sexta-feira, 20 de março de 2020

Amor e sexo (desejo)


Amor  & Sexo ( desejo)

Gisela Haddad

No rastro da sexualidade caminha o amor ou, como queiram, no rastro do amor caminha a sexualidade.

Todos sabem ou imaginam saber o que é o amor e a maioria de nós anseia por ele, mas o amor é um sentimento que implica uma experiência singular, e só é possível conhecê-lo na medida em que se o vive. Experiência que é sempre atravessada pelos ideais culturais de amor, que a cada época exibe novos modos próprios de se relacionar ou de interpretar o amor e suas vicissitudes. Neste último século foram principalmente as mudanças em torno da sexualidade que se impuseram e afirmaram de forma inédita o direito de cada um ao prazer sexual. No entanto ainda é grande a presença do ideal de amor romântico em nossa cultura e, portanto a esperança que todos nutrem em torno de sua promessa de completude. Para a maioria de nós, a felicidade está no encontro com uma figura humana que  apostamos poder nos satisfazer por completo, suprir nossas carências amorosas e sexuais, representando o fim de nossas angústias. Um amor incondicional, pleno, acima de todas as coisas.
Na verdade tanto o desejo ( sexo) quanto o amor são nossas formas de lidar com o que sentimos ser o que nos falta e por isso elegemos parceiros que imaginamos poder aplacar esta falta, como se eles pudessem  recuperá-la e finalmente nos oferecer a satisfação total que buscamos. Através do desejo  buscamos um gozo pleno que acabe com a sensação de que algo nos falta. Mas como isso é impossível já que o desejo é por definição a ânsia permanente, é no amor que buscamos a ilusão desta completude através da eleição de um parceiro amoroso idealizado que imaginamos poder suprir aquilo que o desejo não recobre. Esta é a dobradinha moderna que elegemos como nosso ideal amoroso, nossa sina amor-desejo dirigida a um só parceiro, parte integrante do que ansiamos para atingir nossa satisfação completa: de um lado o imperativo de nossa natureza que solicita e deseja, de outro nossa ânsia de reconhecimento amoroso. No meio destes ainda temos que nos confrontar com nosso imperativo moral, que ora nos constrange ora nos dignifica, posto que nossas paixões sexuais inesperadas estejam sempre ameaçando desconstruir as  expectativas de uma vida amorosa tranquila e pacífica ao impor a complexidade de nossos desejos.
É que o encontro sexual vai bem além do campo do amor, da ternura e da satisfação, sejam estas a dois ou não e costuma interpelar os limites, roçar o excesso e questionar o bom-senso. Nosso desejo, sempre um pouco fetichista, prefere os pedaços: a voz, um olhar, as curvas das pernas, dos quadris, o formato dos lábios etc. O amor nos socorre para reparar a crueza do nosso desejo ao permitir que possamos idealizar nosso amado e assim, através da ternura que ele nos desperta ou da beleza que nele enxergamos podermos  preservá-los e a nós mesmos da violência de nossa cobiça sexual. O amor seria o liquido  capaz de dar um contorno de consenso para o sexo.
A força do mito do amor  sustentada pela promessa de felicidade plena que ele acena se mantém graças ao fato de não nos cansarmos de reiterá-la em quase todas as "histórias de amor" que construímos, em que  tentamos afastar ou resolver seus conflitos poupando sua imagem de modelo de busca de felicidade. Se o amor nunca é calmo, manso e sereno, justamente porque se realiza entre dois, espaço de encontro e desencontro de esperanças e desejos, é  este contrato de risco que lhe empresta graça e desgraça e tanto pode auferir sentido e júbilo às nossas vidas quanto dilacerá-la.
É a dupla amor e sexo que compõe o repertório dos jogos amorosos com suas pitadas de sedução, encantamento e poesia, repertório este atravessado pelas regras culturais de cada época que delimitam o permitido e o proibido, mas que ficam  sempre sujeitos às novas invenções nas maneiras de se acobertar a crueza dos corpos desejantes. Alimentos ansiados das paixões amorosas, amor e sexo podem manter uma boa convivência, mas nada garante sua eterna junção o que demanda um repetido  gerenciamento (moral, amoroso) dos parceiros diante da exigência de exclusividade sexual e amorosa.







