O filósofo francês Michel de Montaigne (1533-92) é geralmente evocado
por todos aqueles que escrevem ou que elegem a escrita como forma de entender o
mundo e as pessoas. Foi ele quem, em seu “Ensaios” inaugurou uma certa
informalidade na escolha dos temas a serem tratados, dedicando-se a analisar o
cotidiano das pessoas e incluindo-se ao descrever suas experiências e
referir-se às próprias dúvidas, prazeres e inquietações. Manteve-se como uma
referencia também por seu estilo charmoso, elegante, inteligente e bem
humorado, além de ter caracterizado sua análise por uma postura tolerante em relação às ações
e sentimentos humanos comezinhos. Um verdadeiro precursor dos blogueiros do
século XXI já que, ao contrário da época em que viveu, hoje ninguém se
surpreende com relatos feitos na primeira pessoa em que se acentuam as cores do
íntimo e do psicológico. Nestes 500 séculos que nos separam desta época, o
lugar do privado e do publico sofreu transformações interessantes. No auge da
consolidação da era moderna, em pleno século XVIII a divisão nítida entre estes
dois espaços era condição sine qua non. Na esfera pública, os indivíduos eram
cidadãos, submetidos a leis e normas impostas pelo Estado, enquanto na esfera
privada eram pessoas prontas a defender seus interesses individuais. A família,
o trabalho e os negócios eram espaços privados, e a política e o Estado,
públicos. A tensão permanente entre o público e o privado foi se intensificando
à medida que as sociedades se tornaram mais complexas. Dentre as múltiplas
variáveis, certamente a mídia e a literatura contribuíram para que o espaço
privado ampliasse seus tentáculos e invadisse o publico. Hoje quase todos os
que escrevem o fazem traduzindo a realidade segundo seus pontos de vista, mesmo
quando pretendem uma compilação de fatos passados, já que as narrativas
de muitos historiadores levam seus leitores ao seu “imaginado” passado. Também
nos parece natural ler um texto em que seu autor é um tradutor de si mesmo,
capaz de transformar seu universo intimo e subjetivo em um mundo que faça
sentido e gere interesse aos seus leitores. Um colunista, que como eu, tem como
tarefa, a cada semana, escolher – entre as inúmeras opções que nossa vida
contemporânea oferece- um tema que possa ser minimamente interessante, poderia
se sentir “esgotado”, enfastiado, perdido e outros tantos adjetivos aflitivos. Mas
se ele se mantém escrevendo ao longo dos anos, é provável que o exercício da
escrita lhe seja não só prazeroso, mas importante. Em geral, aqueles que
escrevem por prazer, são os que estão sempre conferindo/perscrutando a vida, o
mundo, as pessoas, os lugares, as tramas, os desassossegos, as alegrias, em um
interminável questionamento das razões de se viver. E é quase certo que os
temas elegidos lhe sejam caros, o que faz com que o texto adquira um tônus
vital e encarnado, que contenha algumas respostas para as suas infinitas
perguntas.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Sem-noção
Adjetivo praticamente instituído nos tempos de hoje,
o “sem-noção” ganhou um lugar comum nas conversas cotidianas quando queremos
nos referir a alguém que adota comportamentos, vestimentas, diálogos ou modos
de vida que causem muito estranhamento por nos parecer excessivo, descabido ou
desrespeitoso. Isso pode se aplicar a questões morais, mas também ao
exibicionismo ou a certa intransigência, autoritarismo e/ou violência nas
relações pessoais. É assim que no convívio, estas pessoas ganham uma identidade,
são sem- noção, e passam a ser consenso entre os que o conhecem a tal ponto que
basta utilizar tal adjetivo para que o diálogo sobre o fulano passe a ganhar um
novo entendimento. É como se todos que participassem daquela conversa- em que o
sem-noção não está presente – soubessem que ele tem limitações importantes e definitivas
sempre que está em jogo o convívio, as trocas, os salamaleques, as delicadezas,
etc. A classificação acalma e apazigua as inflamações e indignações sobre ele.
Mas porque este tipo parece proliferar? Quem é o “sem noção”? Um disfuncional? Arrogante?
