segunda-feira, 16 de julho de 2012

Por quais livros/autores dobram os sinos?


Ainda que alguns críticos/intelectuais (poucos, ainda bem) torçam o nariz para a “festa” literária que acontece anualmente em Paraty, seria muito proveitoso perguntar por que ela continua sendo um evento disputado após 10 anos de existência. E nesta toada, analisar seu sucesso não só pelo prisma do espetáculo ou mesmo do lugar que a literatura “ainda” ocupa no mundo atual, mas também pelo surpreendente número de leitores brasileiros – em um país quase sem tradição literária - que continuam a reverencia-la. E o que buscam estes “leitores”? Não é fácil responder a esta questão quando se acompanha os comentários espalhados pela mídia, tanto de “turistas” que ali comparecem ou dos inúmeros jornalistas que cobrem o evento. Mas a própria diversidade dos enfoques já anuncia a consagração deste que é um dos maiores e melhores acervos de nossa história humana: as narrativas que cumprem essa função integradora do corpo social ao acompanhar os desafios (internos e externos) de cada época. E, se a iniciativa de se fazer uma feira/festa literária tem seus interesses capitalistas, com editoras e autores sonhando em aumentar suas cifras, a proposta de tornar acessível ao público (em geral) um pouco mais do produto dos que dedicam parte de suas vidas a escrever sobre algo que interessa a muitas pessoas do mundo todo, não deixa de ter um efeito midiático interessante. Ao lado da tietagem que normalmente caracteriza algumas relações entre leitores e autores, há o fato inusitado de se forçar um escritor a “falar” sobre seu processo criativo, as escolhas de seus temas, a relação de suas narrativas com sua própria vida, enfim, faze-lo refletir sobre o lugar que a escrita ocupa em sua vida e como ele percebe/analisa o interesse de seus temas para o público. É neste confronto que se percebe a variedade das análises - sempre particulares - que acabam compondo um leque imenso de possibilidades de narrar nossa história coletiva. Pode estar a serviço de uma ampliação do contato consigo próprio, da preservação da memória ou o contrário, da tentativa de confundi-la; pode falar da própria literatura, das cidades, das injustiças sociais; pode dizer o que ainda não foi dito ou pode simplesmente guardar um anseio de ser lido/reconhecido por muitos. Os verbos também podem deslizar para o entreter, perpetuar, transmitir, refletir, e assim vai. E para isso vale falar sobre as entranhas humanas , seja para apaziguar ou impulsionar seus fantasmas. Sobre os fracassos, a solidão, o desamparo, os amores, os lugares e as pessoas que lhe são importantes; sobre os aspectos políticos e sociais do mundo, a violência, as injustiças ou a vida banal nas cidades. Como vimos não há limites. A leitura de uma boa obra pode ser uma experiência transformadora para alguns leitores, mas é basicamente uma experiência “humana” em que cada um se reconhece e dialoga com seu semelhante independente das diferenças étnicas culturais ou das distancias geográficas entre quem escreve e quem lê. Se uma análise crítica deve tentar compreender mais do que conjecturar ou agourar, podemos deixar registrado com certa satisfação que a Flip tem propiciado um bom e inusitado debate de ideias entre escritores de diferentes culturas e idades além de dar visibilidade para a literatura. E se ela, a literatura, estrela máxima do evento, consegue se manter sendo a memória cultural de uma era, se em última instancia é isso que se constrói e conserva quando se escreve, é bem capaz que os livros continuem a ser escritos e lidos. Oxalá.


