quinta-feira, 2 de junho de 2022

A família entre a cultura e a subjetividade atual: o papel do amor [1]

 


O trabalho de Foucault é hoje uma referência para pensarmos a contextualização histórica e social da experiência humana e das verdades e crenças que dão sentido as relações dos sujeitos consigo, com os outros e com o mundo. Não sendo a subjetividade nem universal nem prévia, torna-se necessário analisar os mecanismos de sua construção dentro de determinada época para saber sobre a constituição dos estilos de existência, das estruturas sociais que sustentam os sujeitos e das relações de poder que os dominam. Para Foucault (1998)[2], é sobre estas formas de poder que se produzem campos de resistência, que na modernidade concentram-se na esfera subjetiva. A psicanálise freudiana protagonizou uma leitura inédita e subversiva das experiências subjetivas de seu tempo ao dar sentido à sintomas psíquicos perturbadores, revelando um cenário de fantasias humanas nem sempre sensatas ou coerentes e desvendando um sujeito dividido entre seus desejos e as exigências e proibições de sua cultura.

Nas últimas décadas, a cultura ocidental foi palco de intensas mudanças e invadiu quase todos os setores da vida humana. Seus ícones passaram a ser temas de pesquisas de diferentes áreas de conhecimento, que não só reconhecem sua importância e sua permanente transformação, como buscam refletir sobre seus novos paradigmas. Tema privilegiado pela sociedade ocidental, a família, ícone cultural por excelência, tem sido alvo de estudos interdisciplinares que buscam constituir um saber a respeito de seu sentido e função na era contemporânea. Lugar especial no qual o bebê humano nasce, é cuidado, satisfaz suas primeiras necessidades, efetua seus primeiros intercâmbios afetivos, e é objeto de investimento amoroso, a família reúne um sistema de relações simbólicas e emocionais que lhe asseguram o lugar de importante núcleo de produção de subjetividade. No último século, este núcleo familiar viu-se atropelado por mudanças culturais importantes e por novas possibilidades que a ciência produziu.

Os avanços da biotecnociências foram responsáveis por uma reviravolta no processo da reprodução humana, provocando uma revolução no próprio conceito que designava até pouco tempo a união, reconhecida e apoiada pela sociedade, entre um homem e uma mulher com fins de criar e manter os filhos. Mudanças nos papéis tradicionais de pai e mãe, de homem e mulher, na gestão da autoridade, na educação e transmissão dos valores e normas para as novas gerações, produzem discursos às vezes alarmantes às vezes nostálgicos diante de um futuro que se apresenta incerto. Este texto pretende refletir sobre estas mudanças através da articulação entre a cultura e a produção de subjetividade na atualidade e analisar as regras e normas que hoje orientam e regulamentam a vida familiar ocidental e sua absorção de tais mudanças. Para isso partiremos de uma breve revisão da história da família moderna, ressaltando o valor do amor na constituição de um novo modelo familiar e de uma particular subjetividade que passa a existir a partir da Modernidade.

Após as revoluções burguesas do século XVIII o espírito moderno apostou que a razão soberana igual para todos pudesse assumir o exercício de organizar as condutas e os consensos necessários ao convívio humano. Mas a tarefa de nos livrarmos das hierarquias pré-estabelecidas e exaltar o indivíduo como membro de uma humanidade comum se mostrou lenta e árdua, além de produzir inúmeros restos. O modelo familiar que conhecemos surge em meio à euforia do projeto civilizatório iluminista e teve em Rousseau seu maior idealizador. Tal projeto englobava uma proposta filosófica e política para a sociedade burguesa que pretendia fazer do amor apaixonado a base da construção da família, o que significava integrar a sexualidade ao amor e ao casamento. Bem recebida na época pelos literatos em geral, tal composição não só se alinhava aos anseios de autonomia dos indivíduos como previa um arranjo conjugal em que a sexualidade ganhava legitimidade. Mas a pesquisa realizada por Gay (2000 p. 47) sobre o século burguês denuncia como a imaginação da época vai ficar capturada pelo componente físico da vida erótica e das estratégias de conquista sexual, com suas promessas de êxtase. Para a sociedade burguesa de então, era necessário que a bandeira do amor servisse de norte para os excessos do sexo e não faltava literatura cuja finalidade era a de mostrar os destinos trágicos do apaixonamento quando este não se enquadrava na construção da família. O amor poderia incluir os suspiros do sexo, mas deveria seguir um percurso de sensatez e atender os compromissos de criação dos filhos, reprodução da família e formação do cidadão. Era este o cenário em que a dupla moral burguesa denunciada por Freud (1908 p.180), expunha as limitações impostas pela cultura à satisfação sexual principalmente das mulheres, chamadas a privilegiar seu papel de mãe. A literatura romântica da época era pródiga em incentivar o amor como remédio aos excessos do sexo, prescrevendo destinos trágicos às paixões que se afastavam dos moldes previstos pela família burguesa. Grande parte dos romances narravam histórias de amor em que os sentimentos de angústia e de sofrimento vividos por seus protagonistas giravam em torno de um único objetivo: a realização do ideal de amor. Este repertório literário se alimentava da idealização romântica do amor ao mesmo tempo em que propiciava cenários de encontros e experiências amorosas cujas paixões e desesperos passam a colorir as fantasias humanas. As narrativas românticas se encaixavam na ideologia individualista em curso e ajudavam a criar uma interioridade psicológica com identidades fundadas em sentimentos íntimos, o que produzia uma subjetividade e uma experiência amorosa inédita. Nascia um novo conhecimento, uma ciência do homem, de suas particularidades e singularidades, expressa por uma nova linguagem, auto-referente, com sujeitos capazes de falar de si.

O amor romântico se consolida em um ideal reverenciado pela sociedade, suporte deste modelo de família e parte de um horizonte futuro da vida de cada um, uma aspiração poderosa que acenava com a possibilidade de uma felicidade humana terrena em contraposição aos antigos ideais religiosos. Também inaugura uma convivência familiar mais centrada em seu núcleo pai-mãe-filhos, transformando-se em uma fortaleza afetiva restrita, o que funda a vida privada e íntima, característica da era burguesa.

Como bem aponta Roudinesco (2002 p.106), os casamentos realizados por amor começam a apresentar, a longo prazo, um esgotamento do desejo e um desencantamento do sexo, dando margem ao surgimento de uma relação muito próxima entre mãe e filho. O bem-estar familiar gira em torno deste ninho e  à mulher resta o papel de mãe que ganha as atenções e a reverência da sociedade. O amor materno passa a ocupar um espaço jamais conquistado anteriormente na história da humanidade e seu corpo é alçado ao lugar de um paraíso originário. O ocidente passa a cultuar a imagem da Virgem Maria e seu filho como símbolos da maternidade. Tal reverência à maternidade ajuda a incrementar a figura mitológica da sagrada família moderna e de mãe para filha, o modelo materno adquire uma áurea própria: ao se casar e ter filhos a mulher se despoja de sua humanidade, recebe o cetro e a coroa e desfruta de seus poderes maternos. Aos poucos a mulher-mãe se torna condição de sobrevivência, indispensável ao desenvolvimento e à educação dos futuros homens. Mas se a influência materna passa a ser decisiva para a criança, os desvios e falhas infantis passam a ser fracassos de sua função de mãe.