Maldoso? Autoritário? Foi a partir de um questionamento feito por alguns amigos
próximos quanto à maior incidência de “sem-noções” que o tema ganhou discussão acalorada
em uma roda de conversas. Foram lembrados alguns personagens que ao
conquistarem uma posição social mais alta, passam a acumular objetos que lhe
emprestam visibilidade e prestigio, e a praticar nos espaços públicos, ou um exibicionismo
ruidoso com publicações em redes sociais de fotos que comprovem sua vida de
celebridade ou certo autoritarismo, exibindo sem qualquer constrangimento uma
discriminação em relação aos comuns. Seu carro pode parar em locais não
permitidos, por exemplo, em fila dupla ou com o pisca ligado enfrente a bancos,
escolas, farmácias, etc., como se concedessem a si próprios privilégios vetados
aos outros mortais. Mas também foi destacada certa falta geral de etiquetas e
limites fundamentais para espaços compartilhados. A impaciência que muitas
vezes desemboca em comportamentos ou falas violentas e que vem sendo cada vez
mais comuns no trânsito chega a assustar. São buzinas e gritarias para qualquer
cidadão que estiver obstruindo o caminho. E assim, outras situações foram
elencadas, desde atender o celular em qualquer lugar ou hora e falar por tempo
indeterminado sem diminuir o tom de voz até sentir-se à vontade para tecer
comentários sobre qualquer assunto, com pessoas que não são íntimas, sem que
estas tivessem feito algum convite. Ao final, permanece a impressão de que
estamos diante de pessoas que não construíram internamente uma percepção de si
e dos outros que lhes possibilitasse gestar
sua convivência pública. Alguns argumentos se impuseram. O “sem-noção” seria um
personagem tupiniquim? Ele incide mais em certos países em desenvolvimento tal
como o nosso, que não têm um histórico civilizatório importante? Diante da
demanda do mundo contemporâneo para que cada um gerencie sua própria vida, quem
se ocupa de oferecer subsídios para que sejam preservadas algumas regras
mínimas de convivência desde que a família de origem perdeu seu espaço antes
único de doador destas referências? Sabemos que na atualidade, ao ser convidado
a se tornar visível para confirmar sua existência no mundo, cada individuo faz
uma leitura pessoal deste percurso, segundo seus critérios ou possibilidades.
Ainda que a maior parte da população mundial nunca tenha desfrutado de tamanha
liberdade de escolha para suas vidas, o que parece se impor ao convívio humano
é que deve caber a cada um o trabalho psíquico de construção de um lugar de “
ser gente”. De fato, em pequenas ou grandes proporções todos podemos ser “sem-noção”.
Tornar-se alguém benquisto, amável e educado exige uma métrica de autocrítica
que não faz parte da genética de ninguém, ao contrário, precisa ser exaustiva e
ativamente construída ao longo da vida, o que transforma tal lugar em um posto
a ser conquistado, que tem seus custos sempre atualizados.
Concessões
Por ocasião do cinquentenário do assassinato de John
Kennedy inúmeros textos foram produzidos, cada um contendo análises próprias, fossem
sobre sua vida, amores, ideias, sonhos, fracassos ou sobre o conturbado período
em que governou o país que no último século manteve uma soberania econômica,
tecnológica e militar sobre os demais. Canais de TV também exibiram reportagens
e documentários com destaques ao casal Jackie e John e repetiram à exaustão a
cena dramática do assassinato em Dallas no fatídico 22 de novembro de 1963. Não
pude deixar de me lembrar desta data, de nossa TV (ainda em branco e preto)
ligada e de meus pais consternados com a notícia. Era uma sexta-feira, um dia
de semana comum de trabalho e escola, mas na pacata cidade interiorana em que
eu vivia era visível o impacto que a notícia causava aos adultos que eu
conhecia. Naquele dia, a televisão da maioria das casas ficou ligada o dia
todo, a espera de novas notícias que pudessem contribuir com explicações sobre aquele
episodio inesperado. De todo o modo, graças àquela morte e às imagens que se
seguiram mostrando o belo casal, minhas lembranças adquiriram tonalidades
românticas. Jackie Kennedy, até então desconhecida, passou a ser íntima. Suas
aparições em fotos de revistas ou cenas na TV despertavam o interesse de todas
as mulheres, prontas a conferir sua elegância e seu visual impecável, porta-voz
que era dos estilistas mais badalados da época. As imagens de John divulgadas
pela mídia privilegiavam seu convívio familiar ou seus discursos, sempre
acompanhados de muito público. Sua morte ajudava a perpetuar um imaginário
sentimental ao qual muitos desejavam preservar, principalmente os americanos,
que se orgulhavam das cenas de sua “realeza”. Passados cinquenta anos, no
entanto, a aura romântica que tanto protegeu o casal Kennedy alterou-se tal e
qual as antigas fotos que perdem sua nitidez com o tempo. As gerações atuais,
sem muitos compromissos com as nostálgicas lembranças deste reinado, não poupam
JFK de seu lado B. Jornalistas e cientistas políticos analisam criticamente a
era Kennedy separando o joio do trigo em uma demonstração cabal de que o texto
de uma vida admite múltiplas versões. Ficamos sabendo que a conquista de seu
cargo de presidente, por exemplo, acontece graças à morte de seu irmão mais
velho (e mais inteligente) durante a segunda guerra mundial, aquele que o pai
havia designado desde sempre para tal posto. Ao contrário de Joe Jr., John
teria tido uma vida acadêmica medíocre o que refletia no seu despreparo para
com a complexa gestão do poder e da política do USA, apesar de seu carisma.