domingo, 8 de julho de 2012

Corpos à deriva


O caderno da Ilustríssima (Folha de São Paulo) do domingo 1°/07/2012 trazia em sua capa uma foto impactante, um corpo mantido no ar por um guindaste, uma massa inerte. A reportagem denunciava as execuções públicas que voltaram a ser permitidas no Irã a partir de 2009. Acontecida dias antes em uma cidade próxima de Teerã, e aberta propositalmente à população que se dividia entre olhares espantados e bocas caladas ou em manifestações de júbilo pela pena aplicada, os dois homens enforcados teriam cometido crimes inaceitáveis na cultura do país, um estuprador e outro traficante. Mas na pergunta que permeava a reportagem sobrava espanto: porque retornamos a processos violentos de punições quando, já no século XXI, teríamos modos mais “civilizados” de tratar nossos “fora da lei”? Ou seja, porque haveria uma espécie de retorno do primitivo, como se o processo civilizatório da humanidade guardasse eternamente seu avesso, nosso lado animal? Não parece ser uma questão fácil de ser respondida, afinal não foram poucos os que se debruçaram sobre a história de nossa “civilização” e pensaram sobre os seus fios evolutivos, marcando as formas de poder e de alienação, assim como os avanços na construção de uma convivência em que cada um, individualmente, poderia se responsabilizar por sua ‘cidadania’ a partir do compartilhamento de certas normas e leis que balizariam os direitos, as obrigações e as punições aos infratores. Parecem existir certas figuras paradigmáticas de nosso estofo humano que se repetem ali e aqui desmascarando ora nossa violência, ora nosso lado perverso, ora o grotesco, enfim figuras do excesso, do nonsense, que denunciam o caldo virulento que nos compõe. Ao ler a reportagem, me lembrei de certas cenas de filmes, alguns sobre a vida na Idade Média e outros sobre a ocupação do Oeste americano. Na Idade Média todos viviam sob os códigos religiosos, as leis eram principalmente divinas e sagradas e as pessoas estavam condenadas a ganharem os céus por suas virtudes ou o inferno por suas transgressões e ousadias. Em geral nas cenas de execuções públicas em que corpos ardiam no fogo do “inferno” ou cabeças eram decapitadas, a população entoava verdadeiros mantras, exorcizando aqueles que teriam merecido tal pena e aliviados por terem “Alguém” que vigiasse e se responsabilizasse por estes destinos. Já os famosos faroestes, em que as cenas de enforcamentos eram parte da tentativa dos xerifes para fazer valer a lei e a ordem naquelas “terras de ninguém”, aquele circo se fazia necessário para que cada morte pudesse ter um valor diferente das outras cometidas sem o respaldo da lei. Um tempo já moderno, mas de implementação do permitido e do proibido, de construção de um espaço em que a convivência pudesse ficar minimamente garantida pelo consenso entre os homens, para que cada um, individualmente, soubesse que apesar de ser livre para decidir sobre muitas coisas, os dois interditos fundamentais da humanidade, ou seja, o tabu do incesto e do assassinato precisariam ficar permanentemente  validados. Mas como entender o retorno destas execuções públicas no Irã, em um tempo em que não haveria mais motivos para “festejar” ou “discriminar” e sim se envergonhar destas mortes sem mediações, quase “animais”, senão como um dispositivo truculento dos que detém o poder e que certamente enviam um “aviso” a todos os que se pretendem dissidentes? No mesmo domingo várias matérias na web chamavam a atenção para o retorno do mito de Fausto, estreando nos cinemas de São Paulo. Embora esta versão se baseie no livro escrito por Goethe na Alemanha dos anos 1808, o mito já existia sem uma autoria definida desde o século XV e sua reincidência só nos revela o quanto Fausto em seu pacto com o diabo, é a manifestação de nosso eterno desejo moderno em não precisar pagar a parcela de renúncia, ou seja, nós em busca do absoluto, da não-morte, do gozo do poder total, do divino. A reportagem da Folha, ao final, estaria às voltas com mais uma das previsões sobre o destino da história humana, o fim do mundo sem leis, sem flechas, sem compromissos, onde qualquer um pode escolher o horror ou a esperança?

