segunda-feira, 12 de junho de 2017

A família entre a cultura e a subjetividade atual: o papel do amor

A família entre a cultura e a subjetividade atual: o papel do amor

O trabalho de Foucault é hoje uma referência para pensarmos a contextualização histórica e social  da experiência humana e das verdades  e crenças  que dão sentido as relações dos sujeitos consigo, com os outros e com o mundo. Não sendo a subjetividade nem universal nem prévia, torna-se necessário analisar os mecanismos de sua construção dentro de determinada época para saber sobre a constituição dos estilos de existência, das estruturas sociais que sustentam os sujeitos e das relações de poder que os dominam. Para Foucault (apud Bezerra Junior, 2000), é sobre estas formas de poder que se produzem campos de resistência, que na modernidade concentram-se na esfera subjetiva. A psicanálise freudiana protagonizou uma leitura inédita e subversiva das experiências subjetivas de seu tempo ao dar sentido à sintomas psíquicos perturbadores, revelando um cenário de fantasias humanas nem sempre sensatas ou coerentes e desvendando um sujeito dividido entre seus desejos e as exigências e proibições de sua cultura.
Nas últimas décadas, a cultura ocidental foi palco de intensas mudanças e invadiu quase todos os setores da vida humana. Seus ícones passaram a ser temas de pesquisas de diferentes áreas de conhecimento, que não só reconhecem sua importância e sua permanente  transformação, como buscam refletir sobre seus novos paradigmas. Tema privilegiado pela sociedade ocidental, a família, ícone cultural por excelência, tem sido alvo de estudos interdisciplinares que buscam constituir um saber a respeito de seu sentido e função na era contemporânea. Lugar especial no qual o bebê humano nasce, é cuidado, satisfaz suas primeiras necessidades, efetua seus primeiros intercâmbios afetivos, e é objeto de investimento amoroso, a família reúne um sistema de relações simbólicas e emocionais que lhe asseguram o lugar de importante núcleo de produção de subjetividade. No último século, este núcleo  familiar viu-se atropelado por mudanças culturais importantes  e por novas possibilidades que a ciência produziu.
Os avanços  da biotecnociências foram responsáveis por uma reviravolta no processo da reprodução humana, provocando uma revolução no próprio conceito que designava até pouco tempo a união, reconhecida e apoiada pela sociedade, entre um homem e uma mulher com fins de criar e manter os filhos. Mudanças nos papéis tradicionais de pai e mãe, de homem e mulher, na gestão da autoridade, na educação e transmissão dos valores e normas para as novas gerações, produzem discursos às vezes  alarmantes às vezes nostálgicos diante de um futuro que se apresenta incerto. Este texto pretende refletir sobre estas mudanças através da articulação entre a cultura e a produção de subjetividade na atualidade e analisar as regras e normas que hoje orientam e regulamentam a vida familiar ocidental e sua absorção de tais mudanças. Para isso partiremos de uma breve revisão da história da família moderna, ressaltando o valor do amor na constituição de um novo modelo familiar e de uma particular subjetividade que passa a existir a partir da Modernidade.
Após as revoluções burguesas do século XVIII  o espírito moderno apostou que a razão humana igual para todos pudesse assumir o exercício  de organizar as condutas e os consensos necessários ao convívio. Mas a tarefa de nos livrarmos das hierarquias pré-estabelecidas e exaltar o indivíduo como membro de uma humanidade comum se mostrou lenta e árdua, além de produzir inúmeros restos. O modelo familiar que conhecemos surge em meio à euforia do projeto civilizatório iluminista e teve em Rousseau seu maior idealizador. Tal projeto englobava uma proposta filosófica e política para a sociedade burguesa que  pretendia fazer do amor apaixonado a base da construção da família, o que significava integrar a sexualidade ao amor e ao casamento. Bem recebida na época pelos literatos em geral, tal composição não só se alinhava aos anseios de autonomia dos indivíduos como previa um arranjo conjugal em que a sexualidade ganhava legitimidade. Mas Gay (2000) denuncia como a imaginação do século XIX vai ficar capturada pelo componente físico da vida erótica e das estratégias de conquista sexual, com suas promessas de êxtase. Para a sociedade burguesa de então, era de mister importância que a bandeira do amor servisse de norte para os excessos do sexo e não faltava literatura cuja finalidade era a de mostrar os destinos trágicos do apaixonamento quando este não se enquadrava  na construção da família. O amor poderia incluir os suspiros do sexo, mas deveria seguir um percurso de sensatez e atender os compromissos de criação dos filhos, reprodução da família e formação do cidadão. Era este o cenário em que a dupla moral burguesa denunciada por Freud (1908),  expunha  as limitações impostas pela cultura à satisfação sexual principalmente das mulheres, chamadas a  privilegiar seu papel de mãe. A literatura romântica da época era pródiga em incentivar  o amor como remédio aos excessos do sexo, prescrevendo  destinos trágicos às paixões que se afastavam dos moldes previstos pela família burguesa. Grande parte dos romances narravam histórias de amor em que os sentimentos de angústia e de sofrimento vividos por seus protagonistas giravam em torno de um único objetivo: a realização do ideal de amor. Este repertório literário se alimentava da idealização romântica do amor ao mesmo tempo em que propiciava cenários de encontros e experiências amorosas cujas paixões e  desesperos passam a colorir  as fantasias humanas. As  narrativas românticas se encaixavam na ideologia individualista em curso e ajudavam a criar  uma interioridade psicológica  com  identidades  fundadas em sentimentos íntimos, o que produzia uma subjetividade e uma experiência amorosa inédita. Nascia um novo conhecimento, uma ciência do homem, de suas particularidades e singularidades, expressa por uma nova linguagem, auto-referente, com  sujeitos capazes de falar de si.
O amor romântico se consolida em um  ideal reverenciado pela sociedade,  suporte deste modelo de família e parte  de um horizonte futuro da vida de cada um , uma aspiração  poderosa que acenava com a  possibilidade de uma felicidade humana terrena em contraposição aos  antigos ideais religiosos. Também inaugura uma convivência familiar mais centrada em seu núcleo pai-mãe-filhos,  transformando-se  em uma fortaleza afetiva restrita, o que funda a vida privada e íntima, característica da era burguesa.
Como bem aponta Roudinesco ( 2002), os casamentos realizados por amor começam a apresentar, a longo prazo,  um esgotamento do desejo e um desencantamento do sexo, dando margem ao surgimento de uma relação muito próxima entre mãe e filho. O  bem-estar familiar  gira em torno deste ‘ninho’ e  à mulher resta o papel de mãe que ganha as atenções e a reverência da sociedade. O amor materno passa a ocupar um espaço jamais conquistado anteriormente na história da humanidade e seu corpo é alçado ao lugar de um paraíso originário. O ocidente passa a cultuar a imagem da Virgem Maria e seu filho como símbolos da maternidade. Tal reverência à maternidade ajuda a incrementar a figura mitológica da “sagrada família” moderna e de mãe para filha, o modelo materno adquire uma áurea própria: ao se casar e ter filhos a mulher se despoja de sua humanidade, recebe o cetro e a coroa e desfruta de seus poderes maternos. Aos poucos a mulher-mãe se torna condição de sobrevivência, indispensável ao desenvolvimento e à educação dos futuros homens. Mas se a influência materna passa a ser decisiva para a criança, os desvios e falhas infantis passam a ser fracassos de sua função de mãe.
Estamos diante do momento histórico (Áries, 1978) em que a infância moderna se instala em um compósito entre a idéia de um tempo feliz protegido pelo amor dos pais, mas principalmente  pelos cuidados de uma mãe amorosa, e a preocupação social em produzir cartilhas e especialistas que preenchessem quaisquer limites ou insuficiências da vida familiar. É assim que no plano social inicia-se a interferência pública nos cuidados e proteção à criança, promovendo o desenvolvimento de uma infinidade de setores que de forma gradual, passam a oferecer saberes considerados mais adequados ao desenvolvimento do futuro adulto.
