Os leitores que acompanham minha coluna já sabem que todas as vezes que viajo ao Rio de Janeiro acabo encontrando maneiras de registrar minha paixão por aquele pedaço do mundo. Confesso que minha empolgação tem início desde que surge, no horizonte, um motivo para a visita, o que significa comprar passagens, escrever para os amigos, marcar conversas e matar as saudades de “todos”, pessoas e lugares. A exuberância da geografia em torno da baía de Guanabara e adjacências já se oferece plena com a aterrisagem do avião no aeroporto Santos Dumont e se mantém surpreendente aqui e ali dentro do taxi, mesmo em dias nublados e frios, caso deste último final de semana. Se não me canso de admirar tanta beleza estética, também me contagio com o “carioquês” , um estilo de vida, de relação com a cidade e com o povo que me parece sui generis. Premiada, pela primeira vez fiquei hospedada no bairro de Santa Tereza, em casa de uma amiga querida. Bia, sua casa, marido, filhos, genro, noras, cachorros, compõem e expressam bem uma parte importante deste estilo carioca de ser, que não apenas ama sua cidade, conhece a fundo sua história e sua cultura, mas vive profundamente engajado com seus problemas e soluções. O que é isso? Talvez uma espécie de ocupação responsável e amorosa da cidade, de utilização de seus espaços, aproveitando o que ela oferece de bom e mobilizando-se contra os maus. É incrível como uma apropriação da cidade ou do bairro em que se mora pode fazer diferença na maneira como as pessoas convivem umas com as outras, tornando-as ao mesmo tempo críticas e abertas ao diferente. Nossas andanças matinais pelo bairro foram verdadeiras aulas da história da ocupação de Santa Teresa, com paradas obrigatórias para as vistas que o alto do morro oferece da Baía de Guanabara e para os casarões e palacetes que conservam uma parte do Rio Antigo - ocupada pelos que aqui aportaram a partir da chegada da corte de Portugal e escolheram o morro para viver porque a vista era linda, a água boa ou o clima mais ameno. Também escritores e artistas desde sempre se sentiram atraídos, seduzidos por seu charme. Onde hoje funciona o Parque das Ruínas, por exemplo, foi a casa da mecenas Laurinda Santos Lobo que reunia em seus saraus os artistas da época. E se o glamour deu lugar à desolação quando as favelas passaram a dominar o entorno, Santa nunca saiu de cena, sendo o alvo preferido, nos anos setenta, dos artistas que chegavam da Bahia, São Paulo ou Minas e viam ali, juntos, charme e vida barata. Hoje seu visual mantém certa mistura entre o antigo reformado/novo e o descuidado, suas poucas ruas “largas” não tem lugar para estacionar carros, em suas vielas passeiam moradores que se cumprimentam e muitos turistas que batem pernas, uns com mapas na mão, outros a se perder pelas vielas deixando-se surpreender pelas galerias e ateliers de artes, pelas lojas coloridas, pelos restaurantes de comida natural, nordestina, mineira, carioca. A noite são os jovens que invadem os bares (um pouco mais baratos que na cidade) quase todos exibindo música ao vivo de boa qualidade. Ao lado de sua recém Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), o bairro possui a AMASP, uma antiga e atuante associação de moradores que no momento, entre outras reivindicações, briga para ter de volta os famosos bondinhos, desde que no ano passado um deles descarrilou, deixando cinco mortos, mais de 50 feridos e expondo o descaso dos governos com sua manutenção. Muitos dos moradores exibem a foto do bondinho em suas janelas, fazendo coro com o movimento e tornando público seu desejo pela volta do funcionamento original de suas linhas que serviam prioritariamente a comunidade a preços módicos, ao invés do plano atual de transforma-los em turísticos. Mesmo os que nunca foram a Santa Teresa conhecem estes charmosos veículos que ali circulam desde o século passado e contribuíram para ampliar o charme especial e romântico do bairro, seguindo a rota do tempo no sobe-e-desce de suas ladeiras. Na volta de nossos passeios, já na mesa que dá para a horta e para as plantas de Bia, tomando um suco verde caseiro e jogando conversa “dentro” pensava como era inevitável que minhas lembranças se sentissem em casa com aquele jeito “interiorano” de viver em que as pessoas se conhecem, sabem os nomes, os endereços, a história de cada um. Alguém mexeu no portão de Bia: era o feirante que vinha entregar as frutas, verduras e legumes que ela havia pedido de manhãzinha.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Casa de Bia