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Saneamento complexo


Marisa Monte está em temporada de show em São Paulo apresentando seu novo CD ou novo projeto musical, como ela própria gosta de chamar. Nele, ela homenageia artistas plásticos brasileiros, prática utilizada desde o início de sua carreira quando se apresentava ao público destacando a importância de sua formação/herança musical carioca (ou acima de tudo brasileira) e dando visibilidade aos autores de samba e outras canções de nossa raiz afrocaboclaindigena. Mais do que isso, Marisa Monte faz parte de uma geração de artistas nacionais que compuseram/interpretaram canções sobre sua época contribuindo para a construção de um acervo de novos sentidos para as vidas dos jovens. Talvez por isso ela frise que falar de amor, de vida com qualidade, de felicidade é abordar temas complexos, que exigem maturidade e escolhas difíceis. E a política? - querem saber os repórteres. Tristeza, diz ela. Ao ler sua entrevista, não pude deixar de comparar sua época com a de minha geração de jovens, em que a luta para a conquista da liberdade (de quase tudo), mas, sobretudo a esperança de uma efetiva renovação político-social estava no horizonte das possibilidades transformadoras. Pode-se dizer que a liberdade de ser, de ter, de buscar, de viver é um valor conquistado. Mas como utilizar tal valor para  transformar ou melhorar a vida de todos? A verdade é que o panorama do mundo contemporâneo está muito mais complexo. É difícil entender a lógica das forças políticas quando a mídia anuncia, por exemplo, a aliança (e a farsa) entre Lula e Maluf que não apenas queima o candidato a prefeito da maior cidade da América Latina, como deixa perplexos milhares de jovens que buscam sinais de alguma ética na vida política e social. O mesmo pode ser dito em relação às apostas feitas em torno da Rio+20 cujo resultado  mostra o quanto o caos da economia global parece impedir que os políticos se preocupem com o caos ambiental, como se não houvesse correlação entre ambos. Por aí o modelo de discussões sobre o meio ambiente segue o modelo de gestão da economia mundial (e porque não da política) em que o que se busca é a eliminação dos pontos polêmicos, alguns conchavos e nenhuma ousadia. Já a internet, como preconizam alguns, continua a promover sua silenciosa revolução com seu poder de veicular qualquer informação em escala global e instantânea.  Por ter sobretudo jovens em seu quadro de criadores e usuários, que dominam a cibertécnica, seu nascimento e sua incidência prescindiram do aval e do controle das altas esferas públicas de poder e suas regras de funcionamento (ainda) garantem um livre fluxo dos conteúdos que são ali veiculados. Se sua importância na vida de todos os nascidos a partir de então é incomensurável, já temos noticias do valor de seu poder de compartilhar/trocar conhecimento e informações com toda a humanidade, assim como de liberdade de acesso e escolha permitidos a cada um, para o bem e para o mal. Se ainda é cedo para termos uma medida da dimensão desta revolução, não dá para esquecermos o que não cessa de se repetir na busca do controle das vidas versus o horror da indefinição e da incerteza que nos assalta. Continuamos avançando com nossos desejos, ao mesmo tempo em que tememos por estes avanços. É neste vão que costumam crescer as (nossas) ervas daninhas.

domingo, 24 de junho de 2012

O povo & a infidelidade


A Folha de São Paulo convidou dois de seus colaboradores para um debate sobre amor e infidelidades na noite do dia 18 de junho: a antropóloga carioca Mirian Goldenberg, que escreve no Caderno Equilíbrio e pesquisa há duas décadas o comportamento de homens e mulheres em sua relação com temas como sexo, casamento, fidelidade, e o cartunista Adão Iturrusgarai que entre outras pérolas criou a personagem Aline, aquela que mantém há anos uma “boa” vida conjugal com dois namorados. Enquanto Mirian tentava traduzir para a plateia os principais resultados de tantos anos de interrogatórios sobre um assunto tão sério e polêmico, Adão se encarregava de desconstruir a lógica estatística com seu humor. Frutífero, o diálogo entre os dois rendeu um livro, “Tudo o que você não queria saber sobre sexo” (Ed. Record). E pelas perguntas dos espectadores era possível mapear o que insiste em escapar aos números. Sob  olhares interrogantes homens e mulheres, atrás de seus (novos?) lugares sociais, buscam orientações e dicas sobre o que e como viver suas vidas amorosas. Existe uma fórmula para o amor? Neurocientistas e químicos analisam a estrutura biológica em busca de pistas. Psicólogos e antropólogos tentam criar teorias. Ainda temos horóscopos, cartomantes, mapas astrais, toda sorte de superstições e simpatias, além de nosso casamenteiro Santo Antônio, que no ultimo dia 13 deve ter recebido um bocado de orações. Como encontrar o parceiro ideal? Existe um grau de atração necessário para se manter um romance? A liberdade sexual alcançada pelas mulheres trouxe-lhes alguma conquista?  O que mudou para elas? O que mudou (ou não) para os homens? Quem trai mais? Há diferenças nos motivos de homens e mulheres para traírem? Quem quer se casar, homens e/ou mulheres? As perguntas tangenciavam o imbróglio maior, nossa vida amorosa, e como bem disse a antropóloga, se há um consenso em torno do que queremos para ela é que possa conter tanto a liberdade quanto a segurança, duas das maiores ânsias contemporâneas. Todos querem desejar, amar, trabalhar, se divertir, fazer parte integral da cultura e da sociedade, mas botam uma fé danada no amor, na espera de que ele possa trazer paz, preencher o vazio, produzir um sentido para as suas vidas. Sonhamos com  uma vida amorosa e sexual nos moldes do “foram felizes para sempre”, sem perturbações que questionem nossos desejos ou a falta dele ou conflitos que revelem nossa incapacidade de gerenciar sua complexidade. Se homens e mulheres buscam isso o que vem depois? É aqui que Adão Iturrusgarai desperta gargalhadas ao expor as bizarrices do que em geral não revelamos de nossas vidas íntimas, os bastidores da relação entre amor e sexo. Isto talvez denuncie a impossibilidade de mapearmos sua complexidade, principalmente quando incluímos a tal da fidelidade, cujas razões confrontam  e questionam as regras que construímos. Ok, todos sonham em ter um parceiro ideal, sonham em amarrar o bode (de suas vidas) em alguma árvore, e isto guarda um pouco do mito da monogamia, este resquício poderoso de nossa infância: ter alguém que nos ame para sempre, que nos ache especial, que não nos deixe cair no vazio ou na desventura de nos sentirmos excluídos e sem valor. Mas o que acontece com a estampa feliz do casal depois que eles passam pelo umbral da porta de seu lar doce lar?  Em geral não estamos muito dispostos a saber sobre as decepções, os ressentimentos, as brigas, etc. Ler (e rir) das tirinhas de Adão sobre relacionamentos pode ser uma alternativa.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O amor “en-cena”


