Uma jovem mãe contava a outras jovens mães sobre sua
agonia desde que havia se dado conta que suas duas filhas, com diferença de
apenas um ano, haviam entrado na pré-adolescência. Sem parâmetros, sentindo-se
perdida na difícil tarefa de discriminar o que consentir e o que proibir, o que
não dar importância e o que se preocupar, ela teria encontrado certo alento na
interlocução via Facebook com outros pais/mães de adolescentes. Havia
descoberto a página do Facebook intitulada “Mães e pais de adolescentes” destinada
a incentivar a troca de ideias e dicas sobre os filhos. Fui conferir. Simpática,
a tal página anuncia quem é o seu público e convida os pais/mães a conversarem
ali. Também descreve esta atordoante faixa etária ponderando sobre seu fascínio
num mundo em que crianças e adolescentes usam teclas e botões “como se
fossem extensões de seus dedos, falam a
mesma língua dos softwares e aprendem rápida e facilmente tudo o que lhes
desperta o interesse.” Mas pondera que esta facilidade de tudo saber
confunde-se as vezes com o tudo querer, o que tornaria difícil para os
adultos/pais manterem seu foco na árdua tarefa de educa-los. Democrática e
aberta, incentiva a todos a dar voz às suas aflições e/ou aos seus conselhos. A
jovem mãe que está contando às suas interlocutoras sua descoberta, no entanto,
não parece satisfeita. Há muitas perguntas sem respostas e ela continua aflita,
sentindo-se incompetente e perdida. Em sua coluna na Folha de SP do dia 20 de
agosto de 2013, sob o título “Depressão e autenticidade” Vladimir Safatle ,
baseado em uma recente pesquisa que diz que em cada cinco mulheres, uma passará
por depressão ao tornar-se mãe, convida a todos a refletir sobre o ônus que a experiência social de ser mãe
carrega na atualidade. Referindo-se ao fato de que hoje as mulheres já não têm
modelos únicos ou formais do “tornar-se mãe” como acontecia até algumas décadas
atrás, ele aborda o despreparo de todas diante do inevitável confronto com
bebês (filhos) que despertam sentimentos ambíguos e contraditórios. Longe de
fazer a apologia da tradição “de mãe para filha” em que os mitos e os rituais não
eram questionados e valiam para todos indiscriminadamente, e diante do atual arsenal
de especialistas que prescrevem caminhos a seguir, ele questiona o lugar dos
afetos que tendem a ser silenciados por todos – pais, parentes, especialistas.
Lembrei-me da história contada por minha faxineira sobre uma conhecida sua,
mocinha de 23 anos, que se casou com um rapaz um pouco mais velho, 33 anos,
descasado, que já tinha um filho de seu primeiro casamento. Apaixonada, sonhava
em ter um filho com ele como a consolidar a relação. Grávida de 8 meses viaja
para o Nordeste a fim de visitar seus familiares. Na volta, em visita a uma
cidade vizinha, o bebê rompe a bolsa e “decide” nascer. Sem conhecer ninguém
ela passa horas à espera de um atendimento no hospital. Como seu nenê não
acompanha o desenvolvimento esperado começa a leva-lo a médicos que indicam a
ressonância magnética para um diagnóstico mais apurado. Nas datas marcadas para
o exame, sem explicações plausíveis, falta sistematicamente. Morre de medo de
saber que não tinha conseguido gerar um filho perfeito. Paralisada e envergonhada,
não consegue ser a mãe que tinha imaginado, o que faz com que seu filho também
não possa “existir”. Quando finalmente comprova ser ele “normal”, pode enfim
olha-lo com amor e exibi-lo orgulhosa. É provável que a mãe das
pré-adolescentes sinta-se inundada/assaltada por seus fantasmas adolescentes,
incapaz de responder a si mesma sobre suas questões ainda tão confusas. Também
ela tenta silenciar seus ruídos e os que são provocados pelo confronto com esta
passagem das filhas.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
post scriptum
Uma
notícia curiosa veiculada na mídia digital anunciava um novo programa de
entrevistas – Retrovisor - comandado pelo jornalista Paulo Markun. Detalhe, os
entrevistados seriam personagens históricos brasileiros já mortos e por isso,
representados por atores. Gravados na Biblioteca Municipal Mario de Andrade de
São Paulo a plateia estaria convidada a participar das perguntas. Uma ideia
bastante original que de certa maneira realiza um sonho humano nada raro de
voltar ao passado e confrontar ideias, crenças e atos de pessoas que marcaram a
historia. A notícia me remeteu a uma recente entrevista concedida ao programa matinal
de Alexandre Machado na Radio Cultura FM, pelo autor da biografia de Getúlio
Vargas, o jornalista e escritor Lira Neto que há poucos dias lançou o segundo
volume de sua trilogia sobre este importante e polemico personagem brasileiro.