Os leitores que acompanham minha coluna já sabem que todas as vezes que viajo ao Rio de Janeiro acabo encontrando maneiras de registrar minha paixão por aquele pedaço do mundo. Confesso que minha empolgação tem início desde que surge, no horizonte, um motivo para a visita, o que significa comprar passagens, escrever para os amigos, marcar conversas e matar as saudades de “todos”, pessoas e lugares. A exuberância da geografia em torno da baía de Guanabara e adjacências já se oferece plena com a aterrisagem do avião no aeroporto Santos Dumont e se mantém surpreendente aqui e ali dentro do taxi, mesmo em dias nublados e frios, caso deste último final de semana. Se não me canso de admirar tanta beleza estética, também me contagio com o “carioquês” , um estilo de vida, de relação com a cidade e com o povo que me parece sui generis. Premiada, pela primeira vez fiquei hospedada no bairro de Santa Tereza, em casa de uma amiga querida. Bia, sua casa, marido, filhos, genro, noras, cachorros, compõem e expressam bem uma parte importante deste estilo carioca de ser, que não apenas ama sua cidade, conhece a fundo sua história e sua cultura, mas vive profundamente engajado com seus problemas e soluções. O que é isso? Talvez uma espécie de ocupação responsável e amorosa da cidade, de utilização de seus espaços, aproveitando o que ela oferece de bom e mobilizando-se contra os maus. É incrível como uma apropriação da cidade ou do bairro em que se mora pode fazer diferença na maneira como as pessoas convivem umas com as outras, tornando-as ao mesmo tempo críticas e abertas ao diferente. Nossas andanças matinais pelo bairro foram verdadeiras aulas da história da ocupação de Santa Teresa, com paradas obrigatórias para as vistas que o alto do morro oferece da Baía de Guanabara e para os casarões e palacetes que conservam uma parte do Rio Antigo - ocupada pelos que aqui aportaram a partir da chegada da corte de Portugal e escolheram o morro para viver porque a vista era linda, a água boa ou o clima mais ameno. Também escritores e artistas desde sempre se sentiram atraídos, seduzidos por seu charme. Onde hoje funciona o Parque das Ruínas, por exemplo, foi a casa da mecenas Laurinda Santos Lobo que reunia em seus saraus os artistas da época. E se o glamour deu lugar à desolação quando as favelas passaram a dominar o entorno, Santa nunca saiu de cena, sendo o alvo preferido, nos anos setenta, dos artistas que chegavam da Bahia, São Paulo ou Minas e viam ali, juntos, charme e vida barata. Hoje seu visual mantém certa mistura entre o antigo reformado/novo e o descuidado, suas poucas ruas “largas” não tem lugar para estacionar carros, em suas vielas passeiam moradores que se cumprimentam e muitos turistas que batem pernas, uns com mapas na mão, outros a se perder pelas vielas deixando-se surpreender pelas galerias e ateliers de artes, pelas lojas coloridas, pelos restaurantes de comida natural, nordestina, mineira, carioca. A noite são os jovens que invadem os bares (um pouco mais baratos que na cidade) quase todos exibindo música ao vivo de boa qualidade. Ao lado de sua recém Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), o bairro possui a AMASP, uma antiga e atuante associação de moradores que no momento, entre outras reivindicações, briga para ter de volta os famosos bondinhos, desde que no ano passado um deles descarrilou, deixando cinco mortos, mais de 50 feridos e expondo o descaso dos governos com sua manutenção. Muitos dos moradores exibem a foto do bondinho em suas janelas, fazendo coro com o movimento e tornando público seu desejo pela volta do funcionamento original de suas linhas que serviam prioritariamente a comunidade a preços módicos, ao invés do plano atual de transforma-los em turísticos. Mesmo os que nunca foram a Santa Teresa conhecem estes charmosos veículos que ali circulam desde o século passado e contribuíram para ampliar o charme especial e romântico do bairro, seguindo a rota do tempo no sobe-e-desce de suas ladeiras. Na volta de nossos passeios, já na mesa que dá para a horta e para as plantas de Bia, tomando um suco verde caseiro e jogando conversa “dentro” pensava como era inevitável que minhas lembranças se sentissem em casa com aquele jeito “interiorano” de viver em que as pessoas se conhecem, sabem os nomes, os endereços, a história de cada um. Alguém mexeu no portão de Bia: era o feirante que vinha entregar as frutas, verduras e legumes que ela havia pedido de manhãzinha.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Por quais livros/autores dobram os sinos?