Seguindo Foucault (1988), a organização patriarcal da sociedade, herança do poder soberano, que mantinha a hierarquia entre os gêneros, passa a conviver com uma nova maneira de poder, um poder disciplinar, mais coerente com a ideologia de liberdade, igualdade e autonomia do individualismo social em andamento. Tal poder se dispersa pelos múltiplos setores da cultura (mídia, publicidade, escola, empresa, etc) e subverte o permitido e o proibido, estimula o sexo e os prazeres e funda novas regras e normas de controle sobre a vida dos indivíduos. É este biopoder que vai lentamente invadir a vida privada familiar, oferecendo alternativas de cuidados “mais adequados e saudáveis” para seus membros. As normas e valores patriarcais  perdem sua potência na medida em que o indivíduo, enquanto corpo, passa a ser o objeto de novas estratégias políticas que visam proteger e melhorar as condições da vida de cada um. Novas normas e parâmetros são fixados, novas verdades e estilos de viver, aos quais os indivíduos precisam se ajustar para serem reconhecidos, aceitos e desejados.
Na intimidade da família nuclear, o amor se mantém como item importante na constituição e na regulação das relações entre os homens e as mulheres, mas também se articula a um estreitamento do vínculo entre a mãe e a criança e inaugura um prolongamento do ideal de amor e felicidade irrealizável na aspiração de um tempo feliz e perdido. Os filhos passam a representar a esperança da realização da felicidade almejada pelos pais. O amor dos pais à seus filhos sustenta-se nesta possibilidade de assisti-los transformarem-se na imagem de felicidade idealizada por eles. Surge assim um circuito amoroso fundamental para a subjetividade moderna.
Além da infância, o casamento entre o amor parental narcísico e o individualismo moderno produz outro fenômeno social importante, a adolescência, que surge no pós-guerra como depositária idealizada dos atributos de coragem, alegria e esperança e inaugura um tempo em que a felicidade, o prazer e a boa vida serão admitidos e depois incentivados, entre a infância e a idade adulta. (Calligaris, 2003)
Nascida no caldo cultural moderno, a psicanálise passa a desvendar este particular contexto familiar  e a complexidade das subjetividades de seus membros, ao revelar os bastidores conflituosos  das relações entre mãe,pai, filhos e filhas e o lugar privilegiado das funções parentais na constituição do psiquismo humano. O momento amoroso da infância, graças aos cuidados e reverência dos pais passa a ser considerado de suma importância para a emergência psíquica do bebê, mas é esperado que ainda no seio familiar ele possa ser confrontado com sua humanidade: aceitar não ser rei, não ser único e nem desfrutar da exclusividade amorosa que imaginava. Tarefa das mais difíceis, será entre a ameaça de perder e o desejo de  obter novamente este lugar privilegiado e exclusivo,que a criança deverá abrir mão desta importante ilusão de ser amada incondicionalmente  para dar lugar  às infinitas condições a que  ela terá que se submeter mas  que tentará evitar. É neste  jogo amoroso singular que ela construirá sua subjetividade. A lembrança deste amor incondicional imaginado permanecerá na aspiração  de um reencontro amoroso futuro. O ideal de amor romântico se incorpora à subjetividade moderna, fundando um ideal para o eu (Haddad, 2006). Sabemos o quanto ao longo do último século, a sociedade ocidental tornar-se-á militante do amor, cujo argumento revolverá normas, valores e leis.
À medida que aumentam os saberes sobre o humano, as funções parentais  tornam-se  maiores e mais complexas. Além de se responsabilizar pelo fato físico do nascimento, os pais devem reconhecer sua criança, dar-lhes um nome e uma filiação, cuidar do seu sustento, educação e saúde, proporcionar-lhes um espaço de convivência em que sua subjetividade se constitua e  cumprir  a função simbólica de transmissão dos valores, normas e interditos da cultura.
Embora esta célula familiar moderna assuma um papel primário na transmissão da cultura e das gerações, ela é ao mesmo tempo fonte de normalidade e das piores patologias, o que faz com que as  funções parentais se tornem cada vez mais alvo de cuidados públicos. Do ponto de vista social e ao longo do tempo, tais funções migram gradualmente do espaço privado ao público. Na tentativa de manter este modelo idealizado, a família  se torna um centro irradiador de demandas de estudos e pesquisas que visam conhecer suas características e especificidades para criar todos os tipos de serviços, cuidados e proteção que garantam seu bem-estar ou técnicas e projetos que auxiliem o desenvolvimento de seus membros.
Esta  passagem da função da parentalidade ao espaço público  acontece em concomitância ao desenvolvimento das ciências e outros saberes que passam a assumir parte  das funções de cuidados dos infantes e de leis que garantem à criança esta tutela ou cobram dos pais seus deveres e obrigações. Ao ser  invadida pelo olhar público, a estrutura familiar burguesa  revela seu avesso e sua fragilidade. Em meio à movimentação dos setores da sociedade que buscam corretivos, a psicanálise segue revelando seus descompassos. Por ser uma sociedade centrada na autoridade patriarcal, as leis de recato sexual tinham o objetivo de regulamentar principalmente  a vida erótica das mulheres já que qualquer exposição de  sua sensualidade era motivo de desconforto. Além de serem mães por “vocação natural”, seus desejos sexuais deveriam ser limitados pelas vicissitudes desta função. Ao escutar as histéricas, Freud desvenda uma subjetividade que não confirma tal “natureza feminina”.
O ideal de amor e  sexo não cessa de alimentar o imaginário cultural  e se mantém ansiado por homens e mulheres.Tal fato contribui para o surgimento de novas perspectivas para se questionar as maneiras de amar, as transformações do erotismo, as práticas sexuais condenadas, a prostituição e as restrições impostas aos sexos. A psicanálise bebe deste momento cultural e ajuda a retirar o tema da sexualidade dos bastidores da vida humana. Entre outras coisas, a falsa moral burguesa escondia o medo e a preocupação cultural com a incapacidade dos homens gerenciarem o controle sobre seus impulsos sexuais e agressivos. Ainda que lentamente, começa a haver uma subversão das mitologias naturalistas da diferença entre os sexos fazendo cair por terra o instinto maternal e a raça feminina. O tabu da virgindade feminina (Freud, 1917) revela o temor de ambos os sexos em relação à passagem da menina à sua condição de mulher sexuada. A  preocupação social da época em adestrar o corpo e a sexualidade feminina para a procriação e para o casamento, era uma tentativa de evitar um excesso sexual perturbador e temido.  Acresce-se a isso a complexidade da relação dos homens com  a  figura da mãe-mulher,que no melhor dos casos, produzia uma separação entre a  mãe virgem e pura de um lado e a mulher sensual e sexuada de outro ( Freud,1912).
No plano do conhecimento humano, o século XIX  vivia  um embate entre o legado das tradições e as rupturas a estas que não cessavam de se suceder. Reinava o pensamento crítico, as idéias de progresso e renovação e o desejo de se libertar do obscurantismo e da ignorância pela  difusão da ciência e da cultura em geral. Tal efervescência gerava a produção de discursos médicos, psicológicos, jurídicos, políticos e religiosos que pretendiam ora analisar ora criticar a convivência de valores antagônicos e moralistas ou criar novos discursos que respondessem aos alardes das mudanças reivindicadas pelas gerações que se sucediam às antigas.
Por seu lado, a psicanálise  ampliava seus saberes sobre a construção de uma interioridade psíquica cujo personagem principal era a complexa e enigmática sexualidade  humana, com destaque para seu papel no interior da família, na constituição psíquica da criança e dos conflitos vividos nas tramas amorosas da infância. O amor dos pais, tão reverenciado, precisava existir na justa medida entre os cuidados e a erotização do corpo infantil responsável pelo anseio de viver e ser amado, e  certas rupturas de um estado fusional e primitivo com a mãe, que o auxiliassem a entrar no mundo simbólico e partilhado da cultura, carregando o legado das aspirações parentais e das crenças, ideais e proibições vigentes no discurso social. Nasce o sujeito dividido entre o que ele quer, o que ele teme e o que a cultura lhe permite e oferece. O conflito entre a necessidade de amparo e amor e o anseio de separação e independência ocupa o centro da constituição desta subjetividade moderna, uma “subjetividade amorosa”.