Na entrevista, ao ser questionado sobre o período em que Getúlio teria se
tornado um ditador, o biógrafo ressaltava o fato de que não há História sem
contexto, e sua fala não escondia sua admiração pela inteligência e sagacidade
do homem e do político cuja vida
pesquisa/vasculha há três anos. Outro jornalista, o espanhol Juan Arias,
que viveu grande parte de sua vida na Itália como correspondente do El Pais,
por ocasião da vinda do papa Francisco ao Brasil, teria concedido algumas
entrevistas sobre o longo período em que esteve respirando o clima do Vaticano,
particularmente nos papados de Paulo VI e de João Paulo II. Emocionado, lembrou
certas particularidades de um e outro, seus estilos, seu pensamento.
Considerado um estudioso de religião por ter frequentado cursos na Universidade
de Teologia e no Instituto Bíblico de Roma, defende a ala progressista da
igreja católica, mas avalia com otimismo a escolha do novo papa. Convidado a
fazer uma distinção entre informação, análise e opinião, Arias confessou ser esta
uma questão complicada. Para ele, um mesmo fato, uma mesma notícia ou uma
entrevista com algum personagem importante é perpassada pela ótica –e pela
sensibilidade - de quem realiza. É bom lembrar que estamos falando aqui de uma
mídia formal, de jornalistas de carreiras que se dedicaram a entender o mundo
que os cercava e não se furtaram a opinar sobre isso. A recente exposição do
coletivo Mídia Ninja, cujos representantes foram sabatinados no programa Roda
Viva da TV Cultura no dia 6 de agosto último, lançou um debate sobre o futuro
do jornalismo (e jornalistas) das grandes imprensas, ameaçados pela difusão de
uma nova maneira de se publicar noticias, aberta a todos, nas redes sociais. No
mesmo dia 6 de agosto uma notícia fazia tremer a capital federal americana ao
dar como certa a compra do tradicional jornal Washington Post pela Amazon.
Entre textos ácidos, nostálgicos e ponderados, todos tentavam espreitar o
porvir, o futuro pós-revolução digital. Do coletivo de jornalistas que se propõe
como alternativa ao "mainstream", um dos entrevistados e co-fundador da
Mídia Ninja, Bruno Torturra, lembrou que a opinião pública divulgada via rede,
tem narrativas múltiplas e é em geral uma salada ideológica. Mas chamou a
atenção para o que se assistiu durante
as manifestações de junho, em que a opinião publicada, que tem o monopólio
sobre o que é a opinião pública, sofreu o constrangimento de não divulgar o que
acontecia e teve que correr atrás para acompanhar as notícias/fotos/vídeos que
jorravam nas redes. A verdade é que isso que chamamos Informação quando
remetida aos fatos importantes já ocorridos ou às histórias que valem a pena serem
revistas sobre personagens já falecidos, nunca mais será a mesma, já que será
revisitada e seu contexto será analisado de acordo com as referencias do
momento atual. O mesmo vale para as informações /opiniões a respeito de novos e
inusitados acontecimentos e o que se delineia é que o mundo digital apenas
amplia as opções e com isso possibilita aos que querem saber, um leque mais
diversificado de opiniões. No mínimo um ponto a mais em direção à
idealizada/paparicada/ falada democracia Por outro lado, não há como negar que
novas cores se delineiam no céu das mídias. Resta saber quais serão.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Quem quer ser evangélico?