Paixão, amor e escolhas


A Paixão e o Amor

Gisela Haddad
Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
Eduardo e Monica,  Renato Russo

São  inúmeras as produções culturais que alimentam a idéia de que a vida não tem sentido se não encontramos nosso par amoroso, por isso, na cultura atual, as escolhas amorosas habitam o centro nervoso da relação de cada um com seus eleitos e todos valorizam esta busca e suas questões. Mas como nos apaixonamos? O que faz com que nos sintamos atraídos amorosa e sexualmente por alguém? Como se explica que quando menos esperamos alguém nos leve a experimentar uma aceleração de nossos batimentos cardíacos, um suar frio, às vezes um rubor ou uma inesperada inibição?
Em geral, quando o amor bate à nossa porta sem avisar e sua presença se impõe prescindindo de definições ou apresentações prévias estamos diante da paixão. Considerada o auge do sentimento de amor, na paixão a fronteira entre nós e este outro  ameaça desaparecer e contra todas as provas de nossos sentidos, declaramos que somos praticamente um só, fazendo disso um fato. A  verdade é que a experiência da paixão é a de um amor ideal em que colocamos nosso eleito no lugar de nosso próprio eu idealizado e não mais podemos  distinguir ele de nós mesmos. Apagam-se as diferenças e tem-se a sensação de nada faltar. Toda escolha apaixonada de alguém para amar revela essa captura narcísica  inconsciente,ou seja vemos no outro o que  somos, o que fomos ou o que gostaríamos de ser ou possuir. É assim que imaginamos estar diante daquela pessoa perfeita que faz nosso coração pular de alegria e ficar descompassado de amor. O amor-paixão busca esta complementaridade; amamos para ser amados.
A maioria dos encontros amorosos partilha deste momento amoroso idealizado da paixão. Espera-se, no entanto que aos poucos possa surgir uma relação menos fusional, quando então deverá haver um reconhecimento de cada um  como diferente do outro. Esta pode ser uma diferença entre a paixão e o amor.  
Os neurocientistas estabeleceram  um tempo de duração da paixão, esta magia do amor, normalmente entre 12 e 18 meses, mas embora seja possível através destas pesquisas verificar as alterações físicas e orgânicas desencadeadas neste período de paixão  ou na desilusão que ela  pode gerar, os grandes mistérios do amor continuam a surpreender-nos.  Temos sempre a sensação de que no amor nada está escrito por antecipação, e que seu encontro, ao contrário do espermatozóide e do óvulo, não pode ser programado, assim como não depende dos genes.
E quando estamos vivendo a paixão não só temos a convicção de que o outro pode sanar a nossa falta como a de que nós temos aquilo que lhe falta. Imaginamo-nos capaz de oferecer todo o prazer ao nosso par sem jamais sermos fonte de sofrimento o que cria uma dependência passional. Um é necessário e vital para a sobrevivência do outro, não há possibilidade de se pensar ou desejar algo que não seja voltado para o outro, as divergências são ameaçadoras e a exigência de exclusividade é exorbitante. Vivemos tal e qual uma relação aditiva e alienada.
Na experiência do amor, embora nosso eleito possa ter sido idealmente escolhido, ele precisará se tornar um depositário privilegiado e não exclusivo de nossas demandas de prazer. Cada um precisa ter um mesmo poder de prazer e de sofrimento, o que limita a dependência de um e outro e possibilita certa autonomia dos investimentos que cada um precisa preservar. Podemos aceitar não sermos o único a habitar o desejo de nosso eleito, dar a ele o que não temos ou receber o que não pedimos. O que está em jogo, um em relação ao outro, é uma esperança de satisfação.
A possibilidade de “transformar” a vivencia da paixão na experiência do amor não está garantida antecipadamente e exige um “trabalho psíquico”; esta passagem pode não se dar e mesmo que isto aconteça nada garante que permaneça ou que seja para ambos os parceiros. Vejamos as razões.
 As escolhas amorosas
Nem sempre sabemos quem são aqueles que irão despertar em nós os  rumores ensurdecedores da paixão. É que cada um escolhe seu parceiro em função de suas experiências de vida, suas marcas de prazer e de desprazer, seus modos de sentir o outro ou de interpretar a busca de prazer na vida. Nossa biografia amorosa contém a memória de nosso corpo erotizado, assim como as maneiras singulares de desejar reconhecimento e amor do outro. Na grande parte do tempo essa escolha amorosa se dá de forma inconsciente o que impede que os parceiros conheçam de verdade as motivações de sua escolha.