Ainda que alguns críticos/intelectuais (poucos,
ainda bem) torçam o nariz para a “festa” literária que acontece anualmente em
Paraty, seria muito proveitoso perguntar por que ela continua sendo um evento
disputado após 10 anos de existência. E nesta toada, analisar seu sucesso não
só pelo prisma do espetáculo ou mesmo do lugar que a literatura “ainda” ocupa
no mundo atual, mas também pelo surpreendente número de leitores brasileiros –
em um país quase sem tradição literária - que continuam a reverencia-la. E o
que buscam estes “leitores”? Não é fácil responder a esta questão quando se acompanha
os comentários espalhados pela mídia, tanto de “turistas” que ali comparecem ou
dos inúmeros jornalistas que cobrem o evento. Mas a própria diversidade dos
enfoques já anuncia a consagração deste que é um dos maiores e melhores acervos
de nossa história humana: as narrativas que cumprem essa função integradora do
corpo social ao acompanhar os desafios (internos e externos) de cada época. E,
se a iniciativa de se fazer uma feira/festa literária tem seus interesses
capitalistas, com editoras e autores sonhando em aumentar suas cifras, a
proposta de tornar acessível ao público (em geral) um pouco mais do produto dos
que dedicam parte de suas vidas a escrever sobre algo que interessa a muitas
pessoas do mundo todo, não deixa de ter um efeito midiático interessante. Ao
lado da tietagem que normalmente caracteriza algumas relações entre leitores e
autores, há o fato inusitado de se forçar um escritor a “falar” sobre seu
processo criativo, as escolhas de seus temas, a relação de suas narrativas com
sua própria vida, enfim, faze-lo refletir sobre o lugar que a escrita ocupa em
sua vida e como ele percebe/analisa o interesse de seus temas para o público. É
neste confronto que se percebe a variedade das análises - sempre particulares -
que acabam compondo um leque imenso de possibilidades de narrar nossa história
coletiva. Pode estar a serviço de uma ampliação do contato consigo próprio, da
preservação da memória ou o contrário, da tentativa de confundi-la; pode falar
da própria literatura, das cidades, das injustiças sociais; pode dizer o que
ainda não foi dito ou pode simplesmente guardar um anseio de ser lido/reconhecido
por muitos. Os verbos também podem deslizar para o entreter, perpetuar, transmitir,
refletir, e assim vai. E para isso vale falar sobre as entranhas humanas , seja
para apaziguar ou impulsionar seus fantasmas. Sobre os fracassos, a solidão, o
desamparo, os amores, os lugares e as pessoas que lhe são importantes; sobre os
aspectos políticos e sociais do mundo, a violência, as injustiças ou a vida banal
nas cidades. Como vimos não há limites. A leitura de uma boa obra pode ser uma
experiência transformadora para alguns leitores, mas é basicamente uma experiência “humana” em que cada um se
reconhece e dialoga com seu semelhante independente das diferenças étnicas
culturais ou das distancias geográficas entre quem escreve e quem lê. Se uma
análise crítica deve tentar compreender mais do que
conjecturar ou agourar, podemos deixar registrado com certa satisfação que a Flip tem
propiciado um bom e inusitado debate de ideias entre escritores de diferentes
culturas e idades além de dar visibilidade para a literatura. E se ela, a literatura,
estrela máxima do evento, consegue se manter sendo a memória cultural de uma
era, se em última instancia é isso que se constrói e conserva quando se
escreve, é bem capaz que os livros continuem a ser escritos e lidos. Oxalá.
