sexta-feira, 20 de março de 2020

Amor,sexo e psicanálise


Amor, sexo e psicanálise

Gisela Haddad

O tema do amor romântico é bastante amplo e inclui um panorama histórico dos caminhos do amor e da sexualidade na cultura a partir do século burguês, época em que acontece o auge da idealização romântica do amor, assim como o nascimento da psicanálise e de uma subjetividade moderna. Tentaremos demarcar, ainda que de forma resumida, a montagem dos fundamentos da vida passional moderna, articulando-a a constituição de uma subjetividade amorosa que pôde ser analisada pela Psicanálise.
As concepções sobre o homem no final do século XIX se superpunham.  A aposta de que se pudesse ser apenas razão, o centro do mundo e protagonista de uma nova ciência que prometia acabar com o obscurantismo através do conhecimento convivia com um espaço ocupado pelo discurso do romantismo, da literatura e da psicanálise que questionam a razão e apontam suas contradições. A Razão, a luz com a qual todos esperavam seguir em seu percurso moderno sem garantias transcendentais, sucumbia, segundo Freud, aos desígnios mais crus das tendências pulsionais humanas. O ethos freudiano exigia um confronto com a hipocri­sia da época que impunha silêncio sobre o tema tabu da sexualidade.
No controvertido cenário sociocultural burguês são inúmeras as tentativas de se organizar o tumulto do surgimento de novas subjetividades e novas possibilidades de vivências e liberdades de pensamento. As proibições e o medo dos desvios sexuais causavam incertezas nas mentes burguesas, o que de certa forma explicava o recrudescimento dos costumes e da moral religiosa que passam a serem normas de condutas. Sendo o sexo acesso à vida do corpo e à vida da espécie, ele passa a ter lugar de destaque nos discursos médicos, políticos, jurídicos, religiosos e psicológicos, no intuito de focalizar a saúde dos indivíduos, mas também de criar dispositivos e normas para o prazer sexual. Com a sexualidade crescendo em importância no modo em que os indivíduos passam a dar sentido e valor à sua conduta, seus deveres, prazeres, sentimentos, sensações e sonhos, os desregramentos de toda ordem tornam-se assunto de especialistas (médicos e juristas) e o termo perversão a ser utilizado tanto no campo médico como no jurídico para designar práticas sexuais proscritas do social, tais como incesto, pedofilia, homossexualidade, sadomasoquismo, zoofilia.  Mas esta higienização promovida pela cultura burguesa não conseguia impedir o avanço ideológico de um individualismo que prezava a liberdade de pensamento e se impunha, mantendo a produção de discursos antagônicos. A literatura da época se ocupava em revelar tal disparidade com narrativas que ora condenavam a sexualidade a vício e à insanidade ora exaltavam  suas possibilidades de êxtases prazerosos.
Entre normas, rigores e excessos, a possibilidade de que amor e sexo pudessem se entrelaçar num único ideal fundando o verdadeiro amor acena com uma solução ao combinar estes discursos díspares e oferecer uma medida mista de enaltecimento do sentimento (amor) levado às alturas com a melhor das emoções (sexo) dentro do casamento. Além de proporcionar um lugar de aceitação da sensualidade, esta composição cumpria um papel de coesão social ao responder às expectativas de gestão da moral burguesa.
Esta eleição do amor como eixo central das escolhas de parceiros e norteador das vidas de homens e mulheres  inaugura uma verdadeira ditadura do amor no seio das relações familiares. Através de uma especial análise de suas mazelas, a psicanálise se pôs a elucidar e a propiciar novas questões ao debate sobre as relações amorosas, a constituição e o funcionamento das famílias, as relações entre pais e filhos e empreendeu um projeto de conhecimento da sexualidade humana desenhada pelo inconsciente, apontando o recalcamento e o lugar de fantasia deste sexual, uma sexualidade em que o sujeito seria ao mesmo tempo livre e coagido por ela.
Em sua época, embora a sexualidade despertasse uma crescente atenção, a moral sexual burguesa tentava abater a importância da ligação do sexo com o prazer. Os casamentos de então pretendiam civilizar as relações sexuais restringindo-as à sua vigência e impondo limites a vida sexual de homens e mulheres (principalmente destas). Com isso, as relações sexuais no casamento não ofereceriam as esperadas compensações, já que estariam sujeitas aos inúmeros fatores impeditivos de uma relação íntima (falta de métodos anticoncepcionais mais eficazes, nascimento de filhos, partos, saúde da mulher), o que levaria a grande maioria das mulheres de volta à abstinência sexual acrescida de uma desilusão. O esgotamento do desejo acrescido do desencantamento do sexo começa a dar margem ao surgimento de uma relação muito próxima entre mãe e filho. O bem-estar familiar, item privilegiado da sociedade da época, passa a girar em torno deste ninho e  a mulher-mãe  ganha as atenções e a reverência da sociedade. O amor materno passa a ocupar um espaço social de destaque e o corpo da mulher-mãe é alçado ao lugar de um paraíso originário.