Estamos sempre buscando em nossas escolhas amorosas as condições infantis de amar, ou seja, tentando reconhecer no outro os traços de nossas relações com nossos pais ou traços que o erotizam, seguindo nossas marcas (registros inconscientes) de prazer. Pode tanto ser um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um de nós uma função determinante em nossa escolha amorosa. Mas escapa totalmente às neurociências, por ser próprio de cada um e ter a ver com nossa história singular e íntima, sempre atravessada por nossas fantasias e pelos ideais que nosso eleito representa como veículo de satisfação.
Uma história que começa quando somos bebê e ainda não podemos separar o que é nosso e do outro, quando dependemos dos cuidados dos adultos (e recebemos tanto o seu amor, quanto seu ódio, desejos, angústias) em geral de forma excessiva e sem possibilidades de adquirir sentido. Neste momento o olhar deste adulto é de extrema importância  para podermos ter uma imagem de nós mesmos. À medida que conseguimos nos distinguir, passamos a ansiar o amor deste outro e vivenciar momentos de submetimento e de insurgência em relação a ele. No percurso em direção ao mundo extra familiar ainda precisamos passar pelas disputas (principalmente com nossos irmãos) na tentativa frustrada de reaver o amor incondicional que supomos ter existido, e que nos dará a chance de ter que reconhecer que há outros entre nós e nossa imagem, dor necessária tanto para que  ansiemos menos avidamente o amor deste outro, como para que possamos suportar que ele  possa ou não amar-nos.
Neste complexo percurso, cada uma das etapas delineia diferentes formas de amar  relacionadas à possibilidade ou não de reconhecermos o outro, reconhecermos o desejo do outro e reconhecermos a existencia de um terceiro (outros) entre nós e o outro. Aquisições que fazem parte de um processo, de uma organização simbólica que permite a cada um de nós fazer esta passagem de um amor primitivo e básico em que nos imaginamos amados incondicionalmente para outro onde é necessário contar com o risco de não ser amado ou ser amado de forma diferente do que desejaríamos. O que complica ainda mais é que mesmo tendo podido avançar na direção de nossa percepção do outro, para muitos de nós, dependendo do que certas experiencias amorosas despertam, nada impede que regridamos à modos mais “primitivos” de nos relacionarmos.
Na relação amorosa podemos assumir duas diferentes posições, ora como o amado, ocupando o lugar de quem é investido pelo outro, ora como o amante, aquele que investe. Quando somos amados, buscamos o que fomos, o que imaginamos que perdemos ou o que gostaríamos de ter sido. Quando somos o amante seguimos o modelo amoroso de nossos cuidadores e suas formas de amar, acolher e proteger. Raramente estas  posições existem em seu estado puro, já que em geral  ora somos o amado ora o amante,   sobressaindo um pouco mais desta ou daquela em diferentes momentos de nossas vidas ou em uma mesma relação amorosa. Mas assim como a maioria das pessoas transitam entre estes dois lugares, outras podem ficar aprisionadas em um deles. Nossa capacidade de amar (parceiros, filhos, amigos) depende de quanto e como fomos amados e do lugar que ocupamos na história de nossos pais; se não pudemos  ser amados em nossa infância, teremos dificuldades para saber amar alguém.
De qualquer forma, existem muitas formas de escolha amorosa, e para cada uma delas o “outro” ocupa um lugar diferente em nossa imaginação. Podemos amar alguém pelas perfeições que gostaríamos de adquirir, ou seja, como um meio de nos sentirmos melhores do que somos. Mas esta escolha pode nos cegar e consumir, ao nos sentirmos cada vez “menos” e nosso eleito cada vez mais perfeito, por não podermos deixar de idealizá-lo. Este tipo de relação tanto pode chegar a um extremo em que o nosso fascínio nos impele a nos submetermos totalmente a este outro, ou ao contrário, enriquecer-nos com o que consideramos serem as “perfeições” de nosso eleito, ao incorporamos algumas delas. Tanto a literatura quanto o cinema exploraram e continuam a nos fornecer repertórios desta diversidade de tons responsáveis por nossas idas e vindas amorosas. O filme Closer (2004) do diretor Mike Nichols oferece esta oportunidade ao apresentar tal como um caleidoscópio, a formação, dissolução e  troca de pares entre quatro personagens (dois homens -Dan e Larry e duas mulheres – Alice e Anna) mostrando os diferentes modos com que cada um dos personagens se posiciona tanto em relação ao seu desejo de amor pelo outro quanto às suas expectativas em relação ao amor deste outro, delineando alguns traços de condição de escolha amorosa e a dança das cadeiras das diferentes posições ( amado-amante) que  cada um assume. E claro, não deixa de fora o lado mais sombrio destas relações, o das disputas, rivalidades, ódio, desprezo, vingança, ressentimento, ou seja, das dores.