domingo, 8 de julho de 2012
Corpos à deriva
O caderno da Ilustríssima (Folha de São Paulo) do
domingo 1°/07/2012 trazia em sua capa uma foto impactante, um corpo mantido no
ar por um guindaste, uma massa inerte. A reportagem denunciava as execuções
públicas que voltaram a ser permitidas no Irã a partir de 2009. Acontecida dias
antes em uma cidade próxima de Teerã, e aberta propositalmente à população que
se dividia entre olhares espantados e bocas caladas ou em manifestações de
júbilo pela pena aplicada, os dois homens enforcados teriam cometido crimes
inaceitáveis na cultura do país, um estuprador e outro traficante. Mas na
pergunta que permeava a reportagem sobrava espanto: porque retornamos a
processos violentos de punições quando, já no século XXI, teríamos modos mais “civilizados”
de tratar nossos “fora da lei”? Ou seja, porque haveria uma espécie de retorno
do primitivo, como se o processo civilizatório da humanidade guardasse eternamente
seu avesso, nosso lado animal? Não parece ser uma questão fácil de ser respondida,
afinal não foram poucos os que se debruçaram sobre a história de nossa
“civilização” e pensaram sobre os seus fios evolutivos, marcando as formas de
poder e de alienação, assim como os avanços na construção de uma convivência em
que cada um, individualmente, poderia se responsabilizar por sua ‘cidadania’ a
partir do compartilhamento de certas normas e leis que balizariam os direitos,
as obrigações e as punições aos infratores. Parecem existir certas figuras
paradigmáticas de nosso estofo humano que se repetem ali e aqui desmascarando
ora nossa violência, ora nosso lado perverso, ora o grotesco, enfim figuras do
excesso, do nonsense, que denunciam o caldo virulento que nos compõe. Ao ler a reportagem,
me lembrei de certas cenas de filmes, alguns sobre a vida na Idade Média e
outros sobre a ocupação do Oeste americano. Na Idade Média todos viviam sob os
códigos religiosos, as leis eram principalmente divinas e sagradas e as pessoas
estavam condenadas a ganharem os céus por suas virtudes ou o inferno por suas
transgressões e ousadias. Em geral nas cenas de execuções públicas em que
corpos ardiam no fogo do “inferno” ou cabeças eram decapitadas, a população
entoava verdadeiros mantras, exorcizando aqueles que teriam merecido tal pena e
aliviados por terem “Alguém” que vigiasse e se responsabilizasse por estes
destinos. Já os famosos faroestes, em que as cenas de enforcamentos eram parte
da tentativa dos xerifes para fazer valer a lei e a ordem naquelas “terras de
ninguém”, aquele circo se fazia necessário para que cada morte pudesse ter um
valor diferente das outras cometidas sem o respaldo da lei. Um tempo já moderno,
mas de implementação do permitido e do proibido, de construção de um espaço em
que a convivência pudesse ficar minimamente garantida pelo consenso entre os homens,
para que cada um, individualmente, soubesse que apesar de ser livre para
decidir sobre muitas coisas, os dois interditos fundamentais da humanidade, ou
seja, o tabu do incesto e do assassinato precisariam ficar permanentemente validados. Mas como entender o retorno destas
execuções públicas no Irã, em um tempo em que não haveria mais motivos para “festejar”
ou “discriminar” e sim se envergonhar destas mortes sem mediações, quase “animais”,
senão como um dispositivo truculento dos que detém o poder e que certamente enviam
um “aviso” a todos os que se pretendem dissidentes? No mesmo domingo várias matérias
na web chamavam a atenção para o retorno do mito de Fausto, estreando nos cinemas
de São Paulo. Embora esta versão se baseie no livro escrito por Goethe na
Alemanha dos anos 1808, o mito já existia sem uma autoria definida desde o
século XV e sua reincidência só nos revela o quanto Fausto em seu pacto com o
diabo, é a manifestação de nosso eterno desejo moderno em não precisar pagar a
parcela de renúncia, ou seja, nós em busca do absoluto, da não-morte, do gozo do
poder total, do divino. A reportagem da Folha, ao final, estaria às voltas com
mais uma das previsões sobre o destino da história humana, o fim do mundo sem leis, sem flechas, sem
compromissos, onde qualquer um pode escolher o horror ou a esperança?