Embora fosse condição e critério de sucesso dos casamentos o amor não consegue garantir o eterno romance conjugal. Surge assim a infância, este tempo feliz protegido pelo amor dos pais, mas principalmente pelos cuidados de uma mãe amorosa, espaço que irá assumir o prolongamento do ideal de amor e felicidade irrealizável dos pais. Aos poucos os filhos passam a representar a esperança da realização da felicidade almejada pelos pais e o amor dos pais a seus filhos se alimenta da possibilidade de assisti-los transformarem-se na imagem desta felicidade idealizada por eles: cria-se um circuito amoroso fundamental para a subjetividade moderna. O ideal de amor romântico, com seu valor político e cultural de regulador das relações entre os homens e as mulheres se articula a este estreitamento do vínculo mãe- criança e produz um alocamento de ideal de felicidade na infância. A relação mãe-filho se torna o pedestal da existência moderna, um protótipo do amor.
Neste último século a psicanálise ajudou a desvendar este particular contexto familiar e a complexidade das subjetividades de seus membros, ao revelar não só os bastidores conflituosos das relações entre mãe, pai, filhos e filhas como o lugar privilegiado das funções (amorosas) parentais na constituição do psiquismo humano. O momento amoroso da infância, graças aos cuidados e reverência dos pais passa a ser considerado de suma importância para a emergência psíquica do bebê. É o rosto da mãe o primeiro espelho da criança, que depende de seu amor para poder vir a se amar. Mas é esperado que ainda no seio familiar o bebê possa ser confrontado com sua humanidade: aceitar não ser rei, não ser único e nem desfrutar da exclusividade amorosa que imaginava. Tarefa das mais difíceis, será entre a ameaça de perder e o desejo de obter novamente este lugar privilegiado e exclusivo, que a criança deverá abrir mão desta importante ilusão de ser amada incondicionalmente para dar lugar às infinitas condições a que ela terá que se submeter, mas  que tentará evitar. É neste jogo amoroso singular entre ela, seus cuidadores e seus irmãos que se construirá sua subjetividade. O amor dos pais, tão reverenciado, precisa ser na justa medida entre uma erotização do corpo infantil, fonte do desejo de viver e de amar e certas rupturas deste estado fusional e primitivo que o auxiliem a entrar na cultura. Na justa medida entre o prometido, o esperado, o permitido e o proibido  cada um deve poder se desvencilhar das malhas (eróticas e amorosas) do submetimento, da alienação e da fascinação que a família promove e construir sua rede de relações para buscar um novo lugar no mundo. A lembrança mítica de um amor incondicional permanecerá na aspiração de um reencontro amoroso futuro, alimentando o ideal de amor romântico, e fundando um ideal para o eu. São as mazelas do amor, seu excesso, sua falta, o ódio, a indiferença, a invasão, que  darão forma a subjetividade de cada um.
Este também é o tecido da sexualidade humana, não a sexualidade genital, mas a que participa na construção do desejo humano pela constituição psíquica da criança e dos conflitos vividos nas tramas amorosas da infância. O que Freud chamou de complexo de Édipo é uma comédia de costu­mes encenada por todos os membros da família, uma arena em que acontecem jogos que fogem às possibilidades de entendimento e clareza e que em geral se referem às tramas dos amores, das preferências, rejeições e ambivalências muitas vezes vividas ou imaginadas de forma exagerada pelas crianças. Sem possibilidades de dar sentido a tantas emoções, resta aos pequenos fazer valer seus artifícios ao serem chamados a lutar contra suas perdas na disputa com os genitores e com os irmãos. São estes os indispensáveis ingredientes das fantasias, responsáveis por colorir suas vidas subjetivas ao participar da construção das defesas que inventam versões suportáveis (às vezes atraentes, outras dolorosas) para o que lhes falta e para o que imaginam ser o que os completaria.
A identidade sexual é, portanto uma questão de amores. É fruto da história destes amores que cada um tem, do amor que os pais dedicam um ao outro, a cada um dos filhos e das identidades dos que inspiram a criança a ser alguém. Ser homem ou mulher, hetero ou homossexual é um percurso complexo cumprido durante toda a vida. Para adquirir uma identidade pessoal e sexual cada um precisa se haver com as perdas que pode suportar e os acordos possíveis diante de um impossível desejo de encarnar os dois sexos e amar (possuir) os dois genitores. São muitos os elementos que contribuem para o desenvolvimento da identidade sexual e da escolha amorosa, seja ela homo ou heterossexual, mas no centro estaria a possibilidade de admissão de se saber irremediavelmente incompleto. Este seria um dos dilemas mais importantes tanto de homens quanto de mulheres, condição para se aceder ao campo da alteridade e ao convívio com as diferenças entre os semelhantes. Algo como ser possível um eterno ajuste com os ideais de amor e sexo (infantis) inatingíveis.