No sábado do dia 8 de junho de 2012 o Estadão publicou uma entrevista do filósofo e ex-ministro da educação da França, Luc Ferry, em que este dizia que vivemos a era da revolução do amor. Não estaríamos mais dispostos a nos sacrificar em nome de grandes ideias ou de utopias, mas possivelmente em nome de nossos filhos, pais ou amigos, ou seja, daqueles que amamos. O casamento por amor, e não mais por interesses, estaria no centro desta nova ordem social e teria disparado (neste ultimo século) a desconstrução de muitos valores tradicionais. Nossa sociedade teria se transformado em um conjunto de individualidades (homens e mulheres) que buscam a emancipação desfrutando de uma liberdade jamais alcançada, e o esperado seria que pudéssemos aceitar melhor o diferente, já que nosso objetivo maior seria o de preparar o futuro daqueles que tanto amamos, nossos filhos, ou melhor, as gerações futuras. Por isso, da condição humana pós-moderna seria esperado valores morais como a solidariedade, a tolerância, a gentileza e a amizade. Mas como evitar que estes valores degenerem para o egoísmo, a insensibilidade e o desinteresse pelas misérias humana ou simplesmente pelo outro? Este é o paradoxo sobre o qual versa o novo filme do polêmico diretor  Roman Polanski  em cartaz em São Paulo, “O Deus da Carnificina”. Baseado na peça da dramaturga e atriz francesa Yasmina Reza (já encenada na Broadway e em São Paulo) a ação se passa  em um apartamento em Nova York e tem como disparador a briga entre dois garotos em que um deles é ferido pelo outro, fato que fará com que os pais dos dois marquem um encontro para um pedido formal de desculpas, sem a presença dos meninos. A princípio, a educação e a civilidade imperam, com os pais do garoto agredido recebendo em sua casa os pais do agressor, mas aos poucos a polidez dá lugar a uma artilharia verbal e a cordialidade antes sob o controle do manual do politicamente correto, descamba para  uma exposição escancarada daquilo que chamamos “vida privada”. Embora possa ser considerada uma comédia de costumes, o filme consegue perturbar a todos os espectadores que aos poucos vão sendo tomados por uma tensão desconfortável (vez por outra descarregada por risos nervosos)  que os leva a  torcer para que os casais desistam daquela troca de ofensas, deem por terminado o conflito e voltem para suas tocas. Paira uma certa vergonha, este sentimento social que ajuda a viabilizar nossas relações com os outros ao marcar um espaço de intimidade para cada um, e assim guardarmos nossos sentimentos/desejos secretos que poderão ou não ser compartilhados segundo nossas escolhas. Mas o desconforto também sugere que identificamos ali a possibilidade disso acontecer com cada um de nós o que confirma que a construção do espaço social de convivência esbarra no modo como nossas emoções organizam nossas vidas interiores. Se o casamento por amor funda uma nova maneira de existir em que o amor não só passa a regular a vida familiar e societária como se mantém como uma promessa de felicidade para a vida de cada um, vivemos em um circuito amoroso em que o culto ao amor que se recebe dos pais impõe a necessidade de buscar indícios do amor no outro, aumentando a importância do amor como confirmação do próprio valor. E funda uma lógica menos racional e mais emocional para as motivações dos comportamentos humanos. Na sala de estar do apartamento em que praticamente acontecem todas as cenas do filme, o café/bolo/ética/gentilezas vai aos poucos cedendo espaço ao uísque/carências/mágoas/agressividade. Todos confessam seus mais miseráveis sentimentos e acusam algum dos outros por suas faltas. Há ora uma aliança entre os pares conjugais, ora entre os gêneros e as trocas de farpas parecem esconder pedidos de reconhecimento de valor, de amor, de superioridade moral/social/intelectual, de poder. Faltou um estranho, alguém de fora, que adentrasse naquela sala e cochichasse aos ouvidos dos quatro como somos limitados em nossas pretensões, pegasse de forma carinhosa as mãos do casal visitante, levasse-os até a porta agradecendo sua disponibilidade, juntasse as mãos do casal anfitrião, convidasse-os a irem dormir em sua cama de casal, apagasse as luzes e deixasse enfim na tela do cinema, o “The End”.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sentimento nacional