Nada mais “in” do que analisar a crescente
visibilidade e porcentagem de evangélicos no Brasil à luz da mobilização de
católicos em torno da visita do Papa Francisco I ao Rio de Janeiro. Foi mais ou
menos este o teor do texto publicado na Ilustríssima do dia 21 de julho de 2013 em que o
sociólogo da USP Reginaldo Prandi acompanha o deslocamento de uma população
antes majoritariamente católica para o que ele chama de pentecostalismo. Longe
de ser uma tarefa fácil já que são muitas as variáveis, algumas bastante
complexas! Dentre os temas, a constatação de que assim como a religião católica
empreendeu modificações em seus rituais muitas décadas passadas, a fim de se
adequar aos tempos modernos, as religiões evangélicas teriam feito uma
recauchutagem bem mais radical nas últimas duas décadas. De uma tônica que
preconizava a vida austera e simples, adotou-se a teologia da prosperidade, bem
ao gosto do mercado de consumo, deixando o “recato” para os temas sobre
sexualidade. Ao acenar com a possibilidade de realização de qualquer sonho de
consumo, este novo Deus incentiva uma população mais carente – e mais reticente
com o avanço
dos costumes e direitos - a confiar em um futuro promissor,
cheio de “objetos de desejo”. Mais que isso, abriga a todos que se sentem
excluídos/desamparados por razões morais, ao emprestar normas e restrições
claras às suas condutas para a vida sexual e amorosa. Por bairros e cidades
multiplicaram-se grandes salões em que pastores, seguindo um modelo carismático
(à Silvio Santos) de pregação, aumentam seus rebanhos espalhando tais
promessas. Do púlpito das igrejas ao dos congressos, apenas um passo. Foi assim
que assistimos perplexos, um pastor/deputado assumir a presidência de uma comissão
de Direitos Humanos da Câmera e sem qualquer constrangimento, tentar leiloar os
direitos recém-adquiridos de homossexuais ou impor uma legislação que os
“curasse” de seus desvios. Já da esperada, rápida e pontual
estadia do Papa em terras cariocas ecoaram textos e reportagens sobre as
mudanças que este novo papado pode produzir na Igreja Católica, sobre o “mundo
católico” e sua geografia, sobre os custos desta vinda para a cidade do Rio (que
chegou até a decretar dois dias de feriado), e sobre os jovens “religiosos”
brasileiros. A partir de uma pesquisa realizada em maio pela Data Popular em 100
cidades do país, ficamos sabendo, por exemplo, que 44,2% dos jovens entre 16 e
24 anos são católicos, 37,6% são protestantes/evangélicos, 6,7% são seguidores de
outras religiões e 11,5% não são religiosos.
Um dos desafios da vinda do Papa para a Jornada Mundial da Juventude seria a
conquista de uma fatia dos católicos afastados através de um upgrade em seu
modelo de evangelização. A pesquisa ainda problematiza o papel da religião para
os jovens, assim como sua opinião sobre temas controversos como o aborto, a
pena de morte e a legalização da maconha, talvez no intuito de “medir” o
comprometimento de cada um com sua fé, ou ainda a fé com os códigos que cada
religião preconiza. Quem sabe uma tentativa de mapear o complexo lugar que as
religiões ocupam na vida das pessoas na atualidade, bem longe daquele em que
ela encarnava o Poder. O mais provável é que as religiões acenem com a
possibilidade de regulamentação das vidas através de regras fixas e claras, o
que alivia o desamparo - às vezes insuportável - de muitos jovens (e de seus
pais), uma forma de “proteção” para os sentimentos morais.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Que lugar para o amor
Nos versos de sua música “Futuros Amantes”, Chico
Buarque canta um futuro em que “sábios em vão tentarão decifrar o eco de
antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios de
estranha civilização”, como se previsse um tempo em que a linguagem do amor
romântico, tão assimilada em nossa cultura, pudesse não só cair no esquecimento,
mas produzir estranhamento. Foi essa curiosidade quanto ao futuro de uma
“ordem” já tão naturalizada entre nós e que norteia a vida de quase todos, que guiou
os caminhos de minha tese de mestrado, cuja dissertação defendi em 2006.