Estamos diante do momento histórico (Ariès, 1978) em que a infância moderna se instala em um compósito entre a idéia de um tempo feliz protegido pelo amor dos pais, mas principalmente pelos cuidados de uma mãe amorosa, e a preocupação social em produzir cartilhas e especialistas que preenchessem quaisquer limites ou insuficiências da vida familiar. É assim que no plano social inicia-se a interferência pública nos cuidados e proteção à criança, promovendo o desenvolvimento de uma infinidade de setores que de forma gradual, passam a oferecer saberes considerados mais adequados ao desenvolvimento do futuro adulto.

Seguindo Foucault (1988), a organização patriarcal da sociedade, herança do poder soberano, que mantinha a hierarquia entre os gêneros, passa a conviver com uma nova maneira de poder, um poder disciplinar, mais coerente com a ideologia de liberdade, igualdade e autonomia do individualismo social em andamento. Tal poder se dispersa pelos múltiplos setores da cultura (mídia, publicidade, escola, empresa, etc.) e subverte o permitido e o proibido, estimula o sexo e os prazeres e funda novas regras e normas de controle sobre a vida dos indivíduos. É este biopoder que vai lentamente invadir a vida privada familiar, oferecendo alternativas de cuidados mais adequados e saudáveis para seus membros. As normas e valores patriarcais perdem sua potência na medida em que o indivíduo passa a ser o objeto de novas estratégias políticas que visam proteger e melhorar as condições da vida de cada um. Novas normas e parâmetros são fixados, novas verdades e estilos de viver aos quais os indivíduos precisam se ajustar para serem reconhecidos, aceitos e desejados.

Na intimidade da família nuclear, o amor se mantém como item importante na constituição e na regulação das relações entre os homens e as mulheres, mas também se articula a um estreitamento do vínculo entre a mãe e a criança e inaugura um prolongamento do ideal de amor e felicidade irrealizável na aspiração de um tempo feliz e perdido. Os filhos passam a representar a esperança da realização da felicidade almejada pelos pais. O amor dos pais à seus filhos sustenta-se nesta possibilidade de assisti-los transformarem-se na imagem de felicidade idealizada por eles. Surge assim um circuito amoroso fundamental para a subjetividade moderna.

Além da infância, o casamento entre o amor parental narcísico e o individualismo moderno produz outro fenômeno social importante, a adolescência, que surge no pós-guerra como depositária idealizada dos atributos de coragem, alegria e esperança e inaugura um tempo em que a felicidade, o prazer e a boa vida serão admitidos e depois incentivados, entre a infância e a idade adulta. (Calligaris, 2003)

Nascida no caldo cultural moderno, a psicanálise passa a desvendar este particular contexto familiar e a complexidade das subjetividades de seus membros, ao revelar os bastidores conflituosos das relações entre mãe, pai, filhos e filhas e o lugar privilegiado das funções parentais na constituição do psiquismo humano. O momento amoroso da infância, graças aos cuidados e reverência dos pais passa a ser considerado de suma importância para a emergência psíquica do bebê, mas é esperado que ainda no seio familiar ele possa ser confrontado com sua humanidade: aceitar não ser rei, não ser único e nem desfrutar da exclusividade amorosa que imaginava. Tarefa das mais difíceis, será entre a ameaça de perder e o desejo de obter novamente este lugar privilegiado e exclusivo, que a criança deverá abrir mão desta importante ilusão de ser amada incondicionalmente para dar lugar  às infinitas condições a que  ela terá que se submeter mas  que tentará evitar. É neste jogo amoroso singular que ela construirá sua subjetividade. A lembrança deste amor incondicional imaginado permanecerá na aspiração de um reencontro amoroso futuro. O ideal de amor romântico se incorpora à subjetividade moderna, fundando um ideal para o eu (Haddad, 2006). Sabemos o quanto ao longo do último século, a sociedade ocidental tornar-se-á militante do amor, cujo argumento revolverá normas, valores e leis.

À medida que aumentam os saberes sobre o humano, as funções parentais tornam-se maiores e mais complexas. Além de se responsabilizar pelo fato físico do nascimento, os pais devem reconhecer sua criança, dar-lhes um nome e uma filiação, cuidar do seu sustento, educação e saúde, proporcionar-lhes um espaço de convivência em que sua subjetividade se constitua e cumprir a função simbólica de transmissão dos valores, normas e interditos da cultura.

Embora esta célula familiar moderna assuma um papel primário na transmissão da cultura e das gerações, ela é ao mesmo tempo fonte de normalidade e das piores patologias, o que faz com que as funções parentais se tornem cada vez mais alvo de cuidados públicos. Do ponto de vista social e ao longo do tempo, tais funções migram gradualmente do espaço privado ao público. Na tentativa de manter este modelo idealizado, a família se torna um centro irradiador de demandas de estudos e pesquisas que visam conhecer suas características e especificidades para criar todos os tipos de serviços, cuidados e proteção que garantam seu bem-estar ou técnicas e projetos que auxiliem o desenvolvimento de seus membros.

Esta passagem da função da parentalidade ao espaço público acontece em concomitância ao desenvolvimento das ciências e outros saberes que passam a assumir parte das funções de cuidados dos infantes e de leis que garantem à criança esta tutela ou cobram dos pais seus deveres e obrigações. Ao ser invadida pelo olhar público, a estrutura familiar burguesa revela seu avesso e sua fragilidade. Em meio à movimentação dos setores da sociedade que buscam corretivos, a psicanálise segue revelando seus descompassos. Por ser uma sociedade centrada na autoridade patriarcal, as leis de recato sexual tinham o objetivo de regulamentar principalmente a vida erótica das mulheres já que qualquer exposição de sua sensualidade era motivo de desconforto. Além de serem mães por vocação natural, seus desejos sexuais deveriam ser limitados pelas vicissitudes desta função. Ao escutar as histéricas, Freud desvenda uma subjetividade que não confirma tal natureza feminina.

O ideal de amor e sexo não cessa de alimentar o imaginário cultural e se mantém ansiado por homens e mulheres. Tal fato contribui para o surgimento de novas perspectivas para se questionar as maneiras de amar, as transformações do erotismo, as práticas sexuais condenadas, a prostituição e as restrições impostas aos sexos. A psicanálise bebe deste momento cultural e ajuda a retirar o tema da sexualidade dos bastidores da vida humana. Entre outras coisas, a falsa moral burguesa escondia o medo e a preocupação cultural com a incapacidade de os homens gerenciarem o controle sobre seus impulsos sexuais e agressivos. Ainda que lentamente, começa a haver uma subversão das mitologias naturalistas da diferença entre os sexos fazendo cair por terra o instinto maternal e a raça feminina. O tabu da virgindade feminina (Freud, 1917) revela o temor de ambos os sexos em relação à passagem da menina à sua condição de mulher sexuada. A preocupação social da época em adestrar o corpo e a sexualidade feminina para a procriação e para o casamento, abrigava uma tentativa de evitar um excesso sexual perturbador e temido.  Acresce-se a isso que a complexidade da relação dos homens com a figura da mãe-mulher,  no melhor dos casos, produzia uma separação entre a  mãe virgem e pura de um lado e a mulher sensual e sexuada de outro ( Freud,1912 p. 185).

No plano do conhecimento humano, o século XIX vivia um embate entre o legado das tradições e as rupturas a estas que não cessavam de se suceder. Reinava o pensamento crítico, as idéias de progresso e renovação e o desejo de se libertar do obscurantismo e da ignorância pela difusão da ciência e da cultura em geral. Tal efervescência gerava a produção de discursos médicos, psicológicos, jurídicos, políticos e religiosos que pretendiam ora analisar ora criticar a convivência de valores antagônicos e moralistas ou criar novos discursos que respondessem aos alardes das mudanças reivindicadas pelas gerações que se sucediam às antigas.