No pensamento moderno deveria caber a cada indivíduo construir seu próprio destino e seu próprio eu, rumo a um futuro que não dependeria mais dos deuses. A aposta no futuro passa a significar uma aposta em novos sentidos para a existência humana  que acenem com uma maior satisfação, prazer e conforto.  A conquista desta individualidade autônoma dentro do círculo doméstico começa a se dar à medida que o poder familiar vai se restringindo e os interesses pessoais aumentando em consonância com  uma exigência de simetria entre os pares conjugais. Aos poucos, as mulheres vão ganhando espaço público e com o advento  dos métodos anticoncepcionais, conquistam o direito ao amor livre , ao aborto e ao divórcio. Homens ou mulheres, cada um se  torna o único ou o principal  regulador de suas práticas afetivo-sexuais, assumindo a liberdade para experimentá-las e gerenciá-las. Sem as amarras  das  regras de aliança, homens, mulheres, homossexuais ou não, começam a formar seus pares fundados somente em escolhas amorosas e mantidos por acordos e negociações. Tal liberdade incide tanto nas escolhas dos parceiros quanto nas decisões de interrupção das relações quando estas  se mostram impossibilitadas de cumprirem os acordos estipulados.  
Muda a  realidade social,despontam novos modelos de convivência e novos repertórios de condutas. A formação dos pares conjugais  fica independente do sexo ou da  orientação sexual de cada um. Resultado de um movimento de desvencilhamento da tradição e das regras coercitivas sociais, ao manterem apenas o amor como  eixo central de suas  escolhas, estas novas parcerias inauguram uma nova ética e estética do convívio amoroso  e embarcam em uma aventura incerta. Com relações amorosas mais efêmeras  os indivíduos  passam a formar mais de um vínculo conjugal durante sua vida, o que altera a constituição dos agrupamentos familiares e a convivência entre os pais que geram e os que cuidam e os filhos legítimos ou adotivos.
Os métodos anticoncepcionais e a biogenética rompem  a antiga junção casamento-sexo-procriação. A concepção não decorre somente do contato sexual. Não é mais necessário estar casado ou ter um cônjuge para ter um filho. As uniões homoafetivas não só tem o reconhecimento social como podem adotar filhos ou mesmo concebê-los e assumirem uma função parental.
A partir dos novos casamentos que cada um dos pares pode fazer e dos novos filhos destes novos casamentos, os núcleos familiares precisam  receber os filhos de um ou ambos os integrantes de um novo par, provenientes de um vínculo anterior, promovendo a fusão de duas ou mais famílias às vezes com características e modos de vida diferentes. São códigos, regras e estilos de parentalidade diversos. Uma criança pode  pertencer simultaneamente a mais de um grupo familiar e sua  circulação  entre eles  pode ser constante e organizada ou irregular e informal. Alguns núcleos formam redes em que convivem ex-cônjuges, antigos e novos avós e tios, novos irmãos, enteados, padrastos e madrastas.
A filiação passa a não ser mais definida pelos laços sanguíneos, legais ou residenciais e sim  por uma filiação social ou sócio-afetiva, fundando um grupo doméstico cada vez que em uma casa se juntam o novo casal e os filhos de um, de outro ou de ambos. Ser pai ou mãe, ou exercer uma função de parentalidade  depende apenas de um comprometimento. O lugar do pai e da mãe não tem que ser necessariamente ocupado nem pelos pais legítimos nem por um homem e por uma mulher assim como a "função paterna" ou "função materna" não implicam a presença de um homem e de uma mulher.
As relações familiares se horizontalizam e provocam uma maior proximidade entre as gerações nos modos de existir, desconstruindo as antigas atribuições de poder e  autoridade. Ao se tornar preferencialmente uma tarefa amorosa, o exercício da função parental impõe uma nova forma de convivência entre pais e filhos. O bem-estar dos filhos se torna um ideal importante para seus pais. Mais atenciosos disponíveis e compreensíveis, o imperativo de amá-las que decorre da necessidade narcísica de vê-las felizes, provoca não só angústia e culpa se o sentimento de seu amor for insuficiente, como os enche de incertezas quanto ao seu papel de transmissor de valores e normas se significar frustrá-los. Qualquer obstáculo real ou imaginário que se oponha a este ideal de felicidade causa desconforto quanto às direções de sua tarefa educativa e a assunção da dessimetria de sua função parental. Por outro lado, o alto valor narcísico atribuído aos filhos cobra  seu preço nas expectativas de que estes sejam perfeitos e sem falhas. Muitas vezes por ocupar este lugar de espelho narcísico  e de produção de satisfação para os pais, os filhos  ficam sem um lugar de verdade, aquele em que cada um precisa buscar para si no mundo adulto, das leis e normas da sociedade em que vive.
O individualismo social promove indivíduos autônomos necessariamente narcísicos, diz Calligaris (1996). Sua consistência subjetiva, mais livre das obrigações simbólicas e sem o peso da  herança dos valores e tradições da família e da cultura, é fruto de contínuas tentativas de se manter desejável aos olhos dos outros. O momento narcisista de sua constituição subjetiva, definido como a condição em que toma a si mesmo como objeto de amor  está vinculado a uma superestima parental. É ela que o faz especial, perfeito, belo, inteligente e desprovido de defeitos. Este amor do narcisismo parental, produto de suas aspirações não realizadas ( ideal do eu) será o responsável pela idealização que cada um fará de si mesmo- seu eu ideal. Instala-se um circuito amoroso em que o ideal de eu, enquanto instância narcisicamente investida e voltada para os futuros interesses no mundo e na cultura,  contém em sua origem o desejo de ser dos pais. É assim que o  ideal de eu torna-se o meio pelo qual os indivíduos se relacionam mutuamente em busca de aceitação, reconhecimento e proteção. A tarefa amorosa da subjetividade atual  se confunde com o esforço de cada um em coincidir com a imagem que possa satisfazer primeiramente aos pais e depois aos outros. Se cada um vive ansiando ser amado e admirado pelos outros, a cultura passa a oferecer dispositivos que  auxiliem a enfrentar a  precariedade da presença deste amor, já que as dores serão quase na sua totalidade, dores de amor. Assim como no plano subjetivo, busca-se saídas alternativas ao submetimento, à alienação ou à adição.
Não há dúvidas de que na cultura atual o amor se tornou o eixo central da vida e das escolhas dos indivíduos. Dos primórdios da psicanálise, quando Freud se deparava com uma cultura que cerceava o indivíduo, impedindo a satisfação das pulsões sexuais e agressivas (1908), até a sociedade atual que cultua a liberdade individual como valor absoluto e hegemônico e estimula a busca do prazer, o ideal de amor romântico ganhou novas roupagens. As formas de amar, sua ligação ou não com o sexo, com o casamento ou com a felicidade, fazem parte dos valores morais que na modernidade mantêm uma parceria exitosa com a literatura, o cinema e a música, os quais refletem e  produzem repertórios amorosos (conjugais ou familiares) e ajudam a compor o imaginário popular. Se  a literatura romântica da era burguesa exaltava o amor para evitar os excessos de uma sexualidade ainda enigmática, a incorporação do saber sobre o sexual contemporâneo separou amor e sexo, e manteve o amor despojado de sua idealização anterior, ainda que apostando no seu valor de felicidade. O conflito entre pulsões sexuais e repressão cultural que produzia sujeitos inibidos e recalcados dá lugar a sujeitos que buscam o prazer sem culpa, mas oscilam entre  potencia e  impotência diante dos múltiplos mandatos culturais a que se deparam e que anseiam cumprir para serem reconhecidos.
A fabricação do sujeito moderno está intimamente ligada à sua singularização, base e convicção do individualismo como ideologia. As muitas dimensões do individualismo que se configuraram na época atual questionaram todo e qualquer constrangimento social, com destaque especial para as questões sobre a sexualidade e a autoridade patriarcal. Na contemporaneidade a formação de pares conjugais e o exercício da tarefa parental  elegem o amor como principal e às vezes único critério. É o amor dos pais que produz uma confirmação narcisica , promove a erotização do corpo e “inventa” a criança perfeita, a qual por identificação constrói seu eu ideal. É este eu que ela vai amar que dará uma representação de quem  ela é e de quem é o outro. Por outro lado a  organização dos arranjos  familiares e a relação entre seus membros incorporou grande parte das descobertas feitas pela psicanálise neste século. Se como diz Foucault, é a subjetividade que se encarrega de interrogar os limites, os ideais e os restos que organizam as relações entre os indivíduos, talvez coubesse à psicanálise, que  analisou regiamente a subjetividade moderna do século anterior,  se desvencilhar de sua nostalgia e se autorizar a encarar as mudanças, não como escombros irremediáveis de um  modelo familiar idealizado, mas como novas possibilidades do viver humano.
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Trabalho apresentado no VII Encontro Nacional sobre o Bebê : Nascimento-
Antes e Depois - Cuidados em Rede, realizado no Rio de Janeiro em maio de 2008