Basicamente a tese buscava entender (pesquisar) as razões do alto valor do amor
romântico como ideal de vida para quase todos, levando em conta que o imenso
arcabouço estruturado ao seu redor, não dava mais sinais de poder se sustentar
da mesma maneira. Mudavam os casamentos, choviam separações e muitas conquistas
advindas da liberdade dos indivíduos questionavam o que havia de velho e mofado
neste modelo. Em meio a estas pesquisas e muitas leituras, um filme muito
peculiar era lançado em 2004 que de certa forma instigava um debate importante
para este tema. “Antes do por do sol” não era apenas a continuação de uma
historia de amor contada no filme anterior (“Antes do amanhecer”), feito pelo
mesmo diretor. Era um projeto inovador, uma boa ideia de Richard Linklater que
havia convidado um par de jovens atores em 1995, ele (Ethan Hawke) um americano
e ela (Julie Delpy) uma francesa para serem coautores de uma saga romântica que
pretendia ser filmada em três etapas. Quando lançado em 2004, nove anos depois
do primeiro, o fato pouco usual de serem dois filmes feitos com os mesmos
atores encarnando os mesmos personagens em diferentes tempos de suas vidas,
sendo eles co-roteiristas, dava um toque de veracidade que capturava o público.
No primeiro filme, dois jovens universitários em viagem de férias, um americano
(Jesse) e uma francesa (Celine) se conhecem num trem que corta a Europa e
decidem passar uma noite juntos em Viena, local onde seus destinos se
separariam. “Antes do amanhecer” eles voltam à estação de trem onde ela deverá
seguir viagem à Paris e, sem trocar telefones, endereços ou sobrenomes, fazem
uma promessa “apaixonada” de se reencontrarem na mesma estação depois de seis
meses. Nove anos mais tarde (2004), Jesse escreveu um romance em que narra com
detalhes sua história com Celine, e está em Paris para lança-lo na charmosa
livraria Shakespeare and Company, quando a vê entrar. No filme de 1995, ainda
adolescentes, eles contam um para o outro, detalhes de suas vidas e de seus
projetos. A paixão é inocente, insegura, desprevenida, e a aposta em um novo
encontro às escuras, é próprio dos sonhos onipotentes dos jovens. Em 2004 eles
estão mais velhos, seus rostos mostram as marcas dos anos e seus diálogos incorporam
as responsabilidades do mundo adulto. É com sutileza, respeito e cuidado que
vão contando um ao outro (tendo as ruas de Paris como cenário) seus sucessos e
fracassos, os ajustes que tiveram que fazer em seus ideais de juventude, e
finalmente a importância daquele encontro passado, em suas vidas. Esteticamente
belo, a câmera filma a pouca distancia para captar os olhares, gestos e
expressões, o que convoca o público a testemunhar o envolvimento de ambos e de como
relatam o impacto do encontro vivido no filme anterior em suas vidas. Eis que em
2013, o diretor cumpre sua promessa ao lançar a terceira etapa desta aventura,
“Antes da meia noite”. Casados, pais de gêmeas, Jesse se separara de sua
primeira mulher (com quem teve um filho) nos USA e vive (agora como escritor
renomado) em Paris com Celine. De férias, eles vão à Grécia de carro em casa de
amigos. Com diálogos mais tensos, os anos vividos juntos demandam um jogo de
cintura de ambos para driblar as diferenças, negociar as expectativas, curar as
frustrações. Culpado por não conviver com o filho pré-adolescente que acaba de
deixar no aeroporto, Jesse sonha em morar nos USA para aplacar seu mal estar. Saber
disso exaspera Celine que discorda dele quanto ao efeito “idealizado” dessa
proximidade física. Uma mudança para lá desorganizaria a vida atual deles. Custos
de uma relação prolongada que, além disso, precisa contabilizar as obrigações
de pais? Com questões próprias das gerações de adultos nascidos nos anos 70,
80, os três filmes cumprem seu papel ao colocar os ideais amorosos a uma
distancia possível, o que funciona como um alento aos jovens adultos da
atualidade que se sentem capazes de poder viver/sentir o mesmo. Super
recomendado.