sexta-feira, 6 de março de 2020

O futuro do presente: sobre as reproduções assistidas

O futuro do presente

Na Folha de São Paulo do dia 24 de março de 2011 uma das manchetes anunciava que um grupo de cientistas japoneses seriam os primeiros a cultivar  espermatozóides de um mamífero em laboratório desde os estágios iniciais. Na continuação, a idéia seria tratar seres humanos inférteis. As técnicas cada vez mais avançadas de reprodução humana criaram novos e complexos dilemas humanos ao alterar as tradicionais noções de maternidade, de paternidade e de família. Ao mesmo tempo em que a utilização destas novas técnicas proporciona infinitas possibilidades de procriação, a tecnologia toma o lugar do ato sexual que deixa de ser o elo entre as gerações. As questões ligadas à filiação tornam-se complexas: uma criança pode ser gerada a partir da doação de esperma e/ou dos óvulos; pode ter herança genética de várias pessoas; pode ser gerada por um parente próximo ou por um desconhecido; pode ser filha de uma mãe solteira ou de um casal homossexual. No imaginário cultural, no entanto, o modelo de referência de procriação ainda é a relação sexual entre um homem e uma mulher, de preferência dentro da "família nuclear heteronormativa" (pai, mãe e filhos), remetendo ao que parece ser a ordem “natural” das coisas. Se por um lado o modelo familiar é tributário da ordem social que o produz - os ideais normativos, os valores e modos de existir, os novos homens e mulheres, os novos pais e mães- por outro, certas mudanças fazem ruir pilares de sistemas e estruturas teóricas que clamam por debates e reflexões. Os novos significados e valores que organizam e sustentam a identidade subjetiva de homens e mulheres, pais e mães suscitam indagações sobre temas caros à psicanálise como a vontade e o desejo de ter filhos, o lugar do filho para os pais, a origem e a constituição do sujeito, a importância da filiação. Desde Freud o conhecimento ou o encontro com o novo surge pelo processo de procura de algo que responda à interrogação sobre a origem. É a referência a este ponto de origem que permite a distinção entre o apelo do novo, que mantém vivo o desejo, e o retorno para reencontrar-se. A clínica nos impõe constantemente questões sobre aqueles que não podem se indagar sobre suas origens ou que por alguma razão precisam negar seu passado, incluído aí os casos de filhos adotivos ou gerados artificialmente cuja verdade sobre sua origem pode estar interditada por diversos motivos. Por outro lado cabe questionar qual seria o diferencial na constituição subjetiva de um sujeito gerado adotado daquele gerado por um banco de espermas ou óvulos. É fato que a constituição de um sujeito está intimamente articulada ao lugar simbólico através do qual ele é falado e olhado e que a complexidade de seu processo de historização está relacionada também à sua adoção simbólica, já que ser filho biológico não garante uma adoção psíquica. Mas a curiosidade sobre a origem estende-se a todos e há nuances para cada caso sejam estes filhos biológicos, adotados ou reproduzidos em laboratórios, com suas origens biológicas às vezes desconhecidas.Como escapar de uma visão futura de um ainda desconhecido mundo de “Barbarella” ou da nostalgia que nos faz descrever incessantemente o que nos parece fora da norma?  