domingo, 11 de junho de 2017

Encontros amorosos: amor, paixão e desejo na cultura moderna

Encontros Amorosos: amor, paixão e desejo na cultura moderna
                                                                                     
                                                                                      Gisela Haddad

Resumo: O texto tenta refletir sobre as implicações das mudanças nas questões que giram em torno do amor e do sexo na constituição das uniões amorosas. Resgata de forma resumida as coordenadas históricas e culturais que organizaram a vida amorosa desde a modernidade e sua articulação com os mecanismos de construção de uma particular subjetividade. A literatura romântica oferece um retrato tanto da exaltação do amor e dos destinos trágicos das paixões como do debate inédito sobre o sexual humano, além de promover a construção de cenários de encontros, desencontros e experiências amorosas cujas sensações especiais e dores pungentes passam a colorir as fantasias humanas.
Palavras chave: amor, sexualidade, psicanálise, modernidade

                                                 O mais singular livro dos livros
                             É o Livro do Amor;
                                     Li-o com toda a atenção:
                                      Poucas folhas de alegrias,
                                        De dores cadernos inteiros...
                                  ...O insolúvel, quem o resolve?
                                                         Os amantes que tornam a encontrar-se
                                                                               Livro de Leitura, Goethe

Utilizada originalmente pelas ciências naturais para designar a atração entre dois elementos químicos diferentes, mas afins, a expressão afinidades eletivas foi o título escolhido por Goethe para coroar seu romance de 1809 - escrito quando já era um sexagenário- quiçá para tentar compreender por qual imperioso impulso dois seres buscam-se um ao outro, atraem-se, ligam-se e a seguir ressurgem dessa união íntima numa forma renovada e imprevista.
Goethe é considerado um ícone do romantismo, movimento que trazia como novidade o acolhimento das contradições e antíteses, e o fato de que nossas vidas não seriam ditadas somente pela razão, mas também pelo nosso estado d’alma. Na Alemanha em especial ganhava força uma vertente denominada Sturm und Drang (tempestade e ímpeto) que rompia violentamente com conceitos e esquemas que regulavam as relações individuais e sociais, políticas e morais e repercutia profundamente na arte e na literatura ao proclamar a liberdade absoluta do artista.
Nesta Europa da era burguesa, final do século XVIII e início do século XIX, vivia-se um momento cultural turbulento, pleno de debates sobre as paixões terrenas (amor erótico) e elevadas (amor sublime). Juntamente com os valores modernos pós-revolução francesa, que pretendiam transpor as barreiras das diferenças de direitos entre homens e mulheres, das diferenças culturais, de raça e de religião e dos preconceitos sociais, o mito do amor romântico prometia atender às demandas de prazer e de felicidade humanas ao acenar com a possibilidade da junção casamento/amor/sexo e apostar que em algum lugar do futuro cada um viveria sua história de amor com alguém especial. Ao realizar uma síntese das paixões sexuais e amorosas e oferecer uma medida mista de enaltecimento do sentimento (amor) levado às alturas com a melhor das emoções (sexo) dentro do casamento, este amor verdadeiro passa a ser um destino pessoal almejado por homens e mulheres, que podem escolher seus parceiros por amor e construir roteiros, sensibilidades e aspirações amorosas inéditos. Surge um imaginário sociocultural diferenciado, uma dimensão humana de interioridade e uma subjetividade amorosa que tanto na sua dimensão trágica (impossibilidade) quanto dramática (ambivalência) toma um espaço central na vida dos dois sexos.  O estilo romântico da literatura oitocentista privilegia de forma inaugural estes anseios amorosos, inspirando uma nova maneira de existir humana, voltada para o conhecimento de si.  As historias de amor alimentam-se e são alimentadas em um circuito permanente por um repertório sempre renovável distribuído entre os romances. Verdadeiras ou fictícias, tais historias fascinam a todos e se perpetuam ao serem lidas e relidas, lembradas ou citadas.
Em Afinidades Eletivas, Goethe, no entanto, expunha a contingencia e a ambigüidade da moderna sina humana amor-desejo, responsável pelo pêndulo entre o imperativo de nossa natureza que solicita e deseja, o imperativo moral, que tanto pode nos constranger quanto nos dignificar e nossa ânsia de reconhecimento amoroso. Neste terreno arenoso, a razão sucumbia, como viria a constatar Freud, aos desígnios mais crus de nossas tendências pulsionais. Por questionar repetidamente a tão esperada fidelidade, o idealizado casamento e o significado do amor, as paixões inesperadas desconstruíam as expectativas de uma vida amorosa tranqüila e pacífica e revelavam a complexidade de nossos desejos.
Parte integrante deste mito amoroso, a sexualidade humana, por seu caráter disruptivo, havia se mantido durante grande parte da história ocidental como uma dimensão da vida que deveria ser acobertada, tendo como aval a ideologia judaico-cristã, que condenava a carne e silenciava suas paixões em proveito das coisas do espírito. Se a cultura de então incentivava certas condutas para o convívio amoroso entre os sujeitos, as paixões despertadas pelo desejo rompiam com a moral da época de Goethe, e tornavam trágica a busca pela realização amorosa romântica, que não podia suportar a invasão das forças da natureza responsáveis pela atração irrefreável entre as pessoas.
Na medida em que o tema da sexualidade se impunha interferindo nos modos como os indivíduos davam sentido e valor às suas condutas, aos seus deveres, prazeres e sentimentos, a moral sexual burguesa tentava abater a importância da ligação do sexo com o prazer. Os casamentos de então pretendiam civilizar as relações sexuais, restringindo-as à sua vigência e impondo limites à vida sexual de homens e mulheres (principalmente destas). Sabemos quão o ethos freudiano irá revelar o avesso da moral burguesa. Por ser via de acesso à vida do corpo e da espécie, o sexo adquiria um lugar de destaque nos discursos médicos, políticos, jurídicos, religiosos e psicológicos, no intuito não só de focalizar a saúde dos indivíduos, mas de criar dispositivos e normas para o prazer sexual. Parte da literatura da época se ocupava em revelar tais disparidades através de narrativas que ora condenavam a sexualidade ao vício e à insanidade, ora exaltavam suas possibilidades de êxtases prazerosos. As histórias amorosas mantinham seu papel de fornecer pistas sobre o percurso do amor na cultura e as idiossincrasias da complexa ligação amor-sexo.
Grande parte da inquietação em torno da sexualidade dirigia-se às matizes do erotismo feminino que habitavam o imaginário masculino, considerado transbordante, excessivo e incontrolável. Se a literatura (quase que exclusivamente escrita por homens) denunciava esse misto de fascínio e medo, os discursos sociais se apressavam em adestrar o corpo e a sexualidade da mulher à procriação e ao casamento; qualquer desejo ou comportamento sexual que extravasasse esses limites era tratado como excesso, degeneração ou patologia. O amor romântico, embora acenasse com uma solução de controle da sexualidade feminina por meio do casamento, incitava a junção de duas figuras míticas, a santa e a prostituta, divisão que a cultura se ocupava em caucionar, diante da dificuldade masculina de enfrentar a figura da mulher-mãe assexuada (protótipo do primeiro amor de todos), e a figura da mulher sensual. Sexo e amor confirmavam sua difícil convivência pelo fascínio-medo da mulher sensual e da mãe cuidadora, cuja junção seria inadmissível em tal contexto histórico. Pode-se entender por que havia grande tolerância social aos homens infiéis, que, de certa forma, possibilitava a eles resguardar-se dessa atração proibida e inconsciente, vivendo o sexo de um lado e o amor de outro. Essa prática serviu para que a infidelidade masculina pudesse ser naturalizada e o adultério feminino condenado (chegando a ser considerado crime até algumas décadas atrás). Ao contrário do par de modelos opostos, a mulher sensual e mal vista ou a maternal bem aceita, aos homens a cultura reservava uma moral mais branda. Ainda assim, como revelava Goethe, as paixões inesperadas podiam surpreender a todos.