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Saneamento complexo
Marisa Monte está em temporada de show em São Paulo
apresentando seu novo CD ou novo projeto musical, como ela própria gosta de
chamar. Nele, ela homenageia artistas plásticos brasileiros, prática utilizada
desde o início de sua carreira quando se apresentava ao público destacando a
importância de sua formação/herança musical carioca (ou acima de tudo brasileira)
e dando visibilidade aos autores de samba e outras canções de nossa raiz
afrocaboclaindigena. Mais do que isso, Marisa Monte faz parte de uma geração de
artistas nacionais que compuseram/interpretaram canções sobre sua época contribuindo
para a construção de um acervo de novos sentidos para as vidas dos jovens.
Talvez por isso ela frise que falar de amor, de vida com qualidade, de
felicidade é abordar temas complexos, que exigem maturidade e escolhas difíceis.
E a política? - querem saber os repórteres. Tristeza, diz ela. Ao ler sua
entrevista, não pude deixar de comparar sua época com a de minha geração de
jovens, em que a luta para a conquista da liberdade (de quase tudo), mas,
sobretudo a esperança de uma efetiva renovação político-social estava no horizonte
das possibilidades transformadoras. Pode-se dizer que a liberdade de ser, de
ter, de buscar, de viver é um valor conquistado. Mas como utilizar tal valor
para transformar ou melhorar a vida de
todos? A verdade é que o panorama do mundo contemporâneo está muito mais
complexo. É difícil entender a lógica das forças políticas quando a mídia
anuncia, por exemplo, a aliança (e a farsa) entre Lula e Maluf que não apenas queima
o candidato a prefeito da maior cidade da América Latina, como deixa perplexos
milhares de jovens que buscam sinais de alguma ética na vida política e social.
O mesmo pode ser dito em relação às apostas feitas em torno da Rio+20 cujo
resultado mostra o quanto o caos da
economia global parece impedir que os políticos se preocupem com o caos ambiental,
como se não houvesse correlação entre ambos. Por aí o modelo de discussões
sobre o meio ambiente segue o modelo de gestão da economia mundial (e porque
não da política) em que o que se busca é a eliminação dos pontos polêmicos,
alguns conchavos e nenhuma ousadia. Já a internet, como preconizam alguns,
continua a promover sua silenciosa revolução com seu poder de veicular qualquer
informação em escala global e instantânea. Por ter sobretudo
jovens em seu quadro de criadores e usuários, que dominam a cibertécnica, seu
nascimento e sua incidência prescindiram do aval e do controle das altas
esferas públicas de poder e suas regras de funcionamento (ainda) garantem um
livre fluxo dos conteúdos que são ali veiculados. Se sua importância na vida de
todos os nascidos a partir de então é incomensurável, já temos noticias do
valor de seu poder de compartilhar/trocar conhecimento e informações com toda a
humanidade, assim como de liberdade de acesso e escolha permitidos a cada um,
para o bem e para o mal. Se ainda é cedo para termos uma medida da dimensão
desta revolução, não dá para esquecermos o que não cessa de se repetir na busca
do controle das vidas versus o horror da indefinição e da incerteza que nos
assalta. Continuamos avançando com nossos desejos, ao mesmo tempo em que
tememos por estes avanços. É neste vão que costumam crescer as (nossas) ervas
daninhas.