Por seu lado, a psicanálise ampliava seus saberes sobre a construção de uma interioridade psíquica cujo personagem principal era a complexa e enigmática sexualidade  humana, com destaque para seu papel no interior da família, na constituição psíquica da criança e dos conflitos vividos nas tramas amorosas da infância. O amor dos pais, tão reverenciado, precisava existir na justa medida entre os cuidados e a erotização do corpo infantil responsável pelo anseio de viver e ser amado, e  certas rupturas de um estado fusional e primitivo com a mãe, que o auxiliassem a entrar no mundo simbólico e partilhado da cultura, carregando o legado das aspirações parentais e das crenças, ideais e proibições vigentes no discurso social. Nasce o sujeito dividido entre o que ele quer, o que ele teme e o que a cultura lhe permite e oferece. O conflito entre a necessidade de amparo e amor e o anseio de separação e independência ocupa o centro da constituição desta subjetividade moderna, uma subjetividade amorosa.

No pensamento moderno deveria caber a cada indivíduo construir seu próprio destino e seu próprio eu, rumo a um futuro que não dependeria mais dos deuses. A aposta no futuro passa a significar uma aposta em novos sentidos para a existência humana que acenem com uma maior satisfação, prazer e conforto.  A conquista desta individualidade autônoma dentro do círculo doméstico começa a se dar à medida que o poder familiar vai se restringindo e os interesses pessoais aumentando em consonância com uma exigência de simetria entre os pares conjugais. Aos poucos, as mulheres vão ganhando espaço público e com o advento dos métodos anticoncepcionais, conquistam o direito ao amor livre, ao aborto e ao divórcio. Homens ou mulheres, cada um se torna o único ou o principal regulador de suas práticas afetivo-sexuais, assumindo a liberdade para experimentá-las e gerenciá-las. Sem as amarras das regras de aliança, homens, mulheres, homossexuais ou não, começam a formar seus pares fundados somente em escolhas amorosas e mantidos por acordos e negociações. Tal liberdade incide tanto nas escolhas dos parceiros quanto nas decisões de interrupção das relações quando estas se mostram impossibilitadas de cumprirem os acordos estipulados.  

Muda a realidade social, despontam novos modelos de convivência e novos repertórios de condutas. A formação dos pares conjugais torna-se independente do sexo ou da orientação sexual de cada um. Resultado de um movimento de desvencilhamento da tradição e das regras coercitivas sociais, ao manterem apenas o amor como eixo central de suas escolhas, estas novas parcerias inauguram uma nova ética e estética do convívio amoroso e embarcam em uma aventura incerta. Com relações amorosas mais efêmeras os indivíduos passam a formar mais de um vínculo conjugal durante sua vida, o que altera a constituição dos agrupamentos familiares e a convivência entre os pais que geram e os que cuidam e os filhos legítimos ou adotivos.

Os métodos anticoncepcionais e a biogenética rompem a antiga junção casamento-sexo-procriação. A concepção não decorre somente do contato sexual. Não é mais necessário estar casado ou ter um cônjuge para ter um filho. As uniões homoafetivas não só têm o reconhecimento social como podem adotar filhos ou mesmo concebê-los e assumirem uma função parental.

A partir dos novos casamentos que cada um dos pares pode fazer e dos novos filhos destes novos casamentos, os núcleos familiares precisam receber os filhos de um ou ambos os integrantes de um novo par, provenientes de um vínculo anterior, promovendo a fusão de duas ou mais famílias às vezes com características e modos de vida diferentes. São códigos, regras e estilos de parentalidade diversos. Uma criança pode pertencer simultaneamente a mais de um grupo familiar e sua circulação entre eles pode ser constante e organizada ou irregular e informal. Alguns núcleos formam redes em que convivem ex-cônjuges, antigos e novos avós e tios, novos irmãos, enteados, padrastos e madrastas.

A filiação passa a não ser mais definida pelos laços sanguíneos, legais ou residenciais e sim por uma filiação social ou socioafetiva, fundando um grupo doméstico cada vez que em uma casa se juntam o novo casal e os filhos de um, de outro ou de ambos. Ser pai ou mãe, ou exercer uma função de parentalidade depende apenas de um comprometimento. O lugar do pai e da mãe não tem que ser necessariamente ocupado nem pelos pais legítimos nem por um homem e por uma mulher assim como a função paterna ou função materna não implicam a presença de um homem e de uma mulher.

As relações familiares se horizontalizam e provocam uma maior proximidade entre as gerações nos modos de existir, desconstruindo as antigas atribuições de poder e autoridade. Ao se tornar preferencialmente uma tarefa amorosa, o exercício da função parental impõe uma nova forma de convivência entre pais e filhos. O bem-estar dos filhos se torna um ideal importante para seus pais. Mais atenciosos, disponíveis e compreensíveis, o imperativo de amá-las que decorre da necessidade narcísica de vê-las felizes, provoca não só angústia e culpa se o sentimento de seu amor for insuficiente, como os enche de incertezas em relação ao seu papel de transmissor de valores e normas, quando este exercício significa frustrá-los. Qualquer obstáculo real ou imaginário que se oponha ao ideal de felicidade imaginado para os rebentos causa desconforto quanto às direções das tarefas educativas ou a assunção da dessimetria da função parental. Por outro lado, o alto valor narcísico atribuído aos filhos cobra seu preço nas expectativas de que estes sejam perfeitos e sem falhas. Muitas vezes por ocupar este lugar de espelho narcísico e de produção de satisfação para os pais, os filhos ficam sem um lugar de verdade, aquele que cada uma precisa buscar para si no mundo adulto, das leis e normas da sociedade em que vive.

O individualismo social promove indivíduos autônomos necessariamente narcísicos, diz Calligaris (1996). Sua consistência subjetiva, mais livre das obrigações simbólicas e sem o peso da herança dos valores e tradições da família e da cultura, é fruto de contínuas tentativas de se manter desejável aos olhos dos outros. O momento narcisista de sua constituição subjetiva, definido como a condição em que toma a si mesmo como objeto de amor fica vinculado a uma superestima parental. É ela que o faz especial, inteligente e desprovido de defeitos. Este amor do narcisismo parental, produto de suas aspirações não realizadas (ideal do eu) será o responsável pela idealização que cada um fará de si mesmo- seu eu ideal. Instala-se um circuito amoroso em que o ideal de eu, enquanto instância narcisicamente investida e voltada para os futuros interesses no mundo e na cultura, contém em sua origem o desejo de ser dos pais. É assim que o ideal de eu torna-se o meio pelo qual os indivíduos se relacionam mutuamente em busca de aceitação, reconhecimento e proteção. A tarefa amorosa da subjetividade atual se confunde com o esforço de cada um em coincidir com a imagem que possa satisfazer primeiramente aos pais e depois aos outros. Esta maneira de existir, ansiando ser amado e admirado pelos outros, cria demandas para que a cultura favoreça dispositivos que auxiliem a enfrentar a precariedade e a centralidade da presença deste amor. Diante das dores de amor, será necessário buscar saídas alternativas ao submetimento, à alienação ou à adição.