A ânsia pelo momento de êxtase máximo do ser humano – em que duas pessoas seriam bastante uma para a outra, não necessitando de mais nada no mundo, em uma espécie de consumação máxima da realização dos desejos – desencadeou um debate questionador sobre as maneiras de amar, as transformações do erotismo, as práticas sexuais e as restrições impostas aos sexos. A psicanálise inaugurou uma forma de decifração desse tumulto interior, percorreu seus caminhos e por meio de uma análise especial de suas mazelas, lançou novas questões, procurando elucidá-las. Para isso, empreendeu um projeto de conhecimento da sexualidade humana desenhada pelo inconsciente, sublinhou o papel do recalcamento, o lugar de fantasia do “sexual” e revelou um sujeito ao mesmo tempo livre e coagido por ela. Neste último século foram principalmente as mudanças em torno da sexualidade que se impuseram e afirmaram de forma inédita o direito de cada um ao prazer sexual. Estas mudanças interferiram sobremaneira na paisagem social e admitiram uma nova ética da sexualidade. Amor e sexo estão separados, ainda que possam compor várias melodias. O enigmático se deslocou de nossa sexualidade para nossos desejos. O ficar, prática que se consolidou entre os adolescentes e que hoje permeia as relações de todas as idades, abriu um espaço inusitado para relacionamentos passageiros, fortuitos, que não visam compromissos futuros e em que predomina a sensorialidade. Nem por isso deixou de existir o espaço privilegiado das relações amorosas que buscam um envolvimento mais efetivo entre os pares e por isso prevêem uma confluência de interesses e desejos continuamente negociados. Apostando ainda em sua durabilidade, estas relações incluem a possibilidade de uma ruptura, caso haja a finitude de interesse de uma ou ambas as partes ou quando os pactos que as asseguravam se desfazem. O casamento deixou de ser uma instituição, tornando- se apenas uma formalidade, um modo de administrar as expectativas de laços conjugais mais duráveis. Os novos parceiros se formam em regime de simetria e, como cada um é o único legislador de sua relação amorosa, precisa negociar constantemente com o par, investindo nele, se o objetivo de ambos for prolongar o relacionamento.
Na época de Goethe, a tarefa de encontrar uma acomodação feliz entre as reivindicações individuais e culturais indicava a necessidade de internalizar a repressão social dos sentimentos destrutivos e dos desejos sexuais temidos, que deveriam se transformar em uma consciência moral vinculada à culpa. Hoje a pluralidade dos códigos de convivência nos coloca em contínuos conflitos a serem administrados para que possamos validar a diversidade de nossas opções. Mantém-se a procura por realizações sentimentais e satisfações sensoriais, mas a liberdade sexual que hoje se usufrui, impensável mesmo há três ou quatro décadas atrás, incentiva a  busca e não condena mais o prazer físico. Estamos, sob este ponto de vista, mais livres para decidir sobre o que fazer (e como fazer) com os nossos corpos, sensual e eroticamente emancipados.
O remanejamento dos antigos códigos de convivência amorosa também assegurou uma liberdade maior a cada indivíduo, que hoje pode escolher, entre um leque amplo de opções, aquilo que mais se afina com seus gostos ou estilo de viver; mas não tem sido fácil para a grande maioria fazer o luto do ideal de amor romântico, habitante velado ou declarado do íntimo de cada um. Talvez porque as dores provocadas pela luta entre a manutenção deste anseio romântico e todos os sentimentos que o acompanham - como o medo da perda, do abandono ou da traição - sejam reminiscências do romance infantil vivido por cada um em seu seio familiar. A psicanálise, que no ultimo século ajudou a desvendar esse modelo de contexto familiar e a complexidade das subjetividades de seus membros, revelou não só os bastidores conflituosos das relações entre mãe, pai, filhos e filhas, mas o lugar privilegiado das funções (amorosas) parentais na constituição do psiquismo humano. O amor incondicional imaginado durante os cuidados e acolhimento dos primeiros anos de vida transformaria cada um em Narciso e marcaria um destino de busca para ser amado e admirado. Recuperar esta imagem de centro do mundo e de todas as atenções confunde-se com a promessa do romantismo amoroso, que assim parece legitimar a expectativa de  satisfação sexual e sentimental e a busca de  um parceiro (a) que devolva este olhar que se espera poder amparar e confortar.  Vivemos em um circuito amoroso que se repete indefinidamente. O amor que esperamos ter recebido de nossos pais na infância moldará aquele que nutrimos por nós mesmos. Este, por sua vez, fará com que busquemos, no outro que iremos eleger, o mesmo reconhecimento e valor do amor. Espera-se que possamos encontrar maneiras de nos amar mesmo quando não fomos tão amados quanto gostaríamos, e quem sabe buscar por meio de nossas escolhas o amor que queríamos ter recebido.
Não por acaso são inúmeras as produções culturais que alimentam a ideia de que a vida não tem sentido se não encontrarmos nosso par amoroso, o que torna as escolhas amorosas o centro nervoso da relação que temos com nossos eleitos. De certa maneira, repetimos indefinidamente esta busca e tentamos responder aos enigmas das afinidades eletivas. Como nos apaixonamos? O que faz com que nos sintamos atraídos amorosa e sexualmente por alguém? Porque experimentamos uma aceleração de nossos batimentos cardíacos, um suar frio, às vezes um rubor ou uma inesperada inibição diante de alguém?  
Na visão psicanalítica, estamos sempre buscando as condições infantis de amar, tentando reconhecer no outro os traços de nossas relações com nossos pais, seguindo nossos registros inconscientes de prazer. Escolhemos nossos parceiros em função das experiências de vida, marcas de prazer e de desprazer, modos de sentir o outro ou de interpretar a busca de satisfação. A biografia amorosa contém a memória do corpo erotizado, assim como as maneiras singulares de desejar reconhecimento e amor do outro. Pode ser um traço particular – ou um conjunto deles – que para cada um terá uma função determinante nesta escolha. Algo próprio, que se relacione com sua história singular e íntima, sempre atravessada por fantasias e pelos ideais que o eleito representa como veículo de satisfação.
Em geral, quando o amor bate à porta sem avisar, e a sua presença se impõe prescindindo de definições ou apresentações prévias, estamos diante da paixão. Considerada o auge do sentimento de amor, a fronteira entre nós e o outro ameaça desaparecer e contra todas as provas de nossos sentidos, declaramos que somos praticamente um só, fazendo disso um fato. A experiência da paixão é a de um amor ideal: colocamos o eleito no lugar do nosso próprio eu idealizado e não podemos mais distingui-lo de nós mesmos. Apagam-se as diferenças e tem-se a sensação de nada faltar, uma captura narcísica inconsciente em que vemos no outro o que somos, o que fomos ou o que gostaríamos de ser ou possuir. Não só temos a convicção de que o outro pode sanar a nossa falta como também a de que nós temos aquilo que lhe falta. Imaginamo-nos capazes de oferecer-lhe todo o prazer sem jamais sermos fonte de sofrimento. Um é necessário e vital para a sobrevivência do outro, não havendo possibilidade de pensar ou desejar algo que não lhe seja voltado; as divergências são ameaçadoras e a exigência de exclusividade é exorbitante. Vivemos tal e qual uma relação aditiva e alienada. O amor-paixão busca essa complementaridade; amamos para ser amados.
Mas nossas parcerias românticas, construídas na promessa da incondicionalidade, exclusividade e felicidade, não possuem garantias. Quando amamos, ficamos desprotegidos contra o sofrimento, mais à mercê do outro e expostos a dores extremas se rejeitados, traídos ou abandonados. Território-limite entre nós e um outro, a experiência amorosa é fonte dos conflitos mais humanos, que gravitam entre o amor e o ódio, o domínio e a subjugação, o desejo e a indiferença, a rivalidade e a generosidade. Na medida em que se ama, é impossível não correr os riscos da perda e seus desdobramentos em termos de sofrimento.
As mudanças na cultura atual em torno de uma sexualidade mais livre não nos isentam das dores do amor, ao contrário, apenas nos fazem construir novas defesas contra elas. Transgressiva, ela mantém seus traços infantis de perversa, por explorar, exagerar e exceder os diferentes modos de satisfação, e polimorfa, por admitir muitas formas, plásticas e mutáveis. Cada par tenta fazer acordos que possam regular o prazer, o gozo e o sofrimento que suas relações amorosas e sexuais demandam, tendo como pano de fundo, o anseio de que o eleito possa significar o fim desta busca incessante e o conforto do amor incondicional. A despeito desta aposta, as infidelidades rondam as dissoluções e questionam repetidamente a contabilidade conjugal. Na exclusividade pretendida por ambos os parceiros e caucionada pelo imaginário cultural, ressoa a imposição infantil poderosa a qual a maioria dos sujeitos resiste a renunciar, independente de sexos ou gêneros. Nada é mais gratificante do que a ilusão de possuir a fonte do amor incondicional; nada é mais terrível do que perdê-la.
Sabemos que, no terreno do amor e do sexo, não há como expurgar a contingência, a ambigüidade e a dúvida. Resta-nos construir caminhos em que o jogo narcísico que nos constitui e reúne, também possa  inventar uma ética amorosa para nossas condutas. Pode-se dizer que as afinidades eletivas nestes dois séculos que nos separam de Goethe, mantêm este dilema entre nosso ideal subjetivo e os ideais sociais, mas nossas dores e temores estão mais ligados à confiança que conseguimos ou não obter sobre nossas potencialidades.
Ao que parece, as inúmeras opções que nosso mundo contemporâneo produz no intuito de nos oferecer felicidade continuam ganhando mais sentido se vividas junto a um  parceiro amoroso. O amor mostra como precisamos desse lugar, ainda que imaginário, em que solicitamos do outro que nos responda sobre nossa importância. Mais do que tudo, almejamos ser especiais.
   