domingo, 24 de junho de 2012
O povo & a infidelidade
A Folha de
São Paulo convidou dois de seus colaboradores para um debate sobre amor e
infidelidades na noite do dia 18 de junho: a antropóloga carioca Mirian Goldenberg,
que escreve no Caderno Equilíbrio e pesquisa há duas décadas o comportamento de
homens e mulheres em sua relação com temas como sexo, casamento, fidelidade, e
o cartunista Adão Iturrusgarai que entre outras pérolas criou a personagem
Aline, aquela que mantém há anos uma “boa” vida conjugal com dois namorados.
Enquanto Mirian tentava traduzir para a plateia os principais resultados de
tantos anos de interrogatórios sobre um assunto tão sério e polêmico, Adão se
encarregava de desconstruir a lógica estatística com seu humor. Frutífero, o
diálogo entre os dois rendeu um livro, “Tudo o que você não queria saber sobre
sexo” (Ed. Record). E pelas perguntas dos espectadores era possível mapear o
que insiste em escapar aos números. Sob olhares interrogantes homens e mulheres, atrás
de seus (novos?) lugares sociais, buscam orientações e dicas sobre o que e como
viver suas vidas amorosas. Existe uma fórmula para o amor? Neurocientistas e
químicos analisam a estrutura biológica em busca de pistas. Psicólogos e
antropólogos tentam criar teorias. Ainda temos horóscopos, cartomantes, mapas
astrais, toda sorte de superstições e simpatias, além de nosso casamenteiro
Santo Antônio, que no ultimo dia 13 deve ter recebido um bocado de orações. Como
encontrar o parceiro ideal? Existe um grau de atração necessário para se manter
um romance? A liberdade sexual alcançada pelas mulheres trouxe-lhes alguma conquista? O que mudou para elas? O que mudou (ou não)
para os homens? Quem trai mais? Há diferenças nos motivos de homens e mulheres
para traírem? Quem quer se casar, homens e/ou mulheres? As perguntas
tangenciavam o imbróglio maior, nossa vida amorosa, e como bem disse a
antropóloga, se há um consenso em torno do que queremos para ela é que possa
conter tanto a liberdade quanto a segurança, duas das maiores ânsias
contemporâneas. Todos querem desejar, amar, trabalhar, se divertir, fazer parte
integral da cultura e da sociedade, mas botam uma fé danada no amor, na espera de
que ele possa trazer paz, preencher o vazio, produzir um sentido para as suas
vidas. Sonhamos com uma vida amorosa e sexual
nos moldes do “foram felizes para sempre”, sem perturbações que questionem
nossos desejos ou a falta dele ou conflitos que revelem nossa incapacidade de
gerenciar sua complexidade. Se homens e mulheres buscam isso o que vem depois? É
aqui que Adão Iturrusgarai desperta gargalhadas ao expor as bizarrices do que em
geral não revelamos de nossas vidas íntimas, os bastidores da relação entre
amor e sexo. Isto talvez denuncie a impossibilidade de mapearmos sua
complexidade, principalmente quando incluímos a tal da fidelidade, cujas razões
confrontam e questionam as regras que
construímos. Ok, todos sonham em ter um parceiro ideal, sonham em amarrar o
bode (de suas vidas) em alguma árvore, e isto guarda um pouco do mito da
monogamia, este resquício poderoso de nossa infância: ter alguém que nos ame
para sempre, que nos ache especial, que não nos deixe cair no vazio ou na
desventura de nos sentirmos excluídos e sem valor. Mas o que acontece com a
estampa feliz do casal depois que eles passam pelo umbral da porta de seu lar
doce lar? Em geral não estamos muito
dispostos a saber sobre as decepções, os ressentimentos, as brigas, etc. Ler (e
rir) das tirinhas de Adão sobre relacionamentos pode ser uma alternativa.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
O amor “en-cena”
No sábado
do dia 8 de junho de 2012 o Estadão publicou uma entrevista do filósofo e
ex-ministro da educação da França, Luc Ferry, em que este dizia que vivemos a