Na cultura atual o amor se tornou o eixo central da vida e das escolhas dos indivíduos e o ideal de amor romântico ganhou novas roupagens. Se no tempo de Freud a cultura cerceava o indivíduo impedindo a satisfação de suas pulsões sexuais e agressivas (1908), a sociedade atual cultua a liberdade individual como valor absoluto e hegemônico e estimula a busca do prazer. As formas de amar, sua ligação ou não com o sexo, com o casamento ou com a felicidade, fazem parte dos valores morais que na modernidade mantêm uma parceria exitosa com a literatura, o cinema e a música, os quais refletem e produzem repertórios amorosos (conjugais ou familiares) e ajudam a compor o imaginário popular. Se a literatura romântica da era burguesa exaltava o amor a fim de evitar os excessos de uma sexualidade enigmática e temida, a incorporação do saber sobre o sexual, inclusive os difundidos pela psicanálise, permitiu à cultura contemporânea separar amor e sexo e despojar o amor de sua idealização anterior, ainda que apostando no seu valor de felicidade. O conflito entre pulsões sexuais e repressão cultural que produzia sujeitos inibidos e recalcados dá lugar a sujeitos que buscam o prazer sem culpa, mas oscilam entre potência e impotência diante dos múltiplos mandatos culturais a que se deparam e que anseiam cumprir para serem reconhecidos.

A fabricação do sujeito moderno está intimamente ligada à sua singularização, base e convicção do individualismo como ideologia. As muitas dimensões do individualismo que se configuraram na época atual questionaram todo e qualquer constrangimento social, com destaque especial para as questões sobre a sexualidade e a autoridade patriarcal. Na contemporaneidade a formação de pares conjugais e o exercício da tarefa parental elegem o amor como principal e às vezes único critério. É o amor dos pais que produz uma confirmação narcísica, promove a erotização do corpo e inventa a criança perfeita, a qual por identificação constrói seu eu ideal. É este eu que ela vai amar que dará uma representação de quem ela é e de quem é o outro. A organização dos arranjos familiares e a relação entre seus membros incorporou grande parte das descobertas feitas pela psicanálise neste século. Se como diz Foucault (1988), é a subjetividade que se encarrega de interrogar os limites, os ideais e os restos que organizam as relações entre os indivíduos, talvez coubesse à psicanálise, que analisou regiamente a subjetividade moderna do século anterior, se desvencilhar de sua nostalgia e se autorizar a encarar as mudanças, não como escombros irremediáveis de um  modelo familiar idealizado, mas como novas possibilidades do viver humano.

 

Referências  Bibliográficas

 

ARIÈS, P. História social da criança e da família. Rio Janeiro: Ed.Guanabara, 1978.

BEZERRA JUNIOR, B. C.  A retomada do futuro: tempo e utopia na subjetividade contemporânea. In: Solange Jobim. (Org.). Mosaico: imagens do conhecimento. Rio de Janeiro, 2000, p. 81-95.

_________________ O ocaso da interioridade e suas repercussões sobre a clínica. In: Plastino, Carlos Alberto. (Org.). Transgressões. Rio de Janeiro, 2002.

BIBLIOTECA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE. Laço conjugal. In Cadernos (publicação interna). Porto Alegre, março de 1991.

CALLIGARIS, C. Crônicas do individualismo cotidiano. São Paulo: Ática, 1996

_______________ Adolescência, São Paulo: Publifolha, 2003

______________ Terra de Ninguém: 101 crônicas. São Paulo: Publifolha,2004

______________ Quinta Coluna: 101 crônicas. São Paulo: Publifolha, 2008

FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de janeiro: Graal,1988

FREUD, S. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira Rio de Janeiro: Imago, 1996.

__________. Moral Sexual “Civilizada” e Doença nervosa Moderna (1908).

__________. Sobre a tendência Universal à depreciação na esfera do amor (Contribuições a psicologia do amor) (1912).

__________. O tabu da virgindade (Contribuições a Psicologia do Amor) (1917).

GAY, P. A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud: A educação dos sentidos, São Paulo: Cia das Letras, 1999.

__________. A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud: A paixão terna São Paulo: Cia das Letras, 2000.

HADDAD, G. Reflexões sobre a manutenção do ideal de amor romântico na atualidade: um estudo sobre a fidelidade conjugal. Dissertação de mestrado apresentada ao Curso de Pós‑Graduação em Psicologia da Universidade São Marcos, 2006.

JULIAN, P. A feminilidade velada. Rio de Jan.: Cia de Freud ,1997

KAMERS, M. As novas configurações da família e o estatuto simbólico das funções parentais Estilos clin., dez. 2006, vol.11, no.21, p.108-125.

KEHL, M. R. Em defesa da família tentacular, In: Direito de Família e Psicanálise: Rumo a uma Nova Epistemologia Cunha Pereira e Groeninga (Org.),   Rio de Janeiro: Imago, 2003

_____ Lugares do masculino e do feminino na família. In M.C. Comparato & D.S.F. Monteiro (Orgs.), A criança na contemporaneidade e a psicanálise. (Vol. 1, pp. 29-38). São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

ROUDINESCO, E.   A família em desordem, Rio de Janeiro :Jorge Zahar, 2002.

RUFO, M. Me larga! Separar-se para crescer, São Paulo WMF Martins Fontes, 2007

 

 

 


 



[1] Trabalho apresentado no VII Encontro Nacional sobre o Bebê  Nascimento-

Antes e Depois - Cuidados em Rede, realizado no Rio de Janeiro em maio de 2008

 

[2] Além dos textos  originais de Foucault, História da Sexualidade I, recomenda-se o texto de Bezerra Júnior, A retomada do futuro: tempo e utopia na subjetividade contemporânea (2000)

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Cenas de um próximo filme (ou Os sons da dor)


Cenas de um próximo filme (ou Os sons da dor)

