com a promessa de um encontro, Jesse responde que isto dependeria da visão de cada leitor, se cínica ou romântica. Mas a despeito de sua resposta cética, as intenções do diretor era mesmo se chafurdar no romance ao fazer adentrar nesse momento, ali na livraria onde acontecia o lançamento, a linda Celine. O fato pouco usual de serem dois filmes feitos com os mesmos atores encarnando os mesmos personagens em diferentes tempos de suas vidas, sendo eles também  co-roteiristas, dá um aspecto de veracidade que fisga de imediato o espectador. No primeiro filme, ainda adolescentes, eles falam de suas vidas, de seus projetos. A paixão é inocente, insegura, desprevenida e traz a aposta de um novo encontro às escuras, próprio dos sonhos onipotentes dos jovens. Na sequencia eles estão mais velhos, seus rostos mostram as marcas dos anos e seus diálogos as responsabilidades do mundo adulto. E é com sutileza, respeito e cuidado que vão contando um ao outro (tendo as ruas de Paris como cenário) sobre seus sucessos e fracassos, os ajustes que tiveram que fazer em seus ideais de juventude, e finalmente a importância daquele encontro passado, em suas vidas. Esteticamente belo o filme convida o público a se identificar com os personagens na intimidade dos laços amorosos que são construídos ali, ao vivo. Viena e Paris estão entre as mais belas molduras e habitam o imaginário da maioria das pessoas como cenário de grandes romances. A câmera acompanha os personagens a pouca  distancia, captando olhares, sorrisos, palavras, gestos e convoca o público a testemunhar o envolvimento de ambos e o impacto do encontro vivido no filme anterior, para a vida de ambos. Aquele encontro no passado transformara-se em uma referencia para o futuro. O mais inovador, no entanto seria a espontaneidade com que Jesse e Celine falavam de si, de seus medos, conflitos, inseguranças, e da tranquilidade com que refletem sobre suas escolhas, ilusões, conquistas e fracassos, seus projetos frustrados, enfim sobre o que acontece na banalidade da vida de todos,mas que tem o peso de ser o que importa. Mais que isso, em seus diálogos há um interesse genuíno de cada um escutar o que outro tem a dizer.

Em“Closer” , filme do diretor Mike Nichols, dois homens e duas mulheres vão viver encontros, desencontros, uniões e rupturas numa combinação de sexo, paixão, traições, vaidade e rivalidades, compondo uma crônica da complexidade das relações amorosas humanas atuais. Aqui, desejo, amor e o sexo são apresentados formando várias composições diferentes e possíveis e os personagens estão às voltas com o desafio de combinar as imposições de seu individualismo com suas faltas e ideais. Não há julgamentos morais sobre suas escolhas, consistindo aí o encanto do filme, por deixar o público à vontade para viver seus próprios sentimentos, ao identificar-se aqui e acolá com o drama dos desejos humanos.

Passado em Londres, seu cenário urbano é o das grandes metrópoles atuais, portanto global, e conta a história do entrecruzamento de quatro personagens. Dan é um escritor frustrado que escreve em obituários de um jornal e se envolve com Alice, uma stripper americana, após um acidente em que ele a socorre. Tempos depois se preparando para o vernissage do romance que escreveu sobre seu relacionamento com Alice acaba atraído por Ana, a fotógrafa que fará a capa de seu livro. Ana percebe seu interesse e inicia um jogo em que o rejeita a princípio, pois também fotografa Alice. Não querendo e nem podendo esquecê-la Dan decide intervir em sua vida armando um encontro via um site de relacionamento da internet entre ela e o dermatologista Larry (com o qual mantinha um chat disfarçando-se de mulher), ao qual pretende monitorar a distancia. A partir daqui, os espectadores acompanham os enlaces e desenlaces amorosos dos quatro personagens em que questões difíceis vão sendo apresentadas como painéis do repertório amoroso atual: como cada um define para si o que representa apaixonar-se por alguém, o que quer ou deseja desta pessoa, o que acontece quando um dos dois desiste, ou trai, como é ouvir o outro falar de seus sentimentos mais íntimos, mas que  perturba e fere, etc.  “Closer” previlegia os impasses das ligações amorosas, desde a insegurança da solidão e, portanto, a expectativa de enlaçar-se amorosamente com alguém, à insegurança que a relação provoca. Na falta de garantias, ou na tentativa de controlar o jogo amoroso entra-se facilmente no terreno das humilhações e/ou da arrogância, da submissão e/ou poder absoluto. A titulo de ilustração, durante a realização deste texto, foi enviado via e-mail para dez pessoas de idades e sexos diferentes e que assistiram aos filmes, algumas questões para que  relatassem em poucas palavras suas impressões.