Para conferir: Antes do amanhecer (1995) Antes do por
do sol (2004) Antes da meia noite (2013)
Diretor:
Richard Linklater Atores: Ethan Hawke e Julie Delpy
Depois da festa
Não foi só aquela parcela da população que teme a
tudo e a todos sempre que algo parece sair do conforto do “mesmo”, que se
inquietou com a disparada das multidões que a cada dia marcava um local e um
tema para protestar. Todos se perguntaram, ao menos uma vez, se este movimento
tão inesperado da população haveria de ter um final e qual seria. Mas o mais
interessante foi perceber que os próprios jovens, não só os que idealizaram seu
começo, todos que se sentiram mobilizados pela possibilidade de realizarem
algum futuro, semearem alguma mudança, visualizarem um mundo mais parecido com
o que sonhavam, passaram a buscar avidamente textos em blogs, jornais, redes
sociais que pudessem ajudá-los a refletir sobre o que estava acontecendo e o
que ainda podia acontecer. Afinal muitas das manifestações ganharam um público surpreendente,
fosse pelas idades, pelas classes sociais, mas principalmente pelas diferenças
de reivindicações. Nas redes sociais era possível acompanhar as placas escritas
de ultima hora e à mão, às vezes irônicas, mas muitas portando algum pedido
legítimo, ainda que inesperado. E agora José? O que vem depois? Muitas coisas
vieram. Veio a truculência da polícia, recebendo e obedecendo “ordens” para
conter a “massa” de qualquer maneira. Veio a surpresa de todos diante de tanta
violência. (Porque mesmo tamanha violência?) A velocidade com que as notícias
puderam ser disponibilizadas nas redes, sem nenhuma censura prévia, despertava
a todos de seu longo sono de cidadão. Multiplicaram-se as cidades e as pessoas.
Todos tinham algo para falar. E falaram. E se fizeram ouvir. E que não viessem
se aproveitar do burburinho para “plantar” seres “estranhos” ao sentimento
cívico que perpassava aos que se dispuseram a sair pelas ruas, muitos destes fotografados
e identificados. Hello! Vocês que aí estão o que vão fazer? E saíram fazendo: a
polícia tinha que “policiar” e não “atacar”; os políticos tinham que votar o
que precisava ser votado, sem que fosse necessário “negociar” tais votos. Os
governantes se reunir para entender o clamor da voz do povo. Mas o que vem
depois da “festa”? Como pensar sobre o destino do país ou ainda sobre alguma
mudança efetiva no panorama político? Talvez nunca tivéssemos podido vivenciar
tamanha manifestação democrática em nosso país. Que se acrescente uma dose de
impacto porque também não tínhamos uma tradição de nos organizarmos para
formalizar nossas reivindicações em passeatas de ruas, ao contrário, por
exemplo, de nosso país vizinho, a Argentina. Pensadores de todas as áreas de
conhecimento, a maioria brasileiros- mas alguns estrangeiros- escreveram sobre
este acontecimento e tentaram entende-lo, destrincha-lo. Alguns temerosos,
outros descrentes, mas a grande maioria, empolgados com a “novidade”, como a
confirmar um período de latência e marasmo generalizado. Perguntei aos que
participaram em algum momento destas passeatas o que sentiram. A maioria havia
se encantado e se orgulhado com a possibilidade de exercer o que parecia ser
este “novo” papel de cidadão brasileiro. Mas quase todos relataram ter sentido
medo, ter vivido momentos de tensão. No entanto, o “tenso” que se viveu talvez
fosse imprescindível, e isso se deve ao fato de que este movimento não foi um
movimento de “massa” em torno de uma liderança ou de um único objetivo. Foi de
multidões, ou seja, cada um com sua individualidade, seu parecer, sua placa,
seu desejo, que por isso mesmo não se diluía e sim impunha uma convivência
“tensa”. Ainda que ali pudesse existir um espaço de trocas
horizontais de experiências, de ideias, de propostas que pretendiam construir
alguma coisa nova e transformadora, a “tensão” permanecia, um indício de que
neste mundo contemporâneo, cabe a todos nós (e a cada um) “suportar” as
diferenças das individualidades sob pena de descambar para a violência. Uma
fronteira tênue, por isso tensa, para o bem e para o mal. Um grande desafio, já
que o respeito ao outro e o processo democrático demandam negociações sem fim
que passam necessariamente pelo reconhecimento da singularidade de cada um e de
suas diferenças. Negociações estas que precisam ser explicitadas por cada
reivindicante e confrontadas com as de seus vizinhos para que se possa enfim definir
princípios, diretrizes e políticas. E
que não nos esqueçamos de que as mudanças ameaçam a continuidade e provocam
resistências (às vezes mascaradas), que podem levar muitos a sabotar o novo. Resistências
que podem ser tentativas de luta pela sobrevivência diante da incerteza do
desconhecido, e por isso detecta-las e elucida-las seria da hora!
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Quem viu o futuro?