Gisela Haddad

Mel não conseguia suportar aquela sensação de vazio. Estaria condenada ao fracasso? Há dois anos sua produção artística zerara. Incomodava lhe o fato de suas lembranças surgirem fragmentadas e de imediato culpava sua fraca memória, embora este argumento não se sustentasse. Desconfiava isso sim, que lhe faltava coragem para amarrar sua história e quem sabe por pura proteção, evitava trazer à tona as passagens tristes que lhe arrancaram a alma. Ainda assim, não se decidia a levar adiante esta inquietante constatação. Parecia-lhe doída demais.
Acabara de ler o depoimento de um escritor que ao descrever seu percurso até a realização de seu primeiro livro, contava o quão se debatia com os entrecortes de sua memória, dificuldade que lhe causava tanta agonia, que escrever em algum lugar, fossem cartas, bilhetes ou cadernos, lhe devolvia a sensação de ser dono de suas lembranças, infelizmente uma sensação efêmera. Seguia aflito como se vivesse em mundos paralelos, ora sendo um, ora outro, o que lhe causava uma estranheza exasperadora. Seu primeiro e até então único livro, no entanto, fizera muito sucesso, mas com ele as aflitivas entrevistas, em que era invariavelmente questionado sobre os caminhos de sua inspiração. O mal estar era tal que se viu obrigado a vasculhar o motor que movia sua necessidade de escrever. Sabia ser-lhe vital colocar em prosa suas apreensões e fantasias, fossem quais fossem. Às vezes escudo, às vezes possibilidade, escrever, que agora (oh céus) se tornara ferramenta de trabalho, tinha sido a única forma de construir uma ponte mais ou menos segura entre si e o mundo, que lhe permitisse seguir rumo ao desconhecido. A escrita era este outro ele mesmo que como um interlocutor silencioso, lhe possibilitava “falar” qualquer coisa sem censura e assim, de tempos em tempos, quando se permitia (e conseguia) voltar a ler seus textos, por vezes tinha a oportunidade de traçar o fio de sua intuição, antes sem rumo. E se esta leitura podia ser motivo de júbilo, em geral causava-lhe dores n’alma, às vezes ressoando pelo corpo. E se fossem elas, as dores, as responsáveis pelos seus inúmeros momentos de paralização que lhe transportavam para o vazio?
Mel ficara impactada com este depoimento. Parecia-lhe familiar, pensava em suas dores e o ar parecia lhe faltar. Demorara a se considerar uma artista com algum valor. Temia que sua arte vagasse em um espaço sem sentidos definidos. Criava seus roteiros aparentemente sem nenhuma (pré) concepção, embora lhe fosse imprescindível classificá-los em seguida como a poderem ser guardados em algum arquivo imaginário que lhe parecesse coerente com seu acervo artístico. Se esta simples tarefa outrora lhe trouxera conforto, no momento só havia espaço para as dúvidas. Precisava, tal como aquele escritor, achar o fio da meada, saber a que/para que/porque sua inspiração surgia ou não. Era como se sua produção só pudesse ser chamada de arte se ela encontrasse este fio que a costurasse à sua história. Estes pensamentos a perturbavam já que o contrário, ou seja, construir a história de sua arte parecia-lhe o caminho para entender a sua própria. À medida que seu pensamento seguia livre, sentia sua respiração ficar mais ofegante. E se sua arte sempre fora uma espécie de imposição dos vãos de sua memória? E se ela só pudesse acontecer graças à sua impossibilidade de colocar sua história na linha do tempo? Estaria ela condenada a viver uma arte-sintoma?
Foi socorrida pela lembrança do vídeo de uma escritora famosa que também passara pelas aflições que atravessam o ato criativo. Após escrever um livro que lhe rendeu muita fama, entrou no vácuo do futuro. Como repetir a dose? Como enfrentar a expectativa de seus leitores/críticos que não cessavam de lhe perguntar sobre a vinda do “segundo”? A resposta, dizia ela, demorou a chegar e finalmente a libertou deste martírio. A Arte não seria humana e sim uma entidade divina, coisa de deuses que escolheriam aleatoriamente alguns serzinhos humanos como portadores eventuais de suas (pré) visões. Sim, respirou aliviada, sua arte era parte importante de sua história, mas a transcendia.
Mel pressentia, no entanto, que mordera a isca e não havia mais volta. Precisava tornar compreensível a si mesma (e quiçá aos admiradores de sua arte) seus modos de sofrer, suas dores e amores. Quantas e tantas vezes ouvira elogios de seus amigos a certos livros que falavam ao ponto mais íntimo de nós, auxiliando-nos na construção de nosso imaginário ao inserir palavras, histórias ou situações que não se poderia formular sozinho. Livros que deixam suas marcas. Não lhe era muito claro o papel da literatura para a sua vida, mas era certo que algumas leituras teriam aberto horizontes, despertando-a para universos desconhecidos e inimagináveis. Se alguns podiam reconhecer seus próprios desejos desde muito cedo, nomeando-os e perseguindo-os, ela não pertencia a este grupo. Porém esses livros haviam lhe mostrado que o “mundo” (aquele composto pelo acervo cultural humano) deveria ser muito maior do que o que lhe era dado conhecer. Podia reconhecer em si esse longínquo desejo de conhecer o máximo que pudesse sobre ele. Como isso a acalmava! Dava-lhe uma sensação de destino. De vida vivida.
Mas durava pouco. Bastava uma noite de insônia e o vazio a invadia novamente, como se o dia seguinte não existisse mais. O cérebro pensante e o coração pulsante ficavam no modo “pausado”. Pausa necessária, pois não poderia suportar nem mais uma gota de dor. Estranha sensação esta de se estar entre a dormência de quem tenta impedir a angústia e um deixar-se apagar, morrer. Não, não queria morrer. Pensar sobre isso lhe devolvia um pouco a sanidade e com ela as lembranças.
Sentira certo alívio quando Pedro morrera há um ano, depois de tantas internações, tanto sofrimento. Seus olhos pediam para ir, para descansar, e ela chegara a se convencer de que não havia nada melhor a acontecer no momento. E se era inevitável que ele fosse, passou a imaginar sua vida sem ele (depois de quase 12 anos juntos). Tentava visualizar-se forte, viva e disposta a encarar esta perda como uma mera contingencia do viver. Até sua vida profissional poderia ser retomada assim como alguns velhos projetos. Tudo parecia fazer sentido. Mas não agora. Nem que quisesse poderia prever o rombo que a falta dele faria. Também não encontrava palavras para descrever seu estado, o que deixava todos a sua volta, bem aflitos. Sabia que alguns conseguiam falar sobre sua própria dor, construir frases que narrassem este estado absurdo, mas eram poucos, bem poucos. Não por acaso o mundo reverenciava os poetas, sempre atentos às dores das perdas e paixões humanas, as quais descrevem inventando vocábulos, usando metáforas ou comparando-as com os enigmas do universo.
Não saberia explicar porque seu casamento fora tão excepcional, para ela um mero encontro de duas almas que prezavam a vida a dois. Parece pouco? Sim e não. Como construir uma parceria tão rica sem compartilhar o valor das trocas, da cumplicidade e do carinho? Depois destes anos juntos, a vida a dois ficara quase “vida a um”. Não porque estivessem sempre grudados ou tivessem as mesmas ideias e crenças sobre tudo (ao contrário), mas porque haviam se acostumado a falar um para o outro o que pensavam, desejavam, sofriam ou lhes causava indignação. Evitava confessar que ainda falava com ele mesmo sabendo que não ouviria respostas, contestações, apoio. Era exatamente isso: uma parte dela havia ido embora para sempre. E se a principio ela considerou a hipótese de construir algo novo, agora esta coragem andava sumida. Não foram poucas as vezes em que ambos haviam antecipado a velhice. Brincavam de adivinhar se ficariam parecidos com aquela senhorinha gordinha, ou aquele careca barrigudo, se seria possível passear de mãos dadas (como era de costume) ou se cada um precisaria apoiar seu braço no outro para dar conta dos reumatismos e desconfortos musculares. Era preciso apagar esta cena, com certeza, para que o dia seguinte começasse a existir.
Desconfiava que quase todos fossem reféns do amor nessa incessante (e impossível) viagem para ser único e especial para alguém. Essa possibilidade imaginária funcionaria legal ao proporcionar uma visão de vida, ao oferecer alguma remissão e um significado à existência. Seriam poucos os que não se declarariam dependentes de um olhar amoroso, de poder contar com um outro que respondesse sobre sua importância. Uma aposta alta e por isso sempre acompanhada do medo do não, do abandono ou da traição. Terrível paradoxo! Habitar esta terra do romance que permite que se construam pontes e acessos imaginários para a “posse” completa do outro. Ao contrário, ela sabia que era às duras penas que se conseguia ajustar o olhar às cores pastéis do amor para poder trocar o verbo “precisar” do amor do outro, e inventar tantos outros verbos em que se corre o risco de não ser amado ou de ser amado de forma diferente do que se quer. Só assim é possível localizá-lo nos pequenos detalhes, nas trocas de olhares, nos pactos, nos sorrisos, na antecipação de certos desejos, na cumplicidade com as fragilidades, enfim, na responsabilidade com os cuidados e afetos que cada um (por sua conta e risco) se compromete a assumir. Nem um mar de alegrias sem fim, nem um lago escuro e gelado em que só habitem feras hostis. Para ela uma razão para viver. “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?” – Mel gostava de cantarolar esta frase do Renato Russo. Perfeita!
Agora se sentia refém da dor. A vida estaria lhe dando uma chance ou lhe punindo? Ora se entregava à dor insuportável da perda desta experiência tão rica, ora Pedro parecia lhe acenar para que ela voltasse à superfície. Sua “presença” ainda lhe salvava.
Lembrou-se quando mudara para o Rio de Janeiro atrás de seus sonhos e sim... Podia dizer sem titubear que muitos deles se realizaram. Conseguira cavar um lugar no mundo incerto do jornalismo. Depois o cinema – sua grande paixão – com a carreira de roteirista, algo que imaginara desde a sua infância, quando “dirigia” a turma da rua improvisando cenários e vestimentas. Que sensação gostosa se lembrar dos roteiros que escrevera ainda menina, das reuniões sempre tumultuadas para a escolha dos atores principais. Tivera que criar uma estratégia para evitar os conflitos advindos dos ciúmes e das rivalidades, e assim proporcionar maior legitimidade aos eleitos. Os “estúdios” de seu Cinemoção ficavam no enorme quintal de sua casa e seus pais jamais se opuseram, ao contrário, até palpitavam e algumas vezes ajudavam na composição dos cenários e nos figurinos. Sua mãe, ah... Que saudades daquele olhar interessado, investido de energia. Sua paixão pela vida a alimentara e a movera o tempo todo. Um legado.
Pensou em Pedro e de como ele admirava nela esta mesma ligação apaixonada com a vida, uma estrada aberta para acolher as possibilidades de prazeres diversos. Mas agora que ele se fora, anoitecera. O dia não amanhecia. Perdera para sempre seu olhar devoto, amoroso, que tanto alimentara sua coragem, seus projetos, sua vida.
Não encontrava palavras para descrever sua dor. Ainda não. Ela lhe ultrapassava. As cenas evocadas pela memória ora traziam Pedro ora sua mãe, que se fora lentamente antes de morrer, durante o calvário do Alzeimer, aquele que rompe os fios da memória deixando todos atônitos. Consultas ao Google, aos neurocientistas, aos familiares de outros atingidos por esta doença não puderam responder a pergunta que insistia: por quê? Como é possível que ainda saudável, resultados de exames conferindo-lhe saúde de uma jovem, sua mãe houvesse abandonado sua bem instalada identidade, sua mais valiosa moradia, para aos poucos ficar sem lugar, sem história, em um caminho sem volta até perder-se de si mesma? Tinha sido dramático estar ao seu lado, ao lado daquele corpo tão conhecido e tão querido e perceber que em algum lugar dele havia um “ralo” sugador de histórias recentes e passadas, das quais ela se sentia parte. História de uma mulher e mãe tão sabida, centro nervoso da casa, daquelas que levavam a palavra aonde ainda não existia. Que sabia tecer devagarinho as asas de seus filhos e separar-se deles na hora certa. Todos puderam voar, talvez porque supunham que ela estaria sempre ali para recebê-los, atender seus telefonemas a qualquer hora e dia (oh céus, como isso fazia diferença). Era óbvio que não havia se preparado para perder sua mãe. E agora Pedro.
Pensou nos inúmeros filmes baseados nas memórias de dores, mas de descobertas de alguém, histórias que fazem chorar, arrepiar e acelerar os corações! Ali, em silêncio, Mel imaginou a cena de um filme futuro, em que as duas, mãe e filha, conversariam sobre a dor da morte dela e de Pedro. E sua mãe a lhe garantir a possibilidade de inventar novos laços para ocupar o lugar dos perdidos. A impedir que sua memória-história se perdesse e com ela a sua paixão pela vida e seus roteiros.