Londres é o tipo de cidade que costuma surpreender os desavisados e  causar, em geral, uma espécie de “bom” estranhamento diante do antigo e do novo, da presença constante dos ícones da monarquia em contraste com a liberdade de estilos e a diversidade de etnias de seus cidadãos. Cosmopolita e controversa, tradicional e supermoderna pode-se em um mesmo dia imaginar-se voltando alguns séculos diante do ritual da troca da guarda no Palácio de Buckingham e ao zarpar para Piccadilly Circus, onde se concentram os teatros, cinemas, artistas de rua, ou para o leste com seus ateliês, galerias, lojas e diferentes tribos de jovens já avançar para a vanguarda dos tempos atuais. No domingo de 3 de junho último,canais de TV permitiram que o mundo todo celebrasse junto à família real, a festa dos sessenta anos de reinado da Rainha Elizabeth II e assistisse milhares de espectadores acenarem suas bandeirinhas e se amontoarem as margens do rio Tâmisa – com a chuva e o frio que caracterizam os céus londrinos- à espera do cortejo de mil barcos que acompanhou a embarcação real. Sessenta anos não é pouco e durante este período, a geração de nossos pais, a nossa e a de nossos filhos acostumou-se a “conviver” com esta senhora e seus familiares, ora sob o fascínio de sua pompa e circunstância ora com o espanto de sua humanidade. Entre baixas e altas pode-se dizer que a maioria do povo britânico aplaude e sente muito orgulho de sua família real, mesmo quando ela vai parar nas manchetes dos jornais e revela capítulos picantes de sua historia ou expõe seus gastos milionários. Assim como o chá e a pontualidade, a família real faz parte da identidade cultural inglesa. E isso não é pouco. É justamente este sentimento nacional que dá visibilidade a monarquia britânica, ao contrário de outras que passam quase despercebidas. Pode-se dizer que grande parte da força da “marca” desta realeza que acaba por devolver seus gastos aos cofres públicos e leva uma série de benefícios ao país, principalmente em forma de turismo, nasce deste sentimento nacional de orgulho e crença de seu povo em seu valor. Quanto a nós brasileiros, será que temos uma identidade nacional? A possibilidade que a mídia contemporânea abriu de um convívio mais próximo com outros povos, seus costumes, sua estética, nos permite apontar diferenças importantes para cada uma das culturas, que em geral são tanto a graça quanto a desgraça de cada país. Cá no Brasil, apesar de grande nação, de falarmos a mesma língua em toda a extensão territorial e convivermos com um baixo índice de conflitos étnicos ou religiosos, guardamos uma singela aura infantil no sentimento de pertencimento principalmente quando o foco é a responsabilização de cada cidadão sobre os rumos ou desacertos do país. Ao contrário de nossos vizinhos argentinos, p.e., preferimos deixar cair na “vala”, quaisquer desrazões ou mal ajambrados jeitos de resolver nossas questões e contradições, evitando o debate e por decorrência, os mal estares de seus acertos e todos os desafios implicados na defesa dos interesses de uma nação. Há os que se desanimam ao ver perpetuado um certo “jeitinho brasileiro” de dourar a pílula. Mas há sempre os que apostam que esta mesma eterna “juventude” do país pode guardar a potencia de medidas e soluções inovadoras. Há os que esperam e os que se implicam.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Virada cultural