De um modo geral, a repercussão dos filmes para elas se deveu ao fato de evidenciarem tanto os valores admitidos e compartilhados num plano social, como os vividos na intimidade, hoje mais livres dos cerceamentos morais, o que daria o tom de legitimidade que todos lhe atribuem. O fato das relações amorosas se passarem no espaço da privacidade aponta para as questões morais individuais, que na atualidade estão muito mais submetidas aos critérios subjetivos de cada um. Os filmes mostram como estas questões dependem e precisam ser negociadas entre os parceiros, e seus custos, renúncias e riscos, indexados conforme as possibilidades e limites de cada um. A saga romântica dos filmes de Richard Liklater coloca os ideais amorosos a uma distancia possível, o que funciona como um alento para jovens e adultos que  se sentem capazes de poder viver/sentir o mesmo. Ali são mostradas de forma delicada as marcas de certos encontros que tem o poder de nos remeter ao mesmo tempo ao “passado” da experiência prazerosa e ao “futuro” do que desejaríamos que acontecesse. Muitas pessoas apontaram as diferenças de gênero que ambos os filmes evidenciam, ou seja, de que os personagens são compostos levando-se em conta que os homens agem, pensam e sentem diferente das mulheres, a despeito da simetria da liberdade amorosa e sexual de ambos.  O fato de hoje os sujeitos terem mais liberdade para viver separadamente amor, casamento e sexo amplia as possibilidades de composições de experiências que são articuladas tanto às questões de gênero, quanto aos ideais. Se é verdade que há um certo alargamento do presente e portanto um aumento das experiências, pelo menos no item amoroso as referencias nostálgicas  ou as categorias de um porvir não desapareceram. Sabemos o quanto faz parte da linguagem amorosa, as promessas, compromissos e perdões. Assim também como é patente a busca de segurança e conforto nestes enlaces.

Estes comentários são apenas uma amostra do que seria possível  levantar em um mapeamento das relações amorosas na atualidade,  um vasto campo de pesquisa justamente por se constituírem como um valor que se mantêm impermeável às mudanças de outros. De qualquer forma, apesar da manutenção do laço amoroso como um ideal de felicidade, ficam evidentes as mudanças da relação dos sujeitos com este ideal na atualidade e é fato que o laço amoroso permite às pessoas partilharem de um horizonte de sentido que, ainda que seja ilusório, oferece chances de construção de um futuro ou de novas “utopias”.

Gisela Haddad

Texto apresentado no X Encontro Psicanalítico do CPPL - Recife “Novos temas para a Psicanálise?!” 26, 27 e 28 de maio de 2005
             