Gisela Haddad é membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante do Grupo de Intervenção e Pesquisa Clínica: da gestação à primeira infância, do Grupo Generidades, da equipe editorial da Revista Percurso e do Blog do Departamento. É mestre em Psicologia Clínica e autora do livro Amor e Fidelidade, Coleção Clínica Psicanalítica da Casa do Psicólogo (2009).

Gisela Haddad foi irmã-mãe de seis, é mãe sortuda de duas pérolas e avó de um pedacinho de diamante. Faz muitas viagens pelas letras, pelas comidas e pelas estradas, sempre atenta às novas possibilidades de se articular o belo ao amoroso e ao genial. É aflita e agita-se muito, mas às vezes adormece e sonha.

Texto originalmente publicado no livro "Perche mi piace - a vida com elas" organizado por Maria Leticia Oliveira Reis ( Calligraphie Editora 2018)  


segunda-feira, 23 de março de 2020

Simples reciclagens




SIMPLES RECICLAGENS[1]

GISELA HADDAD[2]


Garrido arqueou as sobrancelhas para expressar sua conclusão: se o Brasil era campeão em reciclagem de latinhas de cervejas, que tal reciclar pessoas? Um negro de cinquenta e poucos anos, olhar penetrante, coração aberto, Garrido falava para uma pequena platéia composta de profissionais da área psi, sobre seu projeto de recuperação e “reciclagem” de pessoas. Sendo ex-boxeador, há alguns anos atrás, abril de 2004, parecia que seu sonho se realizaria. Depois de anos treinando o filho Fabio batendo em geladeiras, pneus e surdinas de caminhão pendurados na academia da família - Vila Ré, Zona Leste da cidade de São Paulo - este iria enfrentar o então campeão em uma luta que valia o título brasileiro dos meio-pesados pela Confederação Brasileira de Boxe. Mas foi duramente nocauteado e, além de ficar entre a vida e a morte, sua carreira (e com isso o sonho de um lugar especial) ficara abortada pela contusão cerebral que sofrera.

Tempos depois, trabalhando como segurança no centro de São Paulo, ao ver crianças cheirando cola e fumando crack, Garrido resolveu trazer a ideia da geladeira velha, os restos de carros/ pneus usados e algumas pedras para baixo de um viaduto, improvisar uma academia de boxe e oferecer - a quem quisesse - um espaço para treinar. Logo a idéia cresceu e o antigo espaço sob o Viaduto do Café, local de tráfico de drogas e de desabrigados, tornou-se referência no bairro do Bexiga, atraindo moradores e até empresários que se sensibilizaram com a “paixão” com que Garrido se dedicava ao resgate de qualquer pessoa em vulnerabilidade social, desde crianças de rua, ex-detentos, meninos recém-saídos da Febem, catadores de lixos, moradores de rua, etc.

Em meio ao pensamento contemporâneo marcado pelo ceticismo e pelo individualismo, ouvir alguém falar de forma ao mesmo tempo despretensiosa e apaixonada sobre as possibilidades de se abrir ao outro, mesmo em face às mais pungentes adversidades, é no mínimo alentador. A maioria dos que o assistiam  se surpreendia pela forma simples com que ele afirmava o resgate de pessoas totalmente excluídas da rede social. Parecia mal se dar conta da potência de seus projetos pessoais e da aposta sensível na resposta positiva de seus investimentos no outro, mesmo com todas as evidências de falência. Paradoxalmente o boxe acenava com um destino para a violência, uma violência submetida às regras, à disciplina e, portanto capaz de gerar vida e ajudar na criação da realidade compartilhada.

Já se vão seis anos e Garrido continua com sua “garra”. Seu projeto cresceu, ganhou a parceria da amiga Cora Batista, que há anos trabalhava com assistência social às mulheres, e chega à terceira ponte (no bairro de São Miguel Paulista) transformada em espaço para os moradores pobres locais ou para quem se interessar por “novas oportunidades, disciplina, e autoestima”, segundo suas palavras. O Cora Garrido Boxe ou o Projeto Viver continua transformando alguns que vivem assujeitados pelo medo, pela violência, pela falta de oportunidades, ao oferecer uma brecha de acesso à vida, uma “reciclagem” do desejo que permite a construção de um sentido, em um clima de trocas e solidariedade. Garrido leva a mesma “palavra” aos seus pupilos, incitando-os a manterem seus espíritos abertos à multidão dos excluídos, marginalizados, pobres em geral. Algo como a construção da tal responsabilidade social. Sua frase preferida é a que reafirma sua aposta: transformar “pessoas em seres humanos”, “reciclá-las”. Mas a que mais toca é a que  diz que isto é simples, muito simples, basta querer fazer. Resta apostar.