O Brasil (assim como outros países emergentes) vem se tornando foco de interesse dos que buscam visualizar “tendências” do futuro da vida humana, ou seja, dos que, diante da “certeza” de tantas incertezas, tentam antecipar um roteiro ou mapa para os variados setores de nossas vidas: finanças, saúde, felicidade, trabalho, cultura, relacionamentos, etc. de olho no que imaginam ser uma espécie de laboratório do planeta. De país periférico, passamos a objeto de reflexão e curiosidade dos que apostam que, sem o peso de uma “tradição” civilizatória/intelectual/científica/ ideológica, nossas soluções para as rápidas mudanças que o mundo contemporâneo impõe podem ser diferenciadas, quiçá inovadoras. Será? Talvez, se tomamos o Brasil em um estágio de adolescência, curtindo a ferveção/pulsação incessante deste período e/ou impelido a inventar uma disponibilidade infinita para o novo, mas sem muitos compromissos para com seu mal ajambrado passado. Uma visão romântica? De certa maneira sim. O romantismo guarda em certo grau uma visão idealizada da condição humana, ou dos estágios da vida. Viver em um patamar quase sempre provisório para as soluções dos problemas (leves ou escabrosos) pode desembocar na invenção de modos criativos de existência, ou ser um desastre. As possibilidades de vida humana sem direitos e obrigações civilizatórios mais ou menos encarnados costumam ser injustas ou confusas. Mas certamente vivemos em uma era em que a cultura global pede muita flexibilidade. E se há um setor efervescente, que tem sido pensado e ocupado por jovens inspirados, cheios de ideias e orgulhosos do acervo hiperdiversificado do Brasil, é nossa cultura. Um bom exemplo são as edições da virada cultural paulistana, um evento que completou oito anos no último dia 5/6 de maio e que aos poucos foi arregimentando diferentes camadas da população. Pensemos em seu duplo sentido. Virada tanto significa o novo, algo que implica em uma ruptura com o velho quanto alude ao fato de ser um evento que “vira” a noite /dia e oferece espetáculos para todos os gostos e idades ininterruptamente. Fui conferir. Depois de estudar o mapa dos quase cem locais espalhados pela cidade, elegi o centro de São Paulo (onde se concentravam mais da metade dos palcos) para apreciar uma das apresentações da programação do “Piano na praça” no sábado à noite. Para aqueles que não conhecem, o palco fica na Praça Dom Gaspar, atrás da Biblioteca Mario de Andrade, em um lugar arborizado e muito apropriado para um solo de piano. Tudo trabalhava a favor: a noite de lua cheia iluminava as belas e antigas construções do centrão, o clima era de um outono agradável, muita gente transitava para lá e para cá e policiais espalhados em duplas pelas esquinas estavam a postos para orientar os transeuntes sobre os melhores trajetos dos destinos escolhidos. Impossível não sentir certa satisfação ao cruzar com alguns grupos de senhorinhas que estudavam seu “mapa da virada” para tentar eleger com algum consenso as próximas atrações. Quanto a mim, já estava decidido, a próxima parada seria o coreto da Praça da República. Que boa escolha! Depois de ouvir um excelente solo ao piano, sentada embaixo de árvores centenárias, nada melhor do que balançar mansamente o esqueleto junto aos que já se encontravam ao redor do antigo coreto. No “ar”? O Projeto Coisa Fina, uma banda composta de feras da música instrumental brasileira que promove uma fusão do jazz ao baião, maracatu e samba. Na pauta, muitas músicas do genial maestro Moacir Santos. Com muito orgulho, tudo coisa nossa!