era da revolução do amor. Não estaríamos mais dispostos a nos sacrificar em nome
de grandes ideias ou de utopias, mas possivelmente em nome de nossos filhos,
pais ou amigos, ou seja, daqueles que amamos. O casamento por amor, e não mais
por interesses, estaria no centro desta nova ordem social e teria disparado (neste
ultimo século) a desconstrução de muitos valores tradicionais. Nossa sociedade teria
se transformado em um conjunto de individualidades (homens e mulheres) que
buscam a emancipação desfrutando de uma liberdade jamais alcançada, e o
esperado seria que pudéssemos aceitar melhor o diferente, já que nosso objetivo
maior seria o de preparar o futuro daqueles que tanto amamos, nossos filhos, ou
melhor, as gerações futuras. Por isso, da condição humana pós-moderna seria
esperado valores morais como a solidariedade, a tolerância, a gentileza e a
amizade. Mas como evitar que estes valores degenerem para o egoísmo, a insensibilidade
e o desinteresse pelas misérias humana ou simplesmente pelo outro? Este é o
paradoxo sobre o qual versa o novo filme do polêmico diretor Roman Polanski em cartaz em São Paulo, “O Deus da
Carnificina”. Baseado na peça da dramaturga e atriz francesa Yasmina Reza (já
encenada na Broadway e em São Paulo) a ação se passa em um apartamento em Nova York e tem como disparador
a briga entre dois garotos em que um deles é ferido pelo outro, fato que fará
com que os pais dos dois marquem um encontro para um pedido formal de
desculpas, sem a presença dos meninos. A princípio, a educação e a civilidade
imperam, com os pais do garoto agredido recebendo em sua casa os pais do
agressor, mas aos poucos a polidez dá lugar a uma artilharia verbal e a
cordialidade antes sob o controle do manual do politicamente correto, descamba
para uma exposição escancarada daquilo
que chamamos “vida privada”. Embora possa ser considerada uma comédia de
costumes, o filme consegue perturbar a todos os espectadores que aos poucos vão
sendo tomados por uma tensão desconfortável (vez por outra descarregada por
risos nervosos) que os leva a torcer para que os casais desistam daquela troca
de ofensas, deem por terminado o conflito e voltem para suas tocas. Paira uma
certa vergonha, este sentimento social que ajuda a viabilizar nossas relações
com os outros ao marcar um espaço de intimidade para cada um, e assim guardarmos
nossos sentimentos/desejos secretos que poderão ou não ser compartilhados
segundo nossas escolhas. Mas o desconforto também sugere que identificamos ali
a possibilidade disso acontecer com cada um de nós o que confirma que a construção
do espaço social de convivência esbarra no modo como nossas emoções organizam nossas
vidas interiores. Se o casamento por amor funda uma nova maneira de existir em
que o amor não só passa a regular a vida familiar e societária como se mantém
como uma promessa de felicidade para a vida de cada um, vivemos em um circuito
amoroso em que o culto ao amor que se recebe dos pais impõe a necessidade de
buscar indícios do amor no outro, aumentando a importância do amor como
confirmação do próprio valor. E funda uma lógica menos racional e mais
emocional para as motivações dos comportamentos humanos. Na sala de estar do apartamento em que praticamente
acontecem todas as cenas do filme, o café/bolo/ética/gentilezas vai aos poucos
cedendo espaço ao uísque/carências/mágoas/agressividade. Todos confessam seus
mais miseráveis sentimentos e acusam algum dos outros por suas faltas. Há ora
uma aliança entre os pares conjugais, ora entre os gêneros e as trocas de
farpas parecem esconder pedidos de reconhecimento de valor, de amor, de
superioridade moral/social/intelectual, de poder. Faltou um estranho, alguém de
fora, que adentrasse naquela sala e cochichasse aos ouvidos dos quatro como somos