Além disso, reportagens, depoimentos e livros mapearam a impressionante coleção
de namoradas e amantes do presidente, que em tempos de mídia instantânea e redes sociais
não teria sobrevivido politicamente aos escândalos. E se a historia de sua vida
admite reinterpretações, sua morte o imortalizou em diferentes papéis, desde o conquistador
e presidente jovial, até o herói americano e símbolo de uma época. Mesmo a
porcentagem de americanos ultraconservadores - aos quais muitos atribuem sua
morte - que o viam como um político non grato, democrata, católico, socialista
e antiamericano, fizeram as pazes com seu passado de ódio após o impacto de seu
assassinato, contribuindo para a manutenção das muitas teorias conspiratórias envolvendo
a máfia, a CIA, os cubanos, etc. E ainda que hoje seja possível analisar o
abuso de poder e de privilégios que Kennedy exibia sem constrangimentos, ele
foi responsável por medidas importantes como o Ato dos Direitos Civis, que
acabaria com todas as formas de segregação racial ainda existentes no país. De
toda a forma, John F. Kennedy, democrata e primeiro presidente católico em um
país majoritariamente protestante desfrutou, enquanto viveu e depois que morreu,
destas concessões que fazemos a alguns, quando os elegemos portadores de partes
ideais de nós mesmos. Especiais.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Duas vezes mãe
Poucos anos atrás uma amiga querida telefonou-me
para contar emocionada que sua filha mais velha estava grávida. Uma mistura de
sentimentos a invadia e ela ansiava por uma conversa longa na expectativa de
que alguma organização deste tumulto pudesse acalma-la. Aceitei prontamente o
desafio, antecipando certo prazer nesta troca que, a meu ver, poderia se tornar
fecunda para ambas. Estava longe de imaginar como a gestação de sua condição de
avó seria construída passo por passo com idas e vindas em um misto de aflição e
prazer, mas principalmente em um reviver nada tranquilo de sua própria
gravidez. Muitas estórias depois, começou a despontar o espaço novo em que a
futura neta iria habitar. Que avó ela queria ser para aquela menininha? Que
valores ou afetos ela haveria de privilegiar na tarefa de transmissão a que ela
estava se propondo? Mais uma rodada de lembranças foi acionada na tentativa de
situar sua mãe, falecida já há algum tempo, naquela condição de avó. Alguém que
felizmente havia estado muito presente e teria contribuído bastante para que os
primeiros cuidados com sua bebê - que agora gestava sua netinha - pudessem
parecer-lhe menos assustadores. Foram nove meses intensos em que pude
compartilhar com minha amiga uma mudança de peso na sua vida, primeiro na
interior, e depois na cuidadosa disposição do tempo para os afazeres de sua
rotina, abrindo espaços que seriam preenchidos por seu convívio com Alice, a
netinha. O zelo e a responsabilidade com que ela tratara seu novo status me tocaram.