domingo, 21 de abril de 2013

Intervalo


Ainda que timidamente, ao longo dos últimos anos foram sendo lançados filmes cuja temática girava em torno do envelhecimento. Lembro-me que em um deles, cujo nome em inglês (Late Bloomers) poderia ser um “despertar tardio”, traduzido aqui por “Amor sem fim”, a bela Isabella Rosselini, em crise com um marido (William Hurt) que se recusava a aceitar o fato de estar envelhecendo, matricula-se em uma academia e em  uma tentativa de testar sua “visibilidade” ensaia uma entrada na lanchonete logo após notar que todos os homens ali presentes haviam virado a cabeça para olhar uma jovem que passara. Mal sucedida, apesar de ter desabotoado alguns dos botões de sua blusa, ela se senta desolada, certa de ter se tornado “invisível”. Se a grande maioria dos filmes preferiu abordar o tema pela via da comédia romântica, alguns sublinhando as mudanças na vida sexual, caso dos hilários “Alguém tem que ceder” e “Simplesmente Complicado”, o diretor Michael Haneke (Amor) levou o Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano com um difícil, duro e melancólico filme que aborda de forma crua a “decadência” física de seus protagonistas e cônjuges, ambos próximos dos 80 anos. Por ocasião de seu lançamento, muitos que o assistiam aconselhavam seus/suas colegas mais velho(a)s a não irem com muita sede ao pote (evitarem ver o filme), tal o impacto de sua realidade. Nem seria preciso repetir o argumento de que o envelhecimento na atualidade vai conquistando sim uma visibilidade, mas muito mais por ser uma nova (e ainda desconhecida) realidade. A faixa dos 70 aos 100 anos ganhou uma população que antes era escassa ou praticamente inexistia, o que tem exigido esforços de todos os lados (famílias, governos, ciências) em busca de politicas publicas e novas pesquisas nas áreas da saúde, etc., na tentativa de ajustar/inventar soluções que lhes ofereçam algum bem estar. Por outro lado cria-se uma expectativa de vida difícil de ser prevista, apostando aqui que alguns possam desejar fazer essas previsões. É muito mais comum a recusa a se imaginar velhos, pois as limitações que a velhice impõe quase nunca são agradáveis de serem pensadas, além de tornar muito próxima a ideia da tão temida morte. Mas há os que enfrentam essa dolorosa reflexão e tentam minimamente antecipa-la. Como estarei vivendo aos 80? Poderei andar normalmente? Minha memória estará intacta, estarei lúcida/o? Terei companhia, vou querer conversar, contar sobre minha vida? Vou morar em minha própria casa dependendo de cuidadores ou filhos ou vou para uma casa de repouso? Como passarei meus dias? Poderei me sentir feliz? Sem dúvida esta ultima questão resume de certa forma as inquietações sobre o envelhecimento. Uma amiga próxima me contava que seus pais, cujas idades já ultrapassaram os 80 anos, estavam vivendo uma “boa” velhice. Para ela, o adjetivo “bom” só poderia ser empregado se ainda houvesse “paixões” possíveis. Seu pai, por exemplo, adorava cumprir uma rotina diária em que lia os jornais e depois se ocupava em montar um cardápio que lhe apetecesse e para o qual deveria sair em busca dos ingredientes. As noites eram reservadas para jogar tranca  com amigos do condomínio. Após sofrer um tombo, porém, teve que se confinar em casa e passou a ficar muito entristecido. Muito angustiada e impotente diante daquela tristeza, minha amiga constatava perplexa essa rápida e inesperada mudança. De uma hora para outra seu pai havia perdido a vontade de viver. Sensível, sua cardiologista propôs que contratasse um motorista/cuidador por algumas horas para que pudesse sair e dar continuidade a parte de sua rotina, o que fez com que ele aos poucos recuperasse sua “vida”. O problema é que as paixões precisam ser orquestradas pelas almas. Ou pela do próprio protagonista ou a de alguém que possa interpreta-las.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Já ouviu falar?