Para conferir:
Cora Garrido Boxe (Projeto Viver)
Rua Santo Antônio, 821 - Bela Vista - São Paulo – SP




[1] Originalmente publicado no jornal A cidade de Ribeirão Preto, de 20 de outubro de 2010.
[2] Gisela Haddad é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

LIBERDADE, SEXUALIDADE E VISIBILIDADE










LIBERDADE, SEXUALIDADE E VISIBILIDADE

                                                   GISELA HADDAD[1]


Uma reportagem de uma edição recente da Revista Época[2] chamou a atenção para o fato de, com diferentes motivos, mulheres comuns estarem tirando suas roupas e mostrando sua nudez. Algumas, para presentear maridos ou namorados com ensaios de fotos sensuais feitas em estúdios de fotografia; outras, para estampar calendários cuja venda contribuiria para angariar fundos para alguma causa social. Ou ainda aquelas mães de família americanas que, sem motivos aparentes, teriam respondido ao apelo de um site para serem fotografadas nuas em alguma atividade banal, como ao jogar pôquer.

Teria o mundo se transformado em uma grande vitrine e somente quem conseguir certa visibilidade (seja lá a qual preço) pode se sentir parte dele? A liberdade sexual alcançada nas últimas décadas pelas mulheres estaria incentivando-as a “assumirem” sua sensualidade sem constrangimentos? Seria mais fácil hoje para qualquer mulher viver sua fantasia (antes inadmissível) de ser parte integrante do imaginário erótico masculino? Por que, diante de tanta liberdade para escolhermos estilos de vida sexual e modos inusitados de gerenciar nossos corpos, a exibição destes nos parece tão sedutora?
Refletir sobre esta composição entre Liberdade, Sexualidade e Visibilidade requer uma pequena e não tão simples revisão do percurso da cultura - este complexo patrimônio simbólico produzido por nós mesmos - sem deixar de lado a relação entre imagem, conhecimento e subjetividade, e o fato de as mudanças em alguns valores, que antes demoravam mais de uma geração, hoje nos atropelarem com novas e inusitadas questões.

Dentre estas desconstruções radicais de antigas crenças e modos de existência, estão tanto a maneira de viver a nossa sexualidade (homens e mulheres), incluindo aí os contornos e limites de nosso corpo erótico (principalmente para as mulheres), quanto a midiatização de nosso cotidiano, lembrando o quanto a publicidade se apropriou de imagens eróticas femininas para agregar valor às mercadorias.

Freud foi um dos teóricos mais sensíveis ao papel que a sexualidade humana teria na produção de cultura e, percebendo seu caráter disruptivo, apontou a importância de sua regulação para um gerenciamento da convivência entre nós. Para cada época existem comportamentos que são incentivados e aprovados e outros que são desestimulados e condenados. Nosso apetite sexual já foi encarado como uma alquimia de feiticeiras e bruxas prontas a exercer as tentações que culminariam com a perdição da alma humana, mas estão longe de nós os dias em que o sexo e a sexualidade humana eram assunto tabu. Eles hoje fazem parte integrante de uma ciência que se preocupa em nos informar sobre como bem vivê-los.

Mas é justamente por falhar repetidamente em se conformar às normas e restrições da cultura que a regulam, que a sexualidade humana manteve-se durante grande parte de nossa história como um tema a ser pouco veiculado.

Isto foi particularmente mais verdadeiro em relação à sexualidade feminina, abafada sob diferentes justificativas, fosse pela ideologia judaico-cristã que nos guiou durante séculos e exaltava um modelo de mulher assexuada, fosse porque coube aos homens, durante um longo período, gerenciar a distribuição de prazer (e de poder) da cultura, tomando para si a parte majoritária. Com isso, as mulheres viveram muito tempo entre dois modelos, o da santa (todas as “mães” puras) e o da prostituta (todas as mulheres que exalassem sensualidade), ambos gravitando em torno de uma lógica masculina de compreensão do feminino, fantasia que ainda prende homens e mulheres. O recato (cobrir as partes do corpo que pudessem lembrar qualquer sinal de êxtase) foi por muito tempo uma norma imperativa, que visava acalmar as pulsões eróticas das mulheres, assim como os temores masculinos de uma sexualidade feminina ilimitada. Paradoxalmente este recato como regra abriu a possibilidade para que cada pedaço do corpo feminino pudesse se transformar em fetiche para os olhos desejosos dos homens (vide o longevo sucesso das revistas com poses sensuais ou com nudez parcial, voltadas para o consumo, principalmente masculino). Hoje não só a mulher foi sensualizada e está eroticamente emancipada, como a corporeidade de ambos os sexos ganhou um vulto nunca antes alcançado em termos de visibilidade e espaço na vida social.

Mas, se é verdade que um certo excesso do “erótico” pode funcionar como uma forma de se opor ao longo período de censura e repressão à sexualidade feminina, também é verdade que a mídia contemporânea incentiva a cultura atual da exaltação do corpo e da imagem. Esta passagem do recato à visibilidade não é gratuita. Vivemos em sociedades cada vez mais complexas em que o excesso de imagens exige-nos a tarefa permanente de traduzir e discernir este “a mais”. Há uma articulação constante entre a prevalência de imagens, a circulação de informações e estímulos velozes e simultâneos e a produção e consumo de narrativas. Sabemos que a imagem nos constitui e dela nos apossamos em um constante movimento de subjetivação para nos apresentarmos, nos comunicarmos, seduzirmos e sermos seduzidos. Se hoje dependemos muito mais do olhar de reconhecimento dos outros sobre nós para afirmar e reafirmar nossa existência e nosso valor, a mídia se alimenta de nosso interesse e nos acena o tempo todo com a possibilidade de alguns minutos de fama, motor da espetacularização da vida social.

Ficamos diante desta tênue fronteira que a lógica do consumo e do espetáculo impõe à Ética e que descortina ao menos dois fatos da atualidade:

1- Cabe à cultura conciliar uma civilização mais erótica e ao mesmo tempo mais livre e mais justa, sem que isto se confunda com fundamentos moralistas de comportamento sexual;
2- Cabe a cada um o gerenciamento da exposição de sua imagem, incluída aí  a difícil administração dos apelos sedutores aos minutos de fama, cada vez mais acessíveis, e muitas vezes alimentando nossa sede de amor.

Difícil tarefa.


[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[2] Semana de 18/02/2010.