Fontes Bibliográficas
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Gisela Haddad é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. É autora do livro Amor e Fidelidade (Coleção Psicanalítica, Casa do Psicólogo - 2009)  e Amor (Coleção Emoções, Editora Duetto – 2010).

Debate Psicanálise e Cinema - Cisne Negro

Debate Psicanálise e Cinema – Cisne Negro

Gisela Haddad

Não se assiste ao filme Cisne Negro impunemente. Lembro-me de ter ficado com uma sensação perturbadora durante alguns dias. No momento em que escrevo este texto, já com alguma distancia no tempo, torna-se mais fácil analisar o impacto que o drama de Nina exerce sobre nós. Não por acaso ele causou tanto frisson na área psi, que produziu muitos textos espalhados pelas redes sociais.
O diretor, Darren Aronofsky - conhecido por privilegiar análises psicológicas de seus personagens - nos presentou, entre outras coisas, com a apresentação de muitas cenas ilustrativas dos sintomas típicos de uma paranóia. Mas pensar neste filme como um caso clínico é reduzir sua beleza e seu valor estético/artístico e mais, é deixar de lado o fato de ele ser uma produção cultural e por isso ser uma leitura atualizada de nossa condição humana, o que pode enriquecer nosso debate sobre ele. É possível, por exemplo, analisar os diferentes lugares que a cultura reservou e reserva para a loucura, a maneira como a loucura se enlaça com a arte na história, ou ainda em como a loucura impõe este “estranho/familiar” que em geral provoca uma sensação de desconforto, mal estar e estranhamento. Foi assim que a maioria das pessoas que viram o filme descreveram seus sentimentos e é bem capaz que este descompasso situe-se na exigência que sua narrativa impõe a cada um para que abra mão de suas referências - se puder – para entrar em outra lógica, sem tentar enquadrá-la em seus parâmetros. A loucura, tão comum e frequente na cultura, suscita sentimentos intensos de repulsa, de temor e às vezes de idealização.  
Cisne Negro é também a encenação de uma das peças mais importantes da história do ballet, uma releitura moderna do clássico dos clássicos, “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky. “O Lago dos Cisnes" é mais do que a história de um cisne, ou de um papel para uma bailarina. Conta a história de um príncipe, Siegfried, que, coagido pela mãe a se casar com uma cortesã, se apaixona, ao invés, por uma mulher-cisne, Odette, a princesa transformada em cisne branco que só retornará à vida humana pelo amor sincero de um príncipe. Numa noite de luar com o céu encoberto, Siegfried confunde-a com Odile, a filha do feiticeiro Rothbart, que tentara seduzi-lo no baile e, enfeitiçado, jura-lhe amor eterno, condenando assim Odette ao suicídio e à morte. No início interpretado por duas bailarinas, com o tempo alguns coreógrafos perceberam que haveria uma maior coerência com a dramaturgia da peça se fosse  um mesmo corpo encenando esta divisão. Ou seja, é arte como expressão legítima do psiquismo humano ou de sua compreensão no contexto histórico. Exaustivamente encenada nestes últimos dois séculos, O Lago dos Cisnes parece exercer seu fascínio justamente por este desafio imposto à prima ballerina que precisa tanto encarnar o cisne branco, que obedece a um rigor e a um controle extraordinários, quanto o cisne negro, quase uma catarse deste controle. Para o cisne branco, símbolo do amor ideal e puro, o bater de asas são gestos de proteção, mais instintivos, o que exige movimentos mais lentos e suaves. Já para o cisne negro os movimentos são mais rápidos, sensuais e libidinosos. Odette, o cisne branco, jamais encara o príncipe Siegfred enquanto que Odile está sempre a seduzi-lo. Tchaikovsky aproveitou-se da mitologia local em que o cisne representa a feminilidade, mas compõe uma história trágica. Talvez porque vivesse em uma época cujos valores herdeiros da Revolução Francesa (Iluminismo) prometiam liberdade e autonomia, mas na verdade limitavam a vida adulta ao trabalho, ao exército e ao casamento. A vida real era asfixiante, a sexualidade civilizada e a homossexualidade inaceitável. O cisne negro seria uma tentativa de  burlar esta moral burguesa, sem sucesso. O casamento entre o príncipe a princesa acaba em morte aos dois. O filme do diretor Darren Aronofsky abre com imagens de Nina interpretando o Cisne Branco juntamente com o príncipe Siegfried e o feiticeiro/demônio Rothbarth. A câmera capta seus movimentos suaves e precisos, mas logo ficamos sabendo se tratar de um sonho. O sonho de Nina que almeja ardentemente ser a primeira bailarina do Ballet de Nova York. Seu rosto parece satisfeito ao acordar. Sua vida tem um sentido. Ela se levanta e inicia sua jornada diária. Na cena em que o diretor anuncia que estará selecionando a rainha cisne, ele informa sobre a versão escolhida, em que a menina virginal, pura e doce está presa no corpo de um cisne. Ela quer a liberdade, mas só o verdadeiro amor pode quebrar o feitiço. Seu desejo é quase concedido sob a forma de um príncipe. Mas, antes que ele possa declarar seu amor, o gêmeo lascivo, o Cisne Negro, engana e o seduz. Devastado, o Cisne Branco pula de um penhasco, matando-se e, na morte, encontra a liberdade. A partir daí o filme induz cada espectador a ser refém da perspectiva de Nina na imersão da conquista do que parece ser a sua (e de sua mãe) única razão de viver: ser a prima ballerina. Embarcamos em uma viagem às vezes emocionante, outras aterrorizante, à sua psique. O resultado é uma sensação mista entre o sufoco, a aflição e o desconforto. Para muitos uma sensação de horror. Para poucos, o da compaixão. Ficamos aprisionados em seu corpo, ao mesmo tempo em que este é testemunha do surto psicótico de seu psiquismo. Assim  como Nina, não conseguimos mais distinguir delírio de realidade. O diretor Aronofsky consegue, de forma genial, criar um paralelo entre a história da bailarina Nina e a saga que ela interpreta. Cada personagem - a mãe, o diretor,  Lily, e até mesmo Beth, ex- prima donna deste corpo de ballet que acaba se suicidando - ocupa um lugar no imaginário de Nina e passam a ser protagonistas de sua trama paranóica.