Amor,sexo e psicanálise


Amor, sexo e psicanálise

Gisela Haddad

O tema do amor romântico é bastante amplo e inclui um panorama histórico dos caminhos do amor e da sexualidade na cultura a partir do século burguês, época em que acontece o auge da idealização romântica do amor, assim como o nascimento da psicanálise e de uma subjetividade moderna. Tentaremos demarcar, ainda que de forma resumida, a montagem dos fundamentos da vida passional moderna, articulando-a a constituição de uma subjetividade amorosa que pôde ser analisada pela Psicanálise.
As concepções sobre o homem no final do século XIX se superpunham.  A aposta de que se pudesse ser apenas razão, o centro do mundo e protagonista de uma nova ciência que prometia acabar com o obscurantismo através do conhecimento convivia com um espaço ocupado pelo discurso do romantismo, da literatura e da psicanálise que questionam a razão e apontam suas contradições. A Razão, a luz com a qual todos esperavam seguir em seu percurso moderno sem garantias transcendentais, sucumbia, segundo Freud, aos desígnios mais crus das tendências pulsionais humanas. O ethos freudiano exigia um confronto com a hipocri­sia da época que impunha silêncio sobre o tema tabu da sexualidade.
No controvertido cenário sociocultural burguês são inúmeras as tentativas de se organizar o tumulto do surgimento de novas subjetividades e novas possibilidades de vivências e liberdades de pensamento. As proibições e o medo dos desvios sexuais causavam incertezas nas mentes burguesas, o que de certa forma explicava o recrudescimento dos costumes e da moral religiosa que passam a serem normas de condutas. Sendo o sexo acesso à vida do corpo e à vida da espécie, ele passa a ter lugar de destaque nos discursos médicos, políticos, jurídicos, religiosos e psicológicos, no intuito de focalizar a saúde dos indivíduos, mas também de criar dispositivos e normas para o prazer sexual. Com a sexualidade crescendo em importância no modo em que os indivíduos passam a dar sentido e valor à sua conduta, seus deveres, prazeres, sentimentos, sensações e sonhos, os desregramentos de toda ordem tornam-se assunto de especialistas (médicos e juristas) e o termo perversão a ser utilizado tanto no campo médico como no jurídico para designar práticas sexuais proscritas do social, tais como incesto, pedofilia, homossexualidade, sadomasoquismo, zoofilia.  Mas esta higienização promovida pela cultura burguesa não conseguia impedir o avanço ideológico de um individualismo que prezava a liberdade de pensamento e se impunha, mantendo a produção de discursos antagônicos. A literatura da época se ocupava em revelar tal disparidade com narrativas que ora condenavam a sexualidade a vício e à insanidade ora exaltavam  suas possibilidades de êxtases prazerosos.
Entre normas, rigores e excessos, a possibilidade de que amor e sexo pudessem se entrelaçar num único ideal fundando o verdadeiro amor acena com uma solução ao combinar estes discursos díspares e oferecer uma medida mista de enaltecimento do sentimento (amor) levado às alturas com a melhor das emoções (sexo) dentro do casamento. Além de proporcionar um lugar de aceitação da sensualidade, esta composição cumpria um papel de coesão social ao responder às expectativas de gestão da moral burguesa.
Esta eleição do amor como eixo central das escolhas de parceiros e norteador das vidas de homens e mulheres  inaugura uma verdadeira ditadura do amor no seio das relações familiares. Através de uma especial análise de suas mazelas, a psicanálise se pôs a elucidar e a propiciar novas questões ao debate sobre as relações amorosas, a constituição e o funcionamento das famílias, as relações entre pais e filhos e empreendeu um projeto de conhecimento da sexualidade humana desenhada pelo inconsciente, apontando o recalcamento e o lugar de fantasia deste sexual, uma sexualidade em que o sujeito seria ao mesmo tempo livre e coagido por ela.
Em sua época, embora a sexualidade despertasse uma crescente atenção, a moral sexual burguesa tentava abater a importância da ligação do sexo com o prazer. Os casamentos de então pretendiam civilizar as relações sexuais restringindo-as à sua vigência e impondo limites a vida sexual de homens e mulheres (principalmente destas). Com isso, as relações sexuais no casamento não ofereceriam as esperadas compensações, já que estariam sujeitas aos inúmeros fatores impeditivos de uma relação íntima (falta de métodos anticoncepcionais mais eficazes, nascimento de filhos, partos, saúde da mulher), o que levaria a grande maioria das mulheres de volta à abstinência sexual acrescida de uma desilusão. O esgotamento do desejo acrescido do desencantamento do sexo começa a dar margem ao surgimento de uma relação muito próxima entre mãe e filho. O bem-estar familiar, item privilegiado da sociedade da época, passa a girar em torno deste ninho e  a mulher-mãe  ganha as atenções e a reverência da sociedade. O amor materno passa a ocupar um espaço social de destaque e o corpo da mulher-mãe é alçado ao lugar de um paraíso originário.