Gestão de conflitos

Gestão de conflitos
Gestão é palavra de ordem do momento. E o mundo dos negócios tem se ocupado dela propondo a gestão inteligente do capital, das pessoas, das informações, das finanças, dos projetos, da qualidade, do conhecimento, etc. As organizações dependem disso para tentar garantir a competência e a eficiência, tomar novos rumos, acompanhar novos modelos. E abrir novos campos que possam solucionar problemas e/ou minimizar os impactos causados pelas mudanças constantes e pelas pressões inerentes ao mundo empresarial. No centro nervoso desta rede há uma verdadeira “antropologia dos negócios”, uma cultura organizacional voltada para todas as pessoas aí envolvidas – consumidores e produtores (trabalhadores, acionistas) – e para as suas expectativas de sucesso e felicidade. Os negócios, os lucros ou benefícios estão atados (direta ou diretamente, para o bem e para o mal) à satisfação dos consumidores e dos trabalhadores. Trabalhadores que se veem pressionados a fazer a gestão de sua carreira, e precisam não só avaliar as empresas a que pertencem como o tempo investido na vida profissional versus vida privada, sabendo que seu aperfeiçoamento é condição imprescindível para assegurar sua carreira. As empresas por sua vez tentam atrair e reter talentos humanos, para fazer diferença frente à concorrência e às exigências do mercado e avaliam sua formação, conhecimento, eficiência, produção e adaptação à ideologia de seus modelos de gestão. Um ambiente de negócios repleto de desafios, de conflitos, de demandas e de excessos que ao deflagrar uma busca incessante de novas e melhores formas de fazer frente às suas constantes transformações, esbarra no imprevisível: sujeitos com seus desejos, anseios, sonhos ou projetos secretos de vida. Parece ser neste confronto ou hiato que surgem os profissionais coaching, espécie de conselheiros, facilitadores ou mediadores para acompanhar e encaminhar propostas e soluções de problemas. Há hoje coaching especializados, que se ocupam do executivo, do empresarial, do pessoal (ou de vida), da carreira. Embora haja um fascínio da cultura moderna pela racionalidade e pela eficiência - vistas como formas mais econômicas do viver - é surpreendente o surgimento, a rápida proliferação e a consolidação deste novo profissional no cenário organizacional, que parece confirmar sua turbulência e imprevisibilidade. 
É fato que a vida tornou-se complexa ao convidar o individuo a manter sua identidade ao mesmo tempo em que o incita a mudar, a criar o novo. Há um culto à autonomia e ao mesmo tempo uma dependência o que favorece uma corrida a todo o tipo de ajuda especializada. O trabalho ainda está entre as mais valiosas formas da cultura proteger os homens, ao reuni-los em uma convivência diária com um objetivo comum e promover uma identidade social, um lugar de pertencimento que pode favorecer as relações entre eles e relativizar os conflitos inerentes à experiência de alteridade. Instados a enfrentar riscos, a se transformar em empresários de si mesmos e a contar com sua própria capacidade, os indivíduos buscam sustentação e confiança para que a incerteza possa ser exorcizada e a angústia controlada, em uma luta infinita entre um sentimento de onipotência, de ilusão de invencibilidade, e as limitações infringidas pela impotência e pelo temor do fracasso.
A aposta da Psicanálise é a de que as “razões subjetivas” insistem em denunciar a impossibilidade do ser  humano ser um ente apenas produtivo e ter o domínio absoluto sobre todas as ações e operações intelectuais. 
Desenvolver habilidades e sensibilidades em relação às questões subjetivas não significa administrá-las. É pela percepção individual conquistada através da própria experiência subjetiva que se pode fazer uma gestão –-sempre parcial - dos conflitos.