A menos de uma semana, o artista chinês Ai Weiwei, famoso
por seu trabalho permanentemente provocativo, denunciador e político, que já lhe valeu uma detenção de
quase três meses pelo governo de seu país, escreveu um texto indignado para o jornal britânico The Guardian (traduzido
aqui pela Folha de SP). Mais que indignação, havia um tom de decepção diante da
informação sobre a operação americana de monitoramento dos serviços de
inteligência dos Estados Unidos denunciado pelo técnico em informática Edward
Snowden, que trabalhava há 4 anos na NSA (Agência Nacional de
Segurança) e tinha acesso a dados privados de usuários de internet e telefonia.
Tendo vivido 12 anos nos Estados Unidos, Weiwei exaltara a grande tradição de
individualismo e privacidade deste país que sempre se contrapôs ao desnudamento
sistemático dos cidadãos chineses, acostumados com o abuso do poder de Estado.
Ao ler seu texto me lembrei de um filme de Spielberg (2002), Minority Report (relatório
da minoria) – A nova lei, uma ficção sobre o funcionamento da sociedade americana
no ano de 2054, em que a despeito do avanço ininterrupto da tecnociência , o mundo
havia se tornado um lugar inseguro e violento. Em 2048 o índice de homicídios teria
alcançado proporções alarmantes, o que contribuíra para que a cidade de
Washington experimentasse um projeto piloto - o Programa Pré-Crime - que em
seis anos havia conseguido banir os crimes utilizando-se de uma tecnologia
biovirtual onde três “precogs” (pessoas altamente sensitivas) projetavam
imagens de suas previsões de assassinatos com o dia e a hora dos crimes. Graças
mais uma vez à tecnologia, fornecidos o nome da vítima e do assassino, uma
elite de agentes policiais prendia o criminoso antes mesmo que o delito acontecesse.
Dilema moral: se alguém é preso antes de cometer o crime, como pode esta pessoa
ser acusada de assassinato? Seria lícito incriminar alguém apenas pela sua
intenção? Apesar deste paradoxo um forte lobby pressionava a população a
aceitar o programa e assim estende-lo por todo o país, já que eliminava os
assassinatos nos Estados Unidos. Estaria assim consolidado um mundo futuro, em
que haveria um sistema criado para coibir a violência e proteger os indivíduos
deles mesmos, ou melhor, de seu mal. Mas curiosamente este futuro não seria uma
possibilidade, uma escolha em aberto para os indivíduos, já que a “pre-visão”
seria considerada como algo que realmente aconteceu. Quando John Anderton (Tom
Cruise), o policial mais competente da equipe, vê através dos precogs, que
matará um desconhecido em menos de trinta e seis horas, inicia por conta
própria uma investigação cheia de ação que culminará no desmantelamento do
sistema antes “perfeito”. Ai Weiwei denunciava esta contradição em seu texto,
ao apontar que graças às suas capacidades técnicas, os Estados poderiam
facilmente conseguir dados sobre seus cidadãos visando controlá-los, interferindo
de forma abusiva em seus direitos individuais. Em audiência no senado americano,
o diretor da ASN general Keith Alexander disse que a vigilância é necessária
tanto para "defender a democracia e as liberdades civis dos
americanos" quanto para manter o país em "segurança". Mas Weiwei
insiste no fato de que instaurada uma outra dimensão de medo e insegurança – seja
pela possibilidade de não haver mais liberdade ou pela abolição da confiança
dos cidadãos para com seus governos, perde-se o equilíbrio que mantém a
“civilização” e que está na base de uma democracia. Não passaram despercebido
nem aos brasileiros nem ao mundo, as surpreendentes manifestações de protestos
dos jovens iniciadas em São Paulo, que acabaram por replicar em várias capitais
do Brasil (e outros países em um apoio solidário emocionante). Por trás dos
singelos 0,20 centavos reivindicados, os gritos clamavam por um cuidado e
respeito dos governantes e políticos para com sua população, para com suas
cidades, seu país. Que acordassem para a necessidade de reconstruir um espaço
político com instituições que não estivessem falidas ou sucateadas por um
modelo de interesses de poder e grana. Que devolvessem as ruas, as cidades, os
espaços públicos aos jovens, para que eles pudessem continuar acreditando em um
futuro. Uma revolta contra o descaso. Uma reivindicação de Jovens, que em
diferentes épocas históricas buscam ativamente uma versão de seu tempo para
afirmar seus sonhos e ideais, e lembram a todos os mais velhos, que são eles
que abrem caminhos para novas verdades, novos movimentos transformadores de
nossa existência. Mais, que não há convivência possível sem um bocado de
dignidade.