Embora fosse condição e critério de sucesso dos casamentos o amor não consegue garantir o eterno romance conjugal. Surge assim a infância, este tempo feliz protegido pelo amor dos pais, mas principalmente pelos cuidados de uma mãe amorosa, espaço que irá assumir o prolongamento do ideal de amor e felicidade irrealizável dos pais. Aos poucos os filhos passam a representar a esperança da realização da felicidade almejada pelos pais e o amor dos pais a seus filhos se alimenta da possibilidade de assisti-los transformarem-se na imagem desta felicidade idealizada por eles: cria-se um circuito amoroso fundamental para a subjetividade moderna. O ideal de amor romântico, com seu valor político e cultural de regulador das relações entre os homens e as mulheres se articula a este estreitamento do vínculo mãe- criança e produz um alocamento de ideal de felicidade na infância. A relação mãe-filho se torna o pedestal da existência moderna, um protótipo do amor.
Neste último século a psicanálise ajudou a desvendar este particular contexto familiar e a complexidade das subjetividades de seus membros, ao revelar não só os bastidores conflituosos das relações entre mãe, pai, filhos e filhas como o lugar privilegiado das funções (amorosas) parentais na constituição do psiquismo humano. O momento amoroso da infância, graças aos cuidados e reverência dos pais passa a ser considerado de suma importância para a emergência psíquica do bebê. É o rosto da mãe o primeiro espelho da criança, que depende de seu amor para poder vir a se amar. Mas é esperado que ainda no seio familiar o bebê possa ser confrontado com sua humanidade: aceitar não ser rei, não ser único e nem desfrutar da exclusividade amorosa que imaginava. Tarefa das mais difíceis, será entre a ameaça de perder e o desejo de obter novamente este lugar privilegiado e exclusivo, que a criança deverá abrir mão desta importante ilusão de ser amada incondicionalmente para dar lugar às infinitas condições a que ela terá que se submeter, mas  que tentará evitar. É neste jogo amoroso singular entre ela, seus cuidadores e seus irmãos que se construirá sua subjetividade. O amor dos pais, tão reverenciado, precisa ser na justa medida entre uma erotização do corpo infantil, fonte do desejo de viver e de amar e certas rupturas deste estado fusional e primitivo que o auxiliem a entrar na cultura. Na justa medida entre o prometido, o esperado, o permitido e o proibido  cada um deve poder se desvencilhar das malhas (eróticas e amorosas) do submetimento, da alienação e da fascinação que a família promove e construir sua rede de relações para buscar um novo lugar no mundo. A lembrança mítica de um amor incondicional permanecerá na aspiração de um reencontro amoroso futuro, alimentando o ideal de amor romântico, e fundando um ideal para o eu. São as mazelas do amor, seu excesso, sua falta, o ódio, a indiferença, a invasão, que  darão forma a subjetividade de cada um.
Este também é o tecido da sexualidade humana, não a sexualidade genital, mas a que participa na construção do desejo humano pela constituição psíquica da criança e dos conflitos vividos nas tramas amorosas da infância. O que Freud chamou de complexo de Édipo é uma comédia de costu­mes encenada por todos os membros da família, uma arena em que acontecem jogos que fogem às possibilidades de entendimento e clareza e que em geral se referem às tramas dos amores, das preferências, rejeições e ambivalências muitas vezes vividas ou imaginadas de forma exagerada pelas crianças. Sem possibilidades de dar sentido a tantas emoções, resta aos pequenos fazer valer seus artifícios ao serem chamados a lutar contra suas perdas na disputa com os genitores e com os irmãos. São estes os indispensáveis ingredientes das fantasias, responsáveis por colorir suas vidas subjetivas ao participar da construção das defesas que inventam versões suportáveis (às vezes atraentes, outras dolorosas) para o que lhes falta e para o que imaginam ser o que os completaria.
A identidade sexual é, portanto uma questão de amores. É fruto da história destes amores que cada um tem, do amor que os pais dedicam um ao outro, a cada um dos filhos e das identidades dos que inspiram a criança a ser alguém. Ser homem ou mulher, hetero ou homossexual é um percurso complexo cumprido durante toda a vida. Para adquirir uma identidade pessoal e sexual cada um precisa se haver com as perdas que pode suportar e os acordos possíveis diante de um impossível desejo de encarnar os dois sexos e amar (possuir) os dois genitores. São muitos os elementos que contribuem para o desenvolvimento da identidade sexual e da escolha amorosa, seja ela homo ou heterossexual, mas no centro estaria a possibilidade de admissão de se saber irremediavelmente incompleto. Este seria um dos dilemas mais importantes tanto de homens quanto de mulheres, condição para se aceder ao campo da alteridade e ao convívio com as diferenças entre os semelhantes. Algo como ser possível um eterno ajuste com os ideais de amor e sexo (infantis) inatingíveis.