Sem nunca se questionar, ela havia “trabalhado” de forma incansável, tentando
não se esquecer de nenhuma letra do alfabeto. Tanto empenho me levava a
refletir sobre as características de “tonar-se avó” e como esta função estaria
diferente nos tempos de hoje. Não é difícil detectar um lugar comum que habita
o imaginário de ser avó e classifica esta condição como algo “finalmente”
prazeroso, já que ao contrário da maternidade com suas responsabilidades
extremas, as avós podem deitar e rolar com seus netinhos sem se preocupar com
as obrigações educacionais e seus limites, em geral cansativos por demandarem
exaustivas intervenções. É possível que a figura da avó complacente das
famílias de gerações mais antigas cumprisse mais este papel de assegurar um
pouquinho de liberdade ilimitada- aqui
você é rei/ rainha- para fazer um contraponto diante das inúmeras obrigações
que os pais precisavam impor aos pimpolhos. Por outro lado o “tornar-se mãe ou
pai” atualmente está longe daqueles tempos em que tal função era praticamente
naturalizada, ou seja, de pai para filho, de mãe para filha e assim
sucessivamente. Muitas e novas variáveis passaram a contar, desde as mudanças
nos papéis da mulher, que pode fazer inúmeras opções em sua vida, inclusive a
de não se casar ou ter filhos, até na configuração das novas famílias, que em
muitos casos agregam filhos, pais e avós de outros relacionamentos. No caso das
avós, uma grande parte trabalha, tem vidas com agendas cheias e nem sempre
estão dispostas, como minha amiga, a abrirem uma picada nova na paisagem
construída durante anos. Mas é verdade que a relação entre os avós e seus netos
pode ser muito prazerosa. Sem muitos modelos prévios, no entanto, parece que
cada um pode construir sua condição de avô ou avó, incrementando-os com seus
desejos. A amiga citada acima planejou com cuidado sua nova função, tomando-a
como uma passagem a qual ela deveria e queria se preparar. Outra, cujo humor
fino a caracteriza, avó de três netos, em resposta a minha pergunta sobre como
tinha sido para ela “tornar-se avó” respondeu prontamente: há um antes e um
depois. Em seu rosto nenhum sinal de que a frase pudesse habitar somente um dos
lados entre o prazer e o fardo.
Liberdade, igualdade, fraternidade?
Há pouco mais de 200 anos, a França era palco de uma
das revoluções mais importantes, marco da era moderna. Ali, o povo se rebelava
contra a tradição e a hierarquia de monarcas e aristocratas, além da então
corrupta e poderosa Igreja Católica. Claro que a realeza, tomada de susto, se
organizou e durante algumas décadas lutou para restaurar a monarquia, o que
veio a acontecer com a era Bonaparte, mas estava cravado na história do
ocidente e no coração das pessoas, a esperança de um mundo em que fosse
possível a soberania do povo, o exercício da autoridade regido por leis
promulgadas por assembleias eleitas, a supressão de privilégios antes
instituídos, etc. As grandes guerras mundiais justificavam-se pela busca deste
mundo mais justo. No ultimo século, as ideias em torno desta “esperança”
movimentaram-se bastante. Se conquistamos direitos antes inimagináveis, graças
a todos os que militaram incansavelmente por isso, se elegemos a democracia
como um modo de convivência que mais se aproximava de um quantum igualitário de
liberdade, aquela “esperança” parece que foi aos poucos se deslocando. Ao invés
dela, hoje se busca mais a confiança. A maioria dos países que em tempos
passados viveram sob a égide de algum regime totalitário tenta encontrar um
eixo democrático e sustentar os direitos de seus cidadãos. O Brasil é um deles.
No entanto, o que se percebe, é que na época atual a cultura de cada país, ou
seja, como a rede de relações se estabelece se rompe ou se articula entre as
várias camadas sociais e políticas assume um lugar de muita importância na
estética democrática. Nossa famosa cordialidade, por exemplo, esconde uma rede
de relações privadas que comanda a cena pública do país e reivindica eternamente
ou um amparo ou uma brecha da lei para manter seus privilégios. Como nunca
tivemos um Estado que bancasse o desmame, à medida que se amplia o acesso de
classes menos favorecidas para repartir o bolo, aumenta-se o número de pessoas
que perseguem um lugar especial, ao sol, conquistado graças aos conchavos
decididos às escuras ou nos cochichos. Ao que parece este cenário de bastidores
se mantém a revelia dos partidos a esquerda ou a direita que assumem o comando
da proa. Assim, os “direitos” se tornam privados e cada um reivindica à sua
maneira, seus interesses particulares. Se o mundo se divide entre malandros e
otários, ninguém quer ser o segundo. Não temos uma bagagem de compartilhamento
do que é público e, portanto do que pertence a todos da mesma maneira. Ao invés
disso, reclamamos de tudo e todos sempre, vítimas que seríamos deste Estado
injusto, que não responde à altura da fome de cada um. Nas
últimas semanas, canais de televisões mexicanas veicularam um comercial que “bombou”
nas redes e gerou polêmica. Com atores infantis vestidos de adultos e vivendo o
cotidiano destes adultos, um estranhamento vai tomando conta de quem assiste,
como se, a despeito de todas as reverencias que se faz à infância e ao seu
lugar de privilegio na confecção do futuro do mundo, quando nos tornamos
adultos, entramos na roda viva que circula em torno dos interesses mais básicos
e primitivos: muito dinheiro, sombra ou sol (a depender do gosto) e agua
fresca. A noção do que é político, que é o dever de cada um em gestar qualquer
dimensão do que pertence a todos por igual, fica nos livros deixados nas
gavetas ou nos ideais esquecidos da juventude. O vídeo termina com uma criança
repetindo que se este é o futuro que a espera, não, não, ela não o quer. Como
se antes mesmo de se tornar um jovem capaz de sonhar e apostar em algum mundo
melhor, um trabalho de cada geração, estas crianças estivessem alertando-nos
para que não descuidemos do cimento de qualquer porvir: a confiança.