Sobre André Green


Vacância 

22 de janeiro de 2012, um domingo. Como a buscar pares que pudessem compartilhar o sentimento de orfandade muitos e-mails passaram a circular divulgando a morte de Andre Green. Ao longo das semanas seguiram-se biografias escritas por colegas de países diversos, como se ao sistematizar seu percurso e obra ou dimensionar suas contribuições, fosse possível circunscrever seu legado e diminuir a sensação de vazio pela sua ausência. Psicanalista egípcio radicado na França, Green conseguira ocupar espaços importantes no debate sobre a psicanálise contemporânea não só por transpor as fronteiras das instituições psicanalíticas ao fazer dialogar de modo fértil autores como Lacan, Melanie Klein, Bion e Winnicott, como por manter uma interlocução com a filosofia, a linguística e a antropologia. Para além do rigor e do cuidado com que agregou pensamentos de autores diversos ao seu trabalho clínico e teórico, é possível que sua morte ameaçasse deixar a comunidade psicanalítica órfã de uma posição política integradora entre espaços e grupos psicanalíticos. Ao articular a teoria pulsional e estrutural com as teorias das relações objetais, por exemplo, Green inaugurara uma abertura no modo de pesquisar, pensar e refletir sobre a clínica e a teoria psicanalítica que permitia ir além das problemáticas políticas e afiliações excessivamente devotas. Talvez um de seus maiores legados, ao se debruçar sobre a clínica dos limites ou do vazio Green ampliou de forma significativa o papel e a função do objeto destacando o trabalho do negativo, cuja importância poderia ser constatada nesta clinica justamente pela falência da ação necessária (estruturante) do negativo ao apresentar suas manifestações extremas (patológicas), um efeito combinado do desinvestimento, da destrutividade, da fusão com o objeto e da identificação com o objeto destruído pela separação. Tal função psíquica de desinvestimento e desligamento, bastante primitiva, marcada pela pulsão de morte e pelas características refratárias ou "depressivas" dos objetos primários seria o contraponto da função objetalizante, de ligação e investimento. E para Green pulsão e objeto estariam mutuamente  implicados, o objeto a conter as pulsões e também desperta-las e revela-las, e as pulsões a investir e “criar” objetos. Assim, a partir de impasses surgidos na relação analítica, os ataques ao enquadre, as defesas rígidas e resistentes, as respostas contratransferenciais inusitadas e intensas que exigiriam do analista uma forma de atuação diferenciada, quiçá mais implicada, construiu-se um extenso campo de discussão teórico-clínica que ampliou significativamente a compreensão da constituição subjetiva e seus avatares.
A morte de Andre Green parecia anunciar, portanto, um lugar vago na historia da psicanalise, aquele em que se praticaria uma psicanálise criativa e possível sem simplificações ou reduções, fora das fronteiras tantas vezes restritas e dogmáticas das instituições psicanalíticas. Uma psicanálise que postularia um sujeito em um processo de auto-organização permanente, um sistema aberto, uma realidade psíquica histórico-cultural . 