Nina é escolhida com ressalvas pelo diretor. Ela é tecnicamente perfeita para encarnar o Cisne Branco: silencioso, doce, contido. Por isso, ao escolhê-la, o diretor deixa claro que ela precisará despertar seu Cisne Negro, deixar vir à tona a agressividade e o erotismo. Mas ele está longe de perceber o significado desta demanda que lhe faz. Talvez se ele se interessasse em acompanhá-la a sua casa, ao seu quarto cor de rosa mantido com uma decoração infantil, à sua rotina diária de horários e dietas rígidas sob os cuidados de uma mãe que se dedica de forma absoluta à realização pela filha, de seu frustrado sonho de ser uma grande bailarina. Se ele pudesse assistir às cenas de seu cotidiano, quem sabe haveria um destino diferente para aquela menina. Mas desde o início o filme já anuncia o fim trágico tal e qual as grandes tragédias gregas em que os heróis nada podem fazer contra o que já lhes está predestinado. Ter que ocupar o lugar da Rainha Cisne desencadeará sua crise. Ao defrontar-se com as exigências que esta experiência lhe coloca, ela não poderá suportar suas insuficiências ou responder aos impasses por não ter como responder, por não ter  referências ou um saber e assim seu mundo começa a ruir e sua resposta é o delírio. Até então sustentada por uma suplência que a aderência ao desejo de sua mãe lhe proporcionava e submetida às certezas maternas, Nina podia viver sem a dúvida ou algum enigma a respeito de si. Mas agora é ao diretor que ela deve se submeter e responder aos seus pedidos, alguém que lhe impõe questões difíceis, confronta-a com o real do sexo, que ela está longe de poder digerir ou suportar. Reduzida à condição de objeto e vítima de seu diretor, é invadida por suas próprias pulsões, perseguida por incessantes demandas imaginárias. O delírio é uma produção de defesa contra o extermínio subjetivo. É uma espécie de construção, uma tentativa de ordenar, dar algum sentido àquele mundo que a circunda e as relações com aquelas pessoas. É o delírio  que lhe permite continuar a viver a bailarina , embora a um custo altíssimo.
Fosse ela neurótica, poderia se questionar se o diretor a achava mesmo especial, desconfiar se ele estaria tramando algo, duvidar se a colega rival a amava ou estava a fim de ferra-la. Mas para Nina não há chances de dúvidas. Ela precisa de certezas a respeito de si e dos demais. Resta-lhe ser a perseguida. Sua experiência é da ordem da certeza, é plena, é absoluta. Ela “sabe” que a conquista do papel principal está em perigo graças às más intenções de Lilly, sua rival, que além de seduzi-la também seduziu seu diretor, que por estar apaixonado, não hesitará em substituí-la por Lilly. O delírio é a  tentativa desesperada dela reconstruir seu mundo espatifado, uma tentativa de saída da crise já que  através dele ela pode obter uma significação subjetiva para si, uma história na qual poderá se incluir e se contar. Sua vida resume-se agora a este trabalho de interpretação destas situações enigmáticas dirigidas a ela, as quais ela só pode responder por meio desta construção. São relações de força, não dialetizáveis, de um mundo sem equívocos, sem contingência e de uma sexualidade sem tropeços. Só nos resta acompanhá-la nesta outra lógica, e vivermos seu aprisionamento até a morte.
No final testemunhamos mais uma vez que o insuportável suscitado pela loucura é o que ela revela de nós mesmos, aquilo que não queremos saber, aquilo que  queremos manter  oculto, reprimido.  Ela nos evoca a fragilidade de nossa própria significação mostrando que ela não está livre de dúvida ou de questionamento, que somos órfãos dos deuses. Nos lembra que sem esta ficção que construímos sobre quem somos, podemos ficar  reduzidos ao nosso próprio corpo. Que a vida não tem nenhum sentido a priori, e que é sobre esse fundo de não sentido que às duras penas construímos um sentido para nossa existência.
Nina circula de modo diferente nas significações da cultura, possui outra escala de referências e valores. Sem  esta “estrada principal”, todas as estradas, ou seja, as avenidas, ruas e ruelas, se equivalem.
É muito difícil conviver com a alteridade que a loucura provoca, por isso existem poucas pessoas dispostas a isso, e menos ainda são as capacitadas para um convívio construtivo. Se há algo que revoluciona nossa concepção de sujeito, mesmo a do sujeito neurótico, é a experiência com a psicose. Por isso para acompanhar uma busca de significação de um psicótico é necessário uma paixão pela variedade das significações humanas. O psicótico reinventa o mundo, cria suas próprias regras, constrói associações inusitadas e sentidos inesperados. Suas palavras são preto no branco, são sérias, decisivas e precisam de respostas muito bem pesadas e pensadas. Sua vida é sempre por um fio e aquilo que ele constrói às duras penas por toda a vida pode desmoronar em um minuto.
Na psicose o acesso ao simbólico - este legado que nos possibilita fazer parte de uma história, ter uma origem, um passado que nos antecede, um mundo que podemos compartilhar com suas leis, regras e normas – está vetado. Se nenhum significante consegue substituir o significante do desejo materno, a lógica simbólica se organiza de outra forma, assim como a realidade psíquica do sujeito. Ele pode ficar assujeitado a uma relação primitiva com a mãe e se tornar o único objeto de desejo dela, provavelmente porque a mãe imaginou- o como alguém que pudesse satisfazê-la por completo. Sem poder ser um outro diferente da mãe, institui-se entre eles uma relação fusional, sem espaços para mediadores, um “mal entendido” trágico e fascinante que obstaculiza e destitui qualquer terceiro. Muitas vezes a mãe cria suas próprias leis, que diferem da lei compartilhada pela cultura. Esta é nossa Nina.


Trabalho apresentado em Sorocaba - Maio de 2011

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O lugar da loucura na sociedade