Quando em setembro de 2012 participei do FDC Experience a convite de uma de suas organizadoras estava bastante curiosa para assistir o  convidado da rodada final de conversas, Bernardo Paz, o polêmico idealizador de Inhotim, museu de arte contemporânea de Brumadinho, pequena cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. O FDC Experience é uma proposta da Fundação Dom Cabral (também mineira) - que figura entre as 10 melhores escolas de negócios do mundo-  e foi pensado para ser um evento anual que reunisse gestores espalhados pelo Brasil, dispostos a ouvir e debater novos rumos e cenários de modelos organizacionais junto a pensadores de áreas diversas como economia, história, tecnologia da informação, jornalismo, psicanalise, arte. Mas Bernardo Paz não se enquadra em modelos e tampouco se submete a padrões para comparações. Ele é um intuitivo, como ele mesmo costuma se definir. Quando conta a história de Inhotim não a separa de seu destino inquieto e atormentado, sempre insatisfeito, sempre angustiado, sempre ansioso, sempre deprimido, pelo qual toma pílulas para dormir e outras para acordar. Também não se considera um conhecedor de artes, embora fale com paixão sobre seus jardins botânicos exuberantes da grife do amigo Burle Marx com espécies tropicais raras ou de cada um dos “pedaços” de sua fazenda, que foram sendo ocupados pela arte de artistas brasileiros e estrangeiros de renome e compõem hoje um dos mais importantes acervos de arte contemporânea. Seu depoimento comove, no entanto, porque é espontâneo e parece querer convocar a todos a seguir seus sonhos, mas realizar algo pela humanidade. Estas lembranças me ocorreram quando poucos dias atrás a mídia anunciou o lançamento no Brasil do livro “Governança Inteligente para o Século XXI: Uma Via Intermediária entre Ocidente e Oriente”. Escrito a duas mãos, um de seus autores (o outro é cientista político), o alemão-americano que se auto intitula  investidor e filantropo e cuja fortuna ocupa algum número no ranking da Forbes, desde 2001se desfez de seus bens materiais – casas e carros incluídos – para se dedicar às ideias que pudessem contribuir para mudar os rumos dos governos do mundo. Com olhos discriminadores para as políticas governamentais de países diversos (Ásia, Europa, USA, América Latina) e suas relações com a sociedade civil, o mercado financeiro e as inovações tecnológicas, ambos buscam alguns sinais que indiquem um ponto de equilíbrio possível entre esses eixos, levando em conta as diferenças culturais de cada região do globo. Ou seja, não buscam fórmulas prontas e únicas e sim “manipuladas” caso a caso e para isso constituem pequenos grupos de intelectuais interessados em compor “usinas de ideias”. Já na cidade de São Paulo um grupo de jovens resolveu ocupar (de 5 a 14 de abril/2013) o chamado "baixo centro"  - os bairros de Santa Cecília, Vila Buarque, Campos Elísios, Barra Funda e Luz - com atividades culturais. Por acreditarem ser a ocupação  da cidade um direito de cada cidadão e com vistas a convocar a população local a se integrar, o projeto que inclui entre outras coisas intervenções urbanas, debates, desfiles, música, shows,foi organizado de forma a captar recursos por um sistema colaborativo, uma espécie de financiamento coletivo. Para viabilizar as 530 atividades inscritas, foi calculado um valor “x” que precisaria ser alcançado até a noite de segunda feira  dia 1°de abril, via contribuições pelo site. Detalhe: o cálculo dos custos ficava disponível para consulta em uma planilha on-line e caso não se atingisse o tal valor, todas as contribuições retornariam aos seus “donos”. Bingo! Eles conseguiram. Enquanto eu escrevia este texto pensava que atos revolucionários independem de épocas ou de fórmulas prévias. Às vezes são apenas boas ideias.