O lugar da vergonha



Desde suas origens, em seu papel de investigadora da condição humana, a psicanálise empenha a bandeira da desconstrução e da compreensão da majestade do eu e dos ideais absolutos de seu tempo. Nem por isso estivemos ou estamos isentos, como psicanalistas, de no exercício da tarefa de cuidar/ouvir o sofrimento e a dor humana, ocupar o lugar dos que imaginam saber como “deveria ser”. 
Tanto os que curam quanto os que precisam ser curados podem facilmente comungar da ideia de que as insatisfações ou desconfortos sejam desvios a serem suprimidos, e esta tentativa de ajuste sem brechas acaba por desvelar o quanto as doenças permanecem tabus e disseminam o temor justamente por nos colocar frente a frente com nossos limites, que em alguma medida, todos tentamos negar. 
A saúde mental/corporal como ideal e como bem comum, assim como o anseio da ciência em buscar eliminar nossos males são sintônicos com o desejo humano de silenciar as vozes destoantes, enigmáticas e por vezes dolorosas da experiência do adoecer. Constata-se, por outro lado, no horizonte das ideias, um movimento vindo de diferentes áreas do conhecimento que convida a todos a comungar o paradigma da complexidade, que reconhece o reducionismo teórico, os impasses práticos causadores da crise dos modelos tradicionais e propõe um esquema aberto, heterogêneo, processual que aceite as incertezas e a desordem, e seja regido por leis de organização e desorganização. A produção de subjetividade, por exemplo, não deveria ser analisada sem um aporte da biologia, da historia e da sociologia, atravessada pelas práticas, discursos, sexualidade, ideias, desejos e proibições de sua época. Assim como a nova ciência do cérebro que admite a plasticidade e a epigênese, a psicanálise – e seu acervo clínico e teórico - tem buscado, através de diferentes autores, rediscutir e ampliar as perspectivas de cuidados e intervenções. Na mesma linha de pensamento, os movimentos sociais em prol da legitimação e assunção dos antes “excluídos”, diferentes ou deficientes- estigmas da vergonha - inauguram um debate para promover um modelo alternativo, menos normopata sobre o ordenamento da vida subjetiva individual e coletiva e seu ideal de funcionamento.
Se nosso Eu se forma através do olhar do Outro e do projeto narcísico que este lhe endereça, somos todos dependentes e candidatos a objeto de investimento do outro, e desde sempre tementes em não possuir os predicados que o outro significativo deseja. Nossas doenças (orgânicas ou psíquicas) são nossas formas de buscar um equilíbrio a este projeto. Um projeto delicado, que por estar na pendencia dos cuidados em geral falhos de outros que cuidam, pode precisar de um interventor apurado e preparado, que se ofereça para reparar as fendas e cuidar das feridas.
É dentro desta visão de sujeito e mundo que se poderia pensar o lugar atual da “vergonha” como a emoção reguladora da imagem de si no meio social. 
Uma vergonha de si, de não ser, de não existir para o outro e os sofrimentos psíquicos decorrentes.


Sobre o ódio


O ódio necessário

                                 
                    “Mas esse é também um dos traços do ódio: é raro, é até impossível que alguém o reconheça como emanando de si próprio. O “eu odeio” quando ousa enunciar-se, afirmar-se sem disfarces, sempre se coloca como uma reação: o objeto é que é intrinsicamente odiável, ele e só ele é que desperta meu ódio, mesmo que não seja pelo fato de o objeto ser amável que eu me volte para ele.” 