O lugar da loucura na sociedade

A loucura é historicamente marcada pelo estigma social e diz respeito a manifestação radical de uma diferença ao se expressar numa experiência dilacerante e refratária ao laços sociais. A exclusão do louco estaria relacionada à negação que a sociedade faz de sua própria loucura, e se a loucura fica depositada na figura do louco, isso permite à comunidade, por oposição imaginar-se sã.
Se focarmos na história da loucura veremos que ela é tão antiga quanto a humanidade, sendo que até a idade média era vista como diversidade, carregada de conteúdo místico e tratada através de exorcismo ou sacrifício. Em seguida  passou a exercer um certo fascínio pelo saber que dela decorria. Loucura e razão passaram a ter uma relação muito próxima e confundiam-se entre si.
Foi a partir do século XVI, com as mudanças sócio-políticas da modernidade que os espaços sociais e de trabalho se modificaram consolidando um processo de segregação de todos os que ameaçam a ordem social: mendigos, doentes, loucos, ociosos e prostitutas.
A miséria e a loucura deixaram de ter a positividade mística herdada pela Igreja e passaram a ser um obstáculo contra a boa marcha do Estado. Sem a referencia do sagrado para os miseráveis e loucos, eles passam a ser confinados por serem ociosos  e incapacitados para o trabalho. Um confinamento que interna no mesmo lugar o enfermo, o libertino, a prostituta, o imbecil e o insano.
A construção da noção de psicopatologia nos reporta a história da construção da tradição da psiquiatria moderna e a transformação que esta imprimiu à loucura na modernidade ocidental. Ao descrevê-la como desrazão e depois como doença mental retirou-lhe o estatuto de espaço oracular de enunciação da verdade, inserida nos rituais comunitários e, portanto em permanente diálogo com a cultura. Foi esta substituição da experiência trágica pela experiência crítica da loucura que a inscreveu como uma experiência estranha ao homem e a cultura.
Foucault, aponta também o nascimento de uma nova sensibilidade social à miséria, aos deveres da assistência, aos problemas políticos e econômicos,  e ao sonho de uma cidade onde a obrigação moral se uniria a lei civil.
Esta mesma confusão entre loucos e criminosos será vista com espanto já que a loucura passa a ser mais bem observada e entendida como uma limitação humana que provocava incapacitação para o trabalho.
Com a revolução francesa a reforma política econômica e administrativa nas relações sociais faz com que a loucura deixe de ser um objeto do poder judiciário e passe a ser encargo da medicina. Essa passagem para o campo a saúde dará início a um outro capítulo da história da loucura.
O século XVIII tem como referencia ideológica o iluminismo e o racionalismo que dá inicio ao individualismo, libertando o individuo da ignorância e da submissão às superstições e a religião.
Embora haja uma transformação na consciência da loucura e na proposição de assisti-la, ela ainda será confinada, e este asilo será uma metáfora da exclusão.
A transformação da loucura em doença mental que acontece junto ao nascimento da psiquiatria como ciência e do asilo como espaço de tratamento da alienação mental, coloca a loucura como objeto de uma terapêutica e de um saber médico e a diferencia dos que transgrediam as leis. Mas a estratégia de tratamento utilizada visava silenciar as manifestações que passam a ser vistas como doenças.
Claro que nestes 200 anos que nos separam da obra de Pinel, o médico francês que ligou seu nome à libertação dos loucos, muitas mudanças ocorreram no tratamento da loucura, principalmente a partir do questionamento da própria ordem psiquiátrica feita nas últimas décadas.
As comunidades terapêuticas, o movimento da antipsiquiatria, a psicoterapia institucional e a psiquiatria democrática realizaram uma crítica profunda da cultura asilar e manicomial.Mesmo que os asilos ainda permaneçam aqui e acolá, as transformações ocorridas na assistência psiquiátrica foram inúmeras.
O que hoje leva o nome de Reforma Psiquiátrica pretendeu tanto desconstruir a cultura manicomial hegemônica, criada em torno do asilo, suas práticas de exclusão e redução da loucura a doença mental quanto criar um novo campo de atenção psicossocial. Reformular as práticas terapêuticas, criar leis, mudar a imagem da loucura no imaginário social, no entanto é um processo complexo que aponta não só para uma mudança política quanto clinica.
Por outro lado, a mudança mais difícil talvez seja aquela que pretende modificar a figura do louco no imaginário social, deslocando-o de objeto humano desprovido de razão para um sujeito que precisa ser tratado tanto na sua dimensão psíquica como social (relação com a família, grupos sociais, escola, trabalho, comunidade e lazer).
Abordar o sofrimento psíquico em uma perspectiva de cuidados e não de cura faz um deslocamento importante na direção de uma mudança neste imaginário social.
Aqui no Brasil, após a reforma ocorrida na década de 90 proliferam os hospitais-dia, os lares abrigados e os CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) que substituíram os antigos asilos e que oferecem uma alternativa de tratamento multidisciplinar para a população carente.
A defesa da cidadania do louco, de seus direitos, a exigência de respeito social à sua diferença, a criação de espaços de sociabilidade para ele estão entre as reivindicações e conquistas mais freqüentes dos profissionais de saúde que lutam pela inserção do louco na cultura.
O Acompanhante Terapêutico, atividade que tem se difundido bastante recentemente, tem se mostrado um bom dispositivo na tentativa de inserção do louco na sociedade, uma preocupação recente dos profissionais com a reabilitação psicossocial inclusive como uma exigência ética, que visa a (re) construção do exercício da cidadania e de um lugar efetivo  na casa, no trabalho e na rede social.
Mas é importante apontar a complexidade desta tarefa que visa intervir na existência e no sofrimento destas pessoas, e não confundi-las com mero entretenimento, ou com adestramento.
Apesar da criação desta rede, os modos tradicionais de tratar a loucura ainda permanecem e isto também se deve à reincidência da resistência humana em contestar sua relação com o louco e uma recusa em ouvir sua linguagem perturbadora e aparentemente estranha.
Porque, afinal, a loucura mantém esta dimensão de repúdio, de estranheza, e muitas vezes de fascínio?
Há pouco mais de 100 anos Freud mostrou que não era preciso opor a loucura à normalidade. Deslocou-a do registro do erro e colocou-a em um modo particular do sujeito dizer sobre si. Com sua prática clinica, descobriu que a loucura mostrava o que de certa maneira já estava no inconsciente de cada um. Os loucos seriam aqueles que teriam sucumbido a uma luta que seria a mesma para todos. Ao contrário da concepção psiquiátrica, Freud valorizou o discurso do psicótico e suas produções, e percebeu que este discurso falava dele, de seus desejos, ainda que ele mesmo não pudesse se reconhecer. O delírio, por exemplo, seria um veículo de comunicação de seu sintoma, e paradoxalmente uma tentativa de cura. Apesar destes feitos, Foucault faz uma crítica ao discurso da psicanálise, que não teria restituído a experiência trágica da loucura, mantendo-a na tradição da psiquiatria que visava uma cura e, portanto uma normatização da experiência humana.
A escuta da loucura não marca apenas uma possibilidade de humanização da relação do louco com quem o assiste ou com os demais, mas principalmente um respeito à sua palavra e uma implicação efetiva na possibilidade dele poder fazer parte da sociedade. É isto que marca a diferença com as assistências alienantes, que tratam o louco como  um objeto que não porta nenhum saber sobre si mesmo e que demanda cuidados de proteção definidos a priori tal e qual um bebê, o que o torna  refém de uma prática moral educativa.
Perdem-se assim a escuta do novo, o reconhecimento e o respeito pela diferença e cai-se em um cuidado formal, uma prática do exercício de caridade ou piedade. Se há comunicação entre razão e desrazão, isto permite desvendar a singularidade de cada sujeito no enfrentamento de um conflito que é de todos ainda que ganhe destinos diferentes.
Como vimos os loucos ainda hoje exercem este duplo fascínio: ao mesmo tempo em que impõem aos cidadãos métodos efetivos para tratá-los e inseri-los na sociedade, recuperando sua autonomia e cidadania, mantêm sua condição de objeto de repúdio e de estranheza.

Estamira

Ao contrário do filme “Bicho de 7 cabeças” que denuncia o sistema manicomial, em “Estamira” seu diretor resolve “escutar” durante quatro anos o que esta senhora que viveu entre sua casa e o lixão onde trabalha tem a dizer sobre si, seu mundo, suas crenças, seus desejos.
Apesar de este discurso expor uma percepção do mundo e de si confusa e delirante, (o psicótico precisa inventar sozinho um sentido para a sua presença no mundo), muitas vezes é possível ouvi-la falar de questões que podemos identificar como nossas, tais como as que desvendam o desamparo humano social, econômico e político. A diferença entre as crenças e a visão de mundo de Estamira e as nossas é que as nossas são amparadas por uma credibilidade já que compartilhadas pela maioria.
O filme não  pretende fazer denúncias sobre a exclusão e nem busca uma idealização do louco, mas coloca em evidência a humanidade da loucura, mostrando-a como uma possibilidade, por vezes a única, do sujeito  sobreviver.
O louco permanece sendo para a sociedade, alguém que recebe ou nosso olhar compassivo, ou de exclusão ou de zombaria e ódio.
É bom lembrar que nosso ódio ou desprezo pelo diferente está ligado a nossa necessidade de expulsar de nós mesmos aquela semelhança percebida nele que nos assombra.
Já em um plano mais cultural e menos pessoal, a loucura interroga diretamente a capacidade dos humanos de estar junto, se agruparem, fazer trocas, ou seja, de viver em sociedade, já que nos coloca diante dos enigmas do que acontece no espaço entre humanos quando os códigos sociais convencionais falham.

Palestra proferida para a turma de jornalismo da PUC SP 2003