terça-feira, 18 de junho de 2013
O cão nosso de cada dia
Formávamos um quarteto de amigas à espera de um
garçom que nos atendesse. Enquanto isso, a única avó da mesa saca seu celular e
passa a desfilar as fotos de seus três netinhos. Todas olham embevecidas as
caras, bocas e poses de cada um. Faz-se um ohhhhh geral. Sem conseguir evitar,
outra amiga tira seu celular da bolsa e mostra a foto de seus dois amores
estampada na capa. Que lindos, exclamamos duas de nós. Que pelos
maravilhosos!!! Eles parecem estar sorrindo! Indignada, a outra balança a
cabeça sem poder entender o entusiasmo. A dona dos cachorros sorri e comenta em
tom baixinho: “ela nunca teve cachorros, não sabe o que é isso”. O “isso” era
sem dúvida o sentimento comum que havia tomado conta de nós três que, ao
contrário, tínhamos muitas estórias para contar sobre nossos cães em nossas
vidas. O estranhamento desta amiga para quem os cães eram apenas animais como
outros quaisquer, no entanto despertou-nos a ânsia de explicar o que (para ela)
era inexplicável: como nossas vidas tinham sido afetadas por estas criaturas.
Passamos assim a contar estórias emocionadas, como se estivéssemos falando de
nossos próprios filhos. A dona da foto do celular que morava em uma casa em
Belo Horizonte descreveu seu dia a dia com aqueles que eram, por enquanto, seus
“netos” de 10 e 8 anos. Os filhos já haviam se mudado para compor novas
famílias, mas ainda não eram pais e os dois cães ocupavam o lugar das crianças
da família, o que os tornava assunto de interesse de todos. Pelo menos uma vez
ao dia seus filhos ligavam para saber notícias das “crianças”, fato que a
deixava muito empolgada, pronta para descrever entusiasmada as últimas peripécias
da dupla. Ouvindo-a narrar sua estória pensei (com meus botões) como a
experiência de ter esses “bichinhos” morando em apartamentos acrescentava
variáveis inimagináveis ao convívio entre os “donos” e seus cães. As lembranças
de Bob ainda estavam misturadas ao luto pela sua morte acontecida há dois
meses, depois de 18 anos de convivência diária e intensa. Bob era um Fox Paulistinha
(o amor pela raça herdamos de nossa querida amiga ribeirão-pretana Márcia),
conhecido por sua inteligência, que passou a dividir espaços conosco quando
meus filhos ainda estavam na pré-adolescência (8 e 12 anos) e rapidamente fez
de nossa casa sua casa. Tinha seus lugares, alimentos, objetos, odores e sons
preferidos assim como sabia comunicar aqueles que não faziam seu gosto. Ao
longo de nossa vida “familiar” desenvolveu comportamentos diferenciados que agradava
a cada um em particular. Sua vitalidade era invejável: ao som do interfone
corria à porta a espera da “visita” até que esta tocasse a campainha. Se se
anunciasse a possibilidade de algum passeio não descansava enquanto o fato não
se consumasse, ou seja, ia do local em que estava sua coleira até a porta,
voltava-se para o “anunciante” e repetia este percurso à exaustão (de todos). Quando
finalmente “vestia” a coleira, saía pelo corredor até o elevador saltitante e
satisfeito. Se faltasse água ou ração sabia bater com insistência nos
respectivos pratos para pedi-los. Morreu de velhice como quem não queria ir-se.
Em seu ultimo ano de vida, mesmo tendo perdido a visão e a audição, ainda
distinguia as pessoas e os locais pelo faro. Tinha se tornado membro “efetivo”
da família e era raro não ser tema de conversas animadas ao redor de mesas de
almoço ou jantar em que se discorria sobre suas surpreendentes estórias. Nossa
amiga desconhecia este mundo “novo” em que cães comportam-se de forma ajustada
a casa, à rotina e à convivência com seus “familiares”, se “humanizam” e entendem vários códigos de nossa linguagem. Cães
que adoecem e se alegram com seus donos, podem se deprimir ou serem “ansiosos”.
Cães que vivem como gente.
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