limitados em nossas pretensões, pegasse de forma carinhosa as mãos do casal
visitante, levasse-os até a porta agradecendo sua disponibilidade, juntasse as mãos
do casal anfitrião, convidasse-os a irem dormir em sua cama de casal, apagasse
as luzes e deixasse enfim na tela do cinema, o “The End”.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Sentimento nacional
Londres é o tipo de cidade que costuma surpreender os desavisados e causar, em geral, uma espécie de “bom” estranhamento diante do antigo e do novo, da presença constante dos ícones da monarquia em contraste com a liberdade de estilos e a diversidade de etnias de seus cidadãos. Cosmopolita e controversa, tradicional e supermoderna pode-se em um mesmo dia imaginar-se voltando alguns séculos diante do ritual da troca da guarda no Palácio de Buckingham e ao zarpar para Piccadilly Circus, onde se concentram os teatros, cinemas, artistas de rua, ou para o leste com seus ateliês, galerias, lojas e diferentes tribos de jovens já avançar para a vanguarda dos tempos atuais. No domingo de 3 de junho último,canais de TV permitiram que o mundo todo celebrasse junto à família real, a festa dos sessenta anos de reinado da Rainha Elizabeth II e assistisse milhares de espectadores acenarem suas bandeirinhas e se amontoarem as margens do rio Tâmisa – com a chuva e o frio que caracterizam os céus londrinos- à espera do cortejo de mil barcos que acompanhou a embarcação real. Sessenta anos não é pouco e durante este período, a geração de nossos pais, a nossa e a de nossos filhos acostumou-se a “conviver” com esta senhora e seus familiares, ora sob o fascínio de sua pompa e circunstância ora com o espanto de sua humanidade. Entre baixas e altas pode-se dizer que a maioria do povo britânico aplaude e sente muito orgulho de sua família real, mesmo quando ela vai parar nas manchetes dos jornais e revela capítulos picantes de sua historia ou expõe seus gastos milionários. Assim como o chá e a pontualidade, a família real faz parte da identidade cultural inglesa. E isso não é pouco. É justamente este sentimento nacional que dá visibilidade a monarquia britânica, ao contrário de outras que passam quase despercebidas. Pode-se dizer que grande parte da força da “marca” desta realeza que acaba por devolver seus gastos aos cofres públicos e leva uma série de benefícios ao país, principalmente em forma de turismo, nasce deste sentimento nacional de orgulho e crença de seu povo em seu valor. Quanto a nós brasileiros, será que temos uma identidade nacional? A possibilidade que a mídia contemporânea abriu de um convívio mais próximo com outros povos, seus costumes, sua estética, nos permite apontar diferenças importantes para cada uma das culturas, que em geral são tanto a graça quanto a desgraça de cada país. Cá no Brasil, apesar de grande nação, de falarmos a mesma língua em toda a extensão territorial e convivermos com um baixo índice de conflitos étnicos ou religiosos, guardamos uma singela aura infantil no sentimento de pertencimento principalmente quando o foco é a responsabilização de cada cidadão sobre os rumos ou desacertos do país. Ao contrário de nossos vizinhos argentinos, p.e., preferimos deixar cair na “vala”, quaisquer desrazões ou mal ajambrados jeitos de resolver nossas questões e contradições, evitando o debate e por decorrência, os mal estares de seus acertos e todos os desafios implicados na defesa dos interesses de uma nação. Há os que se desanimam ao ver perpetuado um certo “jeitinho brasileiro” de dourar a pílula. Mas há sempre os que apostam que esta mesma eterna “juventude” do país pode guardar a potencia de medidas e soluções inovadoras. Há os que esperam e os que se implicam.
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