sexta-feira, 6 de março de 2020

O futuro do presente: sobre as reproduções assistidas

O futuro do presente

Na Folha de São Paulo do dia 24 de março de 2011 uma das manchetes anunciava que um grupo de cientistas japoneses seriam os primeiros a cultivar  espermatozóides de um mamífero em laboratório desde os estágios iniciais. Na continuação, a idéia seria tratar seres humanos inférteis. As técnicas cada vez mais avançadas de reprodução humana criaram novos e complexos dilemas humanos ao alterar as tradicionais noções de maternidade, de paternidade e de família. Ao mesmo tempo em que a utilização destas novas técnicas proporciona infinitas possibilidades de procriação, a tecnologia toma o lugar do ato sexual que deixa de ser o elo entre as gerações. As questões ligadas à filiação tornam-se complexas: uma criança pode ser gerada a partir da doação de esperma e/ou dos óvulos; pode ter herança genética de várias pessoas; pode ser gerada por um parente próximo ou por um desconhecido; pode ser filha de uma mãe solteira ou de um casal homossexual. No imaginário cultural, no entanto, o modelo de referência de procriação ainda é a relação sexual entre um homem e uma mulher, de preferência dentro da "família nuclear heteronormativa" (pai, mãe e filhos), remetendo ao que parece ser a ordem “natural” das coisas. Se por um lado o modelo familiar é tributário da ordem social que o produz - os ideais normativos, os valores e modos de existir, os novos homens e mulheres, os novos pais e mães- por outro, certas mudanças fazem ruir pilares de sistemas e estruturas teóricas que clamam por debates e reflexões. Os novos significados e valores que organizam e sustentam a identidade subjetiva de homens e mulheres, pais e mães suscitam indagações sobre temas caros à psicanálise como a vontade e o desejo de ter filhos, o lugar do filho para os pais, a origem e a constituição do sujeito, a importância da filiação. Desde Freud o conhecimento ou o encontro com o novo surge pelo processo de procura de algo que responda à interrogação sobre a origem. É a referência a este ponto de origem que permite a distinção entre o apelo do novo, que mantém vivo o desejo, e o retorno para reencontrar-se. A clínica nos impõe constantemente questões sobre aqueles que não podem se indagar sobre suas origens ou que por alguma razão precisam negar seu passado, incluído aí os casos de filhos adotivos ou gerados artificialmente cuja verdade sobre sua origem pode estar interditada por diversos motivos. Por outro lado cabe questionar qual seria o diferencial na constituição subjetiva de um sujeito gerado adotado daquele gerado por um banco de espermas ou óvulos. É fato que a constituição de um sujeito está intimamente articulada ao lugar simbólico através do qual ele é falado e olhado e que a complexidade de seu processo de historização está relacionada também à sua adoção simbólica, já que ser filho biológico não garante uma adoção psíquica. Mas a curiosidade sobre a origem estende-se a todos e há nuances para cada caso sejam estes filhos biológicos, adotados ou reproduzidos em laboratórios, com suas origens biológicas às vezes desconhecidas.Como escapar de uma visão futura de um ainda desconhecido mundo de “Barbarella” ou da nostalgia que nos faz descrever incessantemente o que nos parece fora da norma?  