domingo, 13 de outubro de 2013
Governantes e governados
Na Ilustríssima de 4 de agosto de 2013 é possível ler
a resenha de um livro escrito pelo jornalista Mark Leibovich
- correspondente
da revista semanal do "New York Times"- lançado no
USA para “causar”, principalmente entre aqueles (incluídos aí seus próprios
colegas de profissão) que gravitam na “corte” (Washington D.C.), independente
de quem habite a Casa Branca. Com o sugestivo título “Esta cidade – duas festas
e um funeral” o livro é uma radiografia dos bastidores das relações promíscuas
entre políticos, lobistas e jornalistas, sem deixar de mencionar a passagem de alguns
de uma para outra destas funções, assim que se veem mordidos pela possibilidade
de “venderem” informações ou representar anseios de grandes corporações que
possam gerar investimentos, ganhos extras e/ou privilégios. Ficamos sabendo
p.e., que atualmente 50% dos
ex-senadores e 42% dos ex-deputados americanos tornam-se lobistas. O
lobby, como se sabe, tem sido uma prática comum em alguns estados democráticos de
buscar acesso aos políticos para que estes saibam das demandas de determinados
segmentos da sociedade, usando pessoas (lobistas) e seus canais de contato
junto aos órgãos de governo. Mas de uma participação que poderia ser saudável no
processo de negociação política transformou-se em uma extrapolação da persuasão,
sempre em favor de interesses particulares. Da “influencia” para o assédio
ostensivo e à corrupção, um pulo. Mas para além destas distorções que também para
nós brasileiros não se constituem novidades, o livro escancara um mundo à
parte, em que a Lei pode e deve ser esquecida e todos são convidados a se
despirem de seus idealismos, crenças e valores éticos para desfrutar sem culpa
de um mundo de privilégios. Cria-se assim uma espécie de Olimpo em que todos se
corrompem sem constrangimentos, ao priorizar apenas seus interesses de poder,
prestígio e dinheiro. No final da resenha seu autor descreve uma situação imaginária
em que o jornalista/escritor levaria uma surra de algum de seus mencionados, por
ousar “trair” este mundinho à parte, cujas festas e jantares ele mesmo teria
participado. Duas imagens me vieram à mente. Na leva de textos escritos
pós-passeatas de junho, em algum deles o eterno PMDB foi descrito com este tipo
de funcionamento à parte. Dirigido por um grupo oligárquico de indivíduos que
se consideram donos e permanecem na liderança por décadas, eles não só
controlam as finanças, as alianças e os candidatos, como se colocam estrategicamente
alinhados ao governo, seja este de que partido for, mantendo assim uma espécie
de blindagem que lhes permite barganhar desde cargos privilegiados até votações
importantes. Sem programas, tudo gira em torno dos interesses de seus
dirigentes. Sem um comprometimento ético, favorecem a legislação em causa
própria. Tal como uma “corte” o partido mantém seus “aristocratas” insaciáveis
por honrarias e benefícios que se regozijam em perpetuar a separação entre os
que têm poder e os comuns. É nesta lógica, ou melhor, nesta rede deturpada que
se produz uma cena intrigante. Uma notícia recente na mídia divulgava que a
Rússia finalmente teria concedido um asilo temporário ao técnico de informática
Edward Snowden - responsável por revelar o esquema de espionagem de telefones e
internet feita pelos Estados Unidos- após este ter permanecido mais de um mês
no aeroporto de Sheremetyevo em Moscou. O fato dos Estados Unidos ter pedido sua
extradição por roubo de dados sigilosos e espionagem bastou para que nenhum
país se dispusesse a acolhê-lo. Semanas atrás ele teria feito a seguinte
declaração à imprensa internacional: “Há um mês, eu tinha uma família, uma casa
no paraíso. Também tinha a capacidade de, sem nenhuma permissão, vasculhar, ler
e apreender suas comunicações. A comunicação de qualquer um, a qualquer hora.