Afinidades Eletivas


AFINIDADES ELETIVAS
GISELA HADDAD[1]
Utilizada originalmente pelas ciências naturais para designar a atração entre dois elementos químicos diferentes, mas afins, a expressão afinidades eletivas ficou mais conhecida por dar título a um romance de Goethe, bastante reproduzido no último século, tanto no cinema quanto em peças teatrais. Escrito em 1809 quando o autor já era um sexagenário, é possível que tal título tivesse a intenção de capturar a moderna sina humana amor-desejo, responsável pelo pêndulo entre o imperativo de nossa natureza que solicita e deseja, o imperativo moral, que tanto pode nos constranger quanto nos dignificar e nossa ânsia de reconhecimento amoroso. É fato que, por questionar repetidamente a tão esperada fidelidade, o idealizado casamento e o significado do amor, as paixões inesperadas desconstruiriam as  expectativas de uma vida amorosa tranqüila e pacífica e marcariam a complexidade de nossos desejos.
Goethe é considerado um ícone do romantismo alemão, movimento que trazia como novidade o acolhimento das contradições e antíteses, e o fato de que nossas vidas não seriam ditadas somente pela razão, mas também pelo nosso estado d’alma. Afinal a razão, a luz com a qual poderíamos contar em nosso percurso moderno sem garantias transcendentais, sucumbiria, como nos ensinou Freud, aos desígnios mais crus de nossas tendências pulsionais.
O mito do amor romântico pretendia embarcar nas políticas de felicidade que a modernidade prometia produzir, ao apostar que em algum lugar do futuro cada um viveria sua história de amor com alguém especial. Este ideal de amor romântico, o amor verdadeiro, aquele cuja função deveria ser promover a junção sexo, amor e casamento, surge juntamente com os valores modernos pós-revolução francesa, que pretendiam transpor as barreiras das diferenças de direitos entre homens e mulheres, das diferenças culturais, de raça e de religião, dos preconceitos sociais, etc. Foi a partir daí que homens e mulheres passaram a escolher seus parceiros por amor, a construir roteiros, sensibilidades e aspirações amorosas diferentes, inspirando e ao mesmo tempo se alimentando de um vasto repertório de amor distribuído entre os romances, filmes, peças de teatro, novelas ou letras de músicas.
Desde então, verdadeiras ou fictícias, as histórias de amor passaram a fascinar a todos e se perpetuaram através do tempo ao serem lidas e relidas, assistidas, lembradas ou citadas. Parte integrante deste mito amoroso, a sexualidade humana, por seu caráter disruptivo, manteve-se durante grande parte da história ocidental como uma dimensão de nossas vidas que deveria ser acobertada, tendo como aval a ideologia judaico-cristã, que condenava a carne e rejeitava suas paixões em proveito das coisas do espírito. Sabemos que a cultura de cada época delimita as possibilidades e impossibilidades, incentiva certas condutas e interdita outras para o convívio entre os humanos. As paixões despertadas pelo desejo rompiam com a moral da época de Goethe, e tornavam trágica a busca pela realização amorosa romântica, que não podia suportar a invasão das forças da natureza responsáveis pela atração irrefreável entre as pessoas.
Continuamos a buscar realizações sentimentais e satisfações sensoriais, mas a liberdade sexual que hoje usufruímos, impensável mesmo há três ou quatro décadas atrás, incentiva a  busca e não condena mais o prazer físico. Estamos, sob este ponto de vista, mais livres para decidir sobre o que fazer (e como fazer) com os nossos corpos. A partir da década de sessenta, nossa  revolução sexual impôs reposicionamentos sociais e redefinições dos papéis sexuais, o que  repercutiu de forma decisiva nas relações homem/mulher e sobretudo nas relações amorosas entre os jovens, que começaram a ver e a viver a sexualidade de forma totalmente diversa. O advento da pílula anticoncepcional e a liberação do aborto em diversos países ocidentais permitiram aos jovens morar juntos, ter relações sexuais fora de uma conjugalidade mais séria, separar-se quando não havia mais motivos para se estar juntos, e assumir suas preferências sexuais mesmo quando estas não pertenciam ao modo tradicional das relações heterossexuais.
Estas mudanças que hoje já estão mais digeridas pela cultura ocidental, mudaram sobremaneira  a paisagem social e admitiram uma nova ética da sexualidade. Amor e sexo estão separados, ainda que possam compor várias melodias. O enigmático se deslocou de nossa sexualidade para nossos desejos. O ficar, prática que se consolidou entre os adolescentes e que hoje permeia as relações de todas as idades, abriu um espaço inusitado para relacionamentos passageiros, fortuitos, que não visam compromissos futuros e em que  predomina a sensorialidade. Nem por isso deixou de existir o espaço privilegiado das relações amorosas que buscam um envolvimento mais efetivo entre os pares e por isso prevêem uma confluência de interesses e desejos continuamente negociados. Apostando ainda em sua durabilidade, estas relações incluem a possibilidade de uma ruptura, caso haja a finitude de interesse de uma ou ambas as partes.
É fato que o remanejamento dos antigos códigos de convivência amorosa assegura uma liberdade maior a cada indivíduo, que hoje pode escolher, entre um leque amplo de opções, aquilo que mais se afina com seus gostos ou estilo de viver; mas não tem sido fácil para a grande maioria fazer o luto do ideal de amor romântico, habitante velado ou declarado do íntimo de cada um. Talvez porque as dores provocadas pela luta entre a manutenção deste anseio romântico e todos os sentimentos que o acompanham - como o medo da perda, do abandono ou da traição - sejam reminiscências do romance infantil vivido por cada um em seu seio familiar. O amor incondicional imaginado durante os cuidados e acolhimento  dos primeiros anos de vida transformaria cada um em Narciso e marcaria um destino de busca para ser amado e admirado. Recuperar esta imagem de centro do mundo e de todas as atenções confunde-se com a promessa do romantismo amoroso, que assim parece legitimar a expectativa de  satisfação sexual e sentimental e a busca de  um parceiro (a) que nos devolva este olhar que esperamos poder nos amparar e confortar.
Se, por um lado, radicalizamos nossa autonomia e nossa liberdade para escolher e viver nossa vida amorosa, desconstruindo os antigos códigos e referências, aumentamos nossas incertezas e  nossa dependência de um olhar amoroso, o que nos torna vulneráveis aos fracassos e ao sentimento de impotência. O sucesso ansiado de nossa vida amorosa passa a depender de um investimento infinito das partes envolvidas, mas principalmente da possibilidade de cada uma destas partes atribuir ao outro uma individualidade (ou alteridade) a ser respeitada. O que mantém este anseio, a despeito da obsolescência do ideal romântico, é o fato de se considerar a vida amorosa como um dos poucos espaços que empresta a cada um o sentimento de pertencimento, de não se estar só, de poder dar um sentido para a vida e para a morte. Através dela é possível  temperar nossa existência com pitadas de fantasias e transformar a banalidade do cotidiano em um teatro de magias. Ela também pode nos incentivar a inventarmos novas maneiras de ser, mais próximas do que imaginamos que o outro queira que sejamos, ou ainda apostar que podemos ser melhores e mais amáveis.
Na época de Goethe, a tarefa de encontrar uma acomodação feliz entre as reivindicações individuais e culturais indicava a necessidade de internalizar a repressão social dos sentimentos destrutivos e dos desejos sexuais temidos, que deveriam se transformar em uma consciência moral vinculada à culpa. Hoje a pluralidade dos códigos de convivência nos coloca em contínuos conflitos a serem administrados para que possamos validar a diversidade de nossas opções.
Sabemos que, no terreno do amor e do sexo, não há como expurgar a contingência, a ambigüidade e a dúvida. Resta-nos construir caminhos em que o jogo narcísico que nos constitui e reúne, também possa  inventar uma ética para nossas condutas. Pode-se dizer que as afinidades eletivas nestes dois séculos que nos separam de Goethe, mantêm este dilema entre nosso ideal subjetivo e os ideais sociais, mas nossas dores e temores estão mais ligados à confiança que conseguimos ou não obter sobre nossas potencialidades.


[1] Gisela Haddad é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e da equipe editorial da revista Percurso, autora dos livros Amor e Fidelidade (Ed. Casa do Psicólogo) e Amor (Ed.Duetto)