Gestão de conflitos

Gestão de conflitos
Gestão é palavra de ordem do momento. E o mundo dos negócios tem se ocupado dela propondo a gestão inteligente do capital, das pessoas, das informações, das finanças, dos projetos, da qualidade, do conhecimento, etc. As organizações dependem disso para tentar garantir a competência e a eficiência, tomar novos rumos, acompanhar novos modelos. E abrir novos campos que possam solucionar problemas e/ou minimizar os impactos causados pelas mudanças constantes e pelas pressões inerentes ao mundo empresarial. No centro nervoso desta rede há uma verdadeira “antropologia dos negócios”, uma cultura organizacional voltada para todas as pessoas aí envolvidas – consumidores e produtores (trabalhadores, acionistas) – e para as suas expectativas de sucesso e felicidade. Os negócios, os lucros ou benefícios estão atados (direta ou diretamente, para o bem e para o mal) à satisfação dos consumidores e dos trabalhadores. Trabalhadores que se veem pressionados a fazer a gestão de sua carreira, e precisam não só avaliar as empresas a que pertencem como o tempo investido na vida profissional versus vida privada, sabendo que seu aperfeiçoamento é condição imprescindível para assegurar sua carreira. As empresas por sua vez tentam atrair e reter talentos humanos, para fazer diferença frente à concorrência e às exigências do mercado e avaliam sua formação, conhecimento, eficiência, produção e adaptação à ideologia de seus modelos de gestão. Um ambiente de negócios repleto de desafios, de conflitos, de demandas e de excessos que ao deflagrar uma busca incessante de novas e melhores formas de fazer frente às suas constantes transformações, esbarra no imprevisível: sujeitos com seus desejos, anseios, sonhos ou projetos secretos de vida. Parece ser neste confronto ou hiato que surgem os profissionais coaching, espécie de conselheiros, facilitadores ou mediadores para acompanhar e encaminhar propostas e soluções de problemas. Há hoje coaching especializados, que se ocupam do executivo, do empresarial, do pessoal (ou de vida), da carreira. Embora haja um fascínio da cultura moderna pela racionalidade e pela eficiência - vistas como formas mais econômicas do viver - é surpreendente o surgimento, a rápida proliferação e a consolidação deste novo profissional no cenário organizacional, que parece confirmar sua turbulência e imprevisibilidade. 
É fato que a vida tornou-se complexa ao convidar o individuo a manter sua identidade ao mesmo tempo em que o incita a mudar, a criar o novo. Há um culto à autonomia e ao mesmo tempo uma dependência o que favorece uma corrida a todo o tipo de ajuda especializada. O trabalho ainda está entre as mais valiosas formas da cultura proteger os homens, ao reuni-los em uma convivência diária com um objetivo comum e promover uma identidade social, um lugar de pertencimento que pode favorecer as relações entre eles e relativizar os conflitos inerentes à experiência de alteridade. Instados a enfrentar riscos, a se transformar em empresários de si mesmos e a contar com sua própria capacidade, os indivíduos buscam sustentação e confiança para que a incerteza possa ser exorcizada e a angústia controlada, em uma luta infinita entre um sentimento de onipotência, de ilusão de invencibilidade, e as limitações infringidas pela impotência e pelo temor do fracasso.
A aposta da Psicanálise é a de que as “razões subjetivas” insistem em denunciar a impossibilidade do ser  humano ser um ente apenas produtivo e ter o domínio absoluto sobre todas as ações e operações intelectuais. 
Desenvolver habilidades e sensibilidades em relação às questões subjetivas não significa administrá-las. É pela percepção individual conquistada através da própria experiência subjetiva que se pode fazer uma gestão –-sempre parcial - dos conflitos.