J. B. Pontalis 



Reconhecer os diversos propósitos do ódio na economia psíquica, bem como distinguir os seus diferentes manejos tem sido, na atualidade, um desafio cada vez mais presente na prática dos analistas. Sabemos que o eu – em sua condição originária de desamparo e invadido pelas pulsões – é levado a se defender e se mover em direção à sua primeira realização: incorporar a si o que é prazeroso e expulsar o que é desprazeroso. O ódio nasceria do repúdio primordial ao mundo exterior e no movimento simultâneo da instauração da autossuficiência ilusória, característica dos primórdios do psiquismo. Indelével, o ódio se mantém no âmago do eu e atualiza o encontro primordial do Eu com o outro-hostil-exterior, ameaçado com descontinuidade e aniquilação. Odeia-se diante da constatação da alteridade do outro, da exigência de reordenamento narcísico e do mal-estar advindo da experiência do encontro com o exterior.
De modo geral, verifica-se na literatura psicanalítica uma referência mais acentuada na análise do ódio destrutivo e suas consequências na construção da subjetividade, embora  a clínica evidencie que nem sempre o ódio está a serviço da destruição, ao contrário, pode estar a serviço da conservação do objeto representando uma forma inconsciente de amor ou, ainda, preservando a autoestima do sujeito que nele se fortaleceu para fazer frente à desestruturação.
Encravado no interior do Eu, o ódio se mantêm como uma marca ativa e decisiva da diferenciação/separação do Eu em relação ao outro e da afirmação do sujeito frente ao objeto. Constitui-se, assim, numa força psíquica que fortalece a identidade e a representação de si, aguça percepções, potencializa o Eu e suas fronteiras e demarca limites a fim de manter a necessária distância do outro. Sua presença na estruturação do psiquismo fundamenta a ação negadora pela qual o sujeito constrói sua singularidade, desempenhando um papel fundamental tanto no processo de individuação, que supõe a existência do outro em sua alteridade, quanto no processo de separação, pelo qual o objeto se constitui como tal. Essencial à permanência do objeto, somente no ódio o outro pode ser reconhecido como outro e a realidade como realidade. Promove, portanto, a afirmação e conservação do Eu e, ao mesmo tempo, abre a sensibilidade ao diverso e dá passagem ao amor, que tem um papel significativo na preservação do objeto, embora em muitos casos possa, paradoxalmente, convocar ao apagamento de sua alteridade.
Como um dos polos da ambivalência afetiva, uma modalidade de vínculo (e de ligação) entre o sujeito e o outro, sua presença permanente na relação intersubjetiva  nos lembra que o sujeito é ao mesmo tempo elo, servidor, herdeiro e beneficiário, assim como na vida psíquica do sujeito o outro é ao mesmo tempo objeto, sustento e adversário.  
Em “Além do princípio de prazer”, Freud  também postula que o ódio “pode ter uma função potencial e servir a um propósito mnêmico de restaurar um estado de coisas mais antigo”, ou seja, que o ódio pode assumir um caráter defensivo, associando-se a uma economia psíquica através da qual o sujeito se esquiva do excesso de angústia ligada a afetos insuportáveis, preservando-se, por esta via, do confronto com a perda, o abandono ou o desamparo. Nesta lógica o masoquismo pode se tornar uma forma privilegiada de subjetivação, uma saída para se resguardar do desamparo, da invasão pulsional advinda do ódio do objeto privilegiado: para evitar a experiência de abandono, o sujeito pode se dobrar aos cuidados patológicos e se submeter aos maus-tratos de um mau objeto.
Estamos, portanto apontando para a existência de organizações psíquicas em que a intensidade e a negociação e derivação do ódio e do sofrimento é a condição da vida mental e/ou da sobrevivência psíquica.  
Ainda que alguns teóricos pós-freudianos tenham se debruçado sobre a clínica do ódio e construído reflexões teórico-clínicas  importantes sobre o ódio como uma espécie de investimento, ligado a um objeto externo ou interno, é provável que a maioria dos analistas teriam muito a relatar sobre as situações transferenciais vivenciadas na tarefa de escutar os diferentes sujeitos cujos investimentos objetais estão atravessados pelo signo do ódio. Acresce-se a isso o fato de que tudo o que gira em torno da tendência autodestrutiva, da desistência da vida ou da agressividade incontrolável tende a desestabilizar as relações, inclusive as de analistas  e seus analisandos. 
É principalmente na experiência clínica, por intermédio do ódio transferencial, que se pode vislumbrar sua dimensão paradoxal e contingente, ora se manifestando como ódio destrutivo –ruptura, força destruidora, sem objeto nem lugar de legitimação, ora se apresentando como afeto necessário, estruturante, a serviço da afirmação psíquica do Eu – dimensão essencial que realçamos neste texto. Uma clínica, enfim, que convoca uma escuta sensível e sofisticada em suas nuances.