Esse é o poder de mudar o destino das pessoas”. Na era do máximo de liberdade,
é bom que se lembre.
O tempo de Alice
Mais rápido, mais rápido, mais rápido – o título de
uma reportagem do dia 23 de agosto de 2013 no Valor Econômico,
trouxe-me à lembrança o Sr. Coelho, famoso personagem do livro “Alice no
país das maravilhas”, que aparece exibindo seu relógio e dizendo “Estou
atrasado, estou atrasado, estou atrasado”. É ele que passa apressado e atrasado,
instigando Alice a segui-lo, o que faz com que ela inicie a jornada que a
levará a um outro tempo. Mas que tempo? No texto do Valor Econômico , o
sociólogo alemão Hartmut Rosa afirma que vivemos na atualidade uma doença do tempo em que paradoxalmente o
excesso de atividades anulou os ganhos que a tecnologia traria ao tempo de cada
um, o que estaria produzindo estresse, ansiedade e insônia. Ficamos sabendo que
por milênios, as civilizações não se importavam em medir o tempo o tempo todo,
mas entre os séculos XVIII e XIX, as máquinas e fábricas, os trens e cabos telegráficos
lançaram um ritmo de vida com relógios, horários e pressa. Ainda que na época
tais mudanças embutissem a promessa de uma era de razão em que a felicidade, a
prosperidade e a liberdade deveriam ser para todos, quanto mais a tecnologia
economizava tempo, mais ocupados fomos ficando. Claro que a partir dos anos 70 a
revolução dos computadores elevou isso a uma potencia máxima, afetando nossa
percepção do tempo. Um estudo aponta que hoje, para um jovem de 22 anos, a
percepção do tempo é 8% mais rápida do que para alguém da mesma idade um século
atrás. A
Alice de Lewis Carroll despertou ao longo de sua existência várias reflexões em
que diferentes dimensões do tempo poderiam ser ressaltadas. Por exemplo, à
época em que foi escrita, no final do século XVIII, quando os livros infantis pretendiam
moralizar as vidas dos pequenos, Carroll ousou ridicularizar tais bons
comportamentos ao descrever um imaginário infantil que construía “teorias
próprias” para entender as esquisitices do pensamento e do comportamento dos
adultos. Se naquele contexto a historia funcionava como uma crítica ao seu
tempo (época) é verdade que a obra transcendeu o autor, permanecendo atual ao
possibilitar outras leituras. Em 2010, por exemplo, foi a vez de o
personalíssimo diretor Tim Burton lançar sua versão de Alice. O filme começa
com a jovem no casamento de sua irmã, às voltas com o seu mal estar diante do que
havia sonhado para si e o que era acenado como o futuro esperado (e cometido)
pelos adultos que a rodeavam. Suas irmãs gêmeas nadavam escondidas da mãe no
lago, aquela que se casava não lhe escondia sua vida sexual secreta, a tia
solteira tinha certeza que a qualquer momento e lugar encontraria seu príncipe
e para sua mãe não havia chances de Alice recusar ali o pedido de casamento feito
por um eterno admirador, que ela não admirava nenhum pouco. Socorro! Ela
precisava de um “tempo”. Assim se inicia a historia da busca de Alice –
atrasada, apressada- para encontrar (entender quem é, o que quer, como quer,
etc) um sentido para sua vida. Um outro tempo, subjetivo, em que ela deverá
mergulhar em sua historia para resgatar ou construir seu desejo e seus ideais, encontrar
alguma coragem para explicar suas escolhas e enfrentar o ônus desta
responsabilidade. Um tempo para a realidade interna que pode vir a modificar a
percepção do tempo da realidade externa.
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