sexta-feira, 29 de março de 2013

O peso da liberdade


Uma amiga me contava que a vida em cidades do interior, se tem suas vantagens no quesito “qualidade” também pode ser bem pesada quando certas condutas consideradas “outsiders” (fora do padrão, ou melhor, fora do esperado) ficam mais expostas aos julgamentos morais da maioria. Detalhe, ela reclamava das reações à sua recente separação conjugal, que imaginava não ser mais motivo para tantas exclamações. Afinal porque era tão difícil respeitar escolhas tomadas na intimidade de vidas privadas? À medida que ela me contava sua aflita sensação de estar sendo equivocadamente julgada me lembrava de uma época já distante, criança ainda, em que a quase totalidade da população de minha cidade, incluídos aí meus pais, seguiam os preceitos da religião católica. Encaminhar os filhos às escolas para serem alfabetizados tinha o mesmo peso de envia-los ao catecismo, cujas aulas faziam parte dos currículos das escolas primárias. O discurso “laico”, ou seja, dos professores e pais confundia-se com as normas religiosas. Batismos, primeira-comunhões, crismas, missas aos domingos e procissões eram eventos sociais que compunham a vida de quase todos e estavam pareados em importância com outras festas (pagãs) como os bailes, o carnaval, o réveillon, os desfiles patrióticos, os campeonatos esportivos, os jogos coletivos, etc. Pensei de imediato como aquilo que tomamos como “normalidade”, ou melhor, o que a cada época instituímos como permitido, como esperado, está à mercê das leituras que fazemos (com nossa comunidade, nossa cultura) sobre os sentidos e modos de se estar no mundo. A inusitada troca de papas acontecida recentemente trouxe à tona uma infinidade de debates a respeito do destino do catolicismo (e de suas mais polêmicas restrições), algo que na época descrita acima seria impensável, quando ao contrário, a maioria dos “pais” desfrutava do conforto das normas religiosas na escolha dos caminhos morais da educação de seus filhos. Emprestando sua leitura sobre o certo e o errado como verdades inquestionáveis a religião católica era uma grande parceira nesta empreitada. Mas os movimentos de transmissão, aquilo que passamos à geração seguinte, costumam balançar entre a continuidade e a ruptura e quando existe um espaço de liberdade, as inquietações, os pesares e amarras são repensadas, não sem muitas resistências do que parecia estabelecido. A antropóloga e professora da UNB (Universidade de Brasília) Debora Diniz participou dia 1° de março em Belém da primeira reunião de conselheiros médicos do país para a discussão da descriminalização do aborto no Brasil, uma espécie de deliberação sobre o direito das mulheres decidirem sobre o futuro de suas gestações. Levava consigo os números de uma pesquisa em saúde pública brasileira sobre o aborto ilegal e inseguro e muitas histórias de mulheres em sofrimento. Segundo ela entre os 18 e os 39 anos, mais de 3 milhões de mulheres, em algum momento de suas vidas reprodutivas, realizaram um aborto ( ilegal, é claro) e temeram pela sua saúde (e vida), pela sua fé ou pela sua prisão. Na mesma reunião participavam um representante da igreja católica e um promotor de justiça, ambos defendendo os riscos do aborto, cada um em sua praia. No texto em que descreve suas impressões sobre o evento (publicado no caderno Alias do Estadão no dia 24 de março ultimo) a antropóloga faz um balanço dos 20 anos desde que, pela primeira vez, a descriminalização do aborto foi pensada pelo Conselho Federal de Medicina como uma necessidade de saúde para as mulheres. Sentiu-se premiada ao presenciar a declaração do CFM  “a favor da vida”, ao assumir uma posição ética que reconhecia a autonomia das mulheres para decidir pelo aborto e dos médicos pela assistência à saúde. Ao se posicionar a favor do direito de escolha, o CFM ajudava a retirar o tema do aborto de uma ordem moral religiosa, hegemônica até então em nosso país, e a serviço do silenciamento de temas que nos são caros, geradores de conflitos e angustias, como a morte e o sexo. Claro que poderíamos construir muitos parágrafos se quiséssemos dar voz a um júri composto de pessoas diversas, convocadas a opinar sobre o tema. A gritaria em torno da escolha do pastor Feliciano para o comando da comissão de Direitos Humanos é um exemplo de como a sociedade se divide quanto às suas escolhas “morais”. O fato é que a falta de um consenso sobre nossas condutas morais, que muitas vezes nos faz sentir saudades das velhas referências, parece ser o preço a pagar pela conquista de nossa liberdade de escolha. E quem sabe viver uma boa vida hoje não mais signifique “adaptar-se” completamente  a algum status quo,  mas conseguir  certa flexibilidade capaz de matizar as mudanças. Minha amiga está bem, mas teve que se haver com a falta de consenso em torno de sua decisão.