Sobre a mentira


Mentira
      
           “90% do que escrevo é invenção. Só 10% é mentira.”   
               
                                                                    Manoel de Barros

A eleição da mentira como debate nos leva automaticamente às searas de cunho moral e ético, tendo como pano de fundo o binômio mentira versus verdade. O que dizer do uso social da mentira a favor das convenções que mantém o laço social? Ou das mentiras sócio-políticas utilizadas por governantes para favorecer suas ações interesseiras? Ainda que a “banalidade” do tema possa incluir diversos campos do saber, como a Literatura, a História, a Filosofia ou o Direito, analisar a mentira em suas raízes motivacionais ou constitucionais pode ser uma tarefa bastante complexa. Derrida em seu ensaio “História da mentira: prolegômenos” brinca com o título de seu texto ao questionar-se sobre a tarefa de escrever a história da mentira. Como conta-la sem mentir? Como prometer uma história verdadeira? É possível imaginar milhares de histórias fictícias da mentira, ou discursos inventivos fadados ao simulacro, à fábula, à produção de formas novas referentes à mentira, mas que não seriam necessariamente histórias mentirosas. Suas digressões fazem parte do contexto amplo em que ele irá discorrer sobre a mentira, uma contingencia humana indissociável das práticas sociais, como diria Hanna Arendt, e muito distante do erro e da ignorância, segundo Nietzsche. Já o poeta Fernando Pessoa, ao contrário de Kant, afirma ser a mentira uma condição necessária do espaço social, a moeda neutra de todas as emoções.
Em seu estudo sobre o papel organizador social da mentira, Paulo Ceccarelli afirma que as mentiras e as ilusões sempre caminharam juntas ao longo da história da humanidade, nas inúmeras tentativas, infrutíferas, mas constantemente renovadas, para lidar com nosso desamparo constitucional. A psicanálise comprova a complexidade e mesmo a diversidade de razões do uso da mentira em sintomas que vão desde a negação total de seu uso pelo sujeito, sob pena deste mergulhar em intensa angústia, até seu uso compulsivo, muitas vezes a serviço de silenciamentos protetores de vivências traumáticas que revelariam sentimentos dolorosos de humilhação ou vergonha. Por outro lado a psicanálise também situa o processo do “nascimento” da mentira em nossa constituição psíquica ao reconhecer as etapas da representação do processo primário, quando a psique, sem poder traçar um limite entre a fantasia e as circunstâncias reais da experiência, e sem poder se dobrar ainda as exigências da realidade, desenvolve uma atividade fantasmática para manter a certeza (ilusão) da existência e do poder do desejo como acesso ao Outro e à realidade.
A mentira, diferente da ilusão, só surge a partir do momento em que se é capaz de reconhecer uma cena exterior, de manifestar-se por meio de um discurso portador de sentido, o que já pertence ao processo secundário do psiquismo e a possibilidade de compartilhar um mundo simbólico. Para a psicanálise, a dimensão psicopatológica da mentira assume um valor de “verdade” sobre o sujeito.
Seguindo uma lógica semelhante, em “Vigiar e Punir”, ao sublinhar as mudanças ocorridas na maneira de se analisar e punir o crime na passagem entre os séculos XVIII e XIX, Foucault aponta a substituição da punição física (corpo) pela correção ou pela suspensão de direitos, de liberdade e do direito de existir.
Passa-se a julgar também a alma dos criminosos, se desejaram ou não cometer o crime, se são perversos, mentirosos ou psicóticos, ou seja, o que naquele autor, origina e explica seu crime: instinto, hereditariedade, ambiente social ou loucura?