Sobre André Green


Vacância 

22 de janeiro de 2012, um domingo. Como a buscar pares que pudessem compartilhar o sentimento de orfandade muitos e-mails passaram a circular divulgando a morte de Andre Green. Ao longo das semanas seguiram-se biografias escritas por colegas de países diversos, como se ao sistematizar seu percurso e obra ou dimensionar suas contribuições, fosse possível circunscrever seu legado e diminuir a sensação de vazio pela sua ausência. Psicanalista egípcio radicado na França, Green conseguira ocupar espaços importantes no debate sobre a psicanálise contemporânea não só por transpor as fronteiras das instituições psicanalíticas ao fazer dialogar de modo fértil autores como Lacan, Melanie Klein, Bion e Winnicott, como por manter uma interlocução com a filosofia, a linguística e a antropologia. Para além do rigor e do cuidado com que agregou pensamentos de autores diversos ao seu trabalho clínico e teórico, é possível que sua morte ameaçasse deixar a comunidade psicanalítica órfã de uma posição política integradora entre espaços e grupos psicanalíticos. Ao articular a teoria pulsional e estrutural com as teorias das relações objetais, por exemplo, Green inaugurara uma abertura no modo de pesquisar, pensar e refletir sobre a clínica e a teoria psicanalítica que permitia ir além das problemáticas políticas e afiliações excessivamente devotas. Talvez um de seus maiores legados, ao se debruçar sobre a clínica dos limites ou do vazio Green ampliou de forma significativa o papel e a função do objeto destacando o trabalho do negativo, cuja importância poderia ser constatada nesta clinica justamente pela falência da ação necessária (estruturante) do negativo ao apresentar suas manifestações extremas (patológicas), um efeito combinado do desinvestimento, da destrutividade, da fusão com o objeto e da identificação com o objeto destruído pela separação. Tal função psíquica de desinvestimento e desligamento, bastante primitiva, marcada pela pulsão de morte e pelas características refratárias ou "depressivas" dos objetos primários seria o contraponto da função objetalizante, de ligação e investimento. E para Green pulsão e objeto estariam mutuamente  implicados, o objeto a conter as pulsões e também desperta-las e revela-las, e as pulsões a investir e “criar” objetos. Assim, a partir de impasses surgidos na relação analítica, os ataques ao enquadre, as defesas rígidas e resistentes, as respostas contratransferenciais inusitadas e intensas que exigiriam do analista uma forma de atuação diferenciada, quiçá mais implicada, construiu-se um extenso campo de discussão teórico-clínica que ampliou significativamente a compreensão da constituição subjetiva e seus avatares.
A morte de Andre Green parecia anunciar, portanto, um lugar vago na historia da psicanalise, aquele em que se praticaria uma psicanálise criativa e possível sem simplificações ou reduções, fora das fronteiras tantas vezes restritas e dogmáticas das instituições psicanalíticas. Uma psicanálise que postularia um sujeito em um processo de auto-organização permanente, um sistema aberto, uma realidade psíquica histórico-cultural . 


O lugar da vergonha



Desde suas origens, em seu papel de investigadora da condição humana, a psicanálise empenha a bandeira da desconstrução e da compreensão da majestade do eu e dos ideais absolutos de seu tempo. Nem por isso estivemos ou estamos isentos, como psicanalistas, de no exercício da tarefa de cuidar/ouvir o sofrimento e a dor humana, ocupar o lugar dos que imaginam saber como “deveria ser”. 
Tanto os que curam quanto os que precisam ser curados podem facilmente comungar da ideia de que as insatisfações ou desconfortos sejam desvios a serem suprimidos, e esta tentativa de ajuste sem brechas acaba por desvelar o quanto as doenças permanecem tabus e disseminam o temor justamente por nos colocar frente a frente com nossos limites, que em alguma medida, todos tentamos negar. 
A saúde mental/corporal como ideal e como bem comum, assim como o anseio da ciência em buscar eliminar nossos males são sintônicos com o desejo humano de silenciar as vozes destoantes, enigmáticas e por vezes dolorosas da experiência do adoecer. Constata-se, por outro lado, no horizonte das ideias, um movimento vindo de diferentes áreas do conhecimento que convida a todos a comungar o paradigma da complexidade, que reconhece o reducionismo teórico, os impasses práticos causadores da crise dos modelos tradicionais e propõe um esquema aberto, heterogêneo, processual que aceite as incertezas e a desordem, e seja regido por leis de organização e desorganização. A produção de subjetividade, por exemplo, não deveria ser analisada sem um aporte da biologia, da historia e da sociologia, atravessada pelas práticas, discursos, sexualidade, ideias, desejos e proibições de sua época. Assim como a nova ciência do cérebro que admite a plasticidade e a epigênese, a psicanálise – e seu acervo clínico e teórico - tem buscado, através de diferentes autores, rediscutir e ampliar as perspectivas de cuidados e intervenções. Na mesma linha de pensamento, os movimentos sociais em prol da legitimação e assunção dos antes “excluídos”, diferentes ou deficientes- estigmas da vergonha - inauguram um debate para promover um modelo alternativo, menos normopata sobre o ordenamento da vida subjetiva individual e coletiva e seu ideal de funcionamento.
Se nosso Eu se forma através do olhar do Outro e do projeto narcísico que este lhe endereça, somos todos dependentes e candidatos a objeto de investimento do outro, e desde sempre tementes em não possuir os predicados que o outro significativo deseja. Nossas doenças (orgânicas ou psíquicas) são nossas formas de buscar um equilíbrio a este projeto. Um projeto delicado, que por estar na pendencia dos cuidados em geral falhos de outros que cuidam, pode precisar de um interventor apurado e preparado, que se ofereça para reparar as fendas e cuidar das feridas.
É dentro desta visão de sujeito e mundo que se poderia pensar o lugar atual da “vergonha” como a emoção reguladora da imagem de si no meio social. 
Uma vergonha de si, de não ser, de não existir para o outro e os sofrimentos psíquicos decorrentes.