quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Mães, filhos e aflições


Uma jovem mãe contava a outras jovens mães sobre sua agonia desde que havia se dado conta que suas duas filhas, com diferença de apenas um ano, haviam entrado na pré-adolescência. Sem parâmetros, sentindo-se perdida na difícil tarefa de discriminar o que consentir e o que proibir, o que não dar importância e o que se preocupar, ela teria encontrado certo alento na interlocução via Facebook com outros pais/mães de adolescentes. Havia descoberto a página do Facebook intitulada “Mães e pais de adolescentes” destinada a incentivar a troca de ideias e dicas sobre os filhos. Fui conferir. Simpática, a tal página anuncia quem é o seu público e convida os pais/mães a conversarem ali. Também descreve esta atordoante faixa etária ponderando sobre seu fascínio num mundo em que crianças e adolescentes usam teclas e botões “como se fossem  extensões de seus dedos, falam a mesma língua dos softwares e aprendem rápida e facilmente tudo o que lhes desperta o interesse.” Mas pondera que esta facilidade de tudo saber confunde-se as vezes com o tudo querer, o que tornaria difícil para os adultos/pais manterem seu foco na árdua tarefa de educa-los. Democrática e aberta, incentiva a todos a dar voz às suas aflições e/ou aos seus conselhos. A jovem mãe que está contando às suas interlocutoras sua descoberta, no entanto, não parece satisfeita. Há muitas perguntas sem respostas e ela continua aflita, sentindo-se incompetente e perdida. Em sua coluna na Folha de SP do dia 20 de agosto de 2013, sob o título “Depressão e autenticidade” Vladimir Safatle , baseado em uma recente pesquisa que diz que em cada cinco mulheres, uma passará por depressão ao tornar-se mãe, convida a todos a refletir sobre  o ônus que a experiência social de ser mãe carrega na atualidade. Referindo-se ao fato de que hoje as mulheres já não têm modelos únicos ou formais do “tornar-se mãe” como acontecia até algumas décadas atrás, ele aborda o despreparo de todas diante do inevitável confronto com bebês (filhos) que despertam sentimentos ambíguos e contraditórios. Longe de fazer a apologia da tradição “de mãe para filha” em que os mitos e os rituais não eram questionados e valiam para todos indiscriminadamente, e diante do atual arsenal de especialistas que prescrevem caminhos a seguir, ele questiona o lugar dos afetos que tendem a ser silenciados por todos – pais, parentes, especialistas. Lembrei-me da história contada por minha faxineira sobre uma conhecida sua, mocinha de 23 anos, que se casou com um rapaz um pouco mais velho, 33 anos, descasado, que já tinha um filho de seu primeiro casamento. Apaixonada, sonhava em ter um filho com ele como a consolidar a relação. Grávida de 8 meses viaja para o Nordeste a fim de visitar seus familiares. Na volta, em visita a uma cidade vizinha, o bebê rompe a bolsa e “decide” nascer. Sem conhecer ninguém ela passa horas à espera de um atendimento no hospital. Como seu nenê não acompanha o desenvolvimento esperado começa a leva-lo a médicos que indicam a ressonância magnética para um diagnóstico mais apurado. Nas datas marcadas para o exame, sem explicações plausíveis, falta sistematicamente. Morre de medo de saber que não tinha conseguido gerar um filho perfeito. Paralisada e envergonhada, não consegue ser a mãe que tinha imaginado, o que faz com que seu filho também não possa “existir”. Quando finalmente comprova ser ele “normal”, pode enfim olha-lo com amor e exibi-lo orgulhosa. É provável que a mãe das pré-adolescentes sinta-se inundada/assaltada por seus fantasmas adolescentes, incapaz de responder a si mesma sobre suas questões ainda tão confusas. Também ela tenta silenciar seus ruídos e os que são provocados pelo confronto com esta passagem das filhas.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

post scriptum


Uma notícia curiosa veiculada na mídia digital anunciava um novo programa de entrevistas – Retrovisor - comandado pelo jornalista Paulo Markun. Detalhe, os entrevistados seriam personagens históricos brasileiros já mortos e por isso, representados por atores. Gravados na Biblioteca Municipal Mario de Andrade de São Paulo a plateia estaria convidada a participar das perguntas. Uma ideia bastante original que de certa maneira realiza um sonho humano nada raro de voltar ao passado e confrontar ideias, crenças e atos de pessoas que marcaram a historia. A notícia me remeteu a uma recente entrevista concedida ao programa matinal de Alexandre Machado na Radio Cultura FM, pelo autor da biografia de Getúlio Vargas, o jornalista e escritor Lira Neto que há poucos dias lançou o segundo volume de sua trilogia sobre este importante e polemico personagem brasileiro. Na entrevista, ao ser questionado sobre o período em que Getúlio teria se tornado um ditador, o biógrafo ressaltava o fato de que não há História sem contexto, e sua fala não escondia sua admiração pela inteligência e sagacidade do homem e do político cuja vida  pesquisa/vasculha há três anos. Outro jornalista, o espanhol Juan Arias, que viveu grande parte de sua vida na Itália como correspondente do El Pais, por ocasião da vinda do papa Francisco ao Brasil, teria concedido algumas entrevistas sobre o longo período em que esteve respirando o clima do Vaticano, particularmente nos papados de Paulo VI e de João Paulo II. Emocionado, lembrou certas particularidades de um e outro, seus estilos, seu pensamento. Considerado um estudioso de religião por ter frequentado cursos na Universidade de Teologia e no Instituto Bíblico de Roma, defende a ala progressista da igreja católica, mas avalia com otimismo a escolha do novo papa. Convidado a fazer uma distinção entre informação, análise e opinião, Arias confessou ser esta uma questão complicada. Para ele, um mesmo fato, uma mesma notícia ou uma entrevista com algum personagem importante é perpassada pela ótica –e pela sensibilidade - de quem realiza. É bom lembrar que estamos falando aqui de uma mídia formal, de jornalistas de carreiras que se dedicaram a entender o mundo que os cercava e não se furtaram a opinar sobre isso. A recente exposição do coletivo Mídia Ninja, cujos representantes foram sabatinados no programa Roda Viva da TV Cultura no dia 6 de agosto último, lançou um debate sobre o futuro do jornalismo (e jornalistas) das grandes imprensas, ameaçados pela difusão de uma nova maneira de se publicar noticias, aberta a todos, nas redes sociais. No mesmo dia 6 de agosto uma notícia fazia tremer a capital federal americana ao dar como certa a compra do tradicional jornal Washington Post pela Amazon. Entre textos ácidos, nostálgicos e ponderados, todos tentavam espreitar o porvir, o futuro pós-revolução digital. Do coletivo de jornalistas que se propõe como alternativa ao "mainstream", um dos entrevistados e co-fundador da Mídia Ninja, Bruno Torturra, lembrou que a opinião pública divulgada via rede, tem narrativas múltiplas e é em geral uma salada ideológica. Mas chamou a atenção para  o que se assistiu durante as manifestações de junho, em que a opinião publicada, que tem o monopólio sobre o que é a opinião pública, sofreu o constrangimento de não divulgar o que acontecia e teve que correr atrás para acompanhar as notícias/fotos/vídeos que jorravam nas redes. A verdade é que isso que chamamos Informação quando remetida aos fatos importantes já ocorridos ou às histórias que valem a pena serem revistas sobre personagens já falecidos, nunca mais será a mesma, já que será revisitada e seu contexto será analisado de acordo com as referencias do momento atual. O mesmo vale para as informações /opiniões a respeito de novos e inusitados acontecimentos e o que se delineia é que o mundo digital apenas amplia as opções e com isso possibilita aos que querem saber, um leque mais diversificado de opiniões. No mínimo um ponto a mais em direção à idealizada/paparicada/ falada democracia Por outro lado, não há como negar que novas cores se delineiam no céu das mídias. Resta saber quais serão.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quem quer ser evangélico?


Nada mais “in” do que analisar a crescente visibilidade e porcentagem de evangélicos no Brasil à luz da mobilização de católicos em torno da visita do Papa Francisco I ao Rio de Janeiro. Foi mais ou menos este o teor do texto publicado na Ilustríssima do dia 21 de julho de 2013 em que o sociólogo da USP Reginaldo Prandi acompanha o deslocamento de uma população antes majoritariamente católica para o que ele chama de pentecostalismo. Longe de ser uma tarefa fácil já que são muitas as variáveis, algumas bastante complexas! Dentre os temas, a constatação de que assim como a religião católica empreendeu modificações em seus rituais muitas décadas passadas, a fim de se adequar aos tempos modernos, as religiões evangélicas teriam feito uma recauchutagem bem mais radical nas últimas duas décadas. De uma tônica que preconizava a vida austera e simples, adotou-se a teologia da prosperidade, bem ao gosto do mercado de consumo, deixando o “recato” para os temas sobre sexualidade. Ao acenar com a possibilidade de realização de qualquer sonho de consumo, este novo Deus incentiva uma população mais carente – e mais reticente com o avanço dos costumes e direitos - a confiar em um futuro promissor, cheio de “objetos de desejo”. Mais que isso, abriga a todos que se sentem excluídos/desamparados por razões morais, ao emprestar normas e restrições claras às suas condutas para a vida sexual e amorosa. Por bairros e cidades multiplicaram-se grandes salões em que pastores, seguindo um modelo carismático (à Silvio Santos) de pregação, aumentam seus rebanhos espalhando tais promessas. Do púlpito das igrejas ao dos congressos, apenas um passo. Foi assim que assistimos perplexos, um pastor/deputado assumir a presidência de uma comissão de Direitos Humanos da Câmera e sem qualquer constrangimento, tentar leiloar os direitos recém-adquiridos de homossexuais ou impor uma legislação que os “curasse” de seus desvios. Já da esperada, rápida e pontual estadia do Papa em terras cariocas ecoaram textos e reportagens sobre as mudanças que este novo papado pode produzir na Igreja Católica, sobre o “mundo católico” e sua geografia, sobre os custos desta vinda para a cidade do Rio (que chegou até a decretar dois dias de feriado), e sobre os jovens “religiosos” brasileiros. A partir de uma pesquisa realizada em maio pela Data Popular em 100 cidades do país, ficamos sabendo, por exemplo, que 44,2% dos jovens entre 16 e 24 anos são católicos, 37,6% são protestantes/evangélicos, 6,7% são seguidores de outras religiões e 11,5%  não são religiosos. Um dos desafios da vinda do Papa para a Jornada Mundial da Juventude seria a conquista de uma fatia dos católicos afastados através de um upgrade em seu modelo de evangelização. A pesquisa ainda problematiza o papel da religião para os jovens, assim como sua opinião sobre temas controversos como o aborto, a pena de morte e a legalização da maconha, talvez no intuito de “medir” o comprometimento de cada um com sua fé, ou ainda a fé com os códigos que cada religião preconiza. Quem sabe uma tentativa de mapear o complexo lugar que as religiões ocupam na vida das pessoas na atualidade, bem longe daquele em que ela encarnava o Poder. O mais provável é que as religiões acenem com a possibilidade de regulamentação das vidas através de regras fixas e claras, o que alivia o desamparo - às vezes insuportável - de muitos jovens (e de seus pais), uma forma de “proteção” para os sentimentos morais.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Que lugar para o amor


Nos versos de sua música “Futuros Amantes”, Chico Buarque canta um futuro em que “sábios em vão tentarão decifrar o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios de estranha civilização”, como se previsse um tempo em que a linguagem do amor romântico, tão assimilada em nossa cultura, pudesse não só cair no esquecimento, mas produzir estranhamento. Foi essa curiosidade quanto ao futuro de uma “ordem” já tão naturalizada entre nós e que norteia a vida de quase todos, que guiou os caminhos de minha tese de mestrado, cuja dissertação defendi em 2006. Basicamente a tese buscava entender (pesquisar) as razões do alto valor do amor romântico como ideal de vida para quase todos, levando em conta que o imenso arcabouço estruturado ao seu redor, não dava mais sinais de poder se sustentar da mesma maneira. Mudavam os casamentos, choviam separações e muitas conquistas advindas da liberdade dos indivíduos questionavam o que havia de velho e mofado neste modelo. Em meio a estas pesquisas e muitas leituras, um filme muito peculiar era lançado em 2004 que de certa forma instigava um debate importante para este tema. “Antes do por do sol” não era apenas a continuação de uma historia de amor contada no filme anterior (“Antes do amanhecer”), feito pelo mesmo diretor. Era um projeto inovador, uma boa ideia de Richard Linklater que havia convidado um par de jovens atores em 1995, ele (Ethan Hawke) um americano e ela (Julie Delpy) uma francesa para serem coautores de uma saga romântica que pretendia ser filmada em três etapas. Quando lançado em 2004, nove anos depois do primeiro, o fato pouco usual de serem dois filmes feitos com os mesmos atores encarnando os mesmos personagens em diferentes tempos de suas vidas, sendo eles co-roteiristas, dava um toque de veracidade que capturava o público. No primeiro filme, dois jovens universitários em viagem de férias, um americano (Jesse) e uma francesa (Celine) se conhecem num trem que corta a Europa e decidem passar uma noite juntos em Viena, local onde seus destinos se separariam. “Antes do amanhecer” eles voltam à estação de trem onde ela deverá seguir viagem à Paris e, sem trocar telefones, endereços ou sobrenomes, fazem uma promessa “apaixonada” de se reencontrarem na mesma estação depois de seis meses. Nove anos mais tarde (2004), Jesse escreveu um romance em que narra com detalhes sua história com Celine, e está em Paris para lança-lo na charmosa livraria Shakespeare and Company, quando a vê entrar. No filme de 1995, ainda adolescentes, eles contam um para o outro, detalhes de suas vidas e de seus projetos. A paixão é inocente, insegura, desprevenida, e a aposta em um novo encontro às escuras, é próprio dos sonhos onipotentes dos jovens. Em 2004 eles estão mais velhos, seus rostos mostram as marcas dos anos e seus diálogos incorporam as responsabilidades do mundo adulto. É com sutileza, respeito e cuidado que vão contando um ao outro (tendo as ruas de Paris como cenário) seus sucessos e fracassos, os ajustes que tiveram que fazer em seus ideais de juventude, e finalmente a importância daquele encontro passado, em suas vidas. Esteticamente belo, a câmera filma a pouca distancia para captar os olhares, gestos e expressões, o que convoca o público a testemunhar o envolvimento de ambos e de como relatam o impacto do encontro vivido no filme anterior em suas vidas. Eis que em 2013, o diretor cumpre sua promessa ao lançar a terceira etapa desta aventura, “Antes da meia noite”. Casados, pais de gêmeas, Jesse se separara de sua primeira mulher (com quem teve um filho) nos USA e vive (agora como escritor renomado) em Paris com Celine. De férias, eles vão à Grécia de carro em casa de amigos. Com diálogos mais tensos, os anos vividos juntos demandam um jogo de cintura de ambos para driblar as diferenças, negociar as expectativas, curar as frustrações. Culpado por não conviver com o filho pré-adolescente que acaba de deixar no aeroporto, Jesse sonha em morar nos USA para aplacar seu mal estar. Saber disso exaspera Celine que discorda dele quanto ao efeito “idealizado” dessa proximidade física. Uma mudança para lá desorganizaria a vida atual deles. Custos de uma relação prolongada que, além disso, precisa contabilizar as obrigações de pais? Com questões próprias das gerações de adultos nascidos nos anos 70, 80, os três filmes cumprem seu papel ao colocar os ideais amorosos a uma distancia possível, o que funciona como um alento aos jovens adultos da atualidade que se sentem capazes de poder viver/sentir o mesmo. Super recomendado.

Para conferir: Antes do amanhecer (1995) Antes do por do sol (2004) Antes da meia noite (2013)

Diretor: Richard Linklater             Atores: Ethan Hawke e Julie Delpy

Depois da festa


Não foi só aquela parcela da população que teme a tudo e a todos sempre que algo parece sair do conforto do “mesmo”, que se inquietou com a disparada das multidões que a cada dia marcava um local e um tema para protestar. Todos se perguntaram, ao menos uma vez, se este movimento tão inesperado da população haveria de ter um final e qual seria. Mas o mais interessante foi perceber que os próprios jovens, não só os que idealizaram seu começo, todos que se sentiram mobilizados pela possibilidade de realizarem algum futuro, semearem alguma mudança, visualizarem um mundo mais parecido com o que sonhavam, passaram a buscar avidamente textos em blogs, jornais, redes sociais que pudessem ajudá-los a refletir sobre o que estava acontecendo e o que ainda podia acontecer. Afinal muitas das manifestações ganharam um público surpreendente, fosse pelas idades, pelas classes sociais, mas principalmente pelas diferenças de reivindicações. Nas redes sociais era possível acompanhar as placas escritas de ultima hora e à mão, às vezes irônicas, mas muitas portando algum pedido legítimo, ainda que inesperado. E agora José? O que vem depois? Muitas coisas vieram. Veio a truculência da polícia, recebendo e obedecendo “ordens” para conter a “massa” de qualquer maneira. Veio a surpresa de todos diante de tanta violência. (Porque mesmo tamanha violência?) A velocidade com que as notícias puderam ser disponibilizadas nas redes, sem nenhuma censura prévia, despertava a todos de seu longo sono de cidadão. Multiplicaram-se as cidades e as pessoas. Todos tinham algo para falar. E falaram. E se fizeram ouvir. E que não viessem se aproveitar do burburinho para “plantar” seres “estranhos” ao sentimento cívico que perpassava aos que se dispuseram a sair pelas ruas, muitos destes fotografados e identificados. Hello! Vocês que aí estão o que vão fazer? E saíram fazendo: a polícia tinha que “policiar” e não “atacar”; os políticos tinham que votar o que precisava ser votado, sem que fosse necessário “negociar” tais votos. Os governantes se reunir para entender o clamor da voz do povo. Mas o que vem depois da “festa”? Como pensar sobre o destino do país ou ainda sobre alguma mudança efetiva no panorama político? Talvez nunca tivéssemos podido vivenciar tamanha manifestação democrática em nosso país. Que se acrescente uma dose de impacto porque também não tínhamos uma tradição de nos organizarmos para formalizar nossas reivindicações em passeatas de ruas, ao contrário, por exemplo, de nosso país vizinho, a Argentina. Pensadores de todas as áreas de conhecimento, a maioria brasileiros- mas alguns estrangeiros- escreveram sobre este acontecimento e tentaram entende-lo, destrincha-lo. Alguns temerosos, outros descrentes, mas a grande maioria, empolgados com a “novidade”, como a confirmar um período de latência e marasmo generalizado. Perguntei aos que participaram em algum momento destas passeatas o que sentiram. A maioria havia se encantado e se orgulhado com a possibilidade de exercer o que parecia ser este “novo” papel de cidadão brasileiro. Mas quase todos relataram ter sentido medo, ter vivido momentos de tensão. No entanto, o “tenso” que se viveu talvez fosse imprescindível, e isso se deve ao fato de que este movimento não foi um movimento de “massa” em torno de uma liderança ou de um único objetivo. Foi de multidões, ou seja, cada um com sua individualidade, seu parecer, sua placa, seu desejo, que por isso mesmo não se diluía e sim impunha uma convivência “tensa”. Ainda que ali pudesse existir um espaço de trocas horizontais de experiências, de ideias, de propostas que pretendiam construir alguma coisa nova e transformadora, a “tensão” permanecia, um indício de que neste mundo contemporâneo, cabe a todos nós (e a cada um) “suportar” as diferenças das individualidades sob pena de descambar para a violência. Uma fronteira tênue, por isso tensa, para o bem e para o mal. Um grande desafio, já que o respeito ao outro e o processo democrático demandam negociações sem fim que passam necessariamente pelo reconhecimento da singularidade de cada um e de suas diferenças. Negociações estas que precisam ser explicitadas por cada reivindicante e confrontadas com as de seus vizinhos para que se possa enfim definir princípios, diretrizes  e políticas. E que não nos esqueçamos de que as mudanças ameaçam a continuidade e provocam resistências (às vezes mascaradas), que podem levar muitos a sabotar o novo. Resistências que podem ser tentativas de luta pela sobrevivência diante da incerteza do desconhecido, e por isso detecta-las e elucida-las seria da hora!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Quem viu o futuro?


A menos de uma semana, o artista chinês Ai Weiwei, famoso por seu trabalho permanentemente provocativo, denunciador  e político, que já lhe valeu uma detenção de quase três meses pelo governo de seu país, escreveu um texto indignado  para o jornal britânico The Guardian (traduzido aqui pela Folha de SP). Mais que indignação, havia um tom de decepção diante da informação sobre a operação americana de monitoramento dos serviços de inteligência dos Estados Unidos denunciado pelo técnico em informática Edward Snowden, que trabalhava há 4 anos na NSA (Agência Nacional de Segurança) e tinha acesso a dados privados de usuários de internet e telefonia. Tendo vivido 12 anos nos Estados Unidos, Weiwei exaltara a grande tradição de individualismo e privacidade deste país que sempre se contrapôs ao desnudamento sistemático dos cidadãos chineses, acostumados com o abuso do poder de Estado. Ao ler seu texto me lembrei de um filme de Spielberg (2002), Minority Report (relatório da minoria) – A nova lei, uma ficção sobre o funcionamento da sociedade americana no ano de 2054, em que a despeito do avanço ininterrupto da tecnociência , o mundo havia se tornado um lugar inseguro e violento. Em 2048 o índice de homicídios teria alcançado proporções alarmantes, o que contribuíra para que a cidade de Washington experimentasse um projeto piloto - o Programa Pré-Crime - que em seis anos havia conseguido banir os crimes utilizando-se de uma tecnologia biovirtual onde três “precogs” (pessoas altamente sensitivas) projetavam imagens de suas previsões de assassinatos com o dia e a hora dos crimes. Graças mais uma vez à tecnologia, fornecidos o nome da vítima e do assassino, uma elite de agentes policiais prendia o criminoso antes mesmo que o delito acontecesse. Dilema moral: se alguém é preso antes de cometer o crime, como pode esta pessoa ser acusada de assassinato? Seria lícito incriminar alguém apenas pela sua intenção? Apesar deste paradoxo um forte lobby pressionava a população a aceitar o programa e assim estende-lo por todo o país, já que eliminava os assassinatos nos Estados Unidos. Estaria assim consolidado um mundo futuro, em que haveria um sistema criado para coibir a violência e proteger os indivíduos deles mesmos, ou melhor, de seu mal. Mas curiosamente este futuro não seria uma possibilidade, uma escolha em aberto para os indivíduos, já que a “pre-visão” seria considerada como algo que realmente aconteceu. Quando John Anderton (Tom Cruise), o policial mais competente da equipe, vê através dos precogs, que matará um desconhecido em menos de trinta e seis horas, inicia por conta própria uma investigação cheia de ação que culminará no desmantelamento do sistema antes “perfeito”. Ai Weiwei denunciava esta contradição em seu texto, ao apontar que graças às suas capacidades técnicas, os Estados poderiam facilmente conseguir dados sobre seus cidadãos visando controlá-los, interferindo de forma abusiva em seus direitos individuais. Em audiência no senado americano, o diretor da ASN general Keith Alexander disse que a vigilância é necessária tanto para "defender a democracia e as liberdades civis dos americanos" quanto para manter o país em "segurança". Mas Weiwei insiste no fato de que instaurada uma outra dimensão de medo e insegurança – seja pela possibilidade de não haver mais liberdade ou pela abolição da confiança dos cidadãos para com seus governos, perde-se o equilíbrio que mantém a “civilização” e que está na base de uma democracia. Não passaram despercebido nem aos brasileiros nem ao mundo, as surpreendentes manifestações de protestos dos jovens iniciadas em São Paulo, que acabaram por replicar em várias capitais do Brasil (e outros países em um apoio solidário emocionante). Por trás dos singelos 0,20 centavos reivindicados, os gritos clamavam por um cuidado e respeito dos governantes e políticos para com sua população, para com suas cidades, seu país. Que acordassem para a necessidade de reconstruir um espaço político com instituições que não estivessem falidas ou sucateadas por um modelo de interesses de poder e grana. Que devolvessem as ruas, as cidades, os espaços públicos aos jovens, para que eles pudessem continuar acreditando em um futuro. Uma revolta contra o descaso. Uma reivindicação de Jovens, que em diferentes épocas históricas buscam ativamente uma versão de seu tempo para afirmar seus sonhos e ideais, e lembram a todos os mais velhos, que são eles que abrem caminhos para novas verdades, novos movimentos transformadores de nossa existência. Mais, que não há convivência possível sem um bocado de dignidade.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O cão nosso de cada dia


Formávamos um quarteto de amigas à espera de um garçom que nos atendesse. Enquanto isso, a única avó da mesa saca seu celular e passa a desfilar as fotos de seus três netinhos. Todas olham embevecidas as caras, bocas e poses de cada um. Faz-se um ohhhhh geral. Sem conseguir evitar, outra amiga tira seu celular da bolsa e mostra a foto de seus dois amores estampada na capa. Que lindos, exclamamos duas de nós. Que pelos maravilhosos!!! Eles parecem estar sorrindo! Indignada, a outra balança a cabeça sem poder entender o entusiasmo. A dona dos cachorros sorri e comenta em tom baixinho: “ela nunca teve cachorros, não sabe o que é isso”. O “isso” era sem dúvida o sentimento comum que havia tomado conta de nós três que, ao contrário, tínhamos muitas estórias para contar sobre nossos cães em nossas vidas. O estranhamento desta amiga para quem os cães eram apenas animais como outros quaisquer, no entanto despertou-nos a ânsia de explicar o que (para ela) era inexplicável: como nossas vidas tinham sido afetadas por estas criaturas. Passamos assim a contar estórias emocionadas, como se estivéssemos falando de nossos próprios filhos. A dona da foto do celular que morava em uma casa em Belo Horizonte descreveu seu dia a dia com aqueles que eram, por enquanto, seus “netos” de 10 e 8 anos. Os filhos já haviam se mudado para compor novas famílias, mas ainda não eram pais e os dois cães ocupavam o lugar das crianças da família, o que os tornava assunto de interesse de todos. Pelo menos uma vez ao dia seus filhos ligavam para saber notícias das “crianças”, fato que a deixava muito empolgada, pronta para descrever entusiasmada as últimas peripécias da dupla. Ouvindo-a narrar sua estória pensei (com meus botões) como a experiência de ter esses “bichinhos” morando em apartamentos acrescentava variáveis inimagináveis ao convívio entre os “donos” e seus cães. As lembranças de Bob ainda estavam misturadas ao luto pela sua morte acontecida há dois meses, depois de 18 anos de convivência diária e intensa. Bob era um Fox Paulistinha (o amor pela raça herdamos de nossa querida amiga ribeirão-pretana Márcia), conhecido por sua inteligência, que passou a dividir espaços conosco quando meus filhos ainda estavam na pré-adolescência (8 e 12 anos) e rapidamente fez de nossa casa sua casa. Tinha seus lugares, alimentos, objetos, odores e sons preferidos assim como sabia comunicar aqueles que não faziam seu gosto. Ao longo de nossa vida “familiar” desenvolveu comportamentos diferenciados que agradava a cada um em particular. Sua vitalidade era invejável: ao som do interfone corria à porta a espera da “visita” até que esta tocasse a campainha. Se se anunciasse a possibilidade de algum passeio não descansava enquanto o fato não se consumasse, ou seja, ia do local em que estava sua coleira até a porta, voltava-se para o “anunciante” e repetia este percurso à exaustão (de todos). Quando finalmente “vestia” a coleira, saía pelo corredor até o elevador saltitante e satisfeito. Se faltasse água ou ração sabia bater com insistência nos respectivos pratos para pedi-los. Morreu de velhice como quem não queria ir-se. Em seu ultimo ano de vida, mesmo tendo perdido a visão e a audição, ainda distinguia as pessoas e os locais pelo faro. Tinha se tornado membro “efetivo” da família e era raro não ser tema de conversas animadas ao redor de mesas de almoço ou jantar em que se discorria sobre suas surpreendentes estórias. Nossa amiga desconhecia este mundo “novo” em que cães comportam-se de forma ajustada a casa, à rotina e à convivência com seus “familiares”, se “humanizam” e  entendem vários códigos de nossa linguagem. Cães que adoecem e se alegram com seus donos, podem se deprimir ou serem “ansiosos”. Cães